Povo Wai Wai coleta safra abundante de castanha em Roraima e garante preço justo
Após escassez em 2025, indígenas coletaram 3.300 hectolitros do fruto, ou cerca de 175 toneladas, e negociaram venda de parte da produção com viabilidade econômica para exportadora especializada
A safra da castanha de 2026 trouxe boas notícias para o povo Wai Wai. Após enfrentarem, em 2025, a escassez provocada pela emergência climática e pela seca recorde na Amazônia, este ano os castanhais voltaram a produzir na média anual. Os Wai Wai coletaram aproximadamente 3.300 hectolitros (o equivalente a 175 toneladas), a maior parte em seu território em Roraima e, ainda, negociaram um preço justo para a venda de parte da produção.
Esse é um alimento tradicional para o povo Wai Wai, que vem comercializando o excedente do produto. Este ano, três associações da Terra Indígena Wai Wai, localizada ao Sul de Roraima, fecharam um acordo com a Mutran Exportadora, empresa especializada no mercado de castanha-do-brasil, beneficiando ao menos 220 famílias indígenas com a venda de 635 hectolitros do fruto.
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Escoamento da safra da castanha ocorre também por voadeiras | Languy Noro Wai Wai
Juntas, as três associações, que fazem parte da Terra Indígena Wai Wai e da Terra Indígena Trombetas do Mapuera, nos Estados de Roraima, Pará e Amazonas, venderam 635 hectolitros. Parte da entrega foi concluída na primeira quinzena de julho.
A Associação do Povo Indígena Wai Wai (APIW) possui o maior número de associados, sendo 216 residentes em 15 comunidades, beneficiando 80 famílias. Associação Indígena Wai Wai da Amazônia (AIWA) conta com 69 associados e beneficia aproximadamente 60 famílias diretamente. Já a Associação dos Povos Indígenas Wai Wai (APIWX) tem 80 associados e aproximadamente 46 famílias beneficiadas. Dessa forma, ao menos 220 famílias foram beneficiadas com a comercialização.
“A venda da nossa produção para a Mutran foi muito importante para o povo Wai Wai. A maioria do nosso povo é extrativista de castanha, então nos beneficiou muito”, declarou Reginaldo Wai Wai, vice-presidente da AIWA e morador da comunidade indígena Anauá, localizada em São João da Baliza (RR).
Os Wai Wai ainda devem vender mais castanhas para outras empresas. Além disso, nas comunidades o fruto também desempenha um papel fundamental na dieta familiar, com a produção de derivados como o beiju, o mingau e a farinha de castanha, conhecida como Mawkin, que apresenta grande potencial de comercialização.
Negociações e mudanças climáticas
Junto às três associações da Terra Indígena Wai Wai, o Instituto Socioambiental (ISA) e o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) começaram as negociações em novembro de 2025, mas somente em abril deste ano chegaram a um valor viável por hectolitro.
“Esta negociação prioriza o manejo sustentável e o fortalecimento das cadeias produtivas da sociobiodiversidade. O acordo com a Mutran reflete tanto a viabilidade financeira quanto o compromisso com os valores socioambientais, agregando valor à cadeia da castanha. O contrato também fortalece as associações da Terra Indígena Wai Wai frente ao mercado informal”, pontua Marcolino da Silva, analista do ISA que atua junto aos Wai Wai.
O valor de venda leva em consideração a logística diferenciada, que envolve desde pequenas embarcações que circulam nos igarapés até caminhões. Para recolher a castanha coletada em meio à floresta amazônica, são necessárias viagens de até 5 dias para chegar a algumas comunidades. Depois, o produto foi levado até São João da Baliza (RR), de onde seguiu até o porto de Manaus.
No caso do manejo sustentável da castanha, outros serviços estão embutidos: ao conjugar fartura de alimentos e proteção do meio ambiente, os Wai Wai estão promovendo o cuidado com a água, com a biodiversidade e com o clima. São os chamados serviços ambientais.
A empresa Mutran avaliou a produção como de excelente qualidade. Conforme Marcolino da Silva, esse resultado reflete a organização coletiva e o protocolo de boas práticas de manejo das associações e dos produtores Wai Wai. Todo o volume coletado pelos extrativistas passa por um rigoroso processo de beneficiamento e controle de qualidade.
Marcolino é o responsável pelo acompanhamento da safra através de visitas de campo e pela realização de reuniões de planejamento com as lideranças para as expedições territoriais.
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Carregamento das castanhas ensacadas em caminhões para transporte | Languy Noro Wai Wai
Além disso, o ISA oferece suporte logístico com combustível, alimentação e manutenção de embarcações. Marcolino também apoia tecnicamente o fortalecimento das associações indígenas locais, coordena o agendamento das reuniões de negociação com o povo Wai Wai, monitora o extrativismo e o escoamento da produção e auxilia na emissão de notas fiscais com o serviço de contabilidade.
Ainda conforme Marcolino, a grande safra de 3.300 hectolitros representa uma superação em comparação ao ano de 2025, quando pela primeira vez na história os Wai Wai tiveram uma colheita zerada em razão de uma emergência climática que também afetou outros territórios, o que impactou diretamente as atividades econômicas desse povo.
O povo Wai Wai vive nas Terras Indígenas Wai Wai e Trombetas Mapuera, no sul de Roraima, Amazonas, norte do Pará e no país fronteiriço, Guiana. Anualmente, os extrativistas mantêm a expectativa de safras abundantes. No entanto, as mudanças climáticas têm tornado a previsibilidade da produção um grande desafio. As próximas florações estão previstas para outubro deste ano, mas frente às mudanças climáticas e à possibilidade dos impactos do Super El Niño, os Wai Wai ainda não sabem como será a safra de 2027.
Comunicador Wai Wai
As imagens que acompanham esse texto foram feitas pelo comunicador indígena Languy Noro Wai Wai, jovem comunicador da aldeia Xaary, na TI Wai Wai (RR). Desde 2022, Languy acompanha o cotidiano de seu povo e registra fatos marcantes, como as práticas tradicionais e o monitoramento. As imagens mostram a secagem e a seleção das castanhas na comunidade Xaary, que posteriormente são ensacadas para transporte, mas vão além: indicam a fartura da castanha e o envolvimento da comunidade em todo o processo.
Relembre produções audiovisuais produzidas pelas organizações Wai Wai em parceria com o ISA:
As atividades do ISA junto às organizações do povo Wai Wai para o manejo da castanha em 2026 contaram com apoio da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD).
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Agora presidenta da Funai, Lúcia Alberta retorna ao Rio Negro e reforça compromisso com povos indígenas
Agenda em São Gabriel da Cachoeira reuniu lideranças indígenas, servidores da Funai e Ministério dos Povos Indígenas por demarcação de terras, fortalecimento da gestão territorial e ampliação das políticas públicas
A visita de Lúcia Alberta ao município de São Gabriel da Cachoeira (AM), a primeira desde que assumiu a presidência da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) em abril deste ano, foi marcada por emoção e celebração dos povos indígenas do Rio Negro. Entre os dias 17 e 18 de julho, ela foi recebida com homenagens, danças tradicionais e encontros com lideranças indígenas, servidores da Funai e representantes de instituições parceiras.
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Lúcia Alberta se reuniu com lideranças e parceiros e reforçou o compromisso da Funai na demarcação de terras indígenas|Lucas Yanomami/Rede Wayuri
Participaram da comitiva o diretor de Demarcação de Terras Indígenas (DIDEM) da Funai, Manoel Batista do Prado, e a secretária nacional de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), Giovanna Mandulão Macuxi.
A agenda começou na sexta-feira (17/07), com uma recepção organizada pela Coordenação Regional (CR) da Funai no Rio Negro, no Telecentro do Instituto Socioambiental (ISA). Servidores, parceiros e lideranças deram as boas-vindas à presidenta, celebrando o simbolismo de uma mulher indígena do Rio Negro à frente da política indigenista brasileira.
A coordenadora regional Dadá Baniwa destacou que o retorno de Lúcia Alberta representa um marco para o movimento indígena da região. "Ela não está chegando hoje ao território. Ela nasceu, cresceu, morou aqui e hoje retorna para dar uma contribuição muito importante ao nosso território como presidenta desta grande instituição indigenista", afirmou.
Para Dadá, o movimento indígena segue sendo a base da atuação de muitas lideranças que hoje ocupam espaços institucionais, o que reforça a expectativa de fortalecer a parceria entre a Funai e as organizações indígenas do Rio Negro.
Natural da comunidade de Tapita (hoje Nova Esperança), na região de Cucuí, no Alto Rio Negro, Lúcia Alberta relembrou sua trajetória desde a infância, quando deixou sua terra ainda criança para estudar. Recordou as dificuldades enfrentadas por muitas mulheres indígenas de sua geração, o trabalho doméstico que sustentou seus estudos e o caminho até a presidência da Funai.
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Recepção na sede do ISA em São Gabriel da Cachoeira (AM) para reunião com funcionário da CR Rio Negro|Vanessa Fernandes/ISA
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Clima de celebração marcou a visita de Lúcia Alberta ao Rio Negro, a primeiro como presidenta da Funai|Vanessa Fernandes/ISA
Ela também citou os oito anos em que trabalhou no ISA, apoiando projetos educacionais e iniciativas de fortalecimento cultural junto aos povos do Alto Rio Negro. Relembrou o aprendizado ao lado de parceiros históricos do movimento indígena, como a antropóloga associada do ISA Marta Azevedo – a quem assessorou na presidência da Funai entre 2012 e 2016 – e o sócio-fundador do ISA Beto Ricardo. "O Beto me dizia: 'você precisa aprender'. Eu aprendi e hoje estou aqui", disse, emocionada.
Mulheres indígenas e o Bem Viver coletivo
No sábado (18/07), a presidenta foi recebida na Casa do Saber da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), em cerimônia igualmente marcada pela celebração. Mulheres Baré a vestiram com adornos e pinturas tradicionais na entrada da sede da federação, de onde caminharam de braços dados para o interior da Maloca, onde seguiram com o dabucuri – ritual tradicional de oferta de alimentos das roças – e as apresentações culturais de associações indígenas da região.
Importante nome do movimento das mulheres indígenas do Rio Negro, a liderança Baré Belmira Melgueiro discursou em nhengatu e destacou o significado histórico de uma mulher indígena da região assumir a presidência da Funai.
Ao lado de outras mulheres que sustentavam uma faixa pela demarcação da Terra Indígena Cué-Cué/Marabitanas, Belmira falou da expectativa de que a gestão contribua para o avanço da demarcação, uma reivindicação histórica dos povos da região, e ressaltou que a luta das mulheres indígenas é movida pelo compromisso com o bem viver coletivo. "A gente nunca pensa em nós, em mim, mas sempre pensa no coletivo das mulheres, no coletivo de todos os povos", afirmou.
