A Bacia do Rio Negro se estende pelos estados do Amazonas e de Roraima, no Brasil, e também avança pelos territórios vizinhos da Colômbia, Venezuela e Guiana. Na sua porção no Amazonas, a bacia é uma das regiões mais preservadas de todo o bioma amazônico, com biodiversidade incalculável. Por outro lado, a parte da bacia localizada em Roraima vem sofrendo grande degradação ambiental causada pelo garimpo ilegal de ouro, desmatamento e roubo de terra, ou "grilagem de terra".
Aproximadamente 68% da Bacia do Rio Negro no Brasil está formalmente protegida por um conjunto de unidades de conservação e terras indígenas legalmente reconhecidas. A diversidade cultural da região é enorme: ali vivem 45 povos indígenas e estão localizados dois patrimônios culturais do Brasil – a Cachoeira de Iauaretê e o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro – além do ponto mais alto do Brasil, o Pico da Neblina, lugar sagrado do povo Yanomami.
No Rio Negro, o ISA mantém trabalho de longo prazo e parceria institucional - que nos enche de orgulho - com associações indígenas e suas lideranças, entre elas a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), a Hutukara Associação Yanomami (HAY) e o Conselho Indígena de Roraima (CIR).
Mantemos escritório e equipe na cidade de São Gabriel da Cachoeira (AM), considerado o município mais indígena do Brasil, localizado no Alto Rio Negro. De São Gabriel, também descemos com as águas do Negro para apoiar comunidades e associações indígenas dos municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, ambos no Amazonas. Em 2009, o ISA incorporou a organização Comissão Pró-Yanomami (CCPY), sua equipe e legado, abrindo escritório em Boa Vista (RR) e passando a atuar diretamente com o povo Yanomami e outros povos de Roraima.
Atualmente, o ISA atua na Bacia do Rio Negro com a promoção de processos formativos, articulando parcerias para a proteção dos territórios indígenas, valorização da diversidade socioambiental, segurança alimentar das comunidades, desenvolvimento de cadeias de valor da economia da floresta para geração de renda e produção de pesquisas interculturais que dêem visibilidade aos conhecimentos tradicionais e modos de vida das populações que, há muitos anos, mantém as florestas da região preservadas.
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Livros 'Diários Yanomami' e 'Puu naki thëã oni' são selecionados para a 14ª Bienal Brasileira de Design
Publicações bilíngues da Hutukara Associação Yanomami em parceria com o ISA apresentam o trabalho de pesquisadores indígenas
A coleção “Urihi anë thëpëã pouwi” (ou Saberes da Floresta Yanomami, em português), da Hutukara Associação Yanomami em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), foi selecionada como projeto de destaque da 14ª Bienal Brasileira de Design, na categoria profissional de Margens & Colunas – Livros de ficção e não ficção.
'Puu naki thëã oni: o conhecimento yanomani sobre abelhas'|Claudio Tavares/ISA
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'Diários Yanomami: testemunhos da devastação da floresta'|Diego Bresani
O projeto “Urihi anë thëpëã pouwi/Saberes da Floresta Yanomami” foi um dos 23 selecionados na categoria Margens & Colunas, na subcategoria Livro de ficção e não ficção, destinada aos projetos gráficos editoriais de livro de ficção, não ficção ou em quadrinhos, podendo ser edições isoladas ou coleções.
Em Puu naki thëã oni, os elementos gráficos de composição na página – ilustrações e aquarelas – complementam a produção científica sobre abelhas sociais, transmitindo os saberes e conhecimentos tradicionais yanomami. Por sua vez, Diários Yanomami desponta como uma publicação que oferece, em edição única, quatro diferentes estruturas textuais: diários, entrevistas, depoimentos e notas.
Os volumes são bilíngues, produzidos originalmente nas línguas Yanomami, por pesquisadores locais, e depois traduzidos para o português. Como parte das línguas indígenas brasileiras utilizam caracteres ausentes na maioria das fontes tipográficas comerciais, o emprego de uma fonte com suporte às línguas yanomami se tornou fundamental para a execução do projeto gráfico da coleção.
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Ilustrações na parte interna de 'Puu naki thëã oni: o conhecimento yanomani sobre abelhas'|Felipe Bastos
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Texto em português e Yanomae em 'Diários Yanomami: testemunhos da devastação da floresta'|Diego Bresani
Promovida pela Hutukara e pelo ISA em 2022, a iniciativa tem como objetivos a valorização e fortalecimento dos saberes e das línguas yanomami, além de proteger a Terra Indígena Yanomami. A coleção divulga estudos de pesquisadores yanomami sobre diversas áreas do conhecimento, tradicional ou não, e reúne pesquisas realizadas em colaboração com especialistas napë pë (não-yanomami).
O projeto contou com os autores de design Felipe Cavalcante e Gabriel Menezes, a ilustração dos pesquisadores Yanomami e aquarelas de Hadna Abreu, e a diagramação de Felipe Cavalcante, Gabriel Menezes e Cecília Cartaxo.
Sobre a 14ª Bienal Brasileira de Design
A 14ª Bienal Brasileira de Design será sediada em Aracaju (SE), entre 6 e 20 de dezembro deste ano, com o tema “Giros: movimentos que dão voz às nossas histórias, culturas e identidades”. O tema desta edição resgata a herança sergipana, inspirado pela vibrante tradição conhecida como Parafuso, uma dança que celebra a cultura e a história ancestral de seu povo.
Em 2024, a curadoria da Bienal optou por selecionar projetos para destacar, buscando reconhecer aqueles que celebram e expandem o design brasileiro. Foram inscritos projetos realizados, produzidos e/ou publicados entre janeiro de 2019 e junho de 2024, no Brasil. As 15 categorias de destaque foram concebidas para representar de maneira mais lúdica e abrangente a diversidade do design brasileiro.
Esta será a primeira edição desde a pandemia de Covid-19: a última edição ocorreu em dezembro de 2019, no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba (PR). O momento sinalizou a necessidade de mudanças na Bienal, com desafios e novas pautas que visam aproximar a diversidade que almejamos para nosso país.
O evento é organizado pela Associação dos Designers Gráficos (ADG Brasil) em parceria com o governo do Estado de Sergipe, além de receber apoio do banco Itaú. A Bienal será montada no Centro de Convenções AM Malls Sergipe.
Diários Yanomami: testemunhos da destruição da floresta
O livro reúne uma coleção de textos produzidos por pesquisadores yanomami, entre 2019 e 2022, sobre os impactos negativos da exploração garimpeira no seu território. São diários, testemunhos e entrevistas, que se aprofundam nas transformações causadas pelo garimpo na vida yanomami nos últimos anos: na cultura, na natureza, na liberdade e nas relações pessoais.
Além de descrever a devastação da paisagem e a desestruturação social provocada pela mineração ilegal, a produção é um convite aos não indígenas para uma tomada de ação pelos direitos dos povos originários e o respeito ao seu território.
A produção editorial é assinada por Estêvão Senra, geógrafo do ISA, que também faz parte dos times de organização e edição junto a Alcida Ramos e Corrado Dalmonego. A tradução de Yanomae para Português foi feita por Dalmonego conjuntamente com os pesquisadores.
O livro foi produzido pela Hutukara Associação Yanomami e o ISA, com apoio do Fundo das Nações Unidas para a criança e adolescente (UNICEF), da Rainforest Foundation Norway e do Centro de Documentação Indígena (Missionários da Consolata). Também contribuem com apoio financeiro o Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária da União Europeia (ECHO) da União Europeia.
Puu naki thëã oni: o conhecimento yanomami sobre abelhas
Este livro apresenta os resultados de uma pesquisa sobre abelhas sociais realizada na aldeia Piau, na região do Toototopi, Terra Indígena Yanomami. O trabalho foi desenvolvido por jovens pesquisadores yanomami, orientados por velhos conhecedores de suas aldeias, com assessoria técnica do ISA.
A pesquisa transcorreu em quatro etapas, de abril de 2016 a março de 2018. Ao todo, o trabalho apresenta trinta e duas nomenclaturas de abelhas sociais. Para cada uma das abelhas listadas estão descritas a sua aparência, comportamento, características do mel, local de nidificação, aspectos do ninho e flores preferenciais.
Diante da emergente crise contemporânea da biodiversidade, o povo Yanomami tem prestado um serviço inestimável à conservação das florestas no norte da Amazônia. Nesta publicação, os yanomami fortalecem a associação entre o saber tradicional ao conhecimento técnico-científico, com valiosas informações para a salvaguarda das abelhas nativas.
Atenção: a reportagem a seguir aborda temas sensíveis, como saúde mental e suicídio, que podem gerar gatilhos. Se você precisar de apoio, contate o Centro de Valorização à Vida (CVV) pelo telefone 188 (ligação gratuita), pelo site, ou busque unidades de saúde na sua cidade.
O município de São Gabriel da Cachoeira, localizado ao noroeste do estado do Amazonas, apresenta um cenário preocupante de saúde pública relacionado aos índices de suicídio registrados na região. De acordo com dados da Vigilância Epidemiológica do município, de 2020 a 2023, foram registrados 77 casos de tentativas de suicídio/autolesão. Só em 2024, até o início do mês de setembro, esse número já chega a 34. Questões ambientais relacionadas às mudanças climáticas, como a estiagem cada vez mais severa na região, já são compreendidas como fatores de risco a serem monitorados pelos órgãos de saúde do Amazonas.
Ainda de acordo com os dados da Vigilância, foram 71 registros de mortes por suicídio no mesmo período (2020 a 2023), sendo 14 só até o inicio de setembro deste ano. Com 98 % de sua população autodeclarada indígena, o cenário exige atenção contínua e estratégias diferenciadas para prevenção.
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Orla da praia de São Gabriel da Cachoeira (AM), cidade de maioria indígena que tem índices preocupantes de suicídio|Carol Quintanilha/ISA
Diante disso, o Comitê Municipal de Prevenção ao Suicídio e Automutilação lançou na última semana o Plano Municipal de Prevenção ao Suicídio, documento que prevê uma série de ações multidisciplinares e intersetoriais com objetivo principal de reduzir essas taxas por meio do fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial, capacitação de profissionais, campanhas de conscientização, integração com as comunidades indígenas, monitoramento e avaliação das ações.
Se tratando de uma população majoritariamente indígena, o plano destaca a promoção de um diálogo intercultural e interinstitucional para se pensar estratégias de prevenção que respeitem e integrem as tradições e os conhecimentos dos povos, como o mapeamento de conhecedores tradicionais para apoio e acolhimento de pessoas em sofrimento mental e itinerários terapêuticos que incluam benzimentos e a medicina tradicional.
