A Bacia do Rio Negro se estende pelos estados do Amazonas e de Roraima, no Brasil, e também avança pelos territórios vizinhos da Colômbia, Venezuela e Guiana. Na sua porção no Amazonas, a bacia é uma das regiões mais preservadas de todo o bioma amazônico, com biodiversidade incalculável. Por outro lado, a parte da bacia localizada em Roraima vem sofrendo grande degradação ambiental causada pelo garimpo ilegal de ouro, desmatamento e roubo de terra, ou "grilagem de terra".
Aproximadamente 68% da Bacia do Rio Negro no Brasil está formalmente protegida por um conjunto de unidades de conservação e terras indígenas legalmente reconhecidas. A diversidade cultural da região é enorme: ali vivem 45 povos indígenas e estão localizados dois patrimônios culturais do Brasil – a Cachoeira de Iauaretê e o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro – além do ponto mais alto do Brasil, o Pico da Neblina, lugar sagrado do povo Yanomami.
No Rio Negro, o ISA mantém trabalho de longo prazo e parceria institucional - que nos enche de orgulho - com associações indígenas e suas lideranças, entre elas a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), a Hutukara Associação Yanomami (HAY) e o Conselho Indígena de Roraima (CIR).
Mantemos escritório e equipe na cidade de São Gabriel da Cachoeira (AM), considerado o município mais indígena do Brasil, localizado no Alto Rio Negro. De São Gabriel, também descemos com as águas do Negro para apoiar comunidades e associações indígenas dos municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, ambos no Amazonas. Em 2009, o ISA incorporou a organização Comissão Pró-Yanomami (CCPY), sua equipe e legado, abrindo escritório em Boa Vista (RR) e passando a atuar diretamente com o povo Yanomami e outros povos de Roraima.
Atualmente, o ISA atua na Bacia do Rio Negro com a promoção de processos formativos, articulando parcerias para a proteção dos territórios indígenas, valorização da diversidade socioambiental, segurança alimentar das comunidades, desenvolvimento de cadeias de valor da economia da floresta para geração de renda e produção de pesquisas interculturais que dêem visibilidade aos conhecimentos tradicionais e modos de vida das populações que, há muitos anos, mantém as florestas da região preservadas.
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Hidrelétrica Bem Querer seria uma das menos eficientes do país, aponta estudo
Análise consta em publicação do Fórum de Energias Renováveis de Roraima, que avalia riscos e incertezas do projeto
Membros da fundação colegiada do Fórum. Da esquerda para a direita: Rosilene Maia, Ciro Campos e Conceição Escobar 📷 Fabrício Ribeiro/Fórum de Energias Renováveis de Roraima
O Fórum de Energias Renováveis de Roraima lançou uma publicação que analisa os riscos e incertezas na construção da Hidrelétrica Bem Querer, com destaque para o diagnóstico de que o projeto seria um dos menos eficientes no país.
O livro, disponível em formato e-book, também aponta outras alternativas para o futuro energético de Roraima, baseadas em empreendimentos mais diversificados e de menor porte, utilizando as potencialidades locais e adotando o modelo de negócios usado no 1º leilão de energia de Roraima, realizado em 2021.
Em 2007, a Empresa de Pesquisa Energética iniciou os estudos de inventário da Bacia do Rio Branco. Publicado em 2011, o documento foi aprovado no mesmo ano pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e no ano seguinte, inicia-se os estudos de viabilidade técnica.
As principais preocupações que foram trazidas pela sociedade durante os vários eventos realizados pelo Fórum de Energias foram reunidas no livro. Veja algumas delas:
- Grande área alagada, atingindo florestas, áreas urbanas e rurais, fazendas e terras indígenas;
- Alto risco hidrológico com geração de energia baixa ou nula durante o período seco.
- Elevação do lençol freático, com consequente aumento do alagamento durante as cheias, sobretudo em Boa Vista;
- Perdas econômicas na área alagada, impactando na agropecuária, estradas, turismo, pesca, lazer, etc;
- Perda das corredeiras do Bem e Querer e de 130 km de praias no rio Branco.
- Elevada emissão de gás metano pelo reservatório da usina.
- Piora nos indicadores de saúde, segurança, educação, custo de vida e outros, principalmente em Caracaraí;
- Bloqueio do rio Branco para a passagem de peixes e embarcações;
- Retenção dos sedimentos no reservatório, reduzindo os nutrientes e alterando a qualidade da água rio abaixo;
De acordo com Ciro Campos, um dos coordenadores do Fórum de Energias, o estudo mostra que a hidrelétrica seria mais importante para Manaus do que para Roraima. Está previsto no projeto que a linha seria usada para transmitir a Manaus parte da energia gerada.
“Está faltando energia em Manaus e recentemente até compraram 700 M de usinas térmicas a gás. Bem Querer seria importante para enviar energia para Manaus e equilibrar a tensão do Linhão que está chegando, durante a cheia do Rio Branco”, diz o pesquisador do Instituto Socioambiental (ISA).
“Nosso estado teria que conviver com impactos irreversíveis e de larga escala, em troca de uma quantidade de energia que poderia ser obtida de outras formas, gerando menos impactos e mais empregos em Roraima”, complementa.
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Jovens de Roraima apresentam protesto contra usina durante lançamento do E-book|Fabrício Ribeiro/Fórum de Energias Renováveis de Roraima
O projeto formaria um lago com 130 km de comprimento e 519 km² de área com barragem construída sob o Rio Branco, o maior rio de Roraima. Tanto o tamanho, quanto a localização do projeto causam inquietação na sociedade local,
Conforme o estudo, a ideia da Usina Hidrelétrica Bem Querer começou ser materializada em 2007 e, apesar das alterações sofridas ao longo do processo, como a redução da potência de 708 para 650 MW, os riscos e incertezas do projeto permanecem, como os riscos relacionados ao tamanho do alagamento e à elevação do lençol freático.
Também há incerteza quanto à capacidade de geração da usina durante o período de estiagem. A potência mínima da usina durante o pico da estiagem não é informada mas, pela sua características de operação, é possível que neste momento a produção fique baixa ou nula.
De acordo com Rosilene Maia, integrante da coordenação colegiada, “o esforço em analisar a questão energética sob as diversas óticas sempre foi o método adotado pelo Fórum, e há consenso entre nós de que o projeto UHE Bem Querer não se mostra sustentável, embora se trate de produção de energia a partir de fonte renovável, tema central das nossas propostas”.
A publicação é uma realização do Fórum de Energias Renováveis de Roraima, que reúne diversos setores e organizações da sociedade local, entre elas o Instituto Socioambiental (ISA). O evento aconteceu no auditório do Instituto Euvaldo Lodi (IEL) em Boa Vista.
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Sistema de alertas mostra que 70% das denúncias da Terra Indígena Yanomami são de invasões
Alimentada pelos próprios indígenas, ferramenta de proteção territorial foi desenvolvida pela Hutukara Associação Yanomami, UNICEF e ISA
Dário Kopenawa, vice-presidente da Hutukara, discursa em eventos sobre a primeira fase do sistema de alertas do UNICEF, ISA e Hutukara - UNICEF/BRZ/Lais Muniz
Sete em cada 10 denúncias recebidas de um sistema de alertas no Território Indígena Yanomami (TIY) são referentes a atividades praticadas por não indígenas no território, incluindo garimpeiros. Os dados são de um novo sistema de alertas apoiado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e implementado pelo Instituto Socioambiental (ISA) e a Hutukara Associação Yanomami (HAY). O sistema abrange, em sua primeira fase, 19 regiões do território e recebeu 70 denúncias desde a sua implementação, entre março de 2023 e abril de 2024.
Os alertas gerados sobre atividades no território incluem temas como invasão e ameaças. Outros 18% dos alertas são relacionados a questões ambientais, como incêndios e água contaminada, e 12% sobre saúde, como casos de desnutrição e surtos de malária.
Para o vice-presidente da Hutukara e líder Yanomami, Dário Kopenawa, o projeto - que encerrou sua primeira fase no mês passado com um evento em Boa Vista, Roraima - apoia comunidades Yanomami e ajuda a denunciar invasões, situações de saúde e a gerir o território.
“Ainda estamos sofrendo, os garimpeiros continuam em nossas terras e continuam passando com seus aviões na cabeça do nosso povo, incomodando o nascimento das nossas crianças com o barulho de motores. Mas com o sistema de alertas temos a oportunidade de comunicar às autoridades sobre o que acontece dentro de território”, declarou Dário.
“Mais da metade dos mais de 30 mil yanomamis no território são crianças e jovens. O sistema de alertas, alimentado pelos próprios yanomami, vem como parte do processo de autonomia e controle do território, servindo como ferramenta para alertar o poder público e conscientizar a população sobre o que acontece na maior terra indígena do Brasil”, disse a coordenadora técnica para Assuntos Indígenas do UNICEF, Léia Vale.
A Casa de Governo, que centraliza a coordenação de 31 órgãos federais atuantes na TI Yanomami e no Estado de Roraima, esteve presente no evento do encerramento da primeira fase de implementação do sistema de alertas. “Hoje o nosso grande objetivo é combater o garimpo em terras indígenas, mas também fora do território. Essas informações que chegam por meio dos alertas são importantes para organizar o nosso trabalho”, explicou o diretor da Casa de Governo, Nilton Tubino.
Além da Casa de Governo, estiveram presentes no evento de fechamento da primeira fase, no dia 24 de maio, órgãos como a Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Defensoria Pública da União (DPU), Ministério Público Federal, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), a Universidade Federal de Roraima (UFRR) e organizações indígenas como a Associação Wanassedume Ye'kwana (SEDUUME) e URIHI Associação Yanomami.