Ainda na abertura, o presidente da Foirn, Dário Baniwa, também destacou o caráter histórico da visita da presidenta da Funai e de representantes MPI ao Rio Negro e a importância do diálogo direto entre o governo federal e os povos indígenas.
A representante do MPI, Giovanna Macuxi, afirmou que a visita ao Rio Negro integra um processo de escuta qualificada das demandas das comunidades e instituições locais, permitindo que as ações do ministério sejam construídas a partir da realidade de cada território. Ela destacou que o Ministério trabalha para consolidar as políticas voltadas aos povos indígenas como políticas de Estado, reforçando a atuação interministerial para garantir a efetivação dos direitos indígenas.
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Lúcia Alberta é recebida e adornada por mulheres Baré em sua chegada a sede da Foirn|Dadá Baniwa/Funai
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Lúcia foi vestida com adornos e pinturas tradicionais na entrada da sede da federação|Dadá Baniwa/Funai
O movimento indígena como formação política
Em seu discurso, Lúcia Alberta afirmou que ocupar a presidência da Funai é resultado de uma construção coletiva. "[o Rio Negro] É minha casa, é meu território, onde eu nasci, onde fui criada e onde me formei para estar aqui hoje", disse.
Ao agradecer às mulheres que confeccionaram os adornos usados na recepção, ela destacou que cada elemento recebido representa a importância da proteção dos territórios indígenas. "Sem terra demarcada nós não vamos ter tucum, não vamos ter o carajuru [folhas usadas para produzir a tinta vermelha da pintura corporal] que é da nossa cultura, não vamos ter sementes para escolher, não vamos ter terra para fazer nossas roças".
A presidenta destacou que sua formação política teve origem no movimento indígena e na luta pela educação escolar indígena. "Eu me formei nesse espaço aqui, junto com cada um e cada uma de vocês. Minha luta sempre veio da educação escolar indígena", disse, acrescentando que assumir a presidência da Funai exige preparo técnico e compromisso permanente com a defesa dos direitos indígenas.
"Hoje, com todo orgulho, posso dizer que sou a primeira presidenta da Funai concursada do Alto Rio Negro, mulher indígena, Baré, da Terra Indígena Cué-Cué/Marabitanas", completou.
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Belmira Baré, ao microfone, pediu pelo avanço da demarcação e destacou o compromisso das mulheres com o bem viver coletivo|Vanessa Fernandes/ISA
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Lúcia Alberta destacou a importância da proteção do territórios indígenas para preservação dos modos de vida|Vanessa Fernandes/ISA
Lúcia reafirmou ainda que a demarcação das terras indígenas permanece prioridade da Funai, mesmo diante das mudanças impostas pela Lei nº 14.701 e das discussões em torno do marco temporal.
Ao tratar dos desafios de São Gabriel da Cachoeira, chamou atenção para o narcotráfico na região de fronteira, o garimpo ilegal e o consumo abusivo de álcool entre jovens indígenas, defendendo que essas questões sejam enfrentadas de forma articulada entre órgãos públicos e organizações indígenas.
"A Funai sozinha não vai dar conta de enfrentar todos esses desafios. Vamos estabelecer essa articulação interinstitucional para avançarmos nas políticas públicas aqui para São Gabriel da Cachoeira”, completou.
Cartas e reivindicações das comunidades
Ainda durante o encontro na Foirn, lideranças, parceiros e representantes de instituições locais entregaram cartas de reivindicação relacionadas à educação indígena básica e superior, à valorização da categoria docente e à regularização fundiária de glebas públicas federais localizadas no perímetro periurbano de São Gabriel da Cachoeira, que fazem fronteira e, em alguns casos, se sobrepõem a terras indígenas demarcadas ou em processo de demarcação, como ocorre na comunidade Tapajós e no Assentamento Teotônio Ferreira.
Durante o encontro, representantes de órgãos públicos e de instâncias políticas municipais e estaduais também manifestaram apoio às prioridades apresentadas pela Funai para a região.
Em nome da Foirn, o diretor Carlos Nery Baré entregou à presidenta uma carta propondo um aditivo ao Acordo de Cooperação Técnica (ACT) firmado entre Funai, Foirn e ISA, com o objetivo de fortalecer e coordenar as ações voltadas à demarcação das terras indígenas Cué-Cué/Marabitanas, Jurubaxi-Téa, Aracá-Padauiri, Baixo Rio Negro, Caiari e Nadëb.
A diretoria também entregou uma proposta de acordo entre a Federação, o MPI e a Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (Apiam), voltada à implementação dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) das terras indígenas do Rio Negro. Segundo Nery, a iniciativa busca transformar em ações concretas os planos construídos pelas comunidades nos últimos anos, fortalecendo a articulação entre órgãos públicos e organizações indígenas.
Demarcação de terras indígenas no Rio Negro
Ao responder às demandas das lideranças, o diretor do DIDEM, Manoel Batista do Prado, atualizou o andamento dos processos de demarcação no Rio Negro. Segundo ele, a Funai tem retomado processos parados há anos por meio de novas parcerias técnicas e institucionais.
Prado informou que as terras indígenas Cué-Cué/Marabitanas e Jurubaxi-Téa serão as primeiras da Amazônia Legal contempladas pelo acordo entre Funai e Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), que prevê a demarcação física de 24 terras indígenas no país nos próximos dois anos. Ainda neste semestre começa a contratação das empresas responsáveis pelo georreferenciamento e pela demarcação física, com trabalhos de campo previstos para o início de 2027 – etapa indispensável para que os processos avancem até a homologação presidencial.
Sobre a Terra Indígena Aracá-Padauiri, a Funai já concluiu a análise técnica das três contestações apresentadas após a publicação dos estudos de identificação. Segundo Prado, como os questionamentos não indicaram irregularidades capazes de comprometer o processo, ele segue agora para análise jurídica da Procuradoria Federal Especializada junto à Funai e, depois, ao Ministério da Justiça, responsável pela declaração dos limites da terra indígena.
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A demarcação da TI Cué-Cué/Marabitanas foi uma da principais reivindicações do movimento indígena à presidência da Funai|Lucas Yanomami/Rede Wayuri
Já as Terras Indígenas Baixo Rio Negro e Rio Caurés, cujos estudos de identificação foram aprovados em abril – primeiro ato administrativo da atual presidenta da Funai –, estão na fase de contraditório, quando terceiros podem apresentar contestações. Até o momento não houve manifestações contrárias, o que pode permitir uma tramitação mais rápida até o Ministério da Justiça.
Prado explicou ainda que a Funai vem adequando todos os processos de demarcação às exigências da Lei nº 14.701/2023, especialmente quanto às notificações de não indígenas e à ampliação da participação de terceiros durante a tramitação, buscando maior segurança jurídica e menos questionamentos futuros.
Nas considerações finais, Lúcia Alberta destacou o protagonismo histórico de São Gabriel da Cachoeira na construção de políticas públicas para os povos indígenas, especialmente na educação escolar indígena, referência nacional e internacional, e a forte participação de lideranças do Rio Negro na comissão de implantação da Universidade Indígena. Resultado, segundo ela, do investimento em formação e educação ao longo das últimas décadas.
A presidenta destacou ainda o avanço de políticas de geração de renda, fortalecimento da gestão territorial e ambiental, valorização do artesanato e da produção indígena, além da garantia de direitos para indígenas que vivem fora das terras demarcadas. Encerrou propondo a criação de um espaço permanente de construção coletiva entre organizações indígenas e órgãos públicos para fortalecer a articulação de políticas no Rio Negro.
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Documentário registra manejo da fauna pelo povo Baniwa
'Eenonai: Conservação e manejo na casa dos animais' traz registro do conhecimento ancestral desse povo e os impactos da emergência climática que ameaçam essa prática no Alto Rio Negro (AM)
O tempo certo para sair em busca da caça; o pote de guardar o curare - veneno que vai ser colocado na flecha; o cuidado para não abater nada além do necessário; a partilha com a comunidade; os impactos da emergência climática nos ciclos. Esses são alguns elementos do milenar manejo da fauna pelo povo Baniwa registrados no filme “Eenonai: Conservação e manejo na casa dos animais”, lançado na COP30, em Belém.
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Cartaz do filme Eenonai
Eenonai é o termo na língua dos conhecedores Baniwa que se refere aos animais e dá nome ao documentário sobre o manejo da fauna na região do Rio Ayari (Alto Rio Negro, Amazonas), na bacia do Rio Içana, território predominantemente do povo Baniwa.
Entre os Baniwa, a prática da caça se mantém de geração em geração e integra um sistema sofisticado de conhecimentos dos povos indígenas do Alto Rio Negro, uma das regiões mais preservadas da Amazônia. Esse manejo também compõe o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro (SAT-RN), reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histório e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio cultural.
O educador-pesquisador, físico, cientista ambiental e liderança indígena Dzoodzo Baniwa, que participou da produção do Eenonai, ressalta a importância do documentário, que registra o manejo sustentável da caça pelo povo Baniwa.
“O documentário traz esse registro importante sobre o conhecimento. Cada povo indígena tem seu próprio sistema de conhecimento e do manejo do seu território. Cada técnica, cada domínio da tecnologia é muito importante. Os Baniwa utilizam, por exemplo, instrumentos tradicionais, como zarabatana, e tem outras técnicas. O documentário resgata essas práticas tradicionais e dá esse horizonte de como podemos continuar mantendo o manejo da caça no nosso território, inclusive nessa perspectiva de impacto de mudanças climáticas. É muito importante, porque tanto os animais quanto nós povos indígenas manejamos esse território todo, ajudamos a diversificar as plantas, distribuindo sementes. A gente tem esse papel muito importante na proteção da floresta”, diz.
As práticas e saberes sobre esse manejo são acompanhados pelos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) da região, que desenvolvem pesquisas sobre temas socioambientais, em diálogo permanente com os conhecedores de suas comunidades e com pesquisadores especializados não-indígenas.
Constituída a partir de colaborações entre o Instituto Socioambiental (ISA), a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e organizações e escolas indígenas locais, a Rede de AIMAS atua na região do Içana e em outras áreas do Alto e Médio Rio Negro, registrando em diários e tablets práticas de manejo das roças, pesca, caça, coleta de frutos e insetos, intercâmbios econômicos e rituais, fabricação dos instrumentos e utensílios.
Constantemente, os pesquisadores relatam os impactos das mudanças climáticas nos ciclos ecológicos e nas práticas de manejo, que afetam a disponibilidade da fauna e flora, bem como os eventos sociais e rituais.
