Escola pública de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, está entre as finalistas do prêmio de melhores escolas do mundo, na categoria Ação Ambiental; votação popular vai até 29 de outubro
Na comunidade Santa Isabel, às margens do Rio Ayari, na Terra Indígena Alto Rio Negro, a aprendizagem escolar não acontece somente entre quatro paredes. A roça, a aldeia, os ciclos da natureza, os conhecimentos dos mais velhos e a vida comunitária também são espaços onde se ensina e se aprende.
É a partir dessa compreensão que a Escola Baniwa Kalipana, em São Gabriel da Cachoeira (AM), vem construindo uma educação enraizada na cosmovisão do povo Baniwa. A experiência ultrapassou as fronteiras do Rio Negro e colocou a escola entre as 50 finalistas do World’s Best School Prizes 2026, premiação internacional conhecida como a “Copa do Mundo da educação”. Agora, a Kalipana também disputa o voto do público, aberto até 29 de outubro.
Entre as quatro escolas públicas brasileiras que chegaram à fase final, é a única escola indígena localizada dentro de uma aldeia. Mas o caminho até aqui começou muito antes da inscrição no prêmio. Dzoodzo Baniwa, professor, pesquisador e coordenador regional da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) na bacia do Içana, que há quase três décadas atua na educação indígena, explica que a Kalipana reúne uma experiência acumulada desde o início dos anos 2000 e vai de encontro às necessidades e aos projetos desenvolvidos pela comunidade que dialoga com seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental.
"Nos últimos 26 anos, a gente vive essa construção da escola mais significativa, e, o mais importante: a escola que corresponde às necessidades locais", destaca.
Santa Isabel do Ayari é uma comunidade de cerca de 35 famílias e mais de 150 moradores. Antes da Kalipana, havia ali uma pequena escola que atendia até o 5º ano do ensino fundamental. Depois disso, os estudantes precisavam deixar a comunidade para continuar os estudos. Com a mobilização dos moradores, o ensino fundamental foi ampliado e, em 2023, a escola passou a oferecer do 6º ao 9º ano. Em 2025, conquistou autonomia administrativa e pedagógica junto à Secretaria Municipal de Educação e Educação Escolar Indígena (Semedi) e deixou de funcionar como extensão de outra escola.
A mudança veio acompanhada de outra decisão simbólica: a Escola Municipal Indígena Santa Isabel passou a se chamar Escola Baniwa Kalipana. A troca de nome fez parte de um processo de reflexão da comunidade sobre a própria identidade e sobre o sentido de uma escola pensada a partir do seu lugar.
Uma educação sistêmica comunitária
Na Kalipana, a educação não é pensada separadamente das demais dimensões da vida comunitária. É o que Dzoodzo chama de "educação sistêmica comunitária": uma proposta que conecta os conteúdos escolares às experiências vividas pelos estudantes. Os componentes curriculares obrigatórios, como matemática, língua portuguesa, geografia, são seguidos, mas são trabalhados de forma conectada aos modos de vida Baniwa. Ao invés de percorrer os livros didáticos apenas página por página, os professores desenvolvem projetos integradores a partir da realidade local.
Assim, uma fórmula matemática continua sendo ensinada, mas o ponto de partida pode ser uma situação vivida no território. Um cálculo feito na roça, na associação, ou no preparo de alimentos. O conhecimento escolar não substitui o conhecimento indígena. Os dois caminham juntos.
Essa concepção também amplia os lugares onde se aprende. Como explica Dzoodzo, há o tempo-escola, dedicado ao trabalho pedagógico em sala de aula. O tempo-aldeia, em que cerimônias, atividades comunitárias, refeições coletivas e a convivência cotidiana também são entendidas como processos educativos. Além do tempo-território, que leva os estudantes à vivência para além da aldeia, como os encontros do movimento indígena, a oficinas, estágios, conversas com lideranças e profissionais de saúde.
“A gente trabalha o plano curricular, não no sentido do plano cartesiano, mas tridimensional, nesse sentido de olhar para o plano territorial, espacial e ligado à nossa cosmologia”, detalha a liderança.
Os estudantes também fazem pesquisas guiadas e mantêm cadernos de observação onde registram as mudanças no ambiente e o que aprendem com os conhecedores tradicionais. Uma metodologia que se inspira nas pesquisas desenvolvidas pelos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) no Rio Negro, iniciativa fomentada pelo Instituto Socioambiental (ISA) e pela Foirn.
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O Sistema Agrícola Tradicional Baniwa no centro
No centro dessa proposta está o Sistema Agrícola Káali, do povo Baniwa, que, para além de um conjunto de técnicas de produção, Dzoodzo define como um modo de vida que reúne dimensões culturais, ecológicas, geográficas, sociais e econômicas.
