Livro de memórias de Raoni terá lançamento em Brasília
Um desejo de longa data da liderança histórica do povo Kayapó, obra é uma realização do Instituto Raoni e da Companhia das Letras, com apoio do ISA e do ISPN
O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) recebe no dia 09 de setembro, às 19 horas, o evento de lançamento do livro Raoni-Memórias do Cacique. A obra concretiza um desejo de longa data do Cacique Raoni, e é uma realização do Instituto Raoni em parceria com a Companhia das Letras, com apoio do Instituto Socioambiental (ISA) e do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN). O evento será aberto ao público, haverá sessão de autógrafo com o cacique e um diálogo com Raoni, seu neto Beptuk Metuktire e Fernando Niemeyer.
Ropni, aportuguesado como Raoni, pertence ao povo Mẽbêngôkre, também conhecido como Kayapó Cacique, pajé e cuidador de seu povo, tornou-se uma liderança que conheceu o mundo dos brancos, fez alianças pessoais e políticas, dentro e fora do Brasil, e formou uma visão de mundo própria, onde não há diferença entre mito e história, revelando a complexidade do pensamento originário.
O livro foi construído a partir de entrevistas inéditas realizadas pelos tabdjwy de Raoni, seus netos, entre 2020 e 2023. Falando sempre em mẽbêngôkre, e rodeado de parentes, Raoni gravou durante dezenas de horas, em diversas sessões, as histórias e mitos que resultaram neste relato. O material foi traduzido para o português por meio de um trabalho meticuloso e extenso de uma equipe de tradutores Mêbêngôkre, sob a coordenação do antropólogo Fernando Niemeyer, que também supervisionou a redação e edição do manuscrito.
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Trajetória do cacique Raoni exalta a floresta viva, com seus espíritos, cosmovisão, modos de vida e esperança|Lilo Clareto/ISA
As memórias do cacique nos convidam a enxergar a história do Brasil pela perspectiva daqueles que sempre habitaram estas terras, que testemunharam a chegada dos invasores e que, desde então, elaboram estratégias de resistência. É a perspectiva daqueles que veem a floresta viva e repleta de espíritos como seu principal meio de existência e que lutam por ela como um ato de esperança para o futuro.
"Me comovo quando penso em Raoni, herói mítico do panteão dos guerreiros, líder da resistência nativa no continente americano com quem temos a oportunidade de conviver, alguém de cuja luta podemos ser testemunhas", compartilha Ailton Krenak.
Raoni nasceu em 1937, na região do Kapôt, norte do Mato Grosso, e tornou-se intermediário entre seu povo e os não indígenas em viagens dentro e fora do Brasil para reivindicar seus interesses coletivos e buscar alianças e recursos. Com atuação emblemática na arena política, teve importância decisiva na demarcação de vários territórios e na conquista de direitos indígenas a partir da década de 1970.
Serviço
Memórias do Cacique: Um diálogo com Raoni Mẽtyktire, Beptuk Metuktire e Fernando Niemeyer
Mediação: Danna Dantas Local: Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília (SCES, Trecho 2 - Asa Sul, Brasília/DF), aberto de terça a domingo, das 9h às 21h Data: 09 de setembro, às 19h Ingressos:bb.com.br/cultura ou na bilheteria do CCBB Brasília a partir do dia 8/9, às 12h (via link ou na bilheteria física)
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Edital Aldear a Educação Básica premia boas práticas no ensino de histórias, culturas e saberes indígenas
Com inscrições abertas até o dia 1 de outubro, a iniciativa visa reconhecer e divulgar ações pedagógicas que fortaleçam a efetivação da Lei 11.645/08; candidatos concorrem a R$ 2 mil
Para fazer valer a Lei nº 11.645/08, que tornou obrigatório o ensino das histórias e culturas indígenas e afro-brasileira nas escolas, o Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (Fneei), o Instituto Socioambiental (ISA), em parceria com o Instituto Alana, lançam hoje (01/09) o edital Aldear a Educação Básica: Fortalecendo a Lei 11.645/08, por mais histórias, culturas e saberes indígenas nas salas de aula no Brasil.
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O objetivo é reconhecer e divulgar experiências educativas no ensino de histórias, culturas e saberes indígenas nas salas de aula brasileiras, como forma de valorizar a sociodiversidade indígena, combater o racismo contra povos indígenas, reconhecer a importância dos conhecimentos dos povos indígenas para o enfrentamento da crise climática e evidenciar histórias indígenas milenares até as mais recentes que têm lugar no território atualmente reconhecido como Brasil. As ações pedagógicas selecionadas serão disponibilizadas gratuitamente no site Mirim.org, tornando-se referência em escolas de todo o Brasil.
“O edital é estratégico porque reconhece práticas já existentes, mas também funciona como um chamado à responsabilidade do Estado, da sociedade, das instituições de ensino e dos profissionais da educação para a efetivação real da Lei, que é fruto da luta histórica pelo reconhecimento dos saberes dos nossos povos. Ele atua como uma quebra do racismo da ausência, como afirma a deputada Célia Xakriabá, mostrando que o silêncio e a omissão também são racismo. É um convite à mudança de olhar — não genérico — sobre nossos corpos e povos, para não nos colocarem em caixinhas do folclore e para ensinar crianças, jovens e adultos que, antes da colonização, já estávamos aqui e somos construtores dessa invenção chamada Brasil”, afirma a professora-gestora da Escola Municipal Indígena Guarani Para Poty Nhe'ē Ja, em Maricá (RJ), e coordenadora-executiva do Fneei Martinha Mendonça, do povo Guajajara.
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Martinha Mendonça, do povo Guajajara, é professora-gestora da Escola Municipal Indígena Guarani Para Poty Nhe'ē Ja, em Maricá (RJ)|Arquivo pessoal
“Quando a gente considera um Brasil que é racista estruturalmente, pensar em práticas como essas que atravessam a escola é uma forma de resistência. Nesse sentido, o edital pode potencializar as resistências que a escola produz diante de um país que nos nega”, defende.
Cada candidato poderá apresentar quantas propostas quiser, mas apenas uma poderá ser premiada por pessoa. As selecionadas integrarão a um repositório de boas práticas que estará disponível no site mirim.org. Além disso, as 10 mais criativas e com maior potencial de impacto na comunidade escolar receberão um certificado de reconhecimento e R$2 mil reais em um vale-presente.
A iniciativa é destinada a professores indígenas e não indígenas da educação básica, incluindo Educação de Jovens e Adultos (EJA) e educação profissional técnica de nível médio.
As práticas devem abordar temas como saberes indígenas no enfrentamento da crise climática; tecnologias indígenas e educação alimentar; histórias indígenas; violações de direitos dos povos indígenas; artes e expressões indígenas contemporâneas; línguas, literaturas e oralidades indígenas; racismo ambiental; saúde e bem-viver; enfrentamento ao racismo; sociodiversidade indígena, interculturalidade e respeito às diferenças.
Para garantir a representatividade, 50% das atividades premiadas serão de autoria de professores(as) indígenas. Segundo Martinha Mendonça Guajajara, essa é uma política muito importante, mas recente nos editais e concursos. “Somos nós aqueles que sabemos falar melhor sobre os nossos povos. Então, nossas práticas podem contribuir com outras, em um diálogo intercultural que pode potencializar esse lugar”, explica.
As propostas serão avaliadas com base em critérios como impacto, adequação ao tema, criatividade e abordagem intercultural e interdisciplinar. Serão desclassificados trabalhos com conteúdo discriminatório ou em desacordo com os direitos humanos.
As inscrições estão abertas até o dia 1 de outubro de 2025 e os resultados serão divulgados em dezembro de 2025.
