Redário e parceiros lançam mapas das Zonas de Transferência de Sementes. O objetivo é aumentar a resiliência climática em plantios de espécies nativas no país
Como equilibrar a conservação da biodiversidade local com a necessidade de preparar os ecossistemas para um clima em transformação? No Brasil, milhões de árvores, arbustos e ervas são plantados todos os anos por iniciativas de restauração ecológica. Mas esses plantios amadurecerão em um cenário marcado pelas mudanças climáticas, crise hídrica e perda crescente da diversidade biológica. Um estudo científico inédito promovido pelo Redário e publicado pela revista Plants, People, Planet apresenta uma ferramenta estratégica para a implantação de plantios mais resilientes, elaboração de referências técnicas para subsidiar políticas públicas, protocolos e diretrizes nacionais para a restauração ecológica biodiversa e o enfrentamento da emergência climática.
Pela primeira vez, pesquisadores mapearam o Brasil em 48 Zonas de Transferência de Sementes (ZTS), que são regiões que compartilham climas e solos similares. Depois, essas mesmas ZTS foram projetadas no futuro, considerando cenários otimistas e pessimistas de mudanças climáticas. O cruzamento das projeções atual e futura indicará de quais localidades as sementes devem ser colhidas para terem mais chances de germinar, se desenvolverem bem e sobreviverem em cada local de plantio.
Oferta de sementes
Os resultados do estudo, conduzido pelo pesquisador Mateus Silva, da Universidade de Exeter, revelam que mais da metade do território brasileiro provavelmente enfrentará graves mudanças climáticas até o ano 2100 e que em muitas dessas ZTS ainda não há oferta de sementes nativas para o mercado.
“O Brasil concentra uma grande parcela de áreas prioritárias para restauração em escala global, mas até então não havia um sistema de zoneamento para orientar o fluxo de sementes desde o local de coleta até a área a ser restaurada, contrariando a tendência observada em outros países. Neste estudo, buscamos preencher essa lacuna e incorporar uma dimensão climática às zonas de sementes. Esperamos que este seja um primeiro passo para que o Brasil assuma um papel de liderança não apenas na restauração inclusiva, mas também na restauração resiliente às mudanças climáticas”, afirma Mateus Silva.
Por se tratar do primeiro trabalho dessa natureza desenvolvido para o Brasil, a expectativa dos parceiros - pesquisadores e restauradores de organizações nacionais e internacionais - é que o mapeamento das Zonas de Transferência de Sementes evolua nos próximos anos, promovendo debates, novas pesquisas científicas, conhecimentos locais e testes em campo com diferentes perspectivas territoriais e de escala.
“Esse mapa é fundamental porque conecta com inteligência climática e ecológica os territórios onde as sementes são coletadas e onde são plantadas. Nos faz evoluir sobre o paradigma de que a semente coletada no local sempre é a mais segura para um plantio, uma ideia que é muito presente globalmente, mas que estudos científicos têm mostrado que não é tão simples assim. Uma semente local, para performar bem, deve ser coletada até que distância do local do plantio? O mapa de Zonas de Transferência de Sementes no Brasil responde a essa pergunta de forma objetiva considerando o clima atual. A semente local é aquela coletada dentro da mesma ZTS atual do local de plantio e que, provavelmente, compartilha adaptações genéticas a esse mesmo clima. Já o mapa de ZTS que considera cenários de clima futuro orienta a compra de sementes nativas da ZTS do clima atual local e da ZTS do clima futuro ( 2060 ou 2100), em proporções a serem testadas, resultando em plantios com maior variabilidade genética para a resiliência climática, aumentando as chances de sucesso no longo prazo dos plantios no Brasil”, afirma Eduardo Malta, do Instituto Socioambiental (ISA) e coordenador do Redário.
Coletores
O Redário é uma articulação nacional, apoiada pelo ISA e outros parceiros, que atualmente conecta 37 redes e grupos coletores de sementes nativas em diferentes biomas brasileiros.
A articulação, hoje com mais de 3 mil coletoras e coletores, incluindo povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares (PIQCTAFs), incorporará as Zonas de Transferência de Sementes aos sistemas operacionais e de rastreabilidade, como ferramenta de apoio nas decisões sobre origem, oferta, demanda e fluxo de sementes entre territórios de atuação da articulação.
A plataforma digital em construção através de parceria entre o Redário, Mateus Silva, o Centro de Referência em Informação Ambiental (CRIA), Associação Nativas Brasil e o WWF-Brasil, disponibilizará publicamente informações georreferenciados das ZTS, além de mapas de ocorrência de 1.200 espécies nativas ofertadas atualmente pelo mercado de sementes e mudas. Também será possível saber em quais redes de sementes, viveiros e Zonas de Transferência estas espécies estão disponíveis.
A iniciativa tem o apoio da União Europeia, Fundação Good Energies, Instituto Clima e Sociedade, Bezos Earth Foundation, Itaú e Biomas Serviços Ambientais, Restauração e Carbono S.A.
Ciência para resiliência
Para Danielle Celentano, do ISA e membro do comitê gestor do Redário, “grandes iniciativas de restauração, políticas públicas e empresas do setor florestal têm aqui uma oportunidade concreta de liderar essa transformação e promover resiliência climática, alinhando ciência, prática e impacto em escala. Tudo isso favorecendo a economia da sociobiodiversidade e a conservação dos territórios”.
Outros
Denominadas como Seed Transfer Zones ou apenas Seed Zone no campo da restauração ecológica, as ZTS são utilizadas há bastante tempo em outros países, assim como na agricultura e silvicultura brasileiras, com a finalidade de orientar o trânsito de sementes entre regiões, embora sejam chamadas de nomes diferentes.
No Brasil, o setor florestal as denomina como Dendrozonas, Zonas Bioclimáticas ou Zonas de aptidão climática, enquanto o setor agrícola utiliza mapas como o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), publicado regularmente pelo governo federal para contratação de seguro rural.
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