Com direitos garantidos sobre seus territórios e com suas culturas valorizadas, povos indígenas e comunidades tradicionais buscam o reconhecimento do Estado, da sociedade e do mercado sobre a economia que praticam há séculos, em alguns casos milênios, baseada em técnicas produtivas ancestrais e no cuidado com as florestas.
Com essa economia da floresta - chamada também de Economia da Sociobiodiversidade, ou Economia do Cuidado - as comunidades priorizam a segurança alimentar, garantem o bem-viver e ainda produzem mais biodiversidade, o que beneficia todo o planeta. Contudo, o desenvolvimento a qualquer custo promovido pelo Estado prima por modelos econômicos altamente subsidiados, poluidores, predatórios e atividades ilegais que ameaçam, matam e destroem.
Em resposta a esse enorme e histórico desequilíbrio de forças, o ISA busca fortalecer o protagonismo das comunidades parceiras ao fomentar atividades produtivas, iniciativas de turismo de base comunitária e ações de restauração florestal nas bacias dos rios Negro, no Amazonas e Roraima, Xingu, no Mato Grosso e Pará, e Ribeira do Iguape, em São Paulo.
Ao mesmo tempo, o ISA também busca sensibilizar o setor privado, os governos e o mercado consumidor para a necessidade de promoção de políticas públicas e relações comerciais justas e transparentes que valorizem as contribuições socioambientais dos povos e comunidades e respeitem seus modos de vida, territórios e culturas.
Imagem
Imagem de capa
Icone
ID Type
economia_da_floresta
Youtube tag
#economiadafloresta
Filme 'Do Quilombo pra Favela' mostra caminho para combater a fome no Brasil
Minidocumentário conecta raízes negras e detalha como uma cooperativa quilombola distribuiu 330 toneladas de alimentos para 42 mil pessoas durante a pandemia da Covid-19
Fartura na pandemia: minidoc mostra como quilombolas do Vale do Ribeira (SP), como Rosana de Almeida, alimentaram comunidades vulneráveis |Manoela Meyer/ISA
Em março de 2020, a Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale) sentiu o baque da pandemia da Covid-19. De forma unilateral, seus contratos para entrega de alimentos para a merenda escolar com as prefeituras de São Paulo, Santos, Santo André e Cajati foram suspensos.
Era o início de um período de insegurança e angústia. Sem renda e com a maior crise sanitária do século 21 batendo às suas portas, a cooperativa via ameaçado o sonho de crescimento e valorização da cultura alimentar quilombola.
Imagem
Cartaz do minidocumentário Do Quilombo pra Favela, ilustrado por Amanda Nainá e Deco Ribeiro
O minidocumentário Do Quilombo pra Favela - Alimento para a resistência negra(Brasil, 2022, 22 min.)mostra como, em um período de dois anos, a Cooperquivale recuperou suas forças e conectou suas raízes negras a uma favela da zona oeste de São Paulo através do alimento e da solidariedade.
Com o apoio de parceiros, a cooperativa quilombola elaborou um plano emergencial de captação de recursos para pagar seus custos, remunerar as agricultoras e agricultores e distribuir os alimentos que, sem escoamento, seriam perdidos em suas roças tradicionais.
Resultado: dois anos depois, a equipe conseguiu levar 330 toneladas de 56 variedades de alimentos para 11 municípios do Estado de São Paulo. A biodiversidade chegou à mesa em frutas, legumes e verduras cultivados com técnicas ancestrais, que mantêm a Mata Atlântica em pé e cada vez mais resistente.
Ao todo, 42 mil pessoas receberam cestas de alimentos orgânicos e agroecológicos, que simbolizam um jeito de viver e produzir parte do Sistema Agrícola Tradicional Quilombola, reconhecido em 2018 patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Sem apoio do Estado, os recursos financeiros vieram de organizações da sociedade civil, empresas e organizações internacionais. A cooperativa movimentou R$ 1,5 milhão no período.
A distribuição dos produtos foi feita em parcerias com ONGs, bancos de alimentos e associações de moradores de favelas na capital paulista.
O filme acompanha o trabalho da cooperativa desde os primeiros momentos da crise sanitária até as trocas de experiências entre quilombo e favela, que resultaram em um amistoso de futebol com toda a potência das mulheres negras, agricultoras, quilombolas e atletas com futuro brilhante pela frente.
O Estado das coisas
Em abril de 2022, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, atendeu pedido elaborado pela Coordenação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e determinou ao governo federal que amplie à agricultura familiar quilombola o acesso às políticas públicas relacionadas à segurança alimentar e nutricional, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
No entanto, a má-gestão sobre a pandemia da Covid-19 e o desmantelamento de políticas públicas alimentares levaram o Brasil ao maior retrocesso em 30 anos.
Estudo publicado em junho pela Rede Brasileira de Pesquisa em Segurança Alimentar e Nutricional mostra que 33 milhões de pessoas vivem em situação de fome no Brasil. E ainda: que 65% dos domicílios com pessoas de referência preta estão com algum grau de insegurança alimentar. Um aumento de 8% em relação a 2020.
O mesmo estudo mostra que a agricultura familiar e as comunidades tradicionais deixaram de receber recursos do PAA e do PNAE, fundamentais para que possam produzir alimentos para combater a fome.
O plano emergencial da Cooperquivale retratado no filme deveria ser visto como modelo no período pós-pandemia, porque gera renda para quilombolas que podem produzir, fortalece a agricultura familiar e alimenta quem tem fome.
Assista ao minidoc:
Sinopse:
No Vale do Ribeira, sudeste de São Paulo, uma cooperativa de agricultoras e agricultores quilombolas uniu esforços para minimizar o impacto da pandemia da Covid-19. Por geração de renda e segurança alimentar, eles elaboraram um plano emergencial para distribuir a comunidades vulneráveis alimentos orgânicos produzidos em suas roças tradicionais, que mantêm a Mata Atlântica em pé. Assim, quilombo e favela, que pareciam distantes, tornaram-se parceiros de lutas semelhantes.
Ficha técnica:
Direção e Roteiro: Manoela Meyer e Roberto Almeida
Produção: Roberto Almeida e Adriana Rodrigues
Reportagem: Adriana Rodrigues, Andressa Cabral Botelho e Roberto Almeida
Produção Local: Raquel Pasinato, Frederico Viegas, Mauricio Biesek, Fabiana Fagundes, Juliano Nascimento e Andressa Cabral Botelho
Fotografia: Manoela Meyer
Montagem: Manoela Meyer
Trilha Sonora: Make you mine (Acoustic) - Mina; Oxumare (Instrumental version) - Maitlna; Idesof Spring - Michael Shynes; Facus - AwaDu; The River of Hope - Emmanuel Jacob; Enjoy the Game - Borrtex; Macune (Instrumental version) - Maitlna; Good to be Alive - John Coggins; Yemaya (Instrumental version) - Maitlna.
Soundesign e Mix Stereo: Otávio Carvalho e Manoela Meyer
Cor e Efeitos: Manoela Meyer
Realização: Instituto Socioambiental (ISA), Associações Quilombolas, Cooperquivale
Apoio: União Europeia, Cisco, Good Energies
Parcerias: Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), Instituto Linha D’Água, Associação dos Moradores da Enseada da Baleia, Instituto Brasil a Gosto, Equipe de Articulação e Assessoria às Comunidades Negras do Vale do Ribeira (Eaacone), Prefeitura de Eldorado, Prefeitura de Iporanga, Prefeitura de Cananéia, Prefeitura de Jandira, Prefeitura de Embu das Artes, ONG Bloco do Beco, Associação de Moradores do Jardim São Remo, Associação de Moradores da Vila Brasilândia, Grupo Conexão Petar, Associação Mulheres Unidas por uma Vida Melhor (Amuvim), Projeto Meninas em Campo e Colégio Santa Cruz.
Sobre a Cooperquivale
Fundada em 2012, a Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale), com sede em Eldorado (SP), comercializa a produção excedente dos territórios quilombolas de forma justa e solidária. Hoje, a cooperativa congrega 19 comunidades quilombolas dos municípios de Jacupiranga, Eldorado, Iporanga e Itaóca, no Vale do Ribeira. São, ao todo, cerca de 240 cooperados.
