Debate passou pela inclusão digital, proteção de dados e fortalecimento das línguas indígenas a partir das experiências do Rio Negro
A relação entre conectividade e fortalecimento das línguas indígenas esteve em discussão nesta quarta-feira (27), durante o workshop “Vozes em Rede: Experiências de Inclusão Digital e Soberania Linguística Indígena”, realizado no 16º Fórum da Internet no Brasil (FIB), promovido pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), em Belém do Pará.
Organizado pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e pela Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas, o encontro teve como foco as experiências do Rio Negro, território que concentra uma das maiores diversidades linguísticas do país, a partir do reconhecimento das línguas indígenas como patrimônio imaterial e base da soberania cultural, territorial e epistêmica dos povos indígenas.
Assista como foi a participação abaixo:
A atividade reuniu lideranças indígenas da região, pesquisadores e desenvolvedores para discutir os impactos, desafios e possibilidades da presença indígena no ambiente virtual. Edson Baré, diretor da Foirn e mediador da mesa, destacou iniciativas como o projeto Nheengatu Digital, desenvolvido pela Federação em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), que atua com estudantes de comunidades do Alto Rio Negro para fortalecer o uso da língua indígena em plataformas digitais. Segundo Edson, um dos desafios do projeto está justamente na adaptação tecnológica para as especificidades do Nheengatu.
“O teclado, por exemplo, ainda precisa ser adaptado. Existem letras que são necessárias para dar a entonação correta dos sons, mas não aparecem nos teclados convencionais”, explicou.
Mesmo com as limitações, ele relatou resultados positivos nas comunidades de Juruti e Tabocal, onde cerca de 40 adolescentes já utilizam os tablets do projeto para escrever e se comunicar na própria língua no ambiente virtual.
Também integrante da mesa, a liderança Maria do Rosário Piloto Martins, conhecida como Dadá Baniwa, títular da Coordenadoria Regional Rio Negro da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai/CR-Rio Negro), destacou que o debate sobre línguas indígenas na internet precisa considerar as especificidades e diversidades dos territórios amazônicos.
Dadá lembrou que São Gabriel da Cachoeira possui 18 línguas indígenas identificadas, sendo 16 ainda faladas no município, e ressaltou que a valorização das línguas passa também pelo uso das redes sociais, pelas publicações digitais e pelo registro das memórias indígenas.
“Antes da internet, a gente já tinha nosso jeito de comunicar: pela oralidade, pelas mudanças da natureza, pelas constelações. Quando se fala das línguas na internet, também é preciso levar em consideração como elas estão sendo tratadas nesse ambiente”, afirmou.
A liderança também reforçou a importância da comunicação intercultural e das redes de comunicadores indígenas como estratégia de combate à desinformação sobre os territórios e também da valorização das línguas.
Outro ponto debatido foi a construção de acordos ortográficos para as línguas indígenas. O tema gerou reflexões sobre os limites entre oficialização e preservação da diversidade linguística e os riscos de padronizações excessivas apagarem as variações linguísticas existentes nos territórios.
Sobre este ponto, Dadá Baniwa afirmou que os acordos ortográficos não pretendem estabelecer uma “língua certa”, mas criar instrumentos de reconhecimento institucional e fortalecimento das línguas em espaços oficiais, como escolas, documentos e concursos públicos. Edson Baré acrescentou que o processo busca preservar ao máximo os diferentes dialetos e variantes regionais.
Soberania digital e autonomia tecnológica
Ao refletir sobre a chegada da internet ao Rio Negro, Ray Baniwa, cofundador da Rede Wayuri e doutorando em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lembrou que os povos indígenas do Rio Negro já convivem com processos de contato e adaptação tecnológica há décadas. Segundo ele, que tem pesquisas centradas no impacto da internet e das tecnologias digitais nas comunidades indígenas sob uma perspectiva decolonial, o uso da internet se tornou uma ferramenta fundamental para afirmar a existência e a diversidade dos povos no ambiente digital.
“Foi necessário usarmos as tecnologias para mostrar que existimos. Antes era o rádio, agora é a internet”, afirmou Ray, destacando ainda que grande parte das iniciativas de inclusão digital na região surgiu das próprias organizações indígenas, diante da ausência de políticas públicas estruturadas para as comunidades mais distantes. Mesmo quando a política chega, na opinião dele, muitas vezes ela esteve desconectada da realidade local.
Ele lembrou experiências conduzidas pelas lideranças da Foirn e pelo projeto Conexão Povos da Floresta, ressaltando que iniciativas locais conseguem integrar conectividade e letramento digital de maneira mais próxima da realidade das comunidades. Ray aproveitou para fazer um alerta.Para ele, além do acesso à internet, é necessário discutir os impactos sociais e culturais da hiperconectividade, especialmente entre crianças e adolescentes indígenas, que já enfrentam situações de golpes, violência digital e afastamento dos espaços tradicionais de transmissão de saberes.
Durante as perguntas do público, participantes levantaram preocupações sobre o uso de plataformas privadas controladas pelas big techs, como Starlink, Meta e Google, e os riscos relacionados à vigilância de dados linguísticos indígenas.
Ray reconheceu que as comunidades acabam se tornando reféns das grandes empresas de tecnologia diante da ausência de alternativas públicas acessíveis. “Hoje é muito difícil pensar soberania sem discutir alternativas às big techs”, afirmou. Ao mesmo tempo, destacou que as comunidades vêm construindo protocolos próprios sobre o que pode ou não ser compartilhado no ambiente virtual. “Nossos sábios nos orientam sobre o que pode ser publicado. Tem conhecimento que só pode ser transmitido presencialmente, dentro da comunidade”, explicou.
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A preocupação com a formação técnica também foi defendida por Alberto Fernandes, técnico de telecomunicações que atua na região do Rio Negro que também integrou a mesa. Ele questionou por que ainda há tão poucos investimentos na capacitação local para instalação e manutenção dos equipamentos de conectividade.
Alberto citou o projeto Rio Negro Solar, desenvolvido pela Foirn em parceria com estudantes da Unicamp, voltado à formação técnica em energia fotovoltaica, como exemplo de iniciativa que alia autonomia tecnológica e permanência dos conhecimentos nos territórios.
Nas considerações finais, Ray Baniwa chamou atenção para a necessidade de refletir também sobre o direito à desconexão. “Desconectar também é estar conectado à terra, aos pais, à ancestralidade”, afirmou. Para ele, a presença da internet nos territórios indígenas não pode significar imposição, mas uma escolha consciente das comunidades sobre como, quando e para quê utilizar a tecnologia.
O comunicador também destacou a importância de o FIB abrir espaço para o debate sobre conectividade e povos indígenas. Segundo ele, ao longo dos anos tem sido possível observar o crescimento da participação indígena e de populações tradicionais no evento, ampliando a presença desses territórios nas discussões sobre tecnologia e governança digital.
Em 2025, a Rede Wayuri participou da 15ª edição do FIB, realizada em Salvador (BA), promovendo o workshop “Teias de Conexão: Retrato da Conectividade nas Comunidades Indígenas”. Na ocasião, o debate abordou os impactos da conectividade em comunidades indígenas do Médio e Alto Rio Negro, a partir das experiências do projeto de inclusão digital promovido pela Foirn.
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