Para participar, os interessados devem acessar o regulamento do edital e enviar suas propostas de atividades via formulário.
Professores indígenas na linha de frente para plena efetivação da Lei nº 11.645/08
Sancionada em 2008, a Lei nº 11.645 foi proposta como forma de expandir a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-brasileira, disposta na Lei nº 10.639/2003, ao ensino de História e Cultura Indígena e Afro-Brasileira. Ambas as normativas alteram o artigo 26-A da Lei nº 9394/1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). A mudança veio como resposta às demandas do movimento indígena e para valorizar e reconhecer as contribuições histórico-culturais, econômicas, sociais e ambientais dos povos indígenas.
A atuação de professores indígenas tem sido essencial para ampliar a efetivação da Lei que dentre as normativas que deveriam ter sido instituídas para orientar sua implementação, até o momento teve apenas o parecer nº 9 publicado pela Câmara de Educação Básica (CEB) do Conselho Nacional de Educação (CNE) em 2015.
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Integrantes da Fneei pedem reconhecimento das histórias, saeres e territórios indígenas nos currículos escolares|Oziel Ticuna/Fneei
É o caso da professora Marize Vieira de Oliveira, do povo Guarani, que atua em uma escola regular no Rio de Janeiro (RJ). Uma das professoras alcançadas pelo levantamento feito pelo ISA em parceria com o Fneei e o Instituto Alana, ela conta que começou a dar oficinas para aplicação da Lei ao perceber como a Educação Escolar é eurocêntrica e invisibiliza pessoas indígenas. “A grande maioria diz não saber onde procurar e como fazer. Saem das universidades sem nunca ter tido aulas sobre história e cultura indígena. Nos livros didáticos, nos congelam no século XVI e quando aparecemos, é só nas aldeias e de cocar”, relatou.
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Rose Sateré-Mawé, uma das idealizadoras da iniciativa, é doutoranda em Linguística pela Universidade de Brasília (UnB)|Arquivo Pessoal
A professora Rose Sateré-Mawé, secretária-executiva do Fneei, também lidou com um contexto parecido. Sua motivação para fazer formações com professores não indígenas, no entanto, veio de uma situação de racismo vivenciada por seu sobrinho numa escola pública em Brasília. “Ao acompanhar o caso, dialoguei com a diretora e os professores e percebi que havia uma grande dificuldade da equipe em lidar com a diversidade. Como resposta ao episódio, a escola chegou a sugerir a transferência do meu sobrinho para outra unidade que atendesse alunos indígenas”, conta.
Diante desta situação, Rose Sateré-Mawé propôs uma formação sobre a Lei ao corpo docente abordando aspectos como demografia indígena atual, línguas, modos de vida, lutas históricas, ciências e saberes indígenas, e suas contribuições para a sociedade brasileira em diversas áreas. Como resultado, ela relata que a escola passou a adotar uma nova postura nas práticas pedagógicas e no ambiente escolar, o que refletiu em um ambiente mais acolhedor tanto para seu sobrinho, quanto para outros estudantes indígenas e negros.
É para que iniciativas como estas se multipliquem que o edital Aldear a Educação Básica foi idealizado, explica Martinha Mendonça Guajajara. “O edital é uma retomada política. Ele é fundamental para enfrentar o racismo da ausência, rompendo com a tentativa de invisibilizar nossos povos, nossas culturas e nossos conhecimentos, e para fortalecer práticas que reconhecem essa presença viva na escola e entre professores, sejam indígenas ou não. Sendo o currículo não apenas o que está prescrito em documentos, mas aquilo que se faz no cotidiano da escola. É esse cotidiano que queremos revelar e transformar através da Lei 11.645/08 e deste edital", afirma.
O edital vem na sequência de uma série de ações realizadas por Fneei, ISA e Instituto Alana para a promoção da Lei nº 11.645/08, como o levantamento lançado em abril sobre o papel dos professores indígenas na aplicação da normativa, e da nota técnica “Lei 11.645/08: Ensino de História e Cultura Indígena”, lançada em dezembro de 2024, durante o Encontro Nacional de Educação Escolar Indígena, em Brasília.
Sobre o Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (Fneei)
O Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (Fneei) é um espaço de diálogo e articulação entre lideranças indígenas, educadores e o Estado, em defesa de uma educação escolar indígena específica, diferenciada e intercultural. Criado em 2015, o Fórum atua na promoção de políticas públicas que valorizem os saberes tradicionais, as línguas e os territórios indígenas, conforme previsto na Constituição e no Plano Nacional de Educação, reafirmando seu papel de resistência frente aos retrocessos nos direitos dos povos indígenas.
Sobre o Instituto Socioambiental
Com o lema “socioambiental se escreve junto”, em 1994 foi fundado o Instituto Socioambiental (ISA). Desde então, atuamos lado a lado com parceiros históricos de comunidades indígenas, quilombolas e extrativistas para desenvolver soluções que protejam seus territórios, fortaleçam suas culturas e saberes tradicionais, elevem seu perfil político, e desenvolvam economias sustentáveis. Com Programas e escritórios dentro dos territórios, o ISA fincou suas raízes em três bacias hidrográficas: Rio Negro (AM/RR), Xingu (MT/PA) e Ribeira de Iguape (SP). E, em parceria com associações locais, organizações não governamentais, e redes regionais e nacionais, articula projetos através dos Programas de Política e Direito Socioambiental e Povos Indígenas no Brasil, bem como dos Temas de Restauração Ecológica, Economias da Sociobiodiversidade e Clima - uma relação de duas vias que nomeamos “raiz-antena”. Nossa missão é defender a pluralidade socioambiental brasileira, seja no chão da floresta ou nos corredores de Brasília.
Sobre o Alana
O Alana é um ecossistema de organizações de impacto socioambiental que promove e inspira um mundo melhor para as crianças. Um mundo sustentável, justo, inclusivo, igualitário e plural. Um mundo que celebra e protege a democracia, a justiça social, os direitos humanos e das crianças com prioridade absoluta. Um mundo que cuida dos seus povos, de suas florestas, dos seus mares, do seu ar. O Alana é um ecossistema de organizações interligadas, interdependentes, de atuação convergente, orientadas pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. O encontro de um Instituto, uma Fundação e um Núcleo de Negócios de Entretenimento de Impacto. Um combinado único de educação, ciência, entretenimento e advocacy que mistura sonho e realidade, pesquisa e cultura pop, justiça e desenvolvimento, articulação e diálogo, incidência política e histórias bem contadas.
Sobre a Anmiga
A Anmiga é uma organização de mulheres originárias dos seis biomas do País – Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pampa e Pantanal. Por meio de uma construção coletiva, elas buscam fortalecer a luta pelo bem viver e por seus territórios, a partir do protagonismo das mulheres e da valorização de seus saberes tradicionais.
Realização: Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (Fneei) e Instituto Socioambiental (ISA) Parceria técnica: Instituto Alana Apoio: Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga) Contato para imprensa: Mariana Soares - marianasoares@socioambiental.org / (51) 98155-0144 Dúvidas de segunda-feira a sexta-feira, entre 10h e 17h:aldear@socioambiental.org e WhatsApp (61) 8155-0144
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Troca de experiências e saberes marca intercâmbio entre mulheres yanomami e guarani em encontro na TI Tenondé Porã (SP)
Relato de intercâmbio entre Ehuana Yanomami e 16 mulheres-liderança do povo Guarani revela laços entre as lutas de mulheres indígenas na defesa de seus territórios
Jera Poty Mirim, liderança da tekoa Kalipety, recebe Ehuana Yanomami na TI Tenondé Porã, na capital paulista|Ana Maria Machado
“Elas são como nós, Yanomami”. Essa foi uma das conclusões a que chegou a liderança Ehuana Yaira Yanomami, após percorrer os cerca de 3500 km que separam a aldeia Demini, na Terra Indígena (TI) Yanomami, em Roraima, da aldeia Kalipety, na TI Tenondé Porã, na capital paulista.
