Compre a sua edição de Diários Yanomami: Testemunhos da Destruição da Floresta, na loja online do ISA.
O geógrafo do Instituto Socioambiental (ISA), Estêvão Benfica Senra, estará presente explicando o processo de pesquisa desenvolvido pelos cinco autores Yanomami do livro.
“No período Bolsonaro com a desestruturação da presença do Estado no território, abandono de escolas, postos de saúde e outras estruturas, tinha-se uma situação muito angustiante: pessoas que haviam passado por processos formativos duradouros ficaram sem poder exercer suas funções, e sem perspectiva de trabalho”, explicou Senra.
Diante deste cenário, a pesquisa surgiu como uma forma de continuar apoiando esses indígenas além de ser uma forma de se produzir informações qualificadas sobre o território, com o objetivo de entender as mudanças que as comunidades experimentavam, com a explosão da invasão garimpeira.
Os autores do livro Diários Yanomami são Mozarildo Yanomami, Darysa Yanomami, Josimar Palimitheli Yanomami, Alfredo Himotona Yanomama e Marcio Hesina.
Os diários apresentam a percepção dos cinco autores e de seu povo sobre os impactos do garimpo na Terra Indígena Yanomami entre 2019 e 2022, período em que o Jair Bolsonaro (PL) ocupava o cargo de presidente do Brasil. A gestão foi marcada por políticas que estimularam a invasão garimpeira no território.
A publicação conta com relatos em formato de diários, registro de depoimentos e também entrevistas feitas pelos indígenas. O livro é bilíngue e sempre apresenta a primeira versão do texto em Yanomae com a tradução para português na página seguinte.
Lançamento em Boa Vista
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Da direita para a esquerda: Mozarildo Yanomami, Davi Kopenawa e Darysa Yanomami, tirando foto com o público no evento de lançamento do livro Diários Yanomami em Boa Vista (RR)|Rafael Oliveira/Mega Filmes/Hutukara/ISA
O primeiro acesso do público ao Diários Yanomami ocorreu em 24 de maio. O lançamento ocorreu no Centro Amazônico de Fronteira, o maior auditório da Universidade Federal de Roraima (UFFR) durante o evento Reahu na UFRR.
Na ocasião, os autores Darysa Yanomami e Mozarildo Yanomami estiveram acompanhados pelo xamã Davi Kopenawa, que também lançou o seu livro O Espírito da Floresta.
A publicação tem apoio do Fundo das Nações Unidas para a criança e adolescente (UNICEF), da Rainforest Foundation Norway e do Centro de Documentação Indígena (Missionários da Consolata). Também contribuem com apoio financeiro o Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária da União Europeia (ECHO) da União Europeia.
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Crianças brincando no rio, na Terra Indígena Cué-Cué Marabitanas (AM)|Juliana Radler/ISA
Em uma das regiões mais conservadas do país, uma jovem indígena partilhava um mingau com sua avó. Carregada de interesse, Elizângela da Silva, ouvia atentamente aos mitos do povo Baré.
Os mitos têm um significado importante para a população indígena do Rio Negro. São narrativas que contam sobre o sol, a noite e o rio, tecidas pela sabedoria e experiência dos mais velhos.
“Quando sua avó vai contar o mito da Mandioca, ela vai contando os processos, as origens. Ela vai dizendo ‘isso pode fazer’, ‘isso não pode fazer’. Desde criança a gente aprende o que a natureza pode nos causar caso a gente não respeite ela”, contou ao ISA.
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Agricultora Elizangela Baré segurando a maniva (mandioca). Alimento ocupa lugar central no Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro|Fellipe Abreu/National Geographic
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Elizangela da Silva, do Povo Baré, e Dona Mercedes Gregório, do povo Baniwa, descascam maniva na cozinha do Sítio São Bernardino |Fellipe Abreu/National Geographic
Com a chegada das escolas na Terra Indígena Cué-Cué Marabitanas, a rotina mudou. Os banhos de rio e os momentos com a avó foram dividindo espaço na rotina com o processo de alfabetização.
O aprendizado da língua portuguesa - até então desconhecida para a menina falante de Nheengatu - fora um pedido do avô. Junto da tia e da irmã, Elizângela subia diariamente o rio remando em canoa para chegar à escola.
Sem conseguir avançar nos estudos devido a precariedade das escolas rurais da época, mudou-se para a sede do município de São Gabriel da Cachoeira em 1993, aos nove anos de idade, onde morou na casa de parentes. Mesmo criança, precisou cuidar dos filhos de amigas dos familiares para continuar nos estudos.
