Indígenas protestam contra a mineração em suas terras durante o ATL 2025, em abril do ano passado | Fábio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil
Da assessoria da Comunicação da Apib
Brasília, 1/4/2026 - Considerado um mês de mobilização nacional, resistência e visibilidade para os povos indígenas do país, o Abril Indígena tem início com a realização do Acampamento Terra Livre, em Brasília (DF). Com o tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”, o ATL 2026 ocorrerá entre os dias 5 e 11 de abril, no Eixo Cultural Ibero-Americano (antiga Funarte). A mobilização é uma iniciativa da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).
Em sua 22ª edição, a mobilização destaca na sua programação as ameaças aos territórios indígenas e aos povos originários, ao mesmo tempo em que apresenta respostas à crise climática e ao fortalecimento da democracia. A mobilização está dividida em cinco eixos: A Resposta Somos Nós; Nosso Futuro Não Está à Venda; Nossa Luta Pela Vida!; Terra Demarcada, Brasil Soberano e Democracia Garantida; e Diga ao Povo que Avance!
Programação
No dia 6 de abril, lideranças de todas as regiões do país debaterão a violência vivida durante a ditadura militar na plenária “Memória, Verdade e Justiça para os Povos Indígenas”. A mesa é organizada pelo Fórum Memória, Verdade, Reparação Integral, Não Repetição e Justiça para os Povos Indígenas, iniciativa que tem como propósito ampliar o debate público sobre a justiça de transição para os povos originários e, principalmente, formular uma proposta de instituição de uma Comissão Nacional Indígena da Verdade (CNIV).
No dia seguinte, a programação será marcada pela marcha “Congresso inimigo dos povos: nosso futuro não está à venda”. Em 2026, ao menos seis propostas anti-indígenas tramitam no Congresso, como a PEC 48 (Marco Temporal); PDLs contra demarcações (717/2024, 1121/2025, 1126/2025 e 1153/2025); o GT de Mineração em TIs; o PL 6050/2023 (Exploração Econômica); e o PL 6093/2023 (PL do Agro).
Já no dia 8, o movimento indígena fortalece sua atuação em espaços internacionais como parte de uma estratégia política de resistência e articulação, na plenária “Do território tradicional ao cenário global: o movimento indígena brasileiro na luta socioambiental”. Além da mesa, a Apib também promoverá um encontro entre lideranças indígenas e embaixadas, bem como um encontro de comunicadores indígenas da Guatemala e do Brasil.
As eleições de 2026 também farão parte dos debates do ATL, na mesa “Campanha Indígena: a resposta para transformar a política somos nós”. A plenária ocorrerá no dia 9 e leva o nome do manifesto publicado pela Apib no ano passado, no qual reafirma o compromisso de seguir com a Campanha Indígena e o projeto de aldeamento da política. “Não existe agenda climática sem protagonismo político indígena”, diz trecho da carta.
Além da Campanha Indígena, o dia 9 será marcado pela marcha “Demarca Lula: Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida”. Segundo a Apib, até o mês de março deste ano, cerca de 76 Terras Indígenas estavam prontas para ser homologadas, aguardando apenas a assinatura decreto pelo presidente Lula. Outras 34 dependem do ministro da Justiça para a emissão da portaria de declaração.
A programação do acampamento se encerra com a plenária e a leitura do documento final, no dia 10 de abril. Os dias 5 e 11 serão reservados para chegada e retorno das delegações aos seus territórios.
A Apib lançou uma campanha de arrecadação para o acampamento. Para contribuir, basta acessar www.apiboficial.org/apoie/. As doações podem ser feitas por cartão de crédito ou boleto bancário. Também é possível doar via Pix pelo e-mail apoinmebra@gmail.com (Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo – Banco Bradesco).
Sobre o ATL
Há 22 anos, o ATL reúne, na capital federal, milhares de lideranças indígenas das cinco regiões do país para denunciar violações de direitos, incidir sobre o poder público e defender seus territórios. No ano de 2025, o ATL reuniu mais de 9 mil indígenas em Brasília. Com o tema “APIB somos todos nós: em defesa da Constituição e da vida”, a mobilização celebrou os 20 anos de luta e conquistas da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil.
Em sua carta final, o acampamento reforçou a defesa dos direitos territoriais e o protagonismo indígena na agenda climática global. “Nossa ciência e sistema ancestral, expressos na agroecologia, nas economias indígenas, na gestão coletiva dos territórios e na nossa relação espiritual com a Mãe Natureza, preservam a biodiversidade, todas as formas de vida, incluindo os mananciais, e sustentam sistemas alimentares saudáveis e equilibrados. Por isso, demandamos a retomada imediata das demarcações de todas as terras indígenas no Brasil como uma política climática efetiva, além do financiamento direto para a proteção integral dos nossos territórios e dos nossos modos de vida.”
Sobre a APIB
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) é uma instância de referência nacional do movimento indígena, criada de baixo para cima. Ela reúne sete organizações regionais indígenas (Apoinme, ArpinSudeste, ArpinSul, Aty Guasu, Conselho Terena, Coiab e Comissão Guarani Yvyrupa) e foi criada para fortalecer a união dos povos indígenas, a articulação entre as diferentes regiões e organizações, além de mobilizar contra ameaças e agressões aos direitos indígenas.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Impactos cumulativos sobre indígenas são pauta inédita em congresso sobre avaliação de impacto
Especialistas da Funai, ISA e USP apresentaram os casos dos povos indígenas dos rios Xingu (PA) e Juruena (MT)
O Congresso Brasileiro de Avaliação de Impacto (CBAI 2025) foi realizado entre os dias 20 e 24 de outubro, na Universidade de Brasília (UnB). O evento possibilitou que profissionais de todo o Brasil que pesquisam ou trabalham com licenciamento ambiental e avaliação de impacto pudessem debater sobre os principais desafios e perspectivas de avanços na área.
O Instituto Socioambiental (ISA), juntamente com a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), promoveu um painel inédito no CBAI com o tema Avaliação de Impactos Cumulativos em Terras Indígenas: Desafios e Estratégias.
O evento contou com as mediações dos professores da USP Juliana Siqueira-Gay e Luís Enrique Sánchez, especialistas em impactos cumulativos, além dos palestrantes da Fundação Nacional do Povos Indígenas (Funai) Raoni da Rosa, Aline Maciel de Carvalho e Maria Janete de Carvalho, e da antropóloga Thaís Mantovanelli, do ISA.
Os palestrantes tiveram a oportunidade de apresentar casos práticos, como o do complexo hidrelétrico do Juruena (MT), que afeta diretamente os indígenas Enawenê-Nawê, e da conjugação de impactos entre a rodovia Transamazônica (BR- 230) e Belo Monte, no Médio Xingu (MT).
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(E-D) Thais Mantovanelli, Juliana Siqueira-Gay, Aline Maciel de Carvalho, Raoni da Rosa e Maria Janete de Carvalho no CBAI 2025 | Abai
Bacia do Rio Juruena
Segundo Carvalho e Rosa, o Rio Juruena tem a função de harmonizar a relação entre homens e espíritos para os Enawenê-Nawê, por meio da realização de cerimônias em que o peixe é consagrado tanto pela sua importância alimentar como em agradecimento aos espíritos. No entanto, a construção do Complexo Hidrelétrico Juruena (composto por duas hidrelétricas e nove pequenas centrais hidrelétricas) afetou a cultura e o modo de vida dos indígenas ao comprometer a reprodução dos peixes na região.
Um estudo lançado recentemente pela organização Operação Amazônia Nativa (Opan) sobre pressões e ameaças às terras indígenas (TIs) na Bacia do Juruena, apontou que, até 31 de julho de 2025, foram identificados 185 usinas na região, sendo 88 centrais geradoras hidrelétricas (CGHs) e 72 pequenas centrais hidrelétricas (PCHs). Os empreendimentos expandiram-se entre 2019 e 2025, beneficiadas pelas mudanças na legislação, em 2020, que flexibilizou o processo para autorização desse tipo de obra junto à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), além de simplificar o licenciamento ambiental sob a justificativa de que os impactos ambientais seriam reduzidos.
De acordo com os dados levantados no Boletim Pressões e Ameaças às Terras Indígenas na Bacia do Rio Juruena da Opan, a ausência de exigência de estudos mais robustos “vem gerando impactos sinérgicos e cumulativos sobre os ecossistemas aquáticos e o equilíbrio hidrológico”, devido à alta concentração de empreendimentos na bacia.
Para os representantes da Funai, os principais problemas e impactos após a construção do complexo foram a destruição de habitats para os peixes; a interrupção do fluxo de nutrientes e organismos aquáticos; a deterioração da qualidade da água do rio e a transformação de um trecho de corredeiras em reservatórios.
