17ª Feira de Trocas de Mudas e Sementes do Vale do Ribeira reuniu conhecedores tradicionais e poder público em seminário sobre bancos de sementes. Discussão também envolveu temas como território e clima
Para se fazer uma boa “coruja” - receita tradicional dos quilombos do Vale do Ribeira (SP) - são necessários pelo menos oito dias quando o clima está mais frio ou cinco dias em tempos mais quentes. É preciso primeiro deixar a mandioca de molho e, quando já estiver bem mole, é hora de prensar e secar. Depois basta misturar ovo e gordura à massa, enrolar na folha de bananeira e colocar para assar no forno de barro.
A receita é da poeta e liderança Leonila Rodrigues, que nasceu e vive no Quilombo Abobral Margem Esquerda, no município de Eldorado (SP), na região que concentra a maior área contínua de Mata Atlântica do país. A coruja foi um dos preparos servidos durante a 17ª Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira.
A feira aconteceu na Praça Nossa Senhora da Guia, nos dias 14 e 15 de agosto, reunindo cerca de 1 mil pessoas entre participantes e visitantes.
Na sexta-feira, após o café da manhã tradicional, a programação teve início com um seminário sobre bancos de sementes. Para a preservação das sementes são necessários - além do compartilhamento - titulação do território; troca de conhecimento e cuidado com o ambiente, conforme apontaram as discussões feitas durante o primeiro dia do encontro.
A primeira mesa foi composta pela pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Marília Lobo Burle; pela liderança quilombola Urias Morato, do Quilombo São Pedro; e por Ana Paula Donato dos Santos, pesquisadora e liderança do Quilombo Porto Velho. A mediadora Letícia Ester, da Equipe de Articulação e Assessoria às Comunidades Negras do Vale do Ribeira (Eaacone) e liderança do quilombo São Pedro, trouxe em sua fala a importância de se ouvir o conhecimento que vem de fora, mas também de valorizar e reconhecer os saberes que estão no território.
A liderança quilombola Aurico Dias, do Quilombo São Pedro, um dos coordenadores do GT da Roça - que organiza a Feira de Sementes - informa que há um diálogo aberto com a Embrapa para verificar se há nos bancos de sementes da empresa de pesquisa espécies que são da região mas que acabaram se perdendo.
“Queremos entender se a Embrapa tem qualidades de sementes crioulas que perdemos, para que possamos ter de volta sementes da nossa cultura”, explica.
Em sua apresentação, a pesquisadora Marília Burle, que atua no Centro Nacional de Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen/Embrapa), explicou sobre os bancos ativos de germoplasma da Embrapa e ações para ampliar o acesso das comunidades às sementes crioulas. Um banco de germoplasma é formado a partir da identificação, da caracterização e da preservação de células germinativas de alguns seres vivos, sejam eles animais ou vegetais. Ela explica que a instituição possui uma série de coleções de sementes e um banco central mantido em Brasília.
“A unidade da Embrapa à qual pertenço, o Cenargen, foi criada na década de 1970. Foi um período em que vários países começaram a se preocupar com a perda da diversidade agrícola e passaram a formar seus bancos de germoplasma ex situ, mantidos em grandes geladeiras pelo Estado, sob a concepção de que era preciso coletar materiais antes que variedades antigas fossem perdidas”, explica.
As sementes estão registradas em um sistema de informações chamado Alelo, que trata-se de uma plataforma digital pública de tecnologia da informação. Os números são expressivos: a coleção de milho conta com mais de quatro mil variedades, enquanto a de arroz supera 20 mil variedades.
Marília destaca que a Embrapa atua em projetos em rede, como o projeto Mãos Guardiãs, realizado em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), que inclui ações diretas nos territórios. “Quem faz a conservação local não somos nós. A gente entra nesse projeto fazendo diálogos, ajudando nesse fluxo de material, onde a gente está aprendendo também”, diz.
Para as comunidades tradicionais, o vocabulário técnico ganha outro contorno.
“Para esse termo técnico, banco de germoplasma, nós povos e comunidades tradicionais usamos outros termos. A gente entende bem melhor quando se fala em um paiol de semente, uma casa de semente, um cantinho de semente”, explica Letícia Ester, da Eaacone.
