Empreendimento custou solos sagrados para povos indígenas e comunidades tradicionais; kit didático apresenta resistência aos efeitos negativos, que perduram até hoje
No dia 05 de maio de 2016, foi inaugurada a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, localizada no Rio Xingu, no Pará, durante o segundo ano do segundo mandato da então presidenta da República, Dilma Rousseff (PT). A usina tornou-se a terceira maior hidrelétrica do mundo em capacidade instalada, mas também um símbolo de destruição ambiental e violação de direitos.
Veja a Exposição PIB 1980-2013 na plataforma Google Artes and Culture, com fotos do cacique Krumare e outras lideranças Kayapó, constatando os primeiros impactos da obra no lago de Tucuruí.
O projeto foi historicamente controverso e enfrentou intensa resistência de comunidades indígenas, beiradeiras e organizações da sociedade civil, tanto nacionais quanto internacionais.
Desde o início do licenciamento, antes da emissão das licenças prévias e de instalação, o projeto do empreendimento hidrelétrico foi criticado por centenas de pesquisadoras e pesquisadores das mais diversas áreas do conhecimento que articularam um painel de especialistas para questionar a viabilidade ambiental e social da obra.
A construção, que se estendeu por anos, foi marcada por questionamentos sobre o licenciamento ambiental em relação aos impactos irreversíveis na bacia do Rio Xingu e no modo de vida das populações tradicionais.
Assista ao documentário que conta os impactos da hidrelétrica a 300 famílias ribeirinhas que foram violentamente removidas de suas casas para a construção da usina:
O começo dessa história se dá em 1975, quando se iniciavam os Estudos de Inventário Hidrelétrico da Bacia Hidrográfica do Rio Xingu. Ainda em contexto ditatorial, no ano de 1980, a recém-criada estatal Centrais Elétricas do Norte do Brasil, conhecida como Eletronorte, assume o projeto e começa a fazer estudos de viabilidade técnica e econômica do chamado Complexo Hidrelétrico de Altamira, formado pelas usinas de Babaquara e Kararaô. Nove anos depois, em 1989, ocorreu o I Encontro dos Povos Indígenas do Xingu em Altamira (PA), onde foram discutidas questões relativas ao possível barramento do Rio Xingu. O evento foi palco do feito icônico de Tuíre Kayapó ao apontar seu facão em direção ao rosto de José Antônio Muniz Lopes, então presidente da Eletronorte, como símbolo de luta e resistência.
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A fotografia foi veiculada em grandes jornais nacionais e internacionais, rompendo o silêncio histórico imposto às vozes indígenas e ampliou o debate público sobre o projeto.
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Entre os anos 1990 e 2000, o projeto da usina foi paralisado, sendo retomado a partir de um acordo de cooperação entre a Eletronorte e Eletrobrás, para a complementação dos estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental da usina.
Os povos do Xingu não tiveram descanso ao longo das décadas seguintes. O projeto da Usina Hidrelétrica de Belo Monte foi sucessivamente retomado por diferentes governos federais. Durante a gestão do ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), os estudos para a viabilidade da usina foram reavivados. Em carta ao então presidente, o Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica do Xingu pediu a suspensão de todas as obras de grande impacto na região, em especial da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, até que houvesse uma discussão exemplar e a construção de consensos com a sociedade local:
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“Ousamos fazer nosso próprio projeto de desenvolvimento. Isso é modernidade, Sr. Presidente: a sociedade local pensar políticas públicas e dialogar com seu governo sobre o futuro de uma região.”
Leia a carta na íntegra
Carta enviada ao presidente Fernando Henrique Cardoso
No segundo mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o projeto foi retirado da gaveta e encaminhado para execução. Já durante o governo Dilma Rousseff, a hidrelétrica foi inaugurada e entrou em operação, sob administração da empresa concessionária Norte Energia, maior acionista do empreendimento, desde 2010. Posteriormente, em 2019, durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL), foi inaugurada a última turbina da usina, concluindo sua implementação.
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Indígenas e ribeirinhos monitoram a vida no Rio Xingu
A partir de 2015, após a emissão da Licença de Operação que culminou no barramento do Rio Xingu, famílias ribeirinhas, moradoras das ilhas e margens do rio foram expulsas de seu território para dar lugar ao reservatório principal da usina. O deslocamento forçado provocou dispersão social, empobrecimento e violação de direitos.
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Mas desde 2013, grupos independentes fazem o monitoramento das águas da região da Volta Grande do Xingu. O Monitoramento Ambiental Territorial Independente (MATI) nasceu em 2014 com o objetivo de registrar as alterações provocadas pela relação entre a vazão do Rio Xingu e os impactos ambientais causados por Belo Monte, utilizando métodos de produção de dados que unem os conhecimentos tradicionais e científicos.
Recentemente, no dia 21 de fevereiro de 2026, os indígenas e ribeirinhos do MATI identificaram, pelo quarto ano seguido, milhões de ovas de peixes morrendo em um local que deveria ser um berçário: a Piracema do Odilio. Em carta às autoridades, a equipe do MATI denunciou:
“Conforme destacado pela decisão do Ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, não houve consulta livre, prévia, informada e de boa fé no licenciamento da Usina [de Belo Monte]. Agora, com às consequências nefastas desse empreendimento, tem-se uma nova oportunidade de seguir por outro caminho, em conformidade com a legislação, prezando pela sustentabilidade e pelos direitos humanos.“
Veja na íntegra
Carta do MATI às autoridades
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Professoras(es), venham conhecer o kit didático que articula documentos históricos a partir de uma questão-problema para apoiar discussões e atividades sobre o assunto em sala de aula!
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Quer se aprofundar mais na luta das comunidades da Volta Grande do Xingu contra os impactos da UHE Belo Monte? Confira os textos, cronologias e imagens do capítulo Sudeste do Pará na série de livros Povos Indígenas do Brasil, para um histórico de mais de 40 anos de resistência na região. A coleção está disponível no site Povos Indígenas no Brasil, do ISA, e no Acervo Socioambiental.
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A história de Belo Monte é marcada pela violação de direitos e a não responsabilização pelos danos ambientais decorrentes da hidrelétrica. São cursos de rios e histórias ancestrais interrompidas pela insistência de um empreendimento pensado em contexto de escassez de políticas ambientais e de perseguição e não valorização da vida e da cultura dos povos que preservam a região.
Referências bibliográficas
CAMARGOS, Daniel. Marco Temporal: “Os políticos são covardes”, diz guerreira Tuíre Kayapó. Repórter Brasil, 19 out. 2023. Disponível em: https://reporterbrasil.org.br/2023/10/marco-temporal-tuire-kayapo/
CARTA ABERTA ENCERRA ENCONTRO DE ALTAMIRA. Diário Popular: São Paulo. 1989. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/noticias/carta-aberta-encerra-encontro-em-altamira. Acesso em: 13 fev. 2026.
DE OLHO NOS RURALISTAS. Do facão a Brasília, Tuíre Kayapó marcou história na luta indígena. YouTube, vídeo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=1giwvJyq77s
ELETROBRÁS RETOMA PLANOS DA USINA DE BELO MONTE. Gazeta Mercantil: São Paulo. 2000. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/noticias/eletrobras-retoma-planos-da-usina-de-belo-monte. Acesso em: 13 fev. 2026.
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HIDRELÉTRICAS PREOCUPAM ITÁLIA. Gazeta Mercantil: São Paulo. 1989. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/noticias/hidreletricas-preocupam-italia. Acesso em: 13 fev. 2026.
INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL (ISA). Nota de pesar pelo falecimento de Tuíre Kayapó, liderança feminina indígena. São Paulo, 2024. Disponível em: https://www.isa.org.br/noticias-socioambientais/nota-de-pesar-pelo-falecimento-de-tuire-kayapo-lideranca-feminina
KARARAÔ VEM AÍ: PROJETO TEM A SIMPATIA DOS PRINCIPAIS CANDIDATOS ÀS ELEIÇÕES. Revista Ecologia e Desenvolvimento: São Paulo. 2002. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/noticias/kararao-vem-ai-projeto-tem-simpatia-dos-principais-candidatos-eleicoes. Acesso em: 13 fev. 2026.
KARARAÔ VIRA BELO MONTE, ÚNICA CONCESSÃO AO ÍNDIO. Diário Popular: São Paulo. 24 fev. 1989. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/noticias/kararao-vira-belo-monte-unica-concessao-ao-indio. Acesso em: 13 fev. 2026.
RICARDO, Carlos Alberto (org.). Povos Indígenas no Brasil: 1987/88/89/90. São Paulo: Instituto Socioambiental, 1991. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/livros/povos-indigenas-no-brasil-1987-88-89-90
TENSÃO MARCA DEBATE SOBRE HIDRELÉTRICA. O Globo, Rio de Janeiro, p. C7, 22 fev. 1989. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/noticias/tensao-marca-debate-sobre-hidreletrica
**A série Hoje na História Socioambiental apresenta a riqueza de informações do Acervo do Instituto Socioambiental que conta com mais de 250 mil itens catalogados voltados para a temática socioambiental como publicações do ISA, livros gerais, teses e dissertações, mapas, notícias, materiais audiovisuais, entre outros. Hoje na História Socioambiental é um convite a reler o Brasil com mais amplitude, sensibilidade e justiça, valorizando a memória e documentação dos diversos povos.
Esta publicação conta com o apoio do Fundo Amazônia e é um produto do projeto "Defesa e Promoção dos Direitos Indígenas no Brasil: Construir Capacidades e Engajar Pessoas por um Futuro mais Justo", realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), com o financiamento da União Europeia.
Este material tem conteúdo de responsabilidade exclusiva da instituição realizadora e não reflete a posição da União Europeia.
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