Todos esses problemas, segundo Carvalho e Rosa, foram decorrentes de diferentes omissões no âmbito do licenciamento ambiental estadual, desde a ausência de Estudo de Impacto Ambiental (EIA) para determinados empreendimentos até a ausência de avaliação de impactos cumulativos, além da premissa equivocada de que as PCHs causam menos impactos.
Diante disso, a Funai solicitou uma Avaliação Ambiental Integrada (AAI) sobre a situação ambiental da bacia após as usinas implantadas, considerando os seus efeitos cumulativos sobre os recursos naturais e as populações. Constatou-se que houve assédio direto dos empreendedores às lideranças indígenas e atropelos na mediação do processo de compensação financeira às comunidades.
Entre os encaminhamentos do órgão, os técnicos citaram a importância de se considerar de forma efetiva os conhecimentos indígenas na avaliação; estabelecer a relação de causalidade e proporcionalidade dos múltiplos empreendimentos; estabelecer as responsabilidades para os agentes.
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Thaís Mantovanelli | Abai
Impactos no Médio Xingu
A diretora de Proteção Territorial da Funai, Maria Janete de Carvalho, levou para o debate a realidade da região do Médio Xingu por ser uma das regiões mais afetadas pelo aumento de empreendimentos nos últimos anos.
“Todas as terras indígenas da região foram afetadas de alguma forma pela Transamazônica (BR-230) e pela usina hidrelétrica de Belo Monte”, afirmou.
De acordo com ela, a construção da BR-230 levou a morte para muitos indígenas, já que na época da sua construção, nos anos 1970, as frentes de contato foram facilitadas, causando inúmeras doenças.
Belo Monte agravou o contexto da ocupação na região do Médio Xingu, que pode ser avaliada pelo avanço do desmatamento ao longo dos anos. Nos dois empreendimentos, os componentes indígenas para o licenciamento ambiental (ECI) atrasaram, prejudicando a avaliação de impactos nas TIs.
Carvalho fez algumas sugestões para aprimoramento do planejamento regional, como, por exemplo, integrar licenciamento ambiental e avaliação de impactos cumulativos; adotar hidrograma ecológico robusto para preservar o regime hídrico no contexto de Belo Monte; fortalecer a fiscalização na BR-230 para evitar desmatamento e conflitos fundiários e definir cronograma de revisões periódicas para atualizar impactos e medidas adotadas.
Thais Mantovanelli também abordou os desafios gerados por Belo Monte, que desviou a água do Rio Xingu e causou graves impactos ambientais e sociais. Segundo ela, é importante considerar “a cumulatividade na avaliação de impacto ambiental no contexto da Volta Grande do Xingu.”
Para a antropóloga, a instalação, na mesma região, da mineradora canadense Belo Sun comprometeria, definitivamente, a vida na bacia do Rio Xingu. A empresa propõe instalar a maior mina de ouro a céu aberto do país e, para isso, pretende explodir uma tonelada de rochas e usar diversos contaminantes tóxicos, como o cianeto, para a retirada do ouro. Além disso, é grande o risco de rompimento da barragem de rejeitos.
O Monitoramento Ambiental Territorial Independente (Mati), grupo de pesquisadores indígenas, ribeirinhos e acadêmicos, já realiza coletas de dados para a comprovação das mudanças no fluxo do Rio Xingu e seus efeitos sobre a vida aquática e nas florestas da região desde 2013.
“Essa iniciativa de produção colaborativa e intercultural de conhecimento nasceu de uma necessidade pragmática e urgente: evidenciar a amplitude dos impactos associados à construção e ao sistema de operação de Belo Monte e buscar alternativas para uma partilha mais justa de água baseada em seus usos múltiplos”, afirmou Mantovanelli.
“O Mati é um esforço de união, composição e cumulatividade que deveria orientar também as análises de impacto e as tomadas de decisão no âmbito do licenciamento ambiental de qualquer projeto”, completou.
As principais recomendações da antropóloga foram as de adoção imediata do hidrograma das piracemas – proposta em que a vazão do rio usa critérios ecológicos para liberar a água e garantir a reprodução dos peixes - e da criação de um comitê permanente que deveria ser consolidado num painel consultivo contínuo e preventivo com a concessionária Norte Energia e a participação do Mati.
Ela finalizou lembrando a importância de adotar uma partilha mais justa de água para a Volta Grande do Xingu, considerado uma força vital para povos indígenas e tradicionais.
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Ritual dos indígenas Enawenê-Nawê foi prejudicado por hidrelétricas | Vicent Carelli / Vídeo nas Aldeias
Parceria entre o ISA e a Escola Politécnica da USP
Em maio deste ano, o projeto de pesquisa firmado entre o ISA e a Escola Politécnica da USP (Poli) intitulado “Avaliação de impactos cumulativos para o Xingu: propostas para o planejamento e licenciamento de projetos de infraestrutura” foi aprovado na chamada Fapesp de Propostas (2024) – Fase 1, do Programa de Pesquisa em Políticas Públicas (PPPP).
O projeto visa analisar e subsidiar cientificamente o planejamento de obras de infraestrutura e o respectivo licenciamento ambiental na Bacia do Xingu, com foco na problemática dos impactos cumulativos resultantes das mudanças de uso e cobertura da terra na Bacia do Xingu.
Os parceiros governamentais e não governamentais que acompanharão o desenvolvimento das pesquisas são o Ministério dos Transportes, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), a Funai e a Rede Xingu+.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Moraes vota pela constitucionalidade de MP que reduziu parque para viabilizar Ferrogrão
Julgamento é suspenso por pedido de “vistas” do ministro Flávio Dino, que tem 90 dias para devolver o caso ao plenário do STF
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes votou, na quarta-feira (8), pela constitucionalidade da Medida Provisória (MP) que reduziu o Parque Nacional do Jamanxim, no sudoeste do Pará, para que possa ser construída a ferrovia “Ferrogrão”, entre Sinop (MT) e Itaituba (PA). O projeto tem cerca de 977 km de extensão.
O ministro Luís Roberto Barroso acompanhou o voto de Moraes, mas sugeriu que a Corte autorize o governo federal a ampliar a unidade de conservação (UC) por meio de um decreto como uma compensação. Moraes disse que vai incorporar a sugestão. Os outros nove ministros ainda precisam votar.
Depois do voto de Barroso, o julgamento foi suspenso por um pedido de “vistas” (mais tempo para análise do processo) do ministro Flávio Dino. Ele tem 90 dias para devolver a ação ao plenário, mas cabe ao presidente do STF, Edson Fachin, marcar a data da retomada da análise do caso.
O julgamento começou na semana passada, com a leitura do relatório e as sustentações orais das partes. O ISA é amicus curiae – quem pede para participar do processo para fornecer informações e fazer esclarecimentos técnicos ou jurídicos.
Moraes é relator da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 6553, apresentada pelo PSOL em 2020, contra a MP 758/2016, que propôs desafetar, ou seja, retirar a proteção legal de um corredor de 862 hectares do parque do Jamanxim. A medida previu ainda alterar o perímetro de mais duas UCs e criar outra na mesma região. No final das contas, havia um ganho de pouco mais de 51 mil hectares em áreas protegidas.
Acontece que, ao analisar a MP, convertendo-a na Lei 13.452/2017, o Congresso excluiu essa compensação. E de acordo com a própria jurisprudência da Corte, não é possível alterar UCs via MP.
Moraes argumentou que o texto original da medida não reduzia o parque e que uma lei aprovada pelo Congresso pode fazê-lo, segundo a Constituição. “Não havia vício de inconstitucionalidade formal na MP”, disse. “A lei, sim, retirou essa área de compensação. Só que a lei, do ponto de vista da inconstitucionalidade formal, nós admitimos que ela pode fazer isso, desde que de forma justificada”, prosseguiu.
Barroso defendeu que a ampliação do parque do Jamanxim pelo governo poderia ficar entre 862 hectares e no máximo os pouco mais de 51 mil hectares previstos inicialmente na MP.
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Kretã Kaigang e Kokoró Mekragnotire acompanham primeiro dia de julgamento sobre a Ferrogrão | Antonio Augusto / STF
‘Prejuízo ambiental’
Apesar de insistir que o julgamento trata apenas da desafetação, Moraes reproduziu os argumentos de organizações de grandes proprietários rurais e dos governos estaduais, centrados nos supostos benefícios da ferrovia, como a geração de empregos e a atração de investimentos. Ele defendeu que a obra trará impactos socioambientais insignificantes, repetindo que a área desafetada é ínfima – em torno de 0,054% do parque.
“Não se visualiza prejuízo ambiental relevante nessa área”, afirmou. “Todos os estudos demonstram que o empreendimento vai de fato gerar um desenvolvimento sustentável na região”, complementou.
Ele ressaltou que a aprovação da legislação não implicou o fim das exigências do licenciamento ambiental do projeto. E admitiu que, se a licença não aprovar a proposta de traçado atual previsto na desafetação, seria necessária outra lei para autorizar uma nova desafetação.
