Mulheres yanomami também lançam manifesto e demandam o direito de continuar criando seus filhos com saúde
Os povos da Terra Indígena (TI) Yanomami, a maior do Brasil, lançaram nesta sexta-feira (23/10) duas cartas abertas endereçadas ao povo brasileiro sobre as eleições do próximo domingo. Os documentos foram divulgados pela Rede Pró-Yanomami e Ye’kwana.
A primeira carta foi redigida no dia 27/9, antes do primeiro turno das eleições, durante o Encontro das Mulheres Yanomami, realizado na comunidade Rokoari. A segunda data do dia 19/10 e é assinada pelo Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana, composto por oito associações da TI Yanomami.
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Em ambas, a memória do sofrimento e das mortes evitáveis causadas pela invasão garimpeira, estimulada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, dão o tom dos apelos.
“Não queremos que nossos filhos voltem a morrer, queremos poder continuar a viver em uma floresta saudável”, afirmam as mulheres yanomami. “Não nos deixem morrer de novo”, afirma o Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana.
A carta das mulheres yanomami é resultado do encontro, que analisou a situação da TI Yanomami após três anos e oito meses de ações do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Elas conversaram sobre alimentação e soberania alimentar, desintrusão e defesa do território e, principalmente, sobre saúde e o bem-viver das famílias, especialmente as crianças.
Em 20 de janeiro de 2023, o governo federal anunciou uma megaoperação na TI Yanomami. Os esforços iniciais se concentraram nos casos de desnutrição e doenças. Também houve esforço do governo para permitir que garimpeiros ilegais saíssem por vontade própria e em 2024, com a instalação da Casa de Governo em Roraima, as operações de desestruturação da atividade garimpeira ilegal se tornaram sistemáticas.
No entanto, o texto, escrito em em yanomae e português, abre com as lembranças do período entre 2019 e 2022 e a violência sofrida durante o governo Bolsonaro.
“O rastro de Bolsonaro é contaminado por doenças, está cheio de malária, diarreia, verminose, feridas, pneumonia, tomado pela desnutrição, vômito e coceira”, escrevem as mulheres yanomami. “O caminho de Bolsonaro é assim e por isso nós, mulheres da floresta, não queremos que seu filho Flávio [Bolsonaro, candidato do PL] assente na cadeira de presidente, pois queremos continuar vivendo com saúde junto aos nossos filhos na floresta.”
‘O perigo da tragédia se repetir’
A carta do Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana faz o mesmo percurso. Os yanomami assistiram à Terra Indígena Yanomami começar a se recuperar com a retirada dos invasores, os rios iniciarem o processo de limpeza e até as roças voltarem a crescer. As ações do governo Lula repercutiram nos núcleos familiares dos Yanomami e Ye’kwana.
“Nasceram novas crianças saudáveis que precisam da nossa proteção. Voltamos a sonhar com o nosso futuro e não mais nos preocuparmos apenas em sobreviver”, afirma a carta do fórum.
“Só que agora vemos o perigo da tragédia se repetir. E a situação pode ser pior, pois ainda estamos nos recuperando, não terminamos de nos fortalecer depois daqueles quatro anos de total destruição. Falta muito a ser feito! E precisamos de um governo comprometido em não nos deixar morrer de novo”, continua o texto.
As lideranças indígenas também relembram a dor de perder crianças por doenças como malária, gripe, pneumonia e verminoses, que seriam facilmente tratáveis se não fosse a desestruturação da saúde entre 2019 e 2023, além da massiva invasão garimpeira.
“Em 2019, vimos os garimpeiros invadirem a nossa terra como se fossem bandos enormes de porcões famintos, deixando um rastro de mais de 6 mil hectares de terra destruída até o final de 2022. Além do desmatamento, o garimpo ilegal contaminou os peixes com o mercúrio, causando doenças irreversíveis nos nossos corpos. Quem mais sofre com esses danos são as crianças”, diz trecho da carta.
“Desde então, temos acompanhado os esforços incansáveis dos órgãos de proteção, que já conseguiram retirar mais de 90% dos garimpeiros do nosso território. Com isso, vimos nossas crianças voltarem a brincar com saúde, voltamos a produzir nossas roças nas áreas antes dominadas pelos garimpeiros, os índices de desnutrição reduziram muito e as mortes por malária caíram pela metade”, comparam.
Enfraquecimento de políticas ambientais e incentivo ao garimpo ilegal
Evidências de que as políticas do governo de Jair Bolsonaro provocaram uma explosão do garimpo ilegal na TI Yanomami foram reunidas em um filme e um estudo lançados em 2022 pelos centros de estudo FA (Forensic Architecture), da Inglaterra e CLX (Climate Litigation Accelerator), dos EUA.
Na produção audiovisual, são exibidas táticas do governo Bolsonaro para enfraquecer a proteção aos territórios indígenas, como a diminuição de verbas para a fiscalização, a redução de multas por crimes ambientais e a tentativa de liberar o garimpo em TIs por meio de projetos de lei.
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