"Devastamos mais da metade do nosso País pensando que era preciso deixar a natureza para entrar na história: mas eis que esta última, com sua costumeira predileção pela ironia, exige-nos agora como passaporte justamente a natureza".
Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo, um dos motes da fundação do ISA em 1994.
O ISA trabalha em parceria com povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais para elaborar soluções inovadoras para os desafios enfrentados por estas comunidades e povos. Nossas iniciativas apoiam e promovem a defesa de direitos, gestão e proteção territorial, economias do cuidado, processos formativos, restauração ecológica inclusiva e produtiva. Elas são baseadas em processos de experimentações e trocas de saberes transparentes, equitativas e de longo prazo com nossos parceiros, que tem como base a valorização dos modos de vida destas populações e a garantia de seus direitos.
Nossa abordagem de atuação coloca a potência dos saberes tradicionais em diálogo com práticas legais, acadêmicas e de mercado. A inovação, produzida a partir dessa interação entre diferentes mundos, pensamentos e linguagens, oferece caminhos para o reconhecimento pela sociedade brasileira - e mundial -, que são estes povos que cuidam e protegem as florestas que prestam os serviços socioambientais para a própria sobrevivência do planeta e cada um de nós.
Há diversas outras iniciativas que apontam para soluções originais para os desafios enfrentados pelas populações indígenas e tradicionais para garantir o direito à terra, o bem-viver, a preservação de suas florestas e modos de vida, intrinsecamente interdependentes. A formação de jovens comunicadores indígenas, por exemplo, capacita tecnicamente a juventude dos territórios do Xingu e do Rio Negro em dominar a tecnologia para contar suas próprias histórias, defender seus direitos e se conectar com a cultura de seus de seus antepassados. Conheça abaixo outros exemplos de soluções desenvolvidas pelo ISA e seus parceiros locais e nacionais:
Copiô, Parente, o primeiro podcast feito no Brasil para os povos da floresta
Xingu Solar, projeto de promoção de energia fotovoltaica no Xingu
Na última sexta-feira (17/04), um marco para a defesa do Rio Xingu foi celebrado na Terra Indígena Paquiçamba, em Vitória do Xingu (PA). Em assembleia que reuniu mais de 50 representantes — entre indígenas, ribeirinhos e acadêmicos de diferentes centros científicos —, foi criado o Instituto de Monitoramento Ambiental Territorial Independente e Pesquisa Intercultural da Volta Grande do Xingu (MATI-VGX). Fruto de mais de uma década de registros contínuos dos impactos da hidrelétrica de Belo Monte, a criação do Instituto ocorreu onde tudo começou: na aldeia Mïratu, do povo Juruna/Yudjá, localizada no chamado "Trecho de Vazão Reduzida" (TVR) — região de onde a usina desvia até 80% das águas do Xingu para alimentar suas turbinas.
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Criação do Instituto de Monitoramento Ambiental Territorial Independente e Pesquisa Intercultural da Volta Grande do Xingu (MATI-VGX) fortalece monitoramento participativo|Roberto Rezende/ISA
“A formalização do MATI-VGX vem evidenciar aquilo que viemos falando há muitos anos, desde a implementação da barragem de Belo Monte. É algo muito importante para esta região da Volta Grande e para quem reside aqui. Mas não é importante só para nós: também para que surjam outras iniciativas que precisam de fortalecimento, para que tenham mais iniciativas de monitoramento participativo intercultural”, declarou Josiel Juruna, diretor do MATI-VGX, em nome dos sócios fundadores.
Aliando conhecimentos dos territórios tradicionais e de universidades, o MATI-VGX se tornou uma referência fundamental sobre a Volta Grande do Xingu. Seus dados, publicados em periódicos de excelência com revisão por pares, como a Conservation Biology, têm fornecido ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) — licenciador de Belo Monte — avaliações sobre o que se passa na região em decorrência do barramento do Xingu.
Com os dados produzidos de maneira independente, não é apenas a própria empresa concessionária de Belo Monte quem detém exclusividade na comunicação ao licenciador sobre os impactos do empreendimento. Além disso, o público em geral pode ter acesso à base de dados do monitoramento, disponível no Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr | MATI-VGX).
A presença constante no território possibilita ao MATI-VGX registrar eventos críticos que evidenciam o estado do ecossistema — como o flagrante, pelo quarto ano consecutivo, de milhões de ovas de peixe morrendo em áreas secas, devido à redução drástica da vazão do rio. Com isso, além de informar imediatamente os órgãos competentes de fatos dessa importância, o MATI-VGX fornece à sociedade em geral evidências dos graves danos que hidrelétricas podem provocar em rios amazônicos, explicitando também a urgência de se estabelecer uma partilha justa de água na Volta Grande do Xingu.
“O MATI é a visão e a voz, em tempo real, da situação das vidas na Volta Grande do Xingu”, disse o diretor adjunto do MATI-VGX, Raimundo da Cruz e Silva, ribeirinho e pesquisador. Ele complementa: “a nossa maior força foi a união entre os indígenas, os ribeirinhos e os cientistas acadêmicos, consolidando uma robustez de conhecimentos práticos e científicos, transmitindo qualidade e segurança em nosso trabalho”.
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“O MATI é a visão e a voz, em tempo real, da situação das vidas na Volta Grande do Xingu”, disse o diretor adjunto do MATI-VGX, Raimundo da Cruz e Silva|Roberto Rezende/ISA
O MATI-VGX teve sua produção técnica e científica reconhecida pelo Ibama, que ordenou à concessionária de Belo Monte que considere as análises produzidas pelo monitoramento independente para propor um novo hidrograma para a Volta Grande.
A relevância e legitimidade do MATI-VGX como interlocutor qualificado sobre os impactos de Belo Monte se deu também, nos últimos anos, em eventos públicos, científicos e acadêmicos, sobre a realidade da região. Exemplos recentes são as suas contribuições para o debate promovido pelo Ministério Público Federal durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), de 2025; a participação na 76ª reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) com a mesa redonda “De quanta água um rio precisa? Partilha da água entre os povos do Rio Xingu e a UHE Belo Monte sob mudança climática”, em 2024; e o seminário técnico “O Futuro da Volta Grande do Xingu”, promovido em Brasília pela Procuradoria-Geral da República, em 2023.
“As pesquisas realizadas pelo MATI-VGX têm capilaridade no território, se baseiam no sistema de conhecimentos intergeracionais e registram as mudanças ambientais e dados sobre interações entre espécies”, observa a professora doutora Janice Muriel Cunha, da Universidade Federal do Pará (UFPA), associada ao MATI-VGX. “A criação do instituto fortalece a missão de salvaguardar a Volta Grande do Xingu e pela governança ambiental mais participativa e com o protagonismo de quem vive os impactos no território”, completa.
Saiba mais sobre a luta de ribeirinhos e povos indígenas pela vida do Rio Xingu:
Agora fortalecido como organização formalizada, o MATI-VGX reafirma sua missão de promover o monitoramento independente e a pesquisa intercultural, garantindo o protagonismo local e a defesa dos direitos humanos e ambientais na Volta Grande do Xingu. Esse é um passo decisivo para justiça socioambiental e a proteção necessária de uma das regiões mais biodiversas e ameaçadas do Brasil.
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Aldear a Educação leva saberes indígenas ao Sesc 24 de Maio, em São Paulo (SP)
Com oficina, roda de conversa, aula-espetáculo, performance de Auritha Tabajara e pocket show de Brisa Flow, programação especial celebra as onze iniciativas premiadas pelo Edital Aldear a Educação Básica
Encerrando o Abril Indígena, mês de mobilização e resistência para o movimento indígena, nos dias 28 e 29 de abril, o Sesc 24 de Maio, em São Paulo (SP), recebe uma programação especial dedicada à promoção de uma educação que reconheça os saberes indígenas nas escolas brasileiras.