O ministro justificou ainda que a construção da ferrovia teria impacto positivo na redução das emissões de gases de efeito estufa em função da redução da demanda de transporte por caminhões.
O magistrado ignorou, porém, o efeito indutor desse tipo de empreendimento sobre o desmatamento, a grilagem de terras e outras atividades predatórias, sobretudo na Amazônia. Na mesma direção, minimizou as possíveis consequências negativas para as terras indígenas (TIs), sob a justificativa de que o traçado da Ferrogrão não corta nenhuma delas.
É consenso entre pesquisadores, no entanto, que os impactos de obras dessa magnitude têm alcance muito maior do que sua área de abrangência imediata. Eles podem, portanto, alcançar regiões não tão próximas.
O traçado da ferrovia atravessa a região de interflúvio dos rios Xingu e Tapajós, entre o norte de Mato Grosso e o sudoeste do Pará, onde há grande quantidade de UCs e TIs. Chega a passar a apenas quatro quilômetros da TI Praia do Mangue, em Itaituba (PA), como lembrou o próprio Moraes.
Um estudo do Instituto Socioambiental (ISA) de fevereiro apontou falhas na Análise Socioeconômica de Custo e Benefício (ACB) da obra, como desvios metodológicos, que comprometem o suposto resultado positivo do projeto. O levantamento lista omissões de externalidades importantes, ausência das análises de risco, erros nos cálculos de custos e benefícios e na definição do escopo da análise.
Um parecer técnico assinado pelo ISA, o Observatório do Clima (OC) e pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) também aponta falhas na avaliação dos impactos cumulativos e na projeção de desmatamento presentes no Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA) da Ferrogrão.
“Um dos principais argumentos do parecer é de que existe uma lacuna na avaliação de impactos relacionados ao projeto Ferrogrão que não será suprida no licenciamento ambiental”, informa a assessora técnica do ISA Mariel Nakane.
“Essa avaliação é imprescindível para a identificação das terras indígenas afetadas pelos impactos cumulativos das obras previstas para a região, como a hidrovia do Rio Tapajós e a expansão dos portos e rodovias acessórias que ocorrerão com a Ferrogrão”, conclui.
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Queimada provocada por invasores no Parque Nacional de Jamanxim (PA) | Marizilda Cruppe / Amazônia Real
'Solução heterodoxa'
O advogado Melillo Dinis do Nascimento, que representa o Instituto Kabu no caso, criticou o voto de Moraes após a sessão, classificando-o de uma “solução heterodoxa”. O Instituto Kabu é uma organização do povo indígena Kayapó, das TIs Baú e Menkragnoti, já impactadas pela BR-163, e que também serão afetadas pela Ferrogrão.
“Eu avalio que há um desconhecimento da realidade, porque [a obra] não precisa passar dentro de uma aldeia, não precisa deslocar a aldeia de um povo indígena [para que os impactos sejam sentidos]”, explicou Nascimento.
“Na verdade, o que se discute é o aumento da pressão que já é muito grande em todo o corredor logístico, que se sobrepõe indevidamente a um corredor de sociobiodiversidade do interflúvio Xingu-Tapajós. E que acaba afetando diretamente a vida desses povos. Não só dos povos indígenas mas de outras comunidades que estão ali, de extrativistas, de cooperativas, de ribeirinhos”, complementou.
Ao justificar o pedido de “vistas”, Dino mencionou que os estudos da hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, na mesma região do Pará, indicaram inicialmente que os impactos socioambientais seriam pouco significativos, mas que a realidade mostrou-se bem diferente.
“A Volta Grande do Xingu secou. Não passa canoa, não passa ninguém”, mencionou. “Não tem peixe, não tem caça”, explicou. Ele é o relator de uma ação que determinou que os povos indígenas afetados pela usina recebam uma participação financeira do empreendimento como compensação por seus impactos.
Dino disse que o voto de Moraes vai numa “direção profundamente razoável”, mas ressalvou que se sentia “inseguro” diante dessas questões para proferir o seu. Daí o pedido de vistas.
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Terra Indígena Baú, uma das áreas protegidas ameaçada pelos possíveis impactos da construção da Ferrogrão | Alberto César Araújo / Amazônia Real
Unidades de conservação em risco
“Se o voto do ministro Alexandre de Moraes prevalecer, todas as unidades de conservação estarão sob maior risco de ter seus territórios diminuídos ou de ser integralmente suprimidas", alerta o advogado do ISA Fernando Prioste.
Em 2018, o STF decidiu que não seria possível alterar áreas protegidas, a exemplo de UCs, por meio de MP. A decisão se baseou no texto expresso da Constituição, que exige que isso só pode ocorrer por meio de lei.
“Naquela oportunidade, o STF entendeu ser impossível alterar UCs via MP, mesmo que seja convertida em lei, pois a Constituição exige que se observe todo o processo de tramitação de uma lei, e que o rito de tramitação de medida provisória não bastaria”, acrescenta.
Há significativas diferenças entre a tramitação de um projeto de lei e uma MP, que tem um rito simplificado, com prazo curto e determinado para sua aprovação pelo Congresso.
“Apenas pela tramitação regular de um projeto de lei seria possível viabilizar meios e tempo necessários para o amplo debate que deve ser feito para alteração de UCs”, prossegue Prioste.
Para ele, caso prevaleça o entendimento de Alexandre de Moraes, qualquer UC poderia ser alterada por MP, bastando que ela proponha algum tipo de compensação. O advogado adverte, no entanto, que, como o voto do ministro não obriga que a lei de conversão de MP preveja algum mecanismo de compensação pela desafetação da UC, na prática elas acabariam por ser alteradas sem essa compensação.
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Dossiê inédito explica avanço do garimpo na Amazônia
A área devastada por atividade nas Terras Indígenas na Amazônia cresceu 495%, entre 2010 e 2020, aponta publicação, que traz lista mecanismos de funcionamento de invasões e propostas de solução
O documento explica os mecanismos que promovem o avanço do garimpo, aponta as fragilidades institucionais da cadeia do ouro e lista uma série de medidas para combater a atividade ilegal.
A área ocupada pelo garimpo nas Terras Indígenas (Tls) na região cresceu 495%, entre 2010 e 2020. Os territórios Kayapó (PA), Munduruku (PA) e Yanomami (RR) são os mais impactados pela exploração ilegal de ouro, respectivamente.
“O relatório mostra como o governo pode realmente combater o garimpo, desde a proteção integral dos territórios indígenas, passando pela cadeia do ouro até chegar à comercialização”, afirma uma liderança Kayapó que pediu para não ser identificada por temer ameaças.
A Aliança, que atua desde 2021 contra o garimpo e outras atividades que destroem as TIs, esteve em Brasília, na última semana, para entregar o dossiê aos ministérios do Meio Ambiente e Mudança do Clima, da Justiça, dos Povos Indígenas e dos Direitos Humanos, à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai(, à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), à Polícia Federal e ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). “Precisamos desse diálogo para construir os planos junto com o governo”, afirma Júlio Ye’kwana.
O estudo afirma que o atual boom do garimpo no Brasil foi “facilitado por medidas administrativas e decisões políticas do governo Bolsonaro” e é responsável por graves e massivas violações aos direitos humanos dos povos indígenas, “em especial dos Kayapó, Munduruku e Yanomami, como o direito à vida, ao território, à autodeterminação, ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, à segurança alimentar e nutricional, à saúde e muitos outros”.
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A publicação destaca ainda que o comércio de ouro no Brasil configura um “estado de coisas inconstitucional”, já que as instituições com atribuição legal sobre a cadeia econômica do ouro (Agência Nacional de Mineração, Banco Central do Brasil e Receita Federal) foram omissas em sua atuação.
“A superação desse cenário demanda a coordenação entre estas instituições, aliada ao fortalecimento e à autonomia dos órgãos e entes responsáveis pela fiscalização, gestão e proteção territorial de áreas protegidas, especialmente no enfrentamento às lavras ilegais”, diz o dossiê.
Agência Nacional de Mineração
A Agência Nacional de Mineração (ANM) é apontada como um dos principais gargalos na cadeia de custódia do ouro. A autarquia é responsável por conceder a Permissão de Lavra Garimpeira (PLG), documento que autoriza a exploração de uma área pelo garimpo, limitada a 50 hectares para pessoas físicas e a 10 mil hectares, para cooperativas. No entanto, as falhas na fiscalização e a falta de um sistema eletrônico de controle permitem a atuação irregular de garimpeiros, que muitas vezes concentram um grande número de títulos minerários.