O objetivo da Rede de AIMAs é promover pesquisas colaborativas e interculturais de longa duração para o fortalecimento dos conhecimentos indígenas e da gestão territorial. Para isso, os agentes indígenas também contam com a parceria com institutos de pesquisa e universidades.
Essas pesquisas geram observações e indicadores que apoiam a governança territorial, conforme explica Dzoodzo Baniwa.
“A pesquisa sobre a fauna no território Baniwa Koripako é muito importante porque gera indicadores que vão orientar diretrizes para construção do plano de manejo, sobretudo pensando gestão territorial e governança do território. A pesquisa consegue traduzir o manejo tradicional que está sendo praticado no território há milhares de anos. O documentário Eenonai também retrata o resultado da pesquisa registrada por nós da rede de pesquisadores indígenas. E com isso esperamos contribuir com debates e diretrizes para implementação do Plano de Gestão Territorial e Ambiental nos territórios”, diz.
A pesquisa retratada no documentário é fruto da dedicação da Rede de AIMAs em parceria com o Centro de Pesquisa e Monitoramento Eenopana e a Rede Fauna - Pesquisa em Conservação, Uso e Manejo da Fauna da Amazônia.
Assista abaixo
A idealização do projeto é da pesquisadora e coordenadora-adjunta do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (PRN/ISA), Natalia Pimenta, e dos pesquisadores André Pinassi Antunes e Walter Lopes da Silva, do povo Baniwa. A direção é do documentarista Fellipe Abreu, especialista em sistemas alimentares, e da analista do ISA, Giselle Sousa.
Ficha técnica
Idealização: Natalia Camps Pimenta, André Pinassi Antunes e Walter Lopes da Silva
Produção: Natalia Camps Pimenta, André Pinassi Antunes, Walter Lopes da Silva, Dzoodzo Baniwa e Ana Amélia Hamdan Gontijo
Direção: Fellipe Abreu e Giselle Sousa
Direção de fotografia e captação de áudio: Fellipe Abreu
Entrevistas em Baniwa: Laise Cardoso
Roteiro: Luiz Felipe Silva
Edição/finalização: Elder Barbosa
Agradecimentos: Aos moradores e conhecedores de Canadá e demais comunidades do rio Ayari, Escola Baniwa Eeno Hiepole, Centro de Pesquisa e Formação Eenopana, National Geographic, Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) da Bacia do Rio Negro.
Realização: ISA, FOIRN, Rede Fauna, Nadzoeri
Apoio: Ipê/Lira e Nia Tero.
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Lideranças Yanomami e Ye’kwana pedem ao governo brasileiro estratégia binacional contra garimpo e malária
Associações entendem que fluxo migratório de indígenas da Venezuela para o Brasil e estratégia de garimpeiros para driblar fiscalização precisa de cooperação dos dois países
Lideranças da Terra Indígena Yanomami demandaram ao governo brasileiro a adoção de uma estratégia de cooperação com a Venezuela para fiscalização do garimpo ilegal e atendimentos de saúde na fronteira. Os indígenas produziram duas cartas no Encontro Binacional de Awaris e na III Assembleia Geral da Urihi Associação Yanomami.
Acesse a carta escrita durante a III Assembleia Geral da Urihi Associação Yanomami aqui.
Acesse a carta escrita no Encontro Binacional de Awaris aqui.
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Comunidade Fuduuwaaduinha, em Awaris, na TI Yanomami, continua sofrendo com a malária|Fabrício Marinho/Platô Filmes/ISA
Além disso, dados preliminares do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Malária (Sivep-Malária) apontam o registro de 25.861 casos positivos da doença na Terra Indígena Yanomami em 2025, sendo que, no Brasil, a maior concentração ocorreu em Awaris. Do lado venezuelano sequer há a contabilização dos casos.
Segundo os documentos, indígenas de ambos os países cruzam a fronteira com frequência em razão de visita a familiares, busca por suprimentos ou por atendimento médico. Esse movimento facilita a transmissão de malária.
“Embora essas comunidades sejam acolhidas pelos parentes e lideranças locais, a região de Awaris - atualmente com população superior a três mil habitantes — encontra-se sob forte pressão em relação à disponibilidade de recursos naturais indispensáveis à subsistência, como caça, pesca, terras agricultáveis e materiais tradicionais utilizados na construção das moradias”, diz trecho da carta do Encontro Binacional.
A carta da III Assembleia Geral da Urihi Associação Yanomami aponta que as comunidades brasileiras Homoxi e Xitei, ambas parte da Terra Indígena Yanomami, ainda estão sob as ameaças do garimpo ilegal por estarem situadas próximas a fronteira com a venezuela.
“Na região do Homoxi, por exemplo, opera do lado venezuelano o garimpo conhecido como Taboca, mantido principalmente por brasileiros que recebem suporte logístico a partir de Boa Vista. As comunidades yanomami do lado venezuelano e próximas a essa área sofrem com a severa degradação ambiental, com a violência dos garimpeiros e com graves problemas de saúde, destacando-se o surto de malária”, exemplifica parte do texto do documento elaborado pela Urihi.
Já o documento derivado do Encontro Binacional propõe a criação de uma Câmara Técnica Binacional entre Brasil e Venezuela. O conteúdo foi encaminhado para o Ministério das Relações Exteriores, bem como ao Ministério da Saúde, Ministério dos Povos Indígenas e órgãos do governo venezuelano.
Para o Itamaraty, o povo encaminhou a carta da Urihi que pede a elaboração de um Plano Binacional de Combate ao Garimpo Ilegal e um programa estruturado de controle da malária e fortalecimento da assistência à saúde na fronteira.
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Luciane Lima: guardiã das economias e da cultura indígenas
Liderança que esteve à frente do Departamento de Negócios Socioambientais da FOIRN, Luciane se inspira na força do povo Tariana para fortalecer e articular a floresta, os negócios, os povos e as mulheres do Rio Negro
*Este texto faz parte da série #ElasQueLutam, que costura perfis sobre mulheres guardiãs das história e da memória de suas comunidades, e que fazem de seus corpos uma extensão de seus territórios tradicionais. Saiba mais aqui.
“No início, quando não existia nada, só existia um ser, o Trovão Ennu. Em seu corpo ele tinha vários enfeites, a akângatara (cocar), o itaboho (cilindro de quartzo usado como pingente de colar), o betâpa (enfeite de cotovelo feito de pele de macaco), o yaigi (bastão de comando), o escudo, o kitió (chocalho de tornozelo)”.
“Também levava seu cigarro encaixado na forquilha, sua cuia de ipadu e sua cuia de bebidas doces. Ele vivia só em sua casa, no alto, e começou a pensar sobre a possibilidade de criar novas pessoas. E pensou em um homem e em uma mulher, Kui e Nanaio. Após o surgimento de Kui e Nanaio, Ennu criou os rios, as árvores e os animais. Tudo que surgiu corresponde aos adornos ou objetos e substâncias cerimoniais do Trovão.”
Essa narrativa faz parte da mitologia dos Tariana, um dos 23 povos que convivem no alto Rio Negro, noroeste do Amazonas. Os mais velhos contam que o povo Tariana se reconhece como “Filhos do Sangue do Trovão” - Bipó Diroá Masí.
E é com essa força que Luciane Mendes de Lima, do povo Tariana, identifica-se e vem atuando como coordenadora do Departamento de Negócios Socioambientais da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN).
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Luciane Lima, Tariana, durante o I Encontro Geral de Produtores Indígenas do Rio Negro, na Casa do Saber da FOIRN, em 2022|Ana Amélia Hamdan/ISA
“Às vezes a gente brinca, quando vai começar a chover e dá muitos raios, muitos trovões, a gente diz que tem um Tariana bravo. Eu me identifico muito com essa força. Acho que é um jeito de ser forte, de ser guerreiro, que é uma característica do Povo do Trovão, que é justamente os Tarianas”, diz.
Luciane Lima busca habilidade, sabedoria e cuidado para os diálogos e ações que promovem as economias da sociobiodiversidade, articulando negócios e parcerias que, ao mesmo tempo, preservam e fortalecem a cultura dos povos que convivem na região do Baixo, Médio e Alto Rio Negro, nos municípios amazonenses de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.
O Departamento de Negócios da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) abrange a Wariró – Casa dos Produtores Indígenas do Rio Negro; iniciativas de turismo; iniciativas alimentares, sendo as principais delas a Pimenta Baniwa, a Casa de Frutas e a Meliponicultura; e os Mercados Institucionais, em conexão com políticas públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Os planos para o futuro incluem o desenvolvimento da Wariró Sabores, com foco na comercialização de alimentos.
Estas são ações que apoiam diretamente as indígenas: atualmente, 64% dos negócios da Wariró são feitos com mulheres. Muitas das atividades são realizadas em parceria com o Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN/FOIRN), contribuindo para ampliar a participação das indígenas nas discussões políticas e em espaços de decisão.
Além disso, o fato de uma mulher indígena estar à frente do departamento também inspira outras a ocuparem espaços de decisão. “Quando a gente ocupa esses espaços de coordenação, é importante falar sobre isso, porque a gente empodera outras mulheres que estão em suas casas, muitas vezes sentindo-se a menor pessoa do mundo, sentindo-se excluídas. Elas passam a entender que também podem ocupar esses espaços”, reflete.
A história de Luciane está conectada com a das rionegrinas e com o Rio Negro. Sua avó, Maria da Conceição, Tariana, de 94 anos, falante das línguas indígenas nheengatu e tukano, além do português, nasceu na comunidade de Ipanoré.
Quando tinha apenas 14 anos, Maria da Conceição foi retirada de lá e chegou à cidade de São Gabriel da Cachoeira, repetindo a história de muitos indígenas, deslocados de suas regiões de origem e separados de suas famílias devido a pressões vindas das missões religiosas, trabalho forçado ou pela promessa de vida melhor perto dos núcleos urbanos.
Nesse caminho, alguns conhecimentos se perderam e outros, como o da língua indígena, não foram repassados para as novas gerações, o que também está ligado às pressões para apagamento da cultura nos territórios. Com os processos colonizadores, os povos do Rio Negro chegaram a ser proibidos de falar suas línguas ou manterem seus rituais.
Assim, Luciane entende que, por meio do seu trabalho, acaba recuperando parte da sua história e valorizando a cultura dos povos do Rio Negro.
Para além de promover compras e vendas, o Departamento de Negócios Socioambientais atua como uma ponte entre o governo e instituições como associações e iniciativas indígenas. E vai mais adiante. Ao promover as economias da sociobiodiversidade - que são as economias dos povos indígenas, quilombolas e povos e comunidades tradicionais -, essas ações geram renda, fortalecem a cultura, os modos de vida e sistemas de saberes dos povos que ocupam ancestralmente esse território e cuidam da floresta.
