Liderança que esteve à frente do Departamento de Negócios Socioambientais da FOIRN, Luciane se inspira na força do povo Tariana para fortalecer e articular a floresta, os negócios, os povos e as mulheres do Rio Negro
*Este texto faz parte da série #ElasQueLutam, que costura perfis sobre mulheres guardiãs das história e da memória de suas comunidades, e que fazem de seus corpos uma extensão de seus territórios tradicionais. Saiba mais aqui.
“No início, quando não existia nada, só existia um ser, o Trovão Ennu. Em seu corpo ele tinha vários enfeites, a akângatara (cocar), o itaboho (cilindro de quartzo usado como pingente de colar), o betâpa (enfeite de cotovelo feito de pele de macaco), o yaigi (bastão de comando), o escudo, o kitió (chocalho de tornozelo)”.
“Também levava seu cigarro encaixado na forquilha, sua cuia de ipadu e sua cuia de bebidas doces. Ele vivia só em sua casa, no alto, e começou a pensar sobre a possibilidade de criar novas pessoas. E pensou em um homem e em uma mulher, Kui e Nanaio. Após o surgimento de Kui e Nanaio, Ennu criou os rios, as árvores e os animais. Tudo que surgiu corresponde aos adornos ou objetos e substâncias cerimoniais do Trovão.”
Essa narrativa faz parte da mitologia dos Tariana, um dos 23 povos que convivem no alto Rio Negro, noroeste do Amazonas. Os mais velhos contam que o povo Tariana se reconhece como “Filhos do Sangue do Trovão” - Bipó Diroá Masí.
E é com essa força que Luciane Mendes de Lima, do povo Tariana, identifica-se e vem atuando como coordenadora do Departamento de Negócios Socioambientais da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN).
“Às vezes a gente brinca, quando vai começar a chover e dá muitos raios, muitos trovões, a gente diz que tem um Tariana bravo. Eu me identifico muito com essa força. Acho que é um jeito de ser forte, de ser guerreiro, que é uma característica do Povo do Trovão, que é justamente os Tarianas”, diz.
Luciane Lima busca habilidade, sabedoria e cuidado para os diálogos e ações que promovem as economias da sociobiodiversidade, articulando negócios e parcerias que, ao mesmo tempo, preservam e fortalecem a cultura dos povos que convivem na região do Baixo, Médio e Alto Rio Negro, nos municípios amazonenses de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.
O Departamento de Negócios da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) abrange a Wariró – Casa dos Produtores Indígenas do Rio Negro; iniciativas de turismo; iniciativas alimentares, sendo as principais delas a Pimenta Baniwa, a Casa de Frutas e a Meliponicultura; e os Mercados Institucionais, em conexão com políticas públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Os planos para o futuro incluem o desenvolvimento da Wariró Sabores, com foco na comercialização de alimentos.
Estas são ações que apoiam diretamente as indígenas: atualmente, 64% dos negócios da Wariró são feitos com mulheres. Muitas das atividades são realizadas em parceria com o Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN/FOIRN), contribuindo para ampliar a participação das indígenas nas discussões políticas e em espaços de decisão.
Além disso, o fato de uma mulher indígena estar à frente do departamento também inspira outras a ocuparem espaços de decisão. “Quando a gente ocupa esses espaços de coordenação, é importante falar sobre isso, porque a gente empodera outras mulheres que estão em suas casas, muitas vezes sentindo-se a menor pessoa do mundo, sentindo-se excluídas. Elas passam a entender que também podem ocupar esses espaços”, reflete.
A história de Luciane está conectada com a das rionegrinas e com o Rio Negro. Sua avó, Maria da Conceição, Tariana, de 94 anos, falante das línguas indígenas nheengatu e tukano, além do português, nasceu na comunidade de Ipanoré.
Quando tinha apenas 14 anos, Maria da Conceição foi retirada de lá e chegou à cidade de São Gabriel da Cachoeira, repetindo a história de muitos indígenas, deslocados de suas regiões de origem e separados de suas famílias devido a pressões vindas das missões religiosas, trabalho forçado ou pela promessa de vida melhor perto dos núcleos urbanos.