O regime de PLG dispensa, ainda, a realização de pesquisa mineral prévia no processo de licenciamento, o que facilita a ocorrência de "garimpos fantasmas", que servem para "esquentar" o ouro explorado ilegalmente em TIs ou Unidades de Conservação, por exemplo. Citando diligência do TCU divulgada em 2019, o dossiê aponta que a autarquia ocupa o 2º lugar no ranking dos órgãos mais expostos à fraude e corrupção no Brasil, ficando atrás somente da Agência Nacional de Transporte Terrestres (ANTT).
Banco Central
O Banco Central (Bacen) é responsável por supervisionar as Distribuidoras de Títulos e Valores Imobiliários (DTVMs), as únicas instituições autorizadas a comprar e a revender ouro de garimpos, por meio dos Postos de Compra de Ouro (PCO), os braços das DTVMs nos municípios.
O dossiê aponta que o Bacen tem uma fiscalização falha e não sanciona as DTVMs envolvidas na compra de ouro ilegal. Apenas oito instituições têm PCOs ativos no país, e um terço desses postos pertence a uma única DTVM, a FD’Gold. “Maior instituição do ramo, a FD’Gold DTVM comprou entre 2019 e 2020 — segundo o MPF — 1.370 kg de ouro ilegal”.
De acordo com o dossiê, o cenário de fragilidade institucional no Brasil é responsável por pela disseminação da exploração ilegal e da lavagem do ouro. Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que analisou todas as permissões de lavra garimpeira no país apontou que nos últimos anos a produção ilegal de ouro superou o volume do metal explorado de forma regular.
“No Pará e no Mato Grosso, estados que concentram 94% das autorizações minerárias para garimpo no país, a comercialização de ouro ilegal e potencialmente ilegal superou a do ouro de origem lícita em 2019 e 2020 [...] No mesmo período, o Pará produziu 30,4 toneladas de ouro de garimpo, dos quais ao menos 22,5 toneladas (74%) foram extraídas de maneira irregular. Segundo o estudo, Itaituba, Jacareacanga e Novo Progresso responderam por 85,7% do comércio de ouro clandestino no mesmo período”.
Soluções
“O garimpo tem solução, mas ela tem que ser sistêmica e em múltiplas escalas, como é o problema. A gente quis apresentar um apanhado de medidas básicas para enfrentar o problema, tanto no âmbito da proteção integral de terras indígenas como na cadeia do ouro”, afirma Luísa Molina, pesquisadora do ISA responsável pela organização do dossiê.
A publicação lista uma série de ações para reprimir o avanço do garimpo
ilegal e impedir novas frentes de invasão, implementar mecanismos de fiscalização e controle já existentes e criar novos mecanismos para impedir a atividade. O dossiê reforça que é necessária uma articulação interinstitucional no âmbito do poder público para garantir a efetividade dessas ações.
“Não basta simplesmente colocar equipes em campo e destruir maquinário: deve-se efetivamente desarticular a organização criminosa por trás do garimpo e inviabilizar a utilização de equipamentos logísticos que dão apoio ao ilícito”, ressalta o documento.
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Xingu registra maior taxa de desmatamento desde setembro de 2021
Monitoramento da Rede Xingu+ aponta desmatamento de mais de 19 mil hectares no mês de abril
Desmatamento na APA Triunfo do Xingu. Na parte inferior da imagem, o Parque Nacional da Serra do Pardo, Unidade de Conservação Federal afetada pela ocupação desordenada da APA | Juan Doblas / ISA
O desmatamento voltou a ganhar força em 2022 no Rio Xingu (PA-MT). O mês de abril registrou a maior taxa desde setembro do ano passado, com mais de 19 mil hectares destruídos por toda a bacia. Grosso modo, pode-se considerar 1 hectare como um campo de futebol.
Em comparação a março, o salto é de 81%. Os dados são do Sirad X, sistema de monitoramento remoto da Rede Xingu+, em relatório mensal de desmatamento (acesse o relatório).
O fim das chuvas abre a temporada de desmatamento na região. Assim, grileiros, ladrões de madeira e invasores voltaram a assolar os territórios protegidos e dar continuidade ao alto padrão de desmatamento que se mantém há quatro anos, desde quando a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência com seus discursos anti-indígena e antidemarcação ganharam destaque. (Leia mais: Xingu sob Bolsonaro)
Entre as Terras Indígenas (TI), a Kayapó (PA) registrou mais de 180 hectares desmatados em abril. Já a TI Parabubure (MT) assusta ao ser a segunda TI mais desmatada no mês de abril, com aumento de mais de 4.000% em comparação ao mesmo período do ano passado.
Os municípios de Altamira (PA) e São Félix do Xingu (PA) ocupam o primeiro e o segundo lugares entre os mais desmatados no mês de abril. Altamira ultrapassou a marca de 8 mil hectares. Já São Félix do Xingu passou dos 3 mil hectares destruídos. Ambos os municípios registraram altas de desmatamento de 204% e 253%, respectivamente, em comparação ao mês de março.
Como se não bastasse, a grande atividade pecuária em São Félix do Xingu contribuiu para o grave cenário de aumento de emissão de gases de efeito estufa. O município concentra o maior rebanho do país, com mais de dois milhões de cabeças e ocupa o posto de maior emissor de gases do Brasil.
Quebra da conectividade do Corredor Xingu
Entre as áreas protegidas, a Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu foi a mais destruída, com pouco mais de 6 mil hectares devastados. Sozinha, ela representa 84% do desmatamento nas Unidades de Conservação (UCs) do Xingu. A APA Triunfo do Xingu é historicamente a UC mais desmatada da região em consequência da grande movimentação de grileiros. Os mesmos desmatam para se apossar das terras da unidade.
Ainda entre as áreas protegidas, com aumento de 1.875% em comparação ao mês de março, a Estação Ecológica (Esec) da Terra do Meio foi a segunda mais desmatada. E pela primeira vez, desde o início do monitoramento, a Floresta Estadual (Fes) do Iriri registrou desmatamento no mês de abril.
“Este ano o desmatamento começou mais cedo na Fes do Iriri. Historicamente, no monitoramento do Sirad X, que começou em 2018, a temporada de desmatamento começa no mês de maio, mas este ano 453 hectares foram desmatados em abril”, diz Ricardo Abad, analista de geoprocessamento do Observatório de Olho no Xingu. Esta é a maior taxa de desmatamento no território desde maio do ano passado.
O crescente desmatamento nas UCs pressiona os territórios vizinhos e coloca em risco a conectividade do corredor de áreas protegidas do Xingu, que hoje é a última barreira que protege a Amazônia Oriental do desmatamento. São 26 milhões de hectares de florestas protegidas cuja fragmentação pode empobrecer a floresta, afetando milhares de espécies que dependem de sua conexão, fragilizando ainda mais sua capacidade de resistir às mudanças ao seu redor.
Estima-se que 20% da cobertura original da Amazônia já tenha sido desmatada, aproximando a floresta do “ponto de não retorno”, isto é, o momento em que a degradação alcançará um limite após o qual a floresta não conseguirá mais existir como a conhecemos hoje, dando espaço para uma vegetação mais seca, esparsa e vulnerável, sem capacidade para continuar exercendo sua função de provedora de chuva, essencial para toda a América do Sul. A destruição do Corredor Xingu pode acelerar esse processo. Sua proteção, portanto, é fundamental para a garantia da floresta, seus povos e do clima no planeta.
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Maial Paiakan Kaiapó: resistência, coletividade e cuidado
#ElasQueLutam! Inspirada e motivada pelas lideranças tradicionais de seu povo, a jovem dá continuidade à resistência indígena e à defesa do seu território
Maial Paiakan, liderança da Terra Indígena Kayapó (PA) | Kamikiá Kisêdjê
“Uma linha do tempo”. É assim que Maial Paiakan Kaiapó enxerga a luta pelos territórios e direitos indígenas: como uma resistência contínua, que passa dos mais velhos para os mais jovens. Ela se transforma ao longo dos anos, ganha novas caras e formas, mas tem sempre um objetivo comum: fortalecer as tradições e culturas das comunidades e proteger a humanidade.
Mulher aguerrida e importante liderança da Terra Indígena Kayapó (PA), Maial nota que muito do que aprendeu sobre luta descobriu com os que vieram antes. E que seu trabalho hoje vem para dar seguimento ao que começou com eles. “[Estamos] construindo a nossa própria história, mas com um olhar muito grande em relação ao nosso passado,” reflete. “Se a gente está no movimento indígena, é porque a gente tem uma base forte, porque a gente vem da aldeia e conhece a nossa realidade”.
A “base” a qual ela se refere é composta de muita gente, mas a principal inspiração é seu pai, Paulinho Paiakan. Decisivo para a conquista do Capítulo dos Índios na Constituição e na luta contra Kararaô, a atual hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira (PA), Paiakan sempre acreditou no potencial das filhas para a mobilização e investiu nessa formação.
“[Nós] sempre participamos de atos, reuniões; em momentos importantes da luta dos indígenas, a gente estava”, conta.