A cooperativa tem como principal estratégia a comercialização de mais de 78 alimentos da sua agrobiodiversidade para os programas de compras institucionais, como Programa de Aquisição de Alimentos na modalidade de Doação Simultânea (PAA-DS) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
Encontro de saberes e resistências: João da Mota, do Quilombo Nhunguara, abraça Cícera, uma das lideranças que fundou a comunidade São Remo|Rodrigo Kees/ISA
Equipe feminina de futebol do Quilombo São Pedro após treino para amistoso contra time de São Paulo|JFDiorio/ISA
Luis Marcos dos Santos Silva, mais conhecido como Lula Santos (de camiseta preta), líder da São Remo, cumprimenta quilombolas do quilombo Nhunguara, Vale do Ribeira (SP)|JFDiorio/ISA
Grace Kelly Mendes, à esquerda, moradora da São Remo, e Zeni Florinda dos Santos, do Quilombo Ivaporunduva, durante distribuição de alimentos|Rodrigo Kees/ISA
Representantes dos moradores da São Remo visitam a horta de Zeni Florinda dos Santos , agricultora quilombola de Ivaporunduva|JFDiorio/ISA
Distribuição de alimentos da Cooperquivale na comunidade de São Remo, na zona oeste de São Paulo|Rodrigo Kees/ISA
Distribuição de comida orgânica, produzida pelos quilombolas do Vale do Ribeira (SP), para famílias da São Remo|Manoela Meyer/ISA
Treino da equipe feminina de futebol do Quilombo São Pedro, preparativo para jogo amistoso|JFDiorio/ISA
Adan Pereira, do Quilombo Sapatu, colhe bananas em sua roça destinadas à distribuição de alimentos orgânicos|Manoela Meyer/ISA
Osvaldo dos Santos, do Quilombo Porto Velho, prepara farinha de mandioca para a distribuição de comida orgânica|Manoela Meyer/ISA
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
'From Quilombo to Favela' documentary shows path to fighting hunger in Brazil
Minidocumentary connects black roots and details how a quilombola cooperative distributed 330 tons of food to 42,000 people during the Covid-19 pandemic
Abundance during the pandemic: minidoc shows how quilombolas from Vale do Ribeira fed poor communities of São Paulo
In March 2020, the Quilombola Farmers' Cooperative of the Ribeira Valley (COOPERQUIVALE) felt the brunt of the Covid-19 pandemic. Unilaterally, its contracts to deliver food for school meals with the city halls of São Paulo, Santos, Santo André, and Cajati were suspended.
It was the beginning of a cycle of uncertainty and anguish. With no income and the biggest health crisis of the 21st century knocking at its doors, the cooperative saw its dream of growth and recognition of quilombola food culture threatened.
Imagem
Poster for the mini-documentary From Quilombo to Favela, illustrated by Amanda Nainá and Deco Ribeiro
The minidocumentary "Do Quilombo pra Favela - Alimento para a resistência negra" ["From the Quilombo to the Favela - Food for Black Resistance"] (Brazil, 2022, 22 min.) shows how, in a two-year period, COOPERQUIVALE was able to recover and connect its black roots to a favela in the west zone of São Paulo through food and solidarity.
With support from partners, the quilombola cooperative produced an emergency fundraising plan to cover its costs, pay the farmers, and distribute the food that would have been lost in their traditional fields without an outlet.
The result: two years later, the team has managed to supply 330 tons of 56 varieties of food to 11 municipalities in the state of São Paulo. Biodiversity has reached the table in fruits, vegetables, and greens grown with ancestral techniques, which keep the Atlantic Forest standing and increasingly resistant.
In all, 42,000 people received organic and agroecological food baskets, which symbolize a way of living and producing that is part of the Quilombola Traditional Agricultural System, recognized in 2018 as an intangible cultural heritage of Brazil by the Institute of National Historical and Artistic Heritage (IPHAN).
With no support from the state, financial resources came from civil society organizations, companies, and international organizations. The cooperative raised R$1.5 million in the period.
The distribution of the produce was undertaken in partnerships with NGOs, food banks, and Favela residents' associations in the capital city of São Paulo. Among them, the Residents' Association of Jardim São Remo, in the west zone of São Paulo, and the Meninas em Campo project, which promotes women's soccer among young women from the city' s outskirts.
The film follows the work of the cooperative from the first moments of the health crisis to the exchange of experiences between quilombo and favela, which resulted in a soccer match with the full power of black women, farmers, quilombolas, and athletes with a bright future ahead.
The State of Things
In April 2022, the Minister of the Federal Supreme Court (STF) Edson Fachin granted a request made by the Coordination of Rural Black Quilombola Communities (CONAQ) and ordered the federal government to expand access to public policies related to food and nutritional security to quilombola family farmers, including the National School Meals Program (PNAE) and the Food Acquisition Program (PAA).
However, mismanagement of the Covid-19 pandemic and the dismantling of public food policies have led Brazil to its biggest setback in 30 years. A study published in June by the Brazilian Research Network on Food Security and Nutrition shows that 33 million people in Brazil are living in a state of hunger.
And further: 65% of households with people with black reference are experiencing some degree of food insecurity. This is an 8% increase in relation to 2020.
The same study shows that family farming and traditional communities have stopped receiving funding from the PAA and PNAE programs, which are essential for them to produce food to fight hunger.
COOPERQUIVALE's emergency plan portrayed in the film should be seen as a model in the post-pandemic period as it generates income for quilombolas who are able to produce, strengthens family farming, and feeds the hungry.
Watch the mini-doc:
Synopsis:
In the Ribeira Valley, in southeastern São Paulo, a cooperative of quilombola farmers joined forces to minimize the impact of the Covid-19 pandemic. For income generation and food security, they devised an emergency plan for distributing food to vulnerable communities which is organically produced on their traditional farms, which in turn keep the Atlantic Forest standing. Thus quilombo and favela, which seemed distant, became partners in similar struggles.
Credits:
Directed and Scripted by: Manoela Meyer and Roberto Almeida Produced by: Roberto Almeida and Adriana Rodrigues Reportage: Adriana Rodrigues, Andressa Cabral Botelho and Roberto Almeida Local Production: Raquel Pasinato, Frederico Viegas, Mauricio Biesek, Fabiana Fagundes, Juliano Nascimento and Andressa Cabral Botelho Photography: Manoela Meyer Editing: Manoela Meyer
Soundtrack: Make you mine (Acoustic) - Mina; Oxumare (Instrumental version) - Maitlna; Idesof Spring - Michael Shynes; Facus - AwaDu; The River of Hope - Emmanuel Jacob; Enjoy the Game - Borrtex; Macune (Instrumental version) - Maitlna; Good to be Alive - John Coggins; Yemaya (Instrumental version) - Maitlna. Sound Design and Stereo Mix: Otávio Carvalho and Manoela Meyer Color and Effects: Manoela Meyer Organized by: Instituto Socioambiental (ISA), Quilombola Associations, COOPERQUIVALE Support: European Union, Cisco, Good Energies Partnerships: Linha D'Água Institute, Enseada da Baleia Residents' Association, Brasil a Gosto Institute, Equipe de Articulação e Assessoria às Comunidades Negras do Vale do Ribeira (EAACONE), Eldorado City Hall, Iporanga City Hall, Cananéia City Hall, Jandira City Hall, Embu das Artes City Hall, NGO Bloco do Beco, Jardim São Remo Residents' Association, Vila Brasilândia Residents' Association, Grupo Conexão Petar, Associação Mulheres Unidas por uma Vida Melhor (AMUVIM), Projeto Meninas em Campo and Colégio Santa Cruz
About COOPERQUIVALE
Founded in 2012, the Quilombola Farmers' Cooperative of the Ribeira Valley (COOPERQUIVALE), based in Eldorado (SP), markets the surplus production of the quilombola territories in a fair and solidary way.
Today, the cooperative is made up of 19 quilombola communities in the municipalities of Jacupiranga, Eldorado, Iporanga, and Itaóca, in Vale do Ribeira. In all, the cooperative has about 240 members.
The cooperative's main strategy is to commercialize more than 78 foods from its agro-biodiversity for institutional purchasing programs, such as the Food Acquisition Program in the Simultaneous Donation modality (PAA-DS) and the National School Meals Program (PNAE).
Translation: Philip Somervell
Meeting of knowledge and resistance: João da Mota, from Quilombo Nhunguara, embraces Cícera, one of the leaders who founded the São Remo community|Rodrigo Kees/ISA
Quilombo São Pedro women's soccer team after training for a friendly against São Paulo team | JFDiorio/ISA
Luis Marcos dos Santos Silva, better known as Lula Santos (in black shirt), leader of São Remo favela, greets quilombolas of the quilombo Nhunguara, Vale do Ribeira (SP)|JFDiorio/ISA
Grace Kelly Mendes, left, resident of São Remo, and Zeni Florinda dos Santos, from Quilombo Ivaporunduva, during food distribution|Rodrigo Kees/ISA
Representatives of São Remo residents visit the vegetable garden of Zeni Florinda dos Santos, a quilombola farmer from Ivaporunduva|JFDiorio/ISA
Cooperquivale's food distribution in the community of São Remo, in the west of São Paulo|Rodrigo Kees/ISA
Distribution of organic food, produced by the quilombolas of Vale do Ribeira (SP), to families in São Remo|Manoela Meyer/ISA
Quilombo São Pedro women's soccer team training, preparation for friendly match | JFDiorio/ISA
Adan Pereira, from Quilombo Sapatu, harvests bananas in his garden for the distribution of organic food|Manoela Meyer/ISA
Osvaldo dos Santos, from Quilombo Porto Velho, prepares cassava flour for the distribution of organic food|Manoela Meyer/ISA
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
‘Del Quilombo a la Favela’ muestra una vía para el combate al hambre en Brasil
Mini documental conecta las raíces negras y cuenta cómo una cooperativa quilombola destinó 330 toneladas de alimentos para 42 mil personas durante la pandemia por Covid-19
Minidocumental muestra cómo quilombolas del Vale do Ribeira, como Rosana de Almeida, alimentaron comunidades vulnerables | Manoela Meyer/ISA
En marzo de 2020, la Cooperativa de los Agricultores Quilombolas del “Vale do Ribeira” (Cooperquivale) sintió la repercusión de la pandemia por Covid-19. De forma unilateral, los contratos, referentes a la entrega de alimentos para la merienda escolar, con las municipalidades de São Paulo, Santos, Santo André y Cajati fueron suspendidos.