Nesse caminho, alguns conhecimentos se perderam e outros, como o da língua indígena, não foram repassados para as novas gerações, o que também está ligado às pressões para apagamento da cultura nos territórios. Com os processos colonizadores, os povos do Rio Negro chegaram a ser proibidos de falar suas línguas ou manterem seus rituais.
Assim, Luciane entende que, por meio do seu trabalho, acaba recuperando parte da sua história e valorizando a cultura dos povos do Rio Negro.
Para além de promover compras e vendas, o Departamento de Negócios Socioambientais atua como uma ponte entre o governo e instituições como associações e iniciativas indígenas. E vai mais adiante. Ao promover as economias da sociobiodiversidade - que são as economias dos povos indígenas, quilombolas e povos e comunidades tradicionais -, essas ações geram renda, fortalecem a cultura, os modos de vida e sistemas de saberes dos povos que ocupam ancestralmente esse território e cuidam da floresta.
E o que é a sociobioeconomia?
Luciane Lima explica que a "sociobioeconomia", embora seja um termo não indígena, pode ser traduzida como o bem viver no dia a dia das comunidades, envolvendo o trabalho com respeito à natureza e com os recursos para o futuro; é o equilíbrio entre viver em grupo e o cuidar do que temos para o bem de todos. Ela destaca que esse manejo contrasta com iniciativas predatórias.
“A palavra economia, quando falamos, vem logo a relação com dinheiro; mas para nós, a economia ou sociobioeconomia é o nosso bem viver. É o viver bem, o cuidado com a vida. É a nossa ligação com o meio ambiente e o respeito com o ciclo natural e nossa sustentabilidade; é sobre manter o equilíbrio entre as pessoas, a natureza e o bem-estar na comunidade”, diz.
Ela aponta ainda a preocupação com a emergência climática e os impactos nas roças, nas práticas e nos modos de vida indígenas. Em 2021 e 2022, o Rio Negro passou por cheia recorde ou extrema. Logo em seguida, em 2023 e 2024, foram registradas secas recordes na Amazônia. Ou seja, no alto Rio Negro, foram quatro anos seguidos de eventos climáticos extremos.
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“A gente tem a floresta e temos muito o que cuidar, até mesmo por conta das mudanças climáticas, porque hoje a gente não consegue saber o período chuvoso, o período que a gente vai ter a plantação grande, quando vai poder tirar mandioca: porque tá dizendo que vai chover, mas aí não chove. Antes não precisávamos da meteorologia para saber. A gente sabia pelas ferramentas ancestrais mesmo. Os mais velhos falavam: "Ah, mês tal, vai chover". Esse aquecimento global vem nos afetando e a gente já não consegue mais ter isso. O nosso bem viver é estar de bem com a natureza. É esse cuidado humano com a natureza”, reflete.
As economias da sociobiodiversidade têm como base os Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs), um conjunto delicado e sofisticado de saberes e práticas que produz alimentos e fartura e, ao mesmo tempo, cuida da floresta, promovendo biodiversidade, o cuidado com a água e regulação do clima, recursos que ganham especial importância no cenário de emergência climática. O SAT Rio Negro, desenvolvido milenarmente pelos povos que vivem na região, é considerado patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Ao promover ações que cuidam e fortalecem o SAT Rio Negro, o Departamento de Negócios fortalece os povos, seus modos de vida, as roças e o meio ambiente, cuidando também do clima. Novamente, as mulheres, donas das roças, ocupam um lugar de destaque: são elas as responsáveis por cuidar das roças e promover trocas que perpetuam espécies e saberes.
Um exemplo de ação do Departamento de Negócios são as articulações para promoção do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) que, ao levar alimentação tradicional aos estudantes, fortalece o sistema agrícola.
Outro exemplo é o turismo de base comunitária, desenvolvido em parceria com as associações indígenas, que propicia a mais pessoas conhecerem de perto esses povos, seus modos de vida, sua alimentação tradicional - como o beiju, a quinhapira, a farinha, o tucupi. Entre os projetos estão o Yaripo Ecoturismo Yanomami; Serras Guerreiras de Tapuruquara e o turismo de pesca esportiva, esses dois no Médio Rio Negro.