Foi com o pai, por exemplo, que Maial percebeu a importância da união entre os vários povos indígenas e movimentos sociais por um bem comum - sonho que ela ajuda a realizar hoje em dia, como porta-voz da Aliança em Defesa dos Territórios. A aliança junta os povos Kayapó, Munduruku e Yanomami para enfrentar a invasão garimpeira em suas terras.
“Iniciou [nos anos 1980] com o Davi Yanomami lutando pelo território. Meu pai foi visitá-lo na Terra Indígena Yanomami; e hoje é o filho dele, Dário, e também eu e a minha irmã, O-é Kaiapó, [estamos atuando] na mesma pauta, na mesma luta”, comenta. Como o pai fez décadas atrás, Maial visitou recentemente a Terra Yanomami (RR-AM), durante as celebrações dos 30 anos de homologação do território, para fortalecer a união entre os três povos e trocar experiências sobre o garimpo ilegal. “A gente quer proteger nosso território, não queremos garimpo”, explica. “Deixamos nossas diferenças de lado e é todo mundo lutando junto”.
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Maial Paiakan (esq.) com Davi Kopenawa e Alessandra Munduruku. Os três fazem parte da Aliança em Defesa dos Territórios | Fred Mauro / ISA
Formação para a coletividade
Para Maial, o pai é uma referência também por ter sido o maior incentivador para que as filhas estudassem. Aos sete anos, Maial mudou-se para a cidade de Redenção (PA) para frequentar a escola não indígena, conhecer a cultura dos "brancos" e, no futuro, aplicar essa sabedoria nas lutas dos Kayapó. “Não é uma decisão individual, ela é pelo coletivo, é em defesa do território”, explica.
A escolha de ir para a cidade culminou com uma conquista inédita: Maial foi a primeira pessoa do seu povo a concluir uma graduação, formando-se em Direito em 2015.
“É um projeto que foi elaborado pelo meu pai e que deu muito certo. Se não fosse essa iniciativa, talvez hoje tivéssemos poucos estudantes indígenas ainda”, comenta. “A graduação foi importante para o meu povo no sentido de incentivar outros jovens de que estudar é possível”.
Tanto o curso quanto a trajetória após a graduação foram decididos também com o coletivo em mente. “Eu precisava entender melhor sobre os direitos que a gente tem e o que a gente está lutando”, lembra. Depois de formada, Maial atuou com temas de proteção territorial na sede da Fundação Nacional do Índio (Funai) e, na sequência, na Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), em Brasília.
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'Se a gente está no movimento indígena, é porque a gente tem uma base forte', diz Maial Paiakan | Mitã Xipaya
“A saúde indígena me deu um olhar completamente diferente de tudo”, aponta. “De que a nossa ligação com o território não é de posse, mas de saúde, cultura, espiritualidade”.
Mas, nesta trajetória, um dos momentos que ela se recorda com mais carinho é quando começou a trabalhar com a deputada federal Joenia Wapichana (Rede-RR) e pôde entrar pela primeira vez na Câmara dos Deputados sem ser barrada. “Quando estamos com o movimento, a gente chega ali e a recepção é horrível. Então, foi emocionante entrar lá para trabalhar e, principalmente, com uma mulher indígena eleita”, conta.
Foi lá também que ela percebeu a importância de os povos indígenas se empoderarem de conhecimentos sobre a política partidária e o funcionamento de leis e se organizarem para ocupar estes espaços. “Tudo o que a gente faz, e tem, e luta, é política. Então, como a gente não vai falar de políticas públicas, de conquistas?”, questiona.
Mulheres indígenas
Hoje, Maial desponta como um exemplo do momento de transformação pelo qual passa o movimento indígena. Como ela mesmo avalia, o rosto da resistência está cada vez mais jovem e feminino. “É nós por nós!”, avisa. “As mulheres lutando pelo território, enfrentando garimpeiros, retirando invasores. Eu acho magnífico”.
Mas esse protagonismo feminino sempre fez parte da vida de Maial. Ela cresceu observando e se inspirando em mulheres como a mãe, Irekran Kaiapó, e a tia, Tuíra Kayapó, conhecida pela icônica cena em que colocou um facão contra o rosto do então diretor da Eletronorte, no I Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, em 1989, em Altamira. E hoje, tudo o que ela faz tem essas mulheres como ponto de partida.
“Tudo o que eu aprendi em relação a ser forte, foi com as mulheres indígenas”, conta. Elas, explica Maial, carregam ao mesmo tempo um olhar muito firme na luta, mas que é também de muito carinho, cuidado e coletividade. “[É sobre] estar juntas, ali, de mãos dadas. Eu estou um pouco longe de casa, mas aonde quer que eu vá, eu tenho a presença delas comigo”.
Nada, é claro, vem sem seus desafios. “É racismo, desentendimento das pessoas sobre os povos indígenas e nossa cultura”, salienta. “Como mulher, aumenta a responsabilidade, porque a gente tem que lutar para provar que pode construir [junto], que a gente pode estar nesse campo [de liderança]”. Mesmo assim, Maial reafirma a importância de mulheres, indígenas e não indígenas, assumirem a linha de frente e se unirem pela proteção da terra. “Vamos estar afastando a violência, o estupro, uma série de coisas que afetam principalmente a vida das mulheres indígenas”, diz.
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Maial em marcha com as mulheres Kayapó em Brasília | Felipe Milanez, cedida por Maial Paiakan
Em uma das últimas conversas que teve com o pai – Paulinho Paiakan foi uma das grandes lideranças indígenas que faleceram na pandemia de Covid-19 –, Maial escutou que já estava preparada para caminhar sozinha. “Foi a primeira vez que ele falou isso. Ele sempre nos tratou no sentido de que a gente ainda tinha o que aprender,” diz. Foi um momento muito importante, que consolidou o entendimento de que ela vinha adquirindo conhecimento desde jovem e estava, sim, pronta para lutar pelo seu povo. “Se a gente não acredita na nossa luta, quem é que vai fazer isso?”, reflete.
“O território significa muito: o nosso corpo, os nossos valores, a nossa cultura. E a morte do território é a morte dos povos indígenas,” finaliza. “O que me move é olhar para o passado e observar que, se a gente tem território hoje, foi porque meu pai, meus avós, lutaram. Então agora está nas minhas mãos garantir isso”.
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Justiça estadual do Pará suspende licenciamento da mineradora Belo Sun
Decisão da Justiça de Altamira suspendeu licenciamento do projeto de exploração de ouro na Volta Grande do Xingu, no Pará, com base na falta de estudos e de consulta a comunidades ribeirinhas da região
A mineradora canadense Belo Sun, que pretende instalar a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil, na Volta Grande do Xingu (PA), região já impactada pela hidrelétrica de Belo Monte, sofreu nova derrota na justiça esta semana: o licenciamento ambiental do empreendimento foi novamente suspenso, desta vez em julgamento de 1ª instância da Justiça Estadual em Altamira.
A decisão se refere a uma Ação Civil Pública (ACP) movida pela Defensoria Pública do Estado do Pará (DPE), que apontou a ilegalidade do licenciamento pela ausência de estudos sobre os impactos socioambientais que podem afetar as comunidades ribeirinhas da região e pela ausência de consulta livre, prévia e informada a essas populações.
Na decisão liminar proferida, na última terça-feira (24), o juiz Antônio Fernando de Carvalho Vilar determinou a “suspensão dos efeitos do licenciamento ambiental n° 2012/5028 e 2015/5340, da empresa Belo Sun Mineração Ltda, que tramita na Secretaria de Estado e Meio Ambiente e Sustentabilidade (SEMAS), até que seja realizado estudo socioambiental dos povos ribeirinhos, na distância mínima de 10 km do empreendimento, nas duas margens do rio Xingu, bem como a consulta prévia, livre e informada e o consentimento dos povos ribeirinhos, pelo Estado do Pará, conforme previsto no artigo 6°, da Convenção n. 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).”
Ainda segundo o juiz, a consulta prévia “deve se apresentar como um permanente canal de diálogo com as populações tradicionais atingidas por grandes empreendimentos como o dos autos", devendo ser "ampla e pautada na boa-fé, facultando aos atingidos consentir ou não com a implementação do empreendimento, estar presente nas tomadas de decisões e que suas manifestações e interesses sejam levados em consideração por parte da autoridade estatal".
Além disso, a decisão fixou multa diária de R$ 100 mil, para o caso de descumprimento, sem prejuízo de eventual responsabilização criminal dos envolvidos, e determinou a realização de inspeção judicial e perícia antropológica.
Outras ações
Esta é a segunda ação que atualmente mantém suspenso o licenciamento de Belo Sun. Em 25/4, o Tribunal Regional Federal da Primeira Região (TRF1) manteve outra decisão, de 2017, em ACP movida pelo Ministério Público Federal, até que a empresa apresentasse os estudos de impacto ambiental sobre os povos indígenas e fosse feita a consulta livre, prévia e informada dessas populações da Volta Grande, de acordo com a Convenção 169 da OIT.