Recebida por um grupo de dezesseis mulheres do povo Guarani, que participam do conselho de lideranças de seu território, Ehuana deixou a aldeia com a certeza de que as mulheres guarani são verdadeiras defensoras da floresta e que seus saberes, sua língua e sua cultura estão vivas – mesmo morando tão perto da cidade, onde predomina o modo de vida dos não indígenas, chamados de napë pë em yanomami, juruá em guarani. "Apesar de estar na cidade de São Paulo, cheguei no lugar onde eles fizeram uma floresta", celebrou Ehuana.
Ela, além de liderança, é pesquisadora e artista plástica. Sua ida a São Paulo aconteceu em razão de uma série de palestras que daria em um colégio na cidade, mas a visita à TI Tenondé Porã nasceu do desejo de Ehuana conhecer e dialogar com outras mulheres indígenas em posição de liderança como ela. A demanda foi recebida por Jera Poty Mirim, liderança da tekoa Kalipety, que se prontificou a recebê-la em seu território.
No artigo que publicou com outras mulheres de seu povo no livro, Jera fala da importância das mulheres ocuparem posições de liderança em suas comunidades e territórios: “Quando era criança, tinha constantemente reuniões gerais, nhemboaty guaxu como diziam, e sempre, sempre, eram só homens falando. Acredito muito que a participação das mulheres no trabalho político interno, só vai fortalecer. Não exterminar os homens ou mandar todo mundo pra cadeia, ou coisa do tipo. Vai fortalecer o nhandereko de novo, o nosso modo de ser guarani”.
Hoje, Jera é uma das vozes do conselho de lideranças da TI Tenondé Porã e ajuda a fortalecer outras mulheres guarani para que ocupem posições de liderança em diversos âmbitos da vida no território, como donas de roças, mestras de cantos-rezas, educadoras, artesãs, comunicadoras, motoristas, entre outras.
Para esse intercâmbio cultural e político, ela reuniu outras 16 mulheres-lideranças, representando aldeias como Tape Porã, Yporã, Tape Mirim, Kalipety e Krukutu. A atividade foi articulada pela organização indígena Comitê Interaldeias em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) e contou com o apoio da Hutukara Associação Yanomami (HAY).
“Essa foi a primeira vez que eu conheci os Guarani, foi a primeira vez que eu fui em outra Terra Indígena. Até então eu só tinha conhecido a cidade dos napë. Então eu cheguei até a Terra onde mora Jera Guarani, a liderança que nos recebeu, e quando cheguei até ali, eu ouvi sobre o sofrimento do povo Guarani. Os näpe há 500 anos destroem seu território, seu povo, mas eles fazem a retomada”, constatou Ehuana.
Geovana dos Santos Lima, jovem indígena, estudante de ciências sociais e pesquisadora do Instituto Socioambiental (ISA), é quem narra os trechos a seguir. Ela acompanhou o encontro junto a Tatiane Klein, antropóloga e jornalista no ISA, e Ana Maria Machado, antropóloga indigenista e tradutora do encontro.
Uma ponte entre mundos
por Geovana Lima
A estrada de barro balançava o carro e, com ele, os corpos e as expectativas. Pelas janelas, víamos a mata se adensar, como quem se aproxima de algo vivo, palpitante. A chegada à aldeia Kalipety foi anunciada por placas, cheiros, sons e acolhimentos.
“Apesar de eu estar bem longe da minha terra, cheguei até a terra deles”, observou Ehuana Yanomami.
Ela examinou as roças de batata-doce, mandioca, urucum e a forma como o povo Guarani trabalha, como preparam seus alimentos e como fizeram renascer a mata. "Os napë pë destruíram muito a floresta deles, mas eles replantaram. Hoje, apesar de cercados pela cidade, eles resistem e permanecem em sua terra", contou.
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Ehuana pôde ver como a roça guarani na TI Tenondé Porã é farta e possui variedade de alimentos. Na foto, batatas coloridas do território|Ana Maria Machado
Um café da manhã nos esperava, repleto de xipa (uma espécie de pão frito), batata-doce cozida, mbeju e rora (um tipo de cuscuz) — e da presença animada do cachorrinho Pipoca, que circulava entre as pessoas como um anfitrião atento. O xipa, em especial, nos conquistou.
Logo após o café, fomos caminhar pelo território, onde vimos diversos plantios e roças cuidadas com zelo. “Eu fui até a roça, onde eles plantam batatas doces, macaxeiras, pés de urucum, eu vi essa árvore. E vi também a forma como eles fazem para manter a terra sempre úmida“, detalhou Ehuana, se referindo à cobertura de folhas feita pelos Guarani em seus roçados, para manter a umidade da terra.
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Jera Poty Mirim também cuida da sua roça, que representa parte da cultura Guarani de resistência|Ana Maria Machado
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Entre batatas doces e macaxeiras, a terra também abriga pés de urucum|Ana Maria Machado
A cada passo, sentíamos que o chão era também uma memória. Colhemos mandioca, para o preparo do almoço. Os homens trouxeram galinhas caipiras — o prato do dia seria galinhada. Mas antes de comer, fomos à casa de reza.
A entrada nesse espaço revelou algo fundamental: naquele momento, eram apenas mulheres ali. Cantando, rezando, servindo-se, trocando saberes, compartilhando alimentos, comentando suas trajetórias. Uma cena de força e de escuta, onde a espiritualidade e a política se entrelaçavam com naturalidade.
Em círculo, nos apresentamos. Cada mulher compartilhou sua realidade, desafios e formas de luta. Ehuana contou da emoção ao receber o convite para conhecer o território guarani; disse que seu peito se encheu de alegria. Aline Jaxuka, uma das lideranças guarani, lembrou que a liderança das mulheres começa dentro de suas próprias comunidades. Jera, referência entre as Guarani Mbya, comentou que os grandes encontros de mulheres por vezes se tornavam distantes das realidades locais. Ressaltou que ali estavam reunidas mulheres com trajetórias próprias — algumas fundaram suas tekoa, outras dividem responsabilidades com homens nas equipes de liderança. “Não podemos esquecer do nosso quintal”, disse, lembrando que muitas lideranças se afastam de suas comunidades e perdem a conexão com aquilo que as sustenta.
A conversa fluía em várias línguas, mas sempre com sentido. Ana Maria fazia a tradução simultânea entre Yanomami e português, costurando os fios do diálogo com cuidado e paciência. Ao fundo, xejaryi Rosa e suas filhas pitavam, compondo o cenário com quietude e presença.
O almoço nos reuniu novamente ao redor de um banquete coletivo: galinhada, variedades de batata-doce (assadas, cozidas, brancas, laranjas, roxas), feijão com canjica – um prato que os Guarani chamam de jopara. Depois, uma abundância de frutas: melancia, banana, manga, mamão, laranja, mexerica. Comer juntas era também partilhar mundos.
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As Guarani mostraram a Ehuana como preparam alguns de seus alimentos tradicionais, como avaxi hu'i (milho torrado e pilado)|Ana Maria Machado
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As variedades de milho cultivadas pelos Guarani interagem com as demais esferas da vida, como os rituais|Ana Maria Machado
Depois do almoço farto e das intensas trocas da manhã, o corpo pediu descanso. Dormi por algumas horas.
