Embaixador da UE no Brasil, João Cravinho visita o ISA em São Gabriel da Cachoeira

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O diplomata passou três dias conhecendo o trabalho desenvolvido pelo Instituto Socioambiental (ISA) no projeto “Territórios da Diversidade Socioambiental”, apoiado pela União Europeia, na região do Rio Negro (AM)
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Apreciador da culinária brasileira, o embaixador da União Europeia (UE) no Brasil, João Cravinho, passou três dias (de 17 a 20 de setembro) na cidade de São Gabriel da Cachoeira, no Noroeste Amazônico, onde conheceu novos sabores, como a castanha do Uará, só encontrada no Rio Negro, e a pimenta Jiquitaia, produzida pelo povo Baniwa.



A visita do embaixador teve o propósito de ver de perto o projeto Territórios da Diversidade Socioambiental, financiado pela UE, que tem a missão de fortalecer uma nova economia florestal com povos indígenas, quilombolas e extrativistas. O projeto é desenvolvido pelo ISA em São Gabriel com o seu parceiro local, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn). Além do Noroeste Amazônico, o projeto também vem sendo realizado pelo ISA no Vale do Ribeira, em São Paulo, com os quilombolas, e no Xingu (MT), com índios e extrativistas.

“É fantástico vir a São Gabriel da Cachoeira porque aqui temos a oportunidade de ver na prática aquilo que já conhecíamos no papel. Quando estamos em contato com as pessoas, quando vemos as comunidades e os produtos, tudo ganha vida. Tivemos a oportunidade de trocar ideias com quem está aqui trabalhando no campo. Essa viagem permitiu um aprofundamento do conhecimento de um projeto muito importante para nós”, ressalta o embaixador.

Sabores da floresta

Entusiasta da fotografia, Cravinho registrou a viagem com sua câmera profissional e fez anotações constantes no bloco de notas do celular. Capturou novas frutas, receitas culinárias e se deliciou com os pratos de dois famosos cozinheiros locais, Dona Brazi e Conde Aquino, feitos com ingredientes do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro. Durante visita ao sítio Tamanduá, da Dona Lúcia Lopes, do povo Baniwa, conheceu frutas da região como o ingá e a cucura, chamada também de uva da Amazônia. Dona Lúcia, que mora as margens do Rio Negro, é uma das principais fornecedoras de pimenta in natura das famosas “Casas de Pimenta”, instaladas em cinco comunidades indígenas.

“Nós acreditamos que a abordagem desse projeto do ISA e do seu parceiro, a Foirn, é uma abordagem que vai ao cerne de um problema fundamental, que é o de como apoiar as populações indígenas de modo que elas possam continuar a viver nas suas regiões e na floresta. Ao mesmo tempo esse projeto provoca uma consequência extremamente agradável para quem, como eu, gosta de gastronomia. A consequência é a possibilidade de colocar no mercado, em cidades grandes como Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, produtos fantásticos da Amazônia ainda desconhecidos. Produtos como a castanha Uará, a pimenta Baniwa, que eu me tornei um grande fã, e muitas frutas da região. Esperamos que haja resultados de longo prazo muito benéficos, não só para a população, como também para toda a floresta”, afirma.



Para marcar a visita, nada melhor do que o plantio de mudas em uma das casas de pimenta Baniwa, na comunidade do Yamado. Beto Ricardo, coordenador do programa Rio Negro do ISA, e o embaixador, plantaram mudas de moringa, uma espécie da Índia, cujas sementes são usadas para tratamento de águas superficiais. A ideia é que essa técnica alternativa de limpeza da água possa ser incorporada ao processo produtivo dos produtos da floresta. “Estamos na fase inicial do projeto Territórios da Diversidade Socioambiental, que tem como objetivo criar uma cadeia de produtos da floresta que seja capaz de gerar renda para a população indígena, respeitando a sua cultura e o meio ambiente nesta região, que é uma das mais preservadas da Amazônia”, diz Beto Ricardo.