Reunindo pessoas educadoras de comunidades indígenas e não indígenas, as atividades do Aldear a Educação incluem roda de conversa, aula-espetáculo, oficina e bate-papo, propondo o diálogo entre diferentes saberes e modos de ensinar e aprender. “É um espaço para fortalecer, aprender, somar experiências e seguir avançando na valorização das ciências indígenas e no bem viver”, afirma Rosenilda Luciano, do povo Sateré-Mawé, coordenadora do Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (Fneei).
Além disso, o evento também busca assegurar a Lei nº 11.645/2008, uma conquista do movimento indígena que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), tornando obrigatório o ensino das histórias e culturas indígenas nas escolas do país. A legislação veio para complementar a Lei nº 10.639/2003, que já havia determinado a inclusão no currículo de histórias e culturas afro-brasileiras.
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Aula na aldeia Ngojwêrê, do povo Khisêtjê, na Terra Indígena Wawi, no Mato Grosso, valoriza língua indígena|Ton Koene
A programação é uma realização do Serviço Social do Comércio São Paulo (Sesc SP), junto ao Instituto Socioambiental (ISA) e ao Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (Fneei), em parceria com a Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga) e o Instituto Alana.
Para Rosenilda Luciano Sateré-Mawé, a cerimônia marca um momento de celebração e de reconhecimento das práticas pedagógicas nascidas nos territórios e reafirma a construção de uma educação mais justa, sustentável e pluriétnica, profundamente alinhada aos saberes dos povos indígenas. “Esse encontro evidencia a força da luta dos educadores e educadoras indígenas, articulados pelo FNEEI, com apoio de parceiros comprometidos, como o ISA, o Sesc, a Anmiga e o Instituto Alana, na construção coletiva de caminhos para a efetiva implementação da Lei 11.645/2008, respeitando as especificidades dos povos indígenas”, conclui.
A programação conta a presença de Joziléia Kaingang, diretora-executiva da Anmiga e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Gersem Baniwa, coordenador do FNEEI e professor na Universidade de Brasília (UnB); Cris Takuá, do Museu das Culturas Indígenas (MCI) e coordenadora das Escolas Vivas junto à Associação Selvagem; Luiz Ketu, escritor e pesquisador do Quilombo São Pedro, no Vale do Ribeira (SP); além da performance poética inédita da escritora Auritha Tabajara, com participação especial da musicista Paola Gibram; e o pocket show da artista Brisa Flow.
A iniciativa também celebra as onze experiências selecionadas no Edital Aldear a Educação Básica: Fortalecendo a Lei 11.645/08, que reconheceu onze práticas pedagógicas comprometidas com a valorização das histórias, culturas e conhecimentos indígenas nas escolas brasileiras. Ao todo, mais de 200 propostas foram avaliadas por um comitê formado por especialistas, educadores e representantes de organizações da sociedade civil.
Para Luma Prado, pesquisadora responsável pelo projeto Aldear a Educação do ISA, “a programação no Sesc 24 de Maio dá oportunidade à comunidade educadora paulistana de conhecer, aprender e trocar com educadores indígenas e não indígenas que tornam realidade a Lei 11.645 em várias partes do Brasil”. Ela ainda acrescenta, “para nós, do ISA, a Lei 11.645 é estratégica no combate ao racismo contra povos indígenas, na valorização da sociodiversidade brasileira e, além disso, é a chave para que crianças e jovens possam desenvolver soluções para enfrentar a emergência climática”.
O evento busca ampliar o alcance dessas práticas anteriormente reconhecidas pelo edital, que incluem iniciativas como podcasts com intelectuais indígenas, jogos protagonizados por mulheres lideranças, catálogos táteis de grafismos e projetos voltados a diferentes etapas da educação básica, incluindo Educação de Jovens e Adultos (EJA).
As ações pedagógicas premiadas serão disponibilizadas gratuitamente na plataforma Aldear a Educação, no site mirim.org, contribuindo com o repositório de recursos pedagógicos de educadores e para a difusão de abordagens antirracistas e interculturais em todo o país.
O edital Aldear a Educação Básica
Lançado em setembro de 2025, o edital tem como objetivo reconhecer e divulgar experiências educativas que evidenciem os saberes indígenas, combatendo o preconceito e fortalecendo a Lei nº 11.645/2008. A iniciativa é fruto da parceria entre FNEEI, ISA, Instituto Alana e Anmiga. Além do edital, a parceria entre as organizações é responsável pelo mapeamento de educadores indígenas que atuam na formação continuada de professores e pela nota técnica “Lei 11.645/08: Ensino de História e Cultura Indígena”, lançada em 2024.
Confira a programação completa:
Roda de conversa: Como aldeamos a Educação? Data e horário: 28 de abril de 2026, terça-feira, das 15h às 17h30 Local: Sala ETA, no 4º andar do Sesc 24 de Maio Participantes: Prof. Dr.ª Joziléia Kaingang (Anmiga e UFSC) e responsáveis pelas propostas premiadas no edital Aldear a Educação Básica, sendo eles: Ana Paula da Rocha, do povo Tapeba, que atua na Escola Indígena Aba Tapeba, em Caucaia (CE); Andressa dos Santos Silva, que atuou no CIEJA Campo Limpo, em São Paulo (SP); Arley de Araújo Clemente, do povo Potiguara Ibirapi, educador no Centro Comunitário Indígena/EJA Nordeste, em Ceará Mirim (RN); Bruna Moreira da Silva, professora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Campos do Cristal, em Porto Alegre (RS); Cristiana Andrade Butel, que atua na Escola Estadual Senador João Bosco, em Parintins (AM); Leonardo Alves da Cunha Carvalho, professor do Instituto Federal de São Paulo (Campus São Miguel Paulista), na capital paulista; Monyque Ferreira Brandão, professora da Escola Estadual José Domingos da Silveira, em Barueri (SP); Selma de Souza Sá Silva, do povo Pankará, que atua na Escola Municipal Virgílio Távora, em São Paulo (SP); Talita Yosioka Collacio, professora da EJA na Escola Municipal Professor João de Barros Pinto, em Santo André (SP); Thais Regina Maciel da Silva, do povo Pataxó, que leciona na Escola Municipal Aristides José da Silva, em Betim (MG); Vilmone Benites Samaniego (Wera Mirim), do povo Guarani Nhandeva, educador na Escola Indígena Pira Rupa, em Palhoça (SC) Mediação: Tatiane Maíra Klein (ISA e USP) *Retirada de ingresso 30 minutos antes
Aula-Espetáculo: Aldear a Educação: caminhos indígenas para a Lei 11.645/08 Data e horário: 28 de abril de 2026, terça-feira, das 19h às 21h Local: Teatro do SESC 24 de Maio Participantes: performance poética de Auritha Tabajara, com participação especial da musicista Paola Gibram; Chirley Pankará (Anmiga e USP), como mestra de cerimônias; aula de Gersem Baniwa (FNEEI e UnB) e Luma Prado (ISA e USP); e pocket show de Brisa Flow *Retirada de ingressos 1 hora antes
Bate-papo: Pedagogias quilombolas e indígenas Data e horário: 29 de abril de 2026, quarta-feira, das 15h às 16h30 Local: Sala ETA, no 4º andar do Sesc 24 de Maio Participantes: Cris Takuá (Escolas Viva/Conselho Aty Mirim, TI Ribeirão Silveira) e Luiz Ketu (Quilombo São Pedro) Mediação: Mariana Soares, jornalista (ISA) *Retirada de ingresso 30 minutos antes
Oficina: Escolas antirracistas, modos de fazer Data e horário: 29 de abril de 2026, quarta-feira, das 17h às 19h Local: Sala ETA, no 4º andar do Sesc 24 de Maio Participante: Veronica Pinheiro (grupo Aprendizagens/Selvagem) *Retirada de ingresso 30 minutos antes
Mais informações:sescsp.org.br/24demaio Serviço de van: o Sesc oferece transporte gratuito até as estações de metrô República e Anhangabaú. Saídas da portaria a cada 30 minutos, de terça a sábado, das 20h às 23h, e aos domingos e feriados, das 18h às 21h.