Era el inicio de un ciclo de inseguridad y angustia. Sin renta y con la mayor crisis sanitaria del siglo 21 golpeando a sus puertas, la cooperativa veía que estaba siendo amenazado el sueño de crecimiento y valorización de la cultura alimentaria quilombola.
Imagem
Afiche del minidocumental Del Quilombo a la Favela, ilustrado por Amanda Nainá y Deco Ribeiro
El mini documental “Del Quilombo a la Favela - Alimento para la resistencia negra” (Brasil, 2022, 22 min.) muestra cómo, en un período de dos años, la Cooperquivale recuperó sus fuerzas y conectó sus raíces negras a una favela de la zona oeste de São Paulo a través de los alimentos y la solidaridad.
Con el apoyo de colaboradores, la cooperativa quilombola elaboró un plan de emergencia para la captación de recursos, con el fin de pagar sus costos, remunerar a las agricultoras y agricultores y distribuir los alimentos que, sin destino, serían perdidos en sus territorios tradicionales.
Resultado: dos años después, el equipo consiguió llevar 330 toneladas de 56 variedades de alimentos para 11 municipios del Estado de São Paulo. La biodiversidad llegó a la mesa en frutas, leguminosas y verduras cultivados con técnicas ancestrales, que mantienen a la Mata Atlántica en pie y cada vez más resistente.
En total, 42 mil personas recibieron cajas de alimentos orgánicos y agroecológicos, que simbolizan una forma de vivir y producir del Sistema Tradicional Quilombola, reconocido en 2018 como patrimonio cultural inmaterial de Brasil por el Instituto del Patrimonio Histórico y Artístico Nacional (Iphan).
Sin apoyo del Estado, los recursos financieros llegaron de organizaciones de la sociedad civil, empresas y organizaciones internacionales. La cooperativa movió R$1,5 millones en este periodo.
La distribución de los productos fue realizada en cooperación con ONGs, bancos de alimentos y asociaciones de vecinos de las favelas de la capital paulista. Entre ellas, la Asociación de Vecinos del Jardín “São Remo”, en la zona oeste de São Paulo, y el proyecto “Meninas en Campo”, para el fomento al fútbol femenino entre las jóvenes de la periferia.
El vídeo documental acompaña el trabajo de la cooperativa desde los primeros momentos de la crisis sanitaria hasta los intercambios de experiencias entre el quilombo y la favela, que resultaron en un amistoso partido de fútbol con toda la potencia de las mujeres negras, agricultoras, quilombolas y atletas con un futuro brillante por delante.
El Estado de las cosas
En abril de 2022, el ministro del Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, atendió al pedido elaborado por la Coordinación de las Comunidades Negras Rurales Quilombolas (Conaq) y determinó que el gobierno federal extienda para la agricultura familiar quilombola el acceso a las políticas públicas relacionadas a la seguridad alimentaria y nutricional, como el Programa Nacional de Alimentación Escolar (PNAE) y el Programa de Adquisición de Alimentos (PAA).
Sin embargo, la mala gestión en relación a la pandemia por Covid-19 y el desmantelamiento de políticas públicas alimentarias llevaron a Brasil al mayor retroceso en 30 años. Un estudio publicado en junio por la Red Brasileña de Investigación en Seguridad Alimentaria y Nutricional muestra que 33 millones de personas viven en situación de hambre en Brasil.
Y aún: 65% de los domicilios con personas de referencia negra están con algún grado de inseguridad alimentaria. Un aumento de 8% en relación a 2020.
El mismo estudio muestra que la agricultura familiar y las comunidades tradicionales dejaron de recibir recursos del PAA y del PNAE, fundamentales para que puedan producir alimentos que combaten el hambre.
El plan de emergencia de la Cooperquivale retratado en el video documental debería ser visto como un modelo en el periodo de pos pandemia, porque genera renta para los quilombolas, quienes pueden producir, fortaleciendo la agricultura familiar y alimentando a quien tiene hambre.
Vea al minidocumental:
Sinopsis:
En el “Vale do Ribeira”, sudeste de São Paulo, una cooperativa de agricultoras y agricultores quilombolas juntó fuerzas para disminuir el impacto de la pandemia por Covid-19. Para generar renta y seguridad alimentaria, ellos elaboraron un plan de emergencia con el fin de distribuir entre las comunidades vulnerables alimentos orgánicos, producidos en sus territorios tradicionales, que mantienen a la Mata Atlántica en pie. Así, quilombo y favela, que parecían distantes, se convierten en compañeros de luchas semejantes.
Ficha técnica:
Dirección y Guion: Manoela Meyer y Roberto Almeida Producción: Roberto Almeida y Adriana Rodrigues Reportaje: Adriana Rodrigues, Andressa Cabral Botelho y Roberto Almeida Producción Local: Raquel Pasinato, Frederico Viegas, Mauricio Biesek, Fabiana Fagundes, Juliano Nascimento y Andressa Cabral Botelho Fotografía: Manoela Meyer Montaje: Manoela Meyer Música: Make you mine (Acoustic) - Mina; Oxumare (Instrumental version) - Maitlna; Idesof Spring - Michael Shynes; Facus - AwaDu; The River of Hope - Emmanuel Jacob; Enjoy the Game - Borrtex; Macune (Instrumental version) - Maitlna; Good to be Alive - John Coggins; Yemaya (Instrumental version) - Maitlna. Diseño de Sonido y Mix Estéreo: Otávio Carvalho y Manoela Meyer Color y Efectos: Manoela Meyer Realización: Instituto Socioambiental (ISA), Asociaciones Quilombolas, Cooperquivale Apoyo: Unión Europea, Cisco, Good Energies
Colaboradores: Instituto Linha D’Água, Asociación de Vecinos de la Enseada da Baleia, Instituto Brasil a Gosto, Equipo de Articulación y Asesoría a las Comunidades Negras del Vale do Ribeira (Eaacone), Municipalidad de Eldorado, Municipalidad de Iporanga, Municipalidad de Cananéia, Municipalidad de Jandira, Municipalidad de Embu das Artes, ONG Bloco do Beco, Asociación de Vecinos del Jardín São Remo, Asociación de Vecinos de la Vila Brasilândia, Grupo Conexión Petar, Asociación de Mujeres Unidas por una Vida Mejor (Amuvim), Proyecto Meninas en Campo y Colegio Santa Cruz.
Sobre la Cooperquivale
Fundada en 2012, la Cooperativa de los Agricultores Quilombolas del “Vale do Ribeira” (Cooperquivale), con sede en Eldorado (SP), comercializa la producción del excedente de los territorios quilombolas de forma justa y solidaria.
Hoy, la cooperativa reúne 19 comunidades quilombolas de los municipios de Jacupiranga, Eldorado, Iporanga e Itaóca, en el “Vale do Ribeira”. Son, en total, alrededor de 240 cooperados.
La cooperativa tiene como principal estrategia comercializar sus más de 78 alimentos de su agrobiodiversidad a través de los programas de compras institucionales, como Programa de Adquisición de Alimentos en la modalidad de Donación Simultánea (PAA-DS) y Programa Nacional de Alimentación Escolar (PNAE).
Traducción: Javiera Abalos
Encuentro de saberes y resistencias: João da Mota, de Quilombo Nhunguara, abraza a Cícera, una de las líderes fundadoras de la comunidad de São Remo|Rodrigo Kees/ISA
El equipo de fútbol femenino del Quilombo São Pedro después del entrenamiento de preparación para un partido amistoso|JFDiorio/ISA
Luis Marcos dos Santos Silva, más conocido como Lula Santos (de camisa negra), líder de São Remo, saluda a quilombolas del quilombo Nhunguara, Vale do Ribeira (SP)|JFDiorio/ISA
Grace Kelly Mendes, izquierda, residente de São Remo, y Zeni Florinda dos Santos, del Quilombo Ivaporunduva, durante la distribución de alimentos|Rodrigo Kees/ISA
Representantes de los habitantes de São Remo visitan la huerta de Zeni Florinda dos Santos, agricultora quilombola del Quilombo Ivaporunduva|JFDiorio/ISA
Distribución de alimentos de Cooperquivale en la comunidad de São Remo, en el oeste de São Paulo|Rodrigo Kees/ISA
Distribución de alimentos orgánicos, producidos por los quilombolas de Vale do Ribeira (SP), a familias de São Remo|Manoela Meyer/ISA
Entrenamiento del equipo de fútbol femenino de Quilombo São Pedro, preparación para el partido amistoso|JFDiorio/ISA
Adán Pereira, de Quilombo Sapatu, cosecha banano en su huerta para la distribución de alimentos orgánicos|Manoela Meyer/ISA
Osvaldo dos Santos, del Quilombo Porto Velho, prepara harina de yuca para la distribución de alimentos orgánicos|Manoela Meyer/ISA
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Comunicador indígena, Tukumã Pataxó publica série sobre cerâmicas do Rio Negro; assista
Vídeos apresentam também a Pimenta Baniwa, a culinária rionegrina e os saberes que são patrimônio cultural do Brasil
Tukumã, que estuda gastronomia, com cerâmicas Tukano e Baniwa|Pedro Hassan/ISA
Os livros de bolso Cerâmica Baniwa e Cerâmica Tukano, lançados pelo Instituto Socioambiental (ISA) e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), inspiraram o comunicador indígena Tukumã Pataxó (saiba mais sobre ele abaixo) a produzir uma série de vídeos sobre a arte rionegrina da cerâmica tradicional.
