Dom Pedro Casaldáliga, o incansável defensor dos direitos indígenas

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Exemplo de resistência, ele não se intimidou diante de perseguições e ameaças de morte. Deixa como legado uma vida dedicada à defesa dos índios, dos trabalhadores rurais e contra a violência no campo
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O religioso catalão que chegou ao Brasil como missionário da Congregação dos Claretianos se foi neste sábado (8/8) aos 92 anos. Estava internado na cidade de Batatais (SP), com problemas respiratórios. Veio transferido de São Felix do Araguaia (MT), onde vivia. Casaldáliga tinha 40 anos quando deixou a Espanha franquista e desembarcou aqui, em 1968, ano em que a ditadura civil militar editaria o Ato Institucional número 5, o AI-5, que perseguiu e matou políticos e militantes.

De São Paulo, Casaldáliga seguiu para São Felix do Araguaia, em Mato Grosso, região marcada por violentos conflitos de terra. Ao lado de outros religiosos, tornou-se um defensor incansável dos direitos humanos, incluídos aí o dos indígenas e dos trabalhadores rurais. Em 1971, foi nomeado pelo Papa Paulo VI o primeiro bispo da Prelazia de São Felix do Araguaia, posto que deixou em 2005. Combatia insistentemente os latifundiários da região e também a ditadura. Por interferência da Igreja escapou de ser expulso do país. Mas sofria constantes perseguições e ameaças de morte. A primeira tentativa de assassiná-lo aconteceu em 1971.



“Dom Pedro era um missivista contumaz. Dedicava bom tempo todos os dias a escrever cartas”, conta Beto Ricardo, sócio-fundador do ISA, que o conheceu na década de 1970. Nessa época, Beto já trabalhava com povos indígenas no Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), fundado em 1974. “Quando eu o visitei em São Félix do Araguaia ele usava uma pequena máquina portátil”, conta. “Juntamente com Dom Thomaz Balduíno, dominicano, bispo de Goiás Velho, formaram uma dupla que liderou a parcela progressista da igreja católica nos tempos difíceis da ditadura e dos conflitos agrários nas fronteiras da Amazônia. O Cedi que já assessorava a formulação e a implantação de planos pastorais que esses dois bispos determinavam, passou a fazer isso institucionalmente”.

A facilidade que Casaldáliga tinha para escrever resultou em um de seus textos mais conhecidos: Uma igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e marginalização social. Entre seus livros, destaca-se Creio na Justiça e na Esperança, de 1977. Também a Missa da Terra Sem Males, escrita por ele 40 anos atrás, em parceria com Pedro Tierra (Hamilton Pereira da Silva), autor da música, ficou conhecida nacional e internacionalmente. A Terra Sem Males para os índios Guarani significa a Terra Nova, o Novo Céu e os versos parecem ter sido escritos nos dias de hoje para retratar a situação dos povos indígenas.

Apresentada pela primeira vez em 1979, foi um grito de alerta e de socorro pela vida dos índios no Brasil. A missa foi inspirada no "Ano dos Mártires" da Causa Indígena, celebrado em 1978, pelos 350 anos da morte de três missionários jesuítas chamados Mártires Riograndenses - Roque González, Afonso Rodriguez e João Castilho. O Cimi - Conselho Indigenista Missionário -, organização que Dom Pedro ajudou a consolidar, considerou que era preciso celebrar também a morte de milhares de índios, sacrificados pelos impérios cristãos da Espanha e de Portugal.



Foi assim que em 22 de abril de 1979, a Catedral Metropolitana de São Paulo, um domingo de Páscoa, abriu suas portas para sete mil pessoas que, ao lado de quase 40 bispos de todo o Brasil, participaram da missa. Dom Paulo Evaristo Arns foi o celebrante(Veja no final do texto).



Dom Pedro traz ainda em seu currículo a participação na criação da Comissão Pastoral da Terra (CPT), e a autoria da Missa dos Quilombos, em parceria com Pedro Tierra e Milton Nascimento. Foi celebrada em Recife, 20 de novembro de 1981.

Márcio Santilli, também sócio-fundador do ISA, recordou um encontro que teve com com ele em São Felix do Araguaia, em 2006, quando teve de fazer uma conexão na cidade a caminho de São Paulo. Seu depoimento está abaixo.

