Repositório de educação antirracista foi desenvolvido para apoiar professores e fortalecer a Lei nº 11.645/2008, que determina o ensino de histórias e culturas afro-brasileiras e indígenas na educação básica
Para difundir propostas pedagógicas sobre histórias, culturas e saberes indígenas, nesta quarta-feira (02/09), o Instituto Socioambiental (ISA) e o Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (Fneei) lançam o repositório Aldear a Educação.
Inserido no site Povos Indígenas no Brasil Mirim, o ambiente virtual foi desenvolvido para apoiar educadores, como um espaço de referência para aqueles que buscam abordar a temática indígena em suas aulas e fortalecer a Lei nº11.645/2008, que determina o ensino de histórias e culturas afrobrasileiras e indígenas em todo o currículo escolar.
Escolhido para abrigar o repositório, o site Mirim.org, do ISA, foi criado em 2009, para dialogar com a publicação da normativa no ano anterior, a partir do site Povos Indígenas no Brasil. Por meio de material destinado ao público infanto-juvenil e de educadores, o Mirim apresenta a sociodiversidade de povos e busca despertar o interesse e o respeito de crianças e jovens às culturas indígenas existentes no Brasil.
Para o lançamento, as onze propostas premiadas no edital “Aldear a Educação Básica” serão disponibilizadas gratuitamente. Uma realização do Fneei e ISA, com apoio técnico do Instituto Alana e parceria da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga), o edital reconheceu estratégias exitosas de ensino-aprendizagem ligadas à Lei 11.645/2008. Tais ações pedagógicas foram realizadas em diversas partes do país, em todas as etapas da educação básica, incluindo a Educação de Jovens e Adultos e o Ensino Médio Técnico, além da modalidade da educação escolar indígena, e refletem a multiplicidade de abordagens pedagógicas sobre histórias, culturas e saberes indígenas.
O repositório reúne recursos pedagógicos, materiais de referência (como orientações normativas) e outros elementos para subsidiar o trabalho de professores que não sabem como começar a trabalhar com a Lei 11.645/2008 ou desejam ampliar seu repertório de práticas de ensino. De caráter colaborativo, o Aldear a Educação será alimentado continuamente com novos materiais do ISA, do Fneei e de parceiros.
Em breve, estará disponível ainda a coleção de kits didáticos do ‘Hoje na História Socioambiental’, que articula documentos históricos do Acervo do ISA com atividades a partir de questões-problema relacionadas às lutas, memórias e resistências de povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais.
Conheça as onze iniciativas premiadas
“Raízes da cultura, sementes que contam histórias: as sementes e o artesanato do povo Tapeba” – Ana Paula da Rocha, da Escola Indígena Aba Tapeba, em Caucaia (CE)
A atividade proposta por Ana Paula da Rocha, do povo Tapeba, visa promover a conscientização sobre a importância das espécies nativas utilizadas no artesanato tradicional Tapeba, fortalecendo a identidade cultural e a preservação ambiental na aldeia Jandaiguaba em resposta aos desafios do desmatamento e da urbanização. Por meio de uma abordagem que integra teoria e prática, o projeto articula rodas de conversa com anciões e artesãos, mapeamento de espécies, criação de viveiros e mutirões de plantio, engajando estudantes e a comunidade em processos coletivos de diálogo, escuta e atividades de campo.
“Encontro Indígena: cultura, lutas e resistência - a experiência do CIEJA Campo Limpo” – Andressa dos Santos Silva, de São Paulo (SP)
O projeto "Encontro Indígena", desenvolvido pela educadora Andressa dos Santos Silva, busca valorizar as culturas e saberes dos povos indígenas por meio de ações pedagógicas interdisciplinares construídas em parceria com essas comunidades. A iniciativa utiliza diversas linguagens como teatro, musicalização, oficinas de grafismo e culinária, além de visitas a territórios indígenas, como o Real Parque, para sensibilizar os alunos e desconstruir preconceitos e estereótipos. Ao integrar vivências práticas, literatura e o diálogo direto com a realidade indígena, prática reforçada pela leitura diária de frases de autores indígenas, o projeto promove o reconhecimento da diversidade étnica, as lutas e as contribuições fundamentais desses povos no cotidiano.
