Sob Bolsonaro, mineração ilegal na Terra Indígena Kayapó superou em 30% total destruído nos últimos 40 anos

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Em manifesto, 60 aldeias do povo Kayapó repudiam projeto de lei que pretende legalizar a mineração em seus territórios; mais de 5,7 mil focos de garimpo foram detectados entre 2018 e 2020 em Terras Indígenas e Unidades de Conservação na bacia do Xingu
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“Eu não quero que acabem com a minha terra e a minha água. Queremos apenas nossa floresta em pé para que os nossos netos possam sobreviver”, pede uma menire, mulher do povo Kayapó, em manifesto gravado por 60 aldeias em repúdio ao avanço da mineração ilegal em seus territórios. Reunidos na aldeia Kriny, Terra Indígena Kayapó (PA), os indígenas pedem o arquivamento de projetos de lei que pretendem legalizar o garimpo.

Entre 2018 e 2020, período que coincide com a campanha e mandato de Bolsonaro, o desmatamento na TI Kayapó decorrente do garimpo atingiu 4,7 mil hectares e superou em 31% o total desmatado em quase 40 anos - entre 1980 e 2017. “Estamos em constante luta pela nossa sobrevivência e para permanecer quem somos. Não vamos abrir mão de nossas terras por promessas falsas vindas do governo Bolsonaro”, alertam os Kayapó. [Leia a carta na íntegra]

A taxa continuou a subir nos primeiros dois meses do ano de 2021, quando 256 hectares foram desmatados na TI Kayapó, 18% a mais em relação a janeiro e fevereiro de 2020.

Além da TI Kayapó, a mobilização contou com indígenas das TIs Menkragnoti, Las Casas e Baú, representando uma população de aproximadamente 6,5 mil pessoas.

Os dados são do 23º boletim Sirad X, o sistema de monitoramento de desmatamento da Rede Xingu +, articulação de indígenas, ribeirinhos e organizações da sociedade civil para a defesa dos direitos dos povos do Xingu.

“Com dezenas de máquinas, centenas de garimpeiros, focos de garimpo espalhados por um território enorme e múltiplas vias de acesso terrestre, são necessárias ações contínuas e permanentes com operações de comando e controle que possam cobrir todo o território ameaçado, uma vez que os infratores, motivados pelo retorno financeiro do ouro, regressam pouco tempo após a saída das equipes de fiscalização”, diz o texto.

Mineração ilegal avança impunemente no Xingu

Uma nova onda de garimpos ilegais ameaça Áreas Protegidas da bacia do Xingu. A partir de 2018 e durante 2019, áreas de garimpo foram abertas ou reativadas em três Terras Indígenas e quatro Unidades de Conservação. [Saiba mais no “Dossiê garimpo no Xingu]

O garimpo ilegal ganhou força em novas regiões, ativando áreas que estavam fechadas há mais de 14 anos, como na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, no Pará. Além do Riozinho do Anfrísio e da TI Kayapó, que concentrou 82% de mineração no Xingu entre 2018 e 2020, a atividade ilegal se intensificou nas TIs Trincheira Bacajá, Baú, Apyterewa e Cachoeira Seca, na Floresta Nacional de Altamira, no Parque Nacional da Serra do Pardo e na Reserva Extrativista Iriri.

No primeiro bimestre de 2021, foram detectados 287 hectares de garimpo nas Terras Indígenas e Unidades de Conservação do Xingu, colocando em risco a saúde dos povos indígenas e populações tradicionais.

Entre janeiro e fevereiro deste ano, foram detectados 13 hectares no garimpo situado na Terra Indígena Trincheira Bacajá, dos Xikrin, e 4 hectares em dois garimpos na Terra Indígena Apyterewa, dos Parakanã. Os dois territórios também enfrentam o avanço da grilagem em seus territórios. [Saiba mais no especial “Xingu sob Bolsonaro”]

“Se por um lado a elevada cotação do ouro no mercado internacional sustenta essa atividade de forte risco e que implica em enormes prejuízos sociais e ambientais, a total ausência de controle do caminho do ouro no Brasil serve de incentivo”, diz o texto do boletim.


Isabel Harari
ISA
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