As cerâmicas Tukano e Baniwa sempre tiveram uma inserção na vida ritual nas comunidades indígenas do Rio Negro. A produção das peças, no entanto, foi levada ao limite do desaparecimento e, por isso, as publicações retomam saberes que estavam restritos a poucas artesãs.
Com bom humor e curiosidades, ele mostrou os saberes por trás das peças que fazem parte do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, reconhecido como patrimônio cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A ação com Tukumã Pataxó foi realizada pelo ISA, Casa Wariró e Foirn em parceria com a Tucum Brasil e rede Origens Brasil®, e contou com o apoio da Nia Tero, União Europeia e da Fundação Rainforest da Noruega.
Quem é Tukumã Pataxó?
Nascido na aldeia de Coroa Vermelha, extremo sul da Bahia, Tukumã Pataxó desde pequeno aprendeu sobre as questões ligadas ao ativismo de seu povo, entre elas a luta pela demarcação de terras.
"Desde cedo vivenciamos isso diariamente e entendemos por que precisamos ter o nosso local e por que ele é tão sagrado pra gente", conta o jovem de 22 anos, que hoje cursa gastronomia na Universidade Federal da Bahia, a UFBA. Apesar da influência das lideranças indígenas de família, foi na escola que o seu ativismo realmente tomou forma.
"Na aldeia, eu estudei em um colégio trilíngue, que ensina o português, o inglês e a nossa língua nativa, o Patxohã", diz. "Essa experiência e a vivência dentro da comunidade me ajudaram muito na militância e na construção do ser indígena."
Para ele, a escola foi um espaço importante para aprender a preservar sua cultura, sua língua, seus esportes e suas tradições.
O que é o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro?
O Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, conjunto de práticas e saberes milenares dos povos do Rio Negro, agricultores por excelência, foi reconhecido em 2010 anos como patrimônio imaterial brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Estão catalogadas, ao todo, mais de 300 variedades de plantas cultivadas pelos 23 povos indígenas que vivem na região há milênios, além de 32 espécies de peixes comestíveis.
Fazem parte do sistema as técnicas de manejo dos espaços de cultivo (roça e quintais); do sistema alimentar; dos utensílios de processamento e armazenamento como a cerâmica e a cestaria; e, por fim, da conformação de redes sociais de troca de sementes e plantas que se estende de Manaus, no Amazonas, a Mitu, na Amazônia Colombiana.
O cultivo da mandioca brava, por meio da técnica de queima, plantio e manejo de capoeiras (conhecido como coivara), é a base desse sistema, compartilhado pelos povos indígenas da região.
Cogumelo comestível Kotopo amo(Polyporus tricholoma Mont.) coletado pelos Sanöma (subgrupo dos Yanomami) da região de Awaris| Foto: Moreno Saraiva-ISA
Durante os momentos mais difíceis da pandemia da Covid-19, um grupo de 10 cozinheiras e cozinheiros de nove diferentes Estados brasileiros encararam o desafio de transformar os cogumelos coletados por indígenas Yanomami em criações especiais.
O resultado é Umami - receitas para o dia a dia com Cogumelo Yanomami, um livro com 14 receitas que combinam o ingrediente à cultura alimentar das cinco regiões do país. Organizado pelo chef roraimense Beto Bellini e com prefácio de Alex Atala, co-fundador do Instituto ATÁ, a obra recebeu o apoio da Hutukara Associação Yanomami e do Instituto Socioambiental (ISA) e está disponível para download gratuito.
“A grande maioria dos brasileiros não faz ideia da quantidade milenar de conhecimento, história e cultura que as comunidades indígenas têm para nos ensinar e muito menos os sabores e aromas incríveis que estão escondidos pelos rincões da Amazônia”, afirma Bellini, que defende uma identidade indígena para a gastronomia de Roraima.
"Esta é uma das atitudes mais lindas que eu vi acontecer nos últimos anos na gastronomia brasileira”, escreve Atala no prefácio de Umami.
O momento é crítico para o povo Yanomami, que viu em 2021 avanço de 46% na invasão garimpeira, segundo o recém-lançado relatório Yanomami sob ataque, da Hutukara Associação Yanomami. Iniciativas como a do Cogumelo Yanomami mostram que uma outra economia é possível para o território.
Os 10 chefs participantes do livro fizeram pratos com o Cogumelo Yanomami em sua versão em pó, que concentra 15 espécies de cogumelos encontrados nas florestas de montanha de Awaris, porção noroeste da Terra Indígena Yanomami, em Roraima.
As receitas mostram a versatilidade do produto, adaptado a preparos com origens indígenas, japoneses, italianas, árabes, bem como sugestões salgadas ou doces. Umami, termo que dá nome ao livro, tem origem japonesa, significa “gosto delicioso” e faz referência ao quinto sabor do paladar humano - presente nos cogumelos.
Participam do livro profissionais das cinco regiões brasileiras: Débora Shornik, do Amazonas; Danillo Amaral, Bahia; Clóvis Lima, Ceará; Alcyr Viana, Goiás; Júnior Ayoub, Maranhão; Esther Weyl, Pará; Claudio Jr, Paraná; Jorge Cardoso, Roraima; Kalu Brasil, Roraima; e Angelita Gonzaga, São Paulo.
Da pesquisa ao prato
A iniciativa de estudar os cogumelos coletados pelos Yanomami começou em 2015, quando se iniciou uma pesquisa intercultural, realizada por indígenas em parceria com cientistas não-indígenas, e que resultou no livro Ana amopö: Cogumelos Yanomami, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Gastronomia em 2017.
O Cogumelo Yanomami é uma amostra do resultado desta pesquisa: são cogumelos nativos da Amazônia coletados e comercializados pelos Sanöma, subgrupo do povo Yanomami. As 15 espécies são o símbolo de um futuro possível, que promove o protagonismo dos povos indígenas e fomenta uma economia que gera vida e cuida das florestas.
“Nós Yanomami temos um grande conhecimento sobre a floresta. Nós somos os verdadeiros conhecedores da floresta. Nós queremos demonstrar para os não-indígenas e fazer respeitar o nosso conhecimento. Nós queremos fazê-los escutar. Assim os não-indígenas aprenderão, ganharão sabedoria”, escreve o xamã Davi Kopenawa no prefácio de Ana Amopö: Cogumelos.
Para adquirir o Cogumelo Yanomami, escreva para a Hutukara Associação Yanomami: cogumeloyanomami@gmail.com. *Produto com pedido mínimo de 48 pacotes, sujeito à sazonalidade e com disponibilidade restrita.
O Cogumelo Yanomami é uma iniciativa da Hutukara Associação Yanomami, que faz parte da rede Origens Brasil®, idealizada pelo Instituto Socioambiental (ISA) e o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). A rede Origens Brasil® conecta empresas e comunidades com garantia de origem, transparência, rastreabilidade da cadeia produtiva e promovendo o comércio ético.
As ações de coleta, processamento e comércio ético do Cogumelo Yanomami buscam dar visibilidade à luta do povo Yanomami em relação ao garimpo ilegal, e mostrar que o conhecimento tradicional do povo Yanomami em relação à floresta tem um valor inestimável para a humanidade.
Imagem
Cogumelo Yanomami em suas versões inteiro e em pó | Victoria Franco-ISA
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Quilombolas da Rede de Sementes do Vale do Ribeira celebram 5 anos de união
Durante o encontro, coletores de sementes florestais trocaram experiências com visitantes e avançaram na formalização de uma cooperativa
Quilombolas e parceiras durante Encontro Anual da Rede de Sementes do Vale do Ribeira | Foto: Andressa Cabral Botelho/ISA
Após dois anos afastados devido à pandemia, quilombolas coletores da Rede de Sementes do Vale do Ribeira reuniram-se no Quilombo Ivaporunduva, no município de Eldorado, para encontro anual entre 3 e 5 de maio. O momento também foi de celebração: além de marcar os cinco anos de existência da rede, proporcionou a criação de novos acordos para o grupo.
Juntaram-se coletores dos quilombos André Lopes, Bombas, Maria Rosa e Nhunguara, técnicos que atuam com sementes em diversos campos, parceiros e apoiadores. Também compareceram membros de comunidades interessadas em começar a coleta de sementes, como dos quilombos São Pedro e Ivaporunduva.
A reunião aconteceu no mês em que se celebra o Dia da Mata Atlântica e reforçou o pacto pela restauração do bioma. Segundo a ONG SOS Mata Atlântica, entre 2020 e 2021, uma área equivalente a 20 mil campos de futebol foram desmatados. Justamente nesses dois anos, quilombolas do Vale do Ribeira fizeram a sua maior coleta de sementes até o momento, totalizando 2,1 toneladas, o que possibilitou a restauração de até 60 hectares de áreas degradadas.