Rumo ao Pico da Neblina

Português de Lisboa, Cravinho já foi também embaixador da UE na Índia, onde estava antes de vir para o Brasil. A visita ao ISA foi a sua segunda vez na Amazônia, onde pretende voltar também para subir o ponto mais alto do Brasil, o Pico da Neblina, que fica na terra indígena Yanomami de Maturacá, pertencente ao município de São Gabriel. O ISA apoia os Yanomami na estruturação do turismo ao Pico, que deverá começar a ser visitado por turistas em 2018 ou 2019.

“A Amazônia é um local especial, único no mundo e poder estar em uma pequena cidade no meio dessa natureza exuberante que caracteriza a Amazônia durante esses três dias foi excepcional. Tive como companhia constante o ruído do Rio Negro e suas pequenas corredeiras que passam aqui em frente de São Gabriel. Isso ajuda muito a termos a consciência do que é a realidade local. Uma realidade lindíssima, de enorme beleza natural e ao mesmo tempo uma realidade que condiciona a qualidade de vida e as condições humanas em que as pessoas estão. O grande objetivo aqui é casar os dois. É criar condições que ao mesmo tempo protejam a natureza e tirem partido dela de forma positiva, e também crie condições para que as pessoas tenham a qualidade de vida que merecem. Então, estou muito entusiasmado com o projeto, quero revisitar o ISA daqui a algum tempo, um ano talvez, para ver na prática como está funcionando”, comenta.

Saiba mais: O sabor da floresta em pé

“Avançar com delicadeza”

O embaixador viajou acompanhado por Thierry Dudermel, chefe do setor de Cooperação da União Europeia, e seu filho, Nicolas Dudermel, estudante de Engenharia Agrônoma, na Bélgica, muito interessado na área agroflorestal. A delegação também teve a oportunidade de entrar em contato com a realidade geopolítica do Noroeste Amazônico e da realidade sociocultural e econômica de São Gabriel, conhecida como a cidade mais indígena do Brasil, com cerca de 90% de sua população pertencente a uma das 23 etnias da região.

Cravinho foi recebido pelo general Omar Zendim na 2ᵃ Brigada de Infantaria de Selva, que apresentou o trabalho realizado pelo Exército na região, sobretudo em relação ao controle e fiscalização de atividades ilegais, como mineração em terra indígena e tráfico de drogas, vigilância nas fronteiras com Venezuela e Colômbia, além das atividades prestadas à população na área médica. Cravinho fez uma visita ao Hospital de Guarnição do Exército a convite do general Zendim.



A agenda em São Gabriel ainda incluiu um jantar comemorativo com a presença do general e do prefeito do município, Clóvis Saldanha, uma visita à loja de artesanato indígena Wariró e uma apresentação sobre o trabalho desenvolvido pela Foirn na região há 30 anos. O presidente da Federação, Marivelton Barroso Baré, fez uma exposição sobre o movimento indígena rionegrino na Maloca da Foirn, local tradicional dos encontros, articulações e reuniões das lideranças indígenas. O momento político do Brasil e as ameaças às populações indígenas também foi tema de debate com a presença de um dos sócio- fundadores do ISA, Márcio Santilli, assessor do Programa Política e Direito Socioambiental do ISA, em Brasília.

Nos momentos finais de sua visita, Cravinho comentou: “É extraordinário porque quem vem cá e prova os produtos, se pergunta: Puxa, por que isso não está no topo das prateleiras das grandes cidades, por que não está nos grandes restaurantes e nos mercados mais exigentes? Há várias razões para isso, razões relacionadas com a comercialização. Mas, ao mesmo tempo, há também a sensação de que nós temos que avançar com delicadeza para não destruir equilíbrios que são muito mais complexos do que as pessoas imaginam de fora. Então, esse trabalho que se baseia em décadas de experiência do ISA, em décadas de vivência de uma instituição como a Foirn, precisa ser feito com essa inteligência e vivência. Portanto, é muito entusiasmante poder participar desse processo”, finaliza.

Juliana Radler de Aquino
ISA
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