Na casa de médicas da Associação Saúde Sem Limites - que desenvolvia projetos de assistência médica a povos indígenas e comunidades tradicionais - Elizângela Baré aprendeu sobre saúde e direitos dos povos indígenas.
Essa experiência, aliada à participação em um grupo da Pastoral da Juventude, permitiu seu ingresso no movimento indígena.
Participando dos eventos do Departamento de Jovens Indígenas do Rio Negro (DAJIRN), Elizângela acompanhou os bastidores da criação do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN) da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), em 2002.
No ano seguinte, concluiu o Ensino Médio. No entanto, o cuidado com a família não permitiu a continuidade dos estudos e, em 2009, mudou-se novamente para o território indígena, dessa vez na comunidade onde morava a família do marido.
Em São Gabriel Mirim, recebeu o convite para atuar como professora no momento em que o sistema escolar municipal deixava de ser "rural" para ser "indígena" e nucleadas, com participação da comunidade escolar nas decisões da gestão pedagógica e do calendário das atividades, respeitando os modos de vida e a dinâmica das atividades coletivas das comunidades. Apesar de não ter frequentado o magistério, recebeu uma carta de recomendação da comunidade, e passou a ministrar aulas para uma turma multisseriada, com alunos da primeira à quinta série.
Um ano depois, recebeu um novo convite, dessa vez para assumir a gestão da escola nucleada Baré Napirikuri (que congregava escolas de 08 comunidades). O regulamento para exercício do cargo exigia a formação acadêmica mas, mais uma vez, a comunidade, confiando no trabalho realizado como professora, tomou a defesa de Elizângela.
Foi eleita em votação feita pelas famílias dos alunos, em 2010, e permaneceu no cargo até 2016. Com o apoio da família e da comunidade, enfrentou as críticas de professores homens indígenas que a acusavam de não ter capacitação para a função exercida.
“Na época não entendia o que era bullying, não entendia o que era racismo. Eu não sabia o que era essas coisas de patriarcado. [...] Eu não sabia de nada, mas eu peguei o microfone e eu falei ‘temos que respeitar, os pais dos alunos votaram’.”, lembra.
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Elizângela da Silva, do povo Baré, durante ato pelo 8 de março, na orla da praia de São Gabriel da Cachoeira (AM)|Juliana Radler/ISA
Apesar da resistência dos professores e de alguns homens da comunidade, atuou pela igualdade de gênero e pelo fim da violência contra as mulheres indígenas.
Nos almoços coletivos do centro social sensibilizou as famílias para que a comida fosse compartilhada entre homens e mulheres no mesmo momento, o que promoveu uma alteração na dinâmica onde homens se serviam antes das mulheres.
Nas salas de aula, compartilhou com os alunos o que presenciou no movimento de mulheres indígenas em São Gabriel da Cachoeira. No chão do território, realizou oficinas de artesanato e seminários sobre culinária, onde sábia e discretamente trouxe à discussão assuntos como empoderamento, direito da mulher e como diferenciar tradição de violência.
Em 2017, assumiu a coordenadoria do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Dmirn/Foirn), onde permanceu até 2020.
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Elizângela Baré (em baixo, à direita) e demais integrantes da diretoria da Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (AMIARN), em São Gabriel Mirim|Juliana Radler/ISA/2017
Na época, Elizângela tinha concluído uma graduação em sociologia e cursava especialização em Educação Indígena. Ela conta que a opção por continuar os estudos enquanto trabalhava gerou desconfiança entre algumas lideranças.
“Quando eu entrei na Foirn, as lideranças diziam ‘tu tem que escolher: você quer ser estudante da universidade ou você quer ser liderança?’, e eu falei ‘eu quero ser os dois, estou lutando pelos direitos coletivos e os meus’”.
Durante a pandemia de Covid-19, Elizângela, juntamente com Janete Alves, coordenou a campanha "Rio Negro, Nós Cuidamos", que tinha como objetivo garantir a promoção de saúde, segurança alimentar e direito à informação a mais de 800 comunidades onde convivem 23 etnias do Rio Negro.