E o que é a sociobioeconomia?
Luciane Lima explica que a "sociobioeconomia", embora seja um termo não indígena, pode ser traduzida como o bem viver no dia a dia das comunidades, envolvendo o trabalho com respeito à natureza e com os recursos para o futuro; é o equilíbrio entre viver em grupo e o cuidar do que temos para o bem de todos. Ela destaca que esse manejo contrasta com iniciativas predatórias.
“A palavra economia, quando falamos, vem logo a relação com dinheiro; mas para nós, a economia ou sociobioeconomia é o nosso bem viver. É o viver bem, o cuidado com a vida. É a nossa ligação com o meio ambiente e o respeito com o ciclo natural e nossa sustentabilidade; é sobre manter o equilíbrio entre as pessoas, a natureza e o bem-estar na comunidade”, diz.
Ela aponta ainda a preocupação com a emergência climática e os impactos nas roças, nas práticas e nos modos de vida indígenas. Em 2021 e 2022, o Rio Negro passou por cheia recorde ou extrema. Logo em seguida, em 2023 e 2024, foram registradas secas recordes na Amazônia. Ou seja, no alto Rio Negro, foram quatro anos seguidos de eventos climáticos extremos.
Cecília Albuquerque, Piratapuya; Luciane Lima; Janete Martins, Tariana; e Dadá Baniwa, na sede da Associação dos Artesãos Indígenas de São Gabriel da Cachoeira (ASSAI), durante a pandemia|Ana Amélia Hamdan/ISA
“A gente tem a floresta e temos muito o que cuidar, até mesmo por conta das mudanças climáticas, porque hoje a gente não consegue saber o período chuvoso, o período que a gente vai ter a plantação grande, quando vai poder tirar mandioca: porque tá dizendo que vai chover, mas aí não chove. Antes não precisávamos da meteorologia para saber. A gente sabia pelas ferramentas ancestrais mesmo. Os mais velhos falavam: "Ah, mês tal, vai chover". Esse aquecimento global vem nos afetando e a gente já não consegue mais ter isso. O nosso bem viver é estar de bem com a natureza. É esse cuidado humano com a natureza”, reflete.
As economias da sociobiodiversidade têm como base os Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs), um conjunto delicado e sofisticado de saberes e práticas que produz alimentos e fartura e, ao mesmo tempo, cuida da floresta, promovendo biodiversidade, o cuidado com a água e regulação do clima, recursos que ganham especial importância no cenário de emergência climática. O SAT Rio Negro, desenvolvido milenarmente pelos povos que vivem na região, é considerado patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Ao promover ações que cuidam e fortalecem o SAT Rio Negro, o Departamento de Negócios fortalece os povos, seus modos de vida, as roças e o meio ambiente, cuidando também do clima. Novamente, as mulheres, donas das roças, ocupam um lugar de destaque: são elas as responsáveis por cuidar das roças e promover trocas que perpetuam espécies e saberes.
Um exemplo de ação do Departamento de Negócios são as articulações para promoção do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) que, ao levar alimentação tradicional aos estudantes, fortalece o sistema agrícola.
Outro exemplo é o turismo de base comunitária, desenvolvido em parceria com as associações indígenas, que propicia a mais pessoas conhecerem de perto esses povos, seus modos de vida, sua alimentação tradicional - como o beiju, a quinhapira, a farinha, o tucupi. Entre os projetos estão o Yaripo Ecoturismo Yanomami; Serras Guerreiras de Tapuruquara e o turismo de pesca esportiva, esses dois no Médio Rio Negro.
O Departamento de Negócios da FOIRN é uma referência para outras instituições, inclusive para a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), por sua expertise em economia indígena e no acompanhamento de 17 iniciativas. Em 2023 e 2024, essas iniciativas econômicas movimentaram um total de R$7,2 milhões, com crescimento de R$3,27 milhões em 2023 para R$3,94 milhões em 2024.
Desafios e andanças
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Departamento de Negócios Socioambientais reúne economia, arte e cultura, em maio de 2018|Carol Quintanilha/ISA
Em São Gabriel, Luciane Lima - ou a Lu da Wariró - é muito conhecida. E parece estar sempre em movimento: seja em viagens pelo território indígena ou para outras partes do país - onde participa de oficinas, intercâmbios, encontros e articulações; na FOIRN, organizando a Maloca - Casa do Saber para os eventos; no Departamento de Negócios; ou cuidando das suas filhas - Evellyn, de 16 anos, e Lunna, de 12. E ainda acha tempo para participar do carnaval e das festas juninas e conceder entrevistas.
Ela começou a atuar na FOIRN em 2019, na Wariró. O que se avizinhava eram os desafios da pandemia em 2020. Nesse período, as portas da loja ficaram fechadas, mas os trabalhos continuaram internamente, com a estruturação do plano de negócios. Quando aconteceu a reabertura, a Casa Wariró estava mais organizada e fortalecida.
Rosângela Fidelis foi contratada como nova gerente da Casa Wariró, sendo que Luciane assumiu o papel de articuladora. Nessa época, para evitar aglomerações ainda devido à pandemia, foram realizados encontros com os produtores indígenas nos territórios.
Em 2021, o Departamento de Negócios foi criado e, logo em seguida, Luciane conduziu seis de sete encontros gerais de produtores, além de oficinas realizados em todas as regionais da FOIRN - Diawii; CAIMBRN; Nadzoeri; CAIBARNX e COIDI - para informar sobre a reestruturação da casa, buscando restaurar a confiança dos artesãos e incentivar a venda do artesanato.
“Com as oficinas, houve o incentivo para as mulheres venderem seus artesanatos que, às vezes, ficavam só dentro de casa. E a Casa Wariró não é só vender: é mostrar a cultura. Por isso é a Casa dos Produtores Indígenas do Rio Negro”, diz.
A Wariró foi criada em 2005 por demanda do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN/FOIRN), que tem sua história contada no documentário “Rionegrinas” do qual Luciane participa (ISA, 2023). Em 2014, um incêndio - investigado como criminoso - na sede da FOIRN destruiu a sede da Wariró, mas o centro continuou a funcionar em espaços provisórios.
Dez anos depois, em fevereiro de 2024, foi inaugurada a sede anexa da FOIRN, no Centro de São Gabriel, com novo espaço também para a Casa Wariró. Na entrada da unidade pode ser visto o grafite do artista amazônico Raiz Campos, inspirado na foto da jornalista Juliana Radler, articuladora de políticas socioambientais do Instituto Socioambiental (ISA). A imagem mostra um casal indígena na roça - a base das economias da sociobiodiversidade! Nos últimos anos, a comercialização de artesanato alcançou a taxa de 65% de crescimento (ver box Wariró).
A chegada de Luciane à Casa Wariró coincidiu com o período da crise da covid-19, assim como com um momento de crise pessoal para ela, que estava se separando e sem trabalho, tendo que assumir sozinha o cuidado das filhas ainda pequenas, enquanto também enfrentava um problema de saúde.
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Inauguração da sede anexa da FOIRN e do novo espaço Wariró, em fevereiro de 2024|Ana Amélia Hamdan/ISA
Devota de Santo Alberto, ela foi curada após fazer uma promessa e, durante três anos, conduziu a festa que homenageia o santo em frente à principal orla de São Gabriel, e ilumina com velas as águas do Rio Negro.
Ela hoje considera estar mais fortalecida. Desde 2021, Luciane conduz o Departamento de Negócios Socioambientais da FOIRN. Também ajuda a conduzir a casa Oito Mulheres, como ela chama carinhosamente a residência da sua família, próxima à principal orla de São Gabriel da Cachoeira, bem perto da praia de areias brancas do Rio Negro. Na casa, moram ela, as duas filhas, Evellyn e Lunna; a sua mãe, Lucila; suas tias Inês e Maria José; sua avó Maria da Conceição e sua tia-avó Avelina.
Luciane se vê como uma guardiã da cultura do Rio Negro, por acumular conhecimentos ancestrais e buscar um futuro que valorize as mulheres, a economia e a cultura, tanto de quem vive nas comunidades quanto de quem está na cidade. Sonha que a Casa Wariró se torne um centro comercial dos povos indígenas do Rio Negro, com a plena implementação do Wariró Sabores. Mas também sonha com a valorização das mulheres.
E finaliza com a força do povo do Trovão:
“A gente ainda sofre preconceito por ser mulher e por ser mãe solo. Quando a gente fala da violência, estamos nos referindo não só à violência física, mas à violência psicológica que a gente enfrenta diariamente dentro de uma sociedade machista. [Conforme citado acima], quando a gente ocupa esses espaços de coordenação (…) a gente empodera outras mulheres (…). Elas passam a entender que também podem ocupar esses espaços que hoje a gente vem ocupando. Não só como artesã, mas também como empreendedora, como uma mulher que sonha. A gente está em todos os espaços buscando aquilo que muitas vezes nos foi tirado lá atrás!”
Wariró: A Casa de Produtores Indígenas do Rio Negro
A Casa Wariró nasceu em 2005 como iniciativa do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro, o DMIRN/FOIRN, como uma possibilidade de gerar renda e valorizar o trabalho das mulheres.
- O nome Wariró remete a um ser mitológico que representa a fartura e a abundância, com morada na serra de Curicuriari, também conhecida como Bela Adormecida. O nome foi escolhido para simbolizar a comercialização não só de artesanato, mas também de produtos agrícolas.
- A Wariró foi criada em 2005 por demanda das mulheres indígenas, que buscavam uma forma de vender seus artesanatos a um preço justo, sem intermediação de atravessadores. A iniciativa começou como um pequeno espaço na recepção da FOIRN e, desde então, cresceu e se reestruturou, superando desafios como a pandemia de covid-19.
- É uma iniciativa fundamental para a geração de renda e o fortalecimento das mulheres indígenas, contribuindo para ampliar a participação das mulheres nas discussões políticas e em espaços de decisão dentro do movimento indígena.
- No total, 64% dos fornecedores da casa de produtores são mulheres. A casa também é uma ponte entre os clientes e os produtores e associações, fortalecendo a autonomia dos povos e promovendo o comércio justo.
- Nos últimos anos, a comercialização de artesanato alcançou a taxa de 65% de crescimento, saltando de R$235 mil em 2022 para R$390 mil em 2024. Somando o desempenho da GaleriAmazônica, o faturamento total em 2024 foi de R$1,36 milhão.
