Cianeto e metais pesados, como arsênio, chumbo e cobre, a serem utilizados pela mina de ouro, podem se acumular e afetar a saúde das comunidades indígenas e ribeirinhas além dos danos irreversíveis aos ecossistemas da região
A Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Governo do Pará (Semas) emitiu no dia 15 de abril a Licença de Instalação (LI) para a mineradora canadense Belo Sun, mesmo após as mobilizações do Movimento das Mulheres Indígenas do Médio Xingu (MMIMX) contra o empreendimento na região.
Análise do Instituto Socioambiental (ISA) mostra que a secretaria utilizou como base para a emissão da licença duas decisões judiciais controversas, emitidas de forma monocrática, pelo desembargador Flávio Jardim, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), e desconsiderou as boas-práticas de avaliação de impactos e do licenciamento ambiental.
“Esse ato escancara uma verdade que há muito é sabida: os interesses econômicos estão sendo colocados acima dos direitos humanos, do meio ambiente e da legislação ambiental”, afirmou Luís Filipe Antunes de Lima, analista na área de Proteção e Direitos Territoriais do Programa Xingu, no ISA.
Em fevereiro de 2025, após pautar por quatro vezes consecutivas o recurso movido pela mineradora Belo Sun, o desembargador julgou e deferiu, durante as férias da desembargadora Kátia Balbino, que até então votava pela federalização do licenciamento do empreendimento, que a competência do licenciamento de Belo Sun fosse transferida para o governo do Pará.
Antes, a competência era do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), já que Belo Sun poderá impactar diretamente Terras Indígenas e o Rio Xingu, além da sobreposição dos danos socioambientais provocados pela Usina Hidrelétrica Belo Monte desde a sua construção, em 2011, com agravamento após o início da operação, em 2016.
Além de transferir a competência do Ibama para a secretaria estadual, o desembargador julgou cumprido, em outra Ação Civil Pública, o processo de consulta livre, prévia e informada (CLPI). Com isso, estabeleceu a validade de uma licença que, pelos prazos definidos em lei, já estava nula.
Saiba mais sobre o projeto da mineradora:
Ausência de plano de gestão ambiental e estudo de componente indígena
A decisão da secretaria do governo paraense de emitir a Licença de Instalação de Belo Sun desconsiderou a implementação da barragem de rejeitos e de uma das cavas previstas no projeto – cratera escavada no solo resultante da extração de minério a céu aberto - chamada de Ouro Verde, que se sobrepõe à área do Plano Ambiental de Conservação e Uso do Entorno de Reservatório Artificial (PACUERA) da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.
“A Semas desconsiderou as boas-práticas de avaliação de impactos e do licenciamento ambiental e deu um salvo-conduto para que a empresa siga com a implementação do projeto sem a devida análise de viabilidade ambiental e econômica integrada do projeto, frente a retirada dessas estruturas”, avalia Luís Filipe.
Outras irregularidades como a falta de um plano de gestão ambiental da barragem a longo prazo, após o encerramento da atividade minerária, e a apresentação e aprovação do Plano Básico Ambiental do Componente Indígena (PBA-CI) das Terras Indígenas Arara da Volta Grande e Paquiçamba, também foram citadas pelo analista.
Anteriormente, a secretaria atuou no licenciamento do projeto da mineradora canadense e emitiu as licenças prévia, em 2014, e de instalação, em 2017, apesar de os Estudos de Impacto Ambiental (EIAs) e o Estudo de Componente Indígena (ECI) serem considerados profundamente insuficientes pela comunidade científica e pela própria Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). A emissão da Licença de Instalação ignorou falhas críticas de diagnóstico e violou o direito à consulta prévia, livre e informada dos povos Juruna e Arara, bem como das comunidades ribeirinhas diretamente afetadas pelo projeto da Belo Sun na Volta Grande do Xingu. Cabe destacar ainda a falta de uma avaliação de impactos cumulativos eficiente, condizente com a complexidade do território e da dimensão dos impactos de Belo Monte.
O projeto da Belo Sun é considerado inviável
A iminência do início da operação da mineradora na região vem causando protestos de comunidades indígenas e ribeirinhas, ambientalistas e defensores dos direitos humanos, pois há o risco do Xingu se transformar na ‘Brumadinho da Amazônia’.