O Departamento de Negócios da FOIRN é uma referência para outras instituições, inclusive para a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), por sua expertise em economia indígena e no acompanhamento de 17 iniciativas. Em 2023 e 2024, essas iniciativas econômicas movimentaram um total de R$7,2 milhões, com crescimento de R$3,27 milhões em 2023 para R$3,94 milhões em 2024.
Desafios e andanças
Em São Gabriel, Luciane Lima - ou a Lu da Wariró - é muito conhecida. E parece estar sempre em movimento: seja em viagens pelo território indígena ou para outras partes do país - onde participa de oficinas, intercâmbios, encontros e articulações; na FOIRN, organizando a Maloca - Casa do Saber para os eventos; no Departamento de Negócios; ou cuidando das suas filhas - Evellyn, de 16 anos, e Lunna, de 12. E ainda acha tempo para participar do carnaval e das festas juninas e conceder entrevistas.
Ela começou a atuar na FOIRN em 2019, na Wariró. O que se avizinhava eram os desafios da pandemia em 2020. Nesse período, as portas da loja ficaram fechadas, mas os trabalhos continuaram internamente, com a estruturação do plano de negócios. Quando aconteceu a reabertura, a Casa Wariró estava mais organizada e fortalecida.
Rosângela Fidelis foi contratada como nova gerente da Casa Wariró, sendo que Luciane assumiu o papel de articuladora. Nessa época, para evitar aglomerações ainda devido à pandemia, foram realizados encontros com os produtores indígenas nos territórios.
Em 2021, o Departamento de Negócios foi criado e, logo em seguida, Luciane conduziu seis de sete encontros gerais de produtores, além de oficinas realizados em todas as regionais da FOIRN - Diawii; CAIMBRN; Nadzoeri; CAIBARNX e COIDI - para informar sobre a reestruturação da casa, buscando restaurar a confiança dos artesãos e incentivar a venda do artesanato.
“Com as oficinas, houve o incentivo para as mulheres venderem seus artesanatos que, às vezes, ficavam só dentro de casa. E a Casa Wariró não é só vender: é mostrar a cultura. Por isso é a Casa dos Produtores Indígenas do Rio Negro”, diz.
A Wariró foi criada em 2005 por demanda do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN/FOIRN), que tem sua história contada no documentário “Rionegrinas” do qual Luciane participa (ISA, 2023). Em 2014, um incêndio - investigado como criminoso - na sede da FOIRN destruiu a sede da Wariró, mas o centro continuou a funcionar em espaços provisórios.
Dez anos depois, em fevereiro de 2024, foi inaugurada a sede anexa da FOIRN, no Centro de São Gabriel, com novo espaço também para a Casa Wariró. Na entrada da unidade pode ser visto o grafite do artista amazônico Raiz Campos, inspirado na foto da jornalista Juliana Radler, articuladora de políticas socioambientais do Instituto Socioambiental (ISA). A imagem mostra um casal indígena na roça - a base das economias da sociobiodiversidade! Nos últimos anos, a comercialização de artesanato alcançou a taxa de 65% de crescimento (ver box Wariró).
A chegada de Luciane à Casa Wariró coincidiu com o período da crise da covid-19, assim como com um momento de crise pessoal para ela, que estava se separando e sem trabalho, tendo que assumir sozinha o cuidado das filhas ainda pequenas, enquanto também enfrentava um problema de saúde.
Devota de Santo Alberto, ela foi curada após fazer uma promessa e, durante três anos, conduziu a festa que homenageia o santo em frente à principal orla de São Gabriel, e ilumina com velas as águas do Rio Negro.
Ela hoje considera estar mais fortalecida. Desde 2021, Luciane conduz o Departamento de Negócios Socioambientais da FOIRN. Também ajuda a conduzir a casa Oito Mulheres, como ela chama carinhosamente a residência da sua família, próxima à principal orla de São Gabriel da Cachoeira, bem perto da praia de areias brancas do Rio Negro. Na casa, moram ela, as duas filhas, Evellyn e Lunna; a sua mãe, Lucila; suas tias Inês e Maria José; sua avó Maria da Conceição e sua tia-avó Avelina.
Luciane se vê como uma guardiã da cultura do Rio Negro, por acumular conhecimentos ancestrais e buscar um futuro que valorize as mulheres, a economia e a cultura, tanto de quem vive nas comunidades quanto de quem está na cidade. Sonha que a Casa Wariró se torne um centro comercial dos povos indígenas do Rio Negro, com a plena implementação do Wariró Sabores. Mas também sonha com a valorização das mulheres.
E finaliza com a força do povo do Trovão:
“A gente ainda sofre preconceito por ser mulher e por ser mãe solo. Quando a gente fala da violência, estamos nos referindo não só à violência física, mas à violência psicológica que a gente enfrenta diariamente dentro de uma sociedade machista. [Conforme citado acima], quando a gente ocupa esses espaços de coordenação (…) a gente empodera outras mulheres (…). Elas passam a entender que também podem ocupar esses espaços que hoje a gente vem ocupando. Não só como artesã, mas também como empreendedora, como uma mulher que sonha. A gente está em todos os espaços buscando aquilo que muitas vezes nos foi tirado lá atrás!”
Wariró: A Casa de Produtores Indígenas do Rio Negro
A Casa Wariró nasceu em 2005 como iniciativa do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro, o DMIRN/FOIRN, como uma possibilidade de gerar renda e valorizar o trabalho das mulheres.
- O nome Wariró remete a um ser mitológico que representa a fartura e a abundância, com morada na serra de Curicuriari, também conhecida como Bela Adormecida. O nome foi escolhido para simbolizar a comercialização não só de artesanato, mas também de produtos agrícolas.
- A Wariró foi criada em 2005 por demanda das mulheres indígenas, que buscavam uma forma de vender seus artesanatos a um preço justo, sem intermediação de atravessadores. A iniciativa começou como um pequeno espaço na recepção da FOIRN e, desde então, cresceu e se reestruturou, superando desafios como a pandemia de covid-19.
- É uma iniciativa fundamental para a geração de renda e o fortalecimento das mulheres indígenas, contribuindo para ampliar a participação das mulheres nas discussões políticas e em espaços de decisão dentro do movimento indígena.
- No total, 64% dos fornecedores da casa de produtores são mulheres. A casa também é uma ponte entre os clientes e os produtores e associações, fortalecendo a autonomia dos povos e promovendo o comércio justo.
- Nos últimos anos, a comercialização de artesanato alcançou a taxa de 65% de crescimento, saltando de R$235 mil em 2022 para R$390 mil em 2024. Somando o desempenho da GaleriAmazônica, o faturamento total em 2024 foi de R$1,36 milhão.
Departamento de Negócios da FOIRN
- Criado em 2021, o Departamento de Negócios da FOIRN atua como uma ponte entre o governo e instituições com associações e iniciativas indígenas, buscando a conexão e a estruturação de negócios e políticas públicas voltadas às economias da sociobiodiversidade.
- O departamento abrange diversas cadeias produtivas e iniciativas, como:
1. Artesanato: produção tradicional e cultural dos povos do Rio Negro.
2. Turismo de Base Comunitária: inclui a pesca esportiva e iniciativas de ecoturismo, como as Serras Guerreiras de Tapuruquara e o Yaripo - Ecoturismo Yanomami.
3. Produtos Alimentícios: Pimenta Baniwa, Casa de Frutas, meliponicultura (produção de mel de abelhas sem ferrão), Tucupi Preto, e outros produtos do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro.
4. Mercados Institucionais: fortalecimento das roças tradicionais através do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
- Resultados Financeiros (2023 e 2024): as iniciativas econômicas apoiadas pelo departamento movimentaram um total de R$7,2 milhões, com crescimento de R$3,27 milhões em 2023 para R$3,94 milhões em 2024.
- Os planos para o futuro incluem o desenvolvimento do Wariró Sabores, com foco na comercialização de alimentos como pimenta, tucupi preto e mel; a expansão da pesca esportiva e o apoio a projetos comunitários, como Kalipana - Casa de beneficiamento de produtos do Sistema Agrícola Kaali.
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