Departamento de Negócios da FOIRN
- Criado em 2021, o Departamento de Negócios da FOIRN atua como uma ponte entre o governo e instituições com associações e iniciativas indígenas, buscando a conexão e a estruturação de negócios e políticas públicas voltadas às economias da sociobiodiversidade.
- O departamento abrange diversas cadeias produtivas e iniciativas, como:
1. Artesanato: produção tradicional e cultural dos povos do Rio Negro.
2. Turismo de Base Comunitária: inclui a pesca esportiva e iniciativas de ecoturismo, como as Serras Guerreiras de Tapuruquara e o Yaripo - Ecoturismo Yanomami.
3. Produtos Alimentícios: Pimenta Baniwa, Casa de Frutas, meliponicultura (produção de mel de abelhas sem ferrão), Tucupi Preto, e outros produtos do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro.
4. Mercados Institucionais: fortalecimento das roças tradicionais através do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
- Resultados Financeiros (2023 e 2024): as iniciativas econômicas apoiadas pelo departamento movimentaram um total de R$7,2 milhões, com crescimento de R$3,27 milhões em 2023 para R$3,94 milhões em 2024.
- Os planos para o futuro incluem o desenvolvimento do Wariró Sabores, com foco na comercialização de alimentos como pimenta, tucupi preto e mel; a expansão da pesca esportiva e o apoio a projetos comunitários, como Kalipana - Casa de beneficiamento de produtos do Sistema Agrícola Kaali.
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Lideranças do Rio Negro levam debate sobre soberania linguística indígena e conectividade ao Fórum da Internet no Brasil
Debate passou pela inclusão digital, proteção de dados e fortalecimento das línguas indígenas a partir das experiências do Rio Negro
A relação entre conectividade e fortalecimento das línguas indígenas esteve em discussão nesta quarta-feira (27), durante o workshop “Vozes em Rede: Experiências de Inclusão Digital e Soberania Linguística Indígena”, realizado no 16º Fórum da Internet no Brasil (FIB), promovido pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), em Belém do Pará.
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Participaram da mesa no 16º Fórum da Internet no Brasil (FIB) Alberto Fernandes, Ray Baniwa, Dadá Baniwa, Edson Baré|Cleuber Amaro/Funai
Organizado pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e pela Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas, o encontro teve como foco as experiências do Rio Negro, território que concentra uma das maiores diversidades linguísticas do país, a partir do reconhecimento das línguas indígenas como patrimônio imaterial e base da soberania cultural, territorial e epistêmica dos povos indígenas.
Assista como foi a participação abaixo:
A atividade reuniu lideranças indígenas da região, pesquisadores e desenvolvedores para discutir os impactos, desafios e possibilidades da presença indígena no ambiente virtual. Edson Baré, diretor da Foirn e mediador da mesa, destacou iniciativas como o projeto Nheengatu Digital, desenvolvido pela Federação em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), que atua com estudantes de comunidades do Alto Rio Negro para fortalecer o uso da língua indígena em plataformas digitais. Segundo Edson, um dos desafios do projeto está justamente na adaptação tecnológica para as especificidades do Nheengatu.
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Dadá Baniwa, coordenadora da CR-Rio Negro/Funai, destacou a diversidade linguística do Rio Negro|Vanessa Fernandes/ISA
“O teclado, por exemplo, ainda precisa ser adaptado. Existem letras que são necessárias para dar a entonação correta dos sons, mas não aparecem nos teclados convencionais”, explicou.
Mesmo com as limitações, ele relatou resultados positivos nas comunidades de Juruti e Tabocal, onde cerca de 40 adolescentes já utilizam os tablets do projeto para escrever e se comunicar na própria língua no ambiente virtual.
Também integrante da mesa, a liderança Maria do Rosário Piloto Martins, conhecida como Dadá Baniwa, títular da Coordenadoria Regional Rio Negro da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai/CR-Rio Negro), destacou que o debate sobre línguas indígenas na internet precisa considerar as especificidades e diversidades dos territórios amazônicos.
Dadá lembrou que São Gabriel da Cachoeira possui 18 línguas indígenas identificadas, sendo 16 ainda faladas no município, e ressaltou que a valorização das línguas passa também pelo uso das redes sociais, pelas publicações digitais e pelo registro das memórias indígenas.
“Antes da internet, a gente já tinha nosso jeito de comunicar: pela oralidade, pelas mudanças da natureza, pelas constelações. Quando se fala das línguas na internet, também é preciso levar em consideração como elas estão sendo tratadas nesse ambiente”, afirmou.
A liderança também reforçou a importância da comunicação intercultural e das redes de comunicadores indígenas como estratégia de combate à desinformação sobre os territórios e também da valorização das línguas.
Outro ponto debatido foi a construção de acordos ortográficos para as línguas indígenas. O tema gerou reflexões sobre os limites entre oficialização e preservação da diversidade linguística e os riscos de padronizações excessivas apagarem as variações linguísticas existentes nos territórios.
Sobre este ponto, Dadá Baniwa afirmou que os acordos ortográficos não pretendem estabelecer uma “língua certa”, mas criar instrumentos de reconhecimento institucional e fortalecimento das línguas em espaços oficiais, como escolas, documentos e concursos públicos. Edson Baré acrescentou que o processo busca preservar ao máximo os diferentes dialetos e variantes regionais.
Soberania digital e autonomia tecnológica
Ao refletir sobre a chegada da internet ao Rio Negro, Ray Baniwa, cofundador da Rede Wayuri e doutorando em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lembrou que os povos indígenas do Rio Negro já convivem com processos de contato e adaptação tecnológica há décadas. Segundo ele, que tem pesquisas centradas no impacto da internet e das tecnologias digitais nas comunidades indígenas sob uma perspectiva decolonial, o uso da internet se tornou uma ferramenta fundamental para afirmar a existência e a diversidade dos povos no ambiente digital.
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Alberto Fernandes e Ray Baniwa refletiram sobre autonomia tecnológica e soberania digital|Vanessa Fernandes/ISA
“Foi necessário usarmos as tecnologias para mostrar que existimos. Antes era o rádio, agora é a internet”, afirmou Ray, destacando ainda que grande parte das iniciativas de inclusão digital na região surgiu das próprias organizações indígenas, diante da ausência de políticas públicas estruturadas para as comunidades mais distantes. Mesmo quando a política chega, na opinião dele, muitas vezes ela esteve desconectada da realidade local.
Ele lembrou experiências conduzidas pelas lideranças da Foirn e pelo projeto Conexão Povos da Floresta, ressaltando que iniciativas locais conseguem integrar conectividade e letramento digital de maneira mais próxima da realidade das comunidades. Ray aproveitou para fazer um alerta.Para ele, além do acesso à internet, é necessário discutir os impactos sociais e culturais da hiperconectividade, especialmente entre crianças e adolescentes indígenas, que já enfrentam situações de golpes, violência digital e afastamento dos espaços tradicionais de transmissão de saberes.
Durante as perguntas do público, participantes levantaram preocupações sobre o uso de plataformas privadas controladas pelas big techs, como Starlink, Meta e Google, e os riscos relacionados à vigilância de dados linguísticos indígenas.
Ray reconheceu que as comunidades acabam se tornando reféns das grandes empresas de tecnologia diante da ausência de alternativas públicas acessíveis. “Hoje é muito difícil pensar soberania sem discutir alternativas às big techs”, afirmou. Ao mesmo tempo, destacou que as comunidades vêm construindo protocolos próprios sobre o que pode ou não ser compartilhado no ambiente virtual. “Nossos sábios nos orientam sobre o que pode ser publicado. Tem conhecimento que só pode ser transmitido presencialmente, dentro da comunidade”, explicou.
A preocupação com a formação técnica também foi defendida por Alberto Fernandes, técnico de telecomunicações que atua na região do Rio Negro que também integrou a mesa. Ele questionou por que ainda há tão poucos investimentos na capacitação local para instalação e manutenção dos equipamentos de conectividade.
Alberto citou o projeto Rio Negro Solar, desenvolvido pela Foirn em parceria com estudantes da Unicamp, voltado à formação técnica em energia fotovoltaica, como exemplo de iniciativa que alia autonomia tecnológica e permanência dos conhecimentos nos territórios.
Nas considerações finais, Ray Baniwa chamou atenção para a necessidade de refletir também sobre o direito à desconexão. “Desconectar também é estar conectado à terra, aos pais, à ancestralidade”, afirmou. Para ele, a presença da internet nos territórios indígenas não pode significar imposição, mas uma escolha consciente das comunidades sobre como, quando e para quê utilizar a tecnologia.
O comunicador também destacou a importância de o FIB abrir espaço para o debate sobre conectividade e povos indígenas. Segundo ele, ao longo dos anos tem sido possível observar o crescimento da participação indígena e de populações tradicionais no evento, ampliando a presença desses territórios nas discussões sobre tecnologia e governança digital.
Em 2025, a Rede Wayuri participou da 15ª edição do FIB, realizada em Salvador (BA), promovendo o workshop “Teias de Conexão: Retrato da Conectividade nas Comunidades Indígenas”. Na ocasião, o debate abordou os impactos da conectividade em comunidades indígenas do Médio e Alto Rio Negro, a partir das experiências do projeto de inclusão digital promovido pela Foirn.
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Relatório aponta redução do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, mas invasores persistem com novas táticas
Desmatamento por atividade ilegal teve pico em 2022 com aproximadamente 1.800 hectares desmatados, enquanto em 2025 foram detectados novos 45,2 hectares de desmatamento
O desmatamento causado pelo garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami apresentou expressiva redução nos últimos três anos, após expansão nos anos de 2021 e 2022. É isto que aponta o novo relatório do Instituto Socioambiental (ISA) lançado nesta sexta-feira (22/05), em parceria com o programa MAAP (Monitoring of the Andes Amazon Program), iniciativa da Amazon Conservation Association.
Imagens de sobrevoo realizado em abril de 2026 confirmam dados do monitoramento por satélite|Fabrício Marinho/Platô/ISA
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Área degradada mostra o garimpo realizado com maquinário pesado em Ericó|Fabrício Marinho/Platô/ISA
Segundo o documento, o mapeamento sugere que os invasores têm alterado a sua forma de atuar, em resposta ao aumento da fiscalização, operando de maneira mais descentralizada e se deslocando para zonas mais próximas à fronteira com a Venezuela. Estes dados são corroborados por denúncias registradas no Sistema de Alertas da Terra Indígena Yanomami, que evidenciam a persistência de invasões aéreas e fluviais.
Além do documento, o ISA realizou um sobrevoo em 23 de abril de 2026 nas regiões de Ericó, Palimiu, Waikás, Parafuri e Palimiu que registrou imagens comprovando o monitoramento feito por satélite das áreas desmatadas.