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Sistema de alertas apresenta informações em língua indígena|Evilene Paixão/Hutukara Yanomami
Sistema de alertas
As denúncias e queixas vindas do Território Indígena Yanomami e que antes eram feitas por cartas, visitas presenciais ou mensagens de radiofonia, ganham um novo formato com o atual sistema de alertas. O sistema funciona como uma central onde as próprias comunidades, por meio de um aplicativo de celular, emitem notificações sobre riscos sanitários e ambientais de maneira ordenada.
“Com o projeto, temos um fluxo mais organizado para receber informações do território e com isso, temos melhor acompanhamento da situação e mais qualidade de informações. O sistema de alerta é uma oportunidade de organizar e ter dados com qualidade para acompanhamento mais fino e melhor resposta do poder público”, explica Estêvão Benfica Senra, geógrafo do ISA.
O aplicativo disponibiliza formulários onde a população pode anexar fotos, vídeos, áudios e até mesmo pontos de localização com coordenadas geográficas para relatar o alerta a ser gerado. Após qualificados e validados, os alertas são colocados no painel para que autoridades e instituições parceiras possam ter ciência de qualquer anormalidade que ameace o território. Os registros podem ser feitos offline e a ferramenta disponibiliza as opções nos idiomas yanomami, ye'kwana, sanoma e português.
O projeto do sistema de alertas conta com financiamento da União Europeia, através do Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária (ECHO, na sigla em inglês), e tem o objetivo de aumentar a resiliência e fortalecer a autonomia das comunidades com a integração de um sistema que respeite o contexto e o conhecimento das comunidades indígenas.
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Serras Guerreiras de Tapuruquara: aventura, cultura e hospitalidade indígena na Amazônia
No Médio Rio Negro, o turista se torna um visitante – acolhido e guiado pelos povos que ocupam ancestralmente o território
Começa a tarde na comunidade de Boa Vista, no Médio Rio Negro, Amazonas. As pessoas se preparam para almoçar, seguindo a regra dos anfitriões indígenas, que indicam que os primeiros a se servirem devem ser os visitantes.
Sobre a mesa, há uma diversidade de alimentos da floresta e dos quintais, como cará roxo, beiju, peixe moqueado – ou defumado –, peixe ensopado, buriti, abacaxi, banana, entre outras delícias.
Cozinheiras da comunidade de Boa Vista, no Médio Rio Negro, apresentam os pratos que serão servidos aos visitantes|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Peixes, frutas variadas, beiju: os melhores sabores do Rio Negro à mesa/Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Expedições das Serras Guerreiras de Tapuruquara oferecem variedade de pratos locais/Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Antes do cochilo na rede, logo após o almoço e com o forte calor amazônico, ainda resta disposição para uma conversa. Seu João Vieira Brazão, do povo Baré, usa o bloco de anotações e uma caneta para começar a rascunhar uma pequena gramática ilustrada de nheengatu, para ensinar um pouco de sua língua.
Desenha um rosto, coloca setas indicativas e vai escrevendo: olho, reçá; nariz, tym; cabeça, yakãga; orelha, nãby, boca, yorou. Em seguida, avança um pouco: meu nariz, se tym; meu olho, se reçá, minha boca, se yorou, minha orelha, se nãby. Como bom professor, vai em frente e forma uma frase: minha cabeça dói ou se akãga sacy.
A aula na língua nheengatu – um tanto improvisada pelo seu João Brazão – não faz parte do roteiro oficial do projeto de turismo Serras Guerreiras de Tapuruquara. Mas dá uma ideia dos encontros possíveis ao conhecer a Amazônia dos indígenas. E acompanhados dos indígenas.
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Crianças da comunidade de Boa Vista, no Médio Rio Negro, Amazonas|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Seu João Brazão (primeiro à direita) recebe participantes da expedição|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
O projeto oferece dois roteiros de cultura e aventura. O Maniaka tem ênfase na parte cultural, enquanto o Witera oferece mais aventura (detalhes abaixo).
A viagem acontece no Estado do Amazonas, entre as cidades de São Gabriel da Cachoeira e Santa Isabel do Rio Negro, numa das regiões mais lindas do Estado, com um cenário único onde há serras em meio ao tapete verde da floresta. A visitação acontece de agosto a fevereiro, quando as chuvas diminuem na região, sendo que cada expedição dura de 8 a 12 dias.
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Rio Negro de cima: vista panorâmica no topo de uma das serras|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Paisagens de tirar o fôlego se revelam aos visitantes|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Para cada serra, um nome. Vamberto Plácido, do povo Baré, que nasceu e sempre viveu nessa região, conta que as serras que dão nome ao projeto são, na verdade, guerreiros.
“Então, contando um pouco da história das serras guerreiras, vou contar para vocês uma históriazinha dessas serras. Segundo os mais antigos, essas serras, eles eram os guerreiros. Cada uma delas tem seu nome. Por isso que é o Jacamim, a Jacuraru, a Cutia, o Porco, o Trovão e a Anta. Saindo da Colômbia, percorreram a noite toda, mas não conseguiram pegar o destino onde iam guerrear com outra serra, onde ficava a cobra conhecida como cobra do Tukano. Eles não conseguiram chegar até lá e amanheceram o dia e ficaram até hoje. Então, esse projeto já trouxe o nome das Serras Guerreiras de Tapuruquara. Tapuruquara é o antigo nome de Santa Isabel do Rio Negro”, narra.
Para entrar nesse território – que é sagrado –, é preciso benzimento. Com esse ritual, o pajé apresenta os turistas aos verdadeiros donos da área, invisíveis aos não indígenas. Feita a proteção, é hora de aproveitar a viagem!
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Chega a hora de partir e conhecer as belezas do Rio Negro|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Banho de rio e amizade com as Serras de Tapuruquara ao fundo|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Variedade de lugares, sabores e experiências
Subida de serras, canoagem, culinária tradicional, oficinas de artesanato, banhos de rio, narrativas indígenas, danças e muita cultura.
Os passeios não se repetem. A depender da época, da seca ou das chuvas, as paisagens e os roteiros mudam – dificilmente o visitante vai nadar duas vezes na mesma praia.
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Roteiros incluem canoagem e passeios pelas praias de areia branca do Rio Negro|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Do alto das serras, é possível ver de cima a copa das árvores da floresta amazônica, o rio serpenteando, o voo das araras.
Depois de percorrer trilhas, ouvir histórias, visitar roças, fazer farinha e artesanato, nadar em praias de areia branca, remar, comer os alimentos tradicionais, você ainda poderá ter contato com a cultura dos 23 povos indígenas do Médio e Alto Rio Negro, que ocupam ancestralmente este território. Nessa região, convivem povos como os Baré, Tukano, Baniwa, Desano, Piratapuya, Arapaso, Nadeb, entre outros.
Na comunidade de Boa Vista, por exemplo, os turistas vão dançar o Mawako e participar de um Dabucuri. O ritual acontece em ocasiões especiais, agradece e compartilha os bons momentos e as farturas.
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Turismo de base comunitária leva os viajantes a uma imersão na culturas dos povos indígenas do Rio Negro|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Na comunidade de Aruti, a artesã Alciene da Silva de Oliveira, povo Piratapuia, ensina a manejar o arumã, usado para as peças artesanais como os tapetes. Em São João 2, Jacson Luis Costa Silva e Marlice Brandão Pinheiro, do povo Baré, convidam para sentir nas mãos a argila dos igarapés amazônicos e moldar pequenas peças seguindo a tradição milenar da arte de fazer cerâmica.
No projeto de turismo de base comunitária, o passeio tem um componente a mais. Além de passear, o turista apoia os indígenas e ajuda a preservar o meio ambiente, contribuindo para uma atividade econômica sustentável. São cerca de 200 famílias beneficiadas em cinco comunidades: Cartucho, Aruti, São João 2, Uábada 2 e Boa Vista.
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Oficina de cerâmica tradicional na comunidade São João 2|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Atividade faz parte dos roteiros do Projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
E, ao se prepararem para receber os turistas, os indígenas acabam reforçando a própria cultura, inclusive repassando aos mais jovens envolvidos nos projetos da sociobiodiversidade.
Os esforços exigidos nas viagens amazônicas são compensados na hora do descanso. O corpo se ajeita na rede. É hora de dormir como os indígenas.
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Visitantes dormem em redes e conhecem os costumes regionais|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Alojamentos permitem uma integração profunda com a natureza|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Na chegada e na saída, há momentos de muita emoção. Na recepção aos turistas, as crianças indígenas cantam para receber os visitantes, na língua indígena. Na despedida, é hora de abraçar os anfitriões, que já se tornaram amigos.
Por volta de setembro, quando as águas baixam no início da estação seca, a paisagem ganha generosas revoadas das borboletas amarelas, que agrupadas no chão formam verdadeiros tapetes vivos.
Coordenador geral do Serras Guerreiras de Tapuruquara, Marcos Baltazar Salustiano, do povo Baré, morador da comunidade do Cartucho, convida para essa visita.
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Marcos Baltazar Salustiano, do povo Baré e morador da comunidade do Cartucho, é coordenador geral do Serras Guerreiras de Tapuruquara|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
“A gente convida você a vir participar do nosso projeto, que é familiar. A gente tem esse contato com as pessoas de fora, mas é um contato assim, de amigo. As comunidades oferecem um carinho enorme para essas pessoas que vêm. E essas pessoas que vêm deixam também um carinho enorme nas comunidades. Por isso que a gente convida todos a participarem do projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara, que envolve os 23 povos indígenas de várias etnias, como Baré, Tukano, Desano, Nadeb.”
Puranga Pesika – Sejam bem-vindos!