As ameaças de impactos graves sobre as comunidades no entorno do projeto geraram ainda outras ações, que seguem tramitando na Justiça. Uma pede a anulação do Contrato de Concessão de Uso n.º 1.224/2021, firmado entre o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e a Belo Sun, pelo qual o INCRA passou para a mineradora 21 lotes do Projeto de Assentamento (PA) Ressaca, em troca de participação do órgão público nos lucros das atividades minerárias. A outra ação, contra a União e o Incra, exige a regularização fundiária e a titulação das propriedades das mais de 200 famílias da Vila Ressaca, local onde Belo Sun pretende se instalar (leia mais).
Conforme vídeo publicado pelo ISA (veja abaixo), o projeto da mineradora tem graves falhas estruturais e os estudos dos impactos ambientais realizados pela empresa desconsideram tanto possíveis impactos sísmicos na barragem de rejeitos que seria construída quanto os impactos cumulativos que ela causaria junto com a barragem da usina de Belo Monte.
Parecer do especialista em Geologia e Mineração Steven H. Emerman diz que pelo menos nove milhões de metros cúbicos de rejeitos tóxicos podem atingir o Rio Xingu e percorrer mais de 40 quilômetros em duas horas, provocando danos irreversíveis. Esses rejeitos conteriam metais altamente nocivos, como cianeto, arsênico e mercúrio, podendo causar um “ecocídio” do rio Xingu pelo empreendimento. O termo é uma expressão que pode ser usada para fazer referência a qualquer destruição em larga escala do meio ambiente ou à sobre-exploração de recursos naturais não renováveis.
Além disso, Belo Sun fica a somente dez quilômetros da principal barragem no Rio Xingu, construída para a hidrelétrica de Belo Monte. A exploração da mineradora prevê explosões 24 horas por dia para arrancar ouro da terra, durante no mínimo 12 anos.
Aliança Volta Grande do Xingu
Esta comunicação é uma iniciativa da Aliança Volta Grande do Xingu, composta por organizações e movimentos sociais do Brasil e do mundo. A Aliança apoia a defesa da vida e da dignidade na região da Volta Grande do Xingu e sua permanente proteção contra projetos de infraestrutura como a hidrelétrica Belo Monte e a mina de Belo Sun. Compõem a Aliança: AIDA, Amazon Watch, Earthworks, International Rivers, Instituto Socioambiental — ISA, Mining Watch, Movimento Xingu Vivo para Sempre e Rede Xingu+.
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Pesquisadores indígenas, ribeirinhos e acadêmicos criam instituto de monitoramento na Volta Grande do Xingu
Conectando métodos científicos com conhecimentos ancestrais, aliança já soma 13 anos de pesquisa sobre os impactos de Belo Monte
Na última sexta-feira (17/04), um marco para a defesa do Rio Xingu foi celebrado na Terra Indígena Paquiçamba, em Vitória do Xingu (PA). Em assembleia que reuniu mais de 50 representantes — entre indígenas, ribeirinhos e acadêmicos de diferentes centros científicos —, foi criado o Instituto de Monitoramento Ambiental Territorial Independente e Pesquisa Intercultural da Volta Grande do Xingu (MATI-VGX). Fruto de mais de uma década de registros contínuos dos impactos da hidrelétrica de Belo Monte, a criação do Instituto ocorreu onde tudo começou: na aldeia Mïratu, do povo Juruna/Yudjá, localizada no chamado "Trecho de Vazão Reduzida" (TVR) — região de onde a usina desvia até 80% das águas do Xingu para alimentar suas turbinas.
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Criação do Instituto de Monitoramento Ambiental Territorial Independente e Pesquisa Intercultural da Volta Grande do Xingu (MATI-VGX) fortalece monitoramento participativo|Roberto Rezende/ISA
“A formalização do MATI-VGX vem evidenciar aquilo que viemos falando há muitos anos, desde a implementação da barragem de Belo Monte. É algo muito importante para esta região da Volta Grande e para quem reside aqui. Mas não é importante só para nós: também para que surjam outras iniciativas que precisam de fortalecimento, para que tenham mais iniciativas de monitoramento participativo intercultural”, declarou Josiel Juruna, diretor do MATI-VGX, em nome dos sócios fundadores.
Aliando conhecimentos dos territórios tradicionais e de universidades, o MATI-VGX se tornou uma referência fundamental sobre a Volta Grande do Xingu. Seus dados, publicados em periódicos de excelência com revisão por pares, como a Conservation Biology, têm fornecido ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) — licenciador de Belo Monte — avaliações sobre o que se passa na região em decorrência do barramento do Xingu.
Com os dados produzidos de maneira independente, não é apenas a própria empresa concessionária de Belo Monte quem detém exclusividade na comunicação ao licenciador sobre os impactos do empreendimento. Além disso, o público em geral pode ter acesso à base de dados do monitoramento, disponível no Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr | MATI-VGX).
A presença constante no território possibilita ao MATI-VGX registrar eventos críticos que evidenciam o estado do ecossistema — como o flagrante, pelo quarto ano consecutivo, de milhões de ovas de peixe morrendo em áreas secas, devido à redução drástica da vazão do rio. Com isso, além de informar imediatamente os órgãos competentes de fatos dessa importância, o MATI-VGX fornece à sociedade em geral evidências dos graves danos que hidrelétricas podem provocar em rios amazônicos, explicitando também a urgência de se estabelecer uma partilha justa de água na Volta Grande do Xingu.
“O MATI é a visão e a voz, em tempo real, da situação das vidas na Volta Grande do Xingu”, disse o diretor adjunto do MATI-VGX, Raimundo da Cruz e Silva, ribeirinho e pesquisador. Ele complementa: “a nossa maior força foi a união entre os indígenas, os ribeirinhos e os cientistas acadêmicos, consolidando uma robustez de conhecimentos práticos e científicos, transmitindo qualidade e segurança em nosso trabalho”.
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“O MATI é a visão e a voz, em tempo real, da situação das vidas na Volta Grande do Xingu”, disse o diretor adjunto do MATI-VGX, Raimundo da Cruz e Silva|Roberto Rezende/ISA
O MATI-VGX teve sua produção técnica e científica reconhecida pelo Ibama, que ordenou à concessionária de Belo Monte que considere as análises produzidas pelo monitoramento independente para propor um novo hidrograma para a Volta Grande.
A relevância e legitimidade do MATI-VGX como interlocutor qualificado sobre os impactos de Belo Monte se deu também, nos últimos anos, em eventos públicos, científicos e acadêmicos, sobre a realidade da região. Exemplos recentes são as suas contribuições para o debate promovido pelo Ministério Público Federal durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), de 2025; a participação na 76ª reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) com a mesa redonda “De quanta água um rio precisa? Partilha da água entre os povos do Rio Xingu e a UHE Belo Monte sob mudança climática”, em 2024; e o seminário técnico “O Futuro da Volta Grande do Xingu”, promovido em Brasília pela Procuradoria-Geral da República, em 2023.
“As pesquisas realizadas pelo MATI-VGX têm capilaridade no território, se baseiam no sistema de conhecimentos intergeracionais e registram as mudanças ambientais e dados sobre interações entre espécies”, observa a professora doutora Janice Muriel Cunha, da Universidade Federal do Pará (UFPA), associada ao MATI-VGX. “A criação do instituto fortalece a missão de salvaguardar a Volta Grande do Xingu e pela governança ambiental mais participativa e com o protagonismo de quem vive os impactos no território”, completa.
Saiba mais sobre a luta de ribeirinhos e povos indígenas pela vida do Rio Xingu:
Agora fortalecido como organização formalizada, o MATI-VGX reafirma sua missão de promover o monitoramento independente e a pesquisa intercultural, garantindo o protagonismo local e a defesa dos direitos humanos e ambientais na Volta Grande do Xingu. Esse é um passo decisivo para justiça socioambiental e a proteção necessária de uma das regiões mais biodiversas e ameaçadas do Brasil.
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Governo do Pará desconsidera impactos e emite licença de instalação de Belo Sun; veja linha do tempo
Cianeto e metais pesados, como arsênio, chumbo e cobre, a serem utilizados pela mina de ouro, podem se acumular e afetar a saúde das comunidades indígenas e ribeirinhas além dos danos irreversíveis aos ecossistemas da região
A Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Governo do Pará (Semas) emitiu no dia 15 de abril a Licença de Instalação (LI) para a mineradora canadense Belo Sun, mesmo após as mobilizações do Movimento das Mulheres Indígenas do Médio Xingu (MMIMX) contra o empreendimento na região.