Conforme o relatório, a TI Yanomami acumula 5.564 hectares de área degradada pelo garimpo. O material elaborado pelo ISA e Amazon Conservation Association contou também com a parceria da Hutukara Associação Yanomami (HAY) e da Associação Wanasseduume Ye’kwana (Seduume).
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Incremento anual da área afetada pelo garimpo na TIY
Em 2025, houve o registro de 45,2 novos hectares desmatados em razão do garimpo ilegal no território, quase metade dos 84 hectares registrados em 2024. Conforme o documento, este dado é um alerta de cautela, pois apesar da desaceleração da exploração mineral, a abertura de novas áreas mostra que a atividade ilegal não foi totalmente neutralizada.
Em 2023, quando o Governo Federal instaurou uma Emergência de Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) no território, houve o registro de 330 hectares de expansão - uma redução de 81,6% em relação ao ano anterior.
O ano de 2020 teve 400 hectares desmatados e em 2021 subiu acima de 1.000 hectares. Já 2022, teve o maior registro de crescimento com aproximadamente 1.800 hectares desmatados.
Este monitoramento é realizado mensalmente a partir da interpretação visual de imagens de satélites por especialistas em geoprocessamento. A partir destas imagens, são desenhados os polígonos de degradação. Todos os meses, as regiões impactadas são revisitadas para refinar o mapeamento e checar possíveis equívocos.
Novas áreas impactadas
Em 2025, o mapeamento encontrou 121 polígonos de novas áreas impactadas pelo garimpo ilegal. Sendo 90% destes polígonos com um hectare ou menos. Os dois polígonos de maior área - cerca de quatro hectares em ambos - estão localizados na região do Parima e Surucucus, mais especificamente próximo à pista do Feijão Queimado, em Roraima.
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Área afetada pelo garimpo na TI Yanomami com destaque para as zonas de maior impacto em 2025: Ericó, Cabeceira do Aracaçá, Hokomawaë, Parima-Parafuri, Surucucus (Feijão Queimado) e Couto Magalhães.
O documento aponta, ainda, que os garimpeiros ilegais têm dispersado a atividade, evitando áreas de grande concentração como ocorria antes do início das operações do governo federal. Núcleos antes explorados à exaustão, como Alto Catrimani, Médio Uraricoera e Homoxi, aparentam estar relativamente neutralizados.
Novas táticas
Para driblar a fiscalização, os invasores insistem na tática de se mover para locais mais próximos da fronteira com a Venezuela. Neste sentido, o relatório identificou cicatrizes em Parafuri-Parima, Hokomawë e Cabeceira do Aracaçá.
Em 2025, o Sistema de Alertas da Terra Indígena Yanomami, idealizado e utilizado pelas organizações da Terra Indígena Yanomami, registrou pelo menos cinco alertas referentes à movimentação de aeronaves clandestinas na região de Auaris. Na maioria dos casos, as aeronaves voavam no sentido de Hokomawë, em direção à pista do Gaúcho Animal, situada na boca do Rio Auaris, ou em direção à pista situada na cabeceira do Rio Aracaçá.
Para o geógrafo do ISA, Estêvão Senra, com o valor do ouro atingindo patamares históricos no mercado internacional, a pressão do garimpo é constante.
“Operações de desintrusão são o primeiro passo indispensável, mas sozinhas elas não resolvem o problema estrutural. Sem estratégias de proteção territorial de médio e longo prazo, que envolvam vigilância permanente e melhorias na regulação da cadeia do ouro, há um grande risco de observarmos uma nova onda de invasão num futuro próximo."
O mesmo comportamento foi observado em outras áreas da Amazônia onde houve operações de desintrusão e fiscalização, como a região de Madre de Dios, no Peru, que chegou a destruir mais de 100 dragas de mineração nos últimos anos. Agora, dados de satélite mostram o retorno de incursões em áreas protegidas, como a Reserva Nacional de Tambopata, em relatório lançado recentemente também pelo MAAP.
Matt Finer, diretor do programa MAAP na Amazon Conservation, reforça que os dados mostram que os governos têm capacidade de reduzir o garimpo ilegal quando há intervenções coordenadas e esforços efetivos de fiscalização. “Na Terra Indígena Yanomami, o garimpo ilegal atingiu seu pico entre 2021 e 2022, mas caiu significativamente após a grande intervenção do governo brasileiro, iniciada em 2023. No entanto, como observamos recentemente no Peru e na Venezuela, essas ações precisam fazer parte de um esforço contínuo e de longo prazo. Caso contrário, o garimpo ilegal tende a retornar rapidamente.”
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Alertas territoriais em 2025 por região
Alertas territoriais
Em 2025, o sistema de alertas registrou um total de 66 alertas territoriais. Destes, 83% tratavam-se de alertas de invasão, que congregam informações sobre movimentação de aeronaves clandestinas, barcos, balsas, entre outros veículos. Houve registro também de situações de ataque e entrada de arma de fogo.
O sistema de alertas é uma iniciativa das organizações da Terra Indígena Yanomami: Hutukara Associação Yanomami, Associação Wanasseduume Ye’kwana, Urihi Associação Yanomam, Parawamë, Kurikama, AYRCA e Kumirayoma, com suporte técnico do ISA e apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A ferramenta começou a ser implementada em 2023.
O sistema permite que monitores comunitários enviem alertas via formulário com fotos, vídeos, áudios e geolocalização, inclusive offline. As informações são validadas e traduzidas por pesquisadores indígenas, organizadas em um painel público e encaminhadas para as autoridades. A ferramenta está disponível em quatro idiomas: Yanomami, Ye’kwana, Sanoma e português.
Entre as regiões que registraram alertas de invasão do espaço aéreo, além de Auaris, estão: Xitei, Alto Catrimani e Apiaú (possivelmente associado ao garimpo no Rio Couto Magalhães).
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Pista do Gongo, situada na cabeceira do Rio Aracaçá, é uma das utilizadas para driblar a fiscalização|Fabrício Marinho/Platô/ISA
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Balsa afundada no Rio Uraricoera, que tem sido utilizado para escoamento de cassiterita e entrada de insumos|Fabrício Marinho/Platô/ISA
“No caso do Catrimani, é notável a relação desta movimentação com o garimpo praticado na cabeceira do Orinoco, em território Venezuelano, uma das zonas de maior movimentação garimpeiros dos últimos anos”, descreve trecho do relatório.
A Pista do Taboca, localizada na Venezuela, é apontada como uma parte estratégica da logística que mantém o garimpo no Brasil. Essa pista dá suporte aos invasores que insistem na mineração nas regiões do Alto Catrimani e Xitei.
Conforme o relatório, a região do Ericó, zona acessível pelo Rio Uraricaá, registrou sinais significativos de desmatamento relacionados à atividade garimpeira. Durante a fase mais crítica da invasão, havia registros de dragas trabalhando no Rio Uraricaá, mas sem sinais de garimpo em terra firme. O cenário parece ter mudado como parte da estratégia dos invasores para fugir das operações em áreas mais críticas.
As denúncias enviadas pelo sistema de alertas também apontam a persistência de invasões pelos rios Uraricoera, Catrimani, Apiaú e Ajarani. Há casos de tráfego de balsas, operação de dragas, escoamento de cassiterita e entrada de insumos para os acampamentos.
O Baixo Catrimani é a região que mais reportou situações de invasão pelo rio. De abril a dezembro de 2025, os Yanomami enviaram nove alertas sobre a presença de balsas, dragas e circulação de barcos suspeitos.
Com o lema “socioambiental se escreve junto”, o Instituto Socioambiental (ISA) foi fundado em 1994. Desde então, o ISA trabalha lado a lado com parceiros históricos de comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais para desenvolver soluções que protejam e restaurem seus territórios, fortaleçam suas culturas e conhecimentos tradicionais, elevem seus perfis representativos, desenvolvam economias sustentáveis e lideradas pelas comunidades e valorizem suas contribuições para a adaptação e mitigação das mudanças climáticas.
Sobre o MAAP
O Monitoring of the Andean Amazon Project (MAAP) é uma iniciativa da Amazon Conservation, da Conservación Amazónica–ACCA (Peru) e da Conservación Amazónica–ACEAA (Bolívia), que fornece análises técnicas de ponta sobre desmatamento, mineração e incêndios em toda a Amazônia. O MAAP utiliza imagens de satélite, ciência de dados e informações de campo para produzir relatórios oportunos que apoiam ações de conservação e a formulação de políticas públicas.
Sobre a Amazon Conservation
A Amazon Conservation é uma organização internacional sem fins lucrativos que há mais de 25 anos atua para promover uma Amazônia saudável e resiliente. Sua abordagem integrada se baseia no trabalho com parceiros locais e aliados para proteger áreas naturais, fortalecer comunidades e aplicar ciência e tecnologia em prol da conservação. Para mais informações, visite amazonconservation.org.
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Da damurida ao pudim: como as mulheres da Serra da Lua reinventaram o uso do tucupi
Inspirada por Ana Maria Braga, uma cozinheira Wapichana resolveu experimentar o tucupi preto em pães, pudim e sorvete
“O sabor é diferente, não é um doce mel, é um doce um pouco amargo”. É assim que Norma Pereira, uma cozinheira indígena de Roraima, descreve o sabor do tucupi preto - uma reinvenção do tradicional tucupi amarelo - feito pelas mulheres wapichana que vivem na Serra da Lua, em Roraima.
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Norma é uma wapichana que descobriu o talento para cozinhar assistindo e experimentando as receitas de Ana Maria Braga|Fabrício Araújo/ISA
Derivado da mandioca brava, o tucupi é um preparo artesanal de fermentação, típico dos indígenas do Norte. É como se fosse uma calda de mandioca cujo preparo leva horas de cozimento para remover toxinas venenosas.
Já o tucupi preto é uma redução do amarelo, tem uma consistência similar a de brigadeiro de panela e durante décadas apenas quatro mulheres de Roraima - Carol, Lorena, Terezinha e Norma - eram capazes de prepará-lo. As wapichana que viviam mais próximas à Guyana Inglesa foram as responsáveis por desenvolver a receita.
Enquanto o tucupi amarelo era usado em molhos de pimenta e tacacá, o preto tinha o uso restrito à damurida, um prato típico dos indígenas de Roraima, um tipo de sopão de peixe com pimentas.
Há uma década, Norma e a até então sogra Carolina da Silva enxergaram um potencial maior na iguaria preta. Em uma conversa rotineira, elas resolveram experimentar o ingrediente em saladas, pato, frango, pães, pudins e até sorvete.