“Em 2017, o grupo coletou 40kg. Hoje, tem quilombola que sozinho coleta 40kg”, comemorou Juliano Nascimento, assessor do Programa Vale do Ribeira do Instituto Socioambiental (ISA). A rede começou com 12 quilombolas do Nhunguara e hoje conta com 42, de quatro comunidades. E floresceu rápido: já foram coletados 2.610kg de sementes, possibilitando a restauração de cerca de 74,5 hectares de áreas degradadas.
“Quando se fala de 42 coletores, estamos falando de 42 famílias, porque o trabalho não envolve apenas quem participa das atividades da rede. Nas casas, está a mulher e a filha ajudando a limpar, o genro sugerindo um dia para coletar – é um trabalho coletivo”, observou.
Um dos destaques dos resultados da rede é a geração de renda para as quilombolas. Acompanhando os participantes, o assessor técnico percebeu que, quando as mulheres recebem o dinheiro da coleta, conseguem fazer uma melhor gestão do dinheiro.
Elas investem de forma coletiva, comprando itens para a casa ou pagando o tratamento médico de um familiar, enquanto boa parte dos homens gasta o dinheiro para si.
Nilza Pereira de Moraes Oliveira, do quilombo André Lopes, conta que comprou uma geladeira e colocou um forro no teto de sua casa utilizando apenas o dinheiro que conseguiu com as sementes. “Antes, o meu marido falava que eu andava à toa pelo meio do mato. E vendo o que eu consegui comprar com o dinheiro das sementes ele até se animou em coletar também”, comentou, com um sorriso.
Troca de conhecimentos
O primeiro dia de encontro foi aberto ao público e contou com a participação de técnicos que também atuam com a restauração ecológica. Eduardo Malta, biólogo do ISA e assessor técnico do Redário, e Edézio Miranda, engenheiro florestal da iniciativa Caminho das Sementes, compartilharam suas experiências.
"Mais importante do que se falar de valores e rentabilidade, é pensar em quanta diversidade, cor e mãos têm por trás desse trabalho todo. É isso que é importante de se falar", destacou Malta após saber a evolução da Rede ao longo desses cinco anos, valorizando o crescimento da iniciativa e disposição de seus participantes.
Imagem
Linha do tempo de atividades da Rede de Sementes do Vale do Ribeira | Foto: Andressa Cabral Botelho/ISA
Quilombolas também tiveram a oportunidade de conhecer parceiros como Jaques Tornisielo, biólogo encarregado de reflorestamento na Reserva Legado das Águas, em Juquitiba (SP). Em fevereiro, as sementes do Vale do Ribeira foram plantadas em uma área de cinco hectares na reserva. “Estou do outro lado, agora acompanhando o crescimento do plantio que foi feito recentemente com sementes de vocês e é importante conhecer quem são as pessoas que fazem parte dessa iniciativa tão relevante”, afirmou.
Outro momento importante foi a apresentação da professora Elza Alves Corrêa, que atua na área de Produção e Tecnologia de Sementes na Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus Registro. A Faculdade de Agronomia e a Rede de Sementes desenvolvem um trabalho desde 2019 com aanálise das sementes produzidas pela rede. Hoje, o laboratório faz análise para determinar a pureza, a germinação, o teor de água e peso dos lotes coletados.
“Quando as sementes chegam ao laboratório, avaliamos o metabolismo e quando elas vão ‘acordar’. Algumas demoram mais tempo, então a forma de armazená-las é diferente e isso é bem importante”, contou a professora.
Os resultados chamaram a atenção dos presentes, como Omelina M. dos Santos França, do quilombo André Lopes. “Vendo o trabalho de vocês, quero ir aonde vocês fazem os estudos para ver as sementes”, disse.
Imagem
Coletoras de sementes junto a pesquisadoras durante Encontro Anual da Rede de Sementes do Vale do Ribeira. | Foto: Andressa Cabral Botelho/ISA
Além da análise das espécies realizada na Unesp/Registro, a antropóloga Bianca Cruz Magdalena contou um pouco da sua pesquisa de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A sua pesquisa mostra o quanto os saberes quilombolas - em especial os que atuam com a coleta de sementes - é relevante para a conservação da Mata Atlântica.
“O tempo da floresta é diferente do tempo do mundo e os quilombolas puderam nos contar sobre os ciclos do que se planta, se cuida, se colhe”, destacou Magdalena durante a sua apresentação. Embora os estudos tenham começado recentemente, ela acompanha o trabalho da Rede de Sementes de perto desde 2020, ouvindo e aprendendo com coletores e coletoras das quatro comunidades.
“Essa é uma forma de valorizar o trabalho feito por vocês, que há anos mantém essa área conservada e possibilitam que outros locais possam ser restaurados com essas sementes que vocês coletam aqui”, destacou a autora.
Combinados para 2022
No encontro, quilombolas deram um passo adiante na formalização da rede e decidiram transformá-la em uma cooperativa. Em junho os quilombolas vão fechar detalhes do estatuto, coordenação e conselho fiscal que vai acompanhar o trabalho a partir da nova etapa. Desta forma, a rede passa a ter mais autonomia e os quilombolas vão poder atuar mais de perto na comercialização e na administração, conduzida por Nascimento.
“Determinar que o trabalho de vocês vai se dar a partir de uma cooperativa nos ajuda a entender também quem de fora pode fazer parte da Rede”, salientou o advogado do ISA Fernando Prioste. “Vocês vão ter um estatuto e essas decisões vão partir principalmente de vocês”, observou Prioste, que tem acompanhado o processo de formalização da iniciativa.
Imagem
Coletores de sementes João da Mota e Maria Tereza Vieira, do quilombo Nhunguara | Foto: Andressa Cabral Botelho/ISA
O estatuto vem sendo construído de forma coletiva durante reuniões nas comunidades para que as pessoas possam opinar e indicar nomes para os cargos da diretoria antes que todo o grupo possa votar.
Outro ponto debatido pelo grupo foi a entrada de novos integrantes, como quilombolas de outras comunidades e outros povos e comunidades tradicionais do Vale do Ribeira.
"Se estamos todos no Vale e fazemos a gestão do território cuidando da paisagem, coletando sementes sem precisar derrubar árvores, faz sentido que os indígenas, por exemplo, também façam parte, desde que eles sigam a organização do regimento interno de suas associações e o estatuto da rede", argumentou Maria Tereza Vieira, coletora do Quilombo Nhunguara.
Nos cinco anos da Rede de Sementes do Vale do Ribeira, germinaram novas alianças e horizontes. A Mata Atlântica e os quilombos agradecem.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Observatório monitora políticas sobre Economia da Sociobiodiversidade no Congresso e no Executivo
ÓSociobio reúne ambientalistas e organizações do campo e da floresta para influenciar projetos no Congresso e garantir sustentabilidade no desenvolvimento econômico e social brasileiro
Organizações encabeçadas pelo Instituto Socioambiental (ISA), Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) e WWF-Brasil formalizam a criação do Observatório da Economia da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio) em evento de lançamento nesta quarta-feira (1/6). É a primeira aparição pública do coletivo de organizações, que reúne ONGs ambientalistas, movimentos sociais do campo e populações indígenas e tradicionais no Brasil, como Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), Memorial Chico Mendes e Articulação Pacari.
O lançamento acontece em parceria com a Frente Parlamentar Ambientalista, com participação de parlamentares, gestores públicos, organizações da sociedade civil, pesquisadores e jornalistas especializados. A iniciativa do Observatório ancora-se sobre um tripé que alia Economia, Pessoas e Biodiversidade, e marca o início da semana do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho.
Imagem
Lavagem da castanha na mata próxima ao acampamento Japim, às margens do Rio Anauá, Terra Indígena Wai Wai (RR)|Fábio Nascimento/ISA
O desenho da iniciativa teve início há cerca de seis meses, quando organizações que atuam diretamente na incidência política no Congresso Nacional, em defesa dos direitos de agricultores familiares, de povos indígenas e de povos e comunidades tradicionais, identificaram a necessidade de intensificação da incidência, diante do desvirtuamento da temática em muitas matérias legislativas relacionadas à economia da sociobiodiversidade, gerando confusão sobre o tema no Parlamento e na sociedade.
O Observatório coloca-se neste contexto como um conjunto de atores relevantes e qualificados para enriquecer a discussão sobre desenvolvimento econômico com igualdade social e equilíbrio ambiental ancorado no respeito aos direitos territoriais dos povos. As questões relacionadas à garantia de direitos territoriais e de acesso a conhecimentos tradicionais, possuem uma transversalidade bastante relevante na abordagem do Observatório. Em ano eleitoral, o coletivo busca ser referência no tema às candidaturas presidenciais e regionais, além de fonte às legislaturas e executivos estaduais eleitos.
Apesar do ano curto em época de eleições, o Observatório acredita que há matérias que podem caminhar satisfatoriamente no Congresso antes de encerrar suas atividades. O coletivo de especialistas destaca duas que tramitam na Câmara dos Deputados. A primeira é o Projeto de Lei (PL) 1970/2019, de autoria de Rogério Correia (PT-MG), que institui a Política Nacional para o Manejo Sustentável, Plantio, Extração, Consumo, Comercialização e Transformação do Pequi e Demais Frutos e Produtos Nativos do Cerrado. O texto aguarda a designação de relator na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ). A segunda matéria é o PL 6079/2019, de autoria de Camilo Capiberibe (PSB/AP), que cria a Política Nacional de Incentivo ao Agroextrativismo Familiar na Amazônia e fundo nacional para apoiar essa política pública.
