Morre Tuim Kawaiwete, plantador de roças e sorrisos

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Kátia Ono

Os xinguanos estão de luto. Tuim foi uma grande liderança e parceiro do ISA no trabalho junto aos povos do Território Indígena do Xingu

Tuim fez a história do Território Indígena do Xingu. Das histórias que eu sei, muitas eram as histórias de vida do Tuim.

O que contam seus filhos é que ele já chegou adulto junto aos Kawaiwete que se mudaram para o Xingu. Veio quase só, apenas com alguns parentes, sem seus pais e irmãos, num misto de medo e esperança de um refugiado. Da vida no Teles Pires, de onde veio, trouxe muita sabedoria e lembranças de um jeito de viver. Ele sabia cantar, fazer peneira, contar histórias, fazer roça “direito” conforme um Kawaiwete de respeito. Quem escolhe a terra, quem planta, cuida, colhe e mais que isso, sabe oferecer aos outros e guardar a semente para frente. Assim que se faz roça direito.

Seus filhos contam que as roças eram tão fartas que até podiam descer o rio Xingu de canoa e levar banana para vender no Piaraçu. Um de seus filhos lembra de quando ainda pequeno, Tuim o levara junto para aprender a navegar e conhecer, no remo. Da canoa sabia muito, mas foi nos anos de Funai sobre sua balsa que se tornou mais conhecido e reconhecido. Tuim e sua balsa carregaram muitas casas, muitas festas e muitas alegrias, que foram construindo o Xingu de hoje.

O Tuim era um curioso, inteligente, sagaz e festivo! Fez crescer o mundo e plantou nele seu sorriso mais que grande, inquieto e astuto.

Um experimentador de mundos. Soube como poucos lidar com o mundo do contato, que não lhe tirou do centro Kawaiwete, pelo contrário afirmou seu ethos. Porque Kawaiwete é um experimentador e consumidor de mundos que saboreados o fez pai e avô de muitos e neles marcou a genética com um grande sorriso e inteligência!

Como diz a Manu, nós do ISA agradecemos muito a ele por suas orientações, ensinamentos e broncas… Ele foi um grande incentivador do nosso trabalho. Nosso parceiro!

Para onde foram as andorinhas?

Assista ao filme “Para onde foram as andorinhas”, sobre as percepções dos indígenas do Xingu sobre as mudanças em seu território. A frase que dá nome a produção é de autoria de Tuim Kawaiwete, cuja participação e sabedoria enriquecem o filme:“A andorinha é o verdadeiro pássaro que traz a chuva. É por isso que os Kawaiwete diziam: ‘Olha aí as andorinhas, elas estão chegando!’ É assim que nós, os Kawaiwete, dizemos uns aos outros. É ela quem traz a chuva. Quando a chuva está para cair elas se juntam. Muitas mesmo! Mas hoje em dia não tem mais isso. Não sei se vou saber identificar o início da chuva com antecedência. Por que o pássaro que traz a chuva não vem? Eu fico me perguntando isso”.

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