Sobre o Sesc
O Serviço Social do Comércio é uma entidade privada com finalidade pública, criada em 1946 por iniciativa do empresariado do setor de comércio de bens, serviços e turismo, e que tem como missão contribuir para a qualidade de vida dos trabalhadores dessas categorias, seus dependentes e da sociedade em geral.
No estado de São Paulo, o Sesc conta com uma rede de 44 unidades, incluindo centros culturais e esportivos, bem como unidades especializadas. Oferece programações em diversas linguagens artísticas, atividades físico-esportivas e de turismo social, programas de saúde, educação para sustentabilidade, para a diversidade e para acessibilidade, alimentação, programas especiais para crianças, jovens e pessoas idosas, além do Sesc Mesa Brasil – programa institucional de combate à fome e ao desperdício de alimentos.
O Sesc desenvolve, assim, uma ação de educação não formal permanente com o intuito de valorizar as pessoas ao estimular a autonomia, a convivência e o contato com expressões e modos diversos de pensar, agir e sentir.
Sobre o Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (Fneei)
O Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (Fneei) é um espaço de diálogo e articulação entre lideranças indígenas, educadores e o Estado, em defesa de uma educação escolar indígena específica, diferenciada e intercultural. Criado em 2015, o Fórum atua na promoção de políticas públicas que valorizem os saberes tradicionais, as línguas e os territórios indígenas, conforme previsto na Constituição e no Plano Nacional de Educação, reafirmando seu papel de resistência frente aos retrocessos nos direitos dos povos indígenas.
Sobre o Instituto Socioambiental
Com o lema “socioambiental se escreve junto”, em 1994 foi fundado o Instituto Socioambiental (ISA). Desde então, a organização atua lado a lado com parceiros históricos de comunidades indígenas, quilombolas e extrativistas para desenvolver soluções que protejam seus territórios, fortaleçam suas culturas e saberes tradicionais, elevem seu perfil político, e desenvolvam economias sustentáveis.
Com Programas e escritórios dentro dos territórios, o ISA fincou suas raízes em três bacias hidrográficas: Rio Negro (AM/RR), Xingu (MT/PA) e Ribeira de Iguape (SP). E, em parceria com associações locais, organizações não governamentais, e redes regionais e nacionais, articula projetos através dos Programas de Política e Direito Socioambiental e Povos Indígenas no Brasil, bem como dos Temas de Restauração Ecológica, Economias da Sociobiodiversidade e Clima - uma relação de duas vias que nomeamos “raiz-antena”. Sua missão é defender a pluralidade socioambiental brasileira, seja no chão da floresta ou nos corredores de Brasília.
Sobre o Alana
O Alana é um ecossistema de organizações de impacto socioambiental que promove e inspira um mundo melhor para as crianças. Um mundo sustentável, justo, inclusivo, igualitário e plural. Um mundo que celebra e protege a democracia, a justiça social, os direitos humanos e das crianças com prioridade absoluta. Um mundo que cuida dos seus povos, de suas florestas, dos seus mares, do seu ar. O Alana é um ecossistema de organizações interligadas, interdependentes, de atuação convergente, orientadas pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. O encontro de um Instituto, uma Fundação e um Núcleo de Negócios de Entretenimento de Impacto. Um combinado único de educação, ciência, entretenimento e advocacy que mistura sonho e realidade, pesquisa e cultura pop, justiça e desenvolvimento, articulação e diálogo, incidência política e histórias bem contadas.
Sobre a Anmiga
A Anmiga é uma organização de mulheres originárias dos seis biomas do País – Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pampa e Pantanal. Por meio de uma construção coletiva, elas buscam fortalecer a luta pelo bem viver e por seus territórios, a partir do protagonismo das mulheres e da valorização de seus saberes tradicionais.
Esta publicação é um produto do projeto "Defesa e Promoção dos Direitos Indígenas no Brasil: Construir Capacidades e Engajar Pessoas por um Futuro mais Justo", realizado pelo Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (Fneei) e Instituto Socioambiental (ISA), com o financiamento da União Europeia. Este material tem conteúdo de responsabilidade exclusiva das instituições realizadoras e não reflete a posição da União Europeia.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Ação de plantio agroflorestal na Praça Dorothy Stang, em Belém, contribui para diversidade urbana
Resultados de monitoramento em área implantada durante a COP30 mostram que muvuca e agricultura sintrópica são uma combinação favorável para a restauração da Amazônia e da floresta
Andrea Ono
- Jornalista do Redário
Claudia Kahwage
- Espaço Permacultural Via Amazônia
Banana, macaxeira, taioba, feijão de porco, pepino, sementes para coletar e plantar de novo é o resumo da fartura e diversidade do que pode ser visto hoje na Praça Dorothy Stang, em Belém, onde, em novembro de 2025, durante a COP30 aconteceu um mutirão de plantio de agrofloresta urbana com muvuca de sementes. O resultado mostra que produção de alimentos e restauração de ecossistemas podem e devem estar juntos.
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Ação ocorreu na Praça Dorothy Stang, em Belém, em novembro de 2025, durante a Conferência das Partes (COP30)|Claudia Kahwage
“Além da função produtiva, a agrofloresta também passou a desempenhar papel paisagístico, transformando a estética da praça. O espaço, antes marcado por um gramado homogêneo, agora se apresenta como um ambiente verde, diverso e vivo”, é o que relata Claudia Kahwage, do Espaço Permacultural Via Amazônia, organização que coordenou a ação de plantio.
De acordo com ela, os resultados obtidos em pouco mais de quatro meses após o plantio demonstram a efetividade da técnica da muvuca mesmo em condições de solo degradado.
“A experiência reforça o potencial da muvuca como tecnologia de restauração de baixo custo e alta eficiência, com aplicabilidade tanto em áreas rurais quanto urbanas da Amazônia. No contexto da COP30, a iniciativa evidencia que soluções práticas e replicáveis já estão em curso, apontando caminhos concretos para a recuperação de áreas degradadas e a construção de cidades mais resilientes”, afirma.
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Plantio com muvuca foi inspirado nos processos naturais, semeando diversas espécies em conjunto, combinando diferentes alturas e ciclos de vida|Hellyda Silveira/Espaço PermaCultural Via Amazônia
Claudia Kahwage explica que, na ocasião, um trecho de gramado empobrecido foi convertido em área agroflorestal por meio da técnica da muvuca, que consiste na semeadura direta de uma mistura diversificada de espécies. As sementes utilizadas foram fornecidas pelo Instituto Socioambiental (ISA), contribuindo para a diversidade e funcionalidade do sistema. O plantio incluiu também o consórcio com mandioca, banana, abacaxi e carás, fortalecendo o potencial produtivo da área.
O sistema agroflorestal se mostra bem estabelecido. O crescimento vigoroso das espécies e a boa cobertura do solo são sinais evidentes de regeneração ecológica. A área, antes degradada, hoje apresenta diversidade vegetal e já começa a produzir alimentos, além de contribuir para o sombreamento e melhoria do microclima local.
Claudia explica ainda que na agricultura sintrópica, o plantio biodiverso, como o da muvuca de sementes, é a base do sistema produtivo. Inspirada nos processos naturais, essa abordagem organiza diversas espécies em conjunto, combinando diferentes alturas e ciclos de vida. Essa diversidade permite que as plantas cooperem entre si, promovendo fertilidade do solo, equilíbrio ecológico e aumento da produtividade.
“Assim, o cultivo funciona como uma floresta produtiva, onde produzir e regenerar caminham juntos. A muvuca e a agricultura sintrópica juntas são uma potência para a restauração da Amazônia”, conclui.