A liderança quilombola Urias Morato resume o que está no centro dessa questão. “O que a pesquisadora falou ali, pela nossa maneira de falar é que nós temos que fazer com que uma semente fique deste ano para outro ano para fazermos a nova plantação”, disse.
Para que isso aconteça, há todo um conhecimento tradicional envolvido. “Nós temos o nosso jogo de cintura para assegurar a semente, que são conhecimentos desde quando vai debulhar a semente até o plantio e também o armazenamento que vamos fazer para que ela não dê caruncho”, diz.
Nascido e criado no Quilombo São Pedro, Urias aprendeu o trabalho na roça aos nove anos com seus pais e tios. Ele relata que a comunidade, que hoje conta com cerca de 60 famílias, tinha um cotidiano pautado pelo compartilhamento mútuo de alimentos e produção.
A liderança Vanilda Donato, do Quilombo Porto Velho, reforçou que a discussão sobre sementes é inseparável da luta pela terra e cobrou a titulação de territórios quilombolas. “Não tem como ter semente saudável se o solo está doente, na mão de quem invade. Para falar de semente é preciso falar de titulação. Porque nós sabemos produzir de forma saudável. Essa terra é cuidada por nós. Mas hoje a gente não consegue descansar o solo por falta de território”, disse.
Pesquisa “Aquilombando o Clima”
O tema dos impactos das mudanças climáticas também foi discutido durante a Feira de Sementes, com o relato de Ana Paula Donato dos Santos, pesquisadora e liderança do Quilombo Porto Velho, sobre a pesquisa “Aquilombando o Clima”.
Quatro comunidades quilombolas do Vale do Ribeira (Cangume, Maria Rosa, Nhunguara e Porto Velho) investigaram como as mudanças climáticas vêm alterando seus territórios. Os resultados apontam rios com menos volume, temperaturas mais altas, roças menos produtivas, menos peixes e estações de plantio imprevisíveis.
A partir do diagnóstico, as comunidades formularam propostas de adaptação, entre elas melhoria nas formas de conservação e os bancos de sementes crioulas, restauração de matas ciliares e nascentes e titulação dos territórios. O estudo é coordenado pela analista em pesquisas interculturais do ISA, Lúcia Chamlian Munari.
“Durante a pesquisa notamos que os rios e os peixes estão diminuindo e isso é consequência do capitalismo que colocou na cabeça das pessoas só agir por dinheiro. Isso afeta quem cuida da natureza. Mas os jovens querem aprender com os mais velhos para resgatar esses conhecimentos e aprender o tempo certo do plantio, das luas. Os professores sobre o meio ambiente não estão apenas fora, nas universidades, mas também dentro dos territórios”, diz.
Na tarde de sexta-feira, um dos temas em discussão foi o Sistema Agrícola Tradicional do Quilombola do Vale do Ribeira (SAT), reconhecido como patrimônio nacional. O público acompanhou a apresentação do técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Evandro Domingues, sobre as salvaguardas patrimoniais, que são ações para o fortalecimento do SAT Quilombola.
Ao longo deste ano estão sendo realizadas oficinas reunindo os atores locais, Associações Quilombolas, Eaacone, Cooperquivale, Iphan, Embrapa, ISA, Conaq, Sesc Registro e outros parceiros para dialogar sobre essas ações. Muitas delas já vêm sendo desenvolvidas pelas comunidades quilombolas. A partir dessas discussões será elaborada a Carta de Intenção do plano de salvaguarda, prevista para ser lançada na Feira de Sementes do ano que vem.
Logo em seguida, a pesquisadora quilombola Maíra Silva, doutora em Ciências na área de Geologia e Recursos Naturais, conversou com os presentes sobre contaminação por metais pesados e terras raras e como isso afetou e afeta o Vale do Ribeira.