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Elizângela da Silva durante operação de doação de 15 toneladas de equipamento de proteção individual para prevenção à Covid-19, em agosto de 2020|Raquel Uendi/ISA
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Elizângela Baré (de camiseta rosa) distribui máscaras de proteção contra a COVID-19, em maio de 2020|Raquel Uendi/ISA
A iniciativa visava captar recursos emergenciais para a compra de produtos de limpeza, ferramentas agrícolas, combustível, kits de pesca e alimentos não perecíveis, além da ampliação de serviços de comunicação fundamentais via radiofonia, carros de som e informes de áudio.
Além de atuar na conscientização sobre a doença nas comunidades, Elizângela foi porta-voz da campanha em vídeo publicado pela Foirn em abril de 2020.
Em 2023, Elizângela foi finalista do Prêmio Inspiradoras pelo levantamento e mobilização realizados para tornar públicos dados sobre violência contra mulheres em São Gabriel da Cachoeira.
No mesmo ano, ela ganhou o Troféu Mulher Imprensa por colaborações com a Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas e com o portal Sumaúma – onde apresentou o podcast Rádio Sumaúma.
Entre o território e a cidade: a ponte
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Elizângela Baré durante lançamento do especial 'Memoráveis' na loja Floresta no Centro, em São Paulo|Claudio Tavares/ISA
Quatro anos após o início da pandemia da Covid-19, Elizângela Baré, primeira indígena a fazer mestrado em Saúde Pública na Universidade de São Paulo (USP), divide sua rotina entre a Terra Indígena e a cidade de São Paulo.
No movimento indígena e na academia, sua luta para que os saberes notórios dos povos indígenas, aqueles ensinados pelos familiares muito antes de aprender o português, possam ser introduzidos no Sistema Único de Saúde (SUS).
“A gente adere muito bem ao sistema ocidental, como indígena, né? Mas eu acho que o Ocidente, a sociedade em si, também tá na hora de aderir aos nossos saberes notórios”, defende.
“A gente mostrou nossa ciência, a gente mostrou nossos saberes. Eu escrevi para a USP, que é parceira da Foirn desde 2010, que os cestos de conhecimento das mulheres reacenderam, porque mesmo aquela mulher indígena que morava na cidade, trabalhava de manhã e de tarde com carga horária, durante a Covid-19 ela parou e cuidou da sua casa. [...] Ela procurou a cura no quintal, ela procurou a cura no caminho da roça, ela procurou a cura na margem do rio”, disse.
No quinto episódio do podcast Casa Floresta, lançado pelo ISA em 2022, Elizângela explica como se dá a criação dos chamados “cestos de conhecimento”, conjunto de ensinamentos, passado oralmente pelos familiares e guardado no subconsciente.
"Cada uma das mulheres tem um cesto de conhecimento. Lá tá tudo. Quando eu fiquei pela primeira vez menstruada, eu aprendi o sistema de vida tradicional do meu povo. A nossa mãe que repassou esse cesto invisível."
“Nós, mulheres indígenas, há cinco séculos estamos fazendo a promoção de saúde com o nosso modo de ser, o nosso modo de cuidar. É isso que eu sonho hoje, que o pessoal de São Paulo, e dos outros Estados também, possam ter suas janelas que curam”, completou.
Cosmovisão como flecha
No cultivo das roças para alimentação ou no manejo de plantas com propriedades medicinais, é no contato com a terra que os povos indígenas reafirmam sua humanidade. Na cosmovisão de muitos povos do Rio Negro, a terra é viva, o que significa dizer que os elementos da natureza são dotados de consciência e agência.
"Quando a gente vai plantar roça, primeiro planta abacaxi que é para o abacaxi ser a copa da água e cuidar das manivas, dando água para elas. A natureza, se bem cuidada, nos faz bem, mas ela pode também nos fazer mal. Se a roça é bem cuidada, ela dá alimentos e proteção. Mas sem benzimentos e cuidados podemos ficar doentes."
Em entrevista ao ISA, realizada em setembro de 2023, após a 3ª Marcha das Mulheres Indígenas, Elizângela Baré fez da visão de mundo dos povos originários a flecha que orienta a mudança na sociedade.
“Imagine se uma planta falasse, o que ela ia falar? Qual é a dor que ela iria falar quando ela é derrubada, quando ela é queimada, quando ela é tirada do território? Quando é contaminada por mercúrio, o que a água iria falar?”, questionou.
A mobilização aconteceu em Brasília (DF) às vésperas do julgamento do “Marco Temporal” no Supremo Tribunal Federal (STF). Essa tese jurídica e anti-indígena busca estabelecer um critério temporal para a demarcação das Terras Indígenas, vinculado à data da promulgação da Constituição Federal.
