Beiradeiros e indígenas do Xingu distribuem 5t de alimentos contra a fome e a Covid-19 em Altamira (PA)

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611 cestas chegaram à prefeitura de Altamira (PA) e entidades por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA); produção com técnicas ancestrais mantém a floresta em pé
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Pedro Pereira de Castro, 56, beiradeiro da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, no Pará, plantou roça no ano passado para entregar agora em setembro 440 kg de farinha de mandioca, 233 kg de goma de tapioca e 92 kg de cará roxo.

Os alimentos, produzidos sem agrotóxicos, foram adquiridos por meio de um edital do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) na modalidade Compra com Doação Simultânea, lançado no ano passado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), do governo federal.

A farinha, a goma de tapioca e o cará roxo do beiradeiro foram doados à Secretaria Municipal de Assistência e Promoção Social de Altamira (PA), a organizações da sociedade civil e a movimentos sociais da região para alimentar cerca de 600 famílias em situação de vulnerabilidade.

Ao todo, contando com a produção de Castro, cerca de cinco toneladas de alimentos das roças de beiradeiros da região da Terra do Meio e de indígenas Xipaya e Arara chegaram a quem mais precisa.

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O volume total de produtos, que impressiona nas fotos, é resultado de um esforço coletivo que incluiu dias de articulação entre comunidades e mais dias de transporte de barco em tempo de seca, atravessando pedrais no Riozinho do Anfrísio e no Rio Iriri.

Na lista completa tem farinha de mandioca, goma de tapioca, farinha do coco babaçu, abóbora, banana, inhame, batata doce, cará roxo e macaxeira, além de 111 litros de óleo do coco babaçu beneficiado na miniusina da comunidade Rio Novo, na Reserva Extrativista Rio Iriri.



O pagamento pelos produtos, contou o beiradeiro, foi o suficiente para compor o orçamento e comprar material escolar para seus filhos Fabíola, Pedrina e André, bem como para os netos Mateus e Lucas. “A escola graças a Deus vai começar de novo. O recurso chegou na hora certa”, disse.

Além do valor, Castro estava feliz em saber que o alimento seria doado. “Quando você está fazendo e é de bom coração, tudo dá certo. Todo mundo sabendo que ia receber um dinheiro, e que outras pessoas iriam ser beneficiadas com isso, pessoas necessitadas”, continuou.

‘Mais que sagrado’

Em evento na Universidade Federal do Pará (UFPA) que marcou a distribuição dos alimentos, representantes da prefeitura de Altamira e das organizações sociais elogiaram a organização de beiradeiros e indígenas.

“Isso que vocês estão fazendo é mais que sagrado, já que estamos em um momento difícil de pandemia”, afirmou Maria das Neves Morais de Azevedo, secretária municipal de assistência e promoção social de Altamira.

Segundo ela, o alimento vai chegar a gestantes e crianças atendidas pelo município. “Nada melhor do que uma alimentação saudável como essa para que essas criaturinhas possam melhorar a qualidade de vida”, disse.



Jackson Dias, da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e da Associação das Famílias Moradoras da Transamazônica e Xingu (Afatrax), frisou que “a pandemia não acabou, o desemprego é grave e as condições de vulnerabilidade social permanecem”.

“Essas cestas de alimentos são importantes para a fome e a esperança das pessoas”, afirmou.

Além da Secretaria Municipal de Assistência e Promoção Social de Altamira e da Associação das Famílias Moradoras da Transamazônica e Xingu (Afatrax), as cestas de alimentos produzidos pelos beiradeiros e indígenas chegaram à Casa Divina Providência, à Pastoral da Criança e ao Coletivo de Mulheres do Xingu.

Políticas públicas, agricultura familiar e a fome

Os esforços de todos os atores envolvidos na produção, transporte, distribuição e recebimento de alimentos foram muitos, desde a articulação das comunidades até a logística. É consenso que o sucesso de uma ação como essa só acontece porque há muitas mãos envolvidas.

Mais entregas previstas

A entrega de alimentos produzidos por beiradeiros e indígenas realizada em Altamira foi apenas a primeira. O projeto proposto pela Rede de Cantinas da Terra do Meio para a Conab prevê, ao todo, a entrega de 30 toneladas de alimentos até 2022, com valor total de R$ 215 mil.