O comitê municipal é o primeiro a ser implementado no Amazonas, de acordo com a Secretária de Estado de Saúde, e é composto por representantes do Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (DSEI/RN), Diocese de São Gabriel da Cachoeira, Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), Instituto Federal do Amazonas (IFAM), Instituto Socioambiental (ISA), Secretaria Municipal de Assistência Social, Secretaria Estadual de Educação, Secretaria Municipal de Juventude, Esporte e Lazer e Secretária Municipal de Saúde.
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Encontro de membros do comitê de combate ao suicídio|Acervo do comitê
O ISA tem participado do Comitê Municipal de Enfrentamento ao Suicídio desde sua criação, em 2019, junto com as instituições locais. Neste período, seu funcionamento passou por alguns altos e baixos, como a pandemia de Covid-19 e ainda a rotatividade de pessoas que o compunham. “Temos percebido que isso enfraquece as ações institucionais e a do próprio Comitê”, explica Dulce Morais, antropóloga e representante do ISA na composição.
Dulce conta que desde o ano passado houve um esforço do grupo para a retomada dos encontros e neste ano, a partir de uma formação oferecida pela Diocese de São Gabriel, conseguiram avançar nas discussões e na elaboração do Plano Municipal de Enfrentamento ao Suicídio.
Até o momento, o Comitê tem realizado reuniões periódicas e mantido membros fixos de cada instituição que o compõem. Segundo a antropóloga, um dos principais desafios antes da elaboração do plano era a falta de acesso aos dados epidemiológicos, o que dificultava a criação de ações de prevenção e cuidados mais direcionados. "Com essas informações, podemos identificar quais povos são mais vulneráveis e entender os fatores sociais que agravam essa vulnerabilidade", explicou.
A partir do plano, foram pensadas ações iniciais, voltadas para um trabalho colaborativo que respeite as especificidades dos povos indígenas. Entre elas, estão o estudo dos dados sobre o suicídio no município e a análise do Plano de Gestão Territorial e Ambiental em Terras Indígenas (PGTA), que contém demandas relacionadas ao bem-viver e pode contribuir para a redução dos casos de suicídio.
Subnotificação
“Os índices estão aumentando, mas estamos falando de subnotificação. A situação de São Gabriel da Cachoeira é ainda mais alarmante”, alertou a gerente da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM), Diana Oliveira da Silva, durante oficina de Capacitação de Assistência à Saúde Mental sobre os agravos relacionados à violência autoprovocada realizada em São Gabriel da Cachoeira.
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Diana Oliveira da Silva ministra oficina em São Gabriel da Cachoeira|Vanessa Fernandes/ISA
Promovida pelas Secretária Municipal e Estadual de Saúde (SEMSA e SES-AM) e Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS), a atividade reuniu profissionais da Saúde, Educação, Juventude, organização indígena e sociedade civil durante dois dias, a fim de reforçar a importância da notificação e o seu preenchimento correto para o fortalecimento de políticas públicas de prevenção e acolhimento dos casos.
Em sua fala, Diana incentivou que outros setores, além da Saúde, também contribuíssem com o reporte junto à Vigilância Epidemiológica do município: “a obrigação de relatar é do profissional da Saúde e da Educação Estadual, mas todos podem e devem contribuir”.
A notificação de casos suspeitos de tentativa de suicídio no Brasil, assim como de violência sexual, é obrigatória e deve ser feita em até 24 horas para que medidas urgentes de acolhimento e prevenção às vítimas possam ser tomadas.
É com base nessas notificações, que geram dados robustos e confiáveis, que ações de prevenção, enfrentamento e promoção da saúde podem ser discutidas e estruturadas nos municípios.
Suicídio e populações indígenas
Na contramão da média global, os índices de suicídio no continente americano apresentaram um crescimento de 17% entre os anos de 2000 e 2019, com o Brasil figurando entre os países com o aumento mais significativo (43%), de acordo com estudo desenvolvido pelo Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), em colaboração com pesquisadores de Harvard.
Ainda de acordo com a pesquisa, num recorte de raça e etnia, a população indígena apresentou as maiores taxas de notificação de autolesão e suicídio, com mais de 100 casos a cada 100 mil pessoas.
Entre os anos de 2019 e 2022, o Amazonas foi o estado brasileiro que mais registrou casos de suicídios entre indígenas, de acordo com o Relatório da Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil divulgado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Foram 535 no país, sendo 208 registrados no Amazonas, seguido do Mato Grosso do Sul, com 131 casos, e Roraima, com 57.
Com sua população estimada em mais de 51 mil pessoas, São Gabriel da Cachoeira é considerada a cidade com o maior número de pessoas no país que se autodeclaram indígenas. Segundo o Sistema de Informação da Atenção Indígena (SIASI DSEI ARN, 2024), 25.177 indígenas residem nas comunidades rurais do município, distribuídos em 595 aldeias ao longo dos rios existentes na região (Içana, Negro, Waupés, Xié, Tiquié) (SIASI, 2023).
Além de São Gabriel, o Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (DSEI/ARN) abrange ainda as popualções dos municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, totalizando uma extensão territorial de 138.020,94 quilômetros quadrados, que inclui uma área de fronteira com a Colômbia e a Venezuela.
Neste contexto multiétinico e complexo, conforme o boletim epidemiológico n.º 01/2024 da Atenção Psicossocial do DSEI/ARN, do ano de 2006 até o primeiro semestre de 2024, foram registrados pela distrito sanitário 238 óbitos por suicídio, sendo os anos de 2022 e 2020 os que apresentaram maior quantitativo, respectivamente, com uma média de 23,8 mortes por suicídio por ano. Mais de 70% dos casos são de pessoas do sexo masculino e a faixa etária mais atingida é de 15 a 19 anos, seguido da faixa etária de 20 a 29 anos.
Estar localizado em uma área fronteiriça, explica o enfermeiro do DSEI/ARN Sediel Ombrósio, do povo Baré, contribui para uma grande variação nos dados de atendimento do distrito, uma vez que muitos indígenas que vivem nesta faixa acabam buscando atendimento no território brasileiro. “Então são 23 etnias do território [Alto Rio Negro] e mais de 60 que circulam e que nós atendemos”, detalha.
A questão do suicídio indígena é um fenômeno epidemiológico, complexo e multifatorial e, embora haja estudos, não há respostas conclusivas quanto às causas e fatores de risco. Entretanto, de acordo com os relatos de trabalhadores da saúde e das próprias comunidades onde os casos ocorrem, há uma forte associação ao uso prejudicial de bebidas alcoólicas.
“O suicídio às vezes tem a parte do alcoolismo, da bebida. E há outras características também, de brigar com a namorada, de brigar com a família, de querer alguma coisa e não ter. E não é [característico] só de um grupo, ele é num contexto geral, é nacional. Se olhar o que motiva, o que dá coragem para a pessoa se suicidar, é quando ela bebe ou ela usa alguma outra coisa ruim”, relata Sediel.
Ainda de acordo com o enfermeiro, em algumas situações, quando há óbito autoprovocado em uma família, outros registros de tentativa ou consumação podem ocorrer dentro do mesmo núcleo. O que leva à importância da atenção e acompanhamento das famílias no pós suicídio também como medida de prevenção e enfrentamento a novos casos.
As mudanças sociais e culturais vividas pelos indígenas também apresentam hipóteses dos fatores que predispõe ao suicídio, como a perda das práticas dos rituais de passagem, como da infância para a vida adulta.
Fatores ambientais
Como levantado pela gerente da Rede de Atenção Psicossocial do Amazonas, além das questões socioculturais, em um contexto de mudança climática que é global, fatores ambientais também são entendidos como fatores de risco não só para as populações indígenas do Amazonas, mas também ribeirinhas, quilombolas e extrativistas.
“O que saúde mental tem a ver com a estiagem? Tudo. Vem a estiagem, o rio seca, já começa o processo de isolamento. A maioria dessas comunidades têm algum tipo de relação com os seus pólos base, seja para acessar serviços ou insumos, ou se comunicam com outras comunidades ribeirinhas. Ou seja, o rio seca e impede o acesso. As pessoas podem dizer que isso já acontece há muito tempo e, sim, acontece, mas tem se agravado muito nos últimos anos”, avalia Diana.
Ela reflete ainda sobre o impacto dos eventos extremos nas roças, na pesca, com reflexos na segurança alimentar e subsistência das famílias. “Às vezes o homem, que é responsável pela manutenção dessa família, não consegue fazer nada disso, não consegue prover sua família, e pode ser levado a um estado agudo de sofrimento”.
Por fim, completa Diana, é preciso entender a questão dos fatores que provocam o sofrimento mental e que essa compreensão não é só uma questão de diagnóstico. “Eu posso ter sofrimento quando eu vivo em um ambiente de violência, se eu perdi um emprego, se não tenho segurança alimentar”, diz, o que exige um envolvimento e diálogo de todos os equipamentos públicos e da sociedade como um todo.
A animação ilustra a presença da saúde mental em todas as esferas da vida, reforçando a importância da ampliação do debate sobre o tema.
Em roda de conversa após a exibição, os convidados bateram um papo com o público sobre a importância de se falar abertamente sobre o tema, aspectos da questão no contexto da saúde indígena e a formação de profissionais, inclusive indígenas, que levem em consideração os conhecimentos e medicinas tradicionais.
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Cine Japu, iniciativa ISA com participação da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas, debateu saúde mental dos povos indígenas|Vanessa Fernandes/ISA
Participaram da roda o enfermeiro do DSEI Sediel Ambrósio, o diretor Federção dos Povos Indígenas do Rio Negro (FOIRN) Hélio Gessem, do povo Baré, e a diretora da Secretaria Municipal de Juventude Esporte e Lazer (SEMJEL) e articuladora do Selo Unicef-SGC Edneia Teles, do povo Arapaço.
O Papo de Maloca, programa de rádio da Rede Wayuri, também destacou a temática nesta semana, com a participação do enfermeiro Sediel, que tirou dúvidas dos ouvintes sobre saúde mental dos povos indígenas.
“Acredito que é importante falar sobre este tema dentro de um programa de rádio, porque os ouvintes, no caso a população gabrielense, ficam informados sobre as ações e trabalhos que estão sendo realizados na sede [do município] e no interior sobre esta temática. Assim podem compartilhar essas informações para os seus parentes que estejam passando por algum problema ou não, e tudo isso já seria uma forma de poder ajudar alguém. E o rádio é um meio de comunicação muito importante para abordar vários temas relevantes para a população em geral”, reforça a comunicadora da Rede Wayuri Cláudia Ferraz.
O programa Papo de Maloca vai ao ar todas às quartas-feiras, das 10h às 12h, na rádio FM O Dia (92,07).
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Em intercâmbios no noroeste amazônico, mulheres indígenas discutem seu bem-estar e enfrentamento à violência de gênero
Diálogos entre indígenas das bacias dos rios Tiquié e Içana aconteceram no âmbito da Cooperação e Aliança no Noroeste Amazônico (Canoa)
Por meio do fortalecimento cultural e uma agenda territorial transfronteiriça, os encontros da Cooperação e Aliança no Noroeste Amazônico (Canoa) tem como propósito promover cuidados relacionados ao ecossistema e à biodiversidade cultural da região norte do Rio Amazonas. Para isso, torna-se fundamental o diálogo e troca de experiências entre as comunidades indígenas no Rio Tiquié e no Rio Içana, na fronteira entre Brasil e Colômbia.
Em maio de 2024, depois de mais de uma década, aconteceu o reencontro da Canoita no rio Tiquié, em que a pauta da violência contra as mulheres indígenas surgiu antes mesmo de chegarmos em Bellavista, comunidade colombiana que sediou o encontro.
No encontro da Canoa, realizado em Punta Tigre em 2023, no Rio Içana, surgiu a demanda de realizar um encontro de mulheres Koripako e Baniwa, que aconteceu em julho de 2024, na comunidade Camanaus, fronteira entre Brasil e Colômbia. Nesse encontro, o intercâmbio de experiências e conhecimentos entre as mulheres indígenas foram relacionados ao artesanato, a saúde e bem estar das mulheres do Rio Içana.
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Mulheres na Canoita do Tiquié, comunidade Bellavista, Colômbia, em intercâmbio em maio de 2024|Camila Alzate/FGA
Pauta de violência contra a mulher na Bacia do Rio Tiquié
Durante a subida no Rio Tiquié para a realização da Canoita na comunidade Bellavista, no período de 16 e 20 de maio de 2024, escutamos diversas histórias — narradas por homens indígenas — sobre casos de violências físicas contra mulheres naquela região. Alguns casos ganharam maior destaque nas narrativas pela percepção de brutalidade e gravidade explicitada pelos interlocutores.
A primeira história contada foi narrada por um viajante, indígena da região, que relacionou dois casos de violência física contra mulheres e um caso de suicídio de uma jovem com o uso exagerado de bebidas alcoólicas. Durante a conversa, foi mencionado que, ao contrário da Colômbia, no Brasil esses casos ficam sem resoluções.
A comparação deve-se a um caso recente de feminicídio, em investigação, que aconteceu em comunidade indígena colombiana no Rio Tiquié. Também ressaltou que os profissionais de saúde do Polo Base, localizado na área de abrangência em que tais violências ocorreram, realizaram palestras sobre o enfrentamento da violência contra a mulher, mas que os agressores não compareceram.
Alguns homens que comentaram a respeito das violências sofridas pelas mulheres no percurso do Tiquié acreditam que as mulheres indígenas se sentem amparadas pela Lei nº 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha e, por isso, “querem ser mais que os homens”, e que também “cometem violências contra os homens”. Outros entendem que as próprias mulheres se alcoolizam e, por isso, são violentadas.
Já em Bellavista, no igarapé Abiu, afluente do Alto Tiquié, as mulheres brasileiras ressaltaram a demanda para falar e estudar, de forma contínua, a questão de violências contra as mulheres nos encontros das Canoitas, para que juntas possam conhecer melhor as leis que devem protegê-las.
Em um segundo momento de atividade, junto com as companheiras colombianas, a maioria concorda que essa temática é fundamental, tendo em vista os acontecimentos frequentes em ambos os países, nos territórios das mulheres presentes.
Bem-estar da mulher indígena e convivência comunitária na Bacia do Içana
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Exposição de artesanatos no I Encontro de Mulheres Koripako e Baniwa, comunidade Camanaus, fronteira do Brasil e Colômbia|Dulce Morais/ISA
Para além das diferenças socioculturais, a subida pelo Içana para a realização do I Encontro de Mulheres Koripako e Baniwa, no período de 22 a 24 de julho, foi completamente diferente que a do Tiquié. Foram poucos os encontros com viajantes e moradores das comunidades. Desse modo, também foram poucas as conversas e relatos sobre o território do Içana.
O I Encontro de Mulheres Koripako e Baniwa teve três momentos para abordar as temáticas de interesse das mulheres indígenas: i. práticas e conhecimentos associados à produção de artesanatos no que se refere à proteção e revitalização do trabalho da mulher no manejo do território; ii. saúde e bem-estar das mulheres com o objetivo de valorizar as práticas culturais e conhecimentos tradicionais das mulheres; iii. bem-estar das mulheres e a boa convivência comunitária, que objetivou a promoção de reflexões das próprias mulheres indígenas sobre seu bem-estar, cuidados com a vida comunitária e violências no território.
Durante a atividade, uma liderança indígena fala sobre “violência intrafamiliar”. A fala chamava a atenção para a importância de falar sobre o tema e convidava os homens a estarem presentes para ouvir o que as mulheres têm vivenciado no território. Também tivemos conhecimento sobre casos de violência sexual contra crianças e agressões físicas contra mulheres indígenas, além da violência psicológica que apareceu nos grupos de trabalho.
Como observação inicial, percebe-se que as mulheres Koripako e Baniwa compreendem que a boa convivência comunitária as deixam felizes, evidenciando um cuidado com o coletivo para o bem-estar das mulheres. O acesso à comida no território, a aproximação dos filhos e a união entre os indígenas são alguns dos exemplos apresentados pelas mulheres.
Nessa mesma perspectiva, porém, a falta de união e de saúde na comunidade as deixam tristes. Além disso, compartilharam que, quando o marido não ajuda no trabalho da roça e com a produção dos artesanatos, também há o sentimento de tristeza.
Parcerias e trabalhos do movimento de mulheres indígenas do Rio Negro
A dificuldade em abordar nos territórios as violências vivenciadas pelas mulheres ainda é um grande desafio. Compreender o contexto cultural, a língua indígena falada pelas mulheres, bem como as relações de aliança, parentesco, organização social e poder são fundamentais para os estudos sobre (formas de lidar com) violências de gênero contra as mulheres indígenas. Nesse sentido, torna-se necessário mais estudos e pesquisas sobre a temática, tendo em consideração as especificidades de cada povo e comunidade.
Em São Gabriel da Cachoeira, o Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (DMIRN/FOIRN) vem desenvolvendo um trabalho consistente de pesquisas, conversas e oficinas no enfrentamento às violências contra as mulheres indígenas, em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP) e o Observatório da Violência de Gênero no Amazonas da Universidade Federal do Amazonas (OVGAM/UFAM).
Para compreender melhor essa temática de violência, o DMIRN apoiou e participou do desenvolvimento de um processo de pesquisa que inclui trabalho de campo etnográfico, entrevistas, rodas de conversas, levantamento e sistematização de notícias, trabalhos colaborativos com instituições locais e, especialmente, parcerias com pesquisadoras e professores das universidades mencionadas.
Segundo dados desse relatório, referentes ao período de 2010 a 2019, vemos que 66,9% das violências são cometidas por homens. Além disso, 98,8% das vítimas não tiveram sua etnia/raça informada, o que demonstra uma falta de dados sobre estas especificidades.
A caracterização da violência contra mulheres reportada e registrada na delegacia da cidade de São Gabriel da Cachoeira pode ser visualizada na tabela abaixo.
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É importante mencionar que esses dados não correspondem à realidade quantitativa de violências vivenciadas pelas mulheres indígenas do município de São Gabriel da Cachoeira, porque não estão registrados os episódios de violência no interior do município.
Sempre vale ressaltar que tanto processos de alcoolização quanto a violência contra mulheres não ocorrem apenas nos territórios e com povos indígenas. No entanto, no Brasil, há uma invisibilidade das violências contra as mulheres indígenas quando olhamos para os dados oficiais.
Na pesquisa “De documentos, cactos e vírus: violência sexual, mulheres indígenas e Estado em São Gabriel da Cachoeira” (2022), podemos ver um Estado tecnicamente precário quando se trata de casos de feminicídios e violências sexuais contra mulheres indígenas. Um exemplo é a ausência de um médico legista na cidade que atue frente a casos recorrentes de “afogamento” e “estrangulamento” de mulheres que, muitas vezes, são lembrados por parentes e moradores da cidade como sendo mortes que envolvem violência sexual. Geralmente, a violência sexual não é registrada nas Declarações de Óbitos, por exemplo.
Para além da falta de registro da violência, também ocorre a falta de informação sobre raça e etnia nos documentos, o que dificulta a realização de trabalhos especializados e diferenciados no Rio Negro. A diversidade étnica e linguística, a subnotificação de casos de violência contra a mulher e a falta de documentação pessoal para registros nas instituições do Estado são aspectos relevantes em São Gabriel da Cachoeira.
De acordo com informações do Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (DSEI-ARN), no primeiro trimestre de 2024, sete mulheres que residem nas comunidades indígenas do Tiquié estão sendo acompanhadas devido às situações de violências. Os dados mostram ainda que, no mínimo, 40 casos de violência contra a mulher no Rio Tiquié foram notificados nos anos de 2021 e 2022 pelo DSEI-ARN. Além dessas informações, nos dados disponibilizados pela instituição consta que 12 pessoas estão sendo acompanhadas pela equipe de saúde devido ao uso prejudicial de bebidas alcoólicas.
Já no Içana, no primeiro semestre de 2024, são quatro os casos de violência contra a mulher que estão em acompanhamento pelo DSEI-ARN. Em 2021 e 2022, nove casos sobre violências contra a mulher foram notificados e, apesar dos relatos frequentes sobre o pouco consumo de bebidas alcoólicas na região, o DSEI-ARN registrou que há o acompanhamento de 20 pessoas que estão em situação de uso abusivo do álcool.
Esses dados são importantes para evidenciar as situações de violências que as mulheres indígenas vêm vivenciando dentro de seus territórios. Violências que recorrentemente aparecem nos discursos e relatos de homens e mulheres, jovens e adultos, na cidade e nas comunidades indígenas. Observamos que tal como o alto indíce de violências, o processo de alcolização também tem se tornado um problema grave de saúde pública no Brasil, e no Rio Negro não é diferente.
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Mulheres no encontro Canoita do Tiquié, comunidade Bellavista, Colômbia, que ocorreu entre 16 e 20 de maio|Camila Alzate/FGA
Para além dos acessos jurídicos do Estado, a cartilha orienta as mulheres a recorrerem às redes de alianças com amigas e parentes, bem como com recursos mais evidentes na própria cultura, como a realização de benzimentos e o uso de determinadas plantas.
Em 2021, o DMIRN, junto com o ISA, a FSP/USP e o OVGAM/UFAM, desenvolveu o primeiro módulo de formação de Promotoras Legais Populares Indígenas que teve como objetivo formar as mulheres sobre seus direitos, Estado, Leis, documentos e, também, que pudesse proporcionar trocas de experiências e conhecimentos para se pensar e construir estratégias comunitárias de enfrentamento às violências que sofrem.
No inicío de 2024, o Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas do Rio Negro (DAJIRN) da FOIRN, junto com o ISA e o DMIRN, produziu com instituições locais a cartilha Cuidados com o uso de bebidas alcoólicas na região do Rio Negro, com o objetivo de oferecer orientações sobre os prejuízos do consumo exagerado de bebidas alcoólicas industrializadas, problemática que aparece em diversos relatos interseccionada com as violências contra as mulheres, casos de suicídios e acidentes na região do Alto e Médio Rio Negro.
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Mulheres e crianças no I Encontro de Mulheres Ñamepaco e Baniwa, comunidade Camanaos, fronteira do Brasil e Colômbia|Dulce Morais/ISA
Apesar dos esforços do movimento de mulheres indígenas do Rio Negro em articular trabalhos com instituições locais e de pesquisa, as violências são experiências cotidianas na vida delas. Assim, elas questionam constantemente sobre a proteção que o Estado deveria proporcioná-las.
Diferenciam-se de mulheres não indígenas que, às vezes, conseguem ter seus direitos garantidos, como trouxe uma das participantes durante a primeira atividade em grupo na Canoita em Bellavista: “Essa lei Maria da Penha serve para quê? É só para as mulheres brancas e não serve para as indígenas? Vemos vários tipos de violências e não sabemos como resolver, e nunca é discutido nas reuniões [...] Acho que é um bom tema para ser trabalhado, não só com as mulheres, mas com os homens e as crianças também. Às vezes falam que é porque estão bêbados, mas conscientes mesmo fazem essas coisas.”
Para atender algumas das demandas apresentadas durante as atividades no Tiqué, as mulheres indígenas solicitaram a realização de encontros de mulheres no âmbito da Canoita. O intuito desses encontros seria proporcionar trocas de experiências, conhecimentos e saberes entre elas, para aprender sobre culinária, comidas típicas, novas técnicas de produção de artesanatos e, especialmente, para abordar e conhecer os direitos das mulheres indígenas para o enfrentamento das violências.
Já no I Encontro de Mulheres Koripako e Baniwa, as mulheres demonstraram interesse nos saberes sobre a saúde e bem-estar da mulher, bem como na troca de conhecimentos relacionados à produção de artesanatos, em especial a cerâmica, e também ao processo de comercialização desses produtos locais.
Observamos que intercâmbios como estes fortalecem as mulheres e podem ser boas estratégias de cuidado e troca de experiências e conhecimentos entre elas. Além disso, apresentam-se como uma estratégia fundamental para que o movimento de mulheres indígenas se aproxime cada vez mais das mulheres que estão nos territórios mais distantes, para que adquiram e produzam conhecimentos para fomentar ainda mais os trabalhos de enfrentamento às violências no Rio Negro e o bem-estar das mulheres indígenas.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
"Mapear Mundos" abre a Mostra Ecofalante de Cinema em Brasília
Sessão de abertura acontece no Cine Brasília em 2 de outubro, às 19h, com a presença de André Baniwa, liderança do Rio Negro, e do presidente do ISA, Márcio Santilli
A Mostra Ecofalante de Cinema, o mais importante evento sul-americano para a produção audiovisual ligada às temáticas socioambientais, chega à Brasília exibindo 39 filmes, cujas temáticas incluem as mudanças climáticas e questões ligadas à mineração, trabalho, saúde, tecnologia e comunidades indígenas, quilombolas e periféricas. As exibições acontecem de 2 a 9 de outubro no Cine Brasília, com entrada franca.
Na sessão de abertura, na quarta-feira, 2 de outubro, às 19h, a atração é Mapear Mundos. O filme da diretora Mariana Lacerda articula preciosas imagens de arquivos indigenistas com testemunhos atuais para rememorar a importância de organizações da sociedade civil na luta indígena. Em um contexto de ditadura militar, atuando ao lado desses povos, elas foram cruciais para a garantia dos direitos dos povos originários no “Capítulo dos Índios”, da Constituição Brasileira de 1988.
Assista ao trailer:
Trata-se de uma produção do Instituto Socioambiental (ISA), organização não governamental que comemora 30 anos de existência dedicada a defender bens e direitos sociais, coletivos e difusos, relativos ao meio ambiente, ao patrimônio cultural e aos direitos dos povos indígenas do Brasil. André Baniwa, liderança do Rio Negro, e o presidente do ISA, Márcio Santilli, têm presenças confirmadas na sessão.
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"Mapear Mundos" traz registro fotográfico de março de 1988 que mostra mapa elaborado pelo Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI), uma das organizações que deu origem ao ISA, que revelou o assédio de mineradoras às Terras Indígenas na Amazônia 📷 André Dusek/AGIL
A grade de programação em Brasília reúne destaques de diferentes seções da Mostra Ecofalante de Cinema: Panorama Internacional Contemporâneo, Competição Latino-americana, Panorama Histórico, Competição Territórios e Memória, Sessão Infantil e Sessões para Estudantes.
Estão presentes filmes recentes de diretores consagrados, como o cultuado alemão Werner Herzog e o vencedor do Oscar, Luc Jacquet, e filmes premiados na 13ª edição do evento, ocorrida em São Paulo no mês de agosto, como o longa-metragem peruano Céu Aberto, vencedor da competição latino-americana, e Rejeito, eleito melhor longa da competição Territórios e Memória.
Em O Fogo Interior: Um Réquiem para Katia e Maurice Krafft, o diretor Werner Herzog focaliza um casal pioneiro de vulcanólogos que se tornou notório por dedicar sua vida a documentar de perto a magnitude das erupções vulcânicas. Com impressionantes imagens desses fenômenos naturais, o longa foi o grande vencedor do importante festival DOC LA (EUA).
De Luc Jacquet, o diretor de A Marcha dos Pinguins (2005), vencedor do Oscar de melhor documentário, a Mostra Ecofalante de Cinema em Brasília apresenta Antártica: Continente Magnético. Esta é uma aventura visualmente deslumbrante que percorre os poucos milhares de quilômetros que separam a Patagônia do Polo Sul e fez parte da seleção do Festival de Locarno, o mais importante evento de cinema da Suíça.
Grandes personalidades emprestam seu prestígio à produção norte-americana Solo Comum, de Joshua Tickell e Rebecca Harrell Tickell, premiado no Festival de Tribeca. Participam dessa abordagem sobre agricultura regenerativa e seus benefícios para o solo os atores Laura Dern, Woody Harrelson, Donald Glover e Rosario Dawson.
Exibido em versão restaurada na seção Cannes Classics do Festival de Cannes, Amor, Mulheres e Flores é assinado por Marta Rodríguez e por seu parceiro e companheiro de vida Jorge Silva (1941-1987). Representante da seção Panorama Histórico da Mostra Ecofalante de Cinema, o filme foi realizado entre 1984 e 1988 e denuncia as precárias condições a que estão submetidas as trabalhadoras da agroindústria das flores, uma das maiores da Colômbia. Suas reivindicações passam por melhores condições de vida e saúde, para si e para seus filhos. Com carreira iniciada em 1971, Marta Rodríguez é considerada uma das primeiras mulheres documentaristas da Colômbia a alcançar repercussão internacional.
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'Está vindo aí a seca, está vindo a mudança climática': fumaça afeta território indígena no Alto Rio Negro (AM)
Serra do Curicuriari ou “Bela Adormecida”, cartão-postal de São Gabriel da Cachoeira, ficou encoberta; comunicadores e pesquisadores indígenas relatam os impactos
Cercado por florestas, o município de São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas,fica em uma das regiões mais preservadas da Amazônia. No entanto, mesmo a uma distância de cerca de 800 km de Manaus, a região - uma das mais indígenas do país - vem sendo atingida pela fumaça de incêndios, na área urbana e no território indígena. Moradores chegaram a confundir a fumaça com a névoa da neblina que às vezes envolve a floresta.
No dia 27 de agosto, havia muita fumaça durante todo o dia e a Serra do Curicuriari ou Bela Adormecida – um dos cartões-postais da cidade – ficou encoberta. O mesmo cenário repetiu-se pelo menos nos dois dias seguintes.
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Serra do Curicuriari, ou "Bela Adormecida", em 23 de junho de 2010|Beto Ricardo/ISA
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Paisagem cartão-postal encoberta pela fumaça em 27 de agosto de 2024|Ana Amélia Hamdan/ISA
Integrante da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas do Rio Negro, João Alex Lins, do povo Yanomami, mostrou imagens em vídeo que registram a fumaça na comunidade de Maturacá, no Território Yanomami no Amazonas. As serras que cercam a comunidade e fazem parte da paisagem sagrada ficaram imersas na fumaça.
“Oi, pessoal, 27 de agosto de 2024. Mais uma vez a fumaça chegou aqui na nossa região de Maturacá, Terra Indígena Yanomami. A fumaça já encobertou a nossa floresta, as nossas serras estão desaparecidas”, relata ele no vídeo. Em meados de agosto, ele já tinha divulgado um outro vídeo falando sobre a questão da fumaça.
Morador de Açaí-Paraná, no Baixo Rio Uaupés, Rosivaldo Miranda, do povo Piratapuya, relatou que, além da fumaça, os indígenas já estão percebendo o aumento da temperatura, o que acende o alerta para o período da seca.
“A fumaça está impactando a gente aqui também. Não dá nem pra ver o outro lado do rio porque a fumaça é muita. O calor tá muito alto já, tá aumentando. E o rio começa a baixar bastante já. Já temos também o aparecimento do banco de areias no Baixo Rio Uaupés. Então a expectativa para este ano é que teremos a seca novamente. E temos que estar preparados para esses impactos desde agora. E se prevenir. Está vindo aí a seca, está vindo a mudança climática”, informou.
A questão da saúde também gera preocupação entre os moradores. Algumas pessoas relataram dificuldades respiratórias. A Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas postou um vídeo em seu Instagram cobrando fiscalização rigorosa das autoridades contra quem provoca as queimadas.
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Praia de São Gabriel da Cachoeira encoberta pela fumaça de queimadas. População reclama de dificuldades para respirar|Ana Amélia Hamnda/ISA
Dados do portal TerraBrasilis, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), indicam que os focos de incêndio no bioma Amazônia em agosto deste ano já chegavam a 27.181 até o dia 26, sendo que em todo o mês de agosto do ano passado eram 17.373. Ou seja, antes mesmo do fim do mês, foi registrada uma alta de 56,4% no comparativo entre esses períodos.
No Amazonas, neste mês de agosto, até o dia 26, foram 7.789 focos de incêndio. No ano passado, em todo o mês de agosto, foram 5.474, o que significa um salto de 42%.
No Alto Rio Negro, o período de estiagem está no início. Nessa região, a estação seca vai de agosto a março, sendo que historicamente atinge o pico da seca entre os meses de janeiro e fevereiro - em São Gabriel da Cachoeira, o recorde foi atingido em fevereiro de 1992, quando o Rio Negro chegou a 330 cm.
Boletim Hidrológico divulgado em 23 de agosto pelo Serviço Geológico do Brasil - Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (SGB-CPRM) indicou que o Rio Negro desceu uma média diária de 8 cm em São Gabriel da Cachoeira. O Rio Negro em Manaus apresentou quedas mais acentuadas, na ordem de 20 cm diários.
Em 8 de agosto, o nível do Rio Negro em São Gabriel da Cachoeira estava em 876cm. Em 4 de agosto de 2023, ano em que foi registrada seca extrema, era de 1.025cm.
Situação de emergência
No dia 28 de agosto, o governo do Amazonas decretou situação de emergência nos 62 municípios do Estado devido à estiagem.
O antropólogo Aloisio Cabalzar, analista e pesquisador do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA), explica que a região é afetada pelas queimadas que acontecem no Pantanal, Rondônia, Acre e sul do Amazonas e Departamento de Santa Cruz na Bolívia, de onde vem a fumaça que chegou à região trazida pelo vento. “Isso tem se repetido e se tornado frequente em São Gabriel da Cachoeira”, avalia.
Aloisio Cabalzar reforça que há poucas queimadas na região e de pequena escala, geralmente deliberadas, em áreas derrubadas para novos roçados tradicionais das comunidades indígenas locais e que não contribuem com esse efeito.
De passagem por São Gabriel da Cachoeira, o Agente Indígena de Manejo Ambiental (Aima) Genilton da Silva Apolinário, do povo Baniwa, se preparava para retornar à sua comunidade, Tunuí Cachoeira, no Rio Içana, no dia 27, e demonstrou preocupação com a situação da fumaça. Segundo ele, a fumaça nunca atingiu a região com a mesma intensidade com a qual se verifica na cidade, mas que é um alerta, especialmente por conta do trabalho que ele desenvolve de manejo das abelhas na produção de mel.
“Onde existe a fumaça, as abelhas têm a dificuldade de respirar o vento dentro da colmeia. Isso preocupa pra gente, nós que estamos manejando as abelhas, né? Porque as abelhas são gente, né? Elas são comunidade. Então se acontecer alguma coisa com a gente, pra eles também prejudica igual”, explicou.
De acordo com as suas observações, fenômenos como a quentura, a chuva volumosa e até chuva de granizo vêm sendo cada vez mais frequentes. Para ele e seu povo, cada vez que a fumaça aparece, é como um aviso: “sei que vai acontecer alguma coisa depois dessa fumaça que está acontecendo aqui. Não sei se vai secar o rio também, se vai vir chuva de granizo ou muitos raios, mas é um aviso”, finalizou Genilton Apolinário.
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Cineastas Yanomami ganham Prêmio Grande Otelo de Cinema por melhor curta-metragem documentário
Filme tem a direção de Aida Harika Yanomami, Roseane Yariana Yanomami e Edmar Tokorino Yanomami
Da esq. p/ dir: Roseane Yariana, Edmar Tokorino Yanomami e Aida Harika Yanomami, diretores de "Thuë Pihi Kuuwi - Uma Mulher Pensando"|Claudio Tavares/ISA
O curta-metragemThuë Pihi Kuuwi - Uma Mulher Pensando venceu o prêmio Grande Otelo de Cinema 2024 na noite desta quarta-feira (28/08). A premiação existe há mais de duas décadas e reconhece profissionais e produções audiovisuais do Brasil. A obra Yanomami venceu a categoria de Melhor Curta-Metragem Documentário.
Morzaniel Ɨramari, primeiro cineasta Yanomami, também fez captação de imagens para o filme e representou o time no evento. Ele recebeu o prêmio das mãos da atriz Dira Paes e do cantor Toni Garrido, que apresentaram a edição deste ano.
“A minha prima Roseane, a minha cunhada Aida e meu tio Edmar e eu recebemos, pelas imagens que produzimos, e foi muito bom. Nunca imaginei que todos iríamos ganhar juntos, eu me senti muito honrado em receber o prêmio em nome deles. Fiquei cheio de alegria, estou feliz demais”, disse Morzaniel ao Instituto Socioambiental (ISA)
A estatueta do Grande Otelo é uma homenagem ao ator que dá nome à premiação. O seu design foi idealizado por Ziraldo Alves Pinto e a escultura é de Altair Souza.
Cinema Yanomami
A sinopse de Thuë Pihi Kuuwi - Uma Mulher Pensando descreve a história de uma mulher yanomami que observa um xamã durante o preparo da Yãkoana, alimento dos espíritos. A partir da narrativa de uma jovem mulher indígena, a Yãkoana que alimenta os Xapiripë e permite aos xamãs adentrarem o mundo dos espíritos, também propõe um encontro de perspectivas e imaginações.
Com produção de Aruac Filmes, o curta conta ainda com co-produção da Hutukara Associação Yanomami e produção associada da Gata Maior Filmes.
Durante as filmagens de Thuë Pihi Kuuwi - Uma Mulher Pensando, outros dois curtas-metragens foram produzidos pela Aruac Filmes: Mãri Hi – A Árvore do Sonho e Yuri Uxëa Tima Thë – A Pesca com Timbó.
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Imagens da gravação do filme "Thuë Pihi Kuuwi - Uma Mulher Pensando"|Aruac Filmes
O trio de histórias independentes faz parte do projeto “A Queda do Céu”, que deve apresentar um longa-metragem que será como “um novo capítulo” para o livro do xamã Davi Kopenawa e do etnólogo Bruce Albert.
O filme Uma Mulher Pensando também conta com apoio de ISA, Porticus, Climate and Land Use Alliance (CLUA), Ford Foundation, Nia Tero, Foundation Cartier, Humanize, Arapyaú, Rainforest Foundation Norway (RFN), Norway's International Climate and Forest Initiative (NICFI), Rede de Cooperação Amazônica (RCA), Instituto Iepé, Instituto Meraki, International Resource for Impact and Storytelling (IRIS), Amazon Watch e Foundation AlterCiné.
Assista ao trailer:
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‘Ya Temi Xoa’: como a comunidade negra e os Yanomami uniram forças no Carnaval 2024
Filme registra tributo da comunidade do Salgueiro à cosmologia dos Yanomami; assista!
Napê, nossa luta é sobreviver Napê, não vamos nos render Ya temi xoa, aê, êa Ya temi xoa, aê, êa
“Ya Temi Xoa” foi o verso cantado a plenos pulmões por toda a comunidade negra da Acadêmicos do Salgueiro acompanhada de líderes Yanomami durante desfile na Avenida Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, em fevereiro deste ano. A frase, que traduzida para português significa “eu ainda estou vivo”, marcou o samba enredo “Hutukara” e agora também dá nome ao documentário que tem estreia online nesta segunda-feira (26/08).
Assista!
O curta de 20 minutos conta como a floresta amazônica se conectou com as favelas do Rio de Janeiro ao unir os Yanomami e o povo negro para fazer história. O filme mostra uma parte do desfile, os bastidores e as ideias que construíram o enredo inspirado na Hutukara - o céu que desabou na cosmologia Yanomami - que garantiu o 4º lugar à Salgueiro, ficando entre as seis campeãs do ano.
Uma parceria entre o Instituto Socioambiental (ISA) e a Hutukara Associação Yanomami (HAY), com a direção de Thomas Mendel, Ya Temi Xoa teve pré-estreia em Boa Vista, capital de Roraima. O evento recebeu lideranças indígenas e seus parceiros de organizações não governamentais, autoridades de órgãos federais, jornalistas e apoiadores da causa Yanomami.
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As lideranças Davi Kopenawa, Dario Kopenawa e Julio Ye'kwana fizeram falas após a exibição do curta|Valdimarley Braga/Platô Filmes/ISA
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Filme que retrata a união dos Yanomami e da comunidade salgueirense estreou em cinema de Boa Vista|Valdimarley Braga/Platô Filmes/ISA
Em meio a uma tragédia humanitária, escancarada ao mundo em janeiro de 2023, os Yanomami chamaram a atenção da escola de samba. Com uma pesquisa e aprofundamento na obra A Queda do Céu de Davi Kopenawa e Bruce Albert, os responsáveis pelo enredo entenderam que os Yanomami tinham muito mais a mostrar do que uma tragédia.
“Fiquei três ou quatro meses lendo muita sobre a cosmologia do povo yanomami, mas eu digo que o que mais me tocou foi ter o olhar do Davi”, afirma Igor Ricardo, jornalista e enredista da Salgueiro.
Igor conta que um dos esforços para construção do desfile foi justamente o de não colocar o povo Yanomami na posição de “coitados”. O conceito do espetáculo foi construído sob a ótica da exaltação à cosmologia e rica cultura destes indígenas. “A ideia da Hutukara era apresentar o povo Yanomami pela lógica do que eles são verdadeiramente e não pela ótica que a sociedade não indígena costuma ver na televisão, que é a ótica da tragédia. Então, quando pensamos nesse “Hutukara”, foi para mostrar a beleza desse povo, sobre quem é esse Omama, que é o deus da criação dele, sobre Yoasi, que é o deus da morte e destruição”, explica.
A Salgueiro foi a terceira escola a desfilar na primeira noite de apresentações. Além do homenageado Davi Kopenawa, líder e xamã dos Yanomami, outras 13 lideranças Yanomami estiveram presentes no carro “Por um Brasil Cocar”.
Meu Salgueiro é a flecha Pelo povo da floresta Pois a chance que nos resta É um Brasil cocar
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Da esquerda para a direita: o xamã Manoel Yanomami, o xamã e liderança Davi Kopenawa e a liderança Pedrinho Yanomami, no carro alegórico "Por um Brasil Cocar"|Lucas Landau/Hutukara/ISA
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Mc Rebecca representando “Yaroriyma Pë” em frente ao carro alegórico “Hutukara: a nova terra-floresta"|Lucas Landau/Hutukara/ISA
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Ala que representa a pesca, uma das principais atividades do modo de vida dos Yanomami|Lucas Landau/Hutukara/ISA
Para fugir dos estereótipos, a escola pediu a assessoria de Davi Kopenawa na construção das alegorias. O xamã também participou da escolha da canção que emocionou a Salgueiro - recebendo 10 de todos os jurados em seu respectivo requisito. “Neste lugar estão trabalhando em algo muito importante e estão fazendo um bom trabalho para ajudar na nossa luta, ajudar a defender o meu povo, ajudar a defender o nosso direito. Fiquei contente que estão trabalhando e fazendo as coisas para sair bonito e mostrar para toda a cidade”, conta o xamã em trecho do documentário que mostra sua visita à escola de samba durante os preparativos para o desfile.
Hutukara, ê! Sonho e insônia
Grita a Amazônia, antes que desabe
Caço de tacape, danço o ritual
Tenho o sangue que semeia a nação original
Eu aprendi português
A língua do opressor
Pra te provar que meu penar também é sua dor
Falar de amor enquanto a mata chora
É luta sem flecha, da boca pra fora
Floresta e morro se encontram
O real encontro de Davi Kopenawa com o povo do Salgueiro se deu meses antes do desfile na Sapucaí. Davi foi convidado para estar presente na final da escolha do samba, em 13 de outubro de 2023. Eram 23 sambas inscritos falando sobre a Hutukara e nesse dia um deles seria escolhido para ser cantado na avenida.
Ao chegar no Rio de Janeiro, Davi seguiu para o Morro do Salgueiro, no Caxambu, centro cultural que guarda as tradições afro-brasileiras da comunidade. Foi recebido com uma apresentação de Dança de Jongo, onde ao som de tambores, as matriarcas da escola cantaram e dançaram para recepcionar o líder Yanomami. Momentos depois, Davi disse que ficou emocionado ao ver as mulheres dançando e que elas o fizeram se lembrar de suas tias, que são as guardiãs da cultura yanomami.
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Davi Kopenawa visitou o Morro do Salgueiro em outubro de 2023, quando a escola estava prestes a escolher o samba-enredo|Lucas Landau/Hutukara/ISA
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Davi Kopenawa reunido com dançarinas de jongo, que participam de projeto social no morro do Salgueiro para o resgate da dança tradicional que deu origem ao samba, e lideranças do projeto Erveiras e Erveiros do Salgueiro, que fazem o resgate do conhecimento tradicional sobre ervas para usos medicinais e religiosos na comunidade|Lucas Landau/Hutukara/ISA
No morro, Davi conversou com muitas delas e conheceu o trabalho das erveiras, mulheres conhecedoras das plantas que curam e que mantêm um projeto para registro e aprendizado desse conhecimento pelas novas gerações.
Ao descer o morro, Davi disse que já esteve muitas vezes no Rio de Janeiro, que foi levado para pontos turísticos, prédios bonitos e praias, mas que essa tinha sido a primeira vez que ele conheceu o povo que construiu a cidade e que depois foi empurrado para morar no morro, em cima das pedras, onde não é possível plantar.
Noite do desfile
Com diversas referências à cosmologia Yanomami, criticando a falsa “família de bem” e relembrando o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips, assassinados em 2022, o samba da Salgueiro mostrou a força, beleza e resistência do povo da maior Terra Indígena do Brasil na primeira noite do Carnaval do Rio de Janeiro.
Antes da sua bandeira, meu vermelho deu o tom
Somos parte de quem parte, feito Bruno e Dom
Kopenawas pela terra, nessa guerra sem um cesso
Não queremos sua ordem, nem o seu progresso
“A Salgueiro vai emocionar na avenida e mostrar a importância que é a gente cuidar da nossa terra e dos povos originários”. afirmou a rainha de bateria da Salgueiro, Viviane Araújo, minutos antes do desfile.
Para embalar a escola de samba e a arquibancada, a Salgueiro levou elementos do conhecimento milenar dos Yanomami e contou a história da Hutukara, que na cosmologia Yanomami representa o céu que desabou os levando para o plano em que vivem hoje.
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Ritmistas da Acadêmicos do Salgueiro mostram tamborim com a mensagem “Fora Garimpo”, na Marquês de Sapucaí|Thomas Mendel/Hutukara/ISA
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Ala das baianas representando “Thuëyoma, a mãe Yanomami” no desfile da Salgueiro em fevereiro|Lucas Landau/Hutukara/ISA
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Comissão de frente “Ya Nomaim! Ya temo xoa! (Eu não morro! Ainda estou vivo)”, que representava os espíritos “xapiri” no desfile|Lucas Landau/Hutukara/ISA
“Os Yanomami trouxeram uma parte cultural que nós não tínhamos conhecimento. Eles são bem enfáticos ao dizer ‘Ya Temi Xoa’ porque querem dizer que estão vivos, que a floresta está viva e acho que chegou a hora do Brasil entender esse povo que está aqui antes da colonização e que ainda têm força para dizer ‘estamos vivos’”, disse Silvania de Sant’anna, integrante da torcida oficial Amigos do Salgueiro.
A identidade dos Yanomami chegou à avenida com uma preparação que começou antes mesmo do desfile. Os indígenas escolheram usar suas pinturas tradicionais, além de acessórios feitos com sementes, penas e pequenas lascas de flechas.
“A nossa história vive da mata, da selva, das frutas. Para nós, isso não é só um momento de tristeza, mas também temos alegria e precisamos ser valorizados”, disse Carlinha Santos, que além de professora é presidente da Associação das Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK).
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Em pé, da esquerda para a direita: Julião, presidente da associação Parawana; João Figueiredo, presidente da AYRCA; Pedrinho, xamã Watoriki; Otavio Ironasiteri, presidente da Kurikama; Geraldo Yanomami; Ehuana Yanomami; xamã Manoel Yanomami; Carlinha Lins Yanomami; Davi Kopenawa Yanomami; Morzaniel Yanomami; Eliane Clara Opoxina. Agachados, da esquerda para a direita: Gilvania Borari; Joseca Yanomami; Júlio Ye'kwana e Dário Kopenawa Yanomami|Tayná Uráz/Hutukara/ISA
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Ehuana Yaira Yanomami pinta Eliane Clara Opoxina na concentração para o desfile|Tayná Uráz/Hutukara/ISA
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Lideranças da Terra Indígena Yanomami se preparam antes de desfilar pela escola de samba Salgueiro|Tayná Uráz/Hutukara/ISA
Em 21 de janeiro de 2023, menos de um mês após assumir o governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) visitou Boa Vista e chamou a atenção do mundo para os altos números de casos de malária e desnutrição entre os Yanomami. Um dia antes, uma Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) foi instaurada.
Em março de 2023, durante as comemorações de seus 70 anos, a Salgueiro anunciou “Hutukara” como o tema do seu desfile em 2024, mais uma vez chamando a atenção para a grave situação dos Yanomami.
“É muito importante e tudo foi muito lindo. É muito importante que a Salgueiro tenha encontrado o nome do povo Yanomami, mesmo que tenha demorado, porque assim nós também encontramos o povo negro que também foram sofredores”, resumiu Kopenawa sobre a conexão entre a floresta amazônica e as favelas do Rio de Janeiro na parceria entre a Salgueiro e a Hutukara Associação Yanomami (HAY).
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Quadra da Salgueiro explode em comemoração após conquista do quarto lugar no Carnaval 2024 do Rio de Janeiro|Tayná Uráz/Hutukara/ISA
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Davi Kopenawa e Dario Kopenawa celebram quarta colocação da Acadêmicos do Salgueiro|Tayná Uráz/Hutukara/ISA
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Integrantes da escola cantam o samba-enredo que recebeu nota 10 dos jurados do carnaval carioca|Tayná Uráz/Hutukara/ISA
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‘Ya Temi Xoa': filme sobre tributo aos Yanomami no Carnaval tem pré-estreia em cinema de Boa Vista
Primeira exibição será para lideranças indígenas e seus parceiros no dia 16 de agosto
Da esquerda para a direita: a liderança Pedrinho Yanomami, o xamã e liderança Davi Kopenawa, a deputada federal Célia Xakriabá (PSOL-MG) e o xamã Manoel Yanomami, no desfile das campeãs|Lucas Landau/Hutukara/ISA
O filme Ya Temi Xoa, que registrou a trajetória dos Yanomami no Carnaval de 2024, terá sua pré-estreia em uma sala de cinema nesta sexta-feira (16/08), em Boa Vista (RR). A exibição ocorrerá na Playarte Cinemas do Roraima Garden Shopping, localizado no bairro Paraviana, zona leste da capital.
A primeira exibição acontece para lideranças indígenas Yanomami e parceiros de organizações não governamentais, autoridades de órgãos do governo federal, jornalistas e membros da sociedade civil.
Outros 77 ingressos serão distribuídos para estudantes da Universidade Federal de Roraima (UFRR), Universidade Estadual de Roraima (UERR) e do Instituto Federal de Roraima (IFRR). Os interessados devem preencher o formulário e aguardar o envio do ingresso no e-mail.
Além do desfile da comunidade da Acadêmicos do Salgueiro em 11 de fevereiro, o filme, que tem 25 minutos de duração, mostra os bastidores dessa história, como uma visita do xamã Davi Kopenawa à quadra da escola e os preparativos finais dos Yanomami para desfilar na Avenida Marquês de Sapucaí.
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Davi Kopenawa, xamã Yanomami, durante a apuração dos desfiles das escolas de samba no Carnaval 2024|Tayná Uráz/Hutukara/ISA
Uma parceria entre a Hutukara Associação Yanomami e o Instituto Socioambiental (ISA), o filme tem a direção assinada por Thomas Mendel e produção de Ariel Gajardo, Carolina Fasolo, Evilene Paixão, Fabrício Araújo, Marina Terra e Roberto Almeida. A narrativa é centrada no encontro de lutas entre a comunidade negra das favelas do Rio de Janeiro e os Yanomami, que vivem na maior Terra Indígena do Brasil, localizada na Floresta Amazônica.
Sobre o desfile
O enredo “Hutukara”, que garantiu o 4º lugar e colocou a Salgueiro entre as seis campeãs do Carnaval do Rio de Janeiro em 2024, exalta a cosmologia e cultura dos Yanomami. Entre as referências para construção do espetáculo está o livro A Queda do Céu - Palavras de um Xamã, escrito por Davi Kopenawa em parceria com o antropólogo francês Bruce Albert.
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Ritmista do Acadêmicos do Salgueiro segura tamborim com a frase “Fora Garimpo”, em referência às invasões na Terra Indígena Yanomami|Thomas Mendel/Hutukara /ISA
Kopenawa também votou o samba enredo da escola - que recebeu 10 de todos os jurados - e auxiliou os carnavalescos na escolha das alegorias a fim de evitar que os Yanomami fossem retratados de forma genérica.
Dos bastidores à apuração do resultado, o filme compila toda a história de união de lutas da comunidade Salgueiro e dos indígenas Yanomami. Após o lançamento em Boa Vista, o filme deve ganhar uma estreia nacional, sendo disponibilizado online.
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‘Mapear Mundos’ tem estreia na Mostra Ecofalante de Cinema 2024
Filme une imagens históricas e depoimentos de figuras-chave da luta pela garantia de direitos dos povos indígenas no Brasil; lançamento acontece no dia 3 de agosto
As comemorações dos 30 anos do Instituto Socioambiental (ISA) não param. Com a programação especial “ISA 30 anos: Por um Brasil Socioambiental”, o ISA leva suas produções audiovisuais para a 13ª edição da Mostra Ecofalante de Cinema, que acontece entre os dias 1º e 14 de agosto de 2024 na capital paulista.