As matérias interessam pela convicção de que o meio ambiente conservado gera renda e qualidade de vida para as populações, mais do que com as atividades do agronegócio. “No Brasil, temos uma situação única: uma enorme diversidade sociocultural, que se traduz, em parte, nas cadeias de produtos da biodiversidade brasileira, e uma capacidade tecnocientífica para transformar tais produtos em geradores de riqueza para o país, mantendo a floresta em pé e os modos de vidas dos povos e comunidade que ali vivem, evitando o desmatamento e a grilagem de terras”, explica Nurit Bensusan, bióloga do ISA.
“Os benefícios da conservação são potencialmente muito maiores do ponto de vista econômico e para gerar qualidade de vida para as pessoas da floresta e da cidade, do que com atividades que destroem o meio ambiente”, acrescenta. A conservação implica uso econômico sustentável por meio de manejo, industrialização e extrativismo conscientes, coordenados e executados diretamente por comunidades tradicionais e agricultores familiares.
Para Guilherme Eidt, advogado e assessor de políticas públicas do ISPN, não há meio ambiente conservado sem apostar na economia da sociobiodiversidade. “Os povos se beneficiam do meio ambiente conservado e o meio ambiente só é conservado porque eles estão lá, usufruindo dos recursos naturais de forma tradicionalmente sustentável. São partes interdependentes”, afirma. “No uso tradicional, há espaço para gerar renda, alimentar famílias, saciar animais, adubar o solo e fazer circular o ciclo natural do mundo, deixando riqueza também para que as gerações futuras se beneficiem, além de equilibrar o clima global”, completa Eidt.
Economia da Sociobiodiversidade
Segundo levantamento do ISA com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas os produtos in natura não madeireiros, oriundos das florestas e dos outros biomas brasileiros, movimentaram mais de R$ 1,6 bilhão em 2018, complementando a renda de milhões de pessoas, entre indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas e outras comunidades tradicionais de todo o país. Só o mercado de açaí foi estimado em US$ 712 milhões em 2017, com expectativa de movimentar até US$ 2 bilhões em 2025, considerando-se toda a cadeia produtiva.
Imagem
Produção de óleo de pequi, na Aldeia Ngôjwêrê dos Kisêdjê, Terra Indígena Wawi (MT)|Rogério Assis/ISA
Kenzo Jucá, sociólogo especialista em direito ambiental e assessor legislativo do ISA, explica que esses e outros números são a prova de que a economia da sociobiodiversidade deve representar uma variável indispensável da política macroeconômica. “É necessário observar que, invisibilizadas entre a conservação ambiental e a máquina econômica do agronegócio no campo, há milhares de comunidades tradicionais, quilombolas e indígenas, que fazem girar a economia do país e não possuem políticas públicas socioeconômicas adequadas”, aponta.
“Num momento de intensificação das mudanças climáticas, em que a ‘bioeconomia’ é o conceito em voga, incluir a qualidade de vida e direitos territoriais na contabilidade é o grande desafio desse Observatório, relacionado políticas públicas econômicas, sociobiodiversidade, clima, indústria, educação, tecnologia e legislação socioambiental”, comenta Kenzo Jucá.
Acompanhe flashes do evento nas redes sociais do ISPN, ISA e WWF.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Wai Wai criam departamentos de mulheres indígenas
Iniciativa busca fortalecer autonomia e sustentabilidade das mulheres – protagonistas na fabricação de diversos produtos da sociobiodiversidade
Evilene Paixão
- Jornalista da Hutukara Associação Yanomami
Mulheres Wai Wai fundaram departamentos próprios em diversas associações indígenas|Evilene Paixão/ISA
Pela primeira vez as mulheres Wai Wai terão espaços somente delas. Foram criados os Departamentos de Mulheres Indígenas Wai Wai (DMIW), em cada associação indígena: Associação dos Povos Indígenas Wai Wai (APIW), Associação do Povo Indígena Wai Wai Xaary (APIWX) e Associação Indígena Wai Wai da Amazônia (AIWA).
A mobilização para a criação dos departamentos aconteceu no III Encontro Anual do Instituto Socioambiental (ISA) com os Wai Wai do Estado de Roraima, que aconteceu na comunidade Soma, na Terra Indígena Trombetas Mapuera, município de Caroebe, divisa com os estados do Amazonas e Pará.
Era antigo o desejo de criar espaços exclusivos de mulheres indígenas, como conta Geneide Wai Wai, responsável geral pelos departamentos. “Sempre foi do interesse das mulheres ter alguma representação, associação ou departamento. Isso já era discutido entre os homens e as mulheres”, conta.
Segundo ela, a criação dos departamentos é um passo importante para o fortalecimento e valorização do trabalho das mulheres indígenas dos produtos vendidos. Um deles é o mawkîn, um tipo de paçoca torradinha de castanha-do-Pará com beiju, produzido pelas mulheres Wai Wai. “Agora vamos nos organizar melhor para trabalhar bem com as vendas e produzir mais”, aposta Geneide.
O encontro reuniu cerca de 150 indígenas entre lideranças, jovens e mulheres, das 10 comunidades das Terras indígenas Trombetas Mapuera e Wai Wai, localizadas entre os municípios de Caracaraí, São João da Baliza e Caroebe, nas calhas dos rios Anauá e Jatapu.
Há quase cinco anos, o ISA constrói projetos com esses povos no desenvolvimento da cadeia produtiva da castanha, com assessoria na parte de boas práticas de manejo e promoção de comércio ético das castanhas e na formalização e o funcionamento das associações Wai Wai, com assessoria técnica de Felipe Reis.
Agora, os Departamentos de Mulheres Indígenas Wai Wai serão assessorados pela cientista ambiental Stephany Caroline Rodrigues, que chegou recentemente para fortalecer a equipe. Para ela, os DMIW são o início de um trabalho que vai garantir mais autonomia e sustentabilidade às mulheres indígenas.
“Começamos muito bem! Além de estabelecermos em conjunto os principais eixos temáticos de trabalho, com artesanato e mawkîn, conseguimos encaminhar a criação do departamento de mulheres Wai Wai dentro de cada associação, APIW, APIWX e AIWA, com a aprovação dos respectivos presidentes, e uma mulher representante por comunidade, além de uma coordenadora geral, para ajudar na interlocução”, explica.
III Encontro do ISA com os Wai Wai em Roraima, realizado de 04 a 07 de abril, na comunidade Soma, Terra Indígena Trombetas Mapuera, em Caroebe|Evilene Paixão/ISA
III Encontro do ISA com os Wai Wai em Roraima, realizado de 04 a 07 de abril, na comunidade Soma, Terra Indígena Trombetas Mapuera, em Caroebe|Evilene Paixão/ISA
III Encontro do ISA com os Wai Wai em Roraima, realizado de 04 a 07 de abril, na comunidade Soma, Terra Indígena Trombetas Mapuera, em Caroebe|Evilene Paixão/ISA
III Encontro do ISA com os Wai Wai em Roraima, realizado de 04 a 07 de abril, na comunidade Soma, Terra Indígena Trombetas Mapuera, em Caroebe|Evilene Paixão/ISA
III Encontro do ISA com os Wai Wai em Roraima, realizado de 04 a 07 de abril, na comunidade Soma, Terra Indígena Trombetas Mapuera, em Caroebe|Evilene Paixão/ISA
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Livros de bolso apresentam a arte indígena, feminina e ancestral das cerâmicas Tukano e Baniwa
Práticas e saberes para produção das peças são parte do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, reconhecido em 2010 como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Iphan
Polimento de cerâmica com semente de inajá em São Joaquim do Ayari, Terra Indígena Alto Rio Negro (AM). Foto: Natália Pimenta/ISA
As cerâmicas produzidas pelos povos indígenas Tukano e Baniwa, da Terra Indígena Alto Rio Negro (AM), são uma arte feminina milenar. Da escolha da argila à modelagem, polimento, secagem, queima e acabamento, o caminho realizado das artesãs é de uma relação profunda com o sagrado e a floresta.
O leitor agora pode se sentir mais próximo a essa experiência com o lançamento dos livros de bolso Cerâmica Tukano e Cerâmica Baniwa, realizados em parceria entre a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e o Instituto Socioambiental (ISA), e com apoio de União Europeia e Nia Tero.
Organizados por Thiago Oliveira (Cerâmica Baniwa) e Juliana Lins (Cerâmica Tukano), as obras fazem parte de uma coleção mais ampla e se juntam aos também livros de bolso Arte Baniwa, Pimenta Jiquitaia Baniwa e Banco Tukano, lançados pelo ISA nos últimos anos.
O conjunto apresenta de forma condensada e plena de informações as riquezas do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Para Dadá Baniwa, uma das coordenadoras do departamento de mulheres da Foirn, é um “sonho” compartilhar os conhecimentos para que outros povos e culturas valorizem a produção das peças. “Não é um trabalho fácil. Dar visibilidade ao trabalho das mulheres a nível estadual, nacional e internacional é integrar essa cultura material e preservá-la pela via da educação”, disse.
