Curso de Vigilância Indígena na Aldeia Gorotire, Terra Indígena Kayapó, reuniu diferentes gerações para debater direitos, pensar a proteção territorial e reforçar a luta contra o garimpo e outras atividades ilegais
Entre os dias 04 e 07 de agosto, as associações indígenas da Terra Indígena (TI) Kayapó, o Instituto Socioambiental (ISA), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) e o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e realizaram uma formação de Vigilância Indígena na aldeia Gorotire, na Terra Indígena Kayapó.
A formação é fruto da parceria entre as organizações e contou com a participação de 35 indígenas para o planejamento de ações de proteção no contexto pós-desintrusão do território. As associações presentes foram Angrokrere, Tuto Pombo, Kranhmenhti, Piokrere, Floresta Protegida, Kenorukuare e Wejo.
A formação envolveu indígenas de diferentes faixas etárias e gênero que refletiram juntos sobre a dimensão do desafio de proteger uma área de mais de 3,2 milhões de hectares na floresta amazônica.
Nos últimos anos, a TI Kayapó vem lidando com a fragmentação da paisagem no entorno e a constante invasão para a retirada de madeira e, sobretudo, para o garimpo ilegal. A necessidade de fortalecer a proteção tornou-se ainda mais evidente após o cumprimento da ADPF 709, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a desintrusão de áreas invadidas em oito TIs no Brasil.
Embora a desintrusão da TI Kayapó tenha sido finalizada oficialmente em julho de 2025, a proteção preventiva e segura pelas próprias comunidades é essencial para impedir o avanço dos invasores.
Manifesto histórico contra o garimpo
O engajamento dos participantes no curso está atrelado a uma decisão política já consolidada entre o povo Mẽbêngôkre, quando caciques e lideranças da TI Kayapó reuniram-se numa assembleia na Casa do Guerreiro, na Aldeia Gorotire, e relataram suas preocupações com os impactos do garimpo sobre os rios, a fauna, a saúde das comunidades e o enfraquecimento da governança indígena.
Diante disso, ficou decidido por unanimidade que qualquer atividade ilícita no interior da Terra Indígena, especialmente o garimpo, mas também a extração ilegal de madeira ou outras práticas que possam degradar os recursos naturais e culturais do território, devem ser recusadas e coibidas por todos.
Os indígenas destacaram que impedir os ilícitos na TI é condição central para dar continuidade às parcerias vitais para a comunidade, como o Projeto de Crédito de Carbono e o Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da TI Kayapó.
O documento também reafirmou que, embora o compromisso de coibir o garimpo seja das lideranças, as ações de combate direto aos ilícitos são função do Estado brasileiro e de instituições como Funai, Ibama e a Polícia Federal.
Diálogo de saberes e o mapeamento das ameaças
Com esse espírito de urgência, esperança e mobilização, o curso de Vigilância Indígena foi marcado por grandes trocas e contou com a tradução simultânea conduzida por dois professores indígenas seguindo uma metodologia integradora e participativa.
O primeiro dia foi dedicado à apresentação dos participantes e o compartilhamento dos conceitos fundamentais para a atividade. No segundo, os participantes foram estimulados a mostrar o processo de ocupação histórica da TI Kayapó e os indígenas ilustraram o território antes da exploração ilegal de ouro e madeira, o que mudou após as invasões e quais são os desafios atuais para garantir o usufruto exclusivo da terra. O grupo também debateu instrumentos vitais de proteção, como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e os protocolos de consulta.
No terceiro dia de formação, ocorreu o mapeamento coletivo de situações de vulnerabilidade utilizando mapas impressos e os indígenas apontaram as principais ameaças, destacando o tipo de ilícito, as regiões mais vulneráveis, a época do ano em que ocorrem e as possíveis estratégias para enfrentá-las. Para inspirar essas estratégias, o grupo conheceu relatos de vigilância indígena bem-sucedidas na bacia do Xingu apresentados por integrantes da Rede Xingu+, além das bases de vigilância da própria TI Kayapó, coordenada pela Associação Floresta Protegida (AFP), e também do Plano de Proteção Territorial da TI Arara.
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O fechamento da atividade foi coordenado pelos próprios indígenas, sob mediação do assessor da AFP, Igor Ferreira, com uma recapitulação dos conceitos abordados ao longo das atividades, a apresentação das suas percepções sobre a formação e a reflexão sobre os próximos passos para proteção territorial.
De acordo com o coordenador da CR Kayapó Sul do Pará, Camilo Soares, esta oficina se insere no conjunto de ações de pós-desintrusão e busca garantir a posse plena da TI pelos indígenas com o apoio das organizações indígenas, instituições governamentais e não governamentais.
“A oficina de vigilância indígena foi um momento de pensar conjuntamente em estratégias para proteger o território e fortalecer a gestão compartilhada por meio da participação de representantes de todas as regiões da TI”, disse Soares.
O representante da Associação Floresta Protegida e conselheiro da Rede Xingu+, Kajte Kayapó, também avaliou como positiva a realização da atividade.
“Esta formação é muito importante, pois os indígenas estão aprendendo cada vez mais sobre as expedições, o monitoramento do território e das bases de vigilância”, destacou o conselheiro da Rede Xingu +.
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