Documento do Ministério dos Transportes contempla indicadores socioambientais e climáticos a partir de diálogos com organizações da sociedade civil, como o ISA, o GT Infra e o IEMA
O Plano Nacional de Logística (PNL) 2050 foi lançado pelo Ministério dos Transportes na quarta-feira (12/8), em Brasília, e contempla de forma inédita um conjunto de indicadores socioambientais e climáticos acompanhados de diretrizes para mitigação e gestão de riscos relacionados ao combate ao desmatamento, preservação da biodiversidade e reconhecimento de povos e comunidades tradicionais, que deverão ser consideradas durante o planejamento estatal de transportes no país nos próximos 24 anos.
A inclusão das diretrizes socioambientais no PNL 2050 é resultado de constantes diálogos entre o Ministério dos Transportes e organizações da sociedade civil, como o Instituto Socioambiental (ISA), o Grupo de Trabalho Infraestrutura e Justiça Socioambiental (GT Infra) e o Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA).
As dimensões de sustentabilidade no plano incluem indicadores de sensibilidade territorial para antecipação de riscos socioambientais de projetos e na promoção de políticas públicas transversais, como o Plano Clima e os Planos de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento.
“O PNL 2050 atua como um indutor de governança territorial, reforçando a implementação de políticas públicas coordenadas com o desenvolvimento da infraestrutura de transporte”, afirma o documento.
Os planos de logística anteriores consideravam como único critério ambiental o balanço de emissões de gás carbônico (CO₂) por modal de transporte, não reconhecendo os efeitos territoriais da política de transportes, como, por exemplo, a capacidade de alterações no uso e ocupação do solo, que tem como efeitos o desmatamento e a perda da biodiversidade.
A partir de 2024, foram realizados três workshops durante a elaboração do plano com o objetivo de debater e aprimorar os critérios socioambientais apresentados na consulta pública “Indicadores Socioambientais e Climáticos para o Plano Nacional de Logística 2050”. As reuniões tinham como finalidade consolidar e incorporar a análise de riscos e os impactos socioambientais e climáticos ao planejamento de transportes de longo prazo.
Corredores logísticos do Arco Norte continuam prioritários
No entanto, apesar dos avanços do novo plano, projetos polêmicos como a Ferrogrão ainda constam no PNL 2050 mesmo com questionamentos antecipados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) como a ausência da Licença Prévia (LP)
A inclusão de projetos hidroviários nos rios Teles Pires/Tapajós e Araguaia/Tocantins como prioritários para o avanço do Arco Norte também são alvo de críticas por parte das organizações.
A analista do ISA, Mariel Nakane, avalia positivamente as inclusões da temática socioambiental no novo plano, mas ressalta o desafio de colocá-lo em prática com os projetos que já estão em andamento.
“O PNL 2050 avança no reconhecimento dos riscos socioambientais que têm sido historicamente ignorados no planejamento de transportes, como o risco de desmatamento induzido, por exemplo”, disse Nakane.
“No entanto, o desafio é fazer com que esse plano provoque, de fato, mudanças concretas na política de transportes, que se reflitam na revisão de projetos de alto risco do Arco Norte, como o derrocamento do pedral do Lourenço no Rio Tocantins, a Ferrogrão e as intervenções no Tapajós, todas que ainda não foram consultadas junto aos povos indígenas e ribeirinhos”, avaliou.
A 12ª reunião do Comitê de Governança do Planejamento Integrado de Transportes (CGPIT), realizada no dia 14 de julho de 2026, aprovou por unanimidade a criação de câmaras técnicas e grupos de trabalho (GT) para o desdobramento de alguns temas específicos do PNL 2050.
Dentre as deliberações do CGPIT destacam-se o GT para consolidar diretrizes e subsídios técnicos do setor de transportes para o debate mais amplo sobre a regulamentação da Convenção nº 169 da OIT, o GT para discussão técnica do arranjo institucional da gestão de pistas de pouso em terras indígenas e uma Câmara Técnica para participação da sociedade civil.
Demandas de transportes para comunidades tradicionais
Outro aspecto importante do PNL 2050 foi a inclusão inovadora de prioridades de infraestrutura para o escoamento de produtos da economia da sociobiodiversidade e o transporte de pessoas em regiões isoladas do país, com destaque para os povos indígenas na região Norte.
Sobre esta conquista, no final de 2025, o ISA publicou um relatório técnico com recomendações para o PNL 2050 focando no acesso ao direito de transporte de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. O estudo destacou que a infraestrutura de transportes no Brasil prioriza historicamente o agronegócio, negligenciando o acesso dessas populações a serviços essenciais e ao escoamento da produção da sociobiodiversidade.
Entre os principais desafios apontados no relatório estão o alto custo dos trajetos, a periculosidade das rotas e os impactos das mudanças climáticas na navegação fluvial. O documento defende a criação de políticas públicas integradas que protejam os territórios contra invasões e garantam direitos fundamentais por meio de modais terrestres, aéreos e aquáticos adequados.
A iniciativa buscou influenciar o Ministério dos Transportes a incluir formalmente as necessidades logísticas dessas comunidades no PNL 2050.
Destaques do PNL 2050
O novo Plano Nacional de Logística 2050 prevê a incorporação da sensibilidade territorial com o mapeamento de terras indígenas, quilombolas e zonas de biodiversidade para mitigar riscos socioambientais desde a concepção.
Também de acordo com o novo plano, as hidrovias e os aeródromos da região Norte serão tratados como vetores de cidadania, considerados vitais para o acesso a serviços básicos e para o fomento à economia da sociobiodiversidade, permitindo que populações isoladas integrem o desenvolvimento nacional sem comprometer o bioma.
A estimativa de investimento em infraestrutura até 2050 é de R$ 1,22 trilhão de reais para escoar commodities, como soja e milho, e com foco particular na expansão das rotas de exportação do Arco Norte e regiões produtoras.
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