A data homenageia liderança quilombola histórica e celebra o protagonismo das mulheres negras no passado e no presente do Brasil
Celebrado anualmente em 25 de julho, o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra foi instituído pela Lei nº 12.987, sancionada em junho de 2014.
A lei marca a adesão do Brasil à data que já é reconhecida internacionalmente pelo Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, comemorado por outros países do continente americano desde 1992.
No Brasil, o dia também faz homenagem à Tereza de Benguela, liderança quilombola histórica que, no século XVIII, comandou o Quilombo do Quariterê, o maior quilombo da região que hoje corresponde ao estado do Mato Grosso.
O local de nascimento de Tereza de Benguela é desconhecido. Ela pode ter nascido em algum país do continente africano ou em alguma região do Brasil. Mas seu nome sugere que ela tenha passado pelo porto de Benguela, em Angola.
Tereza foi casada com José Piolho, que chefiava o Quilombo do Piolho, também conhecido como Quilombo do Quariterê, até ser assassinado. Com sua morte, Tereza se tornou liderança, e o quilombo, que abrigava mais de 100 pessoas, negras e indígenas, resistiu à escravidão por aproximadamente duas décadas.
Por lá, se cultivava algodão, tabaco, mandioca, banana, dentre outros alimentos, que eram vendidos nas feiras das redondezas, e as decisões eram tomadas coletivamente, a partir de uma espécie de parlamentarismo instituído por Tereza, também conhecida por “Rainha Tereza” ou “Rainha Negra do Pantanal”.
O quilombo existiu por cerca de 65 anos, de 1730 à 1795, sendo alvo de diversas expedições punitivas que tentaram desmantelá-lo. Foi numa dessas que José Piolho foi assassinado e, anos mais tarde, em 1795, o quilombo se dispersou.
Há registros que Tereza foi capturada em 1790 em um dos ataques e não se sabe muito sobre sua morte, o que mostra o apagamento da memória de lideranças negras, sobretudo das mulheres. Como forma de gerar medo, sua cabeça foi exposta no centro do quilombo. Alguns sobreviveram e refundaram o Quilombo do Quariterê, que resistiu por mais cinco anos, sucumbindo às forças coloniais em 1795.
Hoje, Tereza de Benguela é uma das muitas personalidades negras que construíram a história e o território brasileiro. E assim como muitas mulheres negras têm conquistado mais espaço nos debates públicos, nos livros didáticos, nas universidades e na história do país.
A mobilização das mulheres quilombolas hoje
Refletindo sobre a resistência das lideranças femininas dos quilombos, em junho de 2026, ocorreu o 3º Encontro de Mulheres Quilombolas, no Distrito Federal, com o lema central “Mulheres Quilombolas na defesa por justiça climática, por reparação e democracia: somos o começo, o meio e o começo!”.
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A mobilização celebrou as três décadas de existência da Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e promoveu o intercâmbio entre mais de 800 mulheres vindas de 24 estados brasileiros, contando ainda com a presença de delegações internacionais.
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Também nessa ocasião, as mulheres quilombolas receberam o presidente Lula, acompanhado por ministras de Estados, que assinaram sete decretos de desapropriação fundiária e entregaram 18 títulos de territórios.
Comunidades Quilombolas nas salas de aula
Em 2003, foi sancionada a Lei Federal nº 10.639, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira em todas as escolas do país. Em 2008, com a Lei nº 11.645, as histórias e culturas indígenas também foram incluídas no currículo nacional. Tais normativas ampliam o acesso a conteúdos qualificados sobre a população negra e quilombola, também a respeito dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, bem como suas trajetórias históricas, sociais e culturais.
Falar sobre mulheres negras nas salas de aula é uma forma de reparação histórica com esses corpos subjugados historicamente. O que contribui para a justiça curricular, a construção de uma educação mais plural, democrática e comprometida com o enfrentamento do racismo estrutural e das desigualdades de gênero, permitindo que estudantes conheçam diferentes protagonistas da história brasileira e se reconheçam como sujeitos dela.
Pessoas educadoras, conheçam o Kit Didático: Mulheres quilombolas no foco da educação, já disponível no Acervo do ISA. Ele reúne fontes e documentos com propostas de reflexão para apoiar discussões e atividades sobre o protagonismo das mulheres negras e quilombolas em sala de aula.
Conheça também as iniciativas e produções do coletivo de educação da CONAQ.
Referências bibliográficas
ANAIS DE VILA BELA. Ano de 1770. In: Anais de Vila Bela: 1734–1789. Cuiabá: Governo do Estado de Mato Grosso, 2006.
BRASIL. Presidência da República. Lei nº 12.987, de 2 de junho de 2014. Dispõe sobre a criação do Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Brasília, DF: Presidência da República, 2014. Disponível em: https://bibliotecadigital.mdh.gov.br/jspui/handle/192/6382. Acesso em: 15 jun. 2026.
DE OLHO NOS RURALISTAS. Saiba quem é a líder quilombola homenageada no Dia da Mulher Negra [vídeo]. YouTube, São Paulo: 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=EyXzbpqN1c8. Acesso em: 16 jun. 2026.
FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Tereza de Benguela, a Rainha Tereza. Brasília, DF, 25 jul. 2017. Atualizado em: 20 out. 2023. Disponível em: https://www.gov.br/palmares/pt-br/assuntos/noticias/tereza-de-benguela-a-rainha-tereza. Acesso em: 18 jun. 2026.
** A série Hoje na História Socioambiental apresenta a riqueza de informações do Acervo do ISA que conta com mais de 250 mil itens catalogados voltados para a temática socioambiental como publicações, livros, teses e dissertações, mapas, notícias, materiais audiovisuais, entre outros. Hoje na História Socioambiental é um convite a reler o Brasil com mais amplitude, sensibilidade e justiça, valorizando a memória e documentação dos diversos povos.
Esta publicação conta com o apoio do Fundo Amazônia e é um produto do projeto "Defesa e Promoção dos Direitos Indígenas no Brasil: Construir Capacidades e Engajar Pessoas por um Futuro mais Justo", realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), com o financiamento da União Europeia.
Este material tem conteúdo de responsabilidade exclusiva da instituição realizadora e não reflete a posição da União Europeia.
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