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Manifestantes indígenas pedem saída da Belo Sun de seu território, no Acampamento Terra Livre deste ano, em Brasília|Brenda Okubo/ISA
Análise do Instituto Socioambiental (ISA) mostra que a secretaria utilizou como base para a emissão da licença duas decisões judiciais controversas, emitidas de forma monocrática, pelo desembargador Flávio Jardim, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), e desconsiderou as boas-práticas de avaliação de impactos e do licenciamento ambiental.
“Esse ato escancara uma verdade que há muito é sabida: os interesses econômicos estão sendo colocados acima dos direitos humanos, do meio ambiente e da legislação ambiental”, afirmou Luís Filipe Antunes de Lima, analista na área de Proteção e Direitos Territoriais do Programa Xingu, no ISA.
Em fevereiro de 2025, após pautar por quatro vezes consecutivas o recurso movido pela mineradora Belo Sun, o desembargador julgou e deferiu, durante as férias da desembargadora Kátia Balbino, que até então votava pela federalização do licenciamento do empreendimento, que a competência do licenciamento de Belo Sun fosse transferida para o governo do Pará.
Antes, a competência era do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), já que Belo Sun poderá impactar diretamente Terras Indígenas e o Rio Xingu, além da sobreposição dos danos socioambientais provocados pela Usina Hidrelétrica Belo Monte desde a sua construção, em 2011, com agravamento após o início da operação, em 2016.
Além de transferir a competência do Ibama para a secretaria estadual, o desembargador julgou cumprido, em outra Ação Civil Pública, o processo de consulta livre, prévia e informada (CLPI). Com isso, estabeleceu a validade de uma licença que, pelos prazos definidos em lei, já estava nula.
Saiba mais sobre o projeto da mineradora:
Ausência de plano de gestão ambiental e estudo de componente indígena
A decisão da secretaria do governo paraense de emitir a Licença de Instalação de Belo Sun desconsiderou a implementação da barragem de rejeitos e de uma das cavas previstas no projeto – cratera escavada no solo resultante da extração de minério a céu aberto - chamada de Ouro Verde, que se sobrepõe à área do Plano Ambiental de Conservação e Uso do Entorno de Reservatório Artificial (PACUERA) da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.
“A Semas desconsiderou as boas-práticas de avaliação de impactos e do licenciamento ambiental e deu um salvo-conduto para que a empresa siga com a implementação do projeto sem a devida análise de viabilidade ambiental e econômica integrada do projeto, frente a retirada dessas estruturas”, avalia Luís Filipe.
Outras irregularidades como a falta de um plano de gestão ambiental da barragem a longo prazo, após o encerramento da atividade minerária, e a apresentação e aprovação do Plano Básico Ambiental do Componente Indígena (PBA-CI) das Terras Indígenas Arara da Volta Grande e Paquiçamba, também foram citadas pelo analista.
Anteriormente, a secretaria atuou no licenciamento do projeto da mineradora canadense e emitiu as licenças prévia, em 2014, e de instalação, em 2017, apesar de os Estudos de Impacto Ambiental (EIAs) e o Estudo de Componente Indígena (ECI) serem considerados profundamente insuficientes pela comunidade científica e pela própria Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). A emissão da Licença de Instalação ignorou falhas críticas de diagnóstico e violou o direito à consulta prévia, livre e informada dos povos Juruna e Arara, bem como das comunidades ribeirinhas diretamente afetadas pelo projeto da Belo Sun na Volta Grande do Xingu. Cabe destacar ainda a falta de uma avaliação de impactos cumulativos eficiente, condizente com a complexidade do território e da dimensão dos impactos de Belo Monte.
O projeto da Belo Sun é considerado inviável
A iminência do início da operação da mineradora na região vem causando protestos de comunidades indígenas e ribeirinhas, ambientalistas e defensores dos direitos humanos, pois há o risco do Xingu se transformar na ‘Brumadinho da Amazônia’.
De acordo com pareceres da Universidade de São Paulo e das Universidades Federais do Amazonas, do Pará e do Rio Grande do Norte, o projeto de mineração de Belo Sun é considerado inviável mediante as falhas na metodologia de avaliação de impacto, criticada por ser puramente qualitativa e subjetiva, sem dados quantitativos ou modelos robustos.
Além disso, qualquer projeto de mineração na Volta Grande do Xingu precisa considerar os impactos cumulativos na região onde já opera a Usina Hidrelétrica de Belo Monte. A usina desvia até 80% do fluxo de água do Rio Xingu para alimentar suas turbinas e gerar energia. Assim, a região da Volta Grande do Xingu, na porção jusante (rio abaixo) da hidrelétrica, passou a receber apenas entre 20 e 30% do volume de água, afetando negativamente a reprodução e a alimentação das diversas espécies de peixes, algumas das quais só existem ali.
Outra questão considerada muito grave, de acordo com o doutor em geofísica pela Universidade Cornell, Steven Emerman, são as falhas nos estudos realizados pela mineradora Belo Sun em relação ao risco de rompimento da barragem de rejeitos, prevista no projeto da empresa. Emerman é especialista em avaliar os impactos ambientais da mineração.
O Brasil viveu recentemente tragédias nos municípios de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais, com os rompimentos das barragens de rejeitos de mineração que causaram a morte de centenas de pessoas e despejou milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério no meio ambiente e contaminaram rios e o litoral brasileiro.
“É inaceitável que um empreendimento de grande porte não tenha avaliado adequadamente os riscos e as consequências de um colapso estrutural. Além disso, não há um plano sólido para o fechamento da mina e o tratamento dos rejeitos, o que pode deixar um passivo ambiental e social grave para as gerações futuras”, afirma o estudo.
Os estudos mostram ainda que no caso de um rompimento, os rejeitos poderiam percorrer até 41km e, em apenas sete minutos, alcançar a Terra Indígena Arara da Volta Grande, em um cenário conservador, podendo atingir o Rio Amazonas e o Oceano Atlântico, no pior cenário.
Risco de vazamento de águas tóxicas no Rio Xingu
Para que o ouro seja extraído da terra, o projeto da Belo Sun prevê a utilização de 330 a 390 gramas de cianeto por tonelada de material processado, uma substância altamente tóxica, podendo chegar a cerca de 116 milhões de toneladas. Neste processo, a água poderá ser contaminada através da infiltração no solo, rompimento de barragens ou acidentes no transporte, resultando em sérias consequências socioambientais.
De acordo com os estudos realizados, o cianeto e os metais pesados, como arsênio, chumbo e cobre, podem se acumular na fauna aquática e afetar a saúde das comunidades ribeirinhas e causar danos irreversíveis aos ecossistemas da região.
No entanto, os estudos apresentados pelo projeto Belo Sun desconsideram os riscos associados à contaminação por metais pesados e cianetos. Os relatórios apontam que não existe uma análise detalhada sobre os impactos dessas substâncias na fauna aquática nem sobre os efeitos para as populações locais. O empreendimento também não apresentou um plano detalhado para o tratamento da água contaminada antes de sua devolução ao meio ambiente.
Linha do tempo do Projeto Belo Sun
- 2012 - 2013:
A mineradora canadense Belo Sun apresentou o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto ao Meio Ambiente (RIMA).
Em 2013, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com Ação Civil Pública exigindo Estudos do Componente Indígena (ECI).
- 2014
Em 2014, a Licença Prévia (LP) foi emitida pela SEMAS sem o ECI.
- 2017 - 2018:
Em fevereiro de 2017, a Licença de Instalação (LI) foi concedida, mas suspensa em abril, por falta do ECI e da Consulta Livre, Prévia e Informada (CLPI) às comunidades indígenas.
O Tribunal Regional Federal (TRF1) confirmou a suspensão da LI por falta da CLPI às comunidades indígenas.
Em 2018, Belo Sun foi denunciada à ONU por violações de direitos humanos.
- 2019 - 2020:
O Ministério Público (MP) do Pará entrou com ação pedindo a federalização do licenciamento ambiental.
Em 2019, a Justiça do Pará suspende a LI até o reassentamento das famílias afetadas.
Estudos independentes apontam falhas no EIA-CI sobre impactos à pesca, segurança da barragem e contaminação.
Em 2020, a Belo Sun apresentou o Componente Indígena no processo de licenciamento.
- 2021 - 2022:
Em 2021, comunidades indígenas rejeitam reuniões virtuais e exigem consulta presencial após vacinação contra Covid-19, o que ocorreu nesse mesmo ano.
Em 2022, a Justiça do Pará suspende o licenciamento até realização de estudo socioambiental dos povos ribeirinhos e consulta prévia.
TRF1 mantém a suspensão da LI e rejeita todos os recursos de Belo Sun e do estado do Pará.
- 2023 até o momento atual:
Em julho de 2023, a FUNAI reconheceu a reivindicação fundiária da aldeia São Francisco, impactada pelo projeto.
Em 27 de janeiro de 2025, o TRF1 retirou a competência do Ibama, através de embargo de declaração, para analisar e conceder as licenças ambientais da mineradora.