Depoimentos
Jaciel Manoel Rodrigues, povo Baré, morador da comunidade do Cartucho e coordenador da Associação das Comunidades Indígenas Ribeirinhas (Acir)
Desde o início do projeto, a gente tem essa mentalidade. Todos que chegam, para a gente é como se fosse o nosso vizinho daqui. A gente acolhe com carinho, todos eles. E a gente se sente muito feliz quando eles estão aqui entre a gente.
Elaine da Silva Galvão, coordenadora do projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara na comunidade Aruti
A gente convive com outras pessoas. A gente conhece outras pessoas e eles conhecem a gente também, nossa língua, que é o nheengatu.
O que o visitante pode aproveitar da culinária? Bacaba, bacabinha, patauá. Surubi, pirandira, aracu, pacu. Tucupi doce, tucupi azedo, pimenta. Todo tipo de peixe eles pegam, eles trazem para oferecer aos turistas. Tem caldeirada, assado, frito, moqueado e, às vezes, até salgado.
Professor Rosemiro Torres Olar, povo Baré, professor e coordenador do projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara na comunidade Uábada II
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Professor Rosemiro Torres Olar, povo Baré, coordenador do projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Esses lugares são sagrados. Cada cachoeira tem um nome, tapiracanga, jurupari, outro lá, piramiri, kiuá. Tudo isso aí, ele se envolve em apenas um dono, que é Uaimi, que significa velha. Ela que cuida disso aqui. É dono de tudo esse patrimônio que tem aqui para dentro desse igarapé. Então toda vez que a gente vai para dentro do igarapé pescar, atrás de algum produto, ou vai a passeio, nós temos que pedir permissão a ela.
Um dos pajés, toda vez que a gente recebe o turista, para cá, principalmente pela primeira vez, ele faz um benzimento. Para que esse benzimento? Esse benzimento é para apresentar o visitante para o dono do igarapé, o dono da cachoeira. Então seria apresentar. Por isso, pelo cuidado que temos que ter com o turista. Proteger o nosso visitante.
Orlandino Cordeiro de Oliveira, povo Baré, conhecedor indígena e morador de Aruti, recebe os turistas em sua casa
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Orlandino Cordeiro de Oliveira (camisa pólo azul), povo Baré, conhecedor indígena e morador de Aruti, recebe os turistas em sua casa|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Meu nome é Orlandino de Oliveira, essa é minha família. Somos eu e minha família aqui. Minhas filhas, minhas noras, filhos, genros. Uma partezinha. A maioria está por aí. Sabe por que que possui esse nome de Aruti, essa ilha? Não tem essa pedrazona bem no rabo da ilha? Essa é Aruti. Isso significa, em português, é preguiça, a Ilha da Preguiça. Mas é o nome da ilha, não é porque eu sou preguiçoso. Esse Aruti está em nheengatu, língua de Baré.
João Vieira Brazão, povo Baré, coordenador do projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara na comunidade de São João 2
Espero que você venha conhecer aqui. Esperamos de braços abertos, com muito entusiasmo, para que conheçam a nossa realidade, a nossa floresta, o nosso rio, a nossa imagem pessoalmente, ao vivo, conhecer a nossa comida tradicional, conhecer o fruto da nossa região aqui, comer o peixe gostoso, conhecer a nossa farinha, o nosso beiju, a nossa fruta tradicional.
Vamberto Plácido Rodrigues, povo Baré, ex-coordenador do Projeto Serras Guerreiras e atual servidor da Funai
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Vamberto Plácido Rodrigues, do povo Baré, ex-coordenador do Projeto Serras Guerreiras e atual servidor da Funai|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Esse projeto, o benefício que trouxe para foi o intercâmbio das pessoas que vêm de fora conhecer a nossa cultura nas comunidades. Isso faz com que essa cultura se fortaleça. Porque apresentamos aos turistas a dança cultural, a própria língua, a dança.
Bruno Mangolini, coordenador da Poranduba Amazônia, participou da expedição em outubro de 2023
Além de você estar vivendo uma experiência muito peculiar, muito rica, de passear, de conhecer um lugar diferente, uma cultura, isso vai também vai contribuir com as comunidades, inclusive com o resgate da parte cultural. Também gera renda para a comunidade.
O que fica mais marcante fora os passeios, a parte gastronômica, as belezas naturais, é o cuidado dos indígenas que estão nos recebendo. A simpatia, a alegria deles em receber o visitante que vem conhecê-los, acho que isso é muito marcante.
Mari Salim, sócia da Montanero Expedições, participou da expedição em outubro de 2023
A gente percebe o resgate de vários saberes tradicionais, inclusive de saberes que os mais jovens não estavam valorizando tanto. E foi muito bonito perceber que eles estão articulando tudo isso por conta desse trabalho de turismo. Para mim, o que mais encantou foi a mobilização desse resgate, junto às famílias e os jovens, e o quanto eles já estão se sentindo orgulhosos de estar apresentando isso para nós. E fiquei muito contente de ver uma preocupação não só com a segurança, mas com o conforto de todos os visitantes que vêm. Desde os dormitórios, até a culinária e os transportes.
Jéssica Martins, assessora técnica em turismo do Instituto Socioambiental (ISA)
O projeto Serras Guerreiras é sonhado e construído junto com as comunidades, pelas comunidades indígenas do médio rio Negro. Esse é um roteiro que acontece nessa região bem especial, do Noroeste Amazônico, com uma paisagem diferenciada, tanto na questão da natureza, quanto na questão dos povos indígenas e na parte cultural, que é muito rica e muito diversa.
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Até breve! Moradores da comunidade de Boa Vista, no Médio Rio Negro, Amazonas, se despedem dos amigos-visitantes|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Apresentação dos pratos para o almoço na comunidade São João 2|Benjamin Mast/ISA
Merenda com pratos regionais depois de remada na comunidade de Boa Vista|Benjamin Mast/ISA
Roteiros de turismo comunitário convidam a descobrir os sabores da culinária tradicional do Rio Negro|Benjamin Mast/ISA
Indígenas do povo Baré ensinam aos turistas a tradição milenar da arte de fazer cerâmica|Benjamin Mast/ISA
Paisagem na viagem de barco pelo Médio Rio Negro|Benjamin Mast/ISA
Paisagem na viagem de barco pelo Médio Rio Negro|Benjamin Mast/ISA
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Elizângela Baré: A força das mulheres indígenas na cura da Terra
Elas Que Lutam! Ex-coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas da Foirn e protagonista do enfrentamento à Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira, liderança luta pela educação no Rio Negro
Crianças brincando no rio, na Terra Indígena Cué-Cué Marabitanas (AM)|Juliana Radler/ISA
Em uma das regiões mais conservadas do país, uma jovem indígena partilhava um mingau com sua avó. Carregada de interesse, Elizângela da Silva, ouvia atentamente aos mitos do povo Baré.
Os mitos têm um significado importante para a população indígena do Rio Negro. São narrativas que contam sobre o sol, a noite e o rio, tecidas pela sabedoria e experiência dos mais velhos.
“Quando sua avó vai contar o mito da Mandioca, ela vai contando os processos, as origens. Ela vai dizendo ‘isso pode fazer’, ‘isso não pode fazer’. Desde criança a gente aprende o que a natureza pode nos causar caso a gente não respeite ela”, contou ao ISA.
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Agricultora Elizangela Baré segurando a maniva (mandioca). Alimento ocupa lugar central no Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro|Fellipe Abreu/National Geographic
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Elizangela da Silva, do Povo Baré, e Dona Mercedes Gregório, do povo Baniwa, descascam maniva na cozinha do Sítio São Bernardino |Fellipe Abreu/National Geographic
Com a chegada das escolas na Terra Indígena Cué-Cué Marabitanas, a rotina mudou. Os banhos de rio e os momentos com a avó foram dividindo espaço na rotina com o processo de alfabetização.
O aprendizado da língua portuguesa - até então desconhecida para a menina falante de Nheengatu - fora um pedido do avô. Junto da tia e da irmã, Elizângela subia diariamente o rio remando em canoa para chegar à escola.
Sem conseguir avançar nos estudos devido a precariedade das escolas rurais da época, mudou-se para a sede do município de São Gabriel da Cachoeira em 1993, aos nove anos de idade, onde morou na casa de parentes. Mesmo criança, precisou cuidar dos filhos de amigas dos familiares para continuar nos estudos.
Na casa de médicas da Associação Saúde Sem Limites - que desenvolvia projetos de assistência médica a povos indígenas e comunidades tradicionais - Elizângela Baré aprendeu sobre saúde e direitos dos povos indígenas.
Essa experiência, aliada à participação em um grupo da Pastoral da Juventude, permitiu seu ingresso no movimento indígena.
Participando dos eventos do Departamento de Jovens Indígenas do Rio Negro (DAJIRN), Elizângela acompanhou os bastidores da criação do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN) da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), em 2002.
No ano seguinte, concluiu o Ensino Médio. No entanto, o cuidado com a família não permitiu a continuidade dos estudos e, em 2009, mudou-se novamente para o território indígena, dessa vez na comunidade onde morava a família do marido.
Em São Gabriel Mirim, recebeu o convite para atuar como professora no momento em que o sistema escolar municipal deixava de ser "rural" para ser "indígena" e nucleadas, com participação da comunidade escolar nas decisões da gestão pedagógica e do calendário das atividades, respeitando os modos de vida e a dinâmica das atividades coletivas das comunidades. Apesar de não ter frequentado o magistério, recebeu uma carta de recomendação da comunidade, e passou a ministrar aulas para uma turma multisseriada, com alunos da primeira à quinta série.
