Marcada na memória, a manifestação de Ailton conseguiu atenção da imprensa nacional e internacional, abrindo espaço para debates importantes dos direitos indígenas
Na sessão da Assembleia Nacional Constituinte de quatro de setembro de 1987, durante os debates que antecederam a promulgação da Constituição de 1988, Ailton Krenak realizou um discurso que na época conquistou olhares da imprensa nacional e internacional:
“Que [o Brasil] saiba respeitar um povo que sempre viveu à revelia de todas as riquezas, um povo que habita casas cobertas de palha, que dorme em esteiras no chão, não deve ser identificado de jeito nenhum como um povo que é o inimigo dos interesses do Brasil, inimigo dos interesses da nação e que coloca em risco qualquer desenvolvimento. O povo indígena tem regado com sangue cada hectare dos oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil, os senhores são testemunhas disso.”
Foi o que ele disse ao discursar pintando seu rosto de tinta preta na tribuna da Constituinte, na Câmara dos Deputados, quando defendia a emenda popular da União das Nações Indígenas (UNI) sobre os direitos da população originária.
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A manifestação teve ampla repercussão na imprensa brasileira e internacional, expandindo a visibilidade das reivindicações dos povos indígenas em um momento decisivo da redemocratização do país.
A imprensa teve uma atuação bastante ativa nas disputas pela inclusão do Capítulo dos Índios no texto da Constituição. Pouco antes do discurso de Ailton, começava uma campanha contra os povos indígenas, que afirmava, entre outras coisas, que os povos originários eram contra os interesses do Estado brasileiro.
O discurso de Ailton veio para desmontar esse argumento. Ao ser questionado sobre a campanha contra os povos indígenas, liderada por parte da imprensa, Ailton afirmou: "Nós ignoramos qualquer iniciativa, nesse sentido, que venha contrariar os interesses do país. Inclusive porque, se há os primeiros filhos desta terra, são os povos indígenas. E não há nada mais estúpido do que afirmar que os povos indígenas vão contrariar os interesses do Brasil. Se o Brasil está ameaçado pelos povos indígenas, então provavelmente não é o Brasil dos brasileiros."*
A campanha contra os povos conseguiu que, do dia pra noite, o chamado “Capítulo dos Índios” fosse excluído. A ferramenta que os povos e aliados encontraram para remontar a discussão e garantir a inclusão do texto foi o abaixo-assinado, que subsidiou uma emenda-popular.
Ailton, como uma das lideranças da União das Nações Indígenas (UNI) e juntamente com representações de diversos povos, participou da articulação desse abaixo-assinado que reuniu mais de 100 mil assinaturas, de ponta a ponta do Brasil, em apoio à inclusão dos direitos dos povos indígenas na nova Constituição Federal.
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Demarcar saberes
O que muita gente não sabe é o que estava acontecendo por trás da fotografia emblemática do discurso. No livro “Subvertendo a gramática e outras crônicas socioambientais”, escrito por Márcio Santilli, presidente do Instituto Socioambiental (ISA), são revelados detalhes deste acontecimento histórico que muitos desconhecem.
No livro, Márcio conta que a intenção inicial de Ailton Krenak era apenas pintar o rosto de preto, em silêncio. No entanto, como os registros oficiais das sessões da Assembleia Nacional Constituinte eram feitos por gravações posteriormente transcritas para o Diário do Congresso, uma manifestação sem palavras ficaria registrada apenas pelas câmeras de televisão. Foi preciso, então, que ele discursasse enquanto realizava o gesto.
Outro desafio era o protocolo do plenário: sem trajes formais, Ailton recebeu emprestados um paletó branco e uma gravata de Márcio, criando o contraste que marcaria a cena. Na ausência do jenipapo ou do urucum, os dois percorreram gabinetes de parlamentares recolhendo pequenas quantidades de máscara de cílios e tinta para sobrancelhas, usadas para compor a pintura. Márcio ainda conta que depois foi impossível usar seu paletó, por conta das manchas de tinta.
No filme “Mapear Mundos”, obra que articula imagens de arquivos indigenistas com testemunhos atuais para rememorar os passos dados por organizações da sociedade civil na luta pelos direitos dos povos originários no Brasil, Beto Ricardo, fundador do ISA, conta sobre o momento do discurso:
“Não tinha ninguém no Congresso, era hora do almoço, estava vazio. A câmera fica no Ailton porque não tem ninguém. Ele tava sozinho, ele fala sozinho. Quer dizer, ele fala sozinho não. Ele criou um gesto de comunicação de mídia que explodiu o mundo inteiro, que não haveria sessão do Congresso que chegaria perto da difusão que essa ideia teve, com aquela imagem de 15 segundos, entendeu?”
Assista ao filme 'Mapear Mundos'
Depois de saber que não havia ninguém na plenária, é ainda mais curioso saber que a imagem de Ailton pintando o rosto na tribuna permanece, até hoje, como um dos símbolos visuais mais notáveis da luta indígena no Brasil. A imagem marcada na memória reforça o poder dos gestos comunicativos, e o modo com que alguns símbolos podem representar e lembrar lutas históricas.
Quase quatro décadas depois, a comunicação indígena segue ocupando um papel central na defesa dos direitos dos povos originários e evidenciando o que há de mais bonito na natureza e em suas culturas e histórias. Agora, comunicadores indígenas mobilizam diversas plataformas e variados formatos para garantir que sejam cada vez mais ouvidos.
Pessoas educadoras, venham conhecer o Kit Didático: "Demarcar saberes: a comunicação indígena nos seus diferentes formatos", que reúne fontes e documentos com propostas de reflexão para apoiar discussões e atividades sobre o assunto em sala de aula!
*MAPEAR MUNDOS. Direção: Mariana Lacerda. Produção: Instituto Socioambiental. Brasil: 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=27NGsnEELwM. Minutagem: 15’20” - 15’45”.
Referências bibliográficas
BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Capítulo VIII, Arts. 231-232. Disponível em: http://camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=469704. Acesso em: 5 maio 2026.
CENTRO ECUMÊNICO DE DOCUMENTAÇÃO E INFORMAÇÃO (CEDI). Povos Indígenas no Brasil 1987/88/89/90. São Paulo: CEDI, 1991.
MAPEAR MUNDOS. Direção: Mariana Lacerda. Produção: Instituto Socioambiental. Brasil: 2024. Disponível em: Filme | Mapear Mundos
RICARDO, Beto; ARNT, Ricardo. Uma enciclopédia nos trópicos: memórias de um socioambientalista. Rio de Janeiro: Zahar, 2024.
SANTILLI, Márcio Santilli. Subvertendo a gramática e outras crônicas socioambientais. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2019. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/publicacoes-isa/subvertendo-gramatica-e-outras-cronicas-socioambientais. Acesso em: 5 maio 2026.
**A série Hoje na História Socioambiental apresenta a riqueza de informações do Acervo do ISA que conta com mais de 250 mil itens catalogados voltados para a temática socioambiental como publicações, livros, teses e dissertações, mapas, notícias, materiais audiovisuais, entre outros. Hoje na História Socioambiental é um convite a reler o Brasil com mais amplitude, sensibilidade e justiça, valorizando a memória e documentação dos diversos povos.
Esta publicação conta com o apoio do Fundo Amazônia e é um produto do projeto "Defesa e Promoção dos Direitos Indígenas no Brasil: Construir Capacidades e Engajar Pessoas por um Futuro mais Justo", realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), com o financiamento da União Europeia.
Este material tem conteúdo de responsabilidade exclusiva da instituição realizadora e não reflete a posição da União Europeia.
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