Em 29 de janeiro de 2025, o TRF1 confirmou a necessidade de consulta prévia às comunidades indígenas e tradicionais antes da instalação do projeto da Belo Sun, no Xingu.
Em 21 de fevereiro de 2025, Funai e Ibama solicitaram o Estudo de Cumulatividade e Sinergia de Impactos entre os empreendimentos Projeto Volta Grande do Xingu de Exploração de Ouro e UHE Belo Monte.
Em 02 de junho de 2025, a Rede Xingu+ e o MPF questionam sobre a conformidade da consulta prévia, livre e informada realizada com os povos indígenas, alegando que foi feita após a emissão de uma licença prévia e não incluiu todos os grupos impactados.
Em 04 de agosto de 2025, a DPU e a Funai emitem ofício referente à garantia de que o Povo Mebengokre-Xikrin seja devidamente consultado sobre os impactos do Projeto Volta Grande de Mineração, de responsabilidade da empresa Belo Sun.
Em 01 de setembro de 2025, a Funai e a Rede Xingu+ destacam a necessidade de ampliar as análises de impacto para incluir povos indígenas anteriormente ignorados, como as comunidades desaldeadas e a aldeia São Francisco. A Funai também demonstrou preocupação com a acumulação de efeitos negativos sobre TI Trincheira Bacajá.
Em 13 de fevereiro de 2026, o TRF1 reverte a decisão judicial no âmbito do Agravo de Instrumento 202 e o desembargador relator entendeu que a mineradora cumpriu as obrigações judiciais e que as novas exigências do órgão indigenista careciam de procedimento administrativo formal e fundamentação técnica. Assim, a justiça autorizou o restabelecimento imediato da LI.
Em 17 de fevereiro de 2026, os povos Kuruaya e Xipaya do Jericoá solicitam a notificação do processo de demarcação, entrega de relatório antropológico e denúncia de violação da Convenção 169 da OIT sobre a ausência de consulta.
Em 20 de março de 2026, a Funai emite Termo de Referência Específico (TER) definindo os itens necessários à elaboração de uma Avaliação de Impactos Cumulativos (AIC) referente ao Projeto Volta Grande. A exigência do estudo decorre das lacunas identificadas no processo de licenciamento ambiental em curso e que não considerou adequadamente a sinergia e a cumulatividade dos impactos ambientais e socioculturais no território, notadamente entre a Usina Hidrelétrica de Belo Monte e o projeto minerário de Belo Sun.
Em 22 de março de 2026, a Funai emite ofício para Semas em atenção às manifestações do Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu (MMIMX), em Altamira (PA), reforçando que existem pendências técnicas relevantes no âmbito do Componente Indígena do licenciamento ambiental da mineradora Belo Sun e que não foram sanadas até o momento. Além disso, a Funai reforça que não há anuência para a emissão de nova licença ambiental ou de renovação da Licença de Instalação, cuja validade se encontra expirada.
Em 06 de abril de 2026, as comunidades de Kadj, Jericoá II e Sítio Kanipá emitem conjuntamente um ofício para a Funai exigindo a realização imediata de uma consulta prévia, livre e informada devido aos riscos impostos pelo projeto da mineradora Belo Sun na Volta Grande do Xingu.
Em 15 de abril de 2026, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Governo do Pará (Semas) emite a Licença de Instalação (LI) para a mineradora canadense Belo Sun. Porém, condicionou o início das obras à apresentação do PBA-CI, e barrou a instalação da Cava Ouro Verde e da Barragem de Rejeitos do Projeto Volta Grande.
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Alvo de ataques, povo Parakanã lança Protocolo de Consulta durante o Acampamento Terra Livre 2026
Documento elaborado pelos Parakanã orienta como devem ser as consultas antes de qualquer projeto governamental ou privado na Terra Indígena
O povo indígena Parakanã fará o lançamento do seu Protocolo de Consulta hoje (10/04) durante o Acampamento Terra Livre (ATL), na Tenda da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), a partir das 11h.
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Povo Parakanã lança Protocolo de Consulta em texto e vídeo durante a 22ª edição do Acampamento Terra Livre, em Brasília|Erik Vesch/ISA
O evento contará com a presença de lideranças Parakanã, membros da diretoria da Associação Tato’a, que representa o povo, e representantes de centenas de povos que participam da maior mobilização dos povos indígenas no Brasil.
O Protocolo de Consulta Livre, Prévia e Informada foi elaborado nos formatos de vídeo e em livreto e será distribuído para o público, imprensa e autoridades que irão participar do lançamento no ATL.
Para o povo Parakanã, apresentar o Protocolo em imagens, som e narrativa é uma grande oportunidade para ampliar a divulgação, o engajamento e a retenção da informação transmitida para os governantes e a sociedade em geral, especialmente em um momento em que o povo vem sofrendo vários ataques violentos.
O Protocolo em vídeo é todo narrado na língua parakanã, com legendas em português. Os indígenas participaram ativamente das filmagens e apoiaram na edição do documento.
Assista abaixo.
Para Wenatoa Parakanã, presidenta da Tato’á, o Protocolo de Consulta tão aguardado poderá ajudar a protegê-los contra as violações no seu território.
“Esta é uma ferramenta que vai nos proteger, é o nosso escudo. O nosso povo quer que os toria [não indígenas] respeitem, leiam e conheçam o nosso Protocolo. Qualquer organização que deseje falar com o nosso povo precisa conhecer este documento”, esclareceu a liderança.
O protocolo esclarece que qualquer medida que possa afetar o povo Parakanã deverá respeitar o processo de escuta do grupo. Ações como projeto de obra de infraestrutura que passe pela Terra Indígena, projetos de crédito de carbono ou qualquer política que afete a população como questões de saúde, educação, alimentação, dentre outras, deverão ser submetidas à consulta do povo Parakanã com o acompanhamento da Funai, mesmo nos casos que afetem somente parte do território ou uma aldeia específica.
A importância do Protocolo de Consulta dos Parakanã
O processo de escuta e diálogo denominado de Consulta deve ser feito com o povo antes de qualquer medida que possa afetá-lo. Ele deve respeitar os costumes, garantir a participação real e resultar em decisões tomadas pelo povo. Também precisa acontecer antes de qualquer decisão ser tomada ou autorizada, não podendo ser feita com o projeto pronto, nem com obras iniciadas ou contratos já assinados.
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Documento orienta que qualquer projeto, ação ou medida que afete o território deve ser submetida à consulta do povo Parakanã, com o acompanhamento da Funai|Erik Vesch/ISA
A Constituição Federal de 1988 garante os direitos dos povos originários e a Convenção nº 169 da OIT reforça esse procedimento. O Brasil é um país signatário da convenção, que foi ratificada em 2002, e se comprometeu a somar aos objetivos do documento: “garantir os direitos dos povos indígenas e ‘tribais’, como o direito à consulta livre, prévia e informada sobre decisões que os afetem, o direito à terra e aos recursos naturais, e o direito à manutenção de suas culturas e tradições.”
A consulta deve ocorrer sempre que houver intenção, por parte de qualquer ente governamental ou de agentes privados. Nos casos de elaboração ou alteração de normas jurídicas, administrativas ou políticas que afetem os direitos dos povos indígenas, as consultas também devem ocorrer.
Todas as decisões devem partir dos povos indígenas nas aldeias, das suas lideranças, dos mais velhos e levando em conta o modo próprio de decidir de cada povo ou etnia.
Os ataques ao povo Parakanã vêm se intensificando mesmo após a desintrusão
O povo Parakanã vem sofrendo sérios ataques nos últimos anos. De 2024 até o momento, foram nove ataques, inclusive com assassinato de um colaborador do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que apoiava no processo de desintrusão.
Apesar de ter sido homologada há 19 anos, a Terra Indígena Apyterewa tem sido alvo de grileiros, garimpeiros e madeireiros, com extensa ocupação ilegal de pecuária. O território perdeu em três anos (2019 – 2022) 319 km² da sua cobertura vegetal.
Em outubro de 2023, foi iniciado o processo de desintrusão da TI no âmbito da ADPF 709, determinado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Apesar da conclusão oficial da operação de desintrusão em março de 2024, a segurança na região deteriorou-se rapidamente devido à intensa pressão de grupos contrários aos indígenas no município de São Félix do Xingu.
O povo Parakanã voltou a ocupar estas áreas desintrusadas com a construção de novas aldeias numa tentativa de impedir o retorno de fazendeiros ilegais. Mas, os ataques continuaram. Uma das justificativas para essa violência são os pés de cacau plantados pelos invasores, que prosperaram e estão dentro do território demarcado.
No mês passado, a Rede Xingu +, que abriga a Tato’á e outras 50 organizações indígenas e ribeirinhas, fez uma denúncia formal ao governo federal. A sequência de ataques demanda ação urgente e proteção integral e permanente ao povo Parakanã.
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