Enquanto dormia, soube que as Guarani mostraram a Ehuana como preparam alguns de seus alimentos tradicionais, como batata doce, mbeju eavaxi hu'i(milho torrado e pilado), além de trocarem experiências sobre suas culturas e saberes.
Nesse momento, em torno do pilão e da fogueira, Ehuana e a parteira e liderança Yara dos Santos, partilharam experiências sobre um dos temas que as unem: os partos. Yara parteira contou de seu trabalho na valorização dos partos na aldeia e se encantou com os relatos e ilustrações de Ehuana sobre a forma como as mulheres yanomami dão à luz sozinhas na floresta, atualmente Ehuana é pesquisadora do projeto Redes de Cuidado (UFMG), voltada para a melhoria do pré-natal entre as Yanomami
Acordei por volta das 16h sob a companhia do gatinho branco e, após um lanche rápido, seguimos para a mata, onde gravamos o depoimento de Ehuana para as mulheres yanomami. Ela falou com firmeza e ternura sobre o que estava vivendo ali. Suas palavras, traduzidas com cuidado por Ana Maria, revelaram a admiração pela resistência das lideranças guarani e a conexão entre suas lutas e as do povo Yanomami.
À medida que o sol se despedia, retornamos à casa de reza. Foi ali que passamos a madrugada inteira em cantos e danças junto aos Guarani. O ambiente era marcado por uma espiritualidade densa e acolhedora.
A madrugada transcorreu num tempo próprio: dormíamos e acordávamos, guiadas não pelo relógio, mas pelo ritmo dos cantos guarani e das pausas. Em uma dessas vezes, despertei com a voz de Ehuana preenchendo o espaço com um canto profundo, que me atravessou de um jeito difícil de descrever. Ao seu lado, Ana Maria seguia a melodia yanomami em harmonia, como quem sustenta com cuidado uma ponte entre mundos. Aquela cena me tocou profundamente — havia algo ali de cura, de força compartilhada, de presença plena. Era como se, por um momento, eu escutasse não apenas com os ouvidos, mas com todo o corpo.
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Sessão de cantos-rezas na Opy, casa de rezas guarani, embalam a madrugada durante intercâmbio entre mulheres guarani e yanomami|Geovana Lima/ISA
“Eu vim conhecer a forma como seus mais velhos bebem o sumo da planta medicinal, pois eu queria conhecer como fazem“, disse Ehuana. E assim, durante o ritual, foi feita a utilização da medicina tradicional dos Guarani, conduzida por eles em seus próprios termos e saberes. Eu, que não participei desse momento de forma direta, observei com respeito e atenção a força do gesto, compreendendo sua importância naquele contexto sagrado.
Entre um repouso e outro, víamos as brasas acesas.
Por volta das seis ou sete horas da manhã, despertei de vez — os Guarani ainda cantavam, embalando a chegada do sol. O céu clareava, e juntas começamos a arrumar a casa de reza, recolhendo os rastros da noite intensa e bonita que havíamos vivido.
“Ali eu pude ver a forma como seus xamãs cuidam da Terra. Ficamos acordadas até sete horas da manhã. Eu não dormi naquela noite, mas fiquei muito emocionada. Da mesma forma como nós, Yanomami, fazemos xamanismo, eles também fazem pela cura da Terra. Isso me deixou muito feliz. E fiquei muito feliz também por ver jovens e moças ali tomando a medicina deles, anciãs que cantavam toda a noite sem dormir”, relatou posteriormente a Ehuana, em evento registrado no podcast”Floresta no Centro”. Escute aqui!
Em seguida, tomamos café da manhã e seguimos para a casa de artesanato. Lá, fomos todas presenteadas com peças diversas — colares, pulseiras, brincos — inclusive por Jera, que nos ofereceu seus próprios trabalhos com generosidade e firmeza.
Encerramos o intercâmbio com abraços, risos, fotos e trocas de palavras, enquanto a mata ao redor parecia também se despedir, com seus sons e cheiros.
O carro balançava novamente, como no início da viagem, e a mata ia se esvaindo pelos meus olhos na volta para casa — como quem guarda por dentro aquilo que não quer deixar para trás.
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Encontro Nacional de Comunicação Indígena reúne 100 comunicadores em Belém em preparação para a COP30
Entre 28 e 31/08, evento organizado pela Mídia Indígena e Ministério dos Povos Indígenas fortalece comunicação indígena às vésperas da cúpula do clima
O I Encontro Nacional de Comunicação Indígena (ENCI) será realizado em Belém de 28 a 31 de agosto, reunindo 100 comunicadores de povos indígenas de todos os biomas do Brasil na Casa Maraká (Avenida Nazaré, 630). Mais do que um evento de formação, o encontro é uma preparação estratégica para a COP30, propondo um plano de comunicação indígena que seguirá atuante durante a conferência e também depois dela.
O evento é realizado pela Mídia Indígena e pelo Ministério dos Povos Indígenas, com participação exclusiva de pessoas previamente inscritas em um mapeamento de comunicadores feito pelas redes sociais.
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Comunicador Arewana Juruna durante o II Encontro do Redário, em 2023|Webert da Cruz Elias/Redário/ISA
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Kujaesage Kaiabi, comunicadora da Rede Xingu+ na cobertura do IV Encontro das Redes do Redário|Yamony Yawalapiti/ISA
Seu objetivo é consolidar uma rede de comunicadores indígenas capaz de dar visibilidade, de forma autônoma, às lutas e conquistas dos povos originários, mantendo sempre o diálogo com a sociedade.
“Esse encontro representa a força coletiva dos povos indígenas na construção de suas próprias narrativas. É um espaço para fortalecer nossa voz, pensar estratégias conjuntas e afirmar que comunicação também é território de luta e de resistência”, afirma Fly Tentehar, integrante da Mídia Indígena e um dos organizadores do ENCI.
Nomes de destaque na programação
A programação reúne nomes de referência no campo da comunicação e da cultura indígena, como Sônia Guajajara (Ministra dos Povos Indígenas), Sineia Wapichana (Enviada Especial da COP 30), Célia Xakriabá (Deputada Federal), Kleber Karipuna (Coordenador Executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e comunicadores do Coletivo Mídia Indígena, que compartilham experiências de incidência em grandes eventos nacionais e internacionais.
Também participam jornalistas, cineastas e pesquisadores que têm se dedicado a dar visibilidade às lutas dos povos originários, compondo um mosaico diverso de olhares e experiências que fazem deste encontro um marco histórico.
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Khátkhrytxi Khisêtjê registra a festa comemorativa dos 20 anos da demarcação da TI Wawi, no Xingu, Mato Grosso|Christian Braga/ISA
A Casa Maraká
O evento será sediado na Casa Maraká, localizada na Avenida Nazaré, 630, em Belém, novo espaço de mobilização que nasce como referência para a comunicação indígena e terá programação permanente até a COP30. A Casa tem como madrinha a cantora Anitta, que apoia a iniciativa por reconhecer na comunicação indígena um instrumento poderoso de transformação social e ambiental.
Mais do que um espaço físico, a Casa Maraká vem para simbolizar a continuidade do trabalho de articulação iniciado pelo Coletivo Mídia Indígena e parceiros, abrigando encontros, oficinas e produções voltadas para o fortalecimento das narrativas indígenas.
Eixos de discussão
A programação do encontro está organizada em cinco eixos centrais:
- memória e identidade da comunicação indígena
- formação política e técnica de comunicadores
- articulação de uma rede nacional
- estratégias de comunicação para a COP30
- criação de campanhas de impacto e diálogo com a sociedade
Painéis e talk shows trarão lideranças, jornalistas e especialistas para debater temas como origem da comunicação indígena, participação dos povos originários em espaços de poder, regulamentação das redes sociais, uso de inteligência artificial e estratégias de incidência climática. Oficinas práticas de produção audiovisual, entrevistas e preservação de acervos fortalecem a capacitação dos participantes.
