A Bacia do Rio Negro se estende pelos estados do Amazonas e de Roraima, no Brasil, e também avança pelos territórios vizinhos da Colômbia, Venezuela e Guiana. Na sua porção no Amazonas, a bacia é uma das regiões mais preservadas de todo o bioma amazônico, com biodiversidade incalculável. Por outro lado, a parte da bacia localizada em Roraima vem sofrendo grande degradação ambiental causada pelo garimpo ilegal de ouro, desmatamento e roubo de terra, ou "grilagem de terra".
Aproximadamente 68% da Bacia do Rio Negro no Brasil está formalmente protegida por um conjunto de unidades de conservação e terras indígenas legalmente reconhecidas. A diversidade cultural da região é enorme: ali vivem 45 povos indígenas e estão localizados dois patrimônios culturais do Brasil – a Cachoeira de Iauaretê e o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro – além do ponto mais alto do Brasil, o Pico da Neblina, lugar sagrado do povo Yanomami.
No Rio Negro, o ISA mantém trabalho de longo prazo e parceria institucional - que nos enche de orgulho - com associações indígenas e suas lideranças, entre elas a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), a Hutukara Associação Yanomami (HAY) e o Conselho Indígena de Roraima (CIR).
Mantemos escritório e equipe na cidade de São Gabriel da Cachoeira (AM), considerado o município mais indígena do Brasil, localizado no Alto Rio Negro. De São Gabriel, também descemos com as águas do Negro para apoiar comunidades e associações indígenas dos municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, ambos no Amazonas. Em 2009, o ISA incorporou a organização Comissão Pró-Yanomami (CCPY), sua equipe e legado, abrindo escritório em Boa Vista (RR) e passando a atuar diretamente com o povo Yanomami e outros povos de Roraima.
Atualmente, o ISA atua na Bacia do Rio Negro com a promoção de processos formativos, articulando parcerias para a proteção dos territórios indígenas, valorização da diversidade socioambiental, segurança alimentar das comunidades, desenvolvimento de cadeias de valor da economia da floresta para geração de renda e produção de pesquisas interculturais que dêem visibilidade aos conhecimentos tradicionais e modos de vida das populações que, há muitos anos, mantém as florestas da região preservadas.
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"Mapear Mundos" abre a Mostra Ecofalante de Cinema em Brasília
Sessão de abertura acontece no Cine Brasília em 2 de outubro, às 19h, com a presença de André Baniwa, liderança do Rio Negro, e do presidente do ISA, Márcio Santilli
A Mostra Ecofalante de Cinema, o mais importante evento sul-americano para a produção audiovisual ligada às temáticas socioambientais, chega à Brasília exibindo 39 filmes, cujas temáticas incluem as mudanças climáticas e questões ligadas à mineração, trabalho, saúde, tecnologia e comunidades indígenas, quilombolas e periféricas. As exibições acontecem de 2 a 9 de outubro no Cine Brasília, com entrada franca.
Na sessão de abertura, na quarta-feira, 2 de outubro, às 19h, a atração é Mapear Mundos. O filme da diretora Mariana Lacerda articula preciosas imagens de arquivos indigenistas com testemunhos atuais para rememorar a importância de organizações da sociedade civil na luta indígena. Em um contexto de ditadura militar, atuando ao lado desses povos, elas foram cruciais para a garantia dos direitos dos povos originários no “Capítulo dos Índios”, da Constituição Brasileira de 1988.
Assista ao trailer:
Trata-se de uma produção do Instituto Socioambiental (ISA), organização não governamental que comemora 30 anos de existência dedicada a defender bens e direitos sociais, coletivos e difusos, relativos ao meio ambiente, ao patrimônio cultural e aos direitos dos povos indígenas do Brasil. André Baniwa, liderança do Rio Negro, e o presidente do ISA, Márcio Santilli, têm presenças confirmadas na sessão.
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"Mapear Mundos" traz registro fotográfico de março de 1988 que mostra mapa elaborado pelo Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI), uma das organizações que deu origem ao ISA, que revelou o assédio de mineradoras às Terras Indígenas na Amazônia 📷 André Dusek/AGIL
A grade de programação em Brasília reúne destaques de diferentes seções da Mostra Ecofalante de Cinema: Panorama Internacional Contemporâneo, Competição Latino-americana, Panorama Histórico, Competição Territórios e Memória, Sessão Infantil e Sessões para Estudantes.
Estão presentes filmes recentes de diretores consagrados, como o cultuado alemão Werner Herzog e o vencedor do Oscar, Luc Jacquet, e filmes premiados na 13ª edição do evento, ocorrida em São Paulo no mês de agosto, como o longa-metragem peruano Céu Aberto, vencedor da competição latino-americana, e Rejeito, eleito melhor longa da competição Territórios e Memória.
Em O Fogo Interior: Um Réquiem para Katia e Maurice Krafft, o diretor Werner Herzog focaliza um casal pioneiro de vulcanólogos que se tornou notório por dedicar sua vida a documentar de perto a magnitude das erupções vulcânicas. Com impressionantes imagens desses fenômenos naturais, o longa foi o grande vencedor do importante festival DOC LA (EUA).
De Luc Jacquet, o diretor de A Marcha dos Pinguins (2005), vencedor do Oscar de melhor documentário, a Mostra Ecofalante de Cinema em Brasília apresenta Antártica: Continente Magnético. Esta é uma aventura visualmente deslumbrante que percorre os poucos milhares de quilômetros que separam a Patagônia do Polo Sul e fez parte da seleção do Festival de Locarno, o mais importante evento de cinema da Suíça.
Grandes personalidades emprestam seu prestígio à produção norte-americana Solo Comum, de Joshua Tickell e Rebecca Harrell Tickell, premiado no Festival de Tribeca. Participam dessa abordagem sobre agricultura regenerativa e seus benefícios para o solo os atores Laura Dern, Woody Harrelson, Donald Glover e Rosario Dawson.
Exibido em versão restaurada na seção Cannes Classics do Festival de Cannes, Amor, Mulheres e Flores é assinado por Marta Rodríguez e por seu parceiro e companheiro de vida Jorge Silva (1941-1987). Representante da seção Panorama Histórico da Mostra Ecofalante de Cinema, o filme foi realizado entre 1984 e 1988 e denuncia as precárias condições a que estão submetidas as trabalhadoras da agroindústria das flores, uma das maiores da Colômbia. Suas reivindicações passam por melhores condições de vida e saúde, para si e para seus filhos. Com carreira iniciada em 1971, Marta Rodríguez é considerada uma das primeiras mulheres documentaristas da Colômbia a alcançar repercussão internacional.
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
'Está vindo aí a seca, está vindo a mudança climática': fumaça afeta território indígena no Alto Rio Negro (AM)
Serra do Curicuriari ou “Bela Adormecida”, cartão-postal de São Gabriel da Cachoeira, ficou encoberta; comunicadores e pesquisadores indígenas relatam os impactos
Cercado por florestas, o município de São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas,fica em uma das regiões mais preservadas da Amazônia. No entanto, mesmo a uma distância de cerca de 800 km de Manaus, a região - uma das mais indígenas do país - vem sendo atingida pela fumaça de incêndios, na área urbana e no território indígena. Moradores chegaram a confundir a fumaça com a névoa da neblina que às vezes envolve a floresta.
No dia 27 de agosto, havia muita fumaça durante todo o dia e a Serra do Curicuriari ou Bela Adormecida – um dos cartões-postais da cidade – ficou encoberta. O mesmo cenário repetiu-se pelo menos nos dois dias seguintes.
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Serra do Curicuriari, ou "Bela Adormecida", em 23 de junho de 2010|Beto Ricardo/ISA
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Paisagem cartão-postal encoberta pela fumaça em 27 de agosto de 2024|Ana Amélia Hamdan/ISA
Integrante da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas do Rio Negro, João Alex Lins, do povo Yanomami, mostrou imagens em vídeo que registram a fumaça na comunidade de Maturacá, no Território Yanomami no Amazonas. As serras que cercam a comunidade e fazem parte da paisagem sagrada ficaram imersas na fumaça.
“Oi, pessoal, 27 de agosto de 2024. Mais uma vez a fumaça chegou aqui na nossa região de Maturacá, Terra Indígena Yanomami. A fumaça já encobertou a nossa floresta, as nossas serras estão desaparecidas”, relata ele no vídeo. Em meados de agosto, ele já tinha divulgado um outro vídeo falando sobre a questão da fumaça.
Morador de Açaí-Paraná, no Baixo Rio Uaupés, Rosivaldo Miranda, do povo Piratapuya, relatou que, além da fumaça, os indígenas já estão percebendo o aumento da temperatura, o que acende o alerta para o período da seca.
“A fumaça está impactando a gente aqui também. Não dá nem pra ver o outro lado do rio porque a fumaça é muita. O calor tá muito alto já, tá aumentando. E o rio começa a baixar bastante já. Já temos também o aparecimento do banco de areias no Baixo Rio Uaupés. Então a expectativa para este ano é que teremos a seca novamente. E temos que estar preparados para esses impactos desde agora. E se prevenir. Está vindo aí a seca, está vindo a mudança climática”, informou.
A questão da saúde também gera preocupação entre os moradores. Algumas pessoas relataram dificuldades respiratórias. A Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas postou um vídeo em seu Instagram cobrando fiscalização rigorosa das autoridades contra quem provoca as queimadas.
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Praia de São Gabriel da Cachoeira encoberta pela fumaça de queimadas. População reclama de dificuldades para respirar|Ana Amélia Hamnda/ISA
Dados do portal TerraBrasilis, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), indicam que os focos de incêndio no bioma Amazônia em agosto deste ano já chegavam a 27.181 até o dia 26, sendo que em todo o mês de agosto do ano passado eram 17.373. Ou seja, antes mesmo do fim do mês, foi registrada uma alta de 56,4% no comparativo entre esses períodos.
No Amazonas, neste mês de agosto, até o dia 26, foram 7.789 focos de incêndio. No ano passado, em todo o mês de agosto, foram 5.474, o que significa um salto de 42%.
No Alto Rio Negro, o período de estiagem está no início. Nessa região, a estação seca vai de agosto a março, sendo que historicamente atinge o pico da seca entre os meses de janeiro e fevereiro - em São Gabriel da Cachoeira, o recorde foi atingido em fevereiro de 1992, quando o Rio Negro chegou a 330 cm.