“Esse conhecimento para mim, como neta e filha, é um patrimônio, uma herança da minha avó”, afirmou Larissa Duarte, ceramista do povo Tukano. “É um conhecimento que fica para nossa comunidade e para a região toda. Isso vai ficar comigo e pretendo passar meu conhecimento para minhas filhas também.”
“Para nós, mulheres indígenas, essa cerâmica não é um simples objeto. É uma parte de nós”, resumiu ela, que é também uma das coordenadoras do departamento de mulheres da Foirn. “Esse é nosso modo de lutar, nosso modo de viver. A mulher é muito mais resistente e pensa no bem-estar coletivo, da comunidade, do território.”
Os povos indígenas do Rio Negro têm, ao todo, 11 cadeias produtivas em diferentes graus de amadurecimento na região, com gestão indígena, para desenvolvimento e proteção dos territórios.
Para Luciane Lima, do departamento de negócios da Foirn, a comercialização das cerâmicas “é uma forma de sustentação para as famílias”. “É geração de renda e valorização da cultura”, disse. “Estamos investindo em processos que tenham resultados a longo prazo”, afirmou.
Respeito e limite
As cerâmicas Tukano e Baniwa sempre tiveram uma inserção na vida ritual nas comunidades indígenas do Rio Negro. A produção das peças, no entanto, foi levada ao limite do desaparecimento e, por isso, as publicações retomam saberes que estavam restritos a poucas artesãs.
“As mulheres não tinham mais o conhecimento completo sobre as cerâmicas, sabiam apenas parte do processo”, relembrou Oliveira, antropólogo e organizador de Cerâmica Baniwa. A pesquisa constatou, por exemplo, que existem no território apenas cinco jazidas de argila ideais. “Os locais de ocorrência são de conhecimento tradicional ligados às comunidades”, afirma.
Segundo Juliana Lins, bióloga e organizadora de Cerâmica Tukano, impressiona a complexidade do trabalho das artesãs para confecção das peças. “A história e o processo envolvem tempo e conhecimento. Uma peça pode levar até 10 dias para ficar pronta, e ver o resultado é como ver o mundo através de um olhar feminino”, disse.
“Uma coisa que chama muito a atenção nos povos indígenas é a noção de limite. Você não lida com a natureza sem limites. Você tem relações sociais com a floresta, com o barro e a cerâmica. É o respeito. É, por exemplo, o pedido de licença para pegar a ‘vovó’ argila para então produzir as peças”, observou.
É o que contou Larissa Duarte, ceramista Tukano. “Nós, povos indígenas, temos nosso ritmo, tempo de produção. As pessoas de fora têm que entender isso, conhecer nossa realidade aqui. As mulheres não trabalham 24 horas só no artesanato. Ela vai pra roça, faz comida para as crianças, cuida da casa e depois faz o artesanato. E faz uma peça.”
O que é o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro?
O Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, conjunto de práticas e saberes milenares dos povos do Rio Negro, agricultores por excelência, foi reconhecido em 2010 anos como patrimônio imaterial brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Estão catalogadas, ao todo, mais de 300 variedades de plantas cultivadas pelos 23 povos indígenas que vivem na região há milênios, além de 32 espécies de peixes comestíveis.
Fazem parte do sistema as técnicas de manejo dos espaços de cultivo (roça e quintais); do sistema alimentar; dos utensílios de processamento e armazenamento como a cerâmica e a cestaria; e, por fim, da conformação de redes sociais de troca de sementes e plantas que se estende de Manaus, no Amazonas, a Mitu, na Amazônia Colombiana.
O cultivo da mandioca brava, por meio da técnica de queima, plantio e manejo de capoeiras (conhecido como coivara), é a base desse sistema, compartilhado pelos povos indígenas da região.
Visitantes fazem imagens do Pico da Neblina antes de seguir para o cume, o mais alto do Brasil|Marcos Wesley/ISA
Na metade de abril deste ano, os turistas que participaram da expedição ao Yaripo – nome Yanomami para o Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil – estavam quase finalizando o trajeto de dez dias em plena floresta amazônica. Exaustos, pararam no último alojamento para passar a noite e tiveram um jantar especial com cogumelos e palmito Xirãkomi embrulhados em folha de bananeira e assados na brasa, acompanhado de peixe fresco. O prato foi preparado pela cozinheira Lucilene Souza Pereira, indígena da etnia Yanomami, com os ingredientes encontrados ali mesmo, na mata.
Essa foi uma das surpresas vivenciadas pelo grupo que subiu o Yaripo, que significa Serra dos Ventos, numa das primeiras expedições após a reabertura ao turismo. Os anfitriões – ou os Teri këpë – do Yaripo guiaram os visitantes. E, para muitos dos turistas, esse é o grande diferencial do projeto: caminhar pela floresta ao lado dos Yanomami.
Essa expedição foi acompanhada pela jornalista Sônia Bridi e pelo repórter cinematográfico Paulo Zero, da Rede Globo, para reportagem sobre o Pico da Neblina e o povo Yanomami que foi ao ar neste domingo (01/05) no Fantástico. Em suas redes sociais, a jornalista falou do privilégio em escalar o pico e de aprender “com os donos da casa”. “Muito antes de os brancos enxergarem essa montanha e chamá-la de Pico da Neblina, os Yanomami já a conheciam: Yaripo, a morada da ventania”, escreveu.
Com cerca de 3 mil metros de altitude, o Yaripo está localizado em território indígena Yanomami, em área de sobreposição do Parque Nacional Pico da Neblina, no Amazonas. Para os Yanomami, é um local sagrado, morada dos espíritos.
Turistas chegam no início da trilha (porto do rio Irokae) após pernoite na comunidade Maturacá, rumo ao Yaripo|Marcos Wesley/ISA
O Projeto Yaripo - Ecoturismo Yanomami é de base comunitária e busca o protagonismo dos indígenas, tendo como objetivo gerar renda, proteger o território e fortalecer a cultura. A gestão é dos próprios indígenas, com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e Fundação Nacional do Índio (Funai). Três operadoras atuam também em apoio aos indígenas: Amazon Emotions, Ambiental Turismo e Roraima Adventures.
Coordenador do Programa Rio Negro do ISA, Marcos Wesley de Oliveira participou da expedição no início de abril, sendo a terceira vez que completa o percurso. Ele considera que esse é um modelo de empreendedorismo indígena que visa à geração de renda por meio de atividade sustentável.
“Os Yanomami, com o projeto Yaripo, estão nos apontando um modelo de desenvolvimento sustentável para a Amazônia que valoriza duas das suas principais riquezas: os povos indígenas e suas culturas; e a própria floresta, com rios, cachoeiras, pedras, flores, árvores e todas as paisagens. Ter a oportunidade de andar alguns dias com os Yanomami nos apresentando a floresta e se apresentando a nós é uma experiência transformadora”, disse.
Grupo reunido no porto Irokae, início da trilha para o topo do Pico da Neblina|Marcos Wesley/ISA
Presidente da Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes (Ayrca), José Mário Pereira Góes fez uma avaliação positiva do Projeto Yaripo após as duas primeiras expedições, com os indígenas atentos para a necessidade de ajustes. “Aqueles que estão envolvidos com o projeto estão vendo a realidade, que aquilo que pensávamos e sonhávamos está acontecendo. É um ponto positivo, agora acreditam que temos um projeto de ecoturismo Yanomami em funcionamento”, afirmou.
José Mário relembra que a reabertura do Pico Neblina ao turismo estava prevista para acontecer no início de 2020, mas foi adiada devido à pandemia. Depois disso, já em 2022, houve outro adiamento devido à variante Ômicron do novo coronavírus. Para participar da expedição, o turista precisa estar vacinado contra a Covid-19 e passar por testagem.
“O sonho do meu povo Yanomami está sendo realizado agora, está tendo resultado muito bom para dar suporte nas comunidades. Não é pensamento só de uma pessoa – é pensamento de todos. Várias reuniões e assembleias foram realizadas. É um projeto que não degrada a mata, o rio”, completou.
Visitantes
Vários dos visitantes que subiram o Pico da Neblina na reabertura para o turismo falaram que caminhar lado a lado com os Yanomami em meio à floresta Amazônica é uma experiência única. O administrador e empresário Oswaldo Toyofuku, de 69 anos, participou da expedição no início de abril e era o mais velho de seu grupo. Ele disse que fez viagens em várias partes do mundo, tendo inclusive subido até a base do Everest, mas, após ter a experiência do Yaripo e do contato com o povo Yanomami, decidiu conhecer mais o Brasil.
Acampamento Areal é o mais próximo ao Yaripo. De lá, no quinto dia, se ataca o cume|Marcos Wesley/ISA
Trabalhando e estudando desde os 13 anos de idade, ele conta que passou a se dedicar a subir montanhas quando viu todos os filhos criados. E vem cumprindo um ritual: faz uma “montanha” por ano, sendo que deixa o cabelo e a barba crescerem e só corta ao chegar ao seu destino. No caso do Yaripo, houve um componente especial, pois ele estava há três anos sem cortar o cabelo e a barba, já que precisou se recolher devido à pandemia. “Lá no cume do Pico da Neblina, cortei a barba e joguei para o lado da Venezuela. Depois cortei o cabelo e joguei para o lado do Brasil. Foi uma festa”, relatou. O Pico da Neblina fica na fronteira entre os dois países.