Na entrevista, a liderança também defendeu a demarcação do seu território de nascença, a Terra Indígena de Cué-Cué Marabitanas (AM), que teve apenas seu processo de Declaração concluído.
“Eu nasci naquela terra. Nunca meu pai saiu de lá, meu pai nasceu naquela terra. Como é que a Lei vai dizer que aquela terra não é minha?! Se a nossa mãe perdeu sangue naquela terra para nos parir, aquela terra é nossa”, disse Elizângela. “O ‘Marco Temporal’ faz com que a gente se sinta insegura dentro do nosso território, é uma lei que visa a destruição dos povos indígenas”, completou.
Elizângela Baré transmite, via rádio, informações e orientações para a prevenção à Covid-19|Arquivo Pessoal
Adelina Desana (à esquerda) e Elizângela Baré (à direita), levam banner de prevenção para a comunidade do Waruá, do povo Dâw, em abril de 2020|Rede Wayuri
Elisângela Baré, da Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (AMIARN), durante gravação do podcast Casa Floresta em São Gabriel da Cachoeira (AM)|Pedro Hassan/ISA/2022
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Liderança indígena do Rio Negro reforça na ONU combate à discriminação contra as mulheres
A diretora da Foirn, Janete Alves, do povo Desana, apresentou uma série de reinvidicações em reunião do Comitê para a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres (Cedaw), na Suíça
Janete Alves, do povo Desana, em reunião da Organização das Nações Unidas (ONU) na Suíça|Renata Vieira/ISA
As mulheres indígenas da Amazônia foram representadas nesta segunda-feira (20/05) no Comitê para a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres (Cedaw) da ONU, em Genebra, na Suíça, por Janete Alves, do povo Desana, diretora da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN).
Ela participa, ao lado de outras mulheres indígenas e não indígenas, da 88ª Sessão de Avaliação do Brasil na Convenção da ONU sobre esse tema.
Janete Desana é liderança feminina da região de Iauaretê, distrito de São Gabriel da Cachoeira (AM), na fronteira com a Colômbia, e, para a sessão na ONU, pintou em seu rosto grafismos tradicionais do seu povo que significam mulher feliz e guerreira.
Em sua fala, ela pontuou uma série de pressões que as mulheres da região estão sofrendo, sobretudo a invasão de garimpeiros, que leva à contaminação da água e peixes pelo mercúrio, e o problema do tráfico internacional de drogas.
Além disso, Janete destacou as deficiências na saúde da mulher, que resultam em várias consequências, como a mortalidade por câncer de colo do útero e a ausência de medicina indígena no sistema de saúde formal.
A diretora da Foirn trouxe recomendações ao Estado brasileiro, dentre as quais que incorpore em seus quadros profissionais “nossos pajés, benzedores e parteiras e que contrate mulheres para tratamento ginecológico”.
“Que realize fiscalização territorial retirando os invasores das Terras Indígenas. Que nosso direito à consulta prévia previsto na Convenção 169 da OIT seja respeitado e que nossos Protocolos de Consulta sejam reconhecidos pelo Estado para todo projeto de extração mineral ou petróleo que afete nossos rios e nosso bem viver. Muito obrigada! Añu’u!”, disse, finalizando a fala com um agradecimento na língua Tukano.
Janete Desana representou a Rede de Cooperação Amazônica (RCA) que é integrada por 14 Organizações Indígenas e Indigenistas da Amazônia Brasileira, entre elas o Instituto Socioambiental (ISA).
Ela está acompanhada pela advogada do Programa Rio Negro do ISA, Renata Vieira. Segundo ela, as discussões vão acontecer durante toda essa semana e, ao final, o Cedaw fará recomendações aos governos para ações de combate à discriminação contra as mulheres.
Segundo Renata Vieira, a fala de Janete Desana como liderança indígena feminina reforça as vozes das mulheres, adolescentes e crianças indígenas vítimas de discriminação que geram violência de diversas formas.
Foram preparados e encaminhados dois relatórios com o objetivo de realizar uma avaliação da implementação dos direitos previstos na Cedaw, à luz da Recomendação número 39, que apresenta um conjunto de ações que devem ser tomadas pelos Estados para prevenir e proteger as mulheres e meninas indígenas contra a violência de gênero.