O mutirão de plantio, que ocorreu durante o lançamento do Festival de Cinema Dorothy Stang: Justiça Climática e Direitos Humanos, foi organizado pelo Espaço Permacultural Via Amazônia, reunindo cerca de 30 participantes de organizações locais, como o Redário e o ISA, que forneceram as sementes para a muvuca. O plantio foi orientado pelos educadores agroecológicos Luciney e Riviane Vieira, da Vila Iandê/Universidade Cabana, com base nos princípios da agricultura sintrópica e uso de adubação 100% orgânica.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
ISA lança 'Hoje na História Socioambiental', série que movimenta memória e arquivos para as salas de aula
Materiais didáticos com base em documentos históricos do Acervo do ISA fortalecem a luta de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais do Brasil
O acervo do Instituto Socioambiental (ISA) começou a ser formado ainda na década de 1970, antes mesmo da existência formal da instituição, criada em 1994. Na época, o Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi) formou com participação decisiva de uma rede de colaboradores voluntários uma base inédita de documentos socioambientais.
Hoje, grande parte dessa base documental pode ser consultada na plataforma digital do Acervo do Instituto Socioambiental. São mais de 250 mil itens catalogados, como publicações do ISA, livros, recortes de jornais da época, fotos, vídeos, mapas, entre outros tipos de documentos de valor histórico e imaterial.
Grupo de indígenas de diversos povos, ocuparam auditório durante as negociações do capítulo dos índios na Constituinte, em 1988, em Brasília|Beto Ricardo/ISA
Para valorizar a memória dos povos e dos registros documentais presentes no Acervo do ISA, a série Hoje na História Socioambiental lança luz sobre o protagonismo de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais na construção do país.
A série integra pesquisa histórica, registros documentais e saberes tradicionais, revelando como marcos nacionais se cruzam com trajetórias coletivas, lutas territoriais, processos de resistência, violações de direitos e conquistas que transformaram a história do Brasil.
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Participante da II Marcha Aquilombar, maior evento quilombola do país, teve como tema "Ancestralizando o Futuro", em 2024|Joédson Alves/Agência Brasil
A série e os kits didáticos dialogam com os princípios estabelecidos pela Lei nº 11.645/2008, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas de todo o país e amplia o acesso a conteúdos qualificados sobre os povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, bem como suas trajetórias históricas, sociais e culturais.
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“Saberes Indígenas na escola”, produzida pelo Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (Fneei) e Instituto Alana|Brenda Okubo/ISA
Hoje na História Socioambiental é um convite do Acervo do ISA a reler o Brasil com mais amplitude, sensibilidade e justiça. Ao revisitar o passado por outras lentes, a série busca ajudar a compreender o presente e inspirar novas formas de pensar o futuro.
Quer saber mais sobre a História Socioambiental do Brasil? Assista ao filme Mapear Mundos, que articula imagens de arquivos indigenistas com testemunhos atuais para rememorar os passos dados por organizações da sociedade civil, em um contexto de ditadura militar, pela garantia de direitos dos povos originários no Brasil.
**A série Hoje na História Socioambiental apresenta a riqueza de informações do Acervo do Instituto Socioambiental que conta com mais de 250 mil itens catalogados voltados para a temática socioambiental como publicações do ISA, livros gerais, teses e dissertações, mapas, notícias, materiais audiovisuais, entre outros. Hoje na História Socioambiental é um convite a reler o Brasil com mais amplitude, sensibilidade e justiça, valorizando a memória e documentação dos diversos povos.
Esta publicação conta com o apoio do Fundo Amazônia e é um produto do projeto "Defesa e Promoção dos Direitos Indígenas no Brasil: Construir Capacidades e Engajar Pessoas por um Futuro mais Justo", realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), com o financiamento da União Europeia.
Este material tem conteúdo de responsabilidade exclusiva da instituição realizadora e não reflete a posição da União Europeia.
Em ritual durante a comemoração dos 30 anos da TI Yanomami, o xamã Davi Kopenawa segura o céu na Aldeia Xihopi, no Amazonas|Christian Braga/ISA
Ana Maria Eugênia da Silva, liderança do Quilombo Sitio Veiga, de Quixadá-CE|Ester Cruz/ISA
Mulheres carregam pimentas colhidas na roça próxima à comunidade Canadá, no Rio Ayari, Terra Indígena Alto Rio Negro, Amazonas|Carol Quintanilha/ISA
Urias Morato, do Quilombo São Pedro, durante a 16ª Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira|Júlio César Almeida/ISA
Ato público às margens do Xingu no encerramento do Encontro Xingu Vivo para Sempre, em Altamira, Pará|Raul Silva Telles do Valle/ISA
Deputado Vigildásio Senna, da Bahia, leva para a tribuna a Câmera mapa feito pelo CEDI, "Empresas de Mineração em Terras Indígenas"|André Dusek/AGIL
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COP15: Sítios Ramsar na Amazônia reforçam papel estratégico na proteção de espécies migratórias
Reconhecido desde 2018, o Sítio Ramsar do Rio Negro é o maior de águas pretas do mundo, com cerca de 12 milhões de hectares, e foi pauta na COP15 sobre Espécies Migratórias
As zonas úmidas da Amazônia estiveram no centro das discussões sobre estratégias para a conservação de espécies migratórias no Brasil. Durante dois debates realizados na 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias, especialistas reforçaram que proteger esses territórios exige fortalecer a governança local e reconhecer o papel das populações que vivem nessas áreas.
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Painel foi realizado no Espaço Brasil e destacou a governança territorial como um dos pilares da conservação|Vanessa Fernandes/ISA
Realizados nos dias 26 e 27 de março, os encontros abordaram desde a governança territorial até os desafios enfrentados por espécies migratórias em paisagens aquáticas cada vez mais pressionadas. Em comum, as discussões apontaram que a conservação depende da integridade dos ecossistemas e da participação ativa das comunidades.
O primeiro painel, realizado no Espaço Brasil (Zona Azul), trouxe experiências de Sítios Regionais da Amazônia, os sítios Ramsar no Rio Negro, no Juruá e no estuário da foz do Amazonas, evidenciando que a governança territorial é um dos pilares da conservação.
Nessas experiências, o monitoramento comunitário tem sido fundamental não apenas para registrar mudanças ambientais, mas também para fortalecer a autonomia dos territórios.
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Renata Alves, analista de geoprocessamento do ISA e membro do CNZU fala sobre a importância dos PGTAs|CCOM/ICMBio
As falas também evidenciaram que as mudanças nos padrões das espécies migratórias já são perceptíveis localmente. Alterações no comportamento de peixes e aves têm sido observadas com maior frequência, reforçando a urgência de ações integradas.
Neste contexto, o Agente Indígena de Manejo Ambiental (AIMA) Tiago Pacheco apresentou pesquisa intercultural na região do Rio Negro sobre aves migratórias nos ciclos anuais, onde se tem observado a redução no número de avistamentos na região, que pode estar relacionada às mudanças climáticas.
Participaram da mesa Renata Alves, ecóloga e analista de geoprocessamento do Instituto Socioambiental (ISA) e membro do Comitê Nacional de Zonas Úmidas (CNZU), Gabriela Soeiro, do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Sociobiodiversidade Associada a Povos e Comunidades Tradicionais (CNPT/ICMBio), Selma Ribeiro, do Centro Nacional de Pesquisa em Biodiversidade e Restauração Ecológica (CBC/ICMBio), Tiago Pacheco, AIMA do Rio Negro, e Guillermo Estupiñán, da Wildlife Conservation Society (WCS)
Reconhecido desde 2018, o Sítio Ramsar do Rio Negro é a maior zona úmida de águas pretas de importância internacional do mundo, com cerca de 12 milhões de hectares. A área abrange um mosaico de oito terras indígenas e unidades de conservação municipal, estadual e federal, localizados no noroeste amazônico, formando um dos maiores contínuos de florestas e rios preservados do planeta. A alta diversidade biológica da região inclui animais em extinção como o peixe-boi-da-Amazônia e o boto-cor-de-rosa.