Boletim Hidrológico divulgado em 23 de agosto pelo Serviço Geológico do Brasil - Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (SGB-CPRM) indicou que o Rio Negro desceu uma média diária de 8 cm em São Gabriel da Cachoeira. O Rio Negro em Manaus apresentou quedas mais acentuadas, na ordem de 20 cm diários.
Em 8 de agosto, o nível do Rio Negro em São Gabriel da Cachoeira estava em 876cm. Em 4 de agosto de 2023, ano em que foi registrada seca extrema, era de 1.025cm.
Situação de emergência
No dia 28 de agosto, o governo do Amazonas decretou situação de emergência nos 62 municípios do Estado devido à estiagem.
O antropólogo Aloisio Cabalzar, analista e pesquisador do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA), explica que a região é afetada pelas queimadas que acontecem no Pantanal, Rondônia, Acre e sul do Amazonas e Departamento de Santa Cruz na Bolívia, de onde vem a fumaça que chegou à região trazida pelo vento. “Isso tem se repetido e se tornado frequente em São Gabriel da Cachoeira”, avalia.
Aloisio Cabalzar reforça que há poucas queimadas na região e de pequena escala, geralmente deliberadas, em áreas derrubadas para novos roçados tradicionais das comunidades indígenas locais e que não contribuem com esse efeito.
De passagem por São Gabriel da Cachoeira, o Agente Indígena de Manejo Ambiental (Aima) Genilton da Silva Apolinário, do povo Baniwa, se preparava para retornar à sua comunidade, Tunuí Cachoeira, no Rio Içana, no dia 27, e demonstrou preocupação com a situação da fumaça. Segundo ele, a fumaça nunca atingiu a região com a mesma intensidade com a qual se verifica na cidade, mas que é um alerta, especialmente por conta do trabalho que ele desenvolve de manejo das abelhas na produção de mel.
“Onde existe a fumaça, as abelhas têm a dificuldade de respirar o vento dentro da colmeia. Isso preocupa pra gente, nós que estamos manejando as abelhas, né? Porque as abelhas são gente, né? Elas são comunidade. Então se acontecer alguma coisa com a gente, pra eles também prejudica igual”, explicou.
De acordo com as suas observações, fenômenos como a quentura, a chuva volumosa e até chuva de granizo vêm sendo cada vez mais frequentes. Para ele e seu povo, cada vez que a fumaça aparece, é como um aviso: “sei que vai acontecer alguma coisa depois dessa fumaça que está acontecendo aqui. Não sei se vai secar o rio também, se vai vir chuva de granizo ou muitos raios, mas é um aviso”, finalizou Genilton Apolinário.
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Cineastas Yanomami ganham Prêmio Grande Otelo de Cinema por melhor curta-metragem documentário
Filme tem a direção de Aida Harika Yanomami, Roseane Yariana Yanomami e Edmar Tokorino Yanomami
Da esq. p/ dir: Roseane Yariana, Edmar Tokorino Yanomami e Aida Harika Yanomami, diretores de "Thuë Pihi Kuuwi - Uma Mulher Pensando"|Claudio Tavares/ISA
O curta-metragemThuë Pihi Kuuwi - Uma Mulher Pensando venceu o prêmio Grande Otelo de Cinema 2024 na noite desta quarta-feira (28/08). A premiação existe há mais de duas décadas e reconhece profissionais e produções audiovisuais do Brasil. A obra Yanomami venceu a categoria de Melhor Curta-Metragem Documentário.
Morzaniel Ɨramari, primeiro cineasta Yanomami, também fez captação de imagens para o filme e representou o time no evento. Ele recebeu o prêmio das mãos da atriz Dira Paes e do cantor Toni Garrido, que apresentaram a edição deste ano.
“A minha prima Roseane, a minha cunhada Aida e meu tio Edmar e eu recebemos, pelas imagens que produzimos, e foi muito bom. Nunca imaginei que todos iríamos ganhar juntos, eu me senti muito honrado em receber o prêmio em nome deles. Fiquei cheio de alegria, estou feliz demais”, disse Morzaniel ao Instituto Socioambiental (ISA)
A estatueta do Grande Otelo é uma homenagem ao ator que dá nome à premiação. O seu design foi idealizado por Ziraldo Alves Pinto e a escultura é de Altair Souza.
Cinema Yanomami
A sinopse de Thuë Pihi Kuuwi - Uma Mulher Pensando descreve a história de uma mulher yanomami que observa um xamã durante o preparo da Yãkoana, alimento dos espíritos. A partir da narrativa de uma jovem mulher indígena, a Yãkoana que alimenta os Xapiripë e permite aos xamãs adentrarem o mundo dos espíritos, também propõe um encontro de perspectivas e imaginações.
Com produção de Aruac Filmes, o curta conta ainda com co-produção da Hutukara Associação Yanomami e produção associada da Gata Maior Filmes.
Durante as filmagens de Thuë Pihi Kuuwi - Uma Mulher Pensando, outros dois curtas-metragens foram produzidos pela Aruac Filmes: Mãri Hi – A Árvore do Sonho e Yuri Uxëa Tima Thë – A Pesca com Timbó.
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Imagens da gravação do filme "Thuë Pihi Kuuwi - Uma Mulher Pensando"|Aruac Filmes
O trio de histórias independentes faz parte do projeto “A Queda do Céu”, que deve apresentar um longa-metragem que será como “um novo capítulo” para o livro do xamã Davi Kopenawa e do etnólogo Bruce Albert.
O filme Uma Mulher Pensando também conta com apoio de ISA, Porticus, Climate and Land Use Alliance (CLUA), Ford Foundation, Nia Tero, Foundation Cartier, Humanize, Arapyaú, Rainforest Foundation Norway (RFN), Norway's International Climate and Forest Initiative (NICFI), Rede de Cooperação Amazônica (RCA), Instituto Iepé, Instituto Meraki, International Resource for Impact and Storytelling (IRIS), Amazon Watch e Foundation AlterCiné.
Assista ao trailer:
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‘Ya Temi Xoa’: como a comunidade negra e os Yanomami uniram forças no Carnaval 2024
Filme registra tributo da comunidade do Salgueiro à cosmologia dos Yanomami; assista!
Napê, nossa luta é sobreviver Napê, não vamos nos render Ya temi xoa, aê, êa Ya temi xoa, aê, êa
“Ya Temi Xoa” foi o verso cantado a plenos pulmões por toda a comunidade negra da Acadêmicos do Salgueiro acompanhada de líderes Yanomami durante desfile na Avenida Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, em fevereiro deste ano. A frase, que traduzida para português significa “eu ainda estou vivo”, marcou o samba enredo “Hutukara” e agora também dá nome ao documentário que tem estreia online nesta segunda-feira (26/08).
Assista!
O curta de 20 minutos conta como a floresta amazônica se conectou com as favelas do Rio de Janeiro ao unir os Yanomami e o povo negro para fazer história. O filme mostra uma parte do desfile, os bastidores e as ideias que construíram o enredo inspirado na Hutukara - o céu que desabou na cosmologia Yanomami - que garantiu o 4º lugar à Salgueiro, ficando entre as seis campeãs do ano.
Uma parceria entre o Instituto Socioambiental (ISA) e a Hutukara Associação Yanomami (HAY), com a direção de Thomas Mendel, Ya Temi Xoa teve pré-estreia em Boa Vista, capital de Roraima. O evento recebeu lideranças indígenas e seus parceiros de organizações não governamentais, autoridades de órgãos federais, jornalistas e apoiadores da causa Yanomami.
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As lideranças Davi Kopenawa, Dario Kopenawa e Julio Ye'kwana fizeram falas após a exibição do curta|Valdimarley Braga/Platô Filmes/ISA
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Filme que retrata a união dos Yanomami e da comunidade salgueirense estreou em cinema de Boa Vista|Valdimarley Braga/Platô Filmes/ISA
Em meio a uma tragédia humanitária, escancarada ao mundo em janeiro de 2023, os Yanomami chamaram a atenção da escola de samba. Com uma pesquisa e aprofundamento na obra A Queda do Céu de Davi Kopenawa e Bruce Albert, os responsáveis pelo enredo entenderam que os Yanomami tinham muito mais a mostrar do que uma tragédia.
“Fiquei três ou quatro meses lendo muita sobre a cosmologia do povo yanomami, mas eu digo que o que mais me tocou foi ter o olhar do Davi”, afirma Igor Ricardo, jornalista e enredista da Salgueiro.
Igor conta que um dos esforços para construção do desfile foi justamente o de não colocar o povo Yanomami na posição de “coitados”. O conceito do espetáculo foi construído sob a ótica da exaltação à cosmologia e rica cultura destes indígenas. “A ideia da Hutukara era apresentar o povo Yanomami pela lógica do que eles são verdadeiramente e não pela ótica que a sociedade não indígena costuma ver na televisão, que é a ótica da tragédia. Então, quando pensamos nesse “Hutukara”, foi para mostrar a beleza desse povo, sobre quem é esse Omama, que é o deus da criação dele, sobre Yoasi, que é o deus da morte e destruição”, explica.
A Salgueiro foi a terceira escola a desfilar na primeira noite de apresentações. Além do homenageado Davi Kopenawa, líder e xamã dos Yanomami, outras 13 lideranças Yanomami estiveram presentes no carro “Por um Brasil Cocar”.
Meu Salgueiro é a flecha Pelo povo da floresta Pois a chance que nos resta É um Brasil cocar
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Da esquerda para a direita: o xamã Manoel Yanomami, o xamã e liderança Davi Kopenawa e a liderança Pedrinho Yanomami, no carro alegórico "Por um Brasil Cocar"|Lucas Landau/Hutukara/ISA
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Mc Rebecca representando “Yaroriyma Pë” em frente ao carro alegórico “Hutukara: a nova terra-floresta"|Lucas Landau/Hutukara/ISA
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Ala que representa a pesca, uma das principais atividades do modo de vida dos Yanomami|Lucas Landau/Hutukara/ISA
Para fugir dos estereótipos, a escola pediu a assessoria de Davi Kopenawa na construção das alegorias. O xamã também participou da escolha da canção que emocionou a Salgueiro - recebendo 10 de todos os jurados em seu respectivo requisito. “Neste lugar estão trabalhando em algo muito importante e estão fazendo um bom trabalho para ajudar na nossa luta, ajudar a defender o meu povo, ajudar a defender o nosso direito. Fiquei contente que estão trabalhando e fazendo as coisas para sair bonito e mostrar para toda a cidade”, conta o xamã em trecho do documentário que mostra sua visita à escola de samba durante os preparativos para o desfile.