O Comitê reconhece que a violência de gênero contra mulheres indígenas é uma forma de discriminação e que ela afeta de forma desproporcional as meninas e mulheres indígenas.
Um dos relatórios foi elaborado pelo Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN) em parceria com o ISA, a RCA e Instituto Raça, Igualdade e Direitos Humanos. O DMIRN/FOIRN representa mulheres de 23 etnias, como Baré, Desana, Baniwa, Tukano, Dâw, Yanomami que vivem no território do Médio e Alto Rio Negro.
O documento (em espanhol) traz informações sobre dados coletados por meio de pesquisas, relatórios técnicos, depoimentos, cartas, atas de assembleias e vivências na última década pelas mulheres indígenas da região do Rio Negro, que concentra dois dos municípios mais indígenas do país, localizados na fronteira com Venezuela e Colômbia. Também traz uma lista de questões e recomendações relacionadas às dificuldades de acesso à saúde pública, segurança, direitos, entre outros.
Outro relatório foi elaborado pela Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM), Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé), RCA, Instituto sobre Raça, Igualdade e Direitos Humanos e traz elementos sobre a situação das mulheres indígenas do Oiapoque, Amapá, na fronteira com a Guiana Francesa, também na Amazônia Brasileira, tendo como base as questões e demandas das mulheres indígenas dos povos Karipuna, Galibi Marworno, Galibi Kali’na e Palikur.
A Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga) também encaminhou ao comitê da ONU um relatório sobre a situação das mulheres indígenas.
Confira o discurso completo ou assista no instagram da Rede de Cooperação Amazônica!
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Livro 'Diários Yanomami' será lançado na Universidade Federal de Roraima
Evento em 24 de maio, "Reahu na UFRR", apresenta obra de cinco autores Yanomami que registraram percepções sobre as mudanças na maior Terra Indígena do Brasil entre 2019 e 2022; livro está em pré-venda na loja online do ISA
Diários Yanomami: Testemunhos da Destruição da Floresta, livro escrito por cinco autores indígenas da Terra Indígena Yanomami, entra em pré-venda nesta quarta-feira (15/05) na loja do Instituto Socioambiental (ISA). A publicação será lançada em Boa Vista, Roraima, durante o evento “Reahu na UFRR”, com palestra do xamã Davi Kopenawa na Universidade Federal de Roraima (UFRR).
Reserve o seu exemplar de Diários Yanomami: Testemunhos da Destruição da Floresta, na loja online do ISA.
Reahu, que pode ser traduzido do Yanomae para o português como festa ou celebração, é o principal ritual dos Yanomami. Durante o evento na UFRR, Kopenawa também lança seu novo livro O Espírito da Floresta, que repete a parceria de sucesso com o antropólogo Bruce Albert.
Os autores do Diários Yanomami são Mozarildo Yanomami, Darysa Yanomami, Josimar Palimitheli Yanomami, Alfredo Himotona Yanomama e Marcio Hesina. Eles apresentam a percepção deles e de seu povo sobre os impactos do garimpo na Terra Indígena Yanomami entre 2019 e 2022, período em que o Jair Bolsonaro (PL) ocupava o cargo de presidente do Brasil. A gestão foi marcada por políticas que estimularam a invasão garimpeira no território.
A publicação conta com relatos em formato de diários, registro de depoimentos e também entrevistas feitas pelos indígenas. O livro é bilíngue e sempre apresenta a primeira versão do texto em Yanomae com a tradução para português na página seguinte.
“Eu quero que vocês, brancos que nos defendem à distância, ouçam estas minhas palavras”, inicia o capítulo “Diários”, escrito pelo pesquisador Mozarildo Yanomami. A reflexão de Mozarildo passa pela violência dos garimpeiros contra as mulheres, sobre o desconhecimento dos não indígenas às violações que os Yanomami sofrem e o desejo de que esta publicação jogue luz sobre o tema e ajude a salvar o povo dele.
“Meu trabalho nesta pesquisa Urihi Temi teve um propósito, foi sério. Então, o que pensam depois de ler estas minhas palavras? Mando-as de onde moro, na Terra Yanomami. Não foi um filho de branco que fez esta pesquisa. Portanto, acreditem nelas”, pontua Mozarildo.
A pesquisa, o olhar sensível e as recordações de Mozarildo atravessam a onda de violência causada pelos invasores, mergulha na infância do pesquisador, detalha o encontro que teve com os garimpeiros ilegais na sua terra natal e descreve os cuidados dos Yanomami com a floresta (Urihi a) apesar de perceberem a devastação da terra e a seca dos rios enquanto os invasores “se apossam da terra”.