Para chegarem à cidade, por exemplo, os produtos pegaram uma “carona” com a expedição de vacinação contra a Covid-19 organizada pela ONG Health in Harmony, pelo Instituto Socioambiental (ISA), pela UFPA e pela secretaria municipal de saúde de Altamira.

Para Naldo Lima, assessor da Rede de Cantinas da Terra do Meio, esta primeira entrega foi uma oportunidade de experimentar uma nova forma de escoar a produção das comunidades, respeitando o modo de vida e o jeito de produzir dos beiradeiros e indígenas.



E mais importante: gerar aprendizados para toda a cadeia produtiva para, ao mesmo tempo, atender a um edital do PAA e doar alimentos contra a fome e a Covid-19.

Na região Norte, 67% convivem com insegurança alimentar

A gravidade da situação alimentar na região Norte do país ficou evidente com a publicação do estudo “Efeitos da pandemia na alimentação e na situação da segurança alimentar no Brasil”, publicado pelo Food for Justice, grupo de trabalho do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Livre de Berlim, da Alemanha.

Os dados mostram que 67% da população da região convive com insegurança alimentar - porcentagem superior à média nacional, de 59%.

“As instabilidades socioeconômicas geradas pelas crises política e econômica vividas nos últimos anos no país agravaram-se com a pandemia da Covid-19, acentuando as desigualdades alimentares entre uma parcela da população brasileira, sobretudo, quanto ao acesso a alimentos de forma regular e em quantidade e qualidade satisfatórias”, afirma o documento.

A pesquisa, publicada em abril deste ano, contou com a parceria de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Brasília (UnB).

“Além de acessar os recursos, a gente também consegue entender melhor os entraves e gargalos e incidir na adequação das políticas públicas, que não vêm adequadas à realidade das comunidades tradicionais”, lembrou.

O pagamento dos produtores, por exemplo, foi feito no ato da entrega dos produtos com capital de giro próprio da Rede de Cantinas da Terra do Meio - ou beiradeiros e indígenas teriam de esperar desenrolar a parte burocrática para receber. “Agora vamos proceder com a documentação necessária com a Conab para obter o reembolso”, relatou.

Mesmo com melhorias necessárias no processo, Lima considerou o saldo da ação uma “experiência incrível”. “É muito importante trabalhar com recursos de políticas públicas. Para as comunidades, em ano de baixa produção de castanha, ter essas opções é muito importante para valorizar a economia da floresta”, sublinhou.

“Isso faz com que as comunidades fiquem mais tranquilas para monitorar e proteger os territórios contra atividades incompatíveis com os objetivos das Unidades de Conservação. Ter oportunidade de geração de renda é uma forma de enfrentamento a atividades ilícitas”, disse.

A ação de distribuição de alimentos por meio do edital do PAA foi realizada em parceria com o ISA e apoio da União Europeia.

O que é a Rede de Cantinas da Terra do Meio?

Beiradeiros e indígenas da Terra do Meio, um mosaico de Unidades de Conservação e Terras Indígenas na região do município de Altamira (PA), são os protagonistas de uma economia da sociobiodiversidade e do cuidado com a floresta amazônica.

Hoje, eles trabalham em rede - a Rede de Cantinas da Terra do Meio - para atender demandas do mercado por seus produtos, e contam com grandes empresas como parceiros de comércio ético e justo, unidos por um caminho comum a partir da rede Origens Brasil®.

Atualmente são 27 cantinas espalhadas pela região da Terra do Meio, tanto em Reservas Extrativistas como em Terras Indígenas. As cantinas são uma espécie de entreposto comercial com funções sociais importantes dentro das comunidades.

Elas são abastecidas pelos beiradeiros e indígenas com os produtos da floresta, como farinhas, óleos, sementes e borracha, que recebem em dinheiro ou mercadorias da cidade no ato da entrega, evitando longos deslocamentos até a cidade.

Os produtos desse arranjo levam a marca coletiva Vem do Xingu.

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Roberto Almeida
ISA
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