Um ano depois, recebeu um novo convite, dessa vez para assumir a gestão da escola nucleada Baré Napirikuri (que congregava escolas de 08 comunidades). O regulamento para exercício do cargo exigia a formação acadêmica mas, mais uma vez, a comunidade, confiando no trabalho realizado como professora, tomou a defesa de Elizângela.
Foi eleita em votação feita pelas famílias dos alunos, em 2010, e permaneceu no cargo até 2016. Com o apoio da família e da comunidade, enfrentou as críticas de professores homens indígenas que a acusavam de não ter capacitação para a função exercida.
“Na época não entendia o que era bullying, não entendia o que era racismo. Eu não sabia o que era essas coisas de patriarcado. [...] Eu não sabia de nada, mas eu peguei o microfone e eu falei ‘temos que respeitar, os pais dos alunos votaram’.”, lembra.
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Elizângela da Silva, do povo Baré, durante ato pelo 8 de março, na orla da praia de São Gabriel da Cachoeira (AM)|Juliana Radler/ISA
Apesar da resistência dos professores e de alguns homens da comunidade, atuou pela igualdade de gênero e pelo fim da violência contra as mulheres indígenas.
Nos almoços coletivos do centro social sensibilizou as famílias para que a comida fosse compartilhada entre homens e mulheres no mesmo momento, o que promoveu uma alteração na dinâmica onde homens se serviam antes das mulheres.
Nas salas de aula, compartilhou com os alunos o que presenciou no movimento de mulheres indígenas em São Gabriel da Cachoeira. No chão do território, realizou oficinas de artesanato e seminários sobre culinária, onde sábia e discretamente trouxe à discussão assuntos como empoderamento, direito da mulher e como diferenciar tradição de violência.
Em 2017, assumiu a coordenadoria do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Dmirn/Foirn), onde permanceu até 2020.
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Elizângela Baré (em baixo, à direita) e demais integrantes da diretoria da Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (AMIARN), em São Gabriel Mirim|Juliana Radler/ISA/2017
Na época, Elizângela tinha concluído uma graduação em sociologia e cursava especialização em Educação Indígena. Ela conta que a opção por continuar os estudos enquanto trabalhava gerou desconfiança entre algumas lideranças.
“Quando eu entrei na Foirn, as lideranças diziam ‘tu tem que escolher: você quer ser estudante da universidade ou você quer ser liderança?’, e eu falei ‘eu quero ser os dois, estou lutando pelos direitos coletivos e os meus’”.
Durante a pandemia de Covid-19, Elizângela, juntamente com Janete Alves, coordenou a campanha "Rio Negro, Nós Cuidamos", que tinha como objetivo garantir a promoção de saúde, segurança alimentar e direito à informação a mais de 800 comunidades onde convivem 23 etnias do Rio Negro.
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Elizângela da Silva durante operação de doação de 15 toneladas de equipamento de proteção individual para prevenção à Covid-19, em agosto de 2020|Raquel Uendi/ISA
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Elizângela Baré (de camiseta rosa) distribui máscaras de proteção contra a COVID-19, em maio de 2020|Raquel Uendi/ISA
A iniciativa visava captar recursos emergenciais para a compra de produtos de limpeza, ferramentas agrícolas, combustível, kits de pesca e alimentos não perecíveis, além da ampliação de serviços de comunicação fundamentais via radiofonia, carros de som e informes de áudio.
Além de atuar na conscientização sobre a doença nas comunidades, Elizângela foi porta-voz da campanha em vídeo publicado pela Foirn em abril de 2020.
Em 2023, Elizângela foi finalista do Prêmio Inspiradoras pelo levantamento e mobilização realizados para tornar públicos dados sobre violência contra mulheres em São Gabriel da Cachoeira.
No mesmo ano, ela ganhou o Troféu Mulher Imprensa por colaborações com a Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas e com o portal Sumaúma – onde apresentou o podcast Rádio Sumaúma.
Entre o território e a cidade: a ponte
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Elizângela Baré durante lançamento do especial 'Memoráveis' na loja Floresta no Centro, em São Paulo|Claudio Tavares/ISA
Quatro anos após o início da pandemia da Covid-19, Elizângela Baré, primeira indígena a fazer mestrado em Saúde Pública na Universidade de São Paulo (USP), divide sua rotina entre a Terra Indígena e a cidade de São Paulo.
No movimento indígena e na academia, sua luta para que os saberes notórios dos povos indígenas, aqueles ensinados pelos familiares muito antes de aprender o português, possam ser introduzidos no Sistema Único de Saúde (SUS).
“A gente adere muito bem ao sistema ocidental, como indígena, né? Mas eu acho que o Ocidente, a sociedade em si, também tá na hora de aderir aos nossos saberes notórios”, defende.
“A gente mostrou nossa ciência, a gente mostrou nossos saberes. Eu escrevi para a USP, que é parceira da Foirn desde 2010, que os cestos de conhecimento das mulheres reacenderam, porque mesmo aquela mulher indígena que morava na cidade, trabalhava de manhã e de tarde com carga horária, durante a Covid-19 ela parou e cuidou da sua casa. [...] Ela procurou a cura no quintal, ela procurou a cura no caminho da roça, ela procurou a cura na margem do rio”, disse.
No quinto episódio do podcast Casa Floresta, lançado pelo ISA em 2022, Elizângela explica como se dá a criação dos chamados “cestos de conhecimento”, conjunto de ensinamentos, passado oralmente pelos familiares e guardado no subconsciente.
"Cada uma das mulheres tem um cesto de conhecimento. Lá tá tudo. Quando eu fiquei pela primeira vez menstruada, eu aprendi o sistema de vida tradicional do meu povo. A nossa mãe que repassou esse cesto invisível."
“Nós, mulheres indígenas, há cinco séculos estamos fazendo a promoção de saúde com o nosso modo de ser, o nosso modo de cuidar. É isso que eu sonho hoje, que o pessoal de São Paulo, e dos outros Estados também, possam ter suas janelas que curam”, completou.
Cosmovisão como flecha
No cultivo das roças para alimentação ou no manejo de plantas com propriedades medicinais, é no contato com a terra que os povos indígenas reafirmam sua humanidade. Na cosmovisão de muitos povos do Rio Negro, a terra é viva, o que significa dizer que os elementos da natureza são dotados de consciência e agência.
"Quando a gente vai plantar roça, primeiro planta abacaxi que é para o abacaxi ser a copa da água e cuidar das manivas, dando água para elas. A natureza, se bem cuidada, nos faz bem, mas ela pode também nos fazer mal. Se a roça é bem cuidada, ela dá alimentos e proteção. Mas sem benzimentos e cuidados podemos ficar doentes."
Em entrevista ao ISA, realizada em setembro de 2023, após a 3ª Marcha das Mulheres Indígenas, Elizângela Baré fez da visão de mundo dos povos originários a flecha que orienta a mudança na sociedade.
“Imagine se uma planta falasse, o que ela ia falar? Qual é a dor que ela iria falar quando ela é derrubada, quando ela é queimada, quando ela é tirada do território? Quando é contaminada por mercúrio, o que a água iria falar?”, questionou.
A mobilização aconteceu em Brasília (DF) às vésperas do julgamento do “Marco Temporal” no Supremo Tribunal Federal (STF). Essa tese jurídica e anti-indígena busca estabelecer um critério temporal para a demarcação das Terras Indígenas, vinculado à data da promulgação da Constituição Federal.
Na entrevista, a liderança também defendeu a demarcação do seu território de nascença, a Terra Indígena de Cué-Cué Marabitanas (AM), que teve apenas seu processo de Declaração concluído.
“Eu nasci naquela terra. Nunca meu pai saiu de lá, meu pai nasceu naquela terra. Como é que a Lei vai dizer que aquela terra não é minha?! Se a nossa mãe perdeu sangue naquela terra para nos parir, aquela terra é nossa”, disse Elizângela. “O ‘Marco Temporal’ faz com que a gente se sinta insegura dentro do nosso território, é uma lei que visa a destruição dos povos indígenas”, completou.
Elizângela Baré transmite, via rádio, informações e orientações para a prevenção à Covid-19|Arquivo Pessoal
Adelina Desana (à esquerda) e Elizângela Baré (à direita), levam banner de prevenção para a comunidade do Waruá, do povo Dâw, em abril de 2020|Rede Wayuri
Elisângela Baré, da Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (AMIARN), durante gravação do podcast Casa Floresta em São Gabriel da Cachoeira (AM)|Pedro Hassan/ISA/2022
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Lançamento de livros une autores Yanomami, professores e estudantes em Roraima
Em ‘Reahu na UFRR’, público na Universidade Federal de Roraima pode conhecer as obras Diários Yanomami e O Espírito da Floresta
Da esquerda para a direita: Darysa Yanomami, Davi Kopenawa e Mozarildo Yanomami, durante evento em Roraima|Rafael Oliveira/Mega Filmes/ISA/Hutukara
Autores Yanomami levaram centenas de pessoas ao Centro Amazônico de Fronteira (CAF), maior auditório da Universidade Federal de Roraima (UFRR), na última sexta-feira (24/05) para “Reahu na UFRR”. O evento foi palco para os lançamentos dos livros Diários Yanomami e O Espírito da Floresta.
Em Diários Yanomami, cinco autores yanomami apresentam a percepção deles e de seu povo sobre os impactos do garimpo na Terra Indígena Yanomami entre 2019 e 2022, período em que o Jair Bolsonaro (PL) ocupava o cargo de presidente do Brasil. A gestão foi marcada por políticas que estimularam a invasão garimpeira no território.