Partilhas
A chuva no início da manhã de sábado não atrapalhou a troca de sementes, com participação dos quilombos da região, como como Porto Velho, Cangume, Praia Grande, Bombas, Pilões, Maria Rosa, Nhunguara, São Pedro, Galvão, Ivaporunduva, Piririca, André Lopes, Sapatu, Pedro Cubas, Pedro Cubas de Cima, Abobral Margem Esquerda, Abobral Margem Direita, Morro Seco, Peropava e Mandira.
Só na banca de Urias Morato havia pelos menos nove tipos de produtos, como palmito pupunha, cará, milho da palha grossa, chuchu, mandioca, mel, limão e seis tipos de feijão. Lucas Gattai, que trabalha com agricultura orgânica, visitou a feira pela primeira vez e fez boas trocas. Em uma das permutas, ele entregou feijão e levou quiabo japonês, além de conhecer a jabutitana que - segundo os quilombolas - é remédio pra tudo.
O povo Guarani também esteve presente na feira. Abílio, vice-cacique e coordenador da escola Tekoa Takuari-ty, na Terra Indígena Pacurity, em Cananéia, foi até Eldorado com a família.
“É a segunda vez que participamos da feira de troca de sementes. E nós gostamos muito porque em algumas regiões os Guarani também perderam sementes importantes para nós. E quando a gente participa, encontramos algumas sementes e ramas de mandioca. Para trocar, a gente traz mais artesanato, que tem vários significados, importância e cultura de gerações. Fazemos com carinho e queremos mostrar para os povos e a sociedade”, disse.
Grupos de jovens também marcaram presença. Paulo Silvio Pupo Júnior, de 17 anos, estudante do ensino médio e integrante do recém-criado Grupo de Jovens do Quilombo Ivaporunduva, participou da feira junto com outros jovens.
“A feira trata de vários temas que são de nosso interesse, como a nossa cultura. Por isso, decidimos participar conjuntamente. Todos nós fazemos trabalhos comunitários e entendemos a importância de estarmos em contato com os conhecimentos do nosso território”, disse.
Na programação também aconteceram diversas apresentações culturais, como os Violeiros do Ivaporunduva; Sarau da Tia Elvira, com leitura de poemas por Vaniele, Duda, Letícia, Júlia, Leonila e Iago; Dança do Quilombo Cangume; Puxirão Quilombo São Pedro; Nhã Maruca e Xondaro Guarani.
O Vale do Ribeira é uma das regiões com maior sociobiodiversidade do estado de São Paulo, abrigando mais de 40 comunidades quilombolas, além de povos indígenas, caiçaras e caboclos. Essas comunidades habitam a região há mais de 400 anos e desempenham um papel fundamental na manutenção do maior remanescente contínuo de Mata Atlântica.
Coordenador do Programa Vale do Ribeira do Instituto Socioambiental (ISA), Frederico Viegas explica que, historicamente, a legislação ambiental restritiva impôs obstáculos às práticas tradicionais agrícolas locais. Diante da proibição de práticas como a roça de coivara na década de 1990, que gerou multas e perseguições, as comunidades criaram a feira como instrumento de resistência e preservação de variedades.
“O Vale do Ribeira destaca-se pela sociobiodiversidade e resistência histórica de comunidades tradicionais. A feira de sementes surgiu como estratégia contra a criminalização de práticas agrícolas ancestrais. Este ano ocupamos um novo espaço na praça, sendo um marco que indica seu fortalecimento a cada edição”, diz.
A 17ª edição reuniu representantes da Embrapa, do Iphan, do MDA, do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), do ISA, da Eaacone, do Slow Food, Sesc Registro, da Prefeitura de Eldorado, entre outros. Em 2025, circularam pela feira 235 variedades de sementes e mudas e 1,5 tonelada de mudas, sementes, alimentos processados e não processados e doações. Os dados deste ano ainda estão sendo organizados.
Na hora do almoço tradicional, servido no sábado, uma celebração dos sistemas agrícolas: palmito, farofa de ostras, arroz, feijão, carne de porco. A fartura dos quilombos do Vale continua - como nos ensina seu Urias - de um ano para o outro!
A Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais é uma realização do GT da Roça com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), Sesc Registro, Prefeitura de Eldorado, Prefeitura de Iporanga, Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e Bem-Te-Vi Diversidade.
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