Plano de Cobertura para a COP30
Um dos pontos altos do encontro será a construção coletiva do plano de cobertura colaborativa da COP30, que definirá estratégias de produção, logística, conteúdos e linguagens para garantir que as vozes indígenas sejam protagonistas no debate climático global.
“Estamos construindo um plano que vai muito além de registrar a COP30. Queremos que ele seja uma ferramenta de incidência, capaz de ecoar nossas vozes dentro e fora das salas de negociação. É garantir que, quando o mundo olhar para Belém, veja também os rostos, as histórias e os saberes dos povos indígenas como protagonistas na luta climática”, afirma Tipuici Monoki, da Terra Indígena Irantxe, no Mato Grosso.
Celebração e cultura
O encontro também celebra os 10 anos da Mídia Indígena, referência nacional na articulação de comunicadores indígenas. O próximo passo para organização é a consolidação da Rede Nacional de Comunicação Indígena, como explica Japupromti Parkatêjê: “É um passo fundamental para nossa história. Representa a continuidade de uma luta iniciada há décadas, mas que ganha novas dimensões ao unir jovens comunicadores e lideranças de diferentes povos em torno de um mesmo propósito”, finaliza.
Confira a programação completa
28 de agosto
09h00 – 09h30 – Ritual de Abertura, Acordos Coletivos e Orientações Gerais
09h30 – 10h30 – Abertura
Participação: Erisvan Guajajara, Priscila Tapajowara, Giovana Mandulão, Puyr Tembé, Oe Kayapó
10h30 – 12h00 – Talkshow: A Origem da Comunicação Indígena
Mediação: Tukumã Pataxó
Participação: Ykaruni Nawa, Daiara Tukano
14h00 – 15h30 – Análise de Conjuntura: Comunicação Popular e a Sociedade Brasileira
Mediação: Ariene Wapichana
Participação: Pablo Capilé, Charles Trocate, Ingred Sateré Mawé, André Wilkson, Kleber Karipuna
16h00 – 18h00 – Oficinas simultâneas
- Produção de Conteúdo para Redes – Cristian Wariu
- Memória e Arquivo Audiovisual – Inês Aisengart
- Técnicas de Entrevista – Helena Balatiponé
29 de agosto
09h00 – 10h30 – Como Comunicar os Três Poderes?
Mediação: Samela Sateré Mawé
Participação: Samara Pataxó, Juliana Kanindé, Osvaldo Braga, Danicley Aguiar, Bruno Taitson
10h40 – 12h00 – Discussão em grupos
14h00 – 15h00 – Talkshow: Estrutura da Comunicação Brasileira e a Regulamentação das Redes Sociais
Participação: Helena Martins
Noite – Exibição do filme Mundurukuyü – A floresta das mulheres peixe
Bate-papo com a diretora Beka Munduruku
30 de agosto
09h00 – 10h30 – Talkshow: O que é a COP? Desmistificando a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas
Mediação: Natalia Mapua
Participação: Gasparini Kaingang, Eric Terena, Mayra Lima
14h00 – 15h00 – Comunicação e a COP 30
Mediação: Zé na Rede
Participação: Cleinton Nobre, Jean Ferreira, Lucia Ixchui, Olo Villalaz
15h00 – 17h00 – Planejamento de Cobertura da COP 30
17h00 – 18h00 – Apresentação do Plano de Comunicação para Cobertura e Ações na COP 30
19h00 – Exibição do filme Yanuni
31 de agosto
09h00 – 10h00 – Estratégias para Conversar com a Sociedade
Mediação: Erisvan Guajajara
Participação: Célia Xakriabá, Hony Sobrinho
10h00 – 12h00 – Campanhas e Impactos – Luciana Weyne e Bia Calza
14h00 – 16h00 – Laboratório Livre de Criação de Campanhas e Definições de Narrativas
16h00 – 17h00 – Encaminhamentos Finais do Encontro Nacional de Comunicação Indígena
20h00 – Coquetel “10 anos da Mídia Indígena – Rumo à COP 30”
Serviço Encontro Nacional de Comunicação Indígena (ENCI) Data: 28 a 31 de agosto de 2025 Local: Casa Maraká – Avenida Nazaré, 630 Mais informações e atualizações:https://www.instagram.com/midiaindigenaoficial/
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
'Nosso Modo de Lutar', dirigido por mulheres indígenas, terá exibição em Belém e aquece debates para COP30
Minidocumentário faz parte da Mostra Ecofalante Pará, que acontece entre os dias 20 de agosto e 3 de setembro; confira a programação gratuita
“Nosso Modo de Lutar” chega a Belém no dia 22/08, às 20h, como parte da Mostra Ecofalante Pará. O curta-metragem traz o olhar de Francy Baniwa, Kerexu Martim e Vanuzia Pataxó sobre a diversidade na luta e resistência entre os povos indígenas, a partir de filmagens de um dos principais espaços de mobilização indígena do país na atualidade, o Acampamento Terra Livre (ATL). A exibição será no Cine Líbero Luxardo, com entrada gratuita.
Realizada em Belém pela segunda vez consecutiva, a Mostra Ecofalante Pará é reconhecida como o mais importante festival sul-americano para o audiovisual socioambiental. A edição deste ano exibirá 45 filmes, entre 20 de agosto e 3 de setembro, com destaque para a participação feminina.
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Cartaz de divulgação do "Nosso Modo de Lutar" na Mostra Ecofalante Pará
O curta-metragem “Nosso Modo de Lutar” é fruto de uma parceria entre o Instituto Socioambiental (ISA) e a Rede Audiovisual das Mulheres Indígenas, a Katahirine. Sua gravação aconteceu em abril de 2024, durante a 20ª edição do Acampamento, com um enfoque especial à atuação das mulheres na mobilização. Dos 50 entrevistados, elas são a maioria e explicam os saberes dos cantos, das comidas, das pinturas, passados de geração a geração.
Para conferir a programação completa da Mostra Ecofalante Pará acesse https://ecofalante.org.br/programacao. Todas as sessões e debates têm entrada franca e ocorrerão no Cine Líbero Luxardo e no Sesc Ver-o-Peso.
Serviço
Exibição do documentário “Nosso Modo de Lutar” na Mostra Ecofalante Pará
Dia 22, às 20h
Cine Líbero Luxardo
Entrada gratuita.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Mais de cinco mil mulheres indígenas entregam carta ao governo em marcha histórica em Brasília
Documento construído coletivamente reforça a luta pela demarcação de suas terras, pela justiça climática e pelo fim das violências contra mulheres indígenas
Na última semana, a IV Marcha das Mulheres Indígenas levou os cantos, danças e reivindicações de cerca de 5 mil mulheres indígenas, de mais de 100 povos, às ruas de Brasília. Organizada pela Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga), a Marcha é realizada a cada dois anos, e reúne mulheres indígenas de todos os biomas do país para debater pautas como a demarcação de seus territórios, violência contra a mulher indígena, saúde, educação e bem-viver.
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Uma das pautas prioritárias na Marcha foi o veto total do presidente Lula ao Projeto de Lei nº2159/21, conhecido como ‘PL da Devastação’|Mariana Soares/ISA
A caminhada em direção à Praça dos Três Poderes terminou com um uma sessão solene em homenagem à IV Marcha das Mulheres Indígenas, no plenário da Câmara dos Deputados, onde ocorreu a entrega ao Congresso Nacional da Carta dos Corpos-Territórios em Defesa da Vida.