Pedro Passarinho da Paz

“Isso foi em abril de 2006. Eu estava no TIX - Território Indígena do Xingu, então chamado de “Parque”, em atividades ligadas à Campanha Y Ikatu Xingu, pela recuperação de nascentes e de matas ciliares nas cabeceiras do Rio Xingu, duramente afetadas pela expansão da fronteira agrícola e pelo desmatamento. Recebi pelo rádio a notícia de que o meu pai, Zeca Santilli, agonizava Se eu quisesse ainda vê-lo com vida, teria que chegar a São Paulo o quanto antes. Amigos do ISA conseguiram um lugar pra mim num voo que passaria em São Félix do Araguaia no final da tarde, rumo a Brasília, de onde eu poderia chegar facilmente ao destino. E fretaram um táxi aéreo, que me levou do Diauarum a São Félix, onde cheguei horas antes da conexão. Deixei a bagagem no aeroporto e, muito abalado, fui até a Prelazia, sem aviso prévio, atrás de uma benção de Dom Pedro Casaldáliga.

Quando eu cheguei, o Pedro descansava após o almoço. Ele vivia num pequeno quarto, na própria Prelazia. Não era um proletário porque nem prole tinha. Uma freira me pediu que eu o esperasse numa pequena sala de visitas, que tinha uma cortina de pano no lugar da porta. Deu-me um copo d’água e perguntou se eu queria que ela o acordasse, mas eu disse que não, que eu não tinha pressa e só queria lhe dar um abraço. Mas Pedro logo apareceu.

- ‘Uai! Eu não sabia que você estava aqui em São Félix’, disse surpreso. Sentou-se em outra cadeira ao meu lado. ‘Diga! Estou vendo que você está tenso’. Pedro conheceu o Zeca, que pertenceu ao “grupo dos autênticos” do velho MDB, de manifestações contra a ditadura militar e pela reforma agrária. Expliquei a ele o motivo da minha passagem e chorei. Pedro pegou as minhas mãos com as dele, olhou dentro dos meus olhos e disse: ‘Não fique chateado com o que eu vou te dizer: eu estou com inveja do seu pai. Daria qualquer coisa que eu tivesse para trocar de lugar com ele agora. O Zeca lutou ao lado do povo e, logo mais, estará ao lado do Pai, num lugar infinitamente melhor do que este em que nós estamos’. Falei para o Pedro que eu não tinha o costume de recorrer aos bispos, mas que não pude perder a oportunidade daquela imprevista conexão para recorrer aos ombros dele. E ele me agradeceu ‘pelo gesto de confiança entre pessoas unidas por sentimentos fortes’.

Hoje (8/8 - símbolos do infinito em pé) eu choro, com um misto de saudade e de inveja, a partida do Pedro, o bispo dos pobres, um cristão que se manteve verdadeiro nesses tempos de falsos profetas. Mesmo sem nos esquecer, ele deve estar agora super feliz, como um divino passarinho!”

A Terra sem males

Leia alguns trechos da missa e assista à cantata final.

Eu sou América,
sou o Povo da Terra,
da Terra-sem-males,
o Povo dos Andes,
o Povo das Selvas,
o Povo dos Pampas,
o Povo do Mar...

Do Colorado,
de Tenochtitlan,
do Machu-Pichu,
da Patagônia,
do Amazonas,
dos Sete Povos do Rio Grande...

(Vozes individuais)
Eu sou Apache.
Eu sou Azteca.
Eu sou Aymara.
Eu sou Araucano.
Eu sou Maia.
Eu sou Inca.
Eu sou Tupi.
Eu sou Tucano.
Eu sou Yanomani.
Eu sou Aymore.
Eu sou Irantxe.
Eu sou Karaja.
Eu sou Terena.
Eu sou Xavante.
Eu sou Kaingang.
Solo (R)
Eu, Guarani.
E é com canto Guarani
que todo o resto do Continente,
todos os povos do meu Povo,
cantam agora seu lamento.

Eu era a Terra inteira,
eu era o Homem Livre.
Todos
E nós te reduzimos
em Vitrina e Reserva,
em Parque zoológico,
em Arquivo-poeira.

Solo (R)
Eu era a Saúde dos olhos,
penetrantes como flechas,
dos ouvidos atentos,
dos músculos harmónicos,
da alma em sossego.

Todos
E nós te mergulhamos
nos vírus, nos bacilos,
nas pestes importadas.
Teu Povo reduzimos
a um Povo de doentes,
a um Povo de defuntos.

Dom Pedro foi velado em Batatais, depois será homenageado em Ribeirão Cascalheira (MT) e sepultado em São Felix do Araguaia, onde sempre viveu.

Para conhecer mais da vida de Dom Pedro Casaldáliga assista ao documentário Descalço sobre a Terra Vermelha, dividido em três partes, produzido pela TV Brasil.

ISA
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