Diários Yanomami: Testemunhos da Destruição da Floresta foi exposto pela primeira vez ao grande público durante o Reahu - palavra que significa festa em Yanomae - em Boa Vista. Todas as cópias disponibilizadas pela Hutukara Associação Yanomami (HAY) na ocasião foram vendidas meia hora após o início do Reahu. O livro está em pré-venda na loja online do Instituto Socioambiental, que entrega para todo o país.
Diários Yanomami foi escrito por Mozarildo Yanomami, Darysa Yanomami, Josimar Palimitheli Yanomami, Alfredo Himotona Yanomama e Marcio Hesina. Mozarildo e Darysa representaram o coletivo durante o evento.
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Darysa Yanomami em lançamento do livro Diários YanomamiFabrício Araújo/ISA
“Eu fiquei muito feliz em ver todas estas pessoas e saber que estavam aqui pelo meu livro. Eu agradeço muito a todas estas pessoas e a Universidade Federal [de Roraima]. Eu sonhei muito com isso e por isso estou muito feliz”, contou Darysa ao ISA.
Mozarildo reforçou, em discurso ao público, o cuidado dos Yanomami com a floresta e pediu que os não indígenas prestassem atenção nas palavras colocadas em Diários Yanomami. Ele sublinhou, ainda, que as palavras foram escritas pelos próprios Yanomami e não por brancos.
“Mas se eu estivesse trabalhando sozinho, estas palavras não teriam sido divulgadas. O Instituto Socioambiental, a Diocese de Roraima e a Hutukara nos apoiaram. Por tanto, prestem muita atenção na devastação que os garimpeiros causaram na nossa Terra Yanomami. As palavras deste livro descrevem a destruição provocada pelo garimpo”, pontuou Mozarildo.
‘Nossa universidade é a floresta’
Este foi o segundo grande evento da UFRR com participação e forte atuação do xamã Yanomami Davi Kopenawa. Em setembro de 2022, o reitor José Geraldo Ticianeli o entregou o título de Doutor Honoris Causa em uma cerimônia virtual e com limitação de público em razão da pandemia de Covid-19.
“A educação indígena também faz parte da missão da Universidade Federal de Roraima. Conceder o título de Doutor Honoris Causa ao Davi Kopenawa em um momento historicamente importante de se posicionar para a universidade mostrou o nosso respeito aos povos originários e, principalmente, tornou o Davi um porta-voz da UFRR com este título”, disse Ticianeli.
Nesta nova oportunidade, Kopenawa falou sobre sua mais recente parceria com o antropólogo francês Bruce Albert e reforçou sua mensagem contra o garimpo em terras indígenas diante da acadêmia científica.
“O originário não tem universidade. A nossa universidade é a floresta. Eu aprendi olhando, escutando, cuidando e preservando a floresta. A nossa terra mãe nos ensinou a sonhar e olhar a beleza da nossa floresta”, disse Kopenawa durante seu discurso.
Yanomami mais próximos dos roraimenses
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Mozarildo Yanomami, autor do livro Diários Yanomami, durante evento na Universidade Federal de Roraima (UFRR)|Rafael Oliveira/Mega Filmes/ISA/Hutukara
O Reahu na UFRR foi o primeiro grande evento de diálogo entre os Yanomami e as pessoas que vivem em Roraima. Historicamente, este povo indígena vive em cenário conflituoso marcado pelo forte posicionamento contra o garimpo ilegal na maior terra indígena do Brasil.
“A gente entende que a mensagem dos Yanomami é importante em qualquer lugar do mundo, mas em Roraima é ainda mais importante porque é onde eles vivem, é o contexto em que estão inseridos. É uma forma de sensibilizar também as pessoas que estão sempre em contato com eles”, explicou Estêvão Benfica Senra, produtor editorial do Diários Yanomami.
E a necessidade de aproximação com os Yanomami foi comprovada pelas palavras do público presente, que se diversificou entre jovens no início da graduação, adultos em processo de pós-graduação, experientes professores de todos os tipos de educação: básico, médio e superior e até figuras do poder público, como é o caso da defensora pública de Roraima Jeane Magalhães Xaud.
“A temática Yanomami tomou conta do meu dia, na verdade tem tomado conta dos meus dias no trabalho e também na vida social. Ouvir o Davi Kopenawa é luxo primordial, é necessário porque nós só poderemos compreender os Yanomami, como o Davi disse, através das palavras escritas por eles mesmos. O povo Yanomami é um povo que tem toda uma complexidade, quanto mais nós entendermos essa complexidade e estarmos abertos a ela, mais nós poderemos desimpactar o contato deles, por exemplo, com a nossa sociedade e com o nosso sistema de justiça”, afirmou Xaud.
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Davi Kopenawa distribui autógrafos durante Reahu na UFRR|Fabrício Araújo/ISA
Já a estudante de Ciências Sociais Enoá Vitória Mourão, de 24 anos, escolheu ir ao evento na noite de sexta-feira porque as palavras de Davi Kopenawa já fazem parte de sua pesquisa. Atualmente lendo A Queda do Céu, ela aproveitou para adquirir O Espírito da Floresta e poder estar na presença do xamã.
“Há locais que não conseguimos ter acesso, como a própria Terra Indígena Yanomami, e estar com o Davi Kopenawa aqui presente é uma oportunidade única. O Davi é uma pessoa que eu admiro e com quem eu gostaria de poder conversar por pelo menos cinco minutos é incrível”, contou emocionada.
Sobre os livros
Diários Yanomami é um livro realizado pela Hutukara Associação Yanomami (HAY) e o Instituto Socioambiental (ISA). A produção editorial é assinada por Estêvão Senra, geógrafo do ISA, que também faz parte dos times de organização e edição junto a Alcida Ramos e Corrado Dalmonego. A tradução de Yanomae para Português foi feita por Dalmonego conjuntamente com os pesquisadores.
A publicação tem apoio do Fundo das Nações Unidas para a criança e adolescente (UNICEF), da Rainforest Foundation Norway e do Centro de Documentação Indígena (Missionários da Consolata). Também contribuem com apoio financeiro o Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária da União Europeia (ECHO) da União Europeia.
O Espírito da Floresta reúne textos originalmente publicados entre 2002 e 2021 em inúmeras exposições realizadas em Paris pela Fundação Cartier. O livro é dividido em 16 capítulos com textos intercalados entre os autores e está à venda online na Companhia das Letras, na livraria Boa Vista.
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Indígenas articulam criação de Rede de Sementes em Roraima
Região da Serra da Lua será o primeiro lavrado a integrar o Redário, que conta com outras 24 redes no Brasil
Participantes do evento identificam possíveis locais para coleta de sementes e recuperação de áreas devastadas na região da Serra da Lua|Fabrício Araújo/ISA
Indígenas de três terras indígenas da Região Serra da Lua articulam a criação da Rede de Sementes de Roraima. Moradores de Canauanim, Malacacheta e Tabalascada estiveram reunidos com representantes do Instituto Socioambiental (ISA) no ‘I Seminário de Produção de Sementes Nativas e Restauração Ecológica de Roraima’ para definir os próximos passos do projeto.
O evento ocorreu na Terra Indígena Tabalascada, no município do Cantá - mesma cidade onde estão localizadas as outras terras indígenas que integram o projeto. Cento e vinte e nove pessoas, sendo 61 homens e 68 mulheres, participaram do evento que ocorreu ao longo do dia 17 de maio de 2024.
“Almejamos chegar a um trabalho contínuo. Ele chega em boa hora, após um período de incêndios, e vai agregar muito à comunidade indígena. Falamos muito em preservar, mas ainda não havíamos percebido a importância da discussão sobre restaurar” disse César da Silva, tuxaua-geral da Serra da Lua.
Na fase inicial do projeto, as sementes coletadas serão usadas para restauração de áreas indicadas pelas comunidades como espaços prioritários a serem restaurados. Com o avanço na estruturação do trabalho da rede, as sementes poderão ser vendidas para quem se interessar - poder público, empresas ou proprietários rurais, por exemplo - em restaurar Roraima com sementes nativas do lavrado e da floresta.
Durante o seminário, os indígenas puderam tirar dúvidas sobre a Rede de Sementes, dar sugestões e explicar os cuidados necessários para avançar com o trabalho dentro das três terras indígenas alcançadas inicialmente pelo projeto.
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Emerson da Silva, assessor do ISA, durante o seminário|Fabrício Araújo/ISA
“Isso é muito especial, principalmente para as mulheres que já coletam sementes desde criança. Com esse seminário, aumentamos o nosso conhecimento para restaurar as áreas degradadas. Isso vai nos ajudar, inclusive, com a nossa medicina tradicional, vamos poder catalogar essas sementes”, disse Alcileia Pinho Cadete, Wapichana da comunidade Canauanim
Os assessores do ISA também explicaram aos indígenas sobre os próximos passos para estruturação da Rede de Sementes, como escolha do nome, definição dos locais para coleta de sementes e das áreas para a restauração. O projeto também apoiará na construção de uma casa de sementes e realizará oficinas sobre as sementes nativas e métodos de conservação, beneficiamento e plantio, inclusive através da Muvuca.
Emerson da Silva Cadete, assessor técnico de produção de sementes e restauração ecológica e a coordenadora do ISA em Roraima Lidia Montanha Castro, foram os responsáveis por passar o diálogo sobre o projeto com o Conselho indígena de Roraima (CIR) definindo a região Serra da Lua.
Na sequência, um longo diálogo com os tuxauas das comunidades Tabalascada, Canauanim e Malacacheta, direcionado pelo Protocolo de Consulta da Região Serra da Lua. Com os devidos consentimentos chegamos a este momento, no seminário reunindo lideranças, professores, alunos e moradores das três comunidades.
