A Queda do Céu foi eleito o melhor livro na seleção do jornal Folha de S.Paulo; Ideias para Adiar o Fim do Mundo e Dar Terra à Terra reforçam presença indígena e quilombola no topo da literatura brasileira
O jornal Folha de S.Paulo elegeu “A Queda do Céu” como o melhor livro brasileiro de não ficção do século 21. A obra de Davi Kopenawa e Bruce Albert foi indicada por 23 dos 100 jurados que ajudaram a elaborar a lista.
Lançado em 2010, originalmente em francês, “A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami” reúne reflexões de Davi Kopenawa, contadas ao amigo Bruce Albert, sobre o contato de seu povo com os não indígenas desde os anos 1960.
O livro do maior líder indígena yanomami, Davi Kopenawa, tem 768 páginas e foi publicado no Brasil em 2015 pela Companhia das Letras, com apoio da Hutukara Associação Yanomami (HAY) e do Instituto Socioambiental (ISA).
A Folha de S.Paulo afirma que o resultado da votação é “uma seleção de livros instrumentais para entender melhor o Brasil e o mundo de hoje, analisando como chegamos até aqui e sugerindo novos ângulos para mirar adiante”. O jornal descreve o livro como “a obra que marcou a disseminação do pensamento indígena no Brasil”.
Em 2025, a obra já havia aparecido na lista de melhores livros de literatura brasileira em uma eleição organizada pela Folha de S. Paulo com 101 jurados, diferentes dos que participaram da lista atual.
“A Queda do Céu” inspirou o enredo da Salgueiro no desfile de 2024, denominado “Ya Temi Xoa” (Ainda Estamos Vivos, em tradução literal para o português) com um desfile que projetava a cosmovisão yanomami. Os bastidores e a festa resultaram em um filme, fruto de parceria entre o ISA e HAY, disponível no YouTube. Assista abaixo:
Além de ter se tornado um marco teórico e leitura obrigatória para a Antropologia contemporânea, o livro figura como obra de referência em diversas áreas do conhecimento e regiões do país – inclusive na própria Universidade Federal de Roraima (UFRR), uma das instituições em que Davi recebeu o título de doutor honoris causa. A Queda do Céu também vem inspirando pesquisadores indígenas na academia, como é o caso dos primeiros mestres yanomami, formados pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), na metodologia de suas dissertações de Mestrado.
Os exercícios de escrita colaborativa entre a liderança yanomami e o antropólogo não indígena que resultaram na obra foram iniciados há décadas, parte deles publicados na seção “Narrativas Indígenas”, da série Povos Indígenas no Brasil, do ISA. Confira Sonhos das origens/Descobrindo os brancos, narrativa publicada no ano 2000.
A obra também se desdobra em produções audiovisuais, como o curta-metragem “Mãri hi – A árvore do sonho”, do cineasta Mozarniel Yanomami – vencedor do Festival É Tudo Verdade em 2023 – e um longa-metragem com o mesmo nome do livro, lançado em 2024 após estreia no Festival de Cannes. O documentário é centrado no reahu - festa tradicional dos Yanomami - e apresenta a cosmologia do povo Yanomami, o mundo dos espíritos Xapiri pë, o trabalho dos xamãs para segurar o céu e curar o mundo das doenças produzidas pelos não-indígenas, o garimpo ilegal, o cerco promovido pelo povo da mercadoria e a vingança da Terra.
Autorias indígenas e quilombolas em destaque
Além de A Queda do Céu, outro livro de autoria indígena figura na lista do jornal: Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak. A obra deste que foi o primeiro escritor indígena a ter assento na Academia Brasileira de Letras (ABL), recebeu 17 votos e figura em 4º lugar na seleção.
No 21º lugar ficou a obra Dar terra à terra, de Nêgo Bispo, aclamado escritor e liderança quilombola do Quilombo do Saco-Curtume, no Piauí, falecido em 2023.
Memória do Cacique, a biografia do líder Raoni Metuktire publicada em 2025, não ficou entre as cem obras mais votadas, mas figura entre os outros livros que também foram lembrados pelos especialistas convidados pela FSP, com três menções.
Entre os jurados votantes, estiveram especialistas como a psicóloga indígena Geni Nũnez, do povo Guarani, o jornalista não indígena Rubens Valente, além de pesquisadores não indígenas como Muniz Sodré, Tiganá Santana, Márcia Lima, Aparecida Vilaça, Débora Diniz, entre outros.
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