Na parte de entrevistas, Alfredo Homotona disseca as transformações que o garimpo causou no modo de vida dos Yanomami - da cultura, natureza, liberdade e relações pessoais. Com entrevistados de diferentes regiões das terras altas, muitos hospedados na Casa de Saúde Indígena (Casai) em Boa Vista, como pacientes ou acompanhantes de parentes enfermos.
Alfredo captura o depoimento de mulheres, anciãos e principalmente de jovens que foram cooptados, usados e enganados por promessas dos garimpeiros ilegais.
A pesquisadora e comunicadora Darysa Yanomami reuniu depoimentos de diversas mulheres das terras-baixas, na Terra Indígena Yanomami. Ela apresenta uma sequência de 12 depoimentos com mulheres de diferentes regiões impactadas pela atividade ilegal: corrupção de jovens, assédio às mulheres, destruição dos alimentos e oferta de comida industrializada em troca de silêncio e favores.
“Fiquei muito preocupada ao ver as imagens de crianças desnutridas em outras regiões. É esse o rastro que deixam os garimpeiros onde ficam perto [dos Yanomami], por isso, não os queremos. Eles nos trazem muito sofrimento, por isso, não queremos que se aproximem. Quando os garimpeiros poluem nossa terra, a malária se alastra muito”, conta uma moradora da região de Wakatha que diz temer e chorar muito pelo futuro dos netos.
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Darysa Yanomami, autora do livro Diários Yanomami|Corrado Dalmonego
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Jovens Yanomami em oficina sobre tradução em 2017|Corrado Dalmonego
“Quando a floresta era bonita”, “quando os garimpeiros invadiram a terra” e “a trapaça dos garimpeiros”. Estes são alguns dos títulos dos diários de Josimar Palimitheli Yanomami. Ele relata como os garimpeiros chegaram ao Palimiu após enganarem algumas lideranças com promessas não cumpridas e como os Yanomami experimentaram a rápida devastação da terra e a poluição dos rios.
“Antigamente, nossos rios eram bonitos, a água era limpa, escura. Os peixes também eram limpos. Era bom, mas quando chegaram muitos garimpeiros, eles poluíram nossos rios. Instalaram suas balsas no meio do rio. Os que subiam de barco, jogavam lixo. Então, os peixes comiam os dejetos sujos e gordurosos das máquinas deles. Ao comer aquela sujeira, os peixes se contaminaram, a carne amoleceu. Foi isso que os garimpeiros fizeram quando começaram a chegar em grandes números e trabalhar com as balsas”, escreve Josimar em seus diários.
Com detalhes, Josimar relembra a primeira vez que o povo de Palimiu viu sacos de lixo em seu rio. As sacolas plásticas estavam acompanhadas de um corpo boiando de um dos garimpeiros. A data era 12 de junho de 2022 - um domingo - e marcava o início de uma era de terror para os Yanomami com conflitos armados e muitas ameaças por parte dos garimpeiros.
Márcio Hesina apresenta a última parte do Diários Yanomami. Ele introduz uma pesquisa sobre o emagrecimento das crianças no Haxiu. Adoecido durante a fase de investigações, Márcio conseguiu fazer o trabalho com famílias de quatro comunidades e ouvir pacientes da Casai, mas não chegou a finalizar o estudo.
Diários Yanomami é um livro realizado pela Hutukara Associação Yanomami (HAY) e o Instituto Socioambiental (ISA). A produção editorial é assinada por Estêvão Senra, geógrafo do ISA, que também faz parte dos times de organização e edição junto a Alcida Ramos e Corrado Dalmonego. A tradução de Yanomae para Português foi feita por Dalmonego conjuntamente com os pesquisadores.
A publicação tem apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), da Rainforest Foundation Norway e do Centro de Documentação Indígena (Missionários da Consolata). Também contribuem com apoio financeiro o Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária da União Europeia (ECHO).
Serviço
Lançamento dos livros Diários Yanomami e O Espírito da Floresta no Reahu na UFRR
Data: Sexta-feira, 24/05, a partir das 18h30
Local: Centro Amazônico de Fronteira (CAF) na Universidade Federal de Roraima
Endereço: Av. Nova Iorque, 48-188 - Aeroporto, Boa Vista - RR
Entrada aberta ao público!