Segundo Renata Alves, o processo de governança do sítio está diretamente relacionado à articulação com os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) das terras indígenas que compõem esse território. Esses instrumentos, elaborados pelos povos indígenas, orientam o uso, a proteção e o manejo dos recursos naturais.
“A governança neste sítio não começa do zero, ela se baseia em instrumentos que já existem e que expressam como os povos querem cuidar dos seus territórios”, destaca.
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Sítio Ramsar do Rio Negro é a maior zona úmida de águas pretas do mundo|Renata Alves/Rio Negro
Conectividade ecológica
No segundo painel, que discutiu paisagens aquáticas e suas vulnerabilidades e oportunidades, realizado pelo ISA, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), especialistas destacaram que espécies migratórias dependem de grandes áreas conectadas para sobreviver.
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Pesquisador Carlos Durigan (Ipam) dividiu painel sobre paisagens aquáticas, suas vulnerabilidades e oportunidades com Renata Alves (ISA)|Vanessa Fernandes/ISA
A fragmentação de habitats, causada por desmatamento, mudanças hidrológicas e grandes obras de infraestrutura, foi apontada como uma das principais ameaças à biodiversidade. “As espécies migratórias precisam de continuidade. Quando você rompe essa conectividade, você compromete todo o ciclo de vida dessas espécies”, alerta Jochen Schongart, pesquisador do INPA.
Ao mesmo tempo, os Sítios Ramsar foram apresentados como uma oportunidade estratégica para integrar conservação, ciência e políticas públicas, ampliando a visibilidade internacional dessas áreas e organizando esforços de conservação em larga escala.
Nesse contexto, especialistas também chamaram atenção para o papel das florestas públicas não destinadas na Amazônia, que somam cerca de 50 milhões de hectares e ainda aguardam definição fundiária por parte dos governos. Sem destinação, essas áreas permanecem altamente vulneráveis à grilagem e ao desmatamento.
“A destinação dessas florestas é uma agenda urgente. É uma oportunidade concreta de reduzir a pressão sobre a Amazônia e, ao mesmo tempo, garantir conectividade ecológica em larga escala”, destacou Carlos Durigan, pesquisador do Ipam.
Segundo ele, a criação de unidades de conservação, o reconhecimento de territórios tradicionais, como indígenas e quilombolas, e outras formas de uso sustentável podem transformar essas áreas em corredores ecológicos estratégicos, fundamentais para a manutenção dos fluxos das espécies migratórias e para a proteção das zonas úmidas no país.
Os Sítios Ramsar são áreas úmidas reconhecidas internacionalmente por sua importância para a conservação da biodiversidade. O título é concedido no âmbito da Convenção de Ramsar, um acordo global criado em 1971 para promover a proteção e o uso sustentável desses ecossistemas.
As zonas úmidas incluem ambientes como rios, lagos, áreas alagadas, manguezais e florestas inundáveis, que são ecossistemas fundamentais para a conservação da água, do clima e da vida silvestre.
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Podcast 'Floresta no Centro' compartilha vozes e saberes do livro 'Florescendo nas Brechas'
Publicação do ÓSocioBio expõe, por meio da intersecção entre alimentação e territórios tradicionais, como as economias da sociobiodiversidade ajudam a enfrentar a crise ambiental
O mais novo episódio do podcast “Floresta no Centro” divulgado na quinta-feira (26/03), compartilha como povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais seguem oferecendo respostas que já existem, são testadas em seus territórios e sustentadas por conhecimentos acumulados ao longo de gerações, abordando ainda a importância de políticas públicas para que esse conhecimento chegue mais longe.
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Karin Juruna compartilha saberes no lançamento do livro Florescendo nas brechas: territórios tradicionais e economias da sociobiodiversidade|Claudio Tavares/ISA
A conversa, disponível em duas partes, foi gravada na data do lançamento do livro Florescendo nas brechas: territórios tradicionais e economias da sociobiodiversidade, obra do Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio) que reforça o protagonismo dessas comunidades na preservação de rios, florestas e modos de vida. Participaram do debate Angelise Pimenta, Karin Juruna, Areaki Juruna, Henrique Roncada, Luisa Tui, Lara Ramos, Marcelo Martins e Márcio Menezes, com mediação de Rafael Barbieri. O trabalho amplia a reflexão sobre como esses saberes tradicionais não pertencem apenas ao passado, mas seguem organizando alternativas no presente para conectar territórios e promover a segurança alimentar.
O livro conta com 11 capítulos e reúne experiências de diferentes regiões do país, mostrando como as economias da sociobiodiversidade florescem nas brechas do modelo hegemônico. Entre os exemplos destacados estão iniciativas ligadas à alimentação escolar, ao manejo do babaçu no Maranhão, ao pirarucu na Amazônia e aos desafios técnicos de acesso a crédito, todas vivências que ajudam a revelar que a preservação ambiental também passa pela valorização dos conhecimentos e das práticas de quem historicamente mantém a floresta em pé.
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Alguns dos autores que participaram do debate no espaço do ISA, Floresta no Centro, na Galeria Metrópole, em São Paulo|Claudio Tavares/ISA
O podcast “Floresta no Centro” foi criado pelo Instituto Socioambiental (ISA) e é gravado durante eventos realizados na Floresta no Centro, espaço da organização na Galeria Metrópole, em São Paulo, que apresenta saberes de comunidades do Xingu, Rio Negro e Vale do Ribeira por meio de itens tradicionais, exposições, encontros e publicações. O podcast tem apoio da Fundação Rainforest da Noruega e integra um esforço mais amplo para amplificar vozes originárias e tradicionais.
Créditos Identidade visual: Camaleão Captação de áudio, identidade sonora e edição: Voz Ativa Produções
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COP15: conhecimento indígena revela rotas e alterações na migração de aves no Rio Negro
Resultados iniciais de pesquisa intercultural sobre aves migratórias nos ciclos anuais foram apresentados em evento organizado pelo ISA no espaço Conexão sem Fronteiras, durante a 15ª COP sobre Espécies Migratórias
De acordo com a cosmologia dos povos Koripako e Baniwa da bacia do Rio Içana, a queda das folhas anuncia a chegada do inverno no alto Rio Negro – fenômeno que ocorre na região a partir de maio. É nesse período que algumas aves grandes, como cabeças-seca, garças e cararás, iniciam sua jornada migratória, subindo do mar (leste) para fazer um dabucuri para sua tia, Wenia, que vive na serra de Kodamadali, no alto Rio Uaupés. Elas levam materiais para a reforma de sua maloca.
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Tiago Pacheco, professor e pesquisador Koripako; Aloísio Cabalzar, antropólogo do ISA; e Mario Cohn-Haft, ornitólogo do Inpa|Vanessa Fernandes/ISA
Essa é uma das explicações dos conhecedores indígenas para os movimentos migratórios de algumas aves por seu território. O conhecimento sobre aves migratórias integra as pesquisas sobre os ciclos de vida conduzidas pelos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) no Médio e Alto Rio Negro, região localizada no noroeste do Amazonas, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela.
Os resultados iniciais foram apresentados em evento organizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), no espaço Conexão sem Fronteiras, durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), que acontece até 29 de março de 2026, em Campo Grande (MS).
O encontro reúne governos, cientistas e organizações da sociedade civil para debater estratégias globais de conservação da fauna migratória. Participaram da atividade Aloisio Cabalzar, antropólogo do ISA e coordenador da pesquisa intercultural no Rio Negro; Tiago Pacheco, professor e pesquisador Koripako; e Mario Cohn-Haft, ornitólogo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
Os AIMAs monitoram eventos ligados à migração e à reprodução de 18 espécies de aves na região. Além dos deslocamentos, os agentes classificam as observações entre registros ocasionais, presença de ovos e ocorrência de filhotes. O conjunto de dados analisado reúne cerca de 34.812 registros de mais de cem espécies na região do Rio Negro feitos em aplicativo ODK próprio utilizado pelos agentes indígenas.