“O amarelo serve para fazer damurida, para preparar molho de pimenta. Já o tucupi preto também usávamos para a damurida, mas eu resolvi experimentar na galinha caipira, no pato e como molho para salada. Depois, eu tive a ideia de fazer um pudim de tucupi preto. Eu nunca vi ninguém fazer, mas tive curiosidade e quis experimentar.”, disse Norma.
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Damurida é um dos pratos típicos mais populares de Roraima, sendo comum na dieta dos indígenas|Fabrício Araújo/ISA
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O tucupi negro dá o gosto adocicado ao pudim não sendo necessária a adição de açucar|Fabrício Araújo/ISA
A cozinheira wapichana descobriu a paixão pela culinária na vida adulta. Se inspirou em Ana Maria Braga reproduzindo receitas exibidas no programa Mais Você, cozinhou em dezenas de eventos na Terra Indígena Yanomami e criou receitas com o tucupi preto que encantaram a comunidade dela.
As comunidades Wapichana da região do lavrado de Roraima são tradicionalmente agricultoras de mandioca e produtoras de farinha. O tucupi é um dos subprodutos da mandioca com os quais os Wapichana trabalham.
A descoberta da profissão
Norma é uma cozinheira natural da Terra Indígena Tabalascada, localizada na região da Serra da Lua, no município de Cantá, em Roraima - o estado mais ao norte do Brasil.
A wapichana trabalha desde os 13 anos, foi babá, doméstica, manicure, mas só começou a se descobrir como cozinheira aos 29 anos quando iniciou a venda de cachorro-quente e salgados durante o dia e espetinhos de churrasco durante a noite.
“Eu aprendi a fazer salgados com o senhor que me fornecia para venda. Um dia ele resolveu ir embora e só me disse: ‘não vou mais vender salgado para você. Eu vou te ensinar a fazer e vou deixar meus materiais para você’”, relembrou com um sorriso no rosto.
Quando chegou aos 36, Norma sentiu vontade de explorar receitas diferentes e resolveu testar o que via Ana Maria Braga preparar em seu programa de TV no canal aberto. Ela ainda lembra exatamente qual foi a primeira receita que replicou.
“Eu sempre gostei de assistir a Ana Maria. Admirava as receitas até que resolvi experimentar. A primeira receita que eu repliquei dela foi um bolo de abacaxi, na hora que eu vi, eu pensei: ‘vou fazer para o Natal’”, contou.
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Norma exibindo o sorvete de tucupi preto que fez especialmente para equipe do ISA em Roraima|Fabrício Araújo/ISA
Norma administrou o próprio negócio por um ano e meio. Então, em junho de 2004 recebeu o convite para se juntar à equipe de cozinha do Instituto Insikiran, um espaço de formação superior para indígenas da Universidade Federal de Roraima (UFRR).
“Na cozinha do Insikiran, nos dias de quarta-feira e sexta-feira, eu ficava na churrasqueira assando carne para 500 alunos. Também ajudava fazendo salgados, bolo e suco para os estudantes”, contou com orgulho da própria trajetória.
Até que em julho de 2007 ela recebeu o convite para cozinhar nos eventos da Hutukara Associação Yanomami (HAY). Desde então, ela nunca mais parou de trabalhar em parceria com a HAY e com o Instituto Socioambiental (ISA).
Norma afirma que já perdeu as contas de quantas visitas fez ao território Yanomami, tendo atuado principalmente na região do Demini, local que tem o xamã Davi Kopenawa como maior liderança.
“Estive em todos os Fóruns de Lideranças da Terra Indígena Yanomami, em todas as assembleias da Hutukara, quase todos os Encontros de Mulheres, estive em várias oficinas de formação. São 19 anos de relação com os yanomami e ye’kwana e estive, inclusive, no aniversário de 20 anos da Hutukara”, afirmou.
Atualmente, ela conta com uma equipe de seis ajudantes que a acompanham em eventos promovidos pelo ISA e pela Hutukara. Sobre o futuro, ela só tem uma certeza: “não me vejo parando de cozinhar, é o que eu gosto”.
Preparo tradicional
O tucupi é um ingrediente tradicional dos indígenas do norte do Brasil. Usado em molhos de pimenta, tacacá e na damurida, ele acrescenta textura e sabor aos pratos. O cozimento do tucupi leva horas, pois exige cuidado para retirar a toxina venenosa que, segundo Norma, é capaz de “derrubar um boi”.
“O tucupi para quem não conhece é difícil explicar, mas ele vem da mandioca. É uma calda de mandioca, é isso que é o tucupi”, explica Carolina da Silva, a wapichana que ensinou Norma a como reduzir o tucupi amarelo.
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O tucupi amarelo das mulheres da Serra da Lua leva horas para ficar pronto e exige cuidados|Fellipe Abreu/National Geographic
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Embalagem do tucupi preto produzido pelas wapichana para venda|Fabrício Araújo/ISA
As mulheres da Serra da Lua trabalham em todas as etapas desde a plantação. Elas colhem, raspam, lavam, sevam, retiram a goma, deixam o líquido decantar por seis horas, coam dentro de uma panela e cozinham em fogo médio.
“Esse cozimento precisa ser no fogo de lenha, conforme se cozinha, sobe uma espuma que é o veneno do tucupi, então vamos tirando a espuma, quando reduzir dois dedos tira o panelão do fogo, passa para outra panela coando e cozinha até reduzir”, explica Norma.
O processo de cozinhar e coar é repetido até que o tucupi amarelo fique preto. Norma afirma que ele está no ponto certo quando começa a parecer um brigadeiro. Em nenhuma etapa as mulheres adicionam açúcar à mistura e ainda assim o tucupi preto possui um sabor forte de doce, mas não chega a ser enjoativo.
Ainda de acordo com Norma, o tucupi preto demanda grande quantidade de mandioca. Em um de seus testes ela chegou a reduzir 60 litros de tucupi amarelo que renderam 2,5 litros de tucupi preto. Atualmente, cada pote de tucupi preto é vendido com 300ml.
Os Baniwa que vivem no Rio Negro também produzem o tucupi preto, mas com diferenças de sabor, textura e coloração da iguaria wapichana. O dos Baniwa costuma ser mais ácido lembrando um molho shoyu.
Marcolino da Silva, analista do ISA, pesquisou a agricultura tradicional da Tabalascada. Ele analisou a relação dos produtos com o avanço do capital em uma monografia publicada em 2018. Esta pesquisa aponta a mandioca como um produto base na alimentação e economia dos wapichana.
“A mandioca é o alimento básico e mais tradicional, é consumida na forma natural em alimentos derivados, como o caso do beiju, a farinha d’água, goma, farinha de goma, carimã, tucupi, sobretudo, é utilizada também na produção de bebidas, como, pajuarú ou caxiri servidos como complementação de alimentação. Geralmente, o caxiri, por exemplo, é servido nos trabalhos comunitários ou nos trabalhos individuais e em festas comemorativas culturais”, diz trecho da pesquisa.
Kanyzzy Pudidi’u e a retomada do conhecimento
Natural de uma área da Terra Indígena Tabalascada, muito próxima à Guyana Inglesa, Carolina afirma que o segredo no preparo do tucupi preto já era conhecido há décadas pelas mulheres que vieram antes dela na família.
“Eu aprendi a fazer há muito tempo, as minhas avós já faziam o tucupi, mas era só para a damurida. Eu aprendi quando tinha oito anos e tem uns 20 anos que trabalho com o tucupi negro. Depois que montamos o projeto, ensinamos como fazer para os mais jovens. Há vários que estão aprendendo e não são só mulheres, não”, afirma Carol.
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Carol da Silva preparando uma damurida durante o Festival do Beiju em Roraima|Fabrício Araújo/ISA
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Mickelly Pereira e os pudins de tucupi preto preparados por Norma|Fabrício Araújo/ISA
Durante anos, o conhecimento ficou compartilhado entre apenas quatro mulheres até que Norma e Marcolino buscaram o ISA em julho de 2017 a fim de fortalecer o projeto Kanyzzy Pudidi’u (nome do tucupi preto em Wapichana), envolvendo a juventude e mostrando as possibilidades gastronômicas do produto para cozinheiros também de fora das aldeias.
O propósito era repassar os conhecimentos aos mais jovens a partir da perspectiva de valorização dos produtos da roça, do trabalho e dos conhecimentos das agricultoras indígenas.
Assim, o projeto começou com oficinas de formação envolvendo 30 pessoas. Entre os participantes, havia dois professores com o objetivo de levar o conhecimento para as escolas da Tabalascada.
O ponto de encontro para as oficinas era o Sítio Recanto da Roça. Antes, o local havia sido invadido e transformado em uma fazenda. Então, após a homologação da Terra Indígena Tabalascada, em 19 de abril de 2005, ocorreu a desintrusão e este sítio se tornou um espaço comunitário.
Por ser um símbolo de retomada para os Wapichana, o Sítio Recanto da Roça também foi escolhido para a construção da Casa da Mandioca. O local guarda ferramentas necessárias para a abertura de roças, pois o tucupi demanda grande quantidade de mandioca, e para o preparo de produtos diversos, como farinha e beiju.
No início, Norma era a responsável por conduzir o projeto. Então, com o conhecimento difundido, a comunidade decidiu que era a hora de passar o bastão para a juventude. Mickelly Pereira é coordenadora do projeto atualmente.
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Obras de Davi Kopenawa, Ailton Krenak e Nêgo Bispo estão na lista de melhores livros de não ficção do século 21
A Queda do Céu foi eleito o melhor livro na seleção do jornal Folha de S.Paulo; Ideias para Adiar o Fim do Mundo e Dar Terra à Terra reforçam presença indígena e quilombola no topo da literatura brasileira
O jornal Folha de S.Paulo elegeu “A Queda do Céu” como o melhor livro brasileiro de não ficção do século 21. A obra de Davi Kopenawa e Bruce Albert foi indicada por 23 dos 100 jurados que ajudaram a elaborar a lista.
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Em ritual durante a comemoração dos 30 anos da Terra Indígena Yanomami, o xamã Davi Kopenawa segura o céu na Aldeia Xihopi, Amazonas|Christian Braga/ISA
Lançado em 2010, originalmente em francês, “A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami” reúne reflexões de Davi Kopenawa, contadas ao amigo Bruce Albert, sobre o contato de seu povo com os não indígenas desde os anos 1960.
O livro do maior líder indígena yanomami, Davi Kopenawa, tem 768 páginas e foi publicado no Brasil em 2015 pela Companhia das Letras, com apoio da Hutukara Associação Yanomami (HAY) e do Instituto Socioambiental (ISA).