Hutukara, ê! Sonho e insônia
Grita a Amazônia, antes que desabe
Caço de tacape, danço o ritual
Tenho o sangue que semeia a nação original
Eu aprendi português
A língua do opressor
Pra te provar que meu penar também é sua dor
Falar de amor enquanto a mata chora
É luta sem flecha, da boca pra fora
Floresta e morro se encontram
O real encontro de Davi Kopenawa com o povo do Salgueiro se deu meses antes do desfile na Sapucaí. Davi foi convidado para estar presente na final da escolha do samba, em 13 de outubro de 2023. Eram 23 sambas inscritos falando sobre a Hutukara e nesse dia um deles seria escolhido para ser cantado na avenida.
Ao chegar no Rio de Janeiro, Davi seguiu para o Morro do Salgueiro, no Caxambu, centro cultural que guarda as tradições afro-brasileiras da comunidade. Foi recebido com uma apresentação de Dança de Jongo, onde ao som de tambores, as matriarcas da escola cantaram e dançaram para recepcionar o líder Yanomami. Momentos depois, Davi disse que ficou emocionado ao ver as mulheres dançando e que elas o fizeram se lembrar de suas tias, que são as guardiãs da cultura yanomami.
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Davi Kopenawa visitou o Morro do Salgueiro em outubro de 2023, quando a escola estava prestes a escolher o samba-enredo|Lucas Landau/Hutukara/ISA
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Davi Kopenawa reunido com dançarinas de jongo, que participam de projeto social no morro do Salgueiro para o resgate da dança tradicional que deu origem ao samba, e lideranças do projeto Erveiras e Erveiros do Salgueiro, que fazem o resgate do conhecimento tradicional sobre ervas para usos medicinais e religiosos na comunidade|Lucas Landau/Hutukara/ISA
No morro, Davi conversou com muitas delas e conheceu o trabalho das erveiras, mulheres conhecedoras das plantas que curam e que mantêm um projeto para registro e aprendizado desse conhecimento pelas novas gerações.
Ao descer o morro, Davi disse que já esteve muitas vezes no Rio de Janeiro, que foi levado para pontos turísticos, prédios bonitos e praias, mas que essa tinha sido a primeira vez que ele conheceu o povo que construiu a cidade e que depois foi empurrado para morar no morro, em cima das pedras, onde não é possível plantar.
Noite do desfile
Com diversas referências à cosmologia Yanomami, criticando a falsa “família de bem” e relembrando o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips, assassinados em 2022, o samba da Salgueiro mostrou a força, beleza e resistência do povo da maior Terra Indígena do Brasil na primeira noite do Carnaval do Rio de Janeiro.
Antes da sua bandeira, meu vermelho deu o tom
Somos parte de quem parte, feito Bruno e Dom
Kopenawas pela terra, nessa guerra sem um cesso
Não queremos sua ordem, nem o seu progresso
“A Salgueiro vai emocionar na avenida e mostrar a importância que é a gente cuidar da nossa terra e dos povos originários”. afirmou a rainha de bateria da Salgueiro, Viviane Araújo, minutos antes do desfile.
Para embalar a escola de samba e a arquibancada, a Salgueiro levou elementos do conhecimento milenar dos Yanomami e contou a história da Hutukara, que na cosmologia Yanomami representa o céu que desabou os levando para o plano em que vivem hoje.
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Ritmistas da Acadêmicos do Salgueiro mostram tamborim com a mensagem “Fora Garimpo”, na Marquês de Sapucaí|Thomas Mendel/Hutukara/ISA
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Ala das baianas representando “Thuëyoma, a mãe Yanomami” no desfile da Salgueiro em fevereiro|Lucas Landau/Hutukara/ISA
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Comissão de frente “Ya Nomaim! Ya temo xoa! (Eu não morro! Ainda estou vivo)”, que representava os espíritos “xapiri” no desfile|Lucas Landau/Hutukara/ISA
“Os Yanomami trouxeram uma parte cultural que nós não tínhamos conhecimento. Eles são bem enfáticos ao dizer ‘Ya Temi Xoa’ porque querem dizer que estão vivos, que a floresta está viva e acho que chegou a hora do Brasil entender esse povo que está aqui antes da colonização e que ainda têm força para dizer ‘estamos vivos’”, disse Silvania de Sant’anna, integrante da torcida oficial Amigos do Salgueiro.
A identidade dos Yanomami chegou à avenida com uma preparação que começou antes mesmo do desfile. Os indígenas escolheram usar suas pinturas tradicionais, além de acessórios feitos com sementes, penas e pequenas lascas de flechas.
“A nossa história vive da mata, da selva, das frutas. Para nós, isso não é só um momento de tristeza, mas também temos alegria e precisamos ser valorizados”, disse Carlinha Santos, que além de professora é presidente da Associação das Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK).
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Em pé, da esquerda para a direita: Julião, presidente da associação Parawana; João Figueiredo, presidente da AYRCA; Pedrinho, xamã Watoriki; Otavio Ironasiteri, presidente da Kurikama; Geraldo Yanomami; Ehuana Yanomami; xamã Manoel Yanomami; Carlinha Lins Yanomami; Davi Kopenawa Yanomami; Morzaniel Yanomami; Eliane Clara Opoxina. Agachados, da esquerda para a direita: Gilvania Borari; Joseca Yanomami; Júlio Ye'kwana e Dário Kopenawa Yanomami|Tayná Uráz/Hutukara/ISA
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Ehuana Yaira Yanomami pinta Eliane Clara Opoxina na concentração para o desfile|Tayná Uráz/Hutukara/ISA
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Lideranças da Terra Indígena Yanomami se preparam antes de desfilar pela escola de samba Salgueiro|Tayná Uráz/Hutukara/ISA
Em 21 de janeiro de 2023, menos de um mês após assumir o governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) visitou Boa Vista e chamou a atenção do mundo para os altos números de casos de malária e desnutrição entre os Yanomami. Um dia antes, uma Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) foi instaurada.
Em março de 2023, durante as comemorações de seus 70 anos, a Salgueiro anunciou “Hutukara” como o tema do seu desfile em 2024, mais uma vez chamando a atenção para a grave situação dos Yanomami.
“É muito importante e tudo foi muito lindo. É muito importante que a Salgueiro tenha encontrado o nome do povo Yanomami, mesmo que tenha demorado, porque assim nós também encontramos o povo negro que também foram sofredores”, resumiu Kopenawa sobre a conexão entre a floresta amazônica e as favelas do Rio de Janeiro na parceria entre a Salgueiro e a Hutukara Associação Yanomami (HAY).
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Quadra da Salgueiro explode em comemoração após conquista do quarto lugar no Carnaval 2024 do Rio de Janeiro|Tayná Uráz/Hutukara/ISA
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Davi Kopenawa e Dario Kopenawa celebram quarta colocação da Acadêmicos do Salgueiro|Tayná Uráz/Hutukara/ISA
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Integrantes da escola cantam o samba-enredo que recebeu nota 10 dos jurados do carnaval carioca|Tayná Uráz/Hutukara/ISA
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‘Ya Temi Xoa': filme sobre tributo aos Yanomami no Carnaval tem pré-estreia em cinema de Boa Vista
Primeira exibição será para lideranças indígenas e seus parceiros no dia 16 de agosto
Da esquerda para a direita: a liderança Pedrinho Yanomami, o xamã e liderança Davi Kopenawa, a deputada federal Célia Xakriabá (PSOL-MG) e o xamã Manoel Yanomami, no desfile das campeãs|Lucas Landau/Hutukara/ISA
O filme Ya Temi Xoa, que registrou a trajetória dos Yanomami no Carnaval de 2024, terá sua pré-estreia em uma sala de cinema nesta sexta-feira (16/08), em Boa Vista (RR). A exibição ocorrerá na Playarte Cinemas do Roraima Garden Shopping, localizado no bairro Paraviana, zona leste da capital.
A primeira exibição acontece para lideranças indígenas Yanomami e parceiros de organizações não governamentais, autoridades de órgãos do governo federal, jornalistas e membros da sociedade civil.
Outros 77 ingressos serão distribuídos para estudantes da Universidade Federal de Roraima (UFRR), Universidade Estadual de Roraima (UERR) e do Instituto Federal de Roraima (IFRR). Os interessados devem preencher o formulário e aguardar o envio do ingresso no e-mail.
Além do desfile da comunidade da Acadêmicos do Salgueiro em 11 de fevereiro, o filme, que tem 25 minutos de duração, mostra os bastidores dessa história, como uma visita do xamã Davi Kopenawa à quadra da escola e os preparativos finais dos Yanomami para desfilar na Avenida Marquês de Sapucaí.
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Davi Kopenawa, xamã Yanomami, durante a apuração dos desfiles das escolas de samba no Carnaval 2024|Tayná Uráz/Hutukara/ISA
Uma parceria entre a Hutukara Associação Yanomami e o Instituto Socioambiental (ISA), o filme tem a direção assinada por Thomas Mendel e produção de Ariel Gajardo, Carolina Fasolo, Evilene Paixão, Fabrício Araújo, Marina Terra e Roberto Almeida. A narrativa é centrada no encontro de lutas entre a comunidade negra das favelas do Rio de Janeiro e os Yanomami, que vivem na maior Terra Indígena do Brasil, localizada na Floresta Amazônica.
Sobre o desfile
O enredo “Hutukara”, que garantiu o 4º lugar e colocou a Salgueiro entre as seis campeãs do Carnaval do Rio de Janeiro em 2024, exalta a cosmologia e cultura dos Yanomami. Entre as referências para construção do espetáculo está o livro A Queda do Céu - Palavras de um Xamã, escrito por Davi Kopenawa em parceria com o antropólogo francês Bruce Albert.