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Tiago Pacheco apresentou a pesquisa sobre aves migratórias na região do Rio Negro pela pespectiva do povo Koripako-Baniwa|Vanessa Fernandes/ISA
Ainda de acordo com a narrativa dos mais velhos, conta Tiago Pacheco, as penas mais longas nas asas de garças e cabeças-secas são semelhantes ao koyape – folhas de uma espécie de palmeira utilizadas na cobertura das malocas. Após passarem meses com a tia, contribuindo para a reconstrução da casa, as aves retornam ao seu habitat no leste, quando o verão já prevalece na região.
Há também as oolio, uma espécie de andorinha cujos bandos caem no rio e se transformam em cardumes de peixe toloya no início do inverno. Já as waliperhe, outra espécie de andorinha, se transformam no mesmo peixe no meio da estação, entre junho e julho.
Pacheco contou que agora os agentes indígenas estão aprofundando a pesquisa sobre as aves, envolvendo também os estudantes do ensino médio da escola da comunidade Bela Vista, no Médio Içana, onde ele leciona. Além de observar, anotar e analisar os dados, as informações são discutidas com os conhecedores mais velhos.
Para os povos Koripako e Baniwa, as aves migratórias se reproduzem em áreas úmidas (llanos) na Venezuela. “Sempre no início do inverno elas voam bem alto e, de lá, seguem para outras regiões do Brasil. Voam alto para facilitar a viagem longa e costumam procurar as cabeceiras dos rios”, explica Tiago.
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Ilustração sobre a migração de aves observado pelos AIMAs|Ismael dos Santos/AIMA
Um dos pontos levantados pela pesquisa, segundo Pacheco, é a redução no número de avistamentos na região, que pode estar relacionada às mudanças climáticas. “As aves se conectam com o clima da região, dependem muito das estações do ano, inverno e verão. Atualmente, aparecem de vez em quando, porque as estações estão variando e não acontecem sempre no período esperado. Com isso, as aves migratórias estão cada vez menos presentes na região”, afirma. Essa afirmação coincide com o que vem sendo observado e registrado pelos AIMAs em seus diários.
Entre as espécies que mais costumavam ser avistadas estão o carará (wanali), a garça-grande (maali), o socó-dorminhoco (walha), o socozinho (pitshaaro), o martim-pescador grande e pequeno (dzaaliro), a tesourinha (kamawaapa) e a andorinha que cai na água (oolio). Segundo os pesquisadores, essas aves ainda migram, mas em menor número.
Aloisio Cabalzar explica que na pesquisa sobre os ciclos anuais, os AIMAs observam e registram uma ampla diversidade de fenômenos relacionados aos ciclos anuais e à dinâmica socioambiental do território. Entre eles estão a presença, ausência e intensidade das chuvas; o nível dos rios; o nome das constelações que marcam cada período; as estações do ano; revoadas de insetos; o canto e a reprodução de sapos e rãs; a migração e reprodução de mamíferos e aves, entre outros.
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Aloísio Cabalzar, antropólogo do ISA, falou sobre o trabalho de pesquisa intercultural realizado em parceria com os AIMAs no Rio Negro|Vanessa Fernandes/ISA
Segundo o antropólogo, a análise específica sobre as aves migratórias ainda está em estágio inicial. Nesse contexto, levar o tema para discussão durante a COP15 também representa uma oportunidade de refletir sobre caminhos possíveis para o aprofundamento da análise e interpretação dos dados desse fenômeno que abrange várias regiões (e países) onde se desenvolvem as diferentes fases da vida das aves. Inclui a construção de protocolos de coleta mais completos, buscando conexões com outros grupos de pesquisa.
“A pesquisa intercultural é uma metodologia para abordar temas complexos e interescalares, que são observados pelos moradores das comunidades e pelos pesquisadores indígenas, mas que envolvem um âmbito espacial mais amplo, e que podem ser melhor compreendidos conectando-se com conhecimentos produzidos mais amplamente”, pondera Aloisio.
Mario Cohn-Haft destacou que a região conhecida como “encostada” funciona, na prática, como uma tríplice fronteira ecológica entre Brasil, Colômbia e Venezuela, que é muito anterior às divisões políticas atuais. “Essas fronteiras que hoje regem tanto as nossas vidas nunca foram relevantes para esses povos”, afirmou.
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Mario Cohn-Haft, ornitólogo do Inpa, destacou que oportunidades para estudos de migração de espécies na tríplice fronteira|Vanessa Fernandes/ISA
Segundo ele, o conhecimento indígena sobre os llanos da Venezuela, que são áreas de cerrado sazonalmente alagadas, semelhantes ao Pantanal, ajuda a explicar a origem de espécies como a garça, cabeça-seca e outras aves que aparecem no Rio Negro.
Para o pesquisador, esse diálogo entre saberes aponta caminhos ainda pouco explorados pela ciência. “A gente não tem essa tradição de pesquisa integrada com a Colômbia e a Venezuela, mas vocês já carregam esse conhecimento”, disse. Ele defende que o atual contexto de maior articulação internacional pode abrir oportunidades para avançar nesses estudos, aprofundando investigações sobre rotas migratórias e fortalecendo cooperações transfronteiriças até então pouco desenvolvidas.
Presente entre o público do evento, a secretária de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Rita Mesquita, chamou atenção para os impactos silenciosos das mudanças ambientais sobre as espécies migratórias na Amazônia e destacou o papel fundamental das populações que vivem nos territórios na produção de registros e conhecimentos.
Segundo ela, eventos extremos, como secas em níveis inéditos na bacia amazônica, têm alterado profundamente as condições de vida dessas espécies, que dependem diretamente da relação com rios e áreas úmidas. “O que está mudando? O que está sumindo?”, questionou, ao enfatizar a importância de observar e documentar essas transformações.
Para a secretária, ainda há pouco monitoramento sobre esses impactos, o que reforça a necessidade de aprimorar protocolos de observação e produzir registros mais detalhados. Ela ainda destacou o valor do conhecimento de quem está na floresta e a importância da memória para identificar mudanças ao longo do tempo, além de apontar a relevância de conceitos como o de “migrações curtas”, apresentado na pesquisa dos AIMAs, dentro da Amazônia, ainda pouco estudados e documentados.
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ISA leva pesquisas interculturais do Rio Negro à COP15 sobre Espécies Migratórias
Experiências levadas ao evento articulam conhecimentos indígenas, conservação de paisagens aquáticas e governança territorial em Sítios Ramsar da Amazônia
O Instituto Socioambiental (ISA) participa da 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), que acontece de 23 a 29 de março, em Campo Grande (MS), levando três frentes de atuação: a pesquisa intercultural com povos indígenas, a conservação de paisagens aquáticas e a governança territorial em Sítios Ramsar na Amazônia.
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Evento evidencia o papel dos povos indígenas do Rio Negro na produção de conhecimento sobre ciclos ecológicos e na gestão de seus territórios|Ismael dos Santos/AIMA
A participação tem início no dia 24 de março, às 16h, com a atividade “Espécies migratórias no Médio e Alto Rio Negro: conhecimentos e práticas de manejo indígena no Noroeste Amazônico”, no Espaço Conexão Sem Fronteiras, no Parque Estadual das Nações Indígenas. A proposta evidencia o papel dos povos indígenas da região – que abrange territórios no Brasil, Colômbia e Venezuela – na produção de conhecimento sobre ciclos ecológicos e na gestão de seus territórios.
A atividade apresenta a experiência da rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs), que há duas décadas monitora fenômenos como a migração e reprodução de peixes, aves e mamíferos, articulando essas dinâmicas a observações climáticas e aos ciclos anuais da floresta.
Os dados sistematizados pelos próprios pesquisadores indígenas contribuem para o entendimento das dinâmicas ecológicas e para o monitoramento das mudanças ambientais na região. O AIMA Tiago Pacheco, do povo Koripako, da região do Rio Içana, também participa da mesa ao lado de outros pesquisadores.