“O seminário explicou o projeto que basicamente tem dois eixos: coleta de sementes nativas e restauração ecológica. A ideia era explicar e tudo que fizermos hoje será a partir destas explicações do projeto e dos questionamentos das comunidades. Tudo isso guiará as nossas ações futuras”, explicou Emerson.
Serviços Ecossistêmicos
Durante o evento, Danielle Celentano, analista de restauração ecológica do ISA, explicou sobre a relação da floresta e do lavrado com os serviços ecossistêmicos e o carbono. Ela pontuou que garantir a conservação e a restauração desses ecossistemas garante diversos benefícios, como a provisão de alimentos, água, madeira, assim como o controle de temperatura, a regulação hidrológica, captura de carbono, entre outros.
“O carbono, falando de maneira simples, é o elemento que constitui a tudo que é vivo. Quando temos uma semente de Samaúma, que é tão pequena, mas que cresce e vira uma árvore gigante na floresta é porque ocorre a fotossíntese: a planta vai capturando o carbono que está em forma de CO2 no ar e incorpora ao próprio crescimento fixando o carbono na biomassa”, explica.
Chegada no lavrado
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Evento na Terra Indígena Tabalascada reuniu 129 pessoas para a criação da primeira Rede de Sementes de Roraima|Fabrício Araújo/ISA
Com presença em 24 redes em diversos territórios no Brasil, a finalidade do Redário é fornecer o apoio necessário à produção de sementes nativas, impulsionar mercado e viabilizar as melhores sementes para a recomposição de cada ecossistema.
Há mais de 1.200 pessoas envolvidas na coleta de sementes, sendo 60% apenas mulheres. Em 2022, o Redário comercializou mais de 16 toneladas de 170 tipos de sementes nativas e no ano anterior, 2021, gerou renda para mais de mil famílias de quase 50 comunidades. Até maio de 2024, o ISA e seus parceiros já restauraram mais de 11.000 hectares de florestas utilizando o método da Muvuca.
Para o coordenador de restauração do ISA, Eduardo Malta Campos Filho, o cenário novo impõe experimentação para entender a melhor forma de trabalhar com as sementes nativas.
“O que vamos ter que aprender é quais são as espécies que são mais importantes para recompor a vegetação e vamos fazer isso com o conhecimento que as comunidades indígenas já têm”, explica.
Ainda de acordo com Eduardo, o conhecimento técnico adquirido em outras redes poderá ser utilizado na primeira fase, mas o lavrado precisa mais do que árvores para ser recomposto e, por isso, novas técnicas de recomposição precisarão ser criadas.
“Uma parte muito importante do lavrado é este tapete de plantas nativas, que formam esse capim, esse campo. Além das árvores, tem o capim e as ervas nativas. Tudo me deixou muito feliz, até as perguntas que foram aparecendo porque percebi que são de pessoas que já se imaginam fazendo esse trabalho”, disse.
No segundo semestre, o ISA promoverá oficinas de capacitação dentro das próprias comunidades. Durante estas oportunidades serão definidos o nome da rede, as espécies que serão coletadas, os locais de restauração e quem serão os coletores.
Através do projeto de Produção de sementes nativas e restauração ecológica em Roraima, apoiado pela União Europeia, o ISA também apoiou comunidades indígenas da Região Serra da Lua no combate a incêndios florestais e à seca durante o recorde de focos de calor com doações de alimentação, combustível e ferramentas (bombas costais, terçados, luvas, óculos de proteção, perneiras entre outros).
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Livro 'Diários Yanomami' será lançado na Universidade Federal de Roraima
Evento em 24 de maio, "Reahu na UFRR", apresenta obra de cinco autores Yanomami que registraram percepções sobre as mudanças na maior Terra Indígena do Brasil entre 2019 e 2022; livro está em pré-venda na loja online do ISA
Diários Yanomami: Testemunhos da Destruição da Floresta, livro escrito por cinco autores indígenas da Terra Indígena Yanomami, entra em pré-venda nesta quarta-feira (15/05) na loja do Instituto Socioambiental (ISA). A publicação será lançada em Boa Vista, Roraima, durante o evento “Reahu na UFRR”, com palestra do xamã Davi Kopenawa na Universidade Federal de Roraima (UFRR).
Reserve o seu exemplar de Diários Yanomami: Testemunhos da Destruição da Floresta, na loja online do ISA.
Reahu, que pode ser traduzido do Yanomae para o português como festa ou celebração, é o principal ritual dos Yanomami. Durante o evento na UFRR, Kopenawa também lança seu novo livro O Espírito da Floresta, que repete a parceria de sucesso com o antropólogo Bruce Albert.
Os autores do Diários Yanomami são Mozarildo Yanomami, Darysa Yanomami, Josimar Palimitheli Yanomami, Alfredo Himotona Yanomama e Marcio Hesina. Eles apresentam a percepção deles e de seu povo sobre os impactos do garimpo na Terra Indígena Yanomami entre 2019 e 2022, período em que o Jair Bolsonaro (PL) ocupava o cargo de presidente do Brasil. A gestão foi marcada por políticas que estimularam a invasão garimpeira no território.
A publicação conta com relatos em formato de diários, registro de depoimentos e também entrevistas feitas pelos indígenas. O livro é bilíngue e sempre apresenta a primeira versão do texto em Yanomae com a tradução para português na página seguinte.
“Eu quero que vocês, brancos que nos defendem à distância, ouçam estas minhas palavras”, inicia o capítulo “Diários”, escrito pelo pesquisador Mozarildo Yanomami. A reflexão de Mozarildo passa pela violência dos garimpeiros contra as mulheres, sobre o desconhecimento dos não indígenas às violações que os Yanomami sofrem e o desejo de que esta publicação jogue luz sobre o tema e ajude a salvar o povo dele.
“Meu trabalho nesta pesquisa Urihi Temi teve um propósito, foi sério. Então, o que pensam depois de ler estas minhas palavras? Mando-as de onde moro, na Terra Yanomami. Não foi um filho de branco que fez esta pesquisa. Portanto, acreditem nelas”, pontua Mozarildo.
A pesquisa, o olhar sensível e as recordações de Mozarildo atravessam a onda de violência causada pelos invasores, mergulha na infância do pesquisador, detalha o encontro que teve com os garimpeiros ilegais na sua terra natal e descreve os cuidados dos Yanomami com a floresta (Urihi a) apesar de perceberem a devastação da terra e a seca dos rios enquanto os invasores “se apossam da terra”.
Na parte de entrevistas, Alfredo Homotona disseca as transformações que o garimpo causou no modo de vida dos Yanomami - da cultura, natureza, liberdade e relações pessoais. Com entrevistados de diferentes regiões das terras altas, muitos hospedados na Casa de Saúde Indígena (Casai) em Boa Vista, como pacientes ou acompanhantes de parentes enfermos.
Alfredo captura o depoimento de mulheres, anciãos e principalmente de jovens que foram cooptados, usados e enganados por promessas dos garimpeiros ilegais.
A pesquisadora e comunicadora Darysa Yanomami reuniu depoimentos de diversas mulheres das terras-baixas, na Terra Indígena Yanomami. Ela apresenta uma sequência de 12 depoimentos com mulheres de diferentes regiões impactadas pela atividade ilegal: corrupção de jovens, assédio às mulheres, destruição dos alimentos e oferta de comida industrializada em troca de silêncio e favores.
“Fiquei muito preocupada ao ver as imagens de crianças desnutridas em outras regiões. É esse o rastro que deixam os garimpeiros onde ficam perto [dos Yanomami], por isso, não os queremos. Eles nos trazem muito sofrimento, por isso, não queremos que se aproximem. Quando os garimpeiros poluem nossa terra, a malária se alastra muito”, conta uma moradora da região de Wakatha que diz temer e chorar muito pelo futuro dos netos.
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Darysa Yanomami, autora do livro Diários Yanomami|Corrado Dalmonego
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Jovens Yanomami em oficina sobre tradução em 2017|Corrado Dalmonego
“Quando a floresta era bonita”, “quando os garimpeiros invadiram a terra” e “a trapaça dos garimpeiros”. Estes são alguns dos títulos dos diários de Josimar Palimitheli Yanomami. Ele relata como os garimpeiros chegaram ao Palimiu após enganarem algumas lideranças com promessas não cumpridas e como os Yanomami experimentaram a rápida devastação da terra e a poluição dos rios.
“Antigamente, nossos rios eram bonitos, a água era limpa, escura. Os peixes também eram limpos. Era bom, mas quando chegaram muitos garimpeiros, eles poluíram nossos rios. Instalaram suas balsas no meio do rio. Os que subiam de barco, jogavam lixo. Então, os peixes comiam os dejetos sujos e gordurosos das máquinas deles. Ao comer aquela sujeira, os peixes se contaminaram, a carne amoleceu. Foi isso que os garimpeiros fizeram quando começaram a chegar em grandes números e trabalhar com as balsas”, escreve Josimar em seus diários.
Com detalhes, Josimar relembra a primeira vez que o povo de Palimiu viu sacos de lixo em seu rio. As sacolas plásticas estavam acompanhadas de um corpo boiando de um dos garimpeiros. A data era 12 de junho de 2022 - um domingo - e marcava o início de uma era de terror para os Yanomami com conflitos armados e muitas ameaças por parte dos garimpeiros.
Márcio Hesina apresenta a última parte do Diários Yanomami. Ele introduz uma pesquisa sobre o emagrecimento das crianças no Haxiu. Adoecido durante a fase de investigações, Márcio conseguiu fazer o trabalho com famílias de quatro comunidades e ouvir pacientes da Casai, mas não chegou a finalizar o estudo.