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Ritmista do Acadêmicos do Salgueiro segura tamborim com a frase “Fora Garimpo”, em referência às invasões na Terra Indígena Yanomami|Thomas Mendel/Hutukara /ISA
Kopenawa também votou o samba enredo da escola - que recebeu 10 de todos os jurados - e auxiliou os carnavalescos na escolha das alegorias a fim de evitar que os Yanomami fossem retratados de forma genérica.
Dos bastidores à apuração do resultado, o filme compila toda a história de união de lutas da comunidade Salgueiro e dos indígenas Yanomami. Após o lançamento em Boa Vista, o filme deve ganhar uma estreia nacional, sendo disponibilizado online.
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‘Mapear Mundos’ tem estreia na Mostra Ecofalante de Cinema 2024
Filme une imagens históricas e depoimentos de figuras-chave da luta pela garantia de direitos dos povos indígenas no Brasil; lançamento acontece no dia 3 de agosto
As comemorações dos 30 anos do Instituto Socioambiental (ISA) não param. Com a programação especial “ISA 30 anos: Por um Brasil Socioambiental”, o ISA leva suas produções audiovisuais para a 13ª edição da Mostra Ecofalante de Cinema, que acontece entre os dias 1º e 14 de agosto de 2024 na capital paulista.
Para celebrar esse marco, além da exibição de oito obras produzidas pela organização, acontece a estreia de Mapear Mundos, filme com Beto Ricardo e Fany Ricardo, dirigido por Mariana Lacerda. Após a sessão, no dia 3 de agosto, no cinema Reserva Cultura de São Paulo, acontece um bate-papo com a liderança do Rio Negro, André Baniwa, a vice-presidente do ISA, Marina Kahn, e a diretora.
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André Baniwa (à esquerda) e Beto Ricardo (à direita) em outubro de 1997, na Terra Indígena Alto Rio Negro, no Alto Rio Içana, Amazonas|Pedro Martinelli/ISA
O longa-metragem articula imagens e vídeos do arquivo histórico do ISA com testemunhos atuais para rememorar os passos dados por organizações da sociedade civil na luta pela garantia dos direitos indígenas no Brasil, no contexto da ditadura cívico-militar, apoiando as condições para a articulação do “capítulo dos índios” na Constituição Brasileira de 1988.
O regime ditatorial propagou a falsa ideia de que os indígenas estavam em decrescimento populacional e que a Amazônia era um imenso “vazio demográfico”, argumento utilizado para efetuar a retirada forçada de povos indígenas de seus territórios e exploração de seus recursos. No começo dos anos 1980, Beto Ricardo, antropólogo, ativista, sociólogo e um dos fundadores do ISA, decidiu questionar essa ideia, inventando um método que comprovasse justamente o contrário, de forma científica.
Assista ao trailer:
Beto, ao lado de um grupo de pesquisadores, desenvolveram um sistema próprio para analisar a população indígena nessa e em outras regiões do Brasil , comprovando, por meio de dados, que os indígenas não só não estavam desaparecendo, como suas populações cresciam. Assim, seus direitos deveriam ser permanentes.
“Aos poucos, a imagem dos índios extintos foi substituída por uma imagem da presença importante dos índios como sujeitos políticos promissores”, afirma Beto Ricardo, em depoimento durante o filme.
“Isso foi uma revolução. Entre você ter certeza absoluta de que [os povos indígenas] iam desaparecer e de repente você descobrir que eles não só não vão desaparecer, como serão uma minoria cada vez menos minoria, porque a população indígena estava crescendo mais do que a população nacional. Os índios eram, para todos nós, um resquício do passado. De repente, nós constatamos objetivamente que eles iam ser parte do futuro”, relembra em cena Márcio Santilli, presidente e sócio fundador do ISA.
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"Mapear Mundos" traz registro fotográfico de março de 1988 que mostra mapa elaborado pelo Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI), uma das organizações que deu origem ao ISA, que revelou o assédio de mineradoras às Terras Indígenas na Amazônia|André Dusek/AGIL
O filme conta com outros depoimentos de protagonistas desta luta, como Fany Ricardo, sócia-fundadora do ISA e assessora do Programa Povos Indígenas no Brasil (PIB), Marta Azevedo, demógrafa e antropóloga, André Baniwa, liderança indígena do Rio Negro, Bráz França, liderança do povo Baré e ex-presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), e Dagoberto Lima Azevedo Suegu, antropólogo e liderança do povo Tukano. Bráz França e Dagoberto Suegu infelizmente vieram a falecer antes da estreia, em 31 de julho de 2023 e 11 de abril de 2023, respectivamente.
O longa-metragem refaz os caminhos percorridos para o reconhecimento dos povos indígenas como sujeitos políticos detentores de direitos, destacando a mobilização durante a Assembleia Constituinte de 1987 para incluir no texto constitucional os artigos que versam sobre essa parcela da população.
A obra retrata ainda o processo realizado para a demarcação das Terras Indígenas na região do Alto e Médio Rio Negro, uma conquista do movimento indígena local e que contou com apoio do ISA – sobretudo na propagação de informações que explicavam o que a medida significava para a proteção e preservação dos territórios.
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André Baniwa visita comunidades em parceria ISA/FOIRN para explicar processo de demarcação de Terras Indígenas no Rio Negro, em 1997|Pedro Martinelli/ISA
Sobre o período, Fany Ricardo ressalta a formação de uma rede de informação entre todos os grupos envolvidos, indígenas e não-indígenas, que se transformou em uma parceria duradoura: “Todos tinham o mesmo objetivo, que era o de fortalecer essas populações que estavam em risco”, destaca.
Para o grupo de pesquisadores, colocar os povos indígenas no mapa significava salvaguardar o futuro não só do Brasil, mas do mundo. Garantir a preservação dos conhecimentos ancestrais fundamentais para manter a floresta de pé.
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Beto Ricardo, um dos fundadores do ISA, faz apontamentos em mapa no Rio Negro em 1997|Pedro Martinelli/ISA
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Atuação de Beto Ricardo contribuiu para a garantia de direitos dos povos do Rio Negro|Pedro Martinelli/ISA
Além da exibição na Mostra Ecofalante nos dias 3 e 8 de agosto, Mapear Mundos será apresentado no dia 10 de agosto como parte da programação da Exposição ISA 30 anos no Museu A CASA do Objeto Brasileiro, com a participação da diretora Mariana Lacerda, André Baniwa, Geraldo Andrello, antropólogo e sócio-fundador do ISA, e Silvia Futada, ecóloga e associada do ISA.
Uma parte da trajetória documentada ao longo do filme também foi retratada em “Uma Enciclopédia nos Trópicos”, livro escrito por Beto Ricardo em parceria com o jornalista Ricardo Arnt e lançado em abril deste ano. A publicação traz prefácio do escritor e ativista indígena Ailton Krenak, posfácio do jornalista Leão Serva e conta os bastidores de momentos marcantes da trajetória do antropólogo Beto Ricardo durante o período entre 1970 e 2022, em uma narrativa bem humorada e envolvente.
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Fany Ricardo e Beto Ricardo durante a exibição de "Mapear Mundos" para convidados, em dezembro de 2023, em São Paulo|Claudio Tavares/ISA
Sobre a diretora
Mariana Lacerda é cineasta e documentarista natural de Recife (PE), formada em Jornalismo e mestre em História da Ciência pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Dirigiu Gyuri, filme feito ao lado de Claudia Andujar e Davi Kopenawa, lançado em 2020. Mais recentemente, dirigiu a série infantil para Tv Histórias de Fantasmas Verdadeiros para Crianças (2024) e o filme Eu sou uma arara (2023), ao lado de Rivane Neuenschwander, exibidos em festivais e mostras do Brasil, Alemanha, França, México e Colômbia.
Mostra Ecofalante de Cinema 2024
Reconhecida como o mais importante evento sul-americano para a produção audiovisual ligada às temáticas socioambientais, a Mostra chega à sua 13ª edição com cardápio composto por 122 filmes, representando 24 países. Ao longo do segundo semestre do ano, serão feitas itinerâncias em cidades do estado de São Paulo e em todo o país, com o objetivo de democratizar o acesso às obras excepcionais que incentivem o desenvolvimento sustentável do planeta por meio da educação e da cultura.
Reserva Cultural – Avenida Paulista n° 900, Bela Vista, São Paulo - SP
Centro Cultural de São Paulo (CCSP) – Rua Vergueiro nº 1000, Paraíso, São Paulo - SP
Entrada gratuita
Quinta-feira, 1 de agosto, às 17h15 – Sala 3 do Reserva Cultural
Programação 1
O Brasil Grande e os Índios Gigantes
Panará, A Volta por cima dos Índios Gigantes
Terra Yanomami celebra 30 anos da homologação
Rionegrinas
Sexta, 2 de agosto, às 17h – Sala 3 do Reserva Cultural
Programação 2
Volta Grande
Antes da Chuva
Rio Pardo, o retorno dos beiradeiros ao seu território
Sistema Agrícola Quilombola
Sábado, 3 de agosto, às 16h e às 17h30 – Sala 2 do Reserva Cultural
16h: Estreia de Mapear Mundos
17h30: Bate-papo sobre a atuação do ISA ao longo dos seus 30 anos, avanços e retrocessos em relação à garantia dos direitos dos povos originários, com a liderança do Rio Negro, André Baniwa, a vice-presidente do ISA, Marina Kahn, e a diretora Mariana Lacerda
Terça, 13 de agosto, às 20h – Sala 2 do Reserva Cultural
Exibição de Mapear Mundos
Terça, 13 de agosto, às 14h30 – Sala 2 do Reserva Cultural
Programação 1
O Brasil Grande e os Índios Gigantes
Panará, A Volta por cima dos Índios Gigantes
Terra Yanomami celebra 30 anos da homologação
Rionegrinas
Quarta, 14 de agosto,às 14h15 – Sala 2 do Reserva Cultural
Programação 2
Volta Grande
Antes da Chuva
Rio Pardo, o retorno dos beiradeiros ao seu território
Sistema Agrícola Quilombola
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
“Quero que vocês, brancos, escutem minhas palavras e defendam nossa floresta”
Autores Darysa Yanomami e Mozarildo Yanomami leram cartas para não indígenas no lançamento de 'Diários Yanomami' n' A Feira do Livro de SP
A viagem da Terra Indígena Yanomami até A Feira do Livro, em São Paulo, percorreu mais de três mil quilômetros. Enquanto faziam a longa jornada da terra-floresta Yanomami à "selva de pedra" paulista, Darysa Yanomami e Mozarildo Yanomami escreveram cartas para o público do auditório Armando Nogueira, em mesa que aconteceu no dia 5 de julho.