O ISA também integra a mesa “Paisagens aquáticas, vulnerabilidades e oportunidades: fortalecendo áreas protegidas e Sítios Ramsar para a conservação de espécies migratórias no Brasil”, no dia 27 de março, às 9h, em colaboração com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).
O debate busca construir uma agenda de ações voltadas à conservação de áreas úmidas e paisagens aquáticas, fundamentais para a biodiversidade e a conectividade ecológica, frente a pressões como desmatamento, fogo, mineração e eventos climáticos extremos.
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Experiência de governança participativa do Sítio Ramsar do Rio Negro também será apresentada durante evento na COP15|Renata Alves/Rio Negro
Complementando essa agenda, o ISA participa ainda do evento “Governança Territorial e Conectividade Ecológica: estratégia integrada nos Sítios Ramsar do Rio Negro, Juruá e do Estuário da Foz do Amazonas e seus Manguezais”, no dia 26 de março, às 15h45, no Espaço Brasil (Zona Azul).
A atividade apresentará experiências de governança territorial baseadas em arranjos participativos e articulação interinstitucional, evidenciando contribuições para a manutenção da conectividade ecológica e a conservação de habitats críticos para espécies migratórias.
COP15
A COP15 integra a Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS), um tratado ambiental das Nações Unidas firmado em 1979, em Bonn, que parte do princípio de que os animais migratórios não reconhecem fronteiras nacionais. Por isso, sua conservação depende de ações coordenadas entre países ao longo de suas rotas e ciclos de vida.
As espécies abrangidas pela Convenção são organizadas em dois anexos: o Anexo I reúne aquelas ameaçadas de extinção, que demandam medidas rigorosas de proteção, como a conservação de habitats e a redução de barreiras às migrações; e o Anexo II inclui espécies que requerem cooperação internacional por meio de acordos de gestão compartilhada.
Realizadas a cada três anos, as Conferências das Partes são o principal espaço de decisão da CMS, reunindo 132 países e a União Europeia para definir prioridades, revisar medidas de conservação e avaliar a inclusão de novas espécies nos anexos do tratado.
Entre os resultados esperados estão também a análise do progresso das Ações Concertadas, que são as iniciativas coordenadas entre países, além da construção de acordos regionais e declarações políticas que reforçam o compromisso global com a conservação da biodiversidade.
A realização da COP15 no Brasil, próximo ao Pantanal, um bioma estratégico para espécies migratórias e atualmente sob forte pressão de mudanças climáticas e incêndios, reforça a urgência de avançar em soluções integradas para a proteção desses ecossistemas e de suas espécies.
ISA na COP15
Espécies migratórias no Médio e Alto Rio Negro: conhecimentos e práticas de manejo indígena no Noroeste Amazônico 24 de março, terça-feira 16h – 17h Auditório Arara Azul - Espaço Conexão Sem Fronteiras - Parque Estadual das Nações Indígenas
Governança Territorial e Conectividade Ecológica: estratégia integrada nos Sítios Ramsar do Rio Negro, Juruá e do Estuário da Foz do Amazonas e seus Manguezais 26 de março, quinta-feira 15h45 - 16h35 Espaço Brasil – Zona Azul
Paisagens aquáticas, vulnerabilidades e oportunidades: fortalecendo áreas protegidas e Sítios Ramsar para a conservação de espécies migratórias no Brasil 27 de março, sexta-feira 9h – 10h Sala Tululú - Espaço Conexão Sem Fronteiras - Casa do Homem Pantaneiro
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Mais de 100 ONGs pedem processo inclusivo para mapa do caminho à presidência da COP30
Carta ao presidente André Corrêa do Lago reúne grupos de todo o mundo e pede transparência e liderança baseada na ciência
Pavilhão da COP30, em Belém (PA), em novembro de 2025 | Sergio Moraes/COP30
Após a 12ª carta da Presidência da COP30, um grupo de 114 organizações da sociedade civil divulgou uma carta aberta alertando que, sem um compromisso político mais forte e um processo genuinamente participativo, a iniciativa de mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis corre o risco de se tornar “mais um documento que junta poeira”.
A carta é divulgada em meio à intensificação dos impactos climáticos e à instabilidade geopolítica. Ela afirma que a credibilidade da ação climática global depende cada vez mais da capacidade dos governos de promover uma “redução justa e ordenada da produção e do consumo de combustíveis fósseis”. Entre os signatários estão organizações de justiça climática, povos indígenas, direitos humanos, grupos religiosos e comunitários.
As organizações ressaltam que a iniciativa de roteiro para os combustíveis fósseis da Presidência da COP30 precisa ir além de um exercício técnico. “Se algo ficou absolutamente claro no início de 2026, é que os países precisam se libertar dos mercados voláteis de petróleo, que os expõem a riscos geopolíticos e a choques recorrentes de preços. Tem de haver um declínio manejado dos combustíveis fósseis e a entrega de energia acessível e justa”, salienta Andreas Sieber, chefe de Estratégia Política da 350.org, que coordenou a iniciativa da carta juntamente com a rede brasileira Observatório do Clima. “Este roteiro é uma oportunidade crucial para transformar compromissos globais em ações críveis — e não em mais um documento que fica esquecido numa prateleira”, diz Sieber.
Para gerar impacto real, os signatários afirmam que o roteiro de transição dos combustíveis fósseis precisa ser transparente, co-criado e inclusivo, com participação significativa da sociedade civil, dos povos indígenas e das comunidades tradicionais e locais, além de co-liderança do Brasil junto a países parceiros, especialmente da América Latina e do Pacífico.
“A presidência brasileira termina em poucos meses, e precisamos de outros países ou grupos de países dispostos a levar o trabalho adiante, já que este será necessariamente um processo de vários anos”, considera Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima. “Por isso, a apropriação do processo do roteiro será crucial. O Brasil precisará equilibrar com muito cuidado a necessidade de um documento que seja ao mesmo tempo ousado e inclusivo.”
A carta alerta que a dependência contínua de combustíveis fósseis expõe os países a choques de preços, conflitos e coerção, argumentando que uma transição baseada na ciência é essencial não apenas para os objetivos climáticos, mas também para a resiliência econômica e a estabilidade política. Além disso, defende que o roteiro deve:
Contar com salvaguardas robustas contra interesses estabelecidos dos combustíveis fósseis, incluindo a exclusão ou limitação rigorosa de contribuições;
Garantir que os países desenvolvidos cumpram suas obrigações climáticas, inclusive em financiamento;
Abordar os impactos sobre trabalhadores e comunidades e assegurar que os custos, benefícios e oportunidades da transição sejam distribuídos de forma justa entre países e comunidades;
Ter liderança ministerial sustentada, forte responsabilização democrática e salvaguardas de direitos humanos.
“Os povos do Pacífico e da Amazônia celebraram o anúncio de um roteiro para nos levar a um futuro além dos combustíveis fósseis. Esperamos que a presidência da COP30 esteja à altura do reconhecimento que esse roteiro lhes rendeu em novembro passado. Este ano nos mostrou que a meta de 1,5oC está perigosamente em risco, e não podemos nos dar ao luxo de mais um documento sem passos concretos para a transição. Um atraso na saída do carvão, do petróleo e do gás devastará o Pacífico, a Amazônia e inúmeras comunidades na linha de frente em todo o mundo”, afirma Fenton Lutunatabua, gerente de programas da 350.org para o Pacífico e o Caribe.
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A restauração da saúde do corpo e dos ecossistemas
Restaurar não é necessariamente retornar a um estado idealizado do passado. É criar condições para que estrutura, diversidade e função se reorganizem de maneira possível
*Artigo publicado originalmente em (o)eco, no dia 29 de janeiro de 2026.
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'Entre o metal e a natureza: reflexões sobre cura e restauração’ | Arte digital: Danielle Celentano + IA (ChatGPT/OpenAI), 2026.