"Para nós, mulheres, é sempre um grande desafio oportunizar esse grande encontro, mas principalmente, esse grande debate que nós, mulheres indígenas, fazemos acerca dos temas que são prioritários para nós e que queremos trazer a Brasília para a gente poder ecoar as nossas vozes, ecoar os nossos desejos, mas ecoar também a defesa dos nossos direitos" , afirmou Joziléia Kaingang, diretora-executiva da Anmiga, na plenária.
Na ocasião, a presidenta da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Joenia Wapichana, destacou a importância do momento: “Estar hoje no Congresso Nacional é reafirmar direitos e também as nossas capacidades”. Ela lembrou ainda as mudanças no cenário político nos últimos três anos, fruto da luta indígena.
Veta, Lula!
Na plenária e nas ruas, o grito “veta, Lula” fortalecia o protesto das mulheres pelo veto à ao Projeto de Lei nº 2159/21, conhecido como PL da Devastação, que coloca em risco a proteção ambiental de seus territórios.
“Esse PL vai causar um grande dano à nossa vida, à nossa saúde, mudando os nossos modos de viver. Porque nós, pajés, vivemos de oração, de cura, das ervas medicinais que ali se encontram e para nós isso é indispensável. Nós protegemos as nossas matas, nós não derrubamos mata em pé.”, lamentou a Pajé Analice Tuxá, do povo Tuxá, em repúdio ao PL.
Ainda na sexta-feira (08/08), o presidente Lula assinou o veto parcial, excluindo 63 dos 400 dispositivos da lei. Agora, o projeto volta ao Congresso, que pode aprovar ainda a derrubada dos vetos.
Uma das principais pautas anunciadas na mobilização foi a ampliação no número de mulheres indígenas eleitas no pleito do próximo ano. Atualmente, o Congresso Nacional conta com apenas duas representantes da Bancada do Cocar: Célia Xakriabá e Juliana Cardoso.
"Nós iremos eleger dez deputadas federais para enfrentar a bancada que mais tem atacado o direito dos povos indígenas. Vamos aldear a política e replantar nossas vozes", bradou Célia Xakriabá, durante sessão solene no plenário.
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Lideranças indígenas durante sessão solene em homenagem à IV Marcha das Mulheres Indígenas na Câmara dos Deputados|André Corrêa / MPI
Carta final
A leitura da carta final da IV Marcha das Mulheres Indígenas, “Carta dos Corpos-Territórios em Defesa da Vida”, aconteceu na noite da quinta-feira, e contou com uma apresentação da rapper MC Anarandá, do povo Guarani Kaiowá e um desfile ancestral. “Somos guardiãs do planeta pela cura da terra. Nosso corpo é território. É terra, é água, é semente. E pela força do que somos, vamos transformar o mundo. Estamos em Marcha e caminharemos sempre pelo bem-viver”, afirma o documento.
Conferência histórica e a construção coletiva de políticas públicas
A IV Marcha também foi palco da 1ª Conferência Nacional das Mulheres Indígenas. Realizada entre os dias 4 e 6 de agosto, a Conferência é fruto de uma parceria da Anmiga com os Ministérios dos Povos Indígenas e das Mulheres e integrou a programação da semana.
“Essa conferência nos deu a oportunidade de colocar na mesa do governo federal as propostas prioritárias nos eixos de saúde, educação, emergência climática, defesa dos nossos corpos e gestão ambiental e territorial”, avaliou Joziléia Kaingang.
Ao longo do evento, grupos de trabalho se debruçaram em discussões acerca de cinco eixos temáticos: Direito e Gestão Territorial; Emergência Climática; Políticas Públicas e Violência de Gênero; Saúde; e Educação e a Transmissão de Saberes Ancestrais para o Bem Viver.
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A ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, fala sobre as sete etapas regionais da Conferência das Mulheres Indígenas|Mariana Soares/ISA
Ao fim das discussões, foram priorizadas 49 propostas que integraram o Caderno de Resoluções da Conferência, entregue às ministras Sonia Guajajara e Márcia Lopes em cerimônia de encerramento. O Caderno intitulado “Carta Pela Vida e Pelos Corpos-Territórios: “Nosso corpo é território! Somos as guardiãs do planeta pela cura da terra!”, foi resultado de um processo iniciado nas sete etapas regionais e concluído na Conferência.
Na cerimônia de encerramento, foi anunciada a assinatura de uma portaria que instaura um Grupo de Trabalho responsável por consolidar as propostas trazidas no Caderno de Resoluções a fim de estabelecer a normativa da Política Nacional para Mulheres Indígenas (PNMI), também anunciada durante o evento. O GT recém instaurado terá caráter interministerial e colaborativo, reunindo diferentes atores como órgãos do governo, lideranças indígenas e representantes da sociedade civil.
A criação do Prêmio Nega Pataxó também foi oficializada na ocasião. Uma homenagem à pajé Maria de Fátima Muniz Andrade, conhecida como Nega Pataxó, do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, o programa tem como objetivo o fortalecimento da autonomia, da participação política e da proteção integral das mulheres indígena.
Além disso, também foi anunciada a criação do Prêmio Mre Gavião, para comunicadores indígenas, em homenagem a Mre Gavião, fotógrafo e servidor do MPI que faleceu neste ano. Por fim, foi anunciada a reestruturação da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) pela presidenta Joenia Wapichana, que se comprometeu a lutar por um orçamento digno para apoiar as necessidades específicas das mulheres indígenas.
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Cerimônia de homologação das TIs no Ceará assinadas pelo presidente Lula contou com a presença de lideranças indígenas|Ricardo Stuckert/PR
Juliana Alves, conhecida como Cacika Irê, do povo Jenipapo Kanindé e atual Secretária dos Povos Indígenas do Ceará, celebrou a decisão durante a Marcha. “Ontem (06/08) foi um dia significativo, foi um dia muito festivo, nós estamos muito felizes em poder estar festejando um momento desse tão significativo na vida dos povos do estado do Ceará, dentro da nossa IV Marcha”.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Ouça! Encontro entre Geni Núñez e Ehuana Yanomami abre podcast 'Floresta no Centro', do ISA
Episódio gravado celebra trajetórias e apresenta histórias de resistência no campo das artes, do ativismo, da espiritualidade e da escrita
Ehuana Yanomami, liderança da Terra Indígena Yanomami, conversou com a psicóloga e escritora guarani Geni Núñez em São Paulo|Claudio Tavares/ISA
O Instituto Socioambiental (ISA) lança o podcast “Floresta no Centro”, para estimular escutas e trocas sobre territórios, culturas e resistências. Os episódios são gravados em eventos realizados na Floresta no Centro, espaço do ISA na Galeria Metrópole, na capital paulista, que apresenta saberes de comunidades do Xingu, Rio Negro e Vale do Ribeira por meio de itens tradicionais, exposições, encontros e publicações da organização e de parceiros para visitantes.
Na estreia, as trajetórias de Ehuana Yanomami, professora, pesquisadora, artista plástica e liderança do povo Yanomami, e Gení Núñez, psicóloga, escritora, pesquisadora e ativista guarani, se fundem em uma conversa exclusiva, densa e sensível, mediada por Ana Maria Machado, tradutora de línguas e de mundos, antropóloga e indigenista com mais de uma década de atuação junto ao povo Yanomami.
Durante o episódio, Ehuana compartilha durante sua fala seus sentimentos ao visitar a Aldeia Guarani Kalipety, na Terra Indígena Tenondé Porã, em São Paulo. Segundo ela, foi a primeira vez que ela esteve em um território Guarani.