Os dois, que formam parte do grupo de cinco autores indígenas de Diários Yanomami: Testemunhos da destruição da floresta (ISA, 2024), tiveram a missão de lançar o livro – e fazer ecoar as urgentes palavras do povo Yanomami – em um dos maiores eventos literários do país. Em suas mensagens, um desejo comum: que os povos da floresta e da cidade se unam para lutar contra o garimpo na maior Terra Indígena do Brasil.
“Se todos vocês todos se juntarem a nós, unidos, conseguiremos afastar os garimpeiros e resolver os outros problemas da Terra Indígena Yanomami”, convocou Mozarildo em sua carta. "Eu quero (...) que vocês, brancos, escutem minhas palavras e defendam nossa floresta", pediu Darysa.
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Mozarildo Yanomami e Darysa Yanomami (ao centro), com Fabrício Araújo (esq), do ISA, e Corrado Dalmonego, organizador da obra|Júlio César Almeida/ISA
Durante a viagem e no palco d’A Feira do Livro, os Yanomami estiveram com Corrado Dalmonego, padre missionário da Consolata e do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), um dos organizadores do livro e o responsável pela tradução.
“Agora, vocês não indígenas podem ler as nossas palavras”
Darysa foi a primeira a ler sua carta, escrita à mão em um caderno de anotações. Assim como no livro, a primeira versão do texto, na página ímpar, estava escrita em Yanomami e a página seguinte, traduzida para o português. A pesquisadora optou por ler em português.
“Agora, vocês não indígenas podem ler as nossas palavras. Isso é bom para mim. Ao lerem essas palavras, vocês também irão pensar direito. Vocês vão conhecer o sofrimento de nós Yanomami e quero que também vocês defendam nossa floresta”, diz trecho.
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Darysa Yanomami, n'A Feira do Livro: "Ao lerem essas palavras (...) Vocês vão conhecer o sofrimento de nós, Yanomami"|Júlio César Almeida/ISA
Cada capítulo do livro foi escrito por um pesquisador Yanomami. Darysa é responsável pelo terceiro capítulo, com cinco episódios ao todo. Ela entrevistou mulheres Yanomami de diversas regiões e também hospedadas na Casa de Saúde Indígena em Boa Vista (Casai) e transcreveu as conversas na íntegra.
Para Dalmonego, “o bonito deste livro é ser coletivo e colaborativo. Além de suas vozes, os autores trazem a de parentes, de lideranças e as vozes da floresta que está morrendo”, disse.
O capítulo de abertura é literalmente um diário escrito por Mozarildo Yanomami. Durante a mesa, o mediador Fabrício Araújo, jornalista do Instituto Socioambiental (ISA), leu o início do capítulo descrevendo que aquele trecho em específico o havia fisgado para a leitura completa do livro:
“Os garimpeiros pensam, ‘será que os Yanomami não têm sentimentos?’, e dizem: ‘nós, garimpeiros, não temos medo de vocês, Yanomami’. Fico angustiado porque eles semeiam o medo entre nós, por isso, advirto vocês.”
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“Os garimpeiros pensam, ‘será que os Yanomami não têm sentimentos?’", pergunta Mozarildo Yanomami em trecho do livro|Júlio César Almeida/ISA
Alfredo Himotona é o autor do segundo capítulo, que traz entrevistas com outros Yanomami. Josimar Palimitheli também apresenta o formato de diários no quarto capítulo, enquanto Márcio Hesina, que escreveu a última parte do livro, apresenta notas de uma pesquisa sobre o emagrecimento de crianças.
Na manhã do dia seguinte, os Yanomami e Corrado Dalmonego retornaram à feira para prestigiar uma mesa que contou com a participação da antropóloga e escritora Hanna Limulja, amiga de longa data que escreveu O desejo dos outros – Uma etnografia dos sonhos yanomami, livro sobre os sonhos na cosmologia Yanomami.
À tarde, seguiram para o Museu A CASA do Objeto Brasileiro, que até 25 de agosto recebe a exposição ISA 30 anos: por um Brasil socioambiental. Com lotação máxima, eles assistiram ao filmeEscute: A Terra Foi Rasgada, que aborda o problema do garimpo em Terras Indígenas de três povos – Kayapó, Yanomami e Munduruku – e cuja exibição gratuita contou com falas de Enio Yanomami, responsável pelo setor de saúde da Hutukara Associação Yanomami (HAY), e da diretora Cassandra Mello.
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Casa cheia para assistir a 'Escute: A terra foi rasgada' e ao bate-papo com Enio Yanomami no Museu A CASA do Objeto Brasileiro|Adriana Miranda/ISA
No domingo, foi a vez de conhecer o Museu das Culturas Indígenas (MCI) e os parentes do povo Guarani, na Terra Indígena Jaraguá. Em uma visita guiada por Karai Djekupe (Thiago Guarani) à Tekoa Yvy Porã-Jaraguá, eles puderam aprender sobre a história de uma das menores Terra Indígena do Brasil e as atividades que os indígenas desenvolvem, como a criação de abelhas, oficinas de armadilhas para crianças e rituais sagrados. Depois disso, ainda tiveram fôlego para subir o Pico do Jaraguá – o ponto mais alto de São Paulo – em uma trilha de cerca de 40 minutos.
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Darysa e Mozarildo Yanomami posam em frente a mural com pinturas Yanomami, no Museu de Culturas Indígenas de São Paulo|Daniel Jabra
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Mozarildo Yanomami observa a cidade do topo do Pico do Jaraguá|Daniel Jabra
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Darysa Yanomami caminha até o final da trilha até o Pico do Jaraguá|Daniel Jabra
No dia seguinte, retornaram na longa viagem até a terra-floresta Yanomami, enquanto suas palavras seguiam ecoando pela cidade de concreto. “Eu não escrevi à toa. Todos vocês, brancos, que vivem em diversos lugares, e que agora estão aqui nesta Feira do Livro de São Paulo, olhem este livro! Depois que vocês lerem este nosso livro, vocês irão pensar direito! Vocês vão nos defender dos garimpeiros que provocam todo este sofrimento”, convocou Mozarildo Yanomami em sua carta aos não indígenas.
A produção editorial é assinada por Estêvão Senra, geógrafo do ISA, que também faz parte dos times de organização e edição junto a Alcida Ramos e Corrado Dalmonego. A tradução de Yanomae para Português foi feita por Dalmonego conjuntamente com os pesquisadores.
A publicação tem apoio do Fundo das Nações Unidas para a criança e adolescente (UNICEF), da Rainforest Foundation Norway e do Centro de Documentação Indígena (Missionários da Consolata). Também contribuem com apoio financeiro o Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária da União Europeia (ECHO) da União Europeia.
Certo, eu fiz minha pesquisa porque nós Yanomami queremos viver bem e com saúde.
Depois de fazer esta pesquisa e de de fazer conhecer o que escrevemos quero que também outros Yanomami fiquem esclarecidos.
Mas eu quero também que vocês brancos escutem minhas palavras e defendam nossa Floresta, por isso fiz esta pesquisa.
Nós Yanomami não queremos sofrer. Nós queremos viver em uma Floresta bonita por isso quero fazer ouvir minhas palavras.
Eu escrevi minha pesquisa, depois de escrever no caderno, eu digitei no computador, e depois o Corrado fez a tradução.
Em minha pesquisa, eu perguntei para as mulheres Yanomami. Elas escutam que os garimpeiros devastam nossa Floresta, elas veem que nossos filhos sofrem desnutrição e dizem com força que não querem que os garimpeiros se aproximem. Quando os garimpeiros
ficam perto, a floresta fica poluída, suja , os peixes
acabam, as crianças emagrecem, é assim que as pessoas ficam.
Para mim foi bom fazer pesquisa, por isso fico contente com este trabalho.
Agora, nossa pesquisa se tornou um livro, é visível, por isso estou satisfeita.
Agora, vocês não indígenas podem ler as nossas palavras. Isso é bom para mim.
Neste livro tem o pensamento de nós mulheres Yanomami: como nós verdadeiramente pensamos.
Ao lerem essas palavras, vocês também irão pensar direito.
Vocês vão conhecer o sofrimento de nós Yanomami e quero que também vocês defendam nossa floresta.
Certo, é assim que eu queria falar para vocês em São Paulo, eu mesma que fiz esta pesquisa.
Carta de Mozarildo Yanomami aos não indígenas
Eu sou pesquisador yanomami e trabalhei junto com os meus parceiros do Instituto Socioambiental, da Diocese de Roraima e da Hutukara Associação Yanomami. Nós fizemos a pesquisa chamada Urihi Temi (para nós significa Floresta Viva) e escrevemos sobre a destruição que o garimpo ilegal está provocando na nossa terra yanomami.
Começamos a trabalhar nesta pesquisa em 2021, mas eu já tinha conhecimento do que acontecia antes. Eu morei em duas regiões da terra Yanomami: morei mesmo onde os garimpeiros trabalham faz muito tempo, e também em outro local onde destruíram só um pouco e foram embora. Eu vi tudo isso com meus olhos.
Estas organizações nos ajudaram a fazer a pesquisa, por isso, agora, vocês podem ver o nosso trabalho que virou um livro.
Se eu tivesse trabalhado sozinho, pouca gente teria como ler minhas palavras. O Instituto Socioambiental, a Diocese de Roraima e a Hutukara nos apoiaram. Por isso, agora vocês podem ler este livro e podem conhecer o que os garimpeiros provocam onde nós moramos, na nossa Terra Yanomami. As palavras escritas neste livro mostram a destruição provocada pelo garimpo, por isso, vocês escutem estas palavras!
Eu não escrevi à toa. Todos vocês brancos, que vivem em diversos lugares, e que agora estão aqui nesta Feira do Livro de São Paulo, olhem este livro! Depois que vocês lerem este nosso livro, vocês irão pensar direito! Vocês vão nos defender dos garimpeiros que provocam todo este sofrimento.
