Para inspirar nova geração, povo Wai Wai publica cartilha sobre manejo da castanha

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Maior fonte de renda das comunidades em Roraima, safras de centenas de toneladas têm qualidade reconhecida por empresas e conquistam bons preços
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Com 20 páginas, publicada em papel impermeável e texto na língua Wai Wai, a Cartilha de Boas Práticas e Manejo da Castanha (clique para fazer o download) chegou às mãos do professor Renato Wai Wai, da aldeia Jatapuzinho, Terra Indígena Trombetas/Mapuera (RR).

Na Escola Estadual Indígena Wai Wai, onde trabalha, Renato pretende mostrar a cartilha aos alunos, que vivem intensamente a safra da castanha. Eles recebem uma licença de 15 dias das escolas, observam o trabalho nos castanhais, muitos deles localizados a horas de barco distante das aldeias, e aprendem tudo sobre o manejo.

"A gente já explicava como é o trabalho com a castanha para as crianças sem a cartilha. Com a publicação, elas aprendem mais fácil. Os pais sempre levam os filhos para os castanhais. Eles conversam, escutam. Por isso, é muito importante para a gente ensinar sobre a castanha também", disse.

O professor lembra que, quando as famílias retornam dos castanhais, as crianças contam na escola o quanto aprenderam com os pais sobre o território – plantas, animais que viram e que comeram, o trabalho de coletar e lavar as castanhas.

O povo Wai Wai das Terras Indígenas Wai Wai e Trombetas/Mapuera, em Roraima, negociou em 2018 uma safra de 100 toneladas de castanha com a empresa de pães Wickbold. O preço da lata de 10 quilos chegou a R$ 44 –76% acima dos R$ 25 praticados por atravessadores na região à época.

O volume e o preço alcançado são resultado da consolidação das boas práticas no manejo da castanha, praticadas há uma década pelos Wai Wai. (Leia reportagem completa sobre a safra da castanha em 2018).

“Já aprendemos boas práticas para vender uma castanha de qualidade. Temos de ensinar nossos filhos a continuar a vender uma castanha limpa”, afirmou Fernandinho Oliveira Wai Wai, presidente da Associação dos Povos Indígenas Wai Wai (APIW), em visita do ISA à comunidade no ano passado.

A cartilha de boas práticas ganhou também uma versão em vídeo, compartilhada entre as comunidades. Assista abaixo:

“Hoje, nós chamamos os castanhais de nossa poupança", disse Tarcizio Yakima Wai Wai, da aldeia Anauá. "Eles nos garantem dinheiro como a poupança para os brancos. Porque a castanha é a nossa fonte de renda.”

Quem são os Wai Wai?

Os Wai Wai são um povo indígena de língua karib composto por mais de 2,5 mil pessoas. A castanha sempre foi a estrela da cultura alimentar dos Wai Wai. Com a estruturação da cadeia produtiva, ela vem se tornando o motor da transformação de vidas e reforço para a vigilância de um território acossado por invasores.



Imagens de satélite mostram o avanço do desmatamento nos limites da Terra Indígena Wai Wai, próxima às cidades roraimenses São Luiz do Anauá, São João da Baliza e Caroebe. Elas formam um corredor na BR-210 e são a espinha dorsal do desenvolvimento predatório, com a abertura de estradas vicinais.

Contudo, o reforço das boas práticas no manejo da castanha, e a parceria para comercialização justa e transparente com empresas, favorece o planejamento da safra e, com isso, mantém o monitoramento das terras Wai Wai contra invasores.

Mapa das Terras Indígenas Wai Wai e Trombetas/Mapuera. Em vermelho escuro, a mancha de desmatamento.

Roberto Almeida
ISA
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