De acordo com pareceres da Universidade de São Paulo e das Universidades Federais do Amazonas, do Pará e do Rio Grande do Norte, o projeto de mineração de Belo Sun é considerado inviável mediante as falhas na metodologia de avaliação de impacto, criticada por ser puramente qualitativa e subjetiva, sem dados quantitativos ou modelos robustos.
Além disso, qualquer projeto de mineração na Volta Grande do Xingu precisa considerar os impactos cumulativos na região onde já opera a Usina Hidrelétrica de Belo Monte. A usina desvia até 80% do fluxo de água do Rio Xingu para alimentar suas turbinas e gerar energia. Assim, a região da Volta Grande do Xingu, na porção jusante (rio abaixo) da hidrelétrica, passou a receber apenas entre 20 e 30% do volume de água, afetando negativamente a reprodução e a alimentação das diversas espécies de peixes, algumas das quais só existem ali.
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A tragédia se repete no Xingu
Outra questão considerada muito grave, de acordo com o doutor em geofísica pela Universidade Cornell, Steven Emerman, são as falhas nos estudos realizados pela mineradora Belo Sun em relação ao risco de rompimento da barragem de rejeitos, prevista no projeto da empresa. Emerman é especialista em avaliar os impactos ambientais da mineração.
O Brasil viveu recentemente tragédias nos municípios de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais, com os rompimentos das barragens de rejeitos de mineração que causaram a morte de centenas de pessoas e despejou milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério no meio ambiente e contaminaram rios e o litoral brasileiro.
“É inaceitável que um empreendimento de grande porte não tenha avaliado adequadamente os riscos e as consequências de um colapso estrutural. Além disso, não há um plano sólido para o fechamento da mina e o tratamento dos rejeitos, o que pode deixar um passivo ambiental e social grave para as gerações futuras”, afirma o estudo.
Os estudos mostram ainda que no caso de um rompimento, os rejeitos poderiam percorrer até 41km e, em apenas sete minutos, alcançar a Terra Indígena Arara da Volta Grande, em um cenário conservador, podendo atingir o Rio Amazonas e o Oceano Atlântico, no pior cenário.
Risco de vazamento de águas tóxicas no Rio Xingu
Para que o ouro seja extraído da terra, o projeto da Belo Sun prevê a utilização de 330 a 390 gramas de cianeto por tonelada de material processado, uma substância altamente tóxica, podendo chegar a cerca de 116 milhões de toneladas. Neste processo, a água poderá ser contaminada através da infiltração no solo, rompimento de barragens ou acidentes no transporte, resultando em sérias consequências socioambientais.
De acordo com os estudos realizados, o cianeto e os metais pesados, como arsênio, chumbo e cobre, podem se acumular na fauna aquática e afetar a saúde das comunidades ribeirinhas e causar danos irreversíveis aos ecossistemas da região.
No entanto, os estudos apresentados pelo projeto Belo Sun desconsideram os riscos associados à contaminação por metais pesados e cianetos. Os relatórios apontam que não existe uma análise detalhada sobre os impactos dessas substâncias na fauna aquática nem sobre os efeitos para as populações locais. O empreendimento também não apresentou um plano detalhado para o tratamento da água contaminada antes de sua devolução ao meio ambiente.
Linha do tempo do Projeto Belo Sun
- 2012 - 2013:
A mineradora canadense Belo Sun apresentou o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto ao Meio Ambiente (RIMA).
Em 2013, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com Ação Civil Pública exigindo Estudos do Componente Indígena (ECI).
- 2014
Em 2014, a Licença Prévia (LP) foi emitida pela SEMAS sem o ECI.
- 2017 - 2018:
Em fevereiro de 2017, a Licença de Instalação (LI) foi concedida, mas suspensa em abril, por falta do ECI e da Consulta Livre, Prévia e Informada (CLPI) às comunidades indígenas.
O Tribunal Regional Federal (TRF1) confirmou a suspensão da LI por falta da CLPI às comunidades indígenas.
Em 2018, Belo Sun foi denunciada à ONU por violações de direitos humanos.
- 2019 - 2020:
O Ministério Público (MP) do Pará entrou com ação pedindo a federalização do licenciamento ambiental.
Em 2019, a Justiça do Pará suspende a LI até o reassentamento das famílias afetadas.
Estudos independentes apontam falhas no EIA-CI sobre impactos à pesca, segurança da barragem e contaminação.
Em 2020, a Belo Sun apresentou o Componente Indígena no processo de licenciamento.