Eu sei que vocês de longe, vocês que moram aqui em São Paulo, já nos defenderam. Eu sei que vocês já conhecem o sofrimento que os garimpeiros causam aos Yanomami. Eu sei que vocês sabem que a floresta está sendo destruída. Alguns de vocês querem aprender com o livro que nós escrevemos.
Depois que vocês terão lido este livro eu ficaria feliz que pudessem fazer pressão sobre os deputados, os senadores e os outros políticos que tomam as decisões no Brasil.
Eu sei... tem gente, entre os brancos, que pensa que os garimpeiros podem ficar na terra yanomami. Tem pessoas que pensam assim. Aqui no Brasil, moramos nós indígenas, os Yanomami e os indígenas de outros povos, e também vocês não indígenas, mas alguns dos brasileiros têm ódio de nós Yanomami e não nos protegem da agressão dos garimpeiros.
Assim, eu penso que com a nossa pesquisa, todos podem ouvir nossas palavras e nos proteger. Por isso eu fico feliz que nosso livro seja conhecido.
Eu penso também que se vocês todos se juntarem a nós, unidos, conseguiremos afastar os garimpeiros e resolver os outros problemas da terra Yanomami. É também por isso que eu fiz esta pesquisa. Falo isso para vocês. Pensem isso, depois de ler nossas palavras
Eu quero também falar minhas palavras para os brancos de longe: os de outras terras que falam línguas diferentes, mas que nos defendem. Fiquem de olho no que acontece! O que escrevemos é tudo verdade! Escutem nossas palavras! Nós, aqui, não estamos vivendo nada bem.
O nosso pensamento não está sossegado. Nós estamos muito preocupados! Não vivemos mais no silêncio e na tranquilidade da floresta. É por isso que eu quero divulgar nossas palavras.
Assim, penso que talvez nossa floresta poderá se tornar, de novo, bonita. Eu espero que vocês, lendo nossas palavras, possam pensar direito.
Todos vocês brancos já sabem que os garimpeiros estão nos destruindo. Vocês sabem o sofrimento do meu povo, sabem que estão destruindo a floresta, os rios, os peixes e o barulho de seus maquinários está espantando os animais.
Isso deixa com raiva! Por isso fiz esta pesquisa que virou livro.
É isso que eu queria dizer aqui, para vocês, em São Paulo.
Estamos lançando este livro. Diários da Floresta.
Vocês em português, dizem que é um “livro” e nós yanomami chamamos isso de “papel sipë” “pele de papel”.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Assembleia elege primeiro presidente Baniwa da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro
FOIRN será conduzida por Dário Baniwa e Janete Desana, eleita primeira vice-presidente mulher. Gestão de Marivelton Baré teve como desafios a pandemia e o governo Bolsonaro, mas saiu fortalecida
A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), que atua na Bacia do Rio Negro, tem novo diretor-presidente. Os povos do Rio Negro elegeram durante a XVII Assembleia Geral Ordinária Eletiva, em São Gabriel da Cachoeira (AM), na sexta-feira (28/06), Dário Casimiro, do povo Baniwa. É a primeira vez que um representante do povo Baniwa estará à frente da federação. O atual diretor-presidente é Marivelton Barroso, povo Baré, que esteve no cargo por dois mandatos.
Janete Alves, do povo Desana, é a nova vice-presidente, sendo a primeira mulher a assumir o cargo. A diretoria é composta ainda por Carlos Nery, do povo Piratapuya, Hélio Lopes, do povo Tukano e Edson Cordeiro, do povo Baré.
A nova composição, que será empossada em agosto, assume a FOIRN em um momento de crescimento e fortalecimento da federação e do movimento indígena – no cenário regional e nacional.
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Marivelton Baré (centro) ladeado pelo novo presidente da FOIRN, Dário Baniwa, e a nova vice-presidente, Janete Desana|Ana Amélia Hamdan/ISA
Além disso, as pautas indígenas vêm ganhando atenção no mundo todo, em grande parte devido à emergência climática. Isso porque os modos de vida dos povos originários representam uma alternativa à crise, porém, são também os mais ameaçados pelas mudanças climáticas.
Em depoimento logo após a eleição, Dário Baniwa agradeceu aos delegados e falou sobre a luta por direitos territoriais. “Em nome do povo Baniwa e Koripako, eu quero agradecer às lideranças que me antecederam e, em especial, ao nosso amigo Isaías Fontes, in memoriam. E quero agradecer a todos os povos indígenas do Rio Negro. Contem comigo: estamos juntos em prol dos direitos territoriais para o nosso bem viver. Na história de lutas e conquistas dos povos do Rio Negro, especificamente os Baniwa chegam pela primeira vez à presidência da FOIRN”, declarou.
Isaías Fontes, do povo Baniwa, foi diretor da FOIRN entre 2016 e 2020 e havia sido reconduzido para o segundo mandato quando faleceu, em fevereiro de 2021, após contrair Covid-19.
“Vamos fazer uma gestão com os cinco diretores. Precisamos de uma gestão democrática, dialógica. Estou aberto às orientações das lideranças mais antigas. E digo aos nossos parceiros: a FOIRN estará de braços abertos para o diálogo, para acordos de cooperação técnica e que possam trazer apoios em prol de nossos direitos”, disse Dário Baniwa.
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Votação parcial dos candidatos à direção da FOIRN. Dário Baniwa foi eleito novo diretor-presidente da federação indígena |Ana Amélia Hamdan/ISA
Janete Alves também agradeceu aos povos do Rio Negro e falou da representatividade de jovens e mulheres. “Quero agradecer pelo voto de confiança. Agradeço em especial à minha coordenadoria [Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauaretê] COIDI e a todas as delegações que votaram em mim. Eu venho lutando pela conquista de espaço para as questões de gênero e juventude. E a gente mostra como movimento indígena que temos dado essa oportunidade para mulheres e jovens. Para mim é um marco histórico eleger uma vice-presidente. Para mim é uma honra”, comemorou.
Em uma fala emocionada, o atual diretor-presidente, Marivelton Baré, agradeceu aos povos do Rio Negro, parabenizou os eleitos e falou dos desafios a serem enfrentados.
“Foi a nossa luta incansável e conjunta que nos trouxe até aqui. O movimento é o controle social: a gente luta e conquista. Para a gente, é um sonho fortalecer a FOIRN. Peço aos parceiros, financiadores e lideranças que mantenham o compromisso conosco. Movimento indígena é luta, é direito coletivo. Nós vamos ter que defender o processo de demarcação de terra e temos o desafio de segurança na fronteira, do monitoramento, da proteção territorial, dos direitos humanos”, elencou.
A assembleia aconteceu no auditório do Instituto Federal do Amazonas (Ifam) e contou com 150 delegados – 30 de cada uma das cinco coordenadorias da federação – um modelo democrático reconhecido nacionalmente. O encontro multiétnico reuniu indígenas dos povos Baniwa, Koripako, Desano, Baré, Tukano, Tuyuka, Piratapuya, Tariano, Wanano, Yanomami, Dâw, Hupä´h, entre outros.
Liderança histórica do Rio Negro, Maximiliano Correa Menezes, do povo Tukano, afirmou que um dos grandes desafios da FOIRN é crescer sem perder o contato com as bases, ou seja, com quem está no território indígena. “É necessário termos presença constante dos diretores nas bases. Estar em Brasília e Manaus é importante, mas não podemos descuidar dos nossos projetos de sustentabilidade no território”, recordou. Ele acompanhou o surgimento da FOIRN – que completou 37 anos em 2024 – e fez parte da diretoria por 12 anos.
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Maximiliano Correa Menezes, do povo Tukano, trouxe reflexões sobre o movimento indígena para a assembleia da FOIRN|Ana Amélia Hamdan/ISA
A FOIRN conta atualmente com 74 funcionários e cerca de 330 colaboradores, entre comunicadores, articuladores, agentes ambientais e outros, e 92 associações. Durante a atual gestão, a federação triplicou o número de funcionários e passou a ter novos parceiros.
“Este crescimento teve como base projetos que ampliam e aprofundam os eixos de ação em que a Federação atua e que foram acordados com sua base a partir da elaboração de 10 PGTAs (Planos de Gestão Territorial e Ambiental) publicados. Foi possível fortalecer as instâncias de governança, aumentando o número de conselheiros, de participantes nas assembleias e ampliar seus departamentos que agora contam com articuladores regionais nas áreas de educação, jovens, comunicadores e mulheres indígenas”, analisou o antropólogo do Instituto Socioambiental (ISA), Renato Martelli.
Dário Baniwa e Janete Desana foram reeleitos como diretores de referência das coordenadorias regionais Nadzoeri e Coidi, respectivamente. Carlos Nery fica à frente da Caimbrn, antes ocupada pelo diretor-presidente Marivelton Barroso, povo Baré. Hélio substitui Nildo Fontes, Tukano, que atuava como vice-presidente e diretor de referência da Diawi´i. Edson Gomes, povo Baré, fica no lugar de Adão Francisco, povo Baré, da Caibarnx.
A FOIRN atua numa das regiões mais preservadas da Amazônia, em área de abrangência dos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, na Bacia do Rio Negro, no Amazonas. São 23 povos indígenas que convivem ancestralmente num território de aproximadamente 13 milhões de hectares com 12 Terras Indígenas reconhecidas e outras em processo de identificação pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
Desde as roças tradicionais até os rituais de proteção, o Alto e Médio Rio Negro resguardam um modo de vida indígena diverso, com um sistema político e de trocas que resiste milenarmente.
Mas a região sofre com a deficiência de políticas públicas referentes às mais diversas áreas, como saúde, educação, meio ambiente e segurança pública. Ainda assim, junto com os parceiros, a FOIRN vem constantemente propondo projetos que levam em conta a realidade local e a cultura ancestral indígena, atuando em áreas como etnoeducação, economia da sociobiodiversidade, proteção territorial e medidas de mitigação às mudanças climáticas.
Entre os problemas enfrentados estão as pressões crescentes do narcotráfico, garimpo, turismo ilegal, além de violência de gênero. Os impactos das mudanças climáticas também estão sendo sentidos, com a região passando por dois anos de cheias extremas e, em 2023/2024, pela seca histórica.
Alianças e parcerias
A assembleia da FOIRN aconteceu entre os dias 25 e 28 de junho. Foram debatidos temas como o crescimento da federação, fortalecimento de sua atuação como controle social e das associações de base para a sustentabilidade de projetos da sociobioeconomia e, ainda, transição geracional dentro do movimento indígena e a incidência para as políticas públicas de longo prazo de forma a implantar os PGTAs.
A aliança com instituições governamentais e não governamentais é uma das marcas de atuação da FOIRN e continua sendo apontada como uma forma de fortalecimento dos povos indígenas.
Vários parceiros estiveram presentes na reunião. A coordenadora-adjunta do Programa Rio Negro do ISA, Natália Pimenta, apresentou o planejamento estratégico do ISA e projetos em desenvolvimento no território, orientados a fortalecer os espaços de transparência com os parceiros.
“O ISA trabalha com a defesa dos direitos sociais das comunidades tradicionais. Esse trabalho só faz sentido em diálogo com as organizações que estão no território e são detentoras dos conhecimentos de suas regiões. Temos olhado, junto com a FOIRN, para a necessidade de uma formação intercultural para as equipes técnicas da federação, as associações e lideranças. Essa formação deve ser continuada, considerando que há novas lideranças jovens chegando e há preocupação com a transição geracional”, sublinhou.
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Natália Pimenta, coordenadora-adjunta do Programa Rio Negro do ISA, apresentou o planejamento estratégico da instituição|Ana Amélia Hamdan/ISA
A coordenadora da Funai - Coordenação Regional Rio Negro – CR-RN, Maria do Rosário Piloto, Dadá Baniwa, falou da importância das parcerias para o enfrentamento aos desafios da região do Rio Negro e fortalecimento dos povos indígenas, citando o Acordo de Cooperação Técnica (ACT) assinado entre Funai, FOIRN e ISA.
Chefe do ICMBio em São Gabriel da Cachoeira, Daniel Assis falou sobre a atuação conjunta com a FOIRN e o ISA nas TIs em sobreposição com o Parque Nacional Pico da Neblina.
Para Mariazinha Baré, da Apiam, a FOIRN é uma escola para outras organizações. “Com seus 37 anos, dentro de um processo de luta, a FOIRN tem sede própria e faz sua própria gestão administrativa e financeira. Esse foi um sonho dos que antecederam as atuais lideranças. É necessário também pensar em como manter a qualificação de pessoal em diálogo constante com o movimento indígena para uma formação técnica, mas também crítica e política. A formação deve qualificar futuras lideranças para que possam ser propostivas”, ponderou.
Toya Machinery, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), indica que a FOIRN vem se consolidando como referência na Amazônia e se torna exemplo para outras regiões. “Vimos a transformação e o fortalecimento da FOIRN, com um modelo político e administrativo que fortalece as ações no território. A gente vê que só demarcar não faz que o território fique nas mãos dos povos, é necessário termos atuações diversas. A FOIRN se consolida como exemplo na Amazônia. Com apoio de parceiros como [Operação Amazônia Nativa] Opan, Conselho Indigenista Missionário [Cimi] e ISA, temos conquistas na Amazônia: são 110 milhões de hectares de Terra Indígena na Amazônia Brasileira. Queremos fortalecer essa atuação e as organizações em outras regiões também”.
Pela primeira vez, o encontro foi transmitido ao vivo pelas redes sociais da FOIRN, com atuação do Departamento de Comunicação (Decom) e Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas do Rio Negro. O cineasta indígena Kamikia Kisedje participou da cobertura. Segundo a coordenadora do Decom, Gicely Ambrosio, a transmissão foi acompanhada de vários lugares do território indígena, como Querari, São Joaquim, Iauaretê e Maturacá.
Fortalecimento da Foirn
Marivelton Baré ocupou dois mandatos como diretor-presidente da FOIRN (2016-2020 e 2020-2024). Antes de assumir a presidência, foi diretor de referência para a sua região. Ele esteve à frente da federação durante o governo Bolsonaro – declaradamente anti-indígena – e a crise sanitária da Covid-19.
Marivelton assumiu a coordenação do Comitê de Combate e Enfrentamento à Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira, tendo papel essencial na articulação de parcerias para garantir estrutura mínima de atendimento aos povos indígenas. O enfrentamento à pandemia na região também foi marcado pelo fortalecimento dos conhecimentos da medicina indígena.
Em São Gabriel da Cachoeira, um marco do fortalecimento da FOIRN foi a inauguração de uma segunda sede, em fevereiro. Ainda durante a gestão de Marivelton Barroso e a diretoria de Nildo Fontes, Janete Desana, Dário Baniwa e Adão Francisco, foi aprovado o Protocolo de Consulta dos Povos do Rio Negro, importante instrumento de proteção e garantia dos direitos.
Outro ponto importante foi o fortalecimento da economia da sociobiodiversidade: a Casa Wariró ampliou negócios e vem construindo parcerias com as artesãs e artesãos dos Rio Negro para levar adiante o artesanato e a cultura do Rio Negro, gerando renda e protegendo a cultura. Há ainda a estruturação dos projetos de turismo de base comunitária, como o Yaripo, no Território Yanomami, e Serras Guerreiras de Tapuruquara.
Na área de comunicação, a FOIRN fortaleceu o Departamento de Comunicação (Decom) e ampliou conexões, com a instalação de aproximadamente 330 antenas Starlink no território.
A Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas inaugurou a rádio web e mantém três programas de rádio semanais, além de atuação nas redes sociais. O coletivo de comunicação indígena recebeu dois prêmios em reconhecimento à sua atuação: do Repórteres sem Fronteiras e World Justice Project, em Haia, na Holanda.
Em relação às pesquisas interculturais, houve a ampliação da rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs), que observam o ambiente nas comunidades da Amazônia, fazendo anotações em diários e tablets. Para fortalecimento das associações e defesa do território, foram contratados advogados indígenas.
O Departamento de Mulheres Indígenas (DMIRN) e o Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas (DAJIRN) passaram a contar com o coordenador e com articuladores nas bases, de forma a ampliar a representatividade. Atualmente, o coordenador do DAJIRN é Elson Kene, povo Baniwa, e do DMIRN é Cleocimara Reis, povo Piratapuya.
“Como mulheres, ainda temos desafios para encontrar espaços e desenvolver projetos. Mas o DMIRN é um exemplo para mulheres de outras regiões e daqui também. Isso nos fortalece”, disse Cleocimara Reis.
Luciane Lima, povo Tariano, está à frente do Departamento de Negócios da Sociobiodiversidade. Ela ressalta que nos últimos anos a Wariró recuperou a confiança dos artesãos por meio de articulações e encontros regionais nas comunidades indígenas. O Departamento de Educação Indígena é coordenado por Melvino Fontes, povo Baniwa. Hildete Araújo está à frente do Departamento de Patrimônio Cultural e Pesquisa Intercultural.
Na abertura da Assembleia da FOIRN, o diretor eleito Edson Gomes, do povo Baré, trouxe uma reflexão sobre as mudanças na região. “Vocês estão chegando das mais diversas calhas dos rios: Içana, Xié, Baixo Rrio Negro, Alto Rio Negro. Vieram de voadeira, barco, expresso. Alguns vieram de avião. Antigamente não existia isso. Nossos avós remavam dias para chegar ao local. As pessoas que iniciaram essa discussão que damos continuidade hoje, remavam. Por que estou dizendo isso? Este é o momento de a gente refletir em que ponto estamos. E o que queremos conseguir ainda.”
Conheça a nova diretoria da FOIRN:
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Nadzoeri (Organização Baniwa e Koripako)
Diretor de referência: Dário Emílio Casimiro, povo Baniwa
Dário Baniwa, de 38 anos, nascido na comunidade de Nazaré, é do clã Waliperi-Dakenaii dos Baniwa. Formado em educação indígena e mestre em antropologia social pela UFAM, atua como professor e assessor pedagógico. Após concluir o mestrado, voltou a São Gabriel da Cachoeira e assumiu a coordenação do departamento de educação da FOIRN. Em 2021, foi eleito diretor de referência da Nadzoeri e reeleito em 2024. Em 28 de junho, tornou-se o primeiro de seu povo a ser eleito diretor-presidente da FOIRN. Fala Baniwa e Nheengatu.
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COIDI (Coordenadoria das Associações Indígenas de Iauaretê)
Diretora de referência: Janete Figueiredo Alves, povo Desana
Janete Alves, nascida em Caruru Cachoeira, mudou-se para Iauaretê para acessar a educação. Lá, integrou a Pastoral da Igreja Católica e a Associação das Mulheres Indígenas (Amidi). Em 2017, foi eleita coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas da FOIRN, atuando na linha de frente contra a Covid-19. Em 2021 e 2024, foi eleita diretora de referência da Coidi. Em 28 de junho, tornou-se vice-presidente da FOIRN. Janete, de 37 anos, fala Tukano e Desano.
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Diawi´i (Coordenadoria das Organizações Indígenas do Tiquié, Uaupés e Afluentes)
Hélio Gessem Monteiro Lopes, povo Tukano
Nascido na comunidade de Colina do Rio Tiquié e criado em Taracuá, Hélio Lopes, de 30 anos, é o mais jovem diretor da FOIRN. Interrompeu o curso de técnico em administração para servir na Aeronáutica. Voluntário no movimento indígena, apoiou a Associação das Mulheres Indígenas da Região de Taracuá (AMIRT). Em 2022, participou do Acampamento Terra Livre, fortalecendo a luta indígena em meio a um contexto político adverso. Em 2024, foi eleito diretor de referência da região da Diawii. Hélio é do grupo Tukano Oákahapea e fala Tukano.
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CAIMBRN (Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro)
Carlos Alberto Teixeira Neri, povo Piratapuya
Carlinhos Neri, 51 anos, de Santa Isabel do Rio Negro (AM), formou-se técnico em agropecuária pelo IFAM. Engajou-se no movimento indígena após ser convidado pelo irmão para uma assembleia da ACIMRN. Atuou na proteção territorial e desenvolvimento de projetos culturais e socioeconômicos. Integrante do projeto que tornou o Sistema Agrícola do Rio Negro patrimônio cultural pelo Iphan, foi eleito diretor de referência para CAIMBRN em 2024. Fala Tukano e Nheengatu.