A médica Lilian Meissner, de 67 anos, também subiu o Yaripo. Ela sonhava em conhecer o Pico da Neblina desde a época do colégio, quando aprendeu sobre o ponto mais alto do país. Como sempre foi aventureira, fez expedições em várias partes do Brasil e em outras partes do mundo, com viagens ao Everest, Monte Roraima (RR) e Pedra da Gávea (RJ). “Essa foi a expedição mais desafiadora”, contou.
Para o jornalista Ivan Zumalde, de 43 anos, nessa expedição, o contato com o povo Yanomami é mais importante até mesmo que atingir o ponto mais alto do país. “A cultura indígena é maior que o pico em si”, resumiu. Ele participou da viagem como turista e não tinha intenção de escrever sobre o assunto. Mas ficou tão estimulado com a experiência que redigirá um artigo.
“Vendo que o projeto é realmente de base comunitária, isso me estimulou a escrever. Há negócios de impacto socioambiental atraindo investimentos. Mas esse projeto é totalmente diferente do que o mercado financeiro está enxergando. Quando eu vi, senti e vivi a realidade do povo Yanomami, eu percebi que não é preciso muito malabarismo. Precisa de gente trabalhando e fomentando isso, o povo Yanomami já está no protagonismo. Na verdade, é simples”, avaliou.
Jornalista Ivan Zumalde fotografa a expedição ao Yaripo, ponto mais alto do Brasil|Marcos Wesley/ISA
A empresária Katharina Brazil, de 46 anos, também se encantou com o povo Yanomami. Ela não é montanhista e está acostumada a outro tipo de aventura: o turismo em carro 4x4. Em suas viagens, já rodou quase todo o país e, mesmo com toda essa experiência, se surpreendeu com o Yaripo. “Foram os dias mais incríveis dessa minha descoberta do Brasil. A floresta é incrível e os Yanomami são muito o 'aqui o agora', o presente, a noção de tempo é diferente. Isso é aprendizado para quem vive na correria da cidade”, analisou a empresária.
Para o geólogo Luiz Antônio Pereira de Souza, de 65 anos, a viagem sem a presença dos Yanomami não teria graça. “Chegar ao ponto mais alto do Brasil é muito interessante, mas cruzar parte da Amazônia com os Yanomami e conversando com eles, conhecendo o que a gente pode comer no meio do mato, é uma experiência única. Estou na casa deles!”, celebrou.
Ovos de Inambú encontrados pelos Yanomami e que serviram para sua dieta alimentar|Marcos Wesley/ISA
O empresário suíço-brasileiro Hanspeter Gass, de 39 anos, vinha buscando informações sobre o Pico da Neblina desde 2008. Preparou-se para a primeira expedição, que seria em janeiro de 2020, mas o mundo foi surpreendido pela pandemia da Covid-19. Ele adiou a viagem e acabou participando da primeira expedição ao Pico da Neblina, em março de 2022. Chegou ao topo do Brasil em dia aberto, o que possibilitou que ele fizesse muitas fotos.
Ele elogia o acolhimento dos Yanomami e a trilha. “Minha rede rasgou no caminho e os Yanomami me emprestaram a rede deles. Ajudaram em tudo. Eu adorei a trilha, na minha opinião não precisa de pontes (sobre algumas áreas) ou conforto. Mas isso, é claro, vai depender do que os Yanomami querem”, afirmou. “Já fui a quase 100 lugares em expedições e posso dizer que essa foi uma experiência única que quase não existe mais no nosso planeta. A convivência com a selva foi intensa”, ressaltou.
Irokae, primeiro e último acampamento na caminhada até o ponto mais alto do Brasil|Marcos Wesley/ISA
Marcos Wesley, do ISA, explica que esse contato com os turistas é positivo também para os indígenas. “É importante que os não indígenas conheçam os Yanomami, sejam seus aliados. Esse contato reforça a pergunta sobre o modelo de desenvolvimento que queremos para a Amazônia: é um desenvolvimento sustentável que valoriza os povos indígenas e a floresta ou é o desenvolvimento que está sendo incentivado hoje que destrói a floresta, que destrói os rios, que contamina a natureza, que invade Terra Indígena e causa caos humanitário? Diante das emergências climáticas, a resposta é só uma: a da economia sustentável. A gente tem que se posicionar hoje no Brasil diante das agressões que a floresta e os povos indígenas vêm sofrendo. E o projeto Yaripo nos inspira nesse sentido”, pontuou.
Sob o aspecto da proteção territorial, o ecoturismo se apresenta como alternativa ao garimpo. A data da segunda expedição ao Yaripo coincidiu com o lançamento pela Hutukara Associação Yanomami do relatório Yanomami Sob Ataque, que denuncia a crise humanitária provocada pelo garimpo em território Yanomami, mas em área localizada no estado de Roraima, onde o problema é mais grave.
Segundo o coordenador do Projeto Ecoturismo Yanomami Yaripo, Celso Lopes Góes, da etnia Yanomami, a comunidade está se mostrando satisfeita com o projeto. “É como se estivéssemos recebendo alguém de nossa família. A comunidade está se sentindo alegre vendo o turismo funcionar, com muito respeito dos visitantes, com geração de renda”, resumiu.
Yanomami descansam no trajeto de volta ao acampamento Areal|Marcos Wesley/ISA
E os indígenas que estão envolvidos diretamente na expedição também dizem que estão gostando da experiência. “Sempre tive vontade de conhecer a montanha porque minha avó contava dos caminhos do pico, com árvores de frutas como abiu, bacaba, pupunha. Eu fico cansada, mas estou acostumada a andar na floresta. Tenho experiência na comida dos brancos, tenho capacitação em culinária. E fiz de tudo: acompanhei, conversei, cuidei. Cantei junto com os visitantes!”, contou a cozinheira e agricultora Lucilene, que participou da expedição e ainda preparou as refeições do grupo, inclusive o jantar especial com cogumelos, palmito e peixe fresco.
Projeto
O Yaripo ou Pico da Neblina fica no território Yanomami, no Amazonas, em área de sobreposição com parque nacional sob gestão do ICMBio. Todo o processo para a construção do plano de visitação durou cerca de sete anos, envolvendo capacitação, reuniões e assembleias entre os agentes envolvidos. A primeira expedição após reabertura do turismo aconteceu de 20 a 29 de março. Já o segundo grupo subiu o Yaripo entre os dias 3 e 12 de abril.
Este ano, a previsão é que aconteça uma viagem por mês, respeitando o ritmo de trabalho dos Yanomami. Cada grupo tem até 10 turistas, que podem contratar Yanomami como apoio para carregamento das bagagens e alimentos. Os indígenas utilizam os jamaxis, cestos que são levados nas costas, para levar os materiais. O trajeto é considerado de montanha de alta dificuldade.
Área de charco no caminho do Pico da Neblina. Trajeto é considerado de montanha de alta dificuldade|Marcos Wesley/ISA
Para chegar ao Pico da Neblina, os turistas partem do município de São Gabriel da Cachoeira, no Noroeste do Amazonas, até a comunidade Yanomami de Maturacá, onde são recebidos e benzidos em ritual promovido pelos xamãs – lideres espirituais. Os visitantes ficam na sede da Ayrca até partirem rumo ao Pico da Neblina. O projeto não envolve etnoturismo, ou seja, os turistas não ficam em contato com a comunidade indígena.
Assessora do ISA para o Projeto Yaripo, Lana Rosa explica que o plano de visitação construído junto com os Yanomami prevê a implantação de turismo de base comunitária. Nesse tipo de proposta busca-se preservar a cultura e os modos de vida de comunidades, como indígenas, ribeirinhos ou quilombolas.
Um dos cuidados é a não interferência em atividades tradicionais. “No turismo de base comunitária, o cuidado não é só com o visitante, mas também com a comunidade tradicional. No caso dos Yanomami, alguns vão se dedicar a essa nova atividade, vão gerar renda a partir disso. Isso é importante, pois as comunidades costumam ser isoladas e com possibilidade limitada de renda. Mas é necessário cuidado para que eles não sejam afastados das atividades tradicionais, como a de fazer a roça”, explicou.
Coordenador do Programa Rio Negro do ISA, Marcos Wesley chega ao cume do Yaripo|Marcos Wesley/ISA
A técnica de turismo da Foirn, Tifane Máximo, da etnia Baré, informou que cerca de 80 indígenas Yanomami estão envolvidos diretamente no Projeto Yaripo. “Estamos fortalecendo o turismo de base comunitária para dar protagonismo ao povo Yanomami, os grandes guardiões de seu território. Como instituição, vamos dar o apoio necessário”, disse.
Dentro do projeto, os indígenas exercem funções de coordenação, guia, barqueiros, acompanhantes e cozinheiras. Eles recebem um valor pelo trabalho e, além disso, a cada expedição é destinado um montante para o fundo comunitário gerido pela Ayrca. Outra fonte de renda é a venda de produtos da agricultura indígena que são levados nas expedições. Também está entre os objetivos buscar o protagonismo das mulheres, inclusive com promoção de venda de artesanatos e participação no projeto da Associação das Mulheres Yanomami - Kumirayoma (Amyk).
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS