A Amazônia (ou "Pan-amazônia'', para olharmos o bioma integralmente, para além das fronteiras brasileiras) é um sistema socioecológico integral, compartilhado por oito países e uma província francesa na América do Sul, que beneficia todos os habitantes do planeta. Sua enorme diversidade socioambiental é um ativo estratégico tanto para o meio ambiente tropical da América do Sul quanto para o equilíbrio do clima na Terra. Os grandes responsáveis por manter os ecossistemas amazônicos conservados são os mais de 400 povos indígenas e outras populações tradicionais, como comunidades quilombolas e ribeirinhas.
Nós do ISA acreditamos que para fortalecer uma visão integral da Pan-amazônia, olhar o bioma como um todo, é necessário superar abordagens fragmentadas e promover iniciativas com sinergia territorial, considerando escalas geográficas regionais, nacionais e internacionais para, ao final, fortalecer os territórios indígenas e as áreas protegidas de toda a Pan-amazônia, o que significa aumentar a proteção das florestas. Para caminhar nessa direção, o ISA ajudou em 2007 na criação da Rede Amazônica de Informações Socioambientais Georreferenciadas (RAISG), uma rede formada por organizações da sociedade civil de países amazônicos com larga experiência de trabalho na Amazônia e com seus povos.
A RAISG busca construir uma visão integral da Amazônia que vincule os direitos coletivos dos povos indígenas e populações tradicionais à valorização e proteção da biodiversidade. Nesses 14 anos, a RAISG tem produzido e divulgado um conjunto de mapas, dados estatísticos e informações socioambientais da Pan-amazônia, que contribuem para o monitoramento de 3,8 milhões de hectares de terras indígenas e áreas protegidas em nove países. O Atlas Amazônia Sob Pressão 2020 reúne as versões mais recentes de muitos destes mapas.
As informações produzidas pela RAISG também geram evidências sobre o valor da Pan-Amazônia para o enfrentamento da crise climática e podem ajudar na tomada de decisões em processos de desenvolvimento sustentável em diferentes níveis de planejamento (municipal, estadual, nacional e internacional) para prevenir e mitigar a degradação ambiental da região. Desde 2017, a RAISG tem parceria com a iniciativa MapBiomas Brasil, para o mapeamento da cobertura do uso do solo na região amazônica dos nove países. Os produtos e dados cartográficos produzidos pela RAISG estão disponíveis para download em sua plataforma: www.amazoniasocioambiental.org.
Em tempo: no ISA também atuamos regionalmente na "Amazônia" brasileira, em duas de suas grandes bacias hidrográficas, a do Rio Xingu e a do Rio Negro. Para conhecer nossa atuação "raiz", pé no chão, visite as páginas destes territórios.
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A Amazônia (ou "Pan-amazônia'', para olharmos o bioma integralmente, para além das fronteiras brasileiras) é um sistema socioecológico integral, compartilhado por oito países e uma província francesa na América do Sul, que beneficia todos os habitantes do planeta. Sua enorme diversidade socioambiental é um ativo estratégico tanto para o meio ambiente tropical da América do Sul quanto para o equilíbrio do clima na Terra. Os grandes responsáveis por manter os ecossistemas amazônicos conservados são os mais de 400 povos indígenas e outras populações tradicionais que habitam suas florestas, como comunidades quilombolas e ribeirinhas.
Nós do ISA acreditamos que para fortalecer uma visão integral da Pan-amazônia, olhar o bioma como um todo, é necessário superar abordagens fragmentadas e promover iniciativas com sinergia territorial, considerando escalas geográficas regionais, nacionais e internacionais para, ao final, fortalecer os territórios indígenas e as áreas protegidas de toda a Pan-amazônia, o que significa aumentar a proteção das florestas. Para caminhar nessa direção, em 2007 o ISA ajudou na criação da Rede Amazônica de Informações Socioambientais Georreferenciadas (Raisg), uma rede formada por organizações da sociedade civil de países amazônicos com larga experiência de trabalho na Amazônia e com seus povos.
Nesses 14 anos, a Raisg tem produzido e divulgado mapas, dados estatísticos e informações socioambientais da Pan-amazônia, que contribuem para o monitoramento de 3,8 milhões de hectares de terras indígenas e áreas protegidas em 6 dos 9 "países amazônicos" (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela). O Atlas Amazônia Sob Pressão 2020 reúne as versões mais recentes de muitos destes mapas.
As informações produzidas pela rede de organizações sul-americanas também geram evidências sobre o valor da Pan-Amazônia para o enfrentamento da crise climática e podem ajudar na tomada de decisões em processos de desenvolvimento sustentável em diferentes níveis de planejamento (municipal, estadual, nacional e internacional) para prevenir e mitigar a degradação ambiental da região. Desde 2017, a Raisg tem parceria com a iniciativa MapBiomas Brasil, para o mapeamento da cobertura do uso do solo na região amazônica. Os produtos e dados cartográficos produzidos pela rede estão disponíveis para download em sua plataforma: www.amazoniasocioambiental.org.
Em tempo: no ISA também atuamos regionalmente na "Amazônia" brasileira, em duas de suas grandes bacias hidrográficas, a do Rio Xingu e a do Rio Negro.
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Povo Nawa conquista avanço na demarcação de seu território no Acre
Funai publica relatório de identificação da Terra Indígena Nawa mais de duas décadas depois do início dos estudos
Após mais de duas décadas de espera, o povo Nawa conquistou mais uma etapa para o reconhecimento de seu território tradicional no Acre. No dia 20/02, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) publicou o Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID) da Terra Indígena (TI) Nawa, dando andamento ao processo de demarcação da área de 65.159 hectares situada nos municípios de Mâncio Lima e Rodrigues Alves (AC), na bacia do Rio Juruá, onde vivem mais de 300 indígenas.
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A reunião contou com a presença de lideranças do povo Nawa e da presidenta da Funai, Joenia Wapichana|Elvio Pankararu/Funai
A decisão foi anunciada em reunião com a presença virtual de lideranças do povo Nawa e da presidenta da Funai, Joenia Wapichana. Em curso desde 2003, foram 23 anos de espera pela conclusão e publicação dos estudos de identificação e delimitação do território. Agora, o próximo passo é o reconhecimento pelo Ministério da Justiça e posteriormente pela presidência da República.
Com a publicação, 158 TIs seguem em estudo para identificação e delimitação pela Funai; 38 aguardando decisão do Ministério da Justiça; e 71 da presidência. No total, o Brasil possui 826 TIs atualmente, incluindo 536 já homologadas ou reservadas, além de 8 áreas com restrição de uso para proteção de povos indígenas isolados e 15 reservas indígenas em processo de regularização.
Luta pela demarcação e pela sociobiodiversidade
Para o povo Nawa, a luta pela regularização de seu território enfrentou um desafio: a sobreposição total da Terra Indígena pelo Parque Nacional da Serra do Divisor, criado em 1989 sem consulta prévia à comunidade. Em razão disto, as atividades de subsistência e a habitação humana foram restringidas pela legislação que regulamenta a Unidade de Conservação (UC) de proteção integral, gerando tensões entre indígenas e órgãos ambientais – e colocando as comunidades sob o risco constante de reassentamento forçado.
Foram anos de mobilização para que finalmente o direito do povo Nawa fosse reconhecido. Segundo a reportagem d’A Gazeta de Rio Branco, em 2001, um relatório de identificação da área já havia sido feito pela Funai, mas a identidade étnica do povo passou a ser contestada por outros órgãos, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), conforme aponta o RCID. Apesar de o Ministério Público Federal, União, Ibama e Funai terem entrado em acordo sobre a existência da comunidade em 2003, 20 anos se passaram sem que o processo fosse concluído.
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A espera pelo reconhecimento durou 23 anos. Agora, o povo espera o aval do Ministério da Justiça e da presidência da República|Elvio Pankararu/Funai
Ao longo do período, diversas manifestações cobraram celeridade na demarcação, como a ocupação da sede regional da Funai no Acre, em 2012, e a visita de lideranças a Brasília, em 2016, junto a representantes dos povos Huni Kuin, Yawanawa, Ashaninka, Manchineri, Madija, Apurinã, Jaminawa, reivindicando o cumprimento de seus direitos constitucionais a parlamentares e órgãos públicos.
Um novo capítulo desse impasse territorial, que já durava décadas, aconteceu em novembro de 2024, quando a comunidade Nawa e o ICMBio assinaram um Termo de Compromisso a fim de compatibilizar os objetivos do Parque Nacional com os interesses e o modo de vida nawa. O termo foi homologado pela Justiça Federal no mesmo ano, com uma decisão que, assim como o RCID, reconhece a ocupação tradicional nawa e reforça a importância de conciliar a conservação da biodiversidade com o direito indígena à terra.
Da invisibilidade ao direito à terra
“O povo Nawa carrega uma trajetória de resistência marcada pela sobrevivência a ciclos de violência e invisibilidade forçada no Vale do Juruá (AC)”, afirma o RCID. Entre o final do século XIX e início do XX, a expansão seringalista foi responsável pela expropriação territorial e contato forçado com indígenas nawa, vitimando-os com epidemias, capturas para trabalhos forçados nos seringais ou dispersando-os pelo território por meio de conflitos armados.
Esse conjunto de violações desencadeou um processo de apagamento da identidade indígena que reverberou por longas décadas e impediu a comunidade de ter reconhecido o seu direito à terra. Ao final do século XX, entretanto, o cenário mudou a partir do crescimento populacional e do fortalecimento étnico. Atualmente, sobre os modos de vida das comunidades, o relatório afirma ainda que “a identidade Nawa se fundamenta na articulação entre parentesco, memória, território, práticas culturais e resistência histórica”.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Nota de pesar por Antônio Luíz Batista de Macêdo (Txai Macêdo)
Macêdo foi um dos idealizadores, junto a Ailton Krenak e outras lideranças indígenas e seringueiros, da Aliança dos Povos da Floresta
O Instituto Socioambiental (ISA) vem manifestar solidariedade aos familiares, amigos e colegas de Antônio Luíz Batista de Macêdo em razão do seu falecimento no último domingo (15/02) no município de Cruzeiro do Sul, Acre.
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Trajetória de Macêdo impulsionou comunidades indígenas e seringueiros na luta por seus direitos territoriais e culturais|Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real
Macêdo, popularmente conhecido como Txai Macêdo, nasceu em 1952 no Seringal Transval, no Rio Muru, Vale do Rio Juruá, no Acre. Começou a trabalhar coletando o látex da borracha ainda criança e dos 14 aos 17 anos trabalhou em embarcações fluviais nos rios do Vale do Juruá, no Acre e Amazonas.
Servindo ao exército, se tornou mecânico de motores e trabalhou em companhias de terraplanagem até os 24 anos. Depois, como Artífice de Obras e Serviços Públicos de 1976 a 1978.
Em 1978, entrou na então Fundação Nacional do Índio (Funai), inicialmente lotado no mal sucedido projeto de instalação de uma serraria na área indígena dos Apurinã, no quilômetro 45 em Boca do Acre, Amazonas. Passou ao cargo de sertanista em 1986.
Como indigenista e sertanista da Funai e assessor da Comissão Pró-Índio do Acre nos anos 1980, Macêdo promoveu o reconhecimento e a demarcação de diversas Terras Indígenas no seu estado, também no sudoeste do Amazonas e noroeste de Rondônia.
Nos anos 80, ele foi um dos coordenadores do movimento de criação da primeira Reserva Extrativista do Brasil, a Reserva Extrativista do Alto Juruá. A criação da figura jurídica de Reserva Extrativista foi uma demanda do 1º Encontro Nacional dos Seringueiros em 1985. Resultado de cinco anos de mobilização, em janeiro de 1990, o governo federal criou Reservas Extrativistas como “espaços territoriais destinados à exploração autossustentável e conservação dos recursos naturais renováveis, por população extrativista”.
Entre janeiro e março de 1990 foram criadas as quatro primeiras Reservas Extrativistas totalizando mais de dois milhões de hectares, entre as quais a Reserva Extrativista do Alto Juruá, com 506 mil hectares.
A Aliança Pelos Povos da Floresta
Macedo ficou à frente da Coordenação Regional do Conselho Nacional dos Seringueiros do Vale do Juruá de 1988 a 1995. Foi um idealizador, junto a Ailton Krenak e outras lideranças indígenas e dos seringueiros, da Aliança dos Povos da Floresta, e em 1990 participou da viagem de membros da Aliança com o cantor e compositor Milton Nascimento às terras do povo Ashaninka no alto Juruá. Da viagem resultou o disco Txai.
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Txai Macêdo, ao lado esquerdo do cantor Milton Nascimento, durante a expedição Txai, no Rio Amônia|Beto Ricardo/ISA/1989
Parte desta história está contada no filme Mapear Mundos, em que Macêdo aparece ao lado de Milton durante coletiva de imprensa.
Assista abaixo:
Em 1990, em Londres, Macêdo expôs as conquistas da Aliança dos Povos da Floresta a uma plateia que incluía o então Príncipe Charles, e em 1992 foi indicado pela ONG Amigos da Terra a entregar ao ex-Beatle Paul McCartney, o Prêmio The Voice for the Planet Earth (‘A Voz Pelo Planeta Terra’).
No mesmo período, Macêdo coordenou a criação do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Mâncio Lima (AC) e ajudou na criação de sindicatos e de diversas associações agroextrativistas em outros municípios no Vale do Juruá.
Também propôs e coordenou a implantação e execução do primeiro projeto do BNDES no Acre entre 1989 e 1995, o que credenciou o estado a obter financiamentos do banco a partir de 2001.
Foi consultor do governo do Acre de 2000 a 2012, inspirando aos governos Jorge Viana e Binho Marques à criação do "Programa de Florestania" e no "Programa de Etnozoneamento em Terras Indígenas", numa ação pioneira que esteve na base da construção da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI).
A contribuição de Txai Macêdo às histórias de luta de povos indígenas e de populações tradicionais - cuja aliança surgida no Acre criou o termo "povos da floresta" - permitiu que comunidades indígenas e seringueiros se posicionassem na vanguarda da luta por seus direitos territoriais e culturais.
Como resultado, estes povos se libertaram de seus antigos patrões (os "senhores da borracha") e imprimiram uma nova fase de sua história, exemplificada pela criação e fortalecimento de organizações de base e associações, a implementação de cantinas de apoio ao abastecimento e comercialização da produção agrícola, extrativa e artesanal, a valorização da cultura e da educação através da construção de escolas e de conteúdos pedagógicos inovadores.
Esta força e inspiração inestimáveis têm contribuído para que os povos da floresta na sua luta por autonomia conquistem a liberdade de habitar suas terras, e obtenham mais educação, saúde, revitalização de culturas tradicionais e melhoria da qualidade de vida na floresta.
Nos últimos tempos, Macêdo deu maior visibilidade ao seu lado musical, gravando em 2022 seu disco Akiri.
Em nota, a Fundação Txai, criada por Macêdo em 1995, escreve:
Partiu Txai Macedo — não apenas um indigenista, não apenas um sertanista, mas um sábio que aprendeu a escutar o tempo da mata, o canto dos povos e a memória profunda da terra. Um homem que caminhou entre mundos sem nunca se separar daquilo que defendia: a vida.
Txai foi herói de um tipo raro.
Não o herói das armas ou dos aplausos, mas o herói paciente, que planta futuro onde outros só veem distância.
Que protege territórios como quem protege histórias.
Francisco Piyãko, da Associação Ashaninka-Apiwtxa escreve:
Se hoje a Apiwtxa é forte, se o nosso território tem a floresta em pé, se as nossas escolas ensinam a nossa língua e se nós caminhamos com as próprias pernas e de cabeça erguida, é porque lá atrás, nos momentos mais sombrios, tivemos a mão estendida de um verdadeiro “Txai”, que a significa mais que um amigo, significa metade de nós mesmos.
Independente de qualquer dor que estejamos sentindo agora, nós assumimos aqui o compromisso inegociável de dar continuidade a essa história. No momento mais difícil, de lutar e conquistar o nosso espaço, o Macedo esteve na linha de frente por nós. Agora, o nosso dever sagrado é cuidar das conquistas que o Txai Macedo trouxe e colocou em nossas mãos.
Macedo foi colaborador e amigo do ISA, e de seu antecessor, o Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), por mais de quarenta anos. Que descanse em paz.
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Estudo inédito mostra que 18% da Amazônia é formada por áreas úmidas, um dos ecossistemas mais vulneráveis às mudanças climáticas
Nova metodologia mapeou 77 milhões de hectares de áreas úmidas no bioma e mostrou que quase metade está fora de territórios protegidos
Um estudo inédito mostrou que 18% da Amazônia é formada por áreas úmidas, um dos ecossistemas mais vulneráveis às mudanças climáticas no bioma. A partir de uma nova metodologia, pesquisadores de quatro instituições ambientais mapearam e classificaram 77 milhões de hectares de áreas úmidas na Amazônia. E alertam: quase metade está fora de territórios protegidos.
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Floresta de igapó, um tipo de área úmida, dentro da Flota de Faro, no Pará|Marcio Nagano/Imazon
Com o título “Desafios e oportunidades para a proteção, conservação e manejo de áreas úmidas do bioma Amazônia”, o trabalho contou com a participação de especialistas do Imazon, do ICMBio, do Instituto Socioambiental (ISA) e do EcoSaMa. E foi possível graças à criação de uma metodologia de mapeamento por imagens de satélite que combinou dados de sensores remotos, mapas já publicados e o inventário nacional de áreas úmidas. Outro avanço científico da pesquisa foi adaptar a classificação regional ao sistema nacional de classificação de áreas úmidas, com o objetivo de incentivar políticas públicas.
Com diferentes características de vegetação, hidrologia e biodiversidade, as áreas úmidas são todos os ecossistemas presentes na interface entre ambientes terrestres e aquáticos. Elas podem ser de sistemas costeiros (como manguezais), interiores (como florestas de igapó ou de várzea) ou antropogênicos (como açudes e lagoas artificiais).
As áreas úmidas naturais têm importância global para a regulação climática e manutenção da biodiversidade, além de importância local para a qualidade de vida de povos e comunidades tradicionais e para a purificação dos recursos hídricos. Também são de extrema relevância para espécies de aves migratórias e peixes, o que incentivou a criação de um esforço global de proteção desses territórios, a Convenção de Ramsar, tratado do qual o Brasil é signatário.
Secas são ameaça de pontos de não retorno
Além disso, por serem altamente dependentes da água, as áreas úmidas estão entre os ecossistemas amazônicos mais vulneráveis às mudanças climáticas e a pressões como desmatamento, represamento dos rios, expansão urbana e mineração. Enquanto o aquecimento global pode fazer com que as áreas úmidas costeiras desapareçam com o aumento do nível do mar, as áreas úmidas interiores podem entrar em pontos de não retorno devido a secas extremas frequentes.
“Uma das hipóteses que estamos avaliando é o papel das áreas úmidas da Amazônia como o primeiro sinal de pontos de não retorno no bioma. Essas áreas podem dar o alarme de que já possamos estar cruzando um limiar de risco altíssimo”, explica o pesquisador Carlos Souza Jr., do Imazon.
Quase metade das áreas úmidas está desprotegida
Apesar da importância global, quase metade dos ecossistemas mapeados na Amazônia ainda está fora de territórios legalmente protegidos. Conforme o estudo, apenas 53,7% das áreas úmidas do bioma encontram-se sob algum nível de proteção, sendo 21,3% em Unidades de Conservação, 15,4% em terras Indígenas, 3% em Sítios Ramsar e 14% em áreas protegidas sobrepostas.
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“Destinar áreas para conservação, em especial as áreas úmidas, seria fundamental porque esses territórios sustentam processos ecológicos essenciais para a Amazônia. Eles concentram grandes estoques de carbono, mantêm a biodiversidade e garantem água e alimentos para as populações. Em um contexto de mudanças climáticas, ignorar o papel das áreas umidades aumenta a vulnerabilidade da Amazônia e das populações que dependem desses territórios”, afirma Cícero Augusto, analista GIS do ISA.
Importância dos Sítios Ramsar
Os Sítios Ramsar são zonas úmidas de importância internacional definidas pela Convenção de Ramsar, um tratado estabelecido em 1971, cujo Brasil é signatário desde 1993. Eles são reconhecidos pelo papel significativo na conservação da biodiversidade global e na manutenção da vida humana, principalmente em relação às espécies migratórias de aves e peixes.
“Os Sítios Ramsar revelam que conservar áreas úmidas é uma das estratégias mais eficazes para proteger a biodiversidade, garantir segurança hídrica e enfrentar a crise climática, especialmente em regiões onde a floresta, a água e os povos tradicionais estão profundamente interligados” aponta Suelma Silva, pesquisadora e analista ambiental do ICMBio.
O Brasil possui atualmente 27 Sítios Ramsar reconhecidos internacionalmente, sendo 10 deles na Amazônia — que somam 23 milhões de hectares e estão localizados em 21 terras indígenas e 88 unidades de conservação. São de destaque o Mosaico do Rio Negro, o maior Sítio Ramsar do mundo, com 12 milhões de hectares, o Estuário do Amazonas e seus Manguezais, com 3,8 milhões de hectares, e o Rio Juruá, com 2,1 milhões de hectares.
“Além disso, sabe-se que nesses sítios e nas unidades de conservação encontram-se numerosas turfeiras, muitas delas ainda não inventariadas, fundamentais para a mitigação das mudanças climáticas. Sua relevância foi destacada no relatório da COP 30, que reconhece esses ecossistemas como grandes reservatórios naturais de carbono e elementos-chave para a estabilidade climática e hidrológica em escala global”, reforça Silva.
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Pesquisa apontou mais de 1 milhão de hectares áreas úmidas sob ameaça
O estudo também avaliou as principais ameaças às áreas úmidas da Amazônia, calculando a área afetada por cada uma delas. No total, mais de 1 milhão de hectares desses ecossistemas estão sob ameaça de hidrelétricas, desmatamento, pequenos reservatórios, garimpo, exploração madeireira e mineração industrial.
Por usar quase 20 mapas de propostas anteriores de mapeamento das áreas úmidas da Amazônia como ponto de partida, a nova metodologia apresentada pela pesquisa toma 2020 como referência para a identificação e classificação desses ecossistemas (data em que era possível comparar a maioria dos estudos), mas as ameaças estão atualizadas até 2024.
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As hidrelétricas representam atualmente a principal ameaça às áreas úmidas da Amazônia em termos de área afetada. Conforme o estudo, 600 mil hectares de superfície de água encontram-se classificados como hidrelétricas no bioma. “As barragens construídas para a geração de energia elétrica e armazenamento de água causam impactos negativos nas áreas úmidas, alterando o fluxo hídrico e o ciclo natural de inundações dos rios, além de prejudicar a biodiversidade aquática e o fluxo migratório de peixes”, comenta Bruno Ferreira, pesquisador do Imazon. As hidrelétricas Jirau e Santo Antônio, por exemplo, provocaram o declínio de populações de peixes no Rio Madeira, afetando a pesca realizada pelas comunidades.
O segundo maior problema é o desmatamento, que afetou 290 mil hectares de áreas úmidas entre 2020 e 2024 na Amazônia. “Alguns tipos de áreas úmidas amazônicas armazenam maiores quantidades de carbono por hectare do que florestas terrestres, como manguezais e turfeiras, o que faz sua destruição ser ainda mais grave para o bioma. Além disso, no caso das turfeiras, o desmatamento também provoca emissões de metano”, alerta Souza Jr.
Pequenos reservatórios são a terceira maior ameaça às áreas úmidas
O estudo também revelou de forma inédita a escala do problema dos pequenos reservatórios de água na Amazônia, que atualmente são a terceira maior ameaça às áreas úmidas do bioma em relação à área afetada. Conforme a pesquisa, a Amazônia possui 112 mil hectares de áreas úmidas afetadas por pequenos reservatórios, como, por exemplo, os açudes construídos nas propriedades rurais para o gado beber água. “Os serviços ambientais dessas áreas úmidas artificiais não se equivalem aos das áreas úmidas naturais. Frequentemente, os pequenos reservatórios geram impactos ambientais e sociais negativos”, ressalta Ferreira.
Para construir ou regularizar uma barragem no Brasil, o proprietário da terra precisa possuir Cadastro Ambiental Rural (CAR) e autorizações específicas, entre elas Outorga de Uso da Água, Licença Ambiental e Licença de Supressão Vegetal dos órgãos responsáveis, que dependem do tamanho da barragem e do domínio da água. “Mapeamos todos os pequenos reservatórios em áreas úmidas da Amazônia e disponibilizamos esse banco de dados de forma aberta ao público, o que pode ajudar nas investigações e na responsabilização pelas barragens ilegais”, completa o pesquisador.
Garimpo e exploração de madeira ameaçam biodiversidade
Outra grave ameaça às áreas úmidas é o avanço do garimpo, que tem contaminado os recursos hídricos, os animais e os povos e comunidades tradicionais com mercúrio, um dos metais mais perigosos segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Entre 2020 e 2024, conforme o estudo, aproximadamente 53 mil hectares de áreas úmidas foram explorados por garimpo.
“Os peixes são contaminados principalmente pelo metilmercúrio, um subproduto da transformação do mercúrio no ambiente aquático. Amostras coletadas em peixes de 17 municípios da Amazônia brasileira apresentam níveis de mercúrio 21,3% acima do limite aceitável (0,5 µg/g) estabelecido pela OMS”, aponta a pesquisa.
O estudo também mostrou que 44 mil hectares de áreas úmidas foram submetidos à exploração madeireira entre 2020 e 2023, o que representa uma grave ameaça à biodiversidade amazônica devido à quantidade de espécies nesses ecossistemas. As várzeas, um tipo de floresta de áreas úmidas, apresentam a maior diversidade biológica do mundo, abrigando mais de mil espécies de árvores tolerantes à inundação, o que representa cerca de 1/6 de todas as árvores da Amazônia. “Além disso, essas árvores atuam como megafiltros, capturando carbono e purificando as águas”, acrescenta Ives Brandão, pesquisador do Imazon.
Esse desmatamento contribuiu para que a Cedrela odorata, uma árvore típica das florestas de várzea, entrasse na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, a sigla em inglês), na categoria Vulnerável (VU). Além disso, a espécie está listada no Anexo II da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e Flora Selvagens em Perigo de Extinção (CITES).
Outra ameaça mapeada no estudo foi a mineração industrial, registrada em 3,5 mil hectares de áreas úmidas na Amazônia até 2024. “A atividade prejudica esses ecossistemas ao aumentar o escoamento superficial e a carga de sedimentos”, explica Brandão.
Recomendações para conservação e manejo das áreas úmidas
O estudo também traz uma série de recomendações para a proteção desses territórios, entre elas avançar na implementação efetiva dos Sítios Ramsar e de seus respectivos planos de manejo; aumentar a participação dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e extrativistas na elaboração e implementação dos planos; e elaborar planos de adaptação e mitigação às mudanças climáticas. Além disso, é importante difundir o conhecimento sobre as áreas úmidas e sua importância para a regulação do clima global.
O Conselho do Povo Indígena Ingarikó (Coping) elaborou o roteiro “Observação de aves na Serra do Sol”, que marca o primeiro esboço de um Plano de Visitação Turística da região Ingarikó Wîi Tîpî, no norte da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Trata-se de uma proposta-piloto, construída pelos próprios Ingarikó, que desejam desenvolver e conduzir, com apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e de acordo com seus protocolos, as futuras atividades de visitação.
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Imagens de parte das mais de 80 espécies de aves que podem ser avistadas no roteiro de observação dos Ingarikó|Ramiro Melinski
O Instituto Socioambiental (ISA) disponibilizou a publicação de 208 páginas em seu acervo público nesta quinta-feira (04/12).
Este roteiro foi baseado em uma expedição experimental realizada em março de 2024. O documento foi elaborado em conformidade com a IN 03/2015 da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), que regulamenta o turismo em Terras Indígenas.
A partir desta experiência, o roteiro aponta que a atividade pode injetar até R$ 50 mil por expedição, beneficiando 45 indígenas que trabalham diretamente, outras pessoas que vendem artesanatos e alimentos tradicionais, além de um fundo comunitário.
O Coping elaborou o roteiro em parceria com a Kraioapa Assessoria, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) de Roraima e uma equipe multidisciplinar, no âmbito do Projeto Aves na Terra de Siikë, financiado pela Fundação Grupo Boticário, entre 2023 e 2025. A publicação também contou com apoio da Funai e do ISA.
“Meu pai, que é antigo tuxaua da comunidade, sempre quis trazer o turismo. A visita experimental mostrou que, com o turismo, os jovens não precisam ir até a cidade para trabalhar e buscar dinheiro. O dinheiro pode vir até aqui”, disse o presidente do Coping, Vitalino Ingaricó.
Elaborado ao longo de dois anos, o roteiro foi entregue à Funai com um pedido de anuência para que as expedições possam ser realizadas.
A população Ingarikó é estimada em 2 mil habitantes vivendo em 16 comunidades. O objetivo das expedições para observações de aves é incentivar a permanência de jovens na região e diversificar as fontes de renda da população, através de atividades que promovam a sustentabilidade socioambiental.
“Jovens de toda a região Ingarikó devem participar das visitas experimentais e levar seus aprendizados para suas comunidades. Esses jovens serão como sementes do turismo”, afirma a liderança regional Dilson Ingaricó.
Expedição experimental
A expedição experimental ocorreu na última semana de março de 2024, época que antecede à estação mais chuvosa, com sete dias e seis noites de duração. Foram envolvidos seis turistas, um guia da Ornis Birding Expeditions, a operadora parceira, dois membros do Projeto Aves na Terra de Siikë e 45 Ingarikó diretamente remunerados, que foram selecionados durante a Reunião de Acordos e a Oficina de Capacitação para a Expedição Experimental, promovidas em 2023.
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Na foto, grupo de turistas estrangeiros que participou de expedição experimental na Raposa Serra do Sol, em março de 2024|Ramiro Melinski
Entre 2010 e 2014, os Ingarikó promoveram quatro expedições turísticas entre a comunidade ingarikó Manalai e o monte Caburaí.
Desde 2010, os Ingarikó receberam capacitações em turismo, através de iniciativas de instituições parceiras do Coping, como o Instituto Federal de Roraima (IFRR), o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o ICMBio.
Conforme a antropóloga Virginia Amaral, que atuou como coordenadora da equipe do projeto, a primeira etapa na elaboração do roteiro foi o processo de seleção de uma operadora de turismo que pudesse conduzir uma expedição experimental. E, assim, os Ingarikó chegaram à Ornis.
“Depois, houve uma oficina de acordos de governança e planejamento da expedição experimental em 2023. Em 2024, a expedição foi de fato realizada com seis turistas estrangeiros, sendo quatro dos Estados Unidos e dois de países europeus, Suíça e Bélgica”, explicou.
A trilha da expedição, que parte da comunidade Karumanpaktëi, está localizada em uma área de sobreposição entre a região Ingarikó Wîi Tîpî, da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, e o Parque Nacional do Monte Roraima, sendo utilizada para atividades de monitoramento da biodiversidade promovidas pelo ICMBio e os Ingarikó, que compartilham a gestão da Unidade de Conservação
“Toda a região Wîi Tîpî é reconhecida por ter grande potencial turístico, devido à sua riqueza cultural, à biodiversidade, à ocorrência de espécies animais e vegetais endêmicas e às paisagens exuberantes”, destaca trecho do documento.
Com a expedição experimental, os Ingarikó pactuaram que devem ocorrer até quatro visitas anuais com grupos de 10 pessoas. Eles entendem que esta frequência é o ideal para prestar o serviço com qualidade sem deixar as atividades tradicionais das comunidades de lado.
O roteiro prevê atividades que devem ocorrer antes, durante e depois das expedições. Para a execução das tarefas são necessárias 45 pessoas que, no conjunto, devem receber R$34,5 mil. O documento estima ainda a entrada na região Ingarikó de cerca de R$16 mil com a venda de artesanato e outros serviços tradicionais.
Observação de aves
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Bico-de-lança observado no roteiro Ingarikó|Ramiro Melinski
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Também é possível avistar o surucuá-mascarado|Ramiro Melinski
Em 2023, o Brasil ocupava o 11° lugar no número de listas registradas no eBird, a principal plataforma de registro de observação de aves no mundo, gerida pelo Laboratório de Ornitologia da Universidade de Cornell, EUA.
A plataforma Wikiaves, site dedicado exclusivamente ao registro dos avistamentos das aves nacionais, contabiliza 51.600 observadores cadastrados, mais de 5,5 milhões de registros e 1.962 espécies da avifauna nacional registradas, em fevereiro de 2025.
No local indicado pelo roteiro dos Ingarikó, foram registradas mais de 80 espécies consideradas características do Pantepui (região formada pelos vestígios de terras altas do escudo das Guianas).
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
COP30: povos e comunidades tradicionais exigem voz nas decisões sobre o Sistema Jurisdicional de REDD+ do Pará
FEPIPA, Malungu e CNS apontam desafios e oportunidades diante da construção do Sistema Jurisdicional de REDD+ do Pará para garantia de direitos de povos indígenas, quilombolas e populações extrativistas
A Federação dos Povos Indígenas do Pará (FEPIPA), a Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará - MALUNGU e o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) apresentaram suas perspectivas sobre os possíveis resultados, aprendizados e próximos passos do Sistema Jurisdicional de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (Redd+) Jurisdicional em elaboração no estado do Pará e que visa regular o mercado de crédito de carbono.
Durante o debate, realizado pelo Instituto Socioambiental e a Fundação Rainforest da Noruega, na Zona Azul da COP30, as lideranças ressaltaram a importância da consulta livre, prévia e informada aos povos que terão seus territórios afetados pela iniciativa.
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Da esquerda para a direita: Juliana Maia (ISA), José Brilhante (CNS), Concita Sompré (FEPIPA) e Aurelio Borges (Malungu)|Thalyta Martins/ISA
Para Concita Sompré, co-fundadora da (FEPIPA) e da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA), o processo é uma novidade para muita gente. REDD+ é a sigla para Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal, Manejo Sustentável de Florestas e Conservação e Aumento dos Estoques de Carbono Florestal, e é desde a informação mais básica até os detalhes mais complexos em projetos desse tipo que precisam circular em todas as instâncias. Consultar as comunidades, explicar os processos e ouví-las sobre os impactos para o território é indispensável para o sucesso do programa.
"Desafios nós sempre vamos ter, mas cada parente, cada etnia tem pensamento diferente. Parecemos todos iguais, mas cada cultura tem sua forma de entender o processo e isso tem que ser respeitado", explicou Concita, defendendo a importância de considerar o contexto social onde estão inseridas as comunidades.
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Mesa, que aconteceu no pavilhão do ISA com a Rainforest, teve tradução simultânea|Thalyta Martins/ISA
Juliana Maia, analista de políticas climáticas do ISA, aponta que a participação dos povos indígenas, quilombolas e extrativistas nos processos de tomada de decisões é fundamental para que se alcancem os resultados esperados.
“Se o Estado do Pará está se propondo a realizar um processo de escuta a povos indígenas, comunidades quilombolas e extrativistas é muito em razão do pleito das lideranças que estão aqui”, ressaltou.
Segundo Maia, há algum tempo não havia sinalização neste sentido, em que pese a Convenção nº 169 da OIT estabeleça a obrigação de o estado realizar a Consulta Prévia, Livre e Informada. A mobilização dos povos e da sociedade civil é central neste cenário, considerando os desafios e a necessidade de informar e assegurar transparência em relação às implicações e pontos de atenção do SJREDD+.
Participaram da mesa também José Ivanildo Gama Brilhante, tesoureiro do CNS, e Aurelio Borges, coordenador da Malungu.
José Brilhante ressaltou que o modo de vida dos povos e comunidades tradicionais valoriza a natureza e garante a vida das pessoas dentro e fora do território. Portanto, uma política que reconheça quem protege e não quem desmata é muito bem vinda.
Aurelio Borges falou sobre a importância da proximidade entre todas as partes interessadas. Ele trouxe também o desafio, como liderança, de dialogar com a população, visto que, para dele, este é um projeto que tem potencial para dar certo, se bem feito.
“O REDD+ em si é muito complexo e a gente não sabe muito bem como funciona esse mercado primário e jurisdicional. Por isso, precisamos estar dentro do processo entendendo e levando questões que, para nós, são pertinentes”, ressaltou Aurélio.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Sistemas Agrícolas Tradicionais reforçam urgência de pacto transnacional pela Amazônia de pé
Saberes e práticas ancestrais sustentam a biodiversidade, garantem soberania alimentar e conectam territórios e povos além dos limites dos países amazônicos
Jose Ignacio G. Gomes Corte
- Analista em desenvolvimento e pesquisa socioambiental do ISA
Os Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs) são conjuntos organizados de saberes e práticas ancestrais que orientam o manejo das paisagens e o uso dos recursos naturais por diferentes povos em seus territórios. Baseados em profundos conhecimentos ecológicos e botânicos, esses sistemas garantem a reprodução social e cultural dos grupos e sustentam as paisagens de diversidade que caracterizam a Amazônia.
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Simoni Yanomami, da comunidade Kori Yauopë, descasca cana-de-açúcar da roça|Erik Vesch/Cama Leão/ISA
Os SATs constituem verdadeiras estratégias de gestão territorial, sustentadas por amplas redes de trocas e interdependências entre humanos e não humanos. Neles, as cosmologias indígenas são centrais: moldam as relações com os territórios e orientam o uso e a domesticação dos recursos. Mandioca, cacau, pupunha, amendoim e inúmeras variedades de pimentas são frutos desses sistemas, que asseguram soberania e segurança alimentar, além de reforçar a reprodução da biodiversidade.
Para a preservação e manutenção dos SATs, é preciso garantir o direito ao território e o reconhecimento das formas de vida dos povos tradicionais. A vitalidade dos SAT é central para a conectividade sociocultural e ecossistêmica do bioma amazônico. Os SAT são uma das peças que articula essa conectividade, a partir de uma ampla rede de interconexões e relações de interdependência entre humanos, não humanos, plantas, animais e recursos naturais.
Dessa forma, a continuidade das contribuições prestadas pela Amazônia às condições de possibilidade da vida na Terra depende da conectividade sociocultural e ecossistêmica que está pautada pela vitalidade dos SAT nos diferentes territórios e contextos.
Entretanto, o avanço de atividades predatórias tem comprometido essa integridade. Pesquisas indicam que a Amazônia se aproxima de um ponto de não retorno, com fragmentação crescente e a formação de “ilhas” de ecossistemas, o que gera perda de conectividade ecológica e social.
Os desafios contemporâneos vêm mostrando a necessidade de uma articulação transfronteiriça que dê conta de ações de proteção ambiental e de modos de vida que garantam o equilíbrio e a preservação da conectividade sociocultural e ecossistêmica. Muitos dos povos que habitam a Amazônia precedem à formação dos estados-nacionais latino-americanos, sendo que as fronteiras entre países não levam em consideração os modos de habitar e usar o território desses povos. Sem uma perspectiva regional que permita observar essas situações que vão além dos limites geográficos entre países, não há possibilidade de garantir a conectividade da Amazônia.
É nesse contexto que a COP30, realizada em Belém, ganha força como um espaço estratégico para evidenciar que a proteção dos SATs – e, com eles, da conectividade amazônica – exige pactos transnacionais e compromissos políticos alinhados à realidade dos povos que constroem e mantêm esses sistemas há milênios.
A Aliança Norte Amazônica (ANA), iniciativa sul-americana de organizações socioambientais da qual o Instituto Socioambiental (ISA) faz parte, surge como uma estratégia fundamental para produzir evidências e promover ações com visão regional e transnacional. A partir da experiência local e territorial junto dos povos indígenas e tradicionais com os quais cada organização trabalha, o esforço é criar entendimentos conjuntos e estruturar ações com uma visão regional e transnacional, atuando num contexto que é regional e transnacional, nas suas relações e interconexões.
Desde o início do ano, ANA vem desenvolvendo uma perspectiva regional sobre os Sistemas Alimentares Indígenas Amazônicos (SAIA), buscando diagnosticar e qualificar sua situação em relação aos direitos territoriais, instrumentos de autodeterminação, políticas de fomento e transformações recentes. O objetivo é reconhecer as contribuições desses sistemas para a resiliência e adaptação às mudanças climáticas, além de reforçar os direitos originários dos povos que os mantêm.
Num cenário global marcado pelo negacionismo climático e por soluções centradas em interesses econômicos, instituições como a FAO desempenham papel crucial ao promover acordos e estratégias baseadas em conhecimento e justiça socioambiental. A participação da ANA na terceira edição do Centro Global sobre Sistemas Alimentares dos Povos Indígenas da FAO, em outubro, levou uma visão amazônica construída a partir de experiências locais e nacionais, reforçando a importância dos SATs para a proteção da floresta e dos povos que a habitam.
A hora demanda acordos e estratégias transnacionais que reconheçam as contribuições e os direitos dos povos indígenas e tradicionais diante do avanço da crise ambiental e climática. Proteger e valorizar seus sistemas alimentares é afirmar a importância dos múltiplos repertórios e modos de vida que sustentam a própria humanidade. A conectividade amazônica é o alicerce dessa visão e os Sistemas Agrícolas Tradicionais, um de seus elos vitais, guardados e praticados há milênios pelos povos que mantêm a floresta de pé.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Em evento Pré-COP, vozes da Amazônia apontam caminhos para adaptação e justiça climática
Encontro reuniu representantes de organizações socioambientais em Belém, cidade que sediará a 30ª Conferência das Partes (COP30), em novembro
“O Papo da RAC”, promovido pela Rede Amazônidas pelo Clima (RAC) e Instituto Socioambiental (ISA), na última sexta-feira (24/10), em parceria com o Canto Coworking, em Belém (PA), reuniu representantes de organizações da sociedade civil para um bate-papo que discutiu, de forma direta com o público, o tema “O que a COP30 tem a ver com a nossa vida?”. O evento foi o terceiro de uma série de debates que vêm aproximando as agendas da COP30 das realidades locais.
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Isabela Canto (RAC), Lucas Nassar (Comitê COP30), Juliana Maia (ISA), Ronaldo Amanayé (Fepipa), Érica Monteiro (Malungu) e Ivanildo Brilhante (CNS) destacam necessidade de ouvir as vozes de povos e comunidades tradicionais nas ações para enfrentar a crise climática|Kelvyn Gomes
Focado nas discussões sobre adaptação e justiça climática, o bate-papo mediado por Isabela Canto, da Rede Amazônidas pelo Clima (RAC), contou com a participação do diretor-geral do Lab da Cidade e representante do Comitê COP30, Lucas Nassar; da analista de políticas climáticas do Instituto Socioambiental (ISA), Juliana Maia; do coordenador executivo da Federação dos Povos Indígenas do Pará (Fepipa), Ronaldo Amanayé; da diretora da Coordenação Estadual das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará (Malungu), Érica Monteiro; e do representante do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), Ivanildo Brilhante.
Para Isabela Canto, o objetivo da RAC é fomentar de forma concreta o debate sobre temas que estão nas conferências globais, mas que muitas vezes parecem distantes da realidade das comunidades amazônicas. “Uma discussão tão rica quanto essa, onde a gente fala de adaptação climática, levando em consideração vários contextos, tanto do contexto urbano, quanto das comunidades tradicionais, local, global, é sempre enriquecedor”, afirmou.
A mediadora do debate também destacou a importância dessa aproximação entre interlocutores de diferentes espaços. “É sempre, pra nós, muito importante receber e fomentar a conexão entre pessoas amazônidas que estão nesses lugares de discussão”, completou.
Linguagem como estratégia de democratização do conhecimento para o debate climático
Para Lucas Nassar, diversas áreas do conhecimento ocidental historicamente colonizadas têm se inspirado nos saberes e fazeres das populações tradicionais como estratégia de mitigação e adaptação climática, como é o caso da arquitetura.
“Um esforço da esperança de entender que existiam e existem povos, tanto os originários, quilombolas, extrativistas e muitos outros, e que mais do que aprender, eles têm a ensinar a gente, porque sabem trabalhar em sintonia com a natureza”, afirmou Lucas Nassar, representante do Lab da Cidade e do Comitê COP30, uma coalizão da sociedade civil criada para fortalecer a incidência das organizações da América Latina em negociações da COP30 a partir do protagonismo amazônico.
Ivanildo Brilhante alertou para o cuidado com as apropriações sobre essas “inspirações” que, muitas vezes, acabam privatizadas em um processo ancorado, inclusive, pelo conhecimento acadêmico. “Cria uma onda nova, um processo novo, e o colonialismo novo é o colonialismo da narrativa, da desculpa do incentivo, um modelo que privatiza o conhecimento. Ela [a universidade] exige um sistema já preparado para isso, sistematizado. É assim que o conhecimento é privatizado. Então pra nós, é nos adaptar a isso, é acessar os códigos da universidade pra gente desconstruir”, explicou o líder extrativista e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Agriculturas Amazônicas da Universidade Federal do Pará (PPGAA-UFPA).
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Érica Monteiro trouxe a importância de se traduzir os conceitos e entendimentos sobre o que significam as mudanças climáticas na vida das populações que vivem nos territórios|Kelvyn Gomes
Assim como Ivanildo, Érica Monteiro, coordenadora da Malungu, destacou a importância de se traduzir os códigos relacionados ao debate climático trazidos pela COP. A liderança quilombola considera que “traduzir” ajuda no entendimento do que são as mudanças climáticas para o seu próprio povo. “A partir de quando eu consegui acessar o espaço da discussão sobre mudanças climáticas, eu entendi que têm outras palavras que podem garantir o entendimento sobre o que são as mudanças climáticas”, afirmou Érica.
“É muito mais fácil de dizer porque os peixes não apareceram mais, ou porque deu pouco camarão, ou porque o açaí ficou caro, então a gente consegue fazer essa tradução dessas palavras técnicas para as palavras locais”, concluiu.
Nenhuma decisão sobre nós, sem nós
Para salvar o planeta, é necessária a implementação de ações, sobretudo governamentais, que consigam resolver as questões ambientais mais urgentes.
De acordo com a analista de políticas climáticas do ISA, Juliana Maia, é latente a necessidade da implementação de planos, programas e ações voltadas à sociedade como um todo, para dar conta da pauta da adaptação climática. No entanto, a analista avalia que ainda existem inúmeros desafios pela frente. “ É fundamental reconhecer e incorporar os saberes tradicionais como base das soluções que precisamos para mitigação e adaptação climática, além de ampliar o acesso a recursos voltados para ações nesse campo. Os países do Sul Global e populações vulnerabilizadas sofrem os efeitos da emergência climática de forma mais intensa.” avaliou.
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Evento reuniu representantes de organizações socioambientais em Belém, antes da 30ª Conferência das Partes|Kelvyn Gomes
Como forma de garantir que, além de serem ouvidos, os povos indígenas possam tomar decisões sobre seus territórios e fomentar suas estratégias para a mitigação e adaptação climática, não apenas de seus territórios, mas de todos os amazônidas, Ronaldo Amanayé, diretor executivo da Fepipa, explica que mais de 1.200 indígenas representados pela entidade estão se organizando para participar da COP30 em Belém.
De acordo com ele, o intuito do grupo é reivindicar a efetivação de políticas públicas essenciais para a adaptação e mitigação climática, como é o caso da demarcação das Terras Indígenas. “Estamos lutando para que o Brasil e o mundo entendam que essas demarcações e homologações são essenciais para mitigar esses grandes impactos e para frear as mudanças climáticas”.
O representante da Federação dos Povos Indígenas do Pará também lembrou da importância do financiamento direto para as organizações indígenas e de representação dos povos tradicionais, como forma de garantir condições de execução da gestão ambiental e territorial da floresta. “A gente tá preparado, com algumas propostas, para conversar com os grandes financiadores e chefes de Estado, para que a gente possa pautar isso de uma forma verdadeira, não romantizada, propostas exequíveis para os nossos territórios, para nós, povos indígenas, e para o mundo, para que tenhamos um planeta mais eficiente e equilibrado”, concluiu Ronaldo.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Evento em Belém vai debater como as agendas da COP30 impactam diretamente na vida de quem vive na Amazônia
Organizado pelo ISA e pela RAC, encontro vai reunir lideranças indígenas e quilombolas para falar sobre experiências de adaptação já colocadas em prática por povos e comunidades tradicionais da região
Retire seu ingresso gratuitamente pelo link|Beto Ricardo/ISA
O Instituto Socioambiental e a Rede Amazônidas pelo Clima (RAC), com o apoio do Canto Coworking, realizam no próximo dia 24/10, em Belém/PA, o encontro “O que a COP30 tem a ver com a nossa vida? Diálogos para a Justiça Climática”.
Com o objetivo de apoiar reflexões sobre as negociações e agendas da COP30, focadas na adaptação climática e no papel dos atores locais na construção da justiça social, o evento também pretende debater como as decisões tomadas nas grandes conferências do clima se conectam com as políticas nacionais e, principalmente, com as ações regionais. Além disso, também pretende conectar pessoas, instituições e saberes em torno da agenda climática; discutir temas-chave das negociações internacionais com o olhar da Amazônia; e valorizar experiências realizadas na Amazônia que mostram que a adaptação já começou.
“A COP30 vai acontecer em Belém, e isso faz da Amazônia um ponto de encontro entre o mundo e o futuro. Mas o que acontece no espaço oficial da COP e o que as negociações internacionais têm a ver com a nossa vida cotidiana — com o calor das cidades, as chuvas que alagam, a água que falta ou o alimento que encarece?”, provocam os organizadores.
O encontro é aberto ao público e reunirá ativistas da pauta climática e lideranças de organizações de povos indígenas e comunidades tradicionais do Pará. A programação terá como debatedores a diretora da Coordenação Estadual das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Pará (Malungu), Érica Monteiro; o coordenador executivo da Federação dos Povos Indígenas do Pará (Fepipa), Ronaldo Amanayé; a analista de políticas climáticas do ISA, Juliana Maia; e o diretor geral do Laboratório da Cidade e representante do Comitê COP30, Lucas Nassar, sendo mediado pela coordenadora da RAC, Ana Carolina Cazetta..
O que a COP30 tem a ver com a nossa vida? Diálogos para a Justiça Climática Data: 24/10, às 18h30 Local: Canto Coworking e Café (Edifício Manoel Pinto da Silva, Avenida Serzedelo Corrêa, 15, Nazaré, Belém/PA)
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Documento propõe indicadores ecológicos de monitoramento para o Plano Estadual de Recuperação da Vegetação Nativa do Pará
Monitorar a restauração com indicadores ecológicos é fundamental para assegurar que sejam gerados benefícios duradouros para a sociedade e a natureza
Ao centro, Edézio Miranda, técnico da Caminhos da Semente/Agroicone, em oficina de monitoramento em área restaurada por semeadura direta de muvuca|Andréa Ono/ISA
Assinado por Aliança pela Restauração na Amazônia, Redário, Caminhos da Semente, Projeto Regenera e Centro Capoeira, o documento propõe diretrizes para a construção de um protocolo estadual de monitoramento em campo, com indicadores e métricas capazes de avaliar o desempenho ecológico da restauração, independente da metodologia adotada, como etapa essencial para o alcance da meta estadual de restaurar 5,6 milhões de hectares até 2030.
Às vésperas da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 - COP30, prevista para ocorrer entre 10 e 21 de novembro na capital paraense, a Nota Técnica chama a atenção para compromisso assumido pelo Brasil de restaurar 12 milhões de hectares até 2030 e que essa meta está ancorada em leis e políticas públicas nas diferentes esferas de governo.
Baseado nas Recomendações para o Monitoramento da Restauração na Amazônia, publicação da Aliança pela Restauração na Amazônia de 2022, o documento, recebido pela diretora de Mudanças Climáticas e Serviços Ambientais, Indara Martins Aguilar Roumié, destaca a necessidade de o Pará estabelecer normas estaduais de monitoramento que integrem métodos de campo e sensoriamento remoto, garantindo a qualidade dos resultados.
“Tais medidas são fundamentais para assegurar governança, segurança técnico-jurídica e adesão social, além de criar condições favoráveis para atrair investimentos e garantir que a restauração gere benefícios duradouros para a sociedade e a natureza”, diz o documento.
“A Nota reforça as recomendações da Aliança de 2022, fruto de um processo rico e participativo que envolveu muitas organizações e pessoas especialistas, e nos coloca à disposição de auxiliar a Semas-PA nos próximos passos”, explica Danielle Celentano, técnica do Instituto Socioambiental (ISA) e uma das autoras da nota entregue à SEMAS/PA durante o workshop de Planejamento e Monitoramento da Recuperação Florestal do Pará (PRVN).
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
RAISG reúne tecnologia, ciência e comunicação em lançamentos pela defesa da Amazônia
Em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, rede apresentou o aplicativo AMA 2.0, divulgou dados inéditos e lançou uma animação sobre sua trajetória de quase 20 anos
A Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG), rede formada por oito organizações da sociedade civil dos países amazônicos, entre elas o Instituto Socioambiental (ISA), realizou em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, o evento “Amazônia em chamas: Dados que alertam, gente e água mais vulnerável”, organizado pela Fundação Amigos da Natureza (FAN), membro boliviano da rede. A atividade marcou três lançamentos: o novo aplicativo AMA 2.0, dados atualizados sobre o sistema hídrico continental mais extenso do planeta, a dinâmica demográfica e os incêndios florestais na região, além de uma animação sobre a trajetória e atividades da RAISG.
Assista!
No início do evento, realizado no dia 11 de setembro, RAISG divulgou resultados preliminares e alarmantes do Relatório de Áreas Queimadas na Amazônia até 2024. O estudo apontou que, no ano passado, a região enfrentou uma das piores temporadas de fogo já registradas, com mais de 2,9 milhões de focos de calor detectados.
Brasil e Bolívia concentraram 95% das ocorrências, em grande parte devido à seca extrema.
Os dados revelam que, entre 2016 e 2024, a superfície afetada por queimadas chegou a 188 milhões de hectares, área equivalente a quase quatro vezes o território da Espanha. Em 2024, 57% ocorreram no Brasil e 28% na Bolívia. Cerca de 39% das áreas queimadas estavam em florestas, ecossistemas que não são adaptados ao fogo e perdem rapidamente carbono, biomassa e biodiversidade após cada evento.
As análises também mostram que, embora a maioria das áreas (52%) tenha queimado apenas uma vez no período analisado, 7% foram queimadas entre cinco e nove vezes, revelando pontos de alta recorrência que comprometem a regeneração e aumentam a vulnerabilidade socioambiental.
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Rodrigo Torres, pesquisador na Fundação Ecociencia do Equador e Raisg, exibe estudo de áreas queimadas na Amazônia|Ritaumaria Pereira/Imazon
O relatório mapeou ainda o comportamento das queimadas ao longo do ano. Os meses de agosto a novembro concentram a maior parte dos focos, período em que a seca e a ação humana se combinam para expandir o fogo em áreas de pastagens, savanas e florestas. RAISG alerta que a combinação de mudanças climáticas e eventos extremos como o El Niño vem intensificando a ocorrência de queimadas em áreas antes consideradas resistentes, como florestas úmidas.
A análise também apontou a incidência de queimadas em Terras Indígenas e Áreas Naturais Protegidas, que historicamente funcionam como barreiras contra a degradação. Em 2024, milhões de hectares desses territórios foram atingidos, evidenciando o avanço das pressões mesmo sobre áreas legalmente reconhecidas. Segundo RAISG, isso compromete tanto os modos de vida das comunidades locais quanto a conservação de serviços ecossistêmicos fundamentais, como a regulação climática e a proteção das águas.
Mudanças demográficas e hídricas
Para chegar aos resultados sobre o fogo, também foram analisados dados demográficos e hídricos. A população amazônica quase dobrou nos últimos 40 anos, passando de 29 milhões de pessoas em 1985 para 58 milhões em 2025. Mais da metade dessa população está concentrada em apenas dez grandes bacias hidrográficas, como Mamoré, Tocantins e Negro.
Esse crescimento se traduziu em maior urbanização – hoje 72% da população amazônica vive em áreas urbanas – e aumento da pressão sobre água, energia, infraestrutura e alimentos.
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Cícero Augusto, pesquisador do ISA e da Raisg, apresenta panorama demográfico da população da Amazônia|Ritaumaria Pereira/Imazon
O relatório também destacou que a Amazônia é o maior sistema hídrico continental do planeta, responsável por cerca de 20% da descarga de água doce para os oceanos. No entanto, pressões como desmatamento e queimadas vêm comprometendo a qualidade da água.
Campanhas de monitoramento realizadas em diferentes rios amazônicos encontraram coliformes totais e fecais em todos os pontos analisados, além de metais como ferro, alumínio e manganês. Foram identificadas ainda altas concentrações de mercúrio em sedimentos e peixes em regiões do Peru e da Bolívia, ultrapassando os limites estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde, o que representa risco direto à saúde de populações humanas e ecossistemas aquáticos.
Como parte dos esforços de RAISG para avançar em inovação, tecnologia e comunicação, foi lançado no encontro o aplicativo AMA 2.0, versão para celular da plataforma de monitoramento socioambiental da rede.
Aberta ao público e disponível em todas as plataformas, a ferramenta reúne 23 camadas de informação que permitem acompanhar em tempo real pressões como desmatamento, focos de calor, mineração, expansão de infraestrutura e mudanças no uso do solo.
O sistema também traz indicadores de degradação, como fragmentação de habitats, impactos sobre corpos d’água e variações no carbono florestal.
Outro destaque é a ênfase no papel estratégico das Terras Indígenas e Áreas Protegidas como barreiras à destruição, além da integração de dados sobre biodiversidade, serviços ecossistêmicos e conectividade ecológica.
O evento foi marcado também pela exibição de uma animação da RAISG, que apresenta a trajetória da rede desde 2007, sua metodologia de produção de informações socioambientais acessíveis e confiáveis e a importância de torná-las disponíveis a comunidades, pesquisadores, jornalistas e tomadores de decisão.
O material audiovisual, elaborado pela secretaria executiva da rede, destaca as principais linhas de trabalho, como monitoramento do fogo, desmatamento, conectividade ecológica, demografia e recursos hídricos , e reforça a necessidade de cooperação transnacional para enfrentar as múltiplas ameaças à Amazônia.
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