Para celebrar esse marco, além da exibição de oito obras produzidas pela organização, acontece a estreia de Mapear Mundos, filme com Beto Ricardo e Fany Ricardo, dirigido por Mariana Lacerda. Após a sessão, no dia 3 de agosto, no cinema Reserva Cultura de São Paulo, acontece um bate-papo com a liderança do Rio Negro, André Baniwa, a vice-presidente do ISA, Marina Kahn, e a diretora.
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André Baniwa (à esquerda) e Beto Ricardo (à direita) em outubro de 1997, na Terra Indígena Alto Rio Negro, no Alto Rio Içana, Amazonas|Pedro Martinelli/ISA
O longa-metragem articula imagens e vídeos do arquivo histórico do ISA com testemunhos atuais para rememorar os passos dados por organizações da sociedade civil na luta pela garantia dos direitos indígenas no Brasil, no contexto da ditadura cívico-militar, apoiando as condições para a articulação do “capítulo dos índios” na Constituição Brasileira de 1988.
O regime ditatorial propagou a falsa ideia de que os indígenas estavam em decrescimento populacional e que a Amazônia era um imenso “vazio demográfico”, argumento utilizado para efetuar a retirada forçada de povos indígenas de seus territórios e exploração de seus recursos. No começo dos anos 1980, Beto Ricardo, antropólogo, ativista, sociólogo e um dos fundadores do ISA, decidiu questionar essa ideia, inventando um método que comprovasse justamente o contrário, de forma científica.
Assista ao trailer:
Beto, ao lado de um grupo de pesquisadores, desenvolveram um sistema próprio para analisar a população indígena nessa e em outras regiões do Brasil , comprovando, por meio de dados, que os indígenas não só não estavam desaparecendo, como suas populações cresciam. Assim, seus direitos deveriam ser permanentes.
“Aos poucos, a imagem dos índios extintos foi substituída por uma imagem da presença importante dos índios como sujeitos políticos promissores”, afirma Beto Ricardo, em depoimento durante o filme.
“Isso foi uma revolução. Entre você ter certeza absoluta de que [os povos indígenas] iam desaparecer e de repente você descobrir que eles não só não vão desaparecer, como serão uma minoria cada vez menos minoria, porque a população indígena estava crescendo mais do que a população nacional. Os índios eram, para todos nós, um resquício do passado. De repente, nós constatamos objetivamente que eles iam ser parte do futuro”, relembra em cena Márcio Santilli, presidente e sócio fundador do ISA.
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"Mapear Mundos" traz registro fotográfico de março de 1988 que mostra mapa elaborado pelo Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI), uma das organizações que deu origem ao ISA, que revelou o assédio de mineradoras às Terras Indígenas na Amazônia|André Dusek/AGIL
O filme conta com outros depoimentos de protagonistas desta luta, como Fany Ricardo, sócia-fundadora do ISA e assessora do Programa Povos Indígenas no Brasil (PIB), Marta Azevedo, demógrafa e antropóloga, André Baniwa, liderança indígena do Rio Negro, Bráz França, liderança do povo Baré e ex-presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), e Dagoberto Lima Azevedo Suegu, antropólogo e liderança do povo Tukano. Bráz França e Dagoberto Suegu infelizmente vieram a falecer antes da estreia, em 31 de julho de 2023 e 11 de abril de 2023, respectivamente.
O longa-metragem refaz os caminhos percorridos para o reconhecimento dos povos indígenas como sujeitos políticos detentores de direitos, destacando a mobilização durante a Assembleia Constituinte de 1987 para incluir no texto constitucional os artigos que versam sobre essa parcela da população.
A obra retrata ainda o processo realizado para a demarcação das Terras Indígenas na região do Alto e Médio Rio Negro, uma conquista do movimento indígena local e que contou com apoio do ISA – sobretudo na propagação de informações que explicavam o que a medida significava para a proteção e preservação dos territórios.
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André Baniwa visita comunidades em parceria ISA/FOIRN para explicar processo de demarcação de Terras Indígenas no Rio Negro, em 1997|Pedro Martinelli/ISA
Sobre o período, Fany Ricardo ressalta a formação de uma rede de informação entre todos os grupos envolvidos, indígenas e não-indígenas, que se transformou em uma parceria duradoura: “Todos tinham o mesmo objetivo, que era o de fortalecer essas populações que estavam em risco”, destaca.
Para o grupo de pesquisadores, colocar os povos indígenas no mapa significava salvaguardar o futuro não só do Brasil, mas do mundo. Garantir a preservação dos conhecimentos ancestrais fundamentais para manter a floresta de pé.
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Beto Ricardo, um dos fundadores do ISA, faz apontamentos em mapa no Rio Negro em 1997|Pedro Martinelli/ISA
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Atuação de Beto Ricardo contribuiu para a garantia de direitos dos povos do Rio Negro|Pedro Martinelli/ISA
Além da exibição na Mostra Ecofalante nos dias 3 e 8 de agosto, Mapear Mundos será apresentado no dia 10 de agosto como parte da programação da Exposição ISA 30 anos no Museu A CASA do Objeto Brasileiro, com a participação da diretora Mariana Lacerda, André Baniwa, Geraldo Andrello, antropólogo e sócio-fundador do ISA, e Silvia Futada, ecóloga e associada do ISA.
Uma parte da trajetória documentada ao longo do filme também foi retratada em “Uma Enciclopédia nos Trópicos”, livro escrito por Beto Ricardo em parceria com o jornalista Ricardo Arnt e lançado em abril deste ano. A publicação traz prefácio do escritor e ativista indígena Ailton Krenak, posfácio do jornalista Leão Serva e conta os bastidores de momentos marcantes da trajetória do antropólogo Beto Ricardo durante o período entre 1970 e 2022, em uma narrativa bem humorada e envolvente.
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Fany Ricardo e Beto Ricardo durante a exibição de "Mapear Mundos" para convidados, em dezembro de 2023, em São Paulo|Claudio Tavares/ISA
Sobre a diretora
Mariana Lacerda é cineasta e documentarista natural de Recife (PE), formada em Jornalismo e mestre em História da Ciência pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Dirigiu Gyuri, filme feito ao lado de Claudia Andujar e Davi Kopenawa, lançado em 2020. Mais recentemente, dirigiu a série infantil para Tv Histórias de Fantasmas Verdadeiros para Crianças (2024) e o filme Eu sou uma arara (2023), ao lado de Rivane Neuenschwander, exibidos em festivais e mostras do Brasil, Alemanha, França, México e Colômbia.
Mostra Ecofalante de Cinema 2024
Reconhecida como o mais importante evento sul-americano para a produção audiovisual ligada às temáticas socioambientais, a Mostra chega à sua 13ª edição com cardápio composto por 122 filmes, representando 24 países. Ao longo do segundo semestre do ano, serão feitas itinerâncias em cidades do estado de São Paulo e em todo o país, com o objetivo de democratizar o acesso às obras excepcionais que incentivem o desenvolvimento sustentável do planeta por meio da educação e da cultura.
Reserva Cultural – Avenida Paulista n° 900, Bela Vista, São Paulo - SP
Centro Cultural de São Paulo (CCSP) – Rua Vergueiro nº 1000, Paraíso, São Paulo - SP
Entrada gratuita
Quinta-feira, 1 de agosto, às 17h15 – Sala 3 do Reserva Cultural
Programação 1
O Brasil Grande e os Índios Gigantes
Panará, A Volta por cima dos Índios Gigantes
Terra Yanomami celebra 30 anos da homologação
Rionegrinas
Sexta, 2 de agosto, às 17h – Sala 3 do Reserva Cultural
Programação 2
Volta Grande
Antes da Chuva
Rio Pardo, o retorno dos beiradeiros ao seu território
Sistema Agrícola Quilombola
Sábado, 3 de agosto, às 16h e às 17h30 – Sala 2 do Reserva Cultural
16h: Estreia de Mapear Mundos
17h30: Bate-papo sobre a atuação do ISA ao longo dos seus 30 anos, avanços e retrocessos em relação à garantia dos direitos dos povos originários, com a liderança do Rio Negro, André Baniwa, a vice-presidente do ISA, Marina Kahn, e a diretora Mariana Lacerda
Terça, 13 de agosto, às 20h – Sala 2 do Reserva Cultural
Exibição de Mapear Mundos
Terça, 13 de agosto, às 14h30 – Sala 2 do Reserva Cultural
Programação 1
O Brasil Grande e os Índios Gigantes
Panará, A Volta por cima dos Índios Gigantes
Terra Yanomami celebra 30 anos da homologação
Rionegrinas
Quarta, 14 de agosto,às 14h15 – Sala 2 do Reserva Cultural
Programação 2
Volta Grande
Antes da Chuva
Rio Pardo, o retorno dos beiradeiros ao seu território
Sistema Agrícola Quilombola
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
“Quero que vocês, brancos, escutem minhas palavras e defendam nossa floresta”
Autores Darysa Yanomami e Mozarildo Yanomami leram cartas para não indígenas no lançamento de 'Diários Yanomami' n' A Feira do Livro de SP
A viagem da Terra Indígena Yanomami até A Feira do Livro, em São Paulo, percorreu mais de três mil quilômetros. Enquanto faziam a longa jornada da terra-floresta Yanomami à "selva de pedra" paulista, Darysa Yanomami e Mozarildo Yanomami escreveram cartas para o público do auditório Armando Nogueira, em mesa que aconteceu no dia 5 de julho.
Os dois, que formam parte do grupo de cinco autores indígenas de Diários Yanomami: Testemunhos da destruição da floresta (ISA, 2024), tiveram a missão de lançar o livro – e fazer ecoar as urgentes palavras do povo Yanomami – em um dos maiores eventos literários do país. Em suas mensagens, um desejo comum: que os povos da floresta e da cidade se unam para lutar contra o garimpo na maior Terra Indígena do Brasil.
“Se todos vocês todos se juntarem a nós, unidos, conseguiremos afastar os garimpeiros e resolver os outros problemas da Terra Indígena Yanomami”, convocou Mozarildo em sua carta. "Eu quero (...) que vocês, brancos, escutem minhas palavras e defendam nossa floresta", pediu Darysa.
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Mozarildo Yanomami e Darysa Yanomami (ao centro), com Fabrício Araújo (esq), do ISA, e Corrado Dalmonego, organizador da obra|Júlio César Almeida/ISA
Durante a viagem e no palco d’A Feira do Livro, os Yanomami estiveram com Corrado Dalmonego, padre missionário da Consolata e do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), um dos organizadores do livro e o responsável pela tradução.
“Agora, vocês não indígenas podem ler as nossas palavras”
Darysa foi a primeira a ler sua carta, escrita à mão em um caderno de anotações. Assim como no livro, a primeira versão do texto, na página ímpar, estava escrita em Yanomami e a página seguinte, traduzida para o português. A pesquisadora optou por ler em português.
