Após escassez em 2025, indígenas coletaram 3.300 hectolitros do fruto, ou cerca de 175 toneladas, e negociaram venda de parte da produção com viabilidade econômica para exportadora especializada
A safra da castanha de 2026 trouxe boas notícias para o povo Wai Wai. Após enfrentarem, em 2025, a escassez provocada pela emergência climática e pela seca recorde na Amazônia, este ano os castanhais voltaram a produzir na média anual. Os Wai Wai coletaram aproximadamente 3.300 hectolitros (o equivalente a 175 toneladas), a maior parte em seu território em Roraima e, ainda, negociaram um preço justo para a venda de parte da produção.
Esse é um alimento tradicional para o povo Wai Wai, que vem comercializando o excedente do produto. Este ano, três associações da Terra Indígena Wai Wai, localizada ao Sul de Roraima, fecharam um acordo com a Mutran Exportadora, empresa especializada no mercado de castanha-do-brasil, beneficiando ao menos 220 famílias indígenas com a venda de 635 hectolitros do fruto.
Juntas, as três associações, que fazem parte da Terra Indígena Wai Wai e da Terra Indígena Trombetas do Mapuera, nos Estados de Roraima, Pará e Amazonas, venderam 635 hectolitros. Parte da entrega foi concluída na primeira quinzena de julho.
A Associação do Povo Indígena Wai Wai (APIW) possui o maior número de associados, sendo 216 residentes em 15 comunidades, beneficiando 80 famílias. Associação Indígena Wai Wai da Amazônia (AIWA) conta com 69 associados e beneficia aproximadamente 60 famílias diretamente. Já a Associação dos Povos Indígenas Wai Wai (APIWX) tem 80 associados e aproximadamente 46 famílias beneficiadas. Dessa forma, ao menos 220 famílias foram beneficiadas com a comercialização.
“A venda da nossa produção para a Mutran foi muito importante para o povo Wai Wai. A maioria do nosso povo é extrativista de castanha, então nos beneficiou muito”, declarou Reginaldo Wai Wai, vice-presidente da AIWA e morador da comunidade indígena Anauá, localizada em São João da Baliza (RR).
Os Wai Wai ainda devem vender mais castanhas para outras empresas. Além disso, nas comunidades o fruto também desempenha um papel fundamental na dieta familiar, com a produção de derivados como o beiju, o mingau e a farinha de castanha, conhecida como Mawkin, que apresenta grande potencial de comercialização.
Negociações e mudanças climáticas
Junto às três associações da Terra Indígena Wai Wai, o Instituto Socioambiental (ISA) e o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) começaram as negociações em novembro de 2025, mas somente em abril deste ano chegaram a um valor viável por hectolitro.
“Esta negociação prioriza o manejo sustentável e o fortalecimento das cadeias produtivas da sociobiodiversidade. O acordo com a Mutran reflete tanto a viabilidade financeira quanto o compromisso com os valores socioambientais, agregando valor à cadeia da castanha. O contrato também fortalece as associações da Terra Indígena Wai Wai frente ao mercado informal”, pontua Marcolino da Silva, analista do ISA que atua junto aos Wai Wai.
O valor de venda leva em consideração a logística diferenciada, que envolve desde pequenas embarcações que circulam nos igarapés até caminhões. Para recolher a castanha coletada em meio à floresta amazônica, são necessárias viagens de até 5 dias para chegar a algumas comunidades. Depois, o produto foi levado até São João da Baliza (RR), de onde seguiu até o porto de Manaus.
No caso do manejo sustentável da castanha, outros serviços estão embutidos: ao conjugar fartura de alimentos e proteção do meio ambiente, os Wai Wai estão promovendo o cuidado com a água, com a biodiversidade e com o clima. São os chamados serviços ambientais.
A empresa Mutran avaliou a produção como de excelente qualidade. Conforme Marcolino da Silva, esse resultado reflete a organização coletiva e o protocolo de boas práticas de manejo das associações e dos produtores Wai Wai. Todo o volume coletado pelos extrativistas passa por um rigoroso processo de beneficiamento e controle de qualidade.
Marcolino é o responsável pelo acompanhamento da safra através de visitas de campo e pela realização de reuniões de planejamento com as lideranças para as expedições territoriais.
Além disso, o ISA oferece suporte logístico com combustível, alimentação e manutenção de embarcações. Marcolino também apoia tecnicamente o fortalecimento das associações indígenas locais, coordena o agendamento das reuniões de negociação com o povo Wai Wai, monitora o extrativismo e o escoamento da produção e auxilia na emissão de notas fiscais com o serviço de contabilidade.
Ainda conforme Marcolino, a grande safra de 3.300 hectolitros representa uma superação em comparação ao ano de 2025, quando pela primeira vez na história os Wai Wai tiveram uma colheita zerada em razão de uma emergência climática que também afetou outros territórios, o que impactou diretamente as atividades econômicas desse povo.
O povo Wai Wai vive nas Terras Indígenas Wai Wai e Trombetas Mapuera, no sul de Roraima, Amazonas, norte do Pará e no país fronteiriço, Guiana. Anualmente, os extrativistas mantêm a expectativa de safras abundantes. No entanto, as mudanças climáticas têm tornado a previsibilidade da produção um grande desafio. As próximas florações estão previstas para outubro deste ano, mas frente às mudanças climáticas e à possibilidade dos impactos do Super El Niño, os Wai Wai ainda não sabem como será a safra de 2027.
Comunicador Wai Wai
As imagens que acompanham esse texto foram feitas pelo comunicador indígena Languy Noro Wai Wai, jovem comunicador da aldeia Xaary, na TI Wai Wai (RR). Desde 2022, Languy acompanha o cotidiano de seu povo e registra fatos marcantes, como as práticas tradicionais e o monitoramento. As imagens mostram a secagem e a seleção das castanhas na comunidade Xaary, que posteriormente são ensacadas para transporte, mas vão além: indicam a fartura da castanha e o envolvimento da comunidade em todo o processo.
Relembre produções audiovisuais produzidas pelas organizações Wai Wai em parceria com o ISA:
As atividades do ISA junto às organizações do povo Wai Wai para o manejo da castanha em 2026 contaram com apoio da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD).
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