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No Rio Negro, cartilha aborda cuidados com o uso do álcool entre indígenas
Material discute consumo de bebidas tradicionais e industrializadas, informando sobre riscos e apontando alternativas de enfrentamento à questão
A cuia de caxiri, uma bebida fermentada apreciada pelos indígenas do Médio e Alto Rio Negro (AM), juntamente com a pimenta, cipós e chás, constituem elementos tradicionais fundamentais para os povos dessa região. Estes elementos, combinados com outras substâncias, preparos e alimentos, desempenham um papel essencial no fortalecimento das atividades coletivas, na coesão das comunidades, nos laços familiares e nos rituais.
O material aborda o problema do abuso de álcool nessa região, oferecendo diversas estratégias de redução de danos, cuidados e fortalecimento para lidar eficazmente com essa questão.
Apesar da falta de dados oficiais, a percepção dos indígenas, das organizações e de profissionais da saúde é de que o abuso do álcool vem crescendo nas áreas urbanas e nos territórios indígenas.
Deslocado do contexto cultural e ritualístico, o uso da bebida vem ganhando contornos preocupantes. Alguns problemas pontuados na própria cartilha são: mortes causadas por brigas, violências contra as mulheres e as crianças, acidentes, afogamentos e enforcamentos.
A cartilha aborda o tema de forma intercultural e interinstitucional, abrindo para discussão das formas de enfrentamento ao problema.
Desenvolvido pelo Instituto Socioambiental (ISA) e Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), o material foi elaborado em parceria com o Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (Dsei-ARN) e com apoio de instituições do município.
Coordenador do Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (DAJIRN/Foirn), Elson Kene explica que o conteúdo começou a ser preparado antes da pandemia, sendo que a crise sanitária acabou atrasando a sua divulgação. “Com esse material, vamos ampliar a conscientização e buscar parcerias para minimizar o problema”, explicou.
A liderança indígena Adelina Sampaio, povo Desana, é ex-coordenadora do DAJIRN/Foirn e deu início ao trabalho de construção da cartilha, após rodas de conversas realizadas em escolas de São Gabriel da Cachoeira, onde o problema foi trazido pelos estudantes e professores.
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Trecho de cartilha editada por ISA e Foirn no Rio Negro/Divulgação
“Em 2017, com problemas de homicídios, suicídios e outros problemas sociais, a gente começou a fazer uma conversa dentro das escolas de São Gabriel da Cachoeira. E fizemos esse apanhado para criar essa cartilha. Foi um trabalho muito estruturado com presença do Conselho Tutelar, DSEI, Diocese, Foirn, ISA e outros parceiros. O DAJIRN trabalhou na construção dessa rede. A cartilha não apenas reconhece a existência do problema, algo já discutido durante as rodas de conversa, mas também busca oferecer estratégias para enfrentá-lo. Sabemos que só conseguiremos superar esses desafios com o engajamento de todos”, disse.
A organização é de Dulce Morais, assessora de gênero do Programa Rio Negro do ISA; as ilustrações são de Larissa Ye´padiho Mora Duarte, povo Tukano, e o projeto gráfico e diagramação são de Ray Baniwa, da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas do Rio Negro.
O material está sendo levado ao território indígena pelos articuladores e articuladoras e foi entregue também ao DSEI-ARN, que vem desenvolvendo atividades com apoio do material. A Rede Wayuri também fez a divulgação na programação da rádio web.
Lançamento em São Gabriel da Cachoeira
O lançamento aconteceu em fevereiro, na Sala Dagoberto Azevedo – Suegu, na sede do ISA em São Gabriel da Cachoeira (AM), reunindo parceiros como a Diocese e órgãos da saúde e da educação.
Na sequência, houve uma semana de atividades de formação para que o conteúdo fosse levado e discutido no território indígena. Essa etapa foi conduzida pelas antropólogas do ISA, Carla Dias e Dulce Morais, pela coordenadora do DMIRN/Foirn, Cleocimara Reis, e por Elson Kene.
Os encontros reuniram articuladores e articuladoras de jovens e mulheres indígenas de todas as regiões do Médio e Alto Rio Negro da área de abrangência da Foirn.
O antropólogo Bruno Marques esteve no lançamento da cartilha e participou das oficinas. “No tempo antigo, o uso da bebida era tido como uma prática de cuidado e saúde, fazendo parte de rituais com outros elementos, como os benzimentos”, reforