A Bacia do Rio Xingu é uma região entre os estados do Mato Grosso e do Pará que simboliza a diversidade socioambiental brasileira. Uma diversidade de povos, florestas e rios que nascem no Cerrado e desembocam na floresta Amazônica, no centro do território nacional.
Essa diversidade socioambiental do Xingu está em grande parte abrigada dentro de um "corredor" de áreas protegidas (terras indígenas e unidades de conservação) que representa 50% da área da Bacia do Xingu. Essas áreas protegidas e suas florestas, conectadas entre si, abrigam uma das mais ricas biodiversidades do planeta e 26 povos indígenas e populações ribeirinhas, que resistem e insistem em existir como parte do presente - e do futuro - do Brasil.
Hoje, o Xingu é palco de conflito entre estes modos de vida e um modelo econômico baseado em atividades predatórias que envolvem desmatamento, queimadas, uso intensivo de agrotóxicos, garimpo, exploração ilegal de madeireira, grilagem de terras, construção de hidrelétricas, ferrovias e estradas.
As florestas, rios e povos do Xingu são o escudo contra a devastação que avança Brasil adentro. Na bacia estão localizados os municípios e terras indígenas com as maiores taxas de desmatamento dos últimos 10 anos na Amazônia Legal. As nascentes do rio Xingu já perderam mais de 40% de sua cobertura florestal.. Apesar disso, a diversidade socioambiental e a incrível resiliência dos povos do Xingu representam uma oportunidade concreta de pactuação de um novo modelo de desenvolvimento e de relacionamento com a floresta e seus povos.
É para isso que nós do ISA trabalhamos há quase três décadas com o pé no chão, com equipes e escritórios nas cidades de Canarana (MT) e Altamira (PA), junto a nossos parceiros locais, em três linhas de trabalho: Economia da Floresta, Restauração Florestal e Proteção Territorial.
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A Bacia do Rio Xingu é uma região entre os estados do Mato Grosso e do Pará que simboliza a diversidade socioambiental brasileira. Uma diversidade de povos, florestas e rios que nascem no Cerrado e desembocam na floresta Amazônica, no centro do território nacional.
Essa diversidade socioambiental do Xingu está em grande parte abrigada dentro de um "corredor" de áreas protegidas (terras indígenas e unidades de conservação) que representa 50% da área da Bacia do Xingu. Essas áreas protegidas e suas florestas, conectadas entre si, abrigam uma das mais ricas biodiversidades do planeta e 26 povos indígenas e populações ribeirinhas, que resistem e insistem em existir como parte do presente - e do futuro - do Brasil.
Hoje, o Xingu é palco de conflito entre estes modos de vida e um modelo econômico baseado em atividades predatórias que envolvem desmatamento, queimadas, uso intensivo de agrotóxicos, garimpo, exploração ilegal de madeireira, grilagem de terras, construção de hidrelétricas, ferrovias e estradas.
As florestas, rios e povos do Xingu são o escudo contra a devastação que avança Brasil adentro. Na bacia estão localizados os municípios e terras indígenas com as maiores taxas de desmatamento dos últimos 10 anos na Amazônia Legal. As nascentes do rio Xingu já perderam mais de 40% de sua cobertura florestal.. Apesar disso, a diversidade socioambiental e a incrível resiliência dos povos do Xingu representam uma oportunidade concreta de pactuação de um novo modelo de desenvolvimento e de relacionamento com a floresta e seus povos.
É para isso que nós do ISA trabalhamos há quase três décadas com o pé no chão, com equipes e escritórios nas cidades de Canarana (MT) e Altamira (PA), junto a nossos parceiros locais, em três linhas principais de trabalho: economia da floresta, restauração florestal e proteção territorial.
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O projeto Belo Sun e a erosão da legislação ambiental do país
Em artigo, o assessor do ISA Luís Filipe Antunes e os professores da USP Juliana Siqueira-Gay e Luís Enrique Sánchez analisam o polêmico projeto de mineração no Rio Xingu (PA)
Luís Filipe Antunes de Lima, analista de Proteção e Direitos Territoriais do ISA; Juliana Siqueira-Gay e Luis Enrique Sánchez, professores da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP)
A Lei Geral do Licenciamento Ambiental (Lei nº. 15.190/2025) entrou em vigor, em fevereiro, e o julgamento sobre sua constitucionalidade está agendado para o dia 12 de agosto, no Supremo Tribunal Federal (STF). Sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, o julgamento traz grande expectativa sobre a reversão de pontos críticos, já declarados anteriormente inconstitucionais em outras legislações, e que ferem o princípio da vedação ao retrocesso ambiental.
Segundo seus defensores no Congresso, entre as principais motivações da lei, estão a busca por mais segurança jurídica aos empreendedores e a promoção de celeridade no licenciamento ambiental do país. Frente à infinidade de críticas ao projeto, na tentativa de manter parte das salvaguardas contidas na legislação ambiental desde 1981, a Presidência da República apresentou 63 vetos ao texto. Entretanto, 57 foram derrubados pelo Congresso. Três meses após entrar em vigor, os retrocessos trazidos pela Lei Geral já são evidentes.
Em abril, foi emitida a Licença de Instalação para o projeto Volta Grande, uma mina de ouro proposta pela empresa canadense Belo Sun, cujas estruturas, em grande parte, sobrepõem-se à área de influência direta da usina hidrelétrica de Belo Monte, na região da Volta Grande do Xingu, no sudoeste do Pará. O projeto é controverso e tramita há anos em meio a conflitos e diversas ações judiciais. A autorização para a instalação desse empreendimento é um prelúdio dos diversos problemas que a nova lei geral traz.
A licença foi concedida sem considerar as manifestações da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). De acordo com a nova legislação, os órgãos responsáveis pela gestão de áreas protegidas, pela salvaguarda do patrimônio cultural e por zelar pelos direitos de povos indígenas, quilombolas e outras populações tradicionais devem ser obrigatoriamente consultados em processos de licenciamento, mas a “autoridade licenciadora” pode ignorar completamente seus pareceres.
Belo Sun e Belo Monte
No caso da Belo Sun, e a despeito da sobreposição com Belo Monte, a Secretaria de Meio Ambiente do Pará nem cogitou determinar a avaliação dos impactos cumulativos resultantes dos outros empreendimentos existentes na região. As comunidades não são afetadas por um projeto de cada vez, mas simultaneamente por todos eles. Por isso, um projeto como esse deve ter o impacto de suas estruturas avaliado de forma integrada com os empreendimentos existentes e razoavelmente previsíveis no futuro. A Volta Grande do Xingu já sofre com a redução drástica de até 80% das águas do rio para a geração de energia elétrica, afetando diversas espécies da flora e da fauna local e, consequentemente, a atividade pesqueira e a segurança alimentar das populações tradicionais que dependem desses recursos.
Uma mina de ouro da magnitude proposta pela Belo Sun causará mais impactos nos recursos hídricos já alterados da região, entre outros efeitos, que podem intensificar as condições adversas que já são vivenciadas pela população. A superação desses problemas não encontra amparo na nova Lei Geral de Licenciamento, já que a mesma passa longe de elencar a necessidade de avaliação e mitigação de impactos cumulativos. Na verdade, ela reduz o escopo dos estudos para uma avaliação (irreal) que considera apenas os impactos “diretos” do projeto. É (intencionalmente) ingênuo pensar que novos projetos são ilhas que irão operar sem interagir com as estruturas existentes ou planejadas para uma determinada região.
O curioso é que a pretendida “segurança jurídica” que seria garantida pela nova lei não garante absolutamente nada. Se o empreendimento da Belo Sun ainda não viu a luz do dia, não foi por falta de licenças, mas sim pelo fato de terem sido sustadas na Justiça, o que também pode ser o destino desta mais recente. A função do licenciamento ambiental é compatibilizar o desenvolvimento socioeconômico com a proteção dos recursos ambientais para as atuais e futuras gerações e com a salvaguarda do patrimônio cultural e dos direitos dos povos originários. A nova legislação afasta a prática do licenciamento de seu papel fundamental, estabelece prazos fixos para emissão de determinadas licenças, ao preço de prejudicar a avaliação efetiva dos impactos ambientais e a consulta às comunidades afetadas, o que certamente levará a uma maior judicialização dos processos que assim correrem.
Dessa forma, o caso de Belo Sun nos convida a refletir sobre o modelo de desenvolvimento imposto a uma região que já é muito impactada pelos projetos econômicos existentes e que, agora, se encontra diante de uma iniciativa que representa um risco ainda maior para seus ecossistemas e para os povos e comunidades tradicionais que ali vivem. Tudo isso se dá com ajuda da nova lei, que (não) garante nem segurança jurídica nem salvaguardas socioambientais.
Caberá, neste momento, ao STF compatibilizar a nova regra com os fundamentos constitucionais do licenciamento ambiental, declarando a inconstitucionalidade dos dispositivos que desequilibram a proteção socioambiental e que promovem o retrocesso ambiental.
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Terra Nutre e Catrapovos buscam fortalecer PNAE no Mato Grosso
Comissão busca identificar entraves e soluções para promover chegada de alimentos tradicionais aos pratos dos alunos
Escola Estadual Leonardo Crixi Apiaká quer atingir os 100% de produtos tradicionais na alimentação dos alunos | Edilson Crixi Morimá
Na alimentação da Escola Estadual Leonardo Crixi Apiaká, na Terra Indígena Apiaká Kayabi, em Mato Grosso, um dos pratos preferidos pelos alunos é o peixe fresco ensopado. Na região, há fartura e diversidade de peixes, mas para que esse produto da cultura alimentar indígena chegasse à escola, foi necessária uma longa negociação.
O diretor da escola, Edilson Crixi Morimá, conta que uma das exigências feitas pelo poder público era que a escola aceitasse apenas uma variedade de peixe e, ainda, que o produto fosse entregue como filé. Após muita conversa para promover o reconhecimento da diversidade e da cultura local, o alimento passou a ser aceito nos pratos dos alunos tal e qual já era consumido na comunidade: de várias espécies e formas de consumo.
Esse é apenas um exemplo das barreiras que os alimentos tradicionais enfrentam para chegar às escolas, evidenciando a necessidade de adequação das políticas públicas de aquisição de alimentos – como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) – à realidade dos territórios.
A superação de barreiras de acesso ao PNAE foi debatida em reunião da Comissão de Alimentos Tradicionais dos Povos (Catrapovos) de Mato Grosso, em Cuiabá (MT), nos dias 29 e 30/6. No encontro, estavam presentes lideranças indígenas, quilombolas, retireiros, ribeirinhos, extrativistas, organizações da sociedade civil e entes públicos.
Saiba mais
Catrapovos
A Catrapovos é uma iniciativa coordenada pelo Ministério Público Federal (MPF), com participação da sociedade civil, que adequa normas e facilita a compra de alimentos tradicionais de povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais para a alimentação escolar, garantindo comida saudável nas escolas e gerando renda para essas populações. No Mato Grosso, a secretaria-executiva da Catrapovos é composta pelo Instituto Socioambiental (ISA), Instituto Centro de Vida (ICV) e Coordenação Nacional de Comunidades Negras Rurais Quilombolas no Mato Grosso (Conaq-MT).
Terra Nutre
Iniciado neste ano, o projeto Terra Nutre busca fortalecer o PNAE em interface com a Catrapovos-MT, incentivando a inserção de alimentos frescos, tradicionais e locais em escolas em Mato Grosso. A iniciativa promove segurança alimentar para os estudantes, gera renda para quem produz e contribui para a proteção do meio ambiente, já que a agricultura familiar e os sistemas agrícolas tradicionais respeitam os tempos da natureza e os ciclos da vida. O ISA, ICV e a Conaq-MT integram a Secretaria-Executiva da Catrapovos no Mato Grosso, junto com outras instituições.
De acordo com Paulo César Júnior, analista socioambiental do ICV, os espaços de escuta ativa, como os promovidos pela reunião em Cuiabá, são essenciais para promover a visão sobre alimentação tradicional nos territórios.
“A escuta ativa realizada na Catrapovos alimenta diretamente nossos eixos de atuação, em especial o fortalecimento da governança e controle social. É a partir dessa realidade relatada pelas comunidades que o Terra Nutre direcionará suas ações”, explica.
Ele complementa que a compreensão aprofundada da execução do PNAE no Mato Grosso também contribui para as ações do Terra Nutre, que abrange 16 municípios e diversas realidades de produtores e escolas.
Avanços e entraves
No encontro, a Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (Seduc-MT) apresentou um avanço institucional expressivo – saltando de 7 para 22 projetos de chamadas públicas do PNAE específicas para os povos e comunidades tradicionais. Mas o acesso ainda precisa ser ampliado para comunidades indígenas, quilombolas, pantaneiras e de Reservas Extrativistas (Resex).
Um dos principais entraves debatidos foi a emissão de notas fiscais. Atualmente, a ausência de códigos específicos na Secretaria de Estado de Fazenda (Sefaz-MT) para produtos da sociobiodiversidade – como a castanha de pequi, o mangarito e o mingau de perereba – faz com que os produtores enquadrarem seus alimentos de maneira uniformizada, o que acaba invisibilizando a diversidade das roças tradicionais.
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Reunião em Cuiabá contou com representantes dos povos e comunidades tradicionais, poder público e sociedade civil | ICV
A burocracia acaba gerando distorções nas escolas: há relatos de instituições de ensino nos territórios que recebem itens ultraprocessados e congelados vindos das cidades, como macarrão com salsicha e suco de caixinha, enquanto os estudantes demandam a comida de sua própria cultura, como peixe local, farinha de mandioca, frango caipira, açaí e cará.
Conforme a antropóloga do ISA Luisa Tui, a complexidade das normas ainda dificulta que a produção local chegue à mesa dos estudantes. “Nosso papel como integrantes da comissão é estruturar planos de trabalho e oficinas, apoiando o poder público e as escolas da região na superação desses desafios", disse.
Para enfrentar o nó tributário, os integrantes da Catrapovos deliberaram pela manutenção do Grupo de Trabalho (GT) sobre nota fiscal e aprovou a realização de uma reunião entre as secretarias de Fazenda de Mato Grosso e do Amazonas, mediada pelo MPF. O objetivo é replicar em Mato Grosso o modelo pioneiro do Amazonas, que criou uma aba específica em seu sistema fiscal para produtos tradicionais.
Além disso, o encontro encaminhou que um novo projeto piloto do PNAE será desenvolvido na Resex Guariba-Roosevelt, aproveitando o potencial da cadeia da castanha. Estão em planejamento oficinas de capacitação sobre regras de emissão de notas fiscais e inscrição estadual para as organizações comunitárias no segundo semestre.
Com essas medidas, a expectativa é de mais diversidade, cultura e saúde nos pratos dos alunos.
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Após mobilização, diversidade de peixes e outros alimentos passaram a chegar à alimentação escolar na Terra Indígena Apiaká Kayabi | Edilson Crixi Morimá
Presente na reunião em Cuiabá, o diretor Edilson Crixi Morimá relatou que, após muita mobilização, a Escola Estadual Leonardo Crixi Apiaká conta hoje com uma alimentação escolar composta 90% por produtos da própria comunidade. O objetivo, conforme ele, é que esse índice chegue a 100%. No cardápio estão mandioca, farinhas, açaí, patauá e uma grande variedade de peixes!
Também estiveram na reunião representantes da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), Instituto Comida e Cultura (ICC), Centro de Tecnologia Alternativa (CTA), Associação Indígena Tapayuna (AIT), Conexus, Instituto Krehawa, Associação Indígena Khisêtjê (AIK), Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Associação dos Retireiros do Araguaia, Acorquirim Quilombola, Associação Terra Indígena Xingu (Atix), Fase, Xaraiés e as associações dos moradores agroextrativistas da Resex Guariba-Roosevelt (AMORARR e AMARR).
Resolução do FNDE
Membro da Catrapovos Brasil e assessor do Observatório das Economias da Sociobiodiversiade (ÓSocioBio), Márcio Menezes participou do encontro e compartilhou informações sobre a resolução nº 11/2026 do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), publicada em 24/6, que orienta a realização de chamada pública específica para povos indígenas, quilombolas e povos e comunidades tradicionais em todos os municípios do país.
Com a resolução, a participação dos povos tradicionais no PNAE ganha novo impulso, ampliando as possibilidades de inclusão de alimentos produzidos, coletados, beneficiados e conservados de acordo com os sistemas alimentares tradicionais. Na prática, isso significa mais alimentos locais, mais diversidade no cardápio escolar e maior valorização dos saberes, culturas e modos de vida dos PCTs. “Pela primeira vez, o FNDE regulamenta nacionalmente uma experiência que já vinha sendo construída nos territórios por PCTs”, informou.
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ISA e Atix-Mulher vencem Prêmio MapBiomas na categoria povos e comunidades tradicionais
Premiação reconhece o protagonismo das mulheres indígenas no monitoramento e proteção ambiental
O desmatamento avança em área reivindicada por indígenas, no nordeste do Mato Grosso | Kamikia Kisedje
O Instituto Socioambiental (ISA) e o Movimento das Mulheres do Território Indígena do Xingu (Atix-Mulher) venceram a 8ª Edição do Prêmio MapBiomas, na categoria especial Povos e Comunidades Tradicionais, com o dossiê Ciência Indígena e Monitoramento Territorial Frente à Expansão Agrícola na Terra Indígena Wawi, Leste do Xingu. A premiação ocorre, nesta terça (07), no Insper, em São Paulo.
O projeto foi realizado por Gaibetitanica Suya, vice-coordenadora da Atix-Mulher, e Ricardo Abad, analista técnico de Geoprocessamento do ISA.
A pesquisa integra dados históricos do MapBiomas (1985-2024) com o monitoramento independente feito com drones pelas guardiãs indígenas. Eles revelam duas realidades contrastantes: enquanto o entorno do município de Querência (MT) perdeu 45% de suas florestas para o agronegócio, a área vizinha protegida por indígenas Kisêdjê registrou uma recuperação florestal de 2,2%, agindo como um escudo verde.
O estudo também denuncia a extrema vulnerabilidade de uma área reivindicada pelos indígenas de 68,4 mil hectares, pois já sofre uma drástica redução de 40% de sua superfície hídrica, com a seca nas cabeceiras dos rios provocada pela drenagem sistemática promovida por fazendas vizinhas.
Segundo Abad, o processo de revisão dos limites desse território foi iniciado em 2007 pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), mas foi paralisado em 2012 devido a um mandado de segurança movido por proprietários rurais. “Essa paralisia jurídica deixa o território em extrema vulnerabilidade, enquanto a fronteira agrícola avança sobre as cabeceiras. É urgente a homologação definitiva dessa área como uma medida de adaptação e justiça climática”, avaliou.
Cientistas da terra
Para ele, a premiação dá visibilidade ao fato de que as mulheres indígenas já estão operando como verdadeiras cientistas da terra. “O prêmio reafirma que garantir o protagonismo das mulheres indígenas na produção de dados geoespaciais é um mecanismo capaz de criar resistência contra o avanço da fronteira agrícola”, afirmou.
“O prêmio confirma que somos protagonistas na proteção da floresta, das águas, da nossa cultura e da vida e seguiremos caminhando juntas, unidas e fortalecidas para que as futuras gerações continuem vivendo em um território preservado, com seus direitos, sua identidade e seus modos de vida respeitados’, disse Gaibetitanica Suya. Ela também lembrou do compromisso da associação no fortalecimento do papel da mulher na região. ‘É importante ressaltar a participação das mulheres nos espaços de decisão e na valorização dos seus conhecimentos e liderança, além da contribuição para a defesa do território’, completou.
O monitoramento realizado pelas indígenas também fortalece o uso das tecnologias para gerar laudos e denúncias para os órgãos de fiscalização, já que os resultados podem se tornar instrumentos de pressão pela demarcação territorial.
No momento da premiação, o cacique geral do povo Khĩsêtjê, Khuiusi Khĩsêtjê, que faleceu, na última quinta-feira (3), aos 80 anos, foi homenageado pelos representantes do seu povo. O cacique dedicou a sua vida à preservação da identidade cultural, à defesa do território e à garantia dos direitos dos povos indígenas.
Sobre o Prêmio MapBiomas
Realizado em parceria com o Instituto Ciência Hoje, o Prêmio MapBiomas reconhece aplicações práticas e trabalhos de destaque que utilizam os dados da plataforma MapBiomas para a conservação e gestão do território.
Desde 2015, o MapBiomas premia iniciativas que gerem dados sobre as transformações do uso da terra por meio da ciência para informar os tomadores de decisão nos setores público e privado e a sociedade civil, visando promover a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais e o enfrentamento às mudanças climáticas.
Para maiores informações sobre a 8ª Edição do Prêmio MapBiomas, acesse o site.
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Nota de pesar pelo falecimento de Khuiusi Khisêtjê, liderança indígena histórica do Xingu
O ISA solidariza-se com a família e a comunidade do líder que por décadas lutou para proteger seu povo, deixando legado inestimável
O Instituto Socioambiental (ISA) manifesta profundo pesar pela morte do cacique Khuiusi Khisêtjê e se solidariza com sua família, sua comunidade e todos os povos indígenas xinguanos, que sentem sua perda. Ao longo de mais de 30 anos, ele foi um dos principais parceiros das nossas iniciativas, uma referência para a instituição, para outras organizações indígenas e indigenistas.
Khuiusi foi uma das mais importantes lideranças do Território Indígena do Xingu (TIX), no nordeste do Mato Grosso. Ele morreu na manhã da última sexta (3), em Goiânia, aos 80 anos. Estava hospitalizado e faleceu em função de complicações decorrentes de uma cirurgia nos rins.
O cacique era um dos últimos grandes líderes ainda vivos da época dos primeiros contatos com os povos xinguanos empreendidos pelos irmãos Villas-Bôas, nos anos 1950.
Naquele momento, os Khisêtjê estavam profundamente impactados por sucessivas epidemias e ataques provocados por não indígenas e foram reduzidos a apenas 50 pessoas. Com a morte de parte da família, inclusive seu pai, e de muitos dos homens mais velhos de seu povo, ainda muito jovem tornou-se uma das principais figuras de sua comunidade e das populações indígenas da região.
“Embora não falasse português e não soubesse ler ou escrever nessa língua, sua inteligência, sabedoria, coragem e profunda visão política fizeram dele uma das maiores lideranças indígenas Khisêtjê”, diz nota da Associação Indígena Khisêtjê (AIK).
“Profundo conhecedor da história, da cultura e das tradições do povo Khĩsêtjê, Khuiusi era respeitado por todos os povos do TIX por sua força, coerência, sabedoria e clareza política. Sua liderança inspirou e continuará inspirando as novas gerações de líderes indígenas na defesa de seus territórios, de sua cultura, de sua espiritualidade e de seu modo de vida”, segue o texto.
Trabalho incansável
Com seu trabalho, os Khisêtjê conseguiram reconquistar parte de seu território tradicional tomado por fazendeiros, com a demarcação da Terra Indígena Wawi, contígua ao TIX, nos anos 1990. Hoje, os Khisêtjê são mais de 700, distribuídos em 11 aldeias. O retorno e a reconstrução da primeira aldeia onde passou sua infância foi uma enorme vitória de Khuiusi, lembrada até hoje pelos mais jovens.
O grande cacique promoveu um diálogo incansável com os fazendeiros da região para conter o desmatamento, sobretudo das nascentes do Rio Xingu. Nos últimos anos, seguia lutando para retomar o restante do território tradicional e conter o uso indiscriminado de agrotóxicos por grandes produtores rurais nas fronteiras do TIX.
Khuiusi também foi essencial para a proteção e preservação da cultura de seu povo, em especial dos cantos característicos e da língua Khisêtjê. Colaborou ativamente com projetos de pesquisa, envolvendo indígenas e não indígenas, com a gravação, transcrição e tradução de mitos, narrativas e cantos.
“Liderança histórica e guardião da sabedoria de seu povo, Khuiusi dedicou sua trajetória à proteção da cultura e à defesa incansável dos direitos e territórios do Xingu. Sua força e compromisso com a união dos povos indígenas deixam um legado que ecoará por muitas gerações”, afirmou a Associação Terra Indígena Xingu (Atix).
“Kuiusi Khīsêtjê dedicou sua trajetória à defesa de seu povo, de seu território, dos direitos dos povos indígenas e da preservação dos costumes, saberes e tradições Khīsêtjê. Sua caminhada foi marcada pela coragem, pela sabedoria e pelo compromisso permanente com a proteção da vida, da cultura e das futuras gerações”, ressalta texto do Instituto Raoni.
A luta de Kuiusi seguirá viva em seus filhos, netos e bisnetos e, assim como eles, o ISA seguirá honrando sua memória.
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Moraes vota pela constitucionalidade de MP que reduziu parque para viabilizar Ferrogrão
Julgamento é suspenso por pedido de “vistas” do ministro Flávio Dino, que tem 90 dias para devolver o caso ao plenário do STF
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes votou, na quarta-feira (8), pela constitucionalidade da Medida Provisória (MP) que reduziu o Parque Nacional do Jamanxim, no sudoeste do Pará, para que possa ser construída a ferrovia “Ferrogrão”, entre Sinop (MT) e Itaituba (PA). O projeto tem cerca de 977 km de extensão.
O ministro Luís Roberto Barroso acompanhou o voto de Moraes, mas sugeriu que a Corte autorize o governo federal a ampliar a unidade de conservação (UC) por meio de um decreto como uma compensação. Moraes disse que vai incorporar a sugestão. Os outros nove ministros ainda precisam votar.
Depois do voto de Barroso, o julgamento foi suspenso por um pedido de “vistas” (mais tempo para análise do processo) do ministro Flávio Dino. Ele tem 90 dias para devolver a ação ao plenário, mas cabe ao presidente do STF, Edson Fachin, marcar a data da retomada da análise do caso.
O julgamento começou na semana passada, com a leitura do relatório e as sustentações orais das partes. O ISA é amicus curiae – quem pede para participar do processo para fornecer informações e fazer esclarecimentos técnicos ou jurídicos.
Moraes é relator da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 6553, apresentada pelo PSOL em 2020, contra a MP 758/2016, que propôs desafetar, ou seja, retirar a proteção legal de um corredor de 862 hectares do parque do Jamanxim. A medida previu ainda alterar o perímetro de mais duas UCs e criar outra na mesma região. No final das contas, havia um ganho de pouco mais de 51 mil hectares em áreas protegidas.
Acontece que, ao analisar a MP, convertendo-a na Lei 13.452/2017, o Congresso excluiu essa compensação. E de acordo com a própria jurisprudência da Corte, não é possível alterar UCs via MP.
Moraes argumentou que o texto original da medida não reduzia o parque e que uma lei aprovada pelo Congresso pode fazê-lo, segundo a Constituição. “Não havia vício de inconstitucionalidade formal na MP”, disse. “A lei, sim, retirou essa área de compensação. Só que a lei, do ponto de vista da inconstitucionalidade formal, nós admitimos que ela pode fazer isso, desde que de forma justificada”, prosseguiu.
Barroso defendeu que a ampliação do parque do Jamanxim pelo governo poderia ficar entre 862 hectares e no máximo os pouco mais de 51 mil hectares previstos inicialmente na MP.
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Kretã Kaigang e Kokoró Mekragnotire acompanham primeiro dia de julgamento sobre a Ferrogrão | Antonio Augusto / STF
‘Prejuízo ambiental’
Apesar de insistir que o julgamento trata apenas da desafetação, Moraes reproduziu os argumentos de organizações de grandes proprietários rurais e dos governos estaduais, centrados nos supostos benefícios da ferrovia, como a geração de empregos e a atração de investimentos. Ele defendeu que a obra trará impactos socioambientais insignificantes, repetindo que a área desafetada é ínfima – em torno de 0,054% do parque.
“Não se visualiza prejuízo ambiental relevante nessa área”, afirmou. “Todos os estudos demonstram que o empreendimento vai de fato gerar um desenvolvimento sustentável na região”, complementou.
Ele ressaltou que a aprovação da legislação não implicou o fim das exigências do licenciamento ambiental do projeto. E admitiu que, se a licença não aprovar a proposta de traçado atual previsto na desafetação, seria necessária outra lei para autorizar uma nova desafetação.
O ministro justificou ainda que a construção da ferrovia teria impacto positivo na redução das emissões de gases de efeito estufa em função da redução da demanda de transporte por caminhões.
O magistrado ignorou, porém, o efeito indutor desse tipo de empreendimento sobre o desmatamento, a grilagem de terras e outras atividades predatórias, sobretudo na Amazônia. Na mesma direção, minimizou as possíveis consequências negativas para as terras indígenas (TIs), sob a justificativa de que o traçado da Ferrogrão não corta nenhuma delas.
É consenso entre pesquisadores, no entanto, que os impactos de obras dessa magnitude têm alcance muito maior do que sua área de abrangência imediata. Eles podem, portanto, alcançar regiões não tão próximas.
O traçado da ferrovia atravessa a região de interflúvio dos rios Xingu e Tapajós, entre o norte de Mato Grosso e o sudoeste do Pará, onde há grande quantidade de UCs e TIs. Chega a passar a apenas quatro quilômetros da TI Praia do Mangue, em Itaituba (PA), como lembrou o próprio Moraes.
Um estudo do Instituto Socioambiental (ISA) de fevereiro apontou falhas na Análise Socioeconômica de Custo e Benefício (ACB) da obra, como desvios metodológicos, que comprometem o suposto resultado positivo do projeto. O levantamento lista omissões de externalidades importantes, ausência das análises de risco, erros nos cálculos de custos e benefícios e na definição do escopo da análise.
Um parecer técnico assinado pelo ISA, o Observatório do Clima (OC) e pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) também aponta falhas na avaliação dos impactos cumulativos e na projeção de desmatamento presentes no Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA) da Ferrogrão.
“Um dos principais argumentos do parecer é de que existe uma lacuna na avaliação de impactos relacionados ao projeto Ferrogrão que não será suprida no licenciamento ambiental”, informa a assessora técnica do ISA Mariel Nakane.
“Essa avaliação é imprescindível para a identificação das terras indígenas afetadas pelos impactos cumulativos das obras previstas para a região, como a hidrovia do Rio Tapajós e a expansão dos portos e rodovias acessórias que ocorrerão com a Ferrogrão”, conclui.
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Queimada provocada por invasores no Parque Nacional de Jamanxim (PA) | Marizilda Cruppe / Amazônia Real
'Solução heterodoxa'
O advogado Melillo Dinis do Nascimento, que representa o Instituto Kabu no caso, criticou o voto de Moraes após a sessão, classificando-o de uma “solução heterodoxa”. O Instituto Kabu é uma organização do povo indígena Kayapó, das TIs Baú e Menkragnoti, já impactadas pela BR-163, e que também serão afetadas pela Ferrogrão.
“Eu avalio que há um desconhecimento da realidade, porque [a obra] não precisa passar dentro de uma aldeia, não precisa deslocar a aldeia de um povo indígena [para que os impactos sejam sentidos]”, explicou Nascimento.
“Na verdade, o que se discute é o aumento da pressão que já é muito grande em todo o corredor logístico, que se sobrepõe indevidamente a um corredor de sociobiodiversidade do interflúvio Xingu-Tapajós. E que acaba afetando diretamente a vida desses povos. Não só dos povos indígenas mas de outras comunidades que estão ali, de extrativistas, de cooperativas, de ribeirinhos”, complementou.
Ao justificar o pedido de “vistas”, Dino mencionou que os estudos da hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, na mesma região do Pará, indicaram inicialmente que os impactos socioambientais seriam pouco significativos, mas que a realidade mostrou-se bem diferente.
“A Volta Grande do Xingu secou. Não passa canoa, não passa ninguém”, mencionou. “Não tem peixe, não tem caça”, explicou. Ele é o relator de uma ação que determinou que os povos indígenas afetados pela usina recebam uma participação financeira do empreendimento como compensação por seus impactos.
Dino disse que o voto de Moraes vai numa “direção profundamente razoável”, mas ressalvou que se sentia “inseguro” diante dessas questões para proferir o seu. Daí o pedido de vistas.
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Terra Indígena Baú, uma das áreas protegidas ameaçada pelos possíveis impactos da construção da Ferrogrão | Alberto César Araújo / Amazônia Real
Unidades de conservação em risco
“Se o voto do ministro Alexandre de Moraes prevalecer, todas as unidades de conservação estarão sob maior risco de ter seus territórios diminuídos ou de ser integralmente suprimidas", alerta o advogado do ISA Fernando Prioste.
Em 2018, o STF decidiu que não seria possível alterar áreas protegidas, a exemplo de UCs, por meio de MP. A decisão se baseou no texto expresso da Constituição, que exige que isso só pode ocorrer por meio de lei.
“Naquela oportunidade, o STF entendeu ser impossível alterar UCs via MP, mesmo que seja convertida em lei, pois a Constituição exige que se observe todo o processo de tramitação de uma lei, e que o rito de tramitação de medida provisória não bastaria”, acrescenta.
Há significativas diferenças entre a tramitação de um projeto de lei e uma MP, que tem um rito simplificado, com prazo curto e determinado para sua aprovação pelo Congresso.
“Apenas pela tramitação regular de um projeto de lei seria possível viabilizar meios e tempo necessários para o amplo debate que deve ser feito para alteração de UCs”, prossegue Prioste.
Para ele, caso prevaleça o entendimento de Alexandre de Moraes, qualquer UC poderia ser alterada por MP, bastando que ela proponha algum tipo de compensação. O advogado adverte, no entanto, que, como o voto do ministro não obriga que a lei de conversão de MP preveja algum mecanismo de compensação pela desafetação da UC, na prática elas acabariam por ser alteradas sem essa compensação.
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Xingu registra maior taxa de desmatamento desde setembro de 2021
Monitoramento da Rede Xingu+ aponta desmatamento de mais de 19 mil hectares no mês de abril
Desmatamento na APA Triunfo do Xingu. Na parte inferior da imagem, o Parque Nacional da Serra do Pardo, Unidade de Conservação Federal afetada pela ocupação desordenada da APA | Juan Doblas / ISA
O desmatamento voltou a ganhar força em 2022 no Rio Xingu (PA-MT). O mês de abril registrou a maior taxa desde setembro do ano passado, com mais de 19 mil hectares destruídos por toda a bacia. Grosso modo, pode-se considerar 1 hectare como um campo de futebol.
Em comparação a março, o salto é de 81%. Os dados são do Sirad X, sistema de monitoramento remoto da Rede Xingu+, em relatório mensal de desmatamento (acesse o relatório).
O fim das chuvas abre a temporada de desmatamento na região. Assim, grileiros, ladrões de madeira e invasores voltaram a assolar os territórios protegidos e dar continuidade ao alto padrão de desmatamento que se mantém há quatro anos, desde quando a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência com seus discursos anti-indígena e antidemarcação ganharam destaque. (Leia mais: Xingu sob Bolsonaro)
Entre as Terras Indígenas (TI), a Kayapó (PA) registrou mais de 180 hectares desmatados em abril. Já a TI Parabubure (MT) assusta ao ser a segunda TI mais desmatada no mês de abril, com aumento de mais de 4.000% em comparação ao mesmo período do ano passado.
Os municípios de Altamira (PA) e São Félix do Xingu (PA) ocupam o primeiro e o segundo lugares entre os mais desmatados no mês de abril. Altamira ultrapassou a marca de 8 mil hectares. Já São Félix do Xingu passou dos 3 mil hectares destruídos. Ambos os municípios registraram altas de desmatamento de 204% e 253%, respectivamente, em comparação ao mês de março.
Como se não bastasse, a grande atividade pecuária em São Félix do Xingu contribuiu para o grave cenário de aumento de emissão de gases de efeito estufa. O município concentra o maior rebanho do país, com mais de dois milhões de cabeças e ocupa o posto de maior emissor de gases do Brasil.
Quebra da conectividade do Corredor Xingu
Entre as áreas protegidas, a Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu foi a mais destruída, com pouco mais de 6 mil hectares devastados. Sozinha, ela representa 84% do desmatamento nas Unidades de Conservação (UCs) do Xingu. A APA Triunfo do Xingu é historicamente a UC mais desmatada da região em consequência da grande movimentação de grileiros. Os mesmos desmatam para se apossar das terras da unidade.
Ainda entre as áreas protegidas, com aumento de 1.875% em comparação ao mês de março, a Estação Ecológica (Esec) da Terra do Meio foi a segunda mais desmatada. E pela primeira vez, desde o início do monitoramento, a Floresta Estadual (Fes) do Iriri registrou desmatamento no mês de abril.
“Este ano o desmatamento começou mais cedo na Fes do Iriri. Historicamente, no monitoramento do Sirad X, que começou em 2018, a temporada de desmatamento começa no mês de maio, mas este ano 453 hectares foram desmatados em abril”, diz Ricardo Abad, analista de geoprocessamento do Observatório de Olho no Xingu. Esta é a maior taxa de desmatamento no território desde maio do ano passado.
O crescente desmatamento nas UCs pressiona os territórios vizinhos e coloca em risco a conectividade do corredor de áreas protegidas do Xingu, que hoje é a última barreira que protege a Amazônia Oriental do desmatamento. São 26 milhões de hectares de florestas protegidas cuja fragmentação pode empobrecer a floresta, afetando milhares de espécies que dependem de sua conexão, fragilizando ainda mais sua capacidade de resistir às mudanças ao seu redor.
Estima-se que 20% da cobertura original da Amazônia já tenha sido desmatada, aproximando a floresta do “ponto de não retorno”, isto é, o momento em que a degradação alcançará um limite após o qual a floresta não conseguirá mais existir como a conhecemos hoje, dando espaço para uma vegetação mais seca, esparsa e vulnerável, sem capacidade para continuar exercendo sua função de provedora de chuva, essencial para toda a América do Sul. A destruição do Corredor Xingu pode acelerar esse processo. Sua proteção, portanto, é fundamental para a garantia da floresta, seus povos e do clima no planeta.
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Maial Paiakan Kaiapó: resistência, coletividade e cuidado
#ElasQueLutam! Inspirada e motivada pelas lideranças tradicionais de seu povo, a jovem dá continuidade à resistência indígena e à defesa do seu território
Maial Paiakan, liderança da Terra Indígena Kayapó (PA) | Kamikiá Kisêdjê
“Uma linha do tempo”. É assim que Maial Paiakan Kaiapó enxerga a luta pelos territórios e direitos indígenas: como uma resistência contínua, que passa dos mais velhos para os mais jovens. Ela se transforma ao longo dos anos, ganha novas caras e formas, mas tem sempre um objetivo comum: fortalecer as tradições e culturas das comunidades e proteger a humanidade.
Mulher aguerrida e importante liderança da Terra Indígena Kayapó (PA), Maial nota que muito do que aprendeu sobre luta descobriu com os que vieram antes. E que seu trabalho hoje vem para dar seguimento ao que começou com eles. “[Estamos] construindo a nossa própria história, mas com um olhar muito grande em relação ao nosso passado,” reflete. “Se a gente está no movimento indígena, é porque a gente tem uma base forte, porque a gente vem da aldeia e conhece a nossa realidade”.
A “base” a qual ela se refere é composta de muita gente, mas a principal inspiração é seu pai, Paulinho Paiakan. Decisivo para a conquista do Capítulo dos Índios na Constituição e na luta contra Kararaô, a atual hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira (PA), Paiakan sempre acreditou no potencial das filhas para a mobilização e investiu nessa formação.
“[Nós] sempre participamos de atos, reuniões; em momentos importantes da luta dos indígenas, a gente estava”, conta.
Foi com o pai, por exemplo, que Maial percebeu a importância da união entre os vários povos indígenas e movimentos sociais por um bem comum - sonho que ela ajuda a realizar hoje em dia, como porta-voz da Aliança em Defesa dos Territórios. A aliança junta os povos Kayapó, Munduruku e Yanomami para enfrentar a invasão garimpeira em suas terras.
“Iniciou [nos anos 1980] com o Davi Yanomami lutando pelo território. Meu pai foi visitá-lo na Terra Indígena Yanomami; e hoje é o filho dele, Dário, e também eu e a minha irmã, O-é Kaiapó, [estamos atuando] na mesma pauta, na mesma luta”, comenta. Como o pai fez décadas atrás, Maial visitou recentemente a Terra Yanomami (RR-AM), durante as celebrações dos 30 anos de homologação do território, para fortalecer a união entre os três povos e trocar experiências sobre o garimpo ilegal. “A gente quer proteger nosso território, não queremos garimpo”, explica. “Deixamos nossas diferenças de lado e é todo mundo lutando junto”.
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Maial Paiakan (esq.) com Davi Kopenawa e Alessandra Munduruku. Os três fazem parte da Aliança em Defesa dos Territórios | Fred Mauro / ISA
Formação para a coletividade
Para Maial, o pai é uma referência também por ter sido o maior incentivador para que as filhas estudassem. Aos sete anos, Maial mudou-se para a cidade de Redenção (PA) para frequentar a escola não indígena, conhecer a cultura dos "brancos" e, no futuro, aplicar essa sabedoria nas lutas dos Kayapó. “Não é uma decisão individual, ela é pelo coletivo, é em defesa do território”, explica.
A escolha de ir para a cidade culminou com uma conquista inédita: Maial foi a primeira pessoa do seu povo a concluir uma graduação, formando-se em Direito em 2015.
“É um projeto que foi elaborado pelo meu pai e que deu muito certo. Se não fosse essa iniciativa, talvez hoje tivéssemos poucos estudantes indígenas ainda”, comenta. “A graduação foi importante para o meu povo no sentido de incentivar outros jovens de que estudar é possível”.
Tanto o curso quanto a trajetória após a graduação foram decididos também com o coletivo em mente. “Eu precisava entender melhor sobre os direitos que a gente tem e o que a gente está lutando”, lembra. Depois de formada, Maial atuou com temas de proteção territorial na sede da Fundação Nacional do Índio (Funai) e, na sequência, na Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), em Brasília.
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'Se a gente está no movimento indígena, é porque a gente tem uma base forte', diz Maial Paiakan | Mitã Xipaya
“A saúde indígena me deu um olhar completamente diferente de tudo”, aponta. “De que a nossa ligação com o território não é de posse, mas de saúde, cultura, espiritualidade”.
Mas, nesta trajetória, um dos momentos que ela se recorda com mais carinho é quando começou a trabalhar com a deputada federal Joenia Wapichana (Rede-RR) e pôde entrar pela primeira vez na Câmara dos Deputados sem ser barrada. “Quando estamos com o movimento, a gente chega ali e a recepção é horrível. Então, foi emocionante entrar lá para trabalhar e, principalmente, com uma mulher indígena eleita”, conta.
Foi lá também que ela percebeu a importância de os povos indígenas se empoderarem de conhecimentos sobre a política partidária e o funcionamento de leis e se organizarem para ocupar estes espaços. “Tudo o que a gente faz, e tem, e luta, é política. Então, como a gente não vai falar de políticas públicas, de conquistas?”, questiona.
Mulheres indígenas
Hoje, Maial desponta como um exemplo do momento de transformação pelo qual passa o movimento indígena. Como ela mesmo avalia, o rosto da resistência está cada vez mais jovem e feminino. “É nós por nós!”, avisa. “As mulheres lutando pelo território, enfrentando garimpeiros, retirando invasores. Eu acho magnífico”.
Mas esse protagonismo feminino sempre fez parte da vida de Maial. Ela cresceu observando e se inspirando em mulheres como a mãe, Irekran Kaiapó, e a tia, Tuíra Kayapó, conhecida pela icônica cena em que colocou um facão contra o rosto do então diretor da Eletronorte, no I Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, em 1989, em Altamira. E hoje, tudo o que ela faz tem essas mulheres como ponto de partida.
“Tudo o que eu aprendi em relação a ser forte, foi com as mulheres indígenas”, conta. Elas, explica Maial, carregam ao mesmo tempo um olhar muito firme na luta, mas que é também de muito carinho, cuidado e coletividade. “[É sobre] estar juntas, ali, de mãos dadas. Eu estou um pouco longe de casa, mas aonde quer que eu vá, eu tenho a presença delas comigo”.
Nada, é claro, vem sem seus desafios. “É racismo, desentendimento das pessoas sobre os povos indígenas e nossa cultura”, salienta. “Como mulher, aumenta a responsabilidade, porque a gente tem que lutar para provar que pode construir [junto], que a gente pode estar nesse campo [de liderança]”. Mesmo assim, Maial reafirma a importância de mulheres, indígenas e não indígenas, assumirem a linha de frente e se unirem pela proteção da terra. “Vamos estar afastando a violência, o estupro, uma série de coisas que afetam principalmente a vida das mulheres indígenas”, diz.
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Maial em marcha com as mulheres Kayapó em Brasília | Felipe Milanez, cedida por Maial Paiakan
Em uma das últimas conversas que teve com o pai – Paulinho Paiakan foi uma das grandes lideranças indígenas que faleceram na pandemia de Covid-19 –, Maial escutou que já estava preparada para caminhar sozinha. “Foi a primeira vez que ele falou isso. Ele sempre nos tratou no sentido de que a gente ainda tinha o que aprender,” diz. Foi um momento muito importante, que consolidou o entendimento de que ela vinha adquirindo conhecimento desde jovem e estava, sim, pronta para lutar pelo seu povo. “Se a gente não acredita na nossa luta, quem é que vai fazer isso?”, reflete.
“O território significa muito: o nosso corpo, os nossos valores, a nossa cultura. E a morte do território é a morte dos povos indígenas,” finaliza. “O que me move é olhar para o passado e observar que, se a gente tem território hoje, foi porque meu pai, meus avós, lutaram. Então agora está nas minhas mãos garantir isso”.
#ElasQueLutam é a série do ISA sobre mulheres indígenas, ribeirinhas e quilombolas e o que as move! Acompanhe no Instagram.
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Justiça estadual do Pará suspende licenciamento da mineradora Belo Sun
Decisão da Justiça de Altamira suspendeu licenciamento do projeto de exploração de ouro na Volta Grande do Xingu, no Pará, com base na falta de estudos e de consulta a comunidades ribeirinhas da região
A mineradora canadense Belo Sun, que pretende instalar a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil, na Volta Grande do Xingu (PA), região já impactada pela hidrelétrica de Belo Monte, sofreu nova derrota na justiça esta semana: o licenciamento ambiental do empreendimento foi novamente suspenso, desta vez em julgamento de 1ª instância da Justiça Estadual em Altamira.
A decisão se refere a uma Ação Civil Pública (ACP) movida pela Defensoria Pública do Estado do Pará (DPE), que apontou a ilegalidade do licenciamento pela ausência de estudos sobre os impactos socioambientais que podem afetar as comunidades ribeirinhas da região e pela ausência de consulta livre, prévia e informada a essas populações.
Na decisão liminar proferida, na última terça-feira (24), o juiz Antônio Fernando de Carvalho Vilar determinou a “suspensão dos efeitos do licenciamento ambiental n° 2012/5028 e 2015/5340, da empresa Belo Sun Mineração Ltda, que tramita na Secretaria de Estado e Meio Ambiente e Sustentabilidade (SEMAS), até que seja realizado estudo socioambiental dos povos ribeirinhos, na distância mínima de 10 km do empreendimento, nas duas margens do rio Xingu, bem como a consulta prévia, livre e informada e o consentimento dos povos ribeirinhos, pelo Estado do Pará, conforme previsto no artigo 6°, da Convenção n. 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).”
Ainda segundo o juiz, a consulta prévia “deve se apresentar como um permanente canal de diálogo com as populações tradicionais atingidas por grandes empreendimentos como o dos autos", devendo ser "ampla e pautada na boa-fé, facultando aos atingidos consentir ou não com a implementação do empreendimento, estar presente nas tomadas de decisões e que suas manifestações e interesses sejam levados em consideração por parte da autoridade estatal".
Além disso, a decisão fixou multa diária de R$ 100 mil, para o caso de descumprimento, sem prejuízo de eventual responsabilização criminal dos envolvidos, e determinou a realização de inspeção judicial e perícia antropológica.
Outras ações
Esta é a segunda ação que atualmente mantém suspenso o licenciamento de Belo Sun. Em 25/4, o Tribunal Regional Federal da Primeira Região (TRF1) manteve outra decisão, de 2017, em ACP movida pelo Ministério Público Federal, até que a empresa apresentasse os estudos de impacto ambiental sobre os povos indígenas e fosse feita a consulta livre, prévia e informada dessas populações da Volta Grande, de acordo com a Convenção 169 da OIT.
As ameaças de impactos graves sobre as comunidades no entorno do projeto geraram ainda outras ações, que seguem tramitando na Justiça. Uma pede a anulação do Contrato de Concessão de Uso n.º 1.224/2021, firmado entre o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e a Belo Sun, pelo qual o INCRA passou para a mineradora 21 lotes do Projeto de Assentamento (PA) Ressaca, em troca de participação do órgão público nos lucros das atividades minerárias. A outra ação, contra a União e o Incra, exige a regularização fundiária e a titulação das propriedades das mais de 200 famílias da Vila Ressaca, local onde Belo Sun pretende se instalar (leia mais).
Conforme vídeo publicado pelo ISA (veja abaixo), o projeto da mineradora tem graves falhas estruturais e os estudos dos impactos ambientais realizados pela empresa desconsideram tanto possíveis impactos sísmicos na barragem de rejeitos que seria construída quanto os impactos cumulativos que ela causaria junto com a barragem da usina de Belo Monte.
Parecer do especialista em Geologia e Mineração Steven H. Emerman diz que pelo menos nove milhões de metros cúbicos de rejeitos tóxicos podem atingir o Rio Xingu e percorrer mais de 40 quilômetros em duas horas, provocando danos irreversíveis. Esses rejeitos conteriam metais altamente nocivos, como cianeto, arsênico e mercúrio, podendo causar um “ecocídio” do rio Xingu pelo empreendimento. O termo é uma expressão que pode ser usada para fazer referência a qualquer destruição em larga escala do meio ambiente ou à sobre-exploração de recursos naturais não renováveis.
Além disso, Belo Sun fica a somente dez quilômetros da principal barragem no Rio Xingu, construída para a hidrelétrica de Belo Monte. A exploração da mineradora prevê explosões 24 horas por dia para arrancar ouro da terra, durante no mínimo 12 anos.
Aliança Volta Grande do Xingu
Esta comunicação é uma iniciativa da Aliança Volta Grande do Xingu, composta por organizações e movimentos sociais do Brasil e do mundo. A Aliança apoia a defesa da vida e da dignidade na região da Volta Grande do Xingu e sua permanente proteção contra projetos de infraestrutura como a hidrelétrica Belo Monte e a mina de Belo Sun. Compõem a Aliança: AIDA, Amazon Watch, Earthworks, International Rivers, Instituto Socioambiental — ISA, Mining Watch, Movimento Xingu Vivo para Sempre e Rede Xingu+.
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Hoje na História Socioambiental: em 1997, povo indígena Panará retorna ao seu território tradicional
Após mais de 20 anos de contato e remoção forçada, a Terra Indígena Panará foi demarcada e população voltou a crescer
Atenção: a nota e os documentos utilizados apresentam conteúdos sensíveis sobre graves violações de direitos humanos e violência contra povos indígenas.
Entre 1995 e 1997, o povo indígena Panará retornou a uma parte de seu território tradicional depois de mais de duas décadas de exílio e de ter sofrido um dos mais graves episódios de contato e remoção forçada de povos indígenas durante a ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985).
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Fotocolagem feita pela artista aymara Shirley Espejo para ilustrar o 'Kit Didático: Como reparar o irreparável? Povos indígenas e o retorno a territórios expropriados'
Motivado pela abertura da Rodovia BR-163, ou Cuiabá-Santarém, o contato oficial ocorreu em 1973 e, com a transferência da população para o então Parque Indígena do Xingu em 1975, os Panará sofreram o extermínio de quase 70% de sua população por doenças epidêmicas e massacres. Uma história que só começou a ser revertida em 1995, após o retorno a seu território, no Rio Peixoto de Azevedo, entre os estados de Mato Grosso e Pará, e a demarcação da Terra Indígena Panará, em 1996.
Assista ao documentário Panará, a volta por cima dos índios gigantes:
O retorno terminou em 22 de outubro de 1997, quando os Panará contavam 178 pessoas e formaram sua primeira aldeia na TI demarcada: Nansêpotiti. Nas últimas duas décadas, a população voltou a crescer e hoje são mais de 850 pessoas, distribuídas por outras seis aldeias: Kresan, Sankuê, Nänpôôrö, Sôkarasã, Canaã e Kôtikô.
Nos registros coloniais, diferentes grupos indígenas foram identificados pelos cronistas como Kayapó do Sul, denominação que abrangia populações de ampla territorialidade, incluindo áreas do atual interior de São Paulo. Pesquisas históricas e linguísticas demonstraram que os atuais Panará constituem a continuidade histórica direta desse mesmo povo.
A partir de meados do século XVIII, em resposta à violenta ofensiva militar colonial no Triângulo Mineiro e no "caminho de Goiás", promovida por bandeirantes para desimpedir as rotas do ouro, os Panará empreenderam um longo êxodo rumo a noroeste, atravessando o vale do Rio Teles Pires até encontrarem refúgio na floresta amazônica.
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Fac-símile da edição de 14 de março de 1974 do jornal O Globo. Disponível aqui|O Globo
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Fac-símile da edição de 20 de outubro de 1976 do jornal O Estado de São Paulo. Disponível aqui|O Estado de S. Paulo
Estabelecidos tradicionalmente em uma extensa área nas bacias dos rios Peixoto de Azevedo e Iriri (norte de Mato Grosso), onde viveram em relativo isolamento por quase dois séculos, os Panará – também identificados na documentação histórica do século XX como Kreen-Akarore – viram seu território e seus modos de vida sofreram profundas transformações a partir das décadas de 1960 e 1970, quando o avanço das frentes de ocupação e a abertura da rodovia BR-163 precipitaram o traumático contato oficial de 1973.
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Fac-símile da edição do dia 11 de fevereiro de 1973 do jornal O Globo. Disponível aqui| O Globo
O cerco de tratores e a poluição dos rios forçaram o povo a constantes fugas que impediram o cultivo de roças. Entre 1972 e 1973, epidemias de gripe e malária reduziram a população de 500 para 79 sobreviventes.
A foto que consta no fac-símile acima é uma das mais emblemáticas do povo Panará. O registro, do fotógrafo Pedro Martinelli, foi publicado na edição de 11 de fevereiro de 1973 do jornal O Globo. Quem demarca sua existência, em ato de resistência, é Sokrit Panará.
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Trajeto feito pelo povo Panará entre contato, transferência e retorno|ISA
Em 1975, o Estado Brasileio transferiu o povo Panará para o então Parque Indígena do Xingu (PIX), hoje conhecido como Território Indígena do Xingu (TIX). Após a traumática transferência, foram forçados a viver como estrangeiros em Ypo’o E’yi, uma aldeia, do povo Kawaiwete (Kaiabi).
Entre fevereiro e outubro de 1975, menos de um ano após a transferência, a população chegou a apenas 69 pessoas, em decorrência de dez mortes. Os Panará descreviam o Xingu como "terra ruim" e sentiam a falta da kypakjä (terra preta), solo fértil de seu território original indispensável para o cultivo de suas variedades tradicionais de amendoim e milho, elementos centrais de sua identidade cultural e alimentar.
O retorno
Em 1991, com apoio dos parceiros do Núcleo de Direitos Indígenas (NDI), os Panará sobrevoaram a região do Peixoto de Azevedo e constataram que suas terras foram desmatadas, transformando-se em pastos e áreas de garimpo. Voando mais para o norte, acabaram avistando uma área de floresta intacta e decidiram que iriam voltar.
Em 1992, o povo Panará começou a construir uma aldeia e a fazer as primeiras roças para a mudança do Parque Indígena do Xingu, que ocorreu entre os anos de 1995 e 1997. Em 1997, fundaram a aldeia Nänsêpotiti, reconhecida como o centro (pôri) do território, restaurando sua cosmologia espacial concêntrica, veja nas fotos abaixo.
Hoje, os Panará habitam a Terra Indígena Panará, um território de aproximadamente 495 mil hectares, reconhecido na década de 1990 e situado na divisa entre os estados de Mato Grosso e Pará. Localizada em pleno bioma amazônico, nas proximidades da Serra do Cachimbo, a terra tradicional abrange as cabeceiras e o curso alto do rio Iriri (denominado Nänsêpotiti na língua indígena), pertencente à bacia hidrográfica do Xingu.
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Sobrevoo de reconhecimento da TI Panará, em 1991|André Villas-Bôas/ISA
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Construção da Aldeia Nansêpotiti, em 1997|André Villas-Bôas/ISA
A lista de Teseya Panará
Teseya Panará, um dos anciãos Panará e sobreviventes desse grave episódio, fez um relato impactante para o antropólogo Stephan Schwartzman sobre sua versão da história do contato oficial:
“Vou começar a contar desde o início. Primeiro, não tinha branco. Eu era pequeno quando eles chegaram, primeiro, na aldeia Yopuyüpaw. Chegou um avião e jogou coisas lá de cima. A minha mãe ainda me carregava nas costas. Não tinha branco. O pessoal viu o avião. Eu não vi o branco naquela época, não sabia de branco lá na terra da gente, no meu mato”, recordou.
“Todo mundo ficou deitado, prostrado. Os outros foram para o mato, um foi por aqui, outro acolá. Morreu, morreu, morreu, ficou todo mundo doente. ‘O que é que está acontecendo conosco? Talvez seja por causa do branco’, falaram. Todo mundo morreu, lá.”
Em novembro de 1994, Teseya Panará e as mulheres mais velhas, Sàrkyarasà, Kyütakriti e Swakie, reconstituíram, um por um, a lista de 176 pessoas panará mortas por doenças epidêmicas entre 1973 e 1975, na região do Peixoto de Azevedo
Sem a possibilidade quantificar com precisão, os parentes mortos tiveram a idade estimada. A classificação foi feita por classes de faixa etária tradicionais ou por comparação com pessoas conhecidas. Na lista, o símbolo "35 < " quer dizer "acima de 35 anos" e representa uma estimativa da idade das classes de idade dos velhos (taputun , em panará) e das velhas (twatun).
Em 1994, os Panará, com o apoio do Núcleo de Direitos Indígenas (NDI) moveram uma ação judicial contra a União e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), reivindicando reparação pelos danos decorrentes do contato forçado, das mortes e da transferência compulsória de seu território tradicional para o Parque Indígena do Xingu, na década de 1970. Em 1997, a Justiça Federal proferiu sentença favorável à comunidade, condenando os réus ao pagamento de indenização por danos morais.
Continuada pelo ISA, essa ação foi pioneira no Brasil ao buscar judicialmente a responsabilização do Estado por reposição territorial e perdas e danos causados a um povo indígena. A decisão favorável foi proferida em 1997, reconhecendo o direito à indenização e, no ano 2000, uma decisão sem precedentes do Tribunal Regional da 3ª Região (TRF-3) condenou a União e a Funai ao pagamento de cerca de R$ 1 milhão ao povo Panará – montante que foi pago em 2003 e aplicado em um fundo de apoio, administrado pela Associação Iakiô.
O veredito foi em função dos danos materiais e morais provocados pelo trágico contato promovido a partir de fevereiro de 1973, pela construção da BR-163. Paralelamente, a luta pela recuperação do território tradicional panará levou à demarcação da Terra Indígena Panará, em 1996, assegurando parte das terras das quais haviam sido expulsos na década de 1970.
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Recorte do dia 15 de setembro de 2000 do Diário da Amazônia. Disponível aqui|Diiário da Amazônia
O processo foi acompanhado por cinco representantes do povo Panará, incluindo Teseya, citado acima. A ação indenizatória, por sua vez, foi movida e acompanhada pelos advogados do Instituto Socioambiental (ISA).
Foi a primeira vez que o Judiciário reconheceu a responsabilidade estatal pelo desastre demográfico indígena, inspirando outras movimentações de reparação e justiça para povos indígenas.
Apesar da vitória jurídica do povo Panará, a área que corresponde atualmente à Terra Indígena Panará, lugar onde vivem até hoje, é muito menor se comparada com seu território tradicional. Neste cenário, a recuperação demográfica dos Panará se traduz em dificuldades em razão do confinamento populacional em uma área cada vez mais povoada.
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Fotocolagem feita pela artista aymara Shirley Espejo para ilustrar o Kit Didático: Como reparar o irreparável? Povos indígenas e o retorno a territórios expropriados
A comunidade enfrenta ainda pressões no entorno da Terra Indígena, como ameaça de invasões e garimpos, e os efeitos das mudanças climáticas em suas roças, com alterações nos rios, ciclo de chuvas, controle do fogo, entre outras, que comprometem diretamente a produção de alimentos e a segurança física e alimentar.
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Vista aérea da Aldeia Nansepotiti, em 2022|Kamikiá Kisedje/ISA
Pessoas educadoras, venham conhecer a série Hoje na História Socioambiental, que reúne fontes e documentos em kits didáticos com propostas de reflexão para apoiar discussões e atividades sobre temáticas socioambientais em sala de aula!
ARAÚJO LEITÃO, Ana Valéria Nascimento (Org.). PANARÁ: Advogado responsável pela condução do caso: Sérgio Leitão. In: ARAÚJO LEITÃO, Ana Valéria Nascimento (Org.). A defesa dos direitos indígenas no judiciário: ações propostas pelo Núcleo de Direitos Indígenas. São Paulo: Instituto Socioambiental, 1995, p. 284 - 332.
ARNT, Ricardo. Índios gigantes: uma história com um grande final feliz. Super Interessante, São Paulo : Abril, v. 10, n. 12, p. 36-45, dez. 1996.
_______________. PINTO, Lúcio Flávio. PINTO Raimundo. Panará: volta dos índios gigantes. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1998.
SCHWARTZMAN, Stephan. Laudo etno-histórico sobre "Os Panará do Peixoto de Azevedo e cabeceiras do Iriri : história, contato e transferência ao Parque do Xingu". s.l. : s.ed., 1992
**A série Hoje na História Socioambiental apresenta a riqueza de informações do Acervo do ISA que conta com mais de 250 mil itens catalogados voltados para a temática socioambiental como publicações, livros, teses e dissertações, mapas, notícias, materiais audiovisuais, entre outros. Hoje na História Socioambiental é um convite a reler o Brasil com mais amplitude, sensibilidade e justiça, valorizando a memória e documentação dos diversos povos.
Esta publicação conta com o apoio do Fundo Amazônia e é um produto do projeto "Defesa e Promoção dos Direitos Indígenas no Brasil: Construir Capacidades e Engajar Pessoas por um Futuro mais Justo", realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), com o financiamento da União Europeia.
Este material tem conteúdo de responsabilidade exclusiva da instituição realizadora e não reflete a posição da União Europeia.
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Em artigo, Alice Dandara e Luís Filipe Lima, do ISA, analisam decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, que fortalece premissas fundamentais do direito ambiental
Luís Filipe Lima
- Analista de Proteção e Direitos Territoriais do Programa Xingu
Canoa atravessa pedral na Volta Grande do Xingu, região ameaçada pelo projeto de mineração de ouro Belo Sun|Marcelo Soubhia/ISA
O ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), publicou nesta terça-feira (20/10) decisão que gerou grande alívio a todos que defendem a legislação ambiental e os direitos de povos e comunidades tradicionais no Brasil.
Fachin acolheu o pedido do Ministério Público Federal (MPF) na Suspensão de Tutela Provisória nº 1.156/PA e determinou a suspensão imediata da Licença de Instalação do Projeto Volta Grande de Mineração, da empresa canadense Belo Sun.
A decisão colocou um freio aos atropelos e às desconsiderações sistemáticas sobre o rito de licenciamento legalmente estabelecido no país. O presidente do STF reconheceu que a implantação do que se propõe a ser a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil não pode prosseguir sob o peso de pendências técnicas graves, conforme apontado reiteradamente pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
Entre as inconformidades do processo estão a exclusão de comunidades indígenas, a ausência de um Plano Básico Ambiental do Componente Indígena (PBA-CI), a necessidade de uma consulta livre, prévia e informada, e a falta de mensuração dos impactos cumulativos com a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que também está situada no Rio Xingu, no Pará. Além disso, ficou demonstrado que a tese de segurança jurídica baseada em um acordo de conciliação no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) era extremamente frágil e jamais chegou a ser homologada judicialmente.
O sistema trifásico de licenciamento ambiental, adotado em casos de grande potencial de impacto, como é o de Belo Sun, é marcado por três etapas complementares, que culminam na emissão da licença prévia, de instalação e de operação, respectivamente. A emissão de cada uma delas traz consigo obrigações que devem ser cumpridas pelo empreendedor, conforme estabelecido hoje na Lei nº 15.190/2025. A cronologia dessas obrigações não é aleatória, muito pelo contrário, cada etapa foi estruturada a partir dos princípios da prevenção e precaução e do direito constitucional à um meio ambiente ecologicamente equilibrado. A emissão da Licença de Instalação para o Projeto Volta Grande em 2026, quebrou esse rito, e colocou em xeque direitos fundamentais.
Em um paralelo, não se autoriza um cidadão a dirigir antes da obtenção da carteira nacional de habilitação. Assim como não deveria se permitir a compra de uma arma de fogo sem uma avaliação qualificada capaz de certificar sua capacidade para adquiri-la e mantê-la em posse. Porém, mesmo diante do acúmulo de inconformidades, foi por via de uma decisão monocrática que se viabilizou a emissão da Licença de Instalação nº 3698/2026. A quebra do rito de licenciamento fica explícita quando condicionantes publicadas pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas/PA) na Licença de Instalação fazem jus exatamente a elementos que tratam, em verdade, de etapas prévias que deveriam ser realizadas em uma fase anterior a essa autorização.
Frente aos questionamentos gerados pela decisão, com a ausência do projeto em sua integridade, da consulta à comunidades impactadas, a ausência de um PBA-CI e pela mobilização contra a violação de direitos socioambientais, ao invés da reavaliação da decisão, foi criada uma Mesa de Conciliação no âmbito do TRF-1. Esse tipo de espaço, em geral, é utilizado para promover o diálogo e buscar acordos entre as partes para a resolução célere de litígios, mas não é esse o caso. O que se tem é um descumprimento flagrante do rito de licenciamento. Criou-se, assim, uma brecha preocupante: a utilização da mediação judicial para contornar etapas e condicionantes não cumpridas, gerando a ilusão de que negociações poderiam substituir a análise técnica rigorosa e chancelar a retomada do empreendimento.
No âmbito da mesa de conciliação, ainda, em 24 de junho de 2026, a mineradora acatou a determinação de não iniciar as obras do projeto, determinação esta que já constava como condicionante para a Licença de Instalação emitida pela Semas/PA. O que antes impedia as obras por tempo indeterminado, no que se refere ao prazo necessário para a construção, avaliação e aprovação do PBA-CI, foi convertido em um prazo temporário de 60 dias sem relação direta com essa condicionante, e, o mais grave, a licença seguiria válida.
Criou-se assim um perigoso limbo jurídico, pois enquanto a licença seguia produzindo efeitos, a Mesa de Conciliação passava a falsa impressão de que o projeto estava regularizado, arriscando transformar grandes impactos socioambientais em um fato consumado antes mesmo que as inconformidades fossem corrigidas.
Nesse ponto, a intervenção do STF assumiu um papel fundamental ao acolher a manifestação da Funai e do MPF e suspender os efeitos da decisão do TRF-1, fazendo valer o que está legalmente estabelecido.
A decisão de Fachin fortalece uma premissa fundamental do direito ambiental: a vedação ao retrocesso ambiental e à flexibilização de regras para sua proteção. A conciliação não pode servir como atalho para chancelar ilegalidades e nem para flexibilizar exigências de ordem pública. A Mesa de Conciliação, dessa forma, só terá legitimidade se for utilizada como um espaço para identificar e corrigir rigorosamente as lacunas e vícios do processo, e isso não significa que o projeto será necessariamente aprovado. Por isso, é de suma importância que a Licença de Instalação permaneça suspensa até que cada requisito legal seja integralmente cumprido.
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