“Agora, vocês não indígenas podem ler as nossas palavras. Isso é bom para mim. Ao lerem essas palavras, vocês também irão pensar direito. Vocês vão conhecer o sofrimento de nós Yanomami e quero que também vocês defendam nossa floresta”, diz trecho.
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Darysa Yanomami, n'A Feira do Livro: "Ao lerem essas palavras (...) Vocês vão conhecer o sofrimento de nós, Yanomami"|Júlio César Almeida/ISA
Cada capítulo do livro foi escrito por um pesquisador Yanomami. Darysa é responsável pelo terceiro capítulo, com cinco episódios ao todo. Ela entrevistou mulheres Yanomami de diversas regiões e também hospedadas na Casa de Saúde Indígena em Boa Vista (Casai) e transcreveu as conversas na íntegra.
Para Dalmonego, “o bonito deste livro é ser coletivo e colaborativo. Além de suas vozes, os autores trazem a de parentes, de lideranças e as vozes da floresta que está morrendo”, disse.
O capítulo de abertura é literalmente um diário escrito por Mozarildo Yanomami. Durante a mesa, o mediador Fabrício Araújo, jornalista do Instituto Socioambiental (ISA), leu o início do capítulo descrevendo que aquele trecho em específico o havia fisgado para a leitura completa do livro:
“Os garimpeiros pensam, ‘será que os Yanomami não têm sentimentos?’, e dizem: ‘nós, garimpeiros, não temos medo de vocês, Yanomami’. Fico angustiado porque eles semeiam o medo entre nós, por isso, advirto vocês.”
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“Os garimpeiros pensam, ‘será que os Yanomami não têm sentimentos?’", pergunta Mozarildo Yanomami em trecho do livro|Júlio César Almeida/ISA
Alfredo Himotona é o autor do segundo capítulo, que traz entrevistas com outros Yanomami. Josimar Palimitheli também apresenta o formato de diários no quarto capítulo, enquanto Márcio Hesina, que escreveu a última parte do livro, apresenta notas de uma pesquisa sobre o emagrecimento de crianças.
Na manhã do dia seguinte, os Yanomami e Corrado Dalmonego retornaram à feira para prestigiar uma mesa que contou com a participação da antropóloga e escritora Hanna Limulja, amiga de longa data que escreveu O desejo dos outros – Uma etnografia dos sonhos yanomami, livro sobre os sonhos na cosmologia Yanomami.
À tarde, seguiram para o Museu A CASA do Objeto Brasileiro, que até 25 de agosto recebe a exposição ISA 30 anos: por um Brasil socioambiental. Com lotação máxima, eles assistiram ao filmeEscute: A Terra Foi Rasgada, que aborda o problema do garimpo em Terras Indígenas de três povos – Kayapó, Yanomami e Munduruku – e cuja exibição gratuita contou com falas de Enio Yanomami, responsável pelo setor de saúde da Hutukara Associação Yanomami (HAY), e da diretora Cassandra Mello.
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Casa cheia para assistir a 'Escute: A terra foi rasgada' e ao bate-papo com Enio Yanomami no Museu A CASA do Objeto Brasileiro|Adriana Miranda/ISA
No domingo, foi a vez de conhecer o Museu das Culturas Indígenas (MCI) e os parentes do povo Guarani, na Terra Indígena Jaraguá. Em uma visita guiada por Karai Djekupe (Thiago Guarani) à Tekoa Yvy Porã-Jaraguá, eles puderam aprender sobre a história de uma das menores Terra Indígena do Brasil e as atividades que os indígenas desenvolvem, como a criação de abelhas, oficinas de armadilhas para crianças e rituais sagrados. Depois disso, ainda tiveram fôlego para subir o Pico do Jaraguá – o ponto mais alto de São Paulo – em uma trilha de cerca de 40 minutos.
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Darysa e Mozarildo Yanomami posam em frente a mural com pinturas Yanomami, no Museu de Culturas Indígenas de São Paulo|Daniel Jabra
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Mozarildo Yanomami observa a cidade do topo do Pico do Jaraguá|Daniel Jabra
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Darysa Yanomami caminha até o final da trilha até o Pico do Jaraguá|Daniel Jabra
No dia seguinte, retornaram na longa viagem até a terra-floresta Yanomami, enquanto suas palavras seguiam ecoando pela cidade de concreto. “Eu não escrevi à toa. Todos vocês, brancos, que vivem em diversos lugares, e que agora estão aqui nesta Feira do Livro de São Paulo, olhem este livro! Depois que vocês lerem este nosso livro, vocês irão pensar direito! Vocês vão nos defender dos garimpeiros que provocam todo este sofrimento”, convocou Mozarildo Yanomami em sua carta aos não indígenas.
A produção editorial é assinada por Estêvão Senra, geógrafo do ISA, que também faz parte dos times de organização e edição junto a Alcida Ramos e Corrado Dalmonego. A tradução de Yanomae para Português foi feita por Dalmonego conjuntamente com os pesquisadores.
A publicação tem apoio do Fundo das Nações Unidas para a criança e adolescente (UNICEF), da Rainforest Foundation Norway e do Centro de Documentação Indígena (Missionários da Consolata). Também contribuem com apoio financeiro o Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária da União Europeia (ECHO) da União Europeia.
Certo, eu fiz minha pesquisa porque nós Yanomami queremos viver bem e com saúde.
Depois de fazer esta pesquisa e de de fazer conhecer o que escrevemos quero que também outros Yanomami fiquem esclarecidos.
Mas eu quero também que vocês brancos escutem minhas palavras e defendam nossa Floresta, por isso fiz esta pesquisa.
Nós Yanomami não queremos sofrer. Nós queremos viver em uma Floresta bonita por isso quero fazer ouvir minhas palavras.
Eu escrevi minha pesquisa, depois de escrever no caderno, eu digitei no computador, e depois o Corrado fez a tradução.
Em minha pesquisa, eu perguntei para as mulheres Yanomami. Elas escutam que os garimpeiros devastam nossa Floresta, elas veem que nossos filhos sofrem desnutrição e dizem com força que não querem que os garimpeiros se aproximem. Quando os garimpeiros
ficam perto, a floresta fica poluída, suja , os peixes
acabam, as crianças emagrecem, é assim que as pessoas ficam.
Para mim foi bom fazer pesquisa, por isso fico contente com este trabalho.
Agora, nossa pesquisa se tornou um livro, é visível, por isso estou satisfeita.
Agora, vocês não indígenas podem ler as nossas palavras. Isso é bom para mim.
Neste livro tem o pensamento de nós mulheres Yanomami: como nós verdadeiramente pensamos.
Ao lerem essas palavras, vocês também irão pensar direito.
Vocês vão conhecer o sofrimento de nós Yanomami e quero que também vocês defendam nossa floresta.
Certo, é assim que eu queria falar para vocês em São Paulo, eu mesma que fiz esta pesquisa.
Carta de Mozarildo Yanomami aos não indígenas
Eu sou pesquisador yanomami e trabalhei junto com os meus parceiros do Instituto Socioambiental, da Diocese de Roraima e da Hutukara Associação Yanomami. Nós fizemos a pesquisa chamada Urihi Temi (para nós significa Floresta Viva) e escrevemos sobre a destruição que o garimpo ilegal está provocando na nossa terra yanomami.
Começamos a trabalhar nesta pesquisa em 2021, mas eu já tinha conhecimento do que acontecia antes. Eu morei em duas regiões da terra Yanomami: morei mesmo onde os garimpeiros trabalham faz muito tempo, e também em outro local onde destruíram só um pouco e foram embora. Eu vi tudo isso com meus olhos.
Estas organizações nos ajudaram a fazer a pesquisa, por isso, agora, vocês podem ver o nosso trabalho que virou um livro.
Se eu tivesse trabalhado sozinho, pouca gente teria como ler minhas palavras. O Instituto Socioambiental, a Diocese de Roraima e a Hutukara nos apoiaram. Por isso, agora vocês podem ler este livro e podem conhecer o que os garimpeiros provocam onde nós moramos, na nossa Terra Yanomami. As palavras escritas neste livro mostram a destruição provocada pelo garimpo, por isso, vocês escutem estas palavras!
Eu não escrevi à toa. Todos vocês brancos, que vivem em diversos lugares, e que agora estão aqui nesta Feira do Livro de São Paulo, olhem este livro! Depois que vocês lerem este nosso livro, vocês irão pensar direito! Vocês vão nos defender dos garimpeiros que provocam todo este sofrimento.
Eu sei que vocês de longe, vocês que moram aqui em São Paulo, já nos defenderam. Eu sei que vocês já conhecem o sofrimento que os garimpeiros causam aos Yanomami. Eu sei que vocês sabem que a floresta está sendo destruída. Alguns de vocês querem aprender com o livro que nós escrevemos.
Depois que vocês terão lido este livro eu ficaria feliz que pudessem fazer pressão sobre os deputados, os senadores e os outros políticos que tomam as decisões no Brasil.
Eu sei... tem gente, entre os brancos, que pensa que os garimpeiros podem ficar na terra yanomami. Tem pessoas que pensam assim. Aqui no Brasil, moramos nós indígenas, os Yanomami e os indígenas de outros povos, e também vocês não indígenas, mas alguns dos brasileiros têm ódio de nós Yanomami e não nos protegem da agressão dos garimpeiros.
Assim, eu penso que com a nossa pesquisa, todos podem ouvir nossas palavras e nos proteger. Por isso eu fico feliz que nosso livro seja conhecido.
Eu penso também que se vocês todos se juntarem a nós, unidos, conseguiremos afastar os garimpeiros e resolver os outros problemas da terra Yanomami. É também por isso que eu fiz esta pesquisa. Falo isso para vocês. Pensem isso, depois de ler nossas palavras
Eu quero também falar minhas palavras para os brancos de longe: os de outras terras que falam línguas diferentes, mas que nos defendem. Fiquem de olho no que acontece! O que escrevemos é tudo verdade! Escutem nossas palavras! Nós, aqui, não estamos vivendo nada bem.
O nosso pensamento não está sossegado. Nós estamos muito preocupados! Não vivemos mais no silêncio e na tranquilidade da floresta. É por isso que eu quero divulgar nossas palavras.
Assim, penso que talvez nossa floresta poderá se tornar, de novo, bonita. Eu espero que vocês, lendo nossas palavras, possam pensar direito.
Todos vocês brancos já sabem que os garimpeiros estão nos destruindo. Vocês sabem o sofrimento do meu povo, sabem que estão destruindo a floresta, os rios, os peixes e o barulho de seus maquinários está espantando os animais.
Isso deixa com raiva! Por isso fiz esta pesquisa que virou livro.
É isso que eu queria dizer aqui, para vocês, em São Paulo.
Estamos lançando este livro. Diários da Floresta.
Vocês em português, dizem que é um “livro” e nós yanomami chamamos isso de “papel sipë” “pele de papel”.
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