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CAIBARNX (Coordenadoria das Associações Indígenas do Balaio, Alto Rio Negro e Xié)
Edson Cordeiro Gomes, povo Baré
Edson Gomes, de 40 anos, filho de professores, sempre viveu na região do Alto Rio Negro. Participou da Pastoral da Juventude e atuou como professor. Envolveu-se no movimento indígena, trabalhando no Departamento de Educação e no Departamento de Negócios da Sociobiodiversidade da FOIRN. Em 2023, participou da tradução da Constituição para Nheengatu. Este ano, foi eleito diretor da CAIBARNX. É falante de Nheengatu e fundador da Academia de Língua Nheengatu.
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A não solução de Múcio para a invasão da Terra Yanomami
O presidente e sócio fundador do ISA, Márcio Santilli, comenta afirmação feita pelo ministro da Defesa, José Múcio, que defendeu o acesso de empresas de mineração à maior terra indígena do país
Márcio Santilli
- Sócio fundador e presidente do ISA
Indígenas Yanomami aguardam para receberem atendimento médico, em janeiro de 2023| Fernando Frazão/Agência Brasil/2023
*Artigo publicado originalmente no site do Congresso em Foco, em 21/06/24.
No último dia 7, a revista Carta Capital informou que o ministro da Defesa, José Múcio, defendeu o acesso de empresas de mineração à Terra Indígena Yanomami, como forma de substituir o garimpo ilegal, porque o governo não dispõe de recursos para cuidar da segurança regional. “Nós ficamos lutando pela conquista de um território que nós poderíamos estabelecer que a iniciativa privada poderia nos ajudar na ocupação do território”, disse. Segundo ele, “o índio ganharia”. As afirmações foram feitas no Seminário Internacional sobre Segurança Pública, Direitos Humanos e Democracia”.
Ele ainda complementou que isso já é feito em outros países. “Esse modelo seria brasileiro? Não, esse modelo é americano – Las Vegas é dos índios –, da Nova Zelândia, do Canadá, da Austrália. Esse modelo já funciona no mundo. Tirar os bandidos do processo e botar a sociedade para participar das áreas dos indígenas. Eles receberiam bem mais e as terras estariam preservadas”.
A declaração de Múcio causou perplexidade, pois o território Yanomami fica na fronteira com a Venezuela e o Exército mantém, na área, pelotões de fronteira para garantir a segurança nacional. Ele ignorou o questionamento já feito pelo presidente Lula sobre como o Exército defenderia o país de uma invasão externa, se não é capaz de erradicar o garimpo predatório.
Os garimpos que operam na região são altamente capitalizados, dominados por pequenos grupos poderosos, que mobilizam e manipulam a mão de obra informal de milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade. Dispõem de sofisticada logística aérea, que utiliza uma rede de pistas de pouso clandestinas, inclusive em território venezuelano. Investigações da Polícia Federal comprovam fortes vínculos entre os garimpos e o narcotráfico, envolvendo facções do crime organizado de ambos os países.
Risco reputacional
Múcio não parece preocupado com a reputação das Forças Armadas. Nem com a dele próprio, já que, sendo o ministro que responde pela estratégia de defesa nacional, não deveria embarcar numa tese tão mal informada. O ouro que ocorre é de aluvião e está presente em vários cursos d’água do território. Não há pesquisa mineral que comprove a existência de jazidas profundas, adequadas à mineração industrial convencional e legalizada.
A pesquisa é indispensável para localizar e dimensionar a jazida, além de identificar outras características relevantes para aferir a viabilidade econômica da sua exploração. Naquelas condições, o custo da própria pesquisa seria elevado e não seria possível realizá-la em áreas sob controle do garimpo. Retirar os garimpeiros seria condição básica para o ingresso de qualquer empresa.
Mesmo liberadas dos invasores, áreas degradadas por garimpo implicam um gigantesco passivo, adicional aos custos operacionais e logísticos, que não interessa a qualquer empresa. O garimpo depreda a própria jazida, erodindo o seu potencial de rentabilidade.
Além disso, em se tratando do povo Yanomami, conhecido no mundo todo, qualquer empresa séria levaria em conta o enorme risco reputacional inerente (que Múcio desprezou). Problemas operacionais, danos ambientais e conflitos com indígenas poderiam causar danos irreparáveis de imagem, dificultando o acesso a fundos de investimentos e a mercados mais exigentes.
Abdução
O modelo “Las Vegas” que Múcio deseja aplicar aos Yanomami é totalmente impróprio para uma população indígena de recente contato e que ainda dispõe de grupos isolados, que sequer mantêm relações regulares com a sociedade nacional. As áreas de mineração aventadas, no Canadá, Austrália e outros países, estão em geleiras ou em desertos que nada têm a ver com a Amazônia, com a sua biodiversidade e sistema hídrico.
Além disso, o modelo de Múcio está longe de ser o mais conveniente, pois são frequentes os conflitos entre empresas de mineração e povos originários nesses países. O ministro poderia balizar melhor as suas declarações se estivesse informado sobre os contratos já existentes entre a Vale e os Xikrin do Cateté (PA), ou da Paranapanema com os Waimiri-Atroari (AM), cujos territórios são vizinhos das minas.
Se José Múcio encontrar uma empresa que encare o risco reputacional, ocupe e retire os invasores de uma área de garimpo, assuma o passivo, pesquise e descubra uma jazida economicamente viável e banque os custos inerentes, conseguirá comprovar, apenas pontualmente, a sua hipótese. A substituição se dará na área daquela jazida, não afetando as demais áreas invadidas pelo garimpo.
A hipótese de Múcio pressupõe, ainda, a regulamentação em lei da pesquisa e lavra de minérios em Terras Indígenas, prevista na Constituição, mas até hoje não efetivada pelo Congresso. O tema está implícito numa ação direta de inconstitucionalidade por omissão (ADO), a ser julgada pelo STF, mas não há data para uma decisão. Por isso, a tese carrega muitas dúvidas sobre a disposição do Ministério da Defesa para retirar os invasores e proteger o território indígena até lá e depois.
O que fazer
Múcio deveria encarar de frente não apenas o custo e a ineficácia das operações intermitentes de retirada de garimpeiros, mas também dos pelotões de fronteira que não atendem às ameaças presentes. Deveria rever o atual sistema de controle do tráfego aéreo e considerar a implantação de uma base intermodal, que acolha todos os órgãos públicos e seja capaz de monitorar todos os acessos à região.
Com o respaldo do presidente Lula e do Itamaraty, Múcio poderia articular acordos de cooperação com a Guarda Nacional da Venezuela, para impedir o trânsito de garimpeiros e de insumos entre os dois países, combater o crime organizado e desenvolver ações assistenciais conjuntas para as comunidades fronteiriças.
Deveria, também, promover a incorporação da crise climática à visão estratégica das Forças Armadas (FAs), apequenada pelo negacionismo nos últimos anos. As FAs devem se antecipar à emergência, em vez de atuar a reboque dela. As Terras Indígenas e outras áreas de floresta são fundamentais para o país enfrentar a ameaça climática.
Finalmente, ou primeiramente, antes de fazer declarações públicas tão importantes e sujeitas a repercussões, Múcio deveria alinhá-las com Lula, com a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, e com dirigentes da Casa de Governo, instalada em Boa Vista (RR) para articular as ações junto aos Yanomami. A palavra do ministro da Defesa tem de ser de governo, para resolver, e não para terceirizar a responsabilidade pela segurança nacional.
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‘Diários Yanomami’ ganha lançamento na Floresta no Centro em SP
Livro escrito por autores Yanomami registra os impactos da invasão garimpeira na maior Terra Indígena do Brasil durante o governo Bolsonaro
Compre a sua edição de Diários Yanomami: Testemunhos da Destruição da Floresta, na loja online do ISA.
O geógrafo do Instituto Socioambiental (ISA), Estêvão Benfica Senra, estará presente explicando o processo de pesquisa desenvolvido pelos cinco autores Yanomami do livro.
“No período Bolsonaro com a desestruturação da presença do Estado no território, abandono de escolas, postos de saúde e outras estruturas, tinha-se uma situação muito angustiante: pessoas que haviam passado por processos formativos duradouros ficaram sem poder exercer suas funções, e sem perspectiva de trabalho”, explicou Senra.
Diante deste cenário, a pesquisa surgiu como uma forma de continuar apoiando esses indígenas além de ser uma forma de se produzir informações qualificadas sobre o território, com o objetivo de entender as mudanças que as comunidades experimentavam, com a explosão da invasão garimpeira.
Os autores do livro Diários Yanomami são Mozarildo Yanomami, Darysa Yanomami, Josimar Palimitheli Yanomami, Alfredo Himotona Yanomama e Marcio Hesina.
Os diários apresentam a percepção dos cinco autores e de seu povo sobre os impactos do garimpo na Terra Indígena Yanomami entre 2019 e 2022, período em que o Jair Bolsonaro (PL) ocupava o cargo de presidente do Brasil. A gestão foi marcada por políticas que estimularam a invasão garimpeira no território.
A publicação conta com relatos em formato de diários, registro de depoimentos e também entrevistas feitas pelos indígenas. O livro é bilíngue e sempre apresenta a primeira versão do texto em Yanomae com a tradução para português na página seguinte.
Lançamento em Boa Vista
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Da direita para a esquerda: Mozarildo Yanomami, Davi Kopenawa e Darysa Yanomami, tirando foto com o público no evento de lançamento do livro Diários Yanomami em Boa Vista (RR)|Rafael Oliveira/Mega Filmes/Hutukara/ISA
O primeiro acesso do público ao Diários Yanomami ocorreu em 24 de maio. O lançamento ocorreu no Centro Amazônico de Fronteira, o maior auditório da Universidade Federal de Roraima (UFFR) durante o evento Reahu na UFRR.
Na ocasião, os autores Darysa Yanomami e Mozarildo Yanomami estiveram acompanhados pelo xamã Davi Kopenawa, que também lançou o seu livro O Espírito da Floresta.
A publicação tem apoio do Fundo das Nações Unidas para a criança e adolescente (UNICEF), da Rainforest Foundation Norway e do Centro de Documentação Indígena (Missionários da Consolata). Também contribuem com apoio financeiro o Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária da União Europeia (ECHO) da União Europeia.
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