Enquete: você é contra ou a favor do futuro?

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Por Ciro Campos

* Artigo originalmente publicado na Folha BV

Esta semana foi lançada uma enquete para saber se a população é contra ou a favor da construção da Hidrelétrica do Bem Querer, no rio Branco, o maior rio de Roraima. A enquete está aberta no site do Fórum de Energias Renováveis de Roraima. Ainda é cedo para especular o resultado da enquete mas, seja qual for, os organizadores acertaram em fazê-la, colocando em evidência um tema que tem enorme importância e pouca visibilidade. E que está mais perto do que se pensa: os estudos estão em andamento e a usina deve ir a leilão em 2023.

A enquete não tem a pretensão de ser uma pesquisa de opinião, esta sim, capaz de apurar o que pensa a população. Mas pode ter sucesso se for capaz de chamar atenção para o tema. Grande parte da população ainda nem sabe como votar nessa enquete porque não sabe como seria a usina, qual o tamanho do lago, qual a altura do muro, onde seria, e como esse projeto afetaria as nossas vidas, para o bem ou para o mal. É por isso que essa enquete é tão importante, para mostrar que ainda há tempo para saber mais e opinar, a favor ou contra, uma obra que pode mudar o nosso estado - e as nossas vidas - para sempre.

Mal ou bem o governo federal está tentando resolver o problema da energia em Roraima. Mais mal do que bem, em minha opinião – o que já sugere o meu voto na enquete. Agiu mal porque demorou a agir, teve vinte anos após a ligação com a Venezuela e fez muito pouco nesse tempo. Quando tentou fazer, no caso do Linhão de Tucuruí, não fez direito. Foi incapaz de negociar um acordo respeitoso com os Kinja (Waimiri-Atroari) e com a lei. Os índios foram acusados, mas depois se viu que o atraso se deve ao desacerto entre o governo e a empreiteira. E para piorar, quando chegou a hora de apostar na geração local, repetiu a aposta do século passado, a hidrelétrica do Bem Querer, um projeto obsoleto, caro e impactante.

Mas o governo acertou em 2019, quando realizou o leilão de energia para reduzir a dependência de combustíveis fósseis a partir de 2021, limpando um pouco a energia e incluindo o empresariado local na solução do problema. Acertou também quando chamou o 1º leilão de eficiência energética do país, que vai acontecer em Roraima e tem um potencial enorme. E mesmo que o leilão de 2019 não tenha sido realizado até o fim, o mercado de energia solar e eólica sinalizou claramente que poderia – e ainda pode - entrar com fôlego na matriz energética de Roraima, assim como as empresas de armazenamento de energia.

Não é mais necessário mostrar números impressionantes de como outras fontes de energia como o sol, o vento e a biomassa, que temos de sobra em Roraima, estão mais baratas e crescendo no Brasil e no mundo. É um movimento imparável, que está ganhando velocidade, e logo ter energia solar em casa vai ser tão comum quanto ter um celular.

As grandes hidrelétricas, portanto, estão com os dias contados. Entretanto, as últimas unidades deste modelo obsoleto ainda podem sair da prateleira. E Bem Querer é uma delas. Infelizmente trata-se de um projeto ruim, e não adianta botar a culpa nos engenheiros, porque não dá para fazer um bom projeto quando a geografia é tão plana que é preciso caminhar mais de oito quilômetros para conseguir um metro de queda.

O impacto ambiental seria enorme, e irreversível, para o rio, para a natureza, e para a sociedade como um todo. E dificilmente esta hidrelétrica vai entregar energia limpa, pois o seu lago gigante emitiria gás metano em quantidade equivalente ao gás carbônico das usinas termelétricas, igualmente ruim para a atmosfera. Grande também seria o impacto social, que sempre acompanha estas obras, tornando cidades pacatas em campeãs de violência.

Neste momento seria prudente e muito oportuno ouvir a população e o empresariado de outras cidades que receberam hidrelétricas, pessoas que também sonharam com a parte boa do projeto, mas depois descobriram que a parte ruim era tão grande que não compensava.

*Analista do Instituto Socioambiental (ISA)

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