Diários Yanomami é um livro realizado pela Hutukara Associação Yanomami (HAY) e o Instituto Socioambiental (ISA). A produção editorial é assinada por Estêvão Senra, geógrafo do ISA, que também faz parte dos times de organização e edição junto a Alcida Ramos e Corrado Dalmonego. A tradução de Yanomae para Português foi feita por Dalmonego conjuntamente com os pesquisadores.
A publicação tem apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), da Rainforest Foundation Norway e do Centro de Documentação Indígena (Missionários da Consolata). Também contribuem com apoio financeiro o Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária da União Europeia (ECHO).
Serviço
Lançamento dos livros Diários Yanomami e O Espírito da Floresta no Reahu na UFRR
Data: Sexta-feira, 24/05, a partir das 18h30
Local: Centro Amazônico de Fronteira (CAF) na Universidade Federal de Roraima
Endereço: Av. Nova Iorque, 48-188 - Aeroporto, Boa Vista - RR
Entrada aberta ao público!
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Cine Japu exibe filmes e conecta pessoas em cidade indígena do Rio Negro
Em seu primeiro ano, iniciativa contou com a participação de quatro cineastas e reuniu cerca de 630 pessoas em São Gabriel da Cachoeira (AM)
Revoada dos pássaros Japu no Rio Negro. Fenômeno inspirou o nome do projeto cultural Cine Japu|João Claudio A. Moreira/Divulgação
Em São Gabriel da Cachoeira, cidade do Amazonas às margens do Rio Negro e cercada pela floresta, diariamente, por volta das 18h30, acontece a revoada dos pássaros japu. E logo após esse horário, quinzenalmente, chega também a hora do Cine Japu.
O projeto levantou voo em 2023 por iniciativa do Instituto Socioambiental (ISA), com participação da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas. Até o momento, foram promovidas 15 sessões, reunindo um público de cerca de 630 pessoas – média de 42 por sessão. Na plateia, de predominância indígena, há estudantes, professores, religiosos, funcionários públicos, militares, pessoas de todas as idades.
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Lançamento do Cine Japu contou com a presença dos comunicadores da Rede Wayuri e do cineasta indígena Moisés Baniwa|Ana Amélia Hamdan/ISA
Além das sessões de cinema, o Cine Japu promove rodas de conversa e encontros para ampliar horizontes, fortalecer a cultura indígena, conectar pessoas, mostrar realidades diversas, informar e divertir.
Para a coordenadora-adjunta do Programa Rio Negro do ISA, Natália Pimenta, o Cine Japu é um projeto que vem promovendo o encontro de que aproxima a organização da cidade de São Gabriel da Cachoeira, seus moradores e instituições e, por isso, é tão importante. “Com o Cine Japu, estamos convidando as pessoas para virem ao ISA, que está de portas abertas para a comunidade de São Gabriel”, falou.
À frente dessas rodas, conduzidas pela comunicadora Suellen Samanta, povo Baré, estiveram quatro cineastas: Moisés Baniwa, Mariana Lacerda, Júlia Berstein e Maya Da-Rin. Outros debates foram realizados por funcionários públicos, pesquisadores e lideranças indígenas.
“Conseguimos trazer nas sessões emoção e reflexão para os nossos espectadores, principalmente chamando atenção para diversas questões e realidades. O Cine Japu também possibilitou a transmissão de valores de luta, sobrevivência e conquistas dos direitos da causa indígena. Através do cinema e da arte, conseguimos alcançar este espaço de grande importância e representatividade para a população gabrielense”, refletiu Suellen Samanta.
As sessões de 2023 foram inauguradas e encerradas por indígenas. A primeira exibição do Cine Japu aconteceu em maio, com o filmeWayuri, de Diana Gandra, documentário que traz a história dos cinco primeiros anos da rede de comunicadores. Na roda de conversa, estavam os protagonistas: os próprios comunicadores.
Na mesma noite foi exibido o documentário Wetapena Nette Ianhapakatti (“Nossos remédios e benzimentos”), de Moisés Baniwa, também presente na sessão.
Já na última exibição de 2023, em novembro, o Cine Japu – que acontece no telecentro do ISA – levantou voo e chegou à Maloca-Casa do Saber da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), com o lançamento em São Gabriel da Cachoeira do documentárioRionegrinas, que narra a história de luta e resistência das mulheres dentro do movimento indígena do Rio Negro.
A primeira exibição do documentário aconteceu em setembro, na Marcha das Mulheres Indígenas, em Brasília, em comemoração aos 20 anos do Departamento das Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN-Foirn).
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Última sessão de 2023 aconteceu na Maloca-Casa do Saber|Ana Amélia Hamdan/ISA
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Casa cheia para exibição do documentário Rionegrinas|Ana Amélia Hamdan/ISA
O Cine Japu também recebeu ao longo de 2023 três diretoras de cinema. A cineasta Mariana Lacerda trouxe o delicado e impactanteGyuri, com exibições em Boa Vista, Manaus e São Gabriel da Cachoeira. Ela conduziu a roda de conversa ao lado da liderança indígena Braz França, povo Baré, – que faleceu alguns meses depois – e da artista Rosi Waycon, do povo Piratapuya. O filme mostra a ligação da fotógrafa Claudia Andujar com o povo Yanomami.
Na plateia, a enfermeira Clara Opoxina, que trabalha com os Yanomami, se emocionou ao comentar que a crise retratada na tela estava se repetindo no atual momento devido à invasão garimpeira.
A cineasta Julia Bernstein participou da sessão que exibiu o filmeKarai ha'egui kunha karai 'ete - Os Verdadeiros Líderes Espirituais, de Alberto Alvares. Ela fez parte da equipe de filmagens. Júlia Bernstein desenvolveu oficinas com comunicadores indígenas e repassou sua experiência.
Para ela, o cinema pode aproximar os jovens indígenas de suas tradições. “O audiovisual, que é uma coisa da tecnologia, que interessa muito aos jovens, pode reconectar os jovens com a tradição também. O que o Alberto faz é a preservação da memória, do modo de vida Guarani e da história das pessoas”, disse ela, na roda de conversa.
Maya Da-Rin exibiu em São Gabriel da Cachoeira o filmeA Febre, conduzindo a roda de conversa. No elenco do filme estão dois indígenas de São Gabriel da Cachoeira: Regis Myrupu e Rosa Peixoto. Boa parte dos diálogos é em língua indígena. Na plateia formada principalmente por indígenas de São Gabriel, muitos reconheceram sua língua.
“Eu esperei muito pelo lançamento do filme aqui em São Gabriel da Cachoeira e ainda sonho com a exibição no território indígena. Logo após o filme ficar pronto, veio a pandemia. E isso atrasou esse encontro que acontece agora”, disse. Maya Da-Rin também realizou uma oficina de cinema com os comunicadores da Rede Wayuri.
O senhor Laurentino, povo Desana, conhecedor tradicional, assistiu ao filme e falou da importância da história de cada indígena. “Cada um de nós tem a sua história. O indígena tem que ser protagonista da sua história”, disse.
Essa exibição contou com a presença especial do Dr. Dráuzio Varella, médico, escritor e comunicador que estava em São Gabriel e foi conhecer o Cine Japu.
Em uma parceria com projeto do Museu de Berlim, em uma das sessões foram exibidas entrevistas gravadas no Rio Negro com a temática do contato entre indígenas e não indígenas. A roda de conversa foi conduzida pelo comunicador Ray Baniwa. Na plateia, estudantes de arqueologia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) trouxeram a importância do projeto trazer as narrativas indígenas.
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Comunicadores da Rede Wayuri entrevistaram a cineasta Mariana Lacerda no programa Papo da Maloca, em maio de 2023|Ana Amélia Hamdan/ISA
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Maya Da-Rin, diretora do filme A Febre, em entrevista no programa Papo da Maloca, da Rede Wayuri, em outubro de 2023|Ana Amélia Hamdan/ISA
Em duas sessões, foram feitos convites especiais a duas comunidades: Os moradores do Waruá, do povo Dâw, assistiram ao filme Gyuri. Já a comunidade de Itacoatiara Mirim contou com a presença da liderança indígena, Luiz Laureano, para assistir ao filme A Febre.
O Cine Japu também promoveu uma sessão infantil, indo até a Escola Mamãe Margarida, voltada a crianças portadoras de necessidades especiais.
Entre outros convidados, também conduziram as rodas de conversa a antropóloga do ISA Dulce Morais, a economista do ISA Ana Letícia Pastore, a defensora Isabela Sales, a coordenadora do DMIRN, Cleocimara Reis, do povo Piratapuya e as lideranças femininas Edneia Teles, do povo Arapasso e Rosilda Cordeiro, do povo Tukano.
Um dos grandes incentivadores do projeto foi o arcebispo de São Gabriel da Cachoeira, Dom Edson Damiam, que esteve presente na maioria das sessões e ainda fez divulgações na missa na catedral da cidade. Entre outros apoiadores estão o Instituto Federal do Amazonas (IFAM), Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Colégio São Gabriel, ICMBio, Defensoria Pública e Associação dos Artesãos Indígenas de São Gabriel da Cachoeira (Assai).
A primeira sessão de 2024 aconteceu ainda em abril, Mês dos Povos Indígenas. Na terça-feira, dia 30 de abril, a Sala Dagoberto Azevedo, Suegu, na sede do ISA, recebeu moradores da comunidade Waruá, alunos do curso de Letras da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), professores, pesquisadores e o público em geral para a exibição do filme Línguas da Floresta (direção Juliana de Carvalho e Vicente Ferraz). O filme traz imagens gravadas em São Gabriel da Cachoeira e outros locais.