- 2021 - 2022:
Em 2021, comunidades indígenas rejeitam reuniões virtuais e exigem consulta presencial após vacinação contra Covid-19, o que ocorreu nesse mesmo ano.
Em 2022, a Justiça do Pará suspende o licenciamento até realização de estudo socioambiental dos povos ribeirinhos e consulta prévia.
TRF1 mantém a suspensão da LI e rejeita todos os recursos de Belo Sun e do estado do Pará.
- 2023 até o momento atual:
Em julho de 2023, a FUNAI reconheceu a reivindicação fundiária da aldeia São Francisco, impactada pelo projeto.
Em 27 de janeiro de 2025, o TRF1 retirou a competência do Ibama, através de embargo de declaração, para analisar e conceder as licenças ambientais da mineradora.
Em 29 de janeiro de 2025, o TRF1 confirmou a necessidade de consulta prévia às comunidades indígenas e tradicionais antes da instalação do projeto da Belo Sun, no Xingu.
Em 21 de fevereiro de 2025, Funai e Ibama solicitaram o Estudo de Cumulatividade e Sinergia de Impactos entre os empreendimentos Projeto Volta Grande do Xingu de Exploração de Ouro e UHE Belo Monte.
Em 02 de junho de 2025, a Rede Xingu+ e o MPF questionam sobre a conformidade da consulta prévia, livre e informada realizada com os povos indígenas, alegando que foi feita após a emissão de uma licença prévia e não incluiu todos os grupos impactados.
Em 04 de agosto de 2025, a DPU e a Funai emitem ofício referente à garantia de que o Povo Mebengokre-Xikrin seja devidamente consultado sobre os impactos do Projeto Volta Grande de Mineração, de responsabilidade da empresa Belo Sun.
Em 01 de setembro de 2025, a Funai e a Rede Xingu+ destacam a necessidade de ampliar as análises de impacto para incluir povos indígenas anteriormente ignorados, como as comunidades desaldeadas e a aldeia São Francisco. A Funai também demonstrou preocupação com a acumulação de efeitos negativos sobre TI Trincheira Bacajá.
Em 13 de fevereiro de 2026, o TRF1 reverte a decisão judicial no âmbito do Agravo de Instrumento 202 e o desembargador relator entendeu que a mineradora cumpriu as obrigações judiciais e que as novas exigências do órgão indigenista careciam de procedimento administrativo formal e fundamentação técnica. Assim, a justiça autorizou o restabelecimento imediato da LI.
Em 17 de fevereiro de 2026, os povos Kuruaya e Xipaya do Jericoá solicitam a notificação do processo de demarcação, entrega de relatório antropológico e denúncia de violação da Convenção 169 da OIT sobre a ausência de consulta.
Em 20 de março de 2026, a Funai emite Termo de Referência Específico (TER) definindo os itens necessários à elaboração de uma Avaliação de Impactos Cumulativos (AIC) referente ao Projeto Volta Grande. A exigência do estudo decorre das lacunas identificadas no processo de licenciamento ambiental em curso e que não considerou adequadamente a sinergia e a cumulatividade dos impactos ambientais e socioculturais no território, notadamente entre a Usina Hidrelétrica de Belo Monte e o projeto minerário de Belo Sun.
Em 22 de março de 2026, a Funai emite ofício para Semas em atenção às manifestações do Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu (MMIMX), em Altamira (PA), reforçando que existem pendências técnicas relevantes no âmbito do Componente Indígena do licenciamento ambiental da mineradora Belo Sun e que não foram sanadas até o momento. Além disso, a Funai reforça que não há anuência para a emissão de nova licença ambiental ou de renovação da Licença de Instalação, cuja validade se encontra expirada.
Em 06 de abril de 2026, as comunidades de Kadj, Jericoá II e Sítio Kanipá emitem conjuntamente um ofício para a Funai exigindo a realização imediata de uma consulta prévia, livre e informada devido aos riscos impostos pelo projeto da mineradora Belo Sun na Volta Grande do Xingu.
Em 15 de abril de 2026, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Governo do Pará (Semas) emite a Licença de Instalação (LI) para a mineradora canadense Belo Sun. Porém, condicionou o início das obras à apresentação do PBA-CI, e barrou a instalação da Cava Ouro Verde e da Barragem de Rejeitos do Projeto Volta Grande.
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