“Do Território à Sala de Aula: saberes indígenas na Educação de Jovens e Adultos” – Arley de Araújo Clemente, do Centro Comunitário Indígena/EJA Nordeste, em Ceará Mirim (RN)
A proposta enviada por Arley de Araújo Clemente, busca valorizar os conhecimentos da comunidade indígena Rio dos Índios ao integrar saberes tradicionais aos conteúdos da Educação de Jovens e Adultos (EJA). O projeto promove a alfabetização e o letramento por meio de práticas como a construção coletiva de cartazes sobre o ciclo de cultivo do milho e da mandioca. Ao combinar rodas de conversa, produção textual, desenhos e discussões sobre plantio e colheita, a iniciativa fortalece a oralidade e a escrita, articulando o ensino formal com a realidade cultural e as vivências cotidianas dos educandos, tornando o aprendizado mais participativo e contextualizado.
“Campos do Cristal encontra Anhetenguá: um caminho para aldear o currículo” – Bruna Moreira da Silva, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Campos do Cristal, em Porto Alegre (RS)
Desenvolvida pela professora Bruna Moreira, a Mostra Cultural Indígena da EMEF Campos do Cristal, em Porto Alegre, utiliza o suporte dos Espaços Educativos Afro-brasileiros e Indígenas (EEABIs) para valorização da sociodiversidade. Na edição de 2025, o projeto envolveu 21 turmas e mais de 400 estudantes na produção de uma feira com apresentações artísticas e de pesquisas. Além disso, em 2025, a atividade colocou a interculturalidade em prática por meio de uma parceria com a aldeia Anhetenguá, do povo Guarani Mbya. Com visitas recíprocas e momentos de troca entre estudantes e representantes indígenas, a escola concretizou seu objetivo de integrar saberes e promoveu um intercâmbio de conhecimentos, fortalecendo a valorização da identidade indígena no cotidiano escolar.
“Vozes da Floresta: um chamado para um novo amanhã” – Cristiana Andrade Butel, da Escola Estadual Senador João Bosco, em Parintins (AM)
A atividade proposta por Cristiana Butel articulou saberes indígenas com os diferentes campos da literatura, artes, música, dança e teatro e envolveu, ao longo de um mês, alunos do Ensino Médio. Desenvolvida em Parintins, no Amazonas, a atividade teve como mote o tema “Povos Indígenas: Ontem e Hoje”. Entre as atividades desenvolvidas estão leituras coletivas, debates, produções textuais, seminários, apresentações e produções artísticas. As lideranças estudadas pelos alunos para desenvolver os trabalhos foram Davi Kopenawa, Daniel Munduruku, Ailton Krenak, Márcia Kambeba, Trudruá Dorrico e Eliane Potiguara.
“‘Outro olhar’: um podcast sobre vida e obra de Ailton Krenak e Davi Kopenawa Yanomami” – professores Leonardo Alves da Cunha Carvalho e Enoque Marques Pontes, com participação dos estudantes Gabriela Duarte, Glenda Amaral, Karen Oliveira, Thayane Menezes e Victor Moraes, do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), em São Paulo (SP)
O projeto "Outro Olhar", desenvolvido no Instituto Federal de São Paulo - Campus São Miguel Paulista pelos professores de sociologia e filosofia junto a estudantes do ensino médio, é uma iniciativa interdisciplinar de criação de um podcast. A proposta utiliza o formato de áudio para explorar a biografia e o pensamento de Ailton Krenak e Davi Kopenawa Yanomami, promovendo um debate decolonial e intercultural que questiona os fundamentos eurocêntricos da educação básica. Ao todo são 16 episódios que unem o rigor acadêmico à produção técnica de áudio e vídeo, explorando temas como as cosmologias desses povos, seus direitos, histórico do contato e preservação da floresta, integrando o projeto maior "Pedagogia Antirracista no Chão da Escola".