No evento, uma roda de conversa com a presença de Roberto Sanches, liderança do povo Dâw, e do professor Flávio Ferraz, do povo Wanano, discutiu o fato de que em São Gabriel - a terceira cidade mais indígena do país - muitos dos nomes das ruas, praças e pontos turísticos não são em línguas indígenas.
As sessões do Cine Japu acontecem quinzenalmente às terças-feiras, às 19h, no Telecentro do ISA. A entrada é gratuita e ainda há distribuição de pipoca e suco. Participe!
Dráuzio Varella com os comunicadores João Alex Yanomami, Juliana Albuquerquer Baré, Suellen Samanta Baré, Deise Alencar Tukano e José Paulo Piratapuya|Ana Amélia Hamdan/ISA
Diretora Maya Da-Rin durante oficina de cinema com os comunicadores da Rede Wayuri, em outubro de 2023|Ana Amélia Hamdan/ISA
Ray Baniwa conduz debate sobre o contato dos indígenas e não indígenas no alto rio Negro, em novembro de 2023|Ana Amélia Hamdan/ISA
A comunicadora Suellen Samanta, do povo Baré, conduziu as rodas de conversa do Cine Japu|Ana Amélia Hamdan/ISA
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No Rio Negro, cartilha aborda cuidados com o uso do álcool entre indígenas
Material discute consumo de bebidas tradicionais e industrializadas, informando sobre riscos e apontando alternativas de enfrentamento à questão
A cuia de caxiri, uma bebida fermentada apreciada pelos indígenas do Médio e Alto Rio Negro (AM), juntamente com a pimenta, cipós e chás, constituem elementos tradicionais fundamentais para os povos dessa região. Estes elementos, combinados com outras substâncias, preparos e alimentos, desempenham um papel essencial no fortalecimento das atividades coletivas, na coesão das comunidades, nos laços familiares e nos rituais.
O material aborda o problema do abuso de álcool nessa região, oferecendo diversas estratégias de redução de danos, cuidados e fortalecimento para lidar eficazmente com essa questão.
Apesar da falta de dados oficiais, a percepção dos indígenas, das organizações e de profissionais da saúde é de que o abuso do álcool vem crescendo nas áreas urbanas e nos territórios indígenas.
Deslocado do contexto cultural e ritualístico, o uso da bebida vem ganhando contornos preocupantes. Alguns problemas pontuados na própria cartilha são: mortes causadas por brigas, violências contra as mulheres e as crianças, acidentes, afogamentos e enforcamentos.
A cartilha aborda o tema de forma intercultural e interinstitucional, abrindo para discussão das formas de enfrentamento ao problema.
Desenvolvido pelo Instituto Socioambiental (ISA) e Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), o material foi elaborado em parceria com o Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (Dsei-ARN) e com apoio de instituições do município.
Coordenador do Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (DAJIRN/Foirn), Elson Kene explica que o conteúdo começou a ser preparado antes da pandemia, sendo que a crise sanitária acabou atrasando a sua divulgação. “Com esse material, vamos ampliar a conscientização e buscar parcerias para minimizar o problema”, explicou.
A liderança indígena Adelina Sampaio, povo Desana, é ex-coordenadora do DAJIRN/Foirn e deu início ao trabalho de construção da cartilha, após rodas de conversas realizadas em escolas de São Gabriel da Cachoeira, onde o problema foi trazido pelos estudantes e professores.
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Trecho de cartilha editada por ISA e Foirn no Rio Negro/Divulgação
“Em 2017, com problemas de homicídios, suicídios e outros problemas sociais, a gente começou a fazer uma conversa dentro das escolas de São Gabriel da Cachoeira. E fizemos esse apanhado para criar essa cartilha. Foi um trabalho muito estruturado com presença do Conselho Tutelar, DSEI, Diocese, Foirn, ISA e outros parceiros. O DAJIRN trabalhou na construção dessa rede. A cartilha não apenas reconhece a existência do problema, algo já discutido durante as rodas de conversa, mas também busca oferecer estratégias para enfrentá-lo. Sabemos que só conseguiremos superar esses desafios com o engajamento de todos”, disse.
A organização é de Dulce Morais, assessora de gênero do Programa Rio Negro do ISA; as ilustrações são de Larissa Ye´padiho Mora Duarte, povo Tukano, e o projeto gráfico e diagramação são de Ray Baniwa, da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas do Rio Negro.
O material está sendo levado ao território indígena pelos articuladores e articuladoras e foi entregue também ao DSEI-ARN, que vem desenvolvendo atividades com apoio do material. A Rede Wayuri também fez a divulgação na programação da rádio web.
Lançamento em São Gabriel da Cachoeira
O lançamento aconteceu em fevereiro, na Sala Dagoberto Azevedo – Suegu, na sede do ISA em São Gabriel da Cachoeira (AM), reunindo parceiros como a Diocese e órgãos da saúde e da educação.
Na sequência, houve uma semana de atividades de formação para que o conteúdo fosse levado e discutido no território indígena. Essa etapa foi conduzida pelas antropólogas do ISA, Carla Dias e Dulce Morais, pela coordenadora do DMIRN/Foirn, Cleocimara Reis, e por Elson Kene.
Os encontros reuniram articuladores e articuladoras de jovens e mulheres indígenas de todas as regiões do Médio e Alto Rio Negro da área de abrangência da Foirn.
O antropólogo Bruno Marques esteve no lançamento da cartilha e participou das oficinas. “No tempo antigo, o uso da bebida era tido como uma prática de cuidado e saúde, fazendo parte de rituais com outros elementos, como os benzimentos”, reforçou.
Terapeuta ocupacional, Maria Antonieta Dias, referência em Centro de Atenção Psicossocial – álcool e drogas (Caps-ad) – e redução de danos, participou da formação de forma remota.
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Equipes da Foirn e do ISA estiveram presente no lançamento da cartilha, em São Gabriel da Cachoeira|Ana Amélia Hamdan/ISA
Jaqueline Gonçalves, referência técnica de saúde mental do DSEI-ARN também contribuiu com a formação. Ela apresentou alguns dados levantados pelo DSEI corroborando a preocupação com o uso abusivo de álcool e o manejo desse problema por meio de políticas públicas de saúde integral e humanizada.
Durante o encontro, houve roda de conversa para que os indígenas pudessem trazer os principais pontos do problema.
Articuladora de jovens Josiane Silva Pereira, do povo Tariano, vive no distrito de Iauaretê, que fica próximo da fronteira com a Colômbia, e participou da oficina representando a sua região. Ela informa que, como articuladora de jovens, fará o trabalho de levar adiante as informações disponíveis na cartilha.
“A gente vê na realidade que é um problema difícil. Tem muito adolescente e jovem com problemas com álcool e até alcoolismo. A gente percebe um aumento enorme. E é complicado reduzir, mas uma forma de avançarmos é pela conscientização”, disse.
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Filme ‘A Queda do Céu’ apresenta cosmologia Yanomami com estreia em Festival de Cannes
Documentário centrado em ritual dos Yanomami é inspirado no livro de mesmo nome escrito pelo xamã Yanomami Davi Kopenawa e o antropólogo francês Bruce Albert
Criado em 1946, o Festival de Cannes é um dos mais famosos e prestigiados festivais de cinema do mundo. A 77ª edição está marcada para acontecer de 14 a 25 de maio neste ano. A data para primeira exibição de “A Queda do Céu” ainda deve ser anunciada.
O documentário, dirigido por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, é centrado na festa Reahu, ritual funerário e a mais importante cerimônia dos Yanomami, que reúne centenas de parentes dos falecidos com a finalidade de apagar todos os rastros daquele que se foi e assim colocá-lo em esquecimento.
“É um filme onde a câmera não olha só para os Yanomami, mas para nós não indígenas também. E isso sempre foi um fundamento do filme tanto para mim quanto para Eryk. Trabalhamos para fazer um filme que expressasse a materialidade onírica de uma relação”, explica Gabriela.
A partir de três eixos fundamentais do livro (Convite, Diagnóstico e Alerta), o filme apresenta a cosmologia do povo Yanomami, o mundo dos espíritos Xapiri pë, o trabalho dos xamãs para segurar o céu e curar o mundo das doenças produzidas pelos não- indígenas, o garimpo ilegal, o cerco promovido pelo povo da mercadoria e a vingança da Terra.
Lançado em 2010, originalmente em francês, “A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami” reúne reflexões de Davi Kopenawa, contadas ao seu amigo Bruce Albert, sobre o contato de seu povo com os não indígenas desde os anos 1960.
“O filme é um diálogo com o livro homônimo de Davi Kopenawa, xamã Yanomami e um dos maiores líderes indígenas do mundo, e Bruce Albert, antropólogo francês. A obra é considerada por muitos especialistas como uma das mais importantes da contemporaneidade”, explica a Aruac Filmes.
Além da produção da Aruac Filmes, o filme conta com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), co-produção da Hutukara Associação Yanomami (HAY) e Stemal Entertainment com Rai Cinema e produção associada de Les Films d'ici.
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Davi Kopenawa, xamã yanomami e autor do livro A Queda no Céu|Bruno Kelly/Amazônia Real
Sobre os diretores
Eryck Rocha, é natural de Brasília e já disputou a Palma de Ouro de melhor curta-metragem por “Quimera” em 2004. Além disso, recebeu o L'Œil d'or (Olho de Ouro) de melhor documentário no Festival de Cannes por ‘Cinema Novo’ em 2016.
Gabriela Carneiro da Cunha, nasceu no Rio de Janeiro e faz sua estreia em direção de cinema com “A Queda do Céu”. A artista também é atriz e idealizadora do projeto Margens - sobre Rios, Buiúnas e Vagalumes por meio do qual desenvolveu as peças “Guerrilha” e “Altamira 2042”.
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