O Sistema Káali está vinculado ao Sistema Agricola Tradicional do Rio Negro, reconhecido como Patrimonio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 2010.
A partir dos ciclos observados, como a época de plantio e colheita, de floração e de frutificação das plantas, da migração dos peixes e das aves, a roça é, então, este lugar onde diferentes conhecimentos se encontram e são transmitidos entre gerações.
Essa visão ajuda a explicar por que a Ação Ambiental, categoria em que a escola concorre na premiação, é uma das dimensões centrais da Kalipana. Preservar o território não aparece como um conteúdo isolado no currículo. Está ligado à alimentação, à geração de renda, à cultura, à autonomia comunitária e à continuidade dos conhecimentos Baniwa.
A escola também participa de iniciativas de valorização da produção local e de compras públicas de alimentos, fortalecendo a presença de produtos tradicionais na alimentação escolar. Farinha, beiju, tapioca, tucupi, frutas, mel e outros alimentos produzidos pelas famílias passam a integrar uma cadeia que conecta roça, comunidade e escola.
Para Dzoodzo, dar visibilidade a essa produção também é uma forma de enfrentar a ideia de que as comunidades indígenas não produzem alimentos. "É porque eu acho que o sistema de produção não tem visibilidade porque é produzido e consumido ao mesmo tempo, não tem uma lógica de acúmulo", observa.
A valorização dos alimentos tradicionais ganhou ainda mais importância diante das mudanças nos hábitos alimentares e do aumento do consumo de produtos industrializados. Para a comunidade, fortalecer o sistema alimentar Baniwa significa também fortalecer a saúde, a autonomia e a transmissão de conhecimentos.
Uma experiência construída por muitas mãos
A Kalipana é parte de uma história mais longa. Dzoodzo começou a atuar na educação indígena em 2000, na escola Pamáali, onde permaneceu por 13 anos. Em 2014, voltou ao Rio Ayari para fortalecer as escolas do seu território. Ao longo desse tempo, organizações indígenas, a Federação das Organizações Indígenas (Foirn), escolas, professores e parceiros investiram no caminho que hoje sustenta a experiência.
Entre esses parceiros está o Instituto Socioambiental (ISA), que apoia as tecnologias sociais de água e iniciativas de renda ligadas ao Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, como a casa de farinha solar, a meliponicultura e a cerâmica. Também apoiou a formação de pesquisadores indígenas em monitoramento ambiental nas escolas da região. Experiência que integra, ainda, o programa Escolas 2030, voltado a práticas educacionais inovadoras.
Antes do prêmio internacional, a comunidade já havia recebido outros reconhecimentos. Em 2025, foi selecionada pelo programa Periferia Viva, do Ministério das Cidades e da Secretaria Nacional de Periferias. Também foi finalista de uma premiação da Fundação Banco do Brasil na categoria de tecnologias sociais e recebeu certificação como tecnologia social.
Do Rio Ayari para o mundo
Foi nesse percurso que surgiu a oportunidade de inscrever a experiência no World's Best School Prizes, na categoria Ação Ambiental. A candidatura apresentou a Kalipana a partir da valorização do sistema agrícola, da aprendizagem sistêmica e dos conhecimentos tradicionais.
O resultado colocou a escola entre as dez finalistas da categoria. O prêmio tem cinco categorias, com dez escolas em cada uma, o que resulta em 50 finalistas no mundo. Os vencedores de cada categoria serão escolhidos por um júri e anunciados em novembro. Em paralelo, as 50 escolas disputam o Community Choice Award (Prêmio Escolha da Comunidade), definido por votação popular pela internet até 29 de outubro. Para Dzoodzo, chegar a essa etapa já é maior do que a possibilidade de vencer.
"Eu vejo como um reconhecimento dessa experiência de sucesso da educação escolar indígena nos últimos 25 anos aqui no Rio Negro", afirma. "É fruto de todo esse investimento, da parceria, da reconstrução do bem viver".
Ainda de acordo com a liderança, é também uma oportunidade de afirmar, em escala internacional, a ideia que orienta a escola desde a origem. Para ele, aprender não é se afastar do território para acessar o conhecimento. É também conhecer o território, cuidar dele e manter vivos os saberes que permitem às novas gerações continuar vivendo nele.
"Não é só para responder ao índice do Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica], do Saeb [Sistema de Avaliação da Educação Básica] e de outras coisas. A gente estuda para nós, para a pessoa em si", finaliza Dzoodzo".
Como votar
A votação popular do World's Best School Prizes 2026 vai até 29 de outubro e os vencedores gerais de cada categoria e do voto popular serão revelados em novembro.
Acesse: https://vote.worldsbestschool.org e procure Escola Baniwa Kalipana (Brasil), na categoria Ação Ambiental.
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