A Folha de S.Paulo afirma que o resultado da votação é “uma seleção de livros instrumentais para entender melhor o Brasil e o mundo de hoje, analisando como chegamos até aqui e sugerindo novos ângulos para mirar adiante”. O jornal descreve o livro como “a obra que marcou a disseminação do pensamento indígena no Brasil”.
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Davi Kopenawa Yanomami fala sobre o seu livro A Queda do Céu - Palavras de um xamã yanomami em roda de conversa do ISA, em 2015|Claudio Tavares/ISA
Em 2025, a obra já havia aparecido na lista de melhores livros de literatura brasileira em uma eleição organizada pela Folha de S. Paulo com 101 jurados, diferentes dos que participaram da lista atual.
“A Queda do Céu” inspirou o enredo da Salgueiro no desfile de 2024, denominado “Ya Temi Xoa” (Ainda Estamos Vivos, em tradução literal para o português) com um desfile que projetava a cosmovisão yanomami. Os bastidores e a festa resultaram em um filme, fruto de parceria entre o ISA e HAY, disponível no YouTube. Assista abaixo:
Além de ter se tornado um marco teórico e leitura obrigatória para a Antropologia contemporânea, o livro figura como obra de referência em diversas áreas do conhecimento e regiões do país – inclusive na própria Universidade Federal de Roraima (UFRR), uma das instituições em que Davi recebeu o título de doutor honoris causa. A Queda do Céu também vem inspirando pesquisadores indígenas na academia, como é o caso dos primeiros mestres yanomami, formados pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), na metodologia de suas dissertações de Mestrado.
Os exercícios de escrita colaborativa entre a liderança yanomami e o antropólogo não indígena que resultaram na obra foram iniciados há décadas, parte deles publicados na seção “Narrativas Indígenas”, da série Povos Indígenas no Brasil, do ISA. Confira Sonhos das origens/Descobrindo os brancos, narrativa publicada no ano 2000.
A obra também se desdobra em produções audiovisuais, como o curta-metragem “Mãri hi – A árvore do sonho”, do cineasta Mozarniel Yanomami – vencedor do Festival É Tudo Verdade em 2023 – e um longa-metragem com o mesmo nome do livro, lançado em 2024 após estreia no Festival de Cannes. O documentário é centrado no reahu - festa tradicional dos Yanomami - e apresenta a cosmologia do povo Yanomami, o mundo dos espíritos Xapiri pë, o trabalho dos xamãs para segurar o céu e curar o mundo das doenças produzidas pelos não-indígenas, o garimpo ilegal, o cerco promovido pelo povo da mercadoria e a vingança da Terra.
Autorias indígenas e quilombolas em destaque
Além de A Queda do Céu, outro livro de autoria indígena figura na lista do jornal: Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak. A obra deste que foi o primeiro escritor indígena a ter assento na Academia Brasileira de Letras (ABL), recebeu 17 votos e figura em 4º lugar na seleção.
No 21º lugar ficou a obra Dar terra à terra, de Nêgo Bispo, aclamado escritor e liderança quilombola do Quilombo do Saco-Curtume, no Piauí, falecido em 2023.
Entre os jurados votantes, estiveram especialistas como a psicóloga indígena Geni Nũnez, do povo Guarani, o jornalista não indígena Rubens Valente, além de pesquisadores não indígenas como Muniz Sodré, Tiganá Santana, Márcia Lima, Aparecida Vilaça, Débora Diniz, entre outros.
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Revista Aru nº 7 celebra trajetórias e saberes de mulheres indígenas do Rio Negro
Publicação reúne 21 textos de autoras do Brasil e da Colômbia, exalta a trajetória das mais velhas e reafirma o protagonismo feminino indígena na produção de conhecimento
A maloca Casa do Saber, da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), em São Gabriel da Cachoeira (AM), foi palco do lançamento da sétima edição da revista de pesquisa intercultural da Bacia do Rio Negro, Aru. Dedicada às mulheres indígenas da região e com caráter binacional, a edição reúne 21 textos de autoras indígenas e não indígenas do Brasil e da Colômbia, propondo uma reflexão ampla sobre o ser mulher na bacia do Rio Negro.
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Autoras e organizadora da Aru durante lançamento da sétima edição da revista|Vanessa Fernandes/ISA
Realizado nesta segunda-feira (27/04), o evento reuniu lideranças indígenas, estudantes e autoras em uma tarde marcada pela celebração, memória e reconhecimento da trajetória das mulheres rionegrinas, evidenciando o papel das mais velhas como precursoras do movimento indígena feminino na região – muitas vezes silenciadas ao longo da história.
Inspirada nas sociocosmologias indígenas da região, a publicação parte da ideia da mulher como agente de transformação, associada ao movimento, à renovação e à capacidade de recriar mundos. A edição articula gênero, território e identidade a partir de perspectivas interseccionais, reafirmando que as experiências das mulheres indígenas estão em constante transformação e só podem ser compreendidas em relação a dimensões sociais, culturais e políticas mais amplas.
Dulce Morais, assessora de gênero do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA) e uma das editoras desta edição, explica que o processo de construção da publicação partiu das próprias experiências das mulheres da região.
“No processo de organizar os textos, partimos dos múltiplos temas trabalhados e discutidos pelas mulheres indígenas do Rio Negro e também de quem caminha junto com elas, no intuito de ampliar os conhecimentos que circulam nas comunidades para um público maior, seguindo com o propósito da Aru”, afirmou.
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Capa da Revista Aru nº 7|Larissa Duarte, do Povo Tukano
Neste contexto, a assessora chama atenção, ainda, para o simbolismo da capa desta edição, ilustrada por Larissa Duarte, do povo Tukano. Produzida com tinta de urucum e técnica de aquarela, a arte traz a imagem da cobra-canoa, elemento central nas narrativas de origem da região.
A ilustração destaca que a travessia não é feita apenas por homens, mas também por mulheres, muitas vezes invisibilizadas nessas histórias. Representadas no interior da cobra-canoa, elas simbolizam a trajetória de formação da humanidade, ao longo da qual os povos foram aprendendo a benzer, caçar e curar, recebendo os conhecimentos que seguem vivos até hoje.
Organizada em seis eixos temáticos, a revista aborda desde participação política e economia indígena até saúde, violência contra mulheres, saberes tradicionais e mudanças climáticas, incluindo reflexões no contexto da COP30.
Durante o lançamento, cinco autoras compartilharam com o público os processos de escrita e as experiências que deram origem aos seus textos: Elizabete Moraes, Tukano, advogada e multiartista; dona Cecília Albuquerque, Piratapuia, liderança histórica e ex-coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas (Dmirn) da Foirn; Cleocimara Reis, Piratapuia, atual coordenadora; Rosijane Moura Tukano, doutoranda; e Carlinha Lins Yanomami, presidente da Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (Amyk), de Maturacá.
No início do evento, Dulce resgatou o significado de Aru nas narrativas de conhecedores de diferentes povos do Rio Negro: um personagem que avança de leste para oeste, remando rio acima, trazendo consigo o frio e o chuvisco que fertilizam as roças recém-plantadas com ideias e reflexões para fortalecimento das vozes indígenas na região.
Abrindo os diálogos da mesa de autoras, Cleocimara Reis ressaltou os avanços construídos ao longo dos anos pelo Departamento de Mulheres, especialmente no enfrentamento à violência de gênero e na ampliação da participação feminina nos espaços de decisão.
Segundo ela, as conquistas atuais são fruto de uma trajetória coletiva de luta e resistência. “Somos o sonho das mulheres que vieram antes da gente. Ocupamos todos os espaços que também são nossos”.
As falas evidenciaram que escrever para a revista, para muitas delas, foi também um exercício de memória, resistência e continuidade. Rosijane Moura destacou que seu texto nasce das histórias de outras mulheres que a formaram ao longo da vida.
“Hoje, eu sou formada por várias mulheres indígenas que eu tive a oportunidade de conhecer”, afirmou ela ao lembrar trajetórias marcadas por dificuldades, violência e também por saberes e ensinamentos transmitidos entre gerações.“Se hoje eu estou aqui, é graças a essas mulheres que enfrentaram, que sofreram, muitas vezes em silêncio”, completou durante a fala.
Já dona Cecília Albuquerque relembrou os primeiros anos de atuação do Dmirn, marcados por desafios e ausência de recursos. “Nós éramos as primeiras a enfrentar vários desafios, onde não tínhamos nada. Até bote e motor a gente tinha que carregar. Mas, com muito sacrifício, fizemos nosso trabalho”, contou.
Ela destacou ainda que uma das principais lutas foi pelo reconhecimento dos direitos das mulheres indígenas e pelo direito à fala: “Nós temos os mesmos direitos. Podemos não ter a mesma força, mas a nossa fala, a nossa inteligência é a mesma”.
A fala de Carlinha Yanomami trouxe o processo de criação da associação Kumirayoma, formada por mulheres Yanomami que buscavam conquistar espaço de participação. “A gente não tinha esse espaço. As reuniões eram decididas pelos homens e nós apenas ouvíamos”, relatou.
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Dona Cecília Albuquerque, Cleocimara Reis e Rosijane Moura em diálogo sobre a construção da Aru 7|Vanessa Fernandes/ISA
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Carlinha Yanomami, presidente da Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (Amyk)|Vanessa Fernandes/ISA
A partir da organização coletiva, ela contou, foi possível avançar em pautas fundamentais, como o enfrentamento à violência. “Hoje as mulheres estão conseguindo perceber o que é violência e falar sobre isso nas comunidades”.
Para Carlinha, o trabalho também envolve fortalecer as novas gerações e manter vivas as práticas culturais. “A cestaria não é apenas cestaria, ela é ancestralidade. Não podemos perder isso com a juventude”, finalizou.
A multiartista Elizabete Moraes destaca a escrita como forma de expressão sensível e política do feminino, conectada à memória, à espiritualidade e à relação com a natureza. “O feminino está em tudo, em todos os lugares”, afirmou.
Sua fala também reforçou a importância da imaginação e da escuta interna como caminhos de criação e afirmação identitária, especialmente para crianças e adolescentes presentes no evento.
Após a mesa de falas, o público participou com perguntas e comentários, em um momento de troca entre gerações. Em seguida, Janete Alves, do povo Desana, vice-presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro e ex-coordenadora do Departamento de Mulheres, ressaltou a importância da publicação como reconhecimento do trabalho e das pesquisas realizadas pelas mulheres indígenas, além de seu papel no fortalecimento do trabalho intercultural no Rio Negro.
O encontro foi encerrado com um café coletivo, mantendo o clima de acolhimento e celebração que marcou toda a tarde.
Esta publicação e evento de lançamento foram realizados pelo ISA, em parceria com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), com apoio da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), Aliança Pelo Clima (ApC) e TerrIndígena.
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