Conectando métodos científicos com conhecimentos ancestrais, aliança já soma 13 anos de pesquisa sobre os impactos de Belo Monte
Na última sexta-feira (17/04), um marco para a defesa do Rio Xingu foi celebrado na Terra Indígena Paquiçamba, em Vitória do Xingu (PA). Em assembleia que reuniu mais de 50 representantes — entre indígenas, ribeirinhos e acadêmicos de diferentes centros científicos —, foi criado o Instituto de Monitoramento Ambiental Territorial Independente e Pesquisa Intercultural da Volta Grande do Xingu (MATI-VGX). Fruto de mais de uma década de registros contínuos dos impactos da hidrelétrica de Belo Monte, a criação do Instituto ocorreu onde tudo começou: na aldeia Mïratu, do povo Juruna/Yudjá, localizada no chamado "Trecho de Vazão Reduzida" (TVR) — região de onde a usina desvia até 80% das águas do Xingu para alimentar suas turbinas.
“A formalização do MATI-VGX vem evidenciar aquilo que viemos falando há muitos anos, desde a implementação da barragem de Belo Monte. É algo muito importante para esta região da Volta Grande e para quem reside aqui. Mas não é importante só para nós: também para que surjam outras iniciativas que precisam de fortalecimento, para que tenham mais iniciativas de monitoramento participativo intercultural”, declarou Josiel Juruna, diretor do MATI-VGX, em nome dos sócios fundadores.
Aliando conhecimentos dos territórios tradicionais e de universidades, o MATI-VGX se tornou uma referência fundamental sobre a Volta Grande do Xingu. Seus dados, publicados em periódicos de excelência com revisão por pares, como a Conservation Biology, têm fornecido ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) — licenciador de Belo Monte — avaliações sobre o que se passa na região em decorrência do barramento do Xingu.
Com os dados produzidos de maneira independente, não é apenas a própria empresa concessionária de Belo Monte quem detém exclusividade na comunicação ao licenciador sobre os impactos do empreendimento. Além disso, o público em geral pode ter acesso à base de dados do monitoramento, disponível no Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr | MATI-VGX).
Acesse o dossiê com publicações científicas do MATI-VGX.
A presença constante no território possibilita ao MATI-VGX registrar eventos críticos que evidenciam o estado do ecossistema — como o flagrante, pelo quarto ano consecutivo, de milhões de ovas de peixe morrendo em áreas secas, devido à redução drástica da vazão do rio. Com isso, além de informar imediatamente os órgãos competentes de fatos dessa importância, o MATI-VGX fornece à sociedade em geral evidências dos graves danos que hidrelétricas podem provocar em rios amazônicos, explicitando também a urgência de se estabelecer uma partilha justa de água na Volta Grande do Xingu.
“O MATI é a visão e a voz, em tempo real, da situação das vidas na Volta Grande do Xingu”, disse o diretor adjunto do MATI-VGX, Raimundo da Cruz e Silva, ribeirinho e pesquisador. Ele complementa: “a nossa maior força foi a união entre os indígenas, os ribeirinhos e os cientistas acadêmicos, consolidando uma robustez de conhecimentos práticos e científicos, transmitindo qualidade e segurança em nosso trabalho”.
Veja o caderno ilustrado "Volta Grande do Xingu - cenas de um ecocídio", produzido pelo MATI-VGX.
O MATI-VGX teve sua produção técnica e científica reconhecida pelo Ibama, que ordenou à concessionária de Belo Monte que considere as análises produzidas pelo monitoramento independente para propor um novo hidrograma para a Volta Grande.
A relevância e legitimidade do MATI-VGX como interlocutor qualificado sobre os impactos de Belo Monte se deu também, nos últimos anos, em eventos públicos, científicos e acadêmicos, sobre a realidade da região. Exemplos recentes são as suas contribuições para o debate promovido pelo Ministério Público Federal durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), de 2025; a participação na 76ª reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) com a mesa redonda “De quanta água um rio precisa? Partilha da água entre os povos do Rio Xingu e a UHE Belo Monte sob mudança climática”, em 2024; e o seminário técnico “O Futuro da Volta Grande do Xingu”, promovido em Brasília pela Procuradoria-Geral da República, em 2023.
“As pesquisas realizadas pelo MATI-VGX têm capilaridade no território, se baseiam no sistema de conhecimentos intergeracionais e registram as mudanças ambientais e dados sobre interações entre espécies”, observa a professora doutora Janice Muriel Cunha, da Universidade Federal do Pará (UFPA), associada ao MATI-VGX. “A criação do instituto fortalece a missão de salvaguardar a Volta Grande do Xingu e pela governança ambiental mais participativa e com o protagonismo de quem vive os impactos no território”, completa.
Saiba mais sobre a luta de ribeirinhos e povos indígenas pela vida do Rio Xingu:
Agora fortalecido como organização formalizada, o MATI-VGX reafirma sua missão de promover o monitoramento independente e a pesquisa intercultural, garantindo o protagonismo local e a defesa dos direitos humanos e ambientais na Volta Grande do Xingu. Esse é um passo decisivo para justiça socioambiental e a proteção necessária de uma das regiões mais biodiversas e ameaçadas do Brasil.
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