Conaq e ISA lançam o ‘Observatório da Covid-19 nos Quilombos’

Plataforma digital com informações apuradas sobre casos entre quilombolas traz dados inéditos sobre o avanço do novo coronavírus nos territórios em todo o Brasil
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O Observatório da Covid-19 nos Quilombos (https://quilombosemcovid19.org/) é uma plataforma online que reúne dados epidemiológicos da pandemia do novo coronavírus entre quilombolas de todo o Brasil.

O monitoramento, realizado pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e pelo Instituto Socioambiental (ISA), apresenta casos monitorados, confirmados e óbitos decorrentes da Covid-19 entre quilombolas.

Até o momento, foram registrados 197 casos e 46 mortes por Covid-19 nos quilombos em todo o Brasil. Desde o primeiro óbito, tem morrido 1 quilombola por dia.

O Pará é, até o momento, o estado com maior número de óbitos confirmados: 15. Amapá aparece na segunda posição com nove óbitos confirmados, seguido por Pernambuco com oito e Rio de Janeiro com seis.



A Conaq tem chamado atenção para fatores estruturais alarmantes com consequências no alastramento da pandemia nos territórios quilombolas.

Tanto as secretarias de saúde como o próprio Ministério da Saúde não têm dado atenção adequada às comunidades negras. Dados da transmissão da Covid-19 nos territórios estão subnotificados. Muitas secretarias municipais deixaram de informar números de contaminação e óbitos entre quilombolas.

“A Conaq tem a preocupação de mensurar o real impacto da Covid-19 nos quilombos, haja vista a subnotificação por parte do Estado brasileiro, o não cumprimento dos direitos constitucionais e a não efetivação da titulação definitiva dos territórios. O não acesso às políticas públicas é um forte complicador no combate ao novo coronavírus, que requer condições mínimas de higiene, segurança territorial e alimentar”, afirma Sandra Maria Andrade, coordenadora da Conaq.

“A maioria dos territórios está distante de hospitais estruturados e próxima a municípios onde a saúde é sucateada e onde não chegam nem mesmo os testes rápidos. Mais uma vez, deliberadamente, a população quilombola desse país é colocada no esquecimento, na invisibilidade e é excluída do processo de distribuição das políticas públicas. Neste sentido, a plataforma tem o objetivo de concentrar as informações em um espaço com frequentes atualizações”, continua.

Por mais visibilidade e informação

Ao garantir dados fundamentados de casos confirmados e de mortes de quilombolas em decorrência da Covid-19, o Observatório da Covid-19 nos Quilombos se torna uma ferramenta de enfrentamento ao racismo estrutural ao gerar visibilidade e informação.



A plataforma é atualizada com informações enviadas por pontos focais regionais da Conaq, que acompanham a situação de casos confirmados e óbitos junto às comunidades e organizações locais nos territórios.

Em sintonia com a Conaq, eles enviam os dados à equipe do ISA, que é responsável pela gestão do site, sistematização e atualização das informações. A base de dados para territórios utilizada é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que aponta para 5.972 localidades quilombolas em todo o país. A Conaq contabiliza 6.330 comunidades quilombolas.

“A iniciativa da Conaq de monitorar os casos da Covid-19 nos quilombos é superimportante para o movimento e para toda a sociedade. O Estado não cumpre com o dever, não tem informação específica, não há recorte racial, evidenciando o descaso com a população negra, que é a maioria nesse país - 54%”, afirma Milene Maia Oberlaender, assessora do ISA.

Com as informações atualizadas, a sociedade brasileira e em especial as comunidades quilombolas terão mais informações para exigir providências do Estado para que tome medidas em defesa da vida das famílias quilombolas.

A desigualdade do enfrentamento ao novo coronavírus, que já se mostra evidente nas periferias urbanas, terá um impacto arrasador nos quilombos se o Estado não agir e a doença mantiver este ritmo de alastramento e letalidade.

Os relatos da maior parte dos quilombos é de frágil assistência e da necessidade de peregrinação até centros de saúde melhor estruturados, já que não existe no Sistema Único de Saúde (SUS) uma atenção especial à população quilombola.

A população negra tem alto índice de doenças que agrava ainda mais os efeitos da Covid-19, como a diabetes e a pressão alta. A precariedade de acesso a água em muitos territórios é motivo de preocupação, pois também dificulta as condições de higiene necessárias para evitar a propagação do vírus.

Essa situação tende a se agravar exponencialmente com as consequências sociais e econômicas da crise da Covid-19 na vida das famílias quilombolas.

A plataforma Observatório da Covid-19 nos Quilombos tem o apoio de Moore Foundation, Embaixada da Noruega, União Europeia, Good Energies e Rainforest Foundation Norway.

Roberto Almeida
ISA
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