“Eu vi como eles fortalecem suas roças, valorizam os próprios alimentos [...] e fiquei muito feliz com tudo aquilo. Eles são também Yanomami, são indígenas. Temos os mesmos olhos e a mesma pele”, disse. “Mesmo que São Paulo cerque seus territórios, e eles sofram com isso, ao mesmo tempo, eles se mantêm fortes, mantêm suas línguas, escrevem e foi muito bom ver como eles fizeram a retomada. Os Guarani são muito fortes”, finalizou.
O episódio atravessa temas como território, espiritualidade, cuidado, linguagem e ancestralidade – da floresta ao centro urbano, do corpo à escrita.
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Da esquerda para direita: Gení Núñez, Ehuana Yanomami e Ana Maria Machado|Claudio Tavares/ISA
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Gení e Ehuana conversaram sobre suas trajetórias e os pontos de intersecção de suas culturas|Claudio Tavares/ISA
Durante a conversa, Gení Núñez ressalta como o modo de vida tradicional é uma forma de resistência e barreira contra a colonização, que mantêm o povo Guarani vivo.
“Muitas vezes o nosso povo é descrito como um povo pacífico e isso é traduzido como se nós fossemos muito obedientes ou muito em sintonia com esse processo colonial, mas isso esconde a resistência do nosso povo, porque mesmo depois de tantos séculos, a gente tem orgulho em dizer que há parentes que não falam nenhuma palavra em português”, disse.
“Esse movimento de manter a língua, os costumes, o modo de vida tradicional, ele segue tendo a espiritualidade no centro”, explicou.
Gení homenageia Ehuana com um poema, que pode ser conferido na íntegra na sua plataforma de áudio favorita.
Gravado durante os eventos realizados no Espaço Floresta do Centro (https://loja.socioambiental.org/), em São Paulo, o podcast é uma realização do Instituto Socioambiental (ISA) e faz parte de um esforço coletivo para amplificar vozes originárias e tradicionais.
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Entre os presentes, estava a fotógrafa Nair Benedicto, que compareceu para escutar Gení Núñez e Ehuana Yanomami no centro de São Paulo|Claudio Tavares/ISA
O podcast Floresta no Centro tem apoio da Fundação Rainforest da Noruega.
Créditos
Identidade visual: Cama Leão
Captação de áudio, identidade sonora e edição: Voz Ativa Produções
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Nota de pesar pelo falecimento de Rosa Gauditano, fotógrafa e defensora dos direitos indígenas
Neste momento de dor, o ISA se solidariza com a família e amigos e reverencia o legado de sua obra
Rosa Gauditano na comunidade São Domingos, Foz do Cabari, alto Tiquié (AM)|Flora Cabalzar/ISA
Foi com imensa tristeza que o Instituto Socioambiental (ISA) recebeu a notícia do falecimento de Rosa Gauditano, ocorrido em 7 de agosto de 2025, aos 70 anos. Rosa foi uma fotógrafa e ativista que dedicou parte de sua vida à luta pelos direitos das populações indígenas no Brasil.
Reconhecida parceira e aliada do movimento indígena, ela compareceu ao Encontro de Altamira, que reuniu mais de 600 lideranças indígenas em 1989, no Pará, e desde então dedicou-se a documentar a realidade de povos como os Karajá, Kayapó, Tukano, Yanomami, Xavante, Guarani e Pankararu.
Rosa também se destacou publicando livros como Índios: Os Primeiros Habitantes (1998), Raízes do Povo Xavante (2003) e Guaranis M'Byá na Cidade SP (2006), e escreveu crônicas para o jornal Público, nas quais alertava sobre a situação dos povos indígenas durante a pandemia de Covid-19.
O legado de Rosa Gauditano é uma contribuição fundamental para a memória visual e histórica do Brasil. Sua obra continuará a inspirar gerações de ativistas na luta pelos direitos dos povos indígenas.
Neste momento de dor, o ISA se solidariza com a família e amigos, em especial Camila Gauditano, ex-colaboradora do ISA, sua filha e atualmente supervisora do Centro de Pesquisa e Referência do Museu das Culturas Indígenas (MCI).
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Amanhecer na lagoa Piyulaga, do povo Waurá, Parque Indígena do Xingu, 2005|Rosa Gauditano/Studio R
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Lula homologa três Terras Indígenas no Ceará durante a Marcha das Mulheres Indígenas
Movimento indígena comemora a regularização dos territórios Pitaguary, Lagoa Encantada e Tremembé de Queimadas, mas lamenta demora na decisão
Em evento no Palácio do Planalto nesta quarta-feira (06/08), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou os decretos de homologação das Terras Indígenas Pitaguary, Lagoa Encantada e Tremembé de Queimadas ao lado da Ministra Sônia Guajajara, Joênia Wapichana, presidenta da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), da Secretária dos Povos Indígenas do Ceará, Juliana Alves Jenipapo Kanindé, e da Secretária de Gestão Ambiental e Territorial Indígena do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), Ceiça Pitaguary.
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A assinatura dos decretos aconteceu no Palácio do Planalto nesta quarta-feira (06/08) com a presença de lideranças indígenas|Ricardo Stuckert/PR
Todas no estado do Ceará, as TIs somam 4.238 hectares e são territórios tradicionais dos povos Tremembé, Jenipapo-Kanindé e Pitaguary. Os processos de demarcação das áreas demoraram em média 25 anos para serem finalizados.
O anúncio aconteceu ao mesmo tempo em que ocorre, em Brasília, a IV Marcha das Mulheres Indígenas, realizada pela Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga) e foi recebido com celebração pelo movimento. Com as novas assinaturas, o terceiro mandato do presidente homologou 16 Terras Indígenas, e o Ministério da Justiça declarou os limites de dez áreas. No entanto, a cobrança pelo cumprimento da promessa feita por Lula de homologar o máximo de TIs possíveis durante o seu mandato, segue intensa.
Segundo Cacica Irê, do povo Jenipapo Kanindé, atual Secretária dos Povos Indígenas do Ceará, a homologação dessas áreas foi fruto da parceria e da articulação do estado junto a Funai e MPI. Em novembro de 2023, a Funai, o Instituto do Desenvolvimento Agrário do Ceará (Idace) e a Secretaria dos Povos Indígenas do Ceará (Sepince) assinaram um Acordo de Cooperação Técnica com o objetivo de realizar a demarcação física e o levantamento de benfeitorias instaladas por terceiros em quatro Terras Indígenas. Para além das áreas homologadas ontem, resta a homologação da Terra Indígena Tapeba, que também fazia parte do acordo. Para ela, a demarcação dessas TIs é muito significativa dentro de um estado que por tantos anos invizibilizou a presença desses povos.
No Brasil existem 809 Terras Indígenas em diferentes estágios de reconhecimento. Dessas, 521 áreas já estão com o processo finalizado, sendo que o restante ainda está em alguma das etapas do processo de demarcação. São 265 TIs com processo em andamento na Funai, 65 delas, aguardam apenas a homologação pelo presidente Lula. No processo administrativo de demarcação de Terras Indígenas, a homologação pela presidência da República é um dos últimos passos, faltando apenas o registro no cartório.
"Essas demarcações sinalizam um avanço, mas o atual cenário é preocupante. São muitos retrocessos dos direitos indígenas, e o processo de demarcação vem sendo afetado com a aprovação da Lei do Marco Temporal", afirma Moreno Martins, coordenador do Programa Povos Indígenas no Brasil, do ISA.