“Povos da Terra: saberes indígenas, ciência e educação para o bem viver” – Monyque Ferreira Brandão, da Escola Estadual José Domingos da Silveira, em Barueri (SP)
A disciplina eletiva "Povos da Terra: Memória, Matéria e Ciência", idealizada pela historiadora e professora Monyque Ferreira Brandão em colaboração com a professora Glauciane Lima na Escola Estadual José Domingos da Silveira (SP), propõe uma abordagem interdisciplinar para o ensino médio que articula História, Biologia, Artes e Química. O projeto valoriza os conhecimentos indígenas amazônicos como produtores de ciência e cultura, conectando saberes tradicionais, como o manejo da "Terra Preta" e a etnobotânica, com desafios contemporâneos como as mudanças climáticas. Por meio de metodologias ativas, como oficinas de argila, simulações arqueológicas e análise de fontes, a disciplina discutiu a relação entre os povos da Amazônia e suas práticas de sustentabilidade e saúde
“Saberes que conectam na educação infantil: ancestralidade, natureza, memórias e vivências” – Selma de Souza Sá Silva, da Escola Municipal Virgílio Távora, em São Paulo (SP)
Indígena do povo Pankará de Pernambuco, Selma de Souza Sá Silva na EMEI Virgílio Távora desenvolveu uma abordagem interdisciplinar e decolonial para o ensino da cultura indígena. Ao longo de quatro meses, a iniciativa buscou romper com estereótipos folclorizados ao integrar História, Geografia, Artes, Ciências e Língua Portuguesa por meio do estudo do povo Pankará, utilizando vivências práticas como o contato com a natureza, o uso de plantas medicinais, a produção de arte com argila e a valorização da oralidade e memória ancestral.
“Mulheres que tecem a história: biografias de lideranças indígenas femininas” – Talita Yosioka Collacio, da Escola Municipal Professor João de Barros Pinto, em Santo André (SP)
O projeto proposto pela professora Talita Yosioka Collacio na EMEIF Prof. João de Barros Pinto (SP), utiliza o gênero discursivo "biografia" como eixo para uma prática interdisciplinar que articula Língua Portuguesa, História, Geografia e Ciências. Desenvolvida prioritariamente para a Educação de Jovens e Adultos (EJA), a atividade combate a invisibilidade das mulheres indígenas no debate público ao explorar trajetórias de lideranças como Sônia Guajajara, Tuíre Kayapó, Joenia Wapichana e a Cacica Jaqueline Haywã, esta última protagonista de uma palestra que aproximou os estudantes da realidade indígena no contexto urbano. O projeto incluiu análise de vídeos, debates, construção de painéis interativos e leitura de poemas autobiográficos.
“Ariponã: diálogo intercultural e valorização da cultura pataxó em escolas de Betim, MG” – Thais Regina Maciel da Silva - Tamikuã Pataxó, da Escola Municipal Aristides José da Silva, em Betim (MG)
A proposta conduzida pela educadora Tamikuã Pataxó, do povo Pataxó, na Escola Municipal Aristides José da Silva, em Betim (MG), é uma prática interdisciplinar que articula Artes, Língua Portuguesa, Ciências, Biologia, História e Geografia. Motivada pela necessidade de combater o racismo e a invisibilidade indígena após um episódio de racismo, a proposta desenvolvida pela professora promove o letramento e o diálogo intercultural por meio de vivências práticas, incluindo oficinas de escrita na língua Patxohã, confecção de adornos e tintas naturais, grafismos corporais e culinária tradicional, bem como um intercâmbio cultural com uma aldeia Pataxó da região.
“Opy em maquete: integrando saberes do povo Guarani M’bya e outras ciências” – Vilmone Benites Samaniego - Wera Mirim, da Escola Indígena Pira Rupa, em Palhoça (SC)
Na escola Pira Rupa, em Santa Catarina, o professor Vilmone Wera Mirim, do povo Guarani Mbya, propõe uma jornada que vai da floresta à matemática. A partir da construção coletiva de uma maquete da Opy (casa de reza guarani) com os estudantes, a atividade utiliza o processo construtivo como um eixo para abordar conteúdos de Matemática (geometria e medidas), Física (estrutura e pressão), Química (transformações e estados da matéria) e Ciências Humanas (história e território). A proposta conecta os conceitos curriculares às práticas de coleta de materiais e respeito aos ciclos da natureza, buscando articular os conhecimentos acadêmicos aos modos tradicionais de ensino e aprendizagem do povo Guarani.
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