Este texto nasce do cruzamento entre experiência profissional e vivência pessoal, onde corpo e paisagem deixam de ser metáforas distantes e passam a dialogar como territórios vivos. Entre ciência, técnica e cuidado, proponho um olhar que reconhece a restauração – humana e ecológica – como um processo de recomposição, no qual mesmo estruturas atravessadas por rupturas podem sustentar toda a potência da vida
Corpo e paisagem: uma mesma trama de vida Existe uma analogia profunda – e cada vez mais reconhecida – entre a saúde humana e a saúde dos ecossistemas. De modo semelhante, há paralelos claros entre os processos de restauração ecológica de áreas degradadas e os caminhos de reestabelecimento da saúde dos corpos adoecidos. Essa relação não é nova: atravessa saberes tradicionais, a ciência contemporânea e o conceito de Saúde Única, que reconhece a interdependência entre pessoas, ambientes e outros seres vivos – em consonância com a própria teoria da evolução. Escrevo sobre ela agora a partir de um lugar específico: o de um processo pessoal de cura que estou vivenciando.
Quando a degradação se instala Ao longo de mais de duas décadas trabalhando com conservação e restauração de florestas na Amazônia, aprendi que conservar deve ser sempre a prioridade: a restauração não pode ser tratada como panaceia e, em muitos casos, simplesmente não é possível. Da mesma forma, o cuidado com a saúde do corpo deveria ser prioritário – “melhor prevenir do que remediar” –, mas, por uma série de fatores intrínsecos e extrínsecos ao ser, isso nem sempre acontece. Talvez porque toda degradação – do corpo, da sociedade ou da natureza – seja o reflexo de uma ruptura mais profunda: o afastamento das relações que dão sentido, cuidado e pertencimento à Vida, perpassando a saúde física, mental e espiritual.
Quando a degradação já se instalou, a recuperação de um ecossistema depende de um bom diagnóstico, planejamento, cuidado contínuo e tempo. O mesmo vale para o corpo humano. Antes de qualquer intervenção, é fundamental compreender as causas do adoecimento – identificar fatores de risco, limites estruturais e perdas funcionais. Na restauração, chamamos isso de diagnóstico ambiental; na saúde, de exame clínico. Em ambos os casos, não há atalhos, embora hoje existam tecnologias cada vez mais sofisticadas para apoiar esses processos.
O planejamento vem em seguida. Ele envolve definir estratégias, escolher métodos e reconhecer o que pode ser regenerado de forma natural – a partir da retirada de pressões – e o que exige ações ativas. Na ecologia, isso inclui desde a exclusão de fatores degradantes até o plantio de sementes e mudas; em situações mais severas, pode ser necessário realizar previamente a reabilitação física, com obras de infraestrutura, a reabilitação química, por meio da biorremediação, ou a reabilitação biológica com a exclusão de espécies invasoras.
No corpo humano, esse processo envolve mudanças de hábitos, tratamentos medicamentosos, cirurgias, transplantes, colocação de próteses, reabilitação física, quimioterapias, entre outros. Por mais desejável que seja, não se pode romantizar a regeneração espontânea: há situações em que a intervenção é condição necessária para que a vida volte a circular. Assim como na restauração ecológica, o cuidado com a saúde também exige monitoramento e atividades periódicas de manutenção, para que o sucesso seja sustentado no longo prazo.
Ninguém restaura sozinho Restaurar, seja um território ou um corpo, não é necessariamente retornar a um estado idealizado do passado. É criar condições para que estrutura, diversidade e função se reorganizem de maneira possível, resiliente e viva. Há perdas irreversíveis – espécies extintas, articulações perdidas –, mas isso não significa ausência de futuro. Significa outro arranjo, outro equilíbrio, outra paisagem.
Também aprendi que ninguém restaura sozinho. Florestas dependem de redes invisíveis e colaborativas: microrganismos, formigas, aves, polinizadores, dispersores de sementes e, também, de pessoas – como coletores de sementes, plantadores e tantas outras. Da mesma forma, processos de cura humana se apoiam em médicos, fisioterapeutas, enfermeiras, terapeutas, familiares, amigos e instituições. Cada qual cumpre uma função específica, complementar e insubstituível.
A diversidade de atores é, novamente, condição para o sucesso. Mas ela não basta: o acesso aos recursos, aos cuidados e às tecnologias que tornam esses processos possíveis ainda está longe de ser universal. Garantir o direito humano à saúde – inclusive por meio de garantias trabalhistas – e os direitos da própria natureza, hoje assegurados em poucos países, é parte inseparável de qualquer processo sério de cuidado, cura e restauração.
Nesse caminho pessoal que estou vivendo em busca da minha própria saúde, tenho sido sustentada por uma rede de cuidados que inclui profissionais da saúde, o afeto da família, de amigas, amigos e colegas, além do apoio institucional da organização onde trabalho. Em muitas dessas pessoas reconheço o mesmo brilho nos olhos dos bons restauradores: gente que trabalha com técnica, mas também com sentido e amor.
Há uma diferença sutil, porém fundamental, entre atuar apenas pela troca financeira e atuar pelo compromisso genuíno com a vida. Na restauração e na medicina, isso faz toda a diferença.
Cura como caminho vivo Há ainda uma dimensão frequentemente negligenciada nesses debates: o tempo profundo. Ecossistemas se formam ao longo de anos, décadas e eras. Corpos também carregam códigos genéticos, memórias longas, ancestrais e espirituais. A restauração e a cura nem sempre são lineares ou totalmente mensuráveis. Há lutos – por funções perdidas, por versões anteriores de nós mesmos e pela morte – e há aceitação. Reconhecer isso não fragiliza nem a ciência nem o indivíduo; ao contrário, traz mais humanidade aos processos.
Cada pessoa vive o luto de uma forma diferente, assim como áreas que parecem impossíveis de se recuperar podem precisar de séculos ou milênios para voltar a expressar a vida. Para mim, a vida que se foi também retorna – tanto no aspecto físico, inscrito no ciclo da decomposição da matéria orgânica, quanto no aspecto metafísico, que perpassa a espiritualidade.
Por isso, acredito que nosso futuro comum exige uma mudança profunda de paradigmas. Existem diversos caminhos possíveis para essas transformações, entre eles a proposta de Saúde Integral, preconizada pelo meu amigo e médico Frei Klaus Th. Finkam, que defende que o bem-estar humano é resultado da integração entre saúde física, mental, social, emocional e espiritual. Nesse mesmo horizonte, junto com meu companheiro, o cientista Guillaume Xavier Rousseau, chamamos de Restauração Ecológica Integral, o processo social que busca integrar o bem-estar humano, a saúde dos ecossistemas e a espiritualidade, independentemente de religião.
Assim como na restauração ecológica, nem toda regeneração acontece sem intervenção. Há paisagens – e corpos – que precisam de suporte técnico para que possam, então, seguir seus próprios caminhos de reorganização. Restaurar a saúde – humana ou ecológica – é, em última instância, um ato de cuidado contínuo, que reconhece limites, valoriza redes, aceita pausas e aposta na força da vida, mesmo quando ela precisa de ajuda para seguir. É confiar que a vida, mesmo ferida, carrega em si a potência de voltar a florescer.
É nesse horizonte que sigo: cuidando do meu corpo e da Terra, confiando que ambos podem se restaurar quando encontram tempo, condições e cuidado. A cura – pessoal e planetária – é um caminho vivo, tecido com presença, compromisso e esperança.
Essa reflexão ganhou forma visual em uma obra construída a partir de uma radiografia pessoal das minhas próteses bilaterais de quadril, sobrepostas a elementos da natureza. Nela, folhagens densas, cipós e flores entrelaçam-se ao metal. O quadril, eixo do movimento e da sustentação do corpo, aparece como território de transição entre o artificial e o vivo. A prótese, muitas vezes associada à limitação, é ressignificada como infraestrutura de cuidado – suporte fértil para que a vida volte a brotar. Aqui, o metal não nega a vida – ele a sustenta.
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