No estado do Ceará, são 10 Terras Indígenas, totalizando agora cinco homologadas, uma declarada, uma delimitada, duas em estudo e uma Reserva Indígena em processo de regularização. A área total é de 21.648,00 hectares.
Contexto das três Terras Indígenas
A Terra Indígena Pitaguary, localizada nos municípios de Maracanaú e Pacatuba (CE) - zona metropolitana de Fortaleza, foi homologada com 1.731 hectares. Desde 2006, quando o MJSP assinou a Portaria Declaratória do território, o povo Pitaguary aguardava a conclusão do processo de demarcação, iniciado há 28 anos.
A luta pelo território é antiga, com registros de solicitações realizadas por lideranças do povo para que o governo tomasse providências contra os invasores do território ainda no século XIX. A TI Pitaguary teve o processo de demarcação física concluído em outubro de 2024, mas até esse marco, foi palco de muitos episódios de violência, entre eles, um ataque à Cacica Madalena, em 2018.
Do povo Jenipapo Kanindé, a Terra Indígena Lagoa Encantada, localizada em Aquiraz (CE), estava em processo de demarcação desde 1997 e aguardava a homologação há 14 anos. A área de 1.732 hectares, onde vivem 382 pessoas (IBGE, 2022), é casa da cacica Maria de Lourdes da Conceição Alves, a Cacica Pequena, tida como a primeira cacica mulher do país, uma referência da força feminina no movimento indígena.
Cacica Irê, filha de Cacica Pequena, reforçou a importância do movimento de mulheres nesse contexto. “Estamos muitos felizes em poder estar festejando um momento desses tão significativo na vida dos povos do Ceará dentro da nossa IV Marcha Nacional das Mulheres Indígenas”.
Comentou ainda sobre a necessidade da luta continuar pela homologação de outras TIs: "Nós temos fé e esperança que daqui para o final do ano o presidente Lula vai sancionar e homologar a Terra Indígena do povo Tapeba”, disse. “Afinal de contas, o povo Tapeba é muito merecedor de ter sua homologação do seu território, uma vez que foi o primeiro povo no estado do Ceará que fincou o pé e demarcou a luta dizendo 'nós existimos!', completou.
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Cacica Irê Juliana Alves, do povo Jenipapo Kanindé, atual Secretária dos Povos Indígenas do Ceará celebra homologações|Mariana Soares/ISA
A lentidão do processo de demarcação se explica em parte por conta do conflito judicial envolvendo o Grupo Ypióca, que explorava recursos hídricos da Lagoa Encantada para irrigação de plantio de cana de açúcar. Uma filial ligada ao grupo recorreu judicialmente para anular o processo de demarcação. Em 2017, o Supremo Tribunal de Federal rejeitou recurso apresentado pela empresa e afirmou a validade do processo de demarcação.
Já no caso da Terra Indígena Tremembé de Queimadas, localizada em Acaraú (CE), a espera para a conclusão do processo de demarcação chegou a 20 anos. Agora, o povo Tremembé espera a regulação de outras duas TIs com processo em andamento: Tremembé de Almofala e Tremembé do Engenho.
Em um marco histórico para a visibilidade e fortalecimento das mulheres indígenas no Brasil, foi lançado neste domingo (3/8) o "Mapa Interativo das Organizações das Mulheres Indígenas no Brasil". A cerimônia de lançamento ocorreu durante a abertura da IV Marcha das Mulheres Indígenas, em Brasília, e incluiu a entrega simbólica do Mapa à deputada Célia Xakriabá.
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Lançamento do Mapa Interativo das Organizações das Mulheres Indígenas no Brasil ocorreu na abertura da IV Marcha das Mulheres Indígenas|Mariana Soares/ISA
O Mapa Interativo é uma ferramenta digital que pretende trazer visibilidade às diversas organizações e coletivos liderados por mulheres indígenas em todo o território nacional. Desenvolvido em uma plataforma dinâmica e interativa, ele permite a identificação das iniciativas por região, com dados como site e rede social de cada organização. A proposta é facilitar a conexão entre organizações, como forma de fortalecer a ação articulada de mulheres indígenas. Acesse aqui.
Fruto de uma parceria entre a Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga) e o Instituto Socioambiental (ISA), o lançamento marca mais uma etapa no processo da construção coletiva do mapeamento de organizações de mulheres indígenas no país.
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Joziléia Kaingang, diretora-executiva da Anmiga, e Luma Prado, pesquisadora do ISA responsável pelo mapa com a edição física do material|Mariana Soares/ISA
A primeira edição, lançada em 2020, havia identificado 92 organizações. A partir de um chamado da Anmiga e da parceria, a segunda edição, por sua vez, identificou 241 organizações, um aumento em duas vezes e meio do número de coletivos do gênero. Agora, o Mapa Interativo, permite uma atualização periódica e o acompanhamento do crescimento do associativismo de mulheres indígenas.
“Muitas organizações ficaram de fora quando imprimimos o mapa. Então, a gente conversou com o ISA e pensou em como resolver e tivemos a ideia de ter um mapa virtual, para que a gente possa atualizar esse mapa e cada vez mais as organizações de mulheres indígenas possam aparecer e se identificar, registrar as mulheres, a região, o estado”, explicou Joziléia Kaingang, diretora-executiva da Anmiga.
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Entrega simbólica do Mapa à deputada Célia Xakriabá pelas mãos de Luma e Joziléia|Mariana Soares/ISA
“Além disso, a gente vai fazer com que esse mapa chegue a quem mais interessa, que são as mulheres indígenas. Qualquer mulher indígena que tenha acesso à internet poderá acessar esse mapa, poderá identificar a sua organização e organizações parceiras para articular, para poder fazer planos conjuntos, para se mobilizar a fortalecer a luta”, complementou Luma Prado, pesquisadora do ISA responsável por essa edição.
O lançamento do Mapa Interativo é um passo crucial para a consolidação da rede de mulheres indígenas no Brasil, que desempenham um papel fundamental na defesa de seus territórios, modos de vida, direitos e na luta contra todas as formas de violência. A plataforma servirá como um recurso valioso para pesquisa, para construção de políticas públicas e para inspirar novos coletivos de mulheres indígenas, defenderam durante o evento que também contou com uma exibição de um vídeo apresentando o mapa.
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Durante a plenária, mulheres aproveitaram para procurar ou cadastras suas organizações no Mapa|Mariana Soares/ISA
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Na foto, Genilda Kaingang, presidente da Associação de Mulheres Originárias da Terra Indígena Apucaraninha (PR) (Amotia)|Mariana Soares/ISA
O material audiovisual, produzido pelas cineastas Francy Baniwa, Kerexu Martim e Vanuzia Pataxó, em parceria com a Rede Katahirine, traz o relato das mulheres indígenas e os coletivos dos quais representam. Com apresentação da ativista e comunicadora Sâmela Sateré-Mawé, o vídeo remonta o processo de construção do Mapa, com pesquisadoras da Anmiga e do ISA e a checagem dos dados no 19º Acampamento Terra Livre, em 2024.
ISA na IV Marcha das Mulheres Indígenas 2025
Somado ao lançamento do mapa, desde domingo é possível navegar pelo Mapa Interativo na tenda do ISA no “Espaço das Vozes Aliadas”. O ISA estará presente ao longo de toda a Marcha e da I Conferência das Mulheres Indígenas.
Além da navegação no Mapa Interativo, também estão sendo distribuídas a versão impressa do Mapa das Organizações das Mulheres Indígenas no Brasil 2024 e a publicação Cuidados e prevenção no enfrentamento à violência contra mulheres no Rio Negro, uma parceria entre o ISA, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), o Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN), a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e do projeto Cosmopolíticas do Cuidado no Fim-do-mundo.
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