O Brasil atrai capital para restaurar milhões de hectares, mas ainda trata como periférico o elo que decide a qualidade, a escala e o legado socioambiental da restauração: as sementes nativas
*Artigo originalmente publicado no jornal Valor Econômico em 20 de julho de 2026.
O Brasil assumiu o compromisso de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa. Trata-se de uma das maiores oportunidades do país para enfrentar as mudanças climáticas, conservar a biodiversidade, fortalecer a segurança hídrica e impulsionar uma economia baseada na natureza. A restauração vem atraindo investimentos crescentes, impulsionados por mercados de carbono, pela implementação do Código Florestal e outros instrumentos públicos, assim como por compromissos do setor privado. Mas uma pergunta estratégica permanece praticamente ausente desse debate: como garantir que investimentos pontuais em restauração deixem um legado socioambiental permanente no país?
Muito se discute sobre financiamento, carbono e tecnologias de plantio. Pouco se fala dos arranjos institucionais e das capacidades necessárias para consolidar a restauração como um setor econômico permanente. Esse legado depende de organizações sociais, conhecimento, governança, pessoas e de mercados que sustentam uma demanda concreta e viabilizar, com visão de longo prazo, a oferta contínua de sementes e mudas nativas com diversidade e qualidade.
As sementes são o primeiro elo da restauração. Delas dependem a diversidade genética e a resiliência climática das futuras florestas. Sua coleta também gera renda para povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares, tornando as redes de sementes um dos exemplos mais promissores da sociobioeconomia brasileira. Paradoxalmente, essas redes continuam sendo o elo mais frágil da cadeia. Sabemos que a atividade de coleta de sementes pode ocorrer em condições precárias, com baixa remuneração, proteção social insuficiente e arranjos institucionais frágeis, limitando sua capacidade de gerar benefícios duradouros e legados positivos nos territórios.
À medida que se multiplicam projetos de restauração e carbono, tornou-se frequente que cada iniciativa estruture sua própria produção local de sementes, inclusive onde já existem organizações capacitadas. O que parece eficiente para um projeto isolado acaba fragmentando o mercado, criando estruturas paralelas que competem entre si e enfraquecem organizações capazes de atender sucessivos ciclos de investimento. Sem demanda contínua, muitos coletores deixam de operar entre um projeto e outro, dificultando a consolidação de uma cadeia nacional de sementes.
O recém-lançado mapa de Zonas de Transferência de Sementes (ZTS) oferece uma oportunidade estratégica nesse sentido. Além de orientar as procedências mais adequadas para aumentar a adaptação climática dos plantios, as ZTS podem direcionar investimentos para fortalecer redes existentes e apoiar novas iniciativas apenas onde houver lacunas, considerando as metas nacionais de restauração, os passivos ambientais e as oportunidades reais de mercado. Assim, contribuem para expandir a oferta de sementes adaptadas nas diferentes zonas climáticas sem criar sobreposições desnecessárias às capacidades já instaladas.
Embora a verticalização possa fazer sentido em determinados modelos de negócio, na restauração ela frequentemente direciona recursos para a criação de estruturas paralelas. Na prática, isso faz com que recursos públicos, privados e filantrópicos financiem repetidamente essas estruturas, em vez de fortalecer organizações capazes de atender sucessivos ciclos de investimento.
O desafio é ainda maior porque esse mercado está em construção. A demanda por sementes ainda é irregular e pouco previsível, enquanto as redes operam com margens reduzidas e assumem riscos elevados na coleta, beneficiamento e armazenamento. Não se trata de substituir o mercado, mas de criar as condições para que ele amadureça com a participação de organizações de base comunitária.
Também é preciso aperfeiçoar o ambiente regulatório. As regulamentações são importantes para garantir qualidade e rastreabilidade, mas não podem ignorar a realidade da megabiodiversidade e sociodiversidade do Brasil, sob o risco de elevar custos desnecessariamente e dificultar a participação de organizações comunitárias que são justamente os atores responsáveis por ampliar a oferta e a diversidade de sementes nativas para restauração ecológica nas últimas duas décadas.
As redes de sementes são ativos territoriais estratégicos para a economia da restauração. Fortalecer essa cadeia não significa criar o maior número possível de redes de sementes. Significa expandir a produção nas zonas onde ela realmente será necessária e consolidar e aprimorar as organizações já existentes, orientando investimentos por uma análise integrada entre oferta e demanda.
A experiência do Redário demonstra que é possível transformar investimentos em um legado perene. Ao articular 37 redes comunitárias de coletores, promover padrões de qualidade, ampliar a governança e conectar oferta, demanda e pesquisa, o Redário contribui para consolidar uma cadeia nacional de sementes capaz de atravessar os ciclos dos projetos e permanecer nos territórios.
A restauração pode se tornar uma das grandes agendas econômicas do Brasil nas próximas décadas. Esse potencial dependerá menos do número de projetos e mais da capacidade de transformar investimentos pontuais em estruturas permanentes, com organizações fortalecidas, regulação adequada e mercados estáveis.
A conta da restauração não fecha se a base da cadeia continuar invisível. Para além dos hectares recuperados e do carbono contabilizado, o verdadeiro legado da restauração será a capacidade permanente dos territórios de seguir restaurando.
*Eduardo Malta Campos Filho, analista sênior no Instituto Socioambiental (ISA) e coordenador do Redário
*Danielle Celentano, analista sênior no Instituto Socioambiental (ISA) e membro do Comitê Gestor do Redário
*Laura Antoniazzi, pesquisadora Agroicone e membro do Comitê Gestor do Redário
*Anabele Gomes, presidente da Rede de Sementes do Cerrado e membro do Comitê Gestor do Redário
*Rodrigo Gravina Prates Junqueira, diretor executivo do Instituto Socioambiental (ISA) e membro do Comitê Gestor do Redário
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