Agrobiodiversidade: é da terra que vamos buscar do que viver!

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É da terra que vamos buscar do que viver, se não tivermos terra para todo homem e toda a mulher trabalhar nós estaremos atrapalhados... os interessados querem lograr de nós, com leis mentirosas, com leis vantajosas, que prometem o céu, mas que não são o céu, são outra coisa...
Seu Bonifácio Modesto, quilombola do Vale do Ribeira

Ao longo de junho, mês no qual é celebrado o Dia Internacional do Meio Ambiente, preparamos uma série de conteúdos especiais sobre um tema essencialmente vinculado aos direitos socioambientais: a agrobiodiversidade. A agrobiodiversidade – ou diversidade agrícola – envolve dinâmicas histórico evolutivas do cultivo das plantas pelos povos em seus territórios, numa interdependência extremamente complexa.

Algodão, milho, batata, arroz, mandioca...em todos os continentes,as populações tradicionais foram e são determinantes no processo de melhoramento genético dos cultivares, variedades manipuladas e domesticadas ao longo de milhares de anos, muitas das quais presentes em nossas refeições todos os dias, isso sem falar das fibras vegetais e de outros usos.

Charles Clement, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em um artigo publicado em 2010, estimou que na Amazônia havia aproximadamente 138 plantas amazônicas sob algum grau de domesticação à época da chegada dos europeus nas Américas. Em recente artigo intitulado "PRESENTES DO PASSADO : Domesticação de plantas e paisagens culturais na Amazônia pré-histórica", publicado no último número da revista Ciência Hoje, os professores Helbert Prado e Rui Murrieta (IB/USP), asseguram: à época da chegada dos europeus, uma das plantas mais importantes na dieta das populações indígenas era a mandioca, cuja seleção resultou no desenvolvimento de raízes cada vez maiores, ou seja, com mais amido. Entre as palmeiras, o fruto da pupunha, extremamente rico em óleos e amido, é o que mais se destacava, passando por um aumento de tamanho na ordem de 2 mil porcento em relação às suas populações selvagens. Neste caso, estudos genéticos e morfológicos sugerem que suas populações já estavam sendo alteradas pelos humanos há pelo menos 10 mil anos. Já o abacaxi, também originário da Amazônia, tem sua domesticação estimada em pelo menos 4.000 a.C.. Tudo isso comprova o conhecimento minucioso que tinham do ambiente e o domínio de ampla gama de técnicas e de tecnologias empregadas na obtenção de recursos da natureza.

A soberania alimentar é um direito de todos os povos e é um dever do Estado garanti-la. Todavia ela somente se faz possível com a preservação de práticas produtivas e práticas alimentares tradicionais, em bases sustentáveis do ponto de vista socioambiental, nos seus territórios de origem. Os cultivares, sem as pessoas e seu contexto deixam de ser sabedoria e tornam-se produtos. Os alimentos e as redes sociais que deles se alimentam: sua produção, preparação, troca e por fim o compartir dos alimentos, são ações políticas que alimentam não só nosso corpo, mas pensamentos, valores, relações sociais e mundos possíveis. Por isso defendemos o direito inalienável dos povos aos seus territórios tradicionais, no Brasil e no mundo.

O Instituto Socioambiental acredita, vivencia e atua na defesa de bens e direitos sociais, coletivos e difusos relativos ao meio ambiente, ao patrimônio cultural, aos direitos humanos e dos povos, fiando-se que além de justa, a garantia a esses direitos assegura a todos, mesmo aos que não concebem ou aceitam esta conexão, uma vida melhor.

O que você alimenta quando se alimenta? O que você alimenta no mundo com suas escolhas?

Para encerrar nossas publicações iniciadas na Semana do Ambiente, que teve como tema a agrobiodiversidade reproduzimos as palavras de seu Dito Câncio, quilombola de Morro Seco, que podem ser conferidas no vídeo sobre o mutirão realizado em maio, para a colheita de arroz naquele quilombo do Vale do Ribeira.

“O arroz, o feijão, a mandioca..a gente vai plantar para evitar de ir atrás do mercado, para nossa família, para nós. Para nós comer essa lavoura que plantamos que sabemos que é uma lavoura sadia, (..) então a gente alcança muita coisa nesse sentido." Seu Dito Câncio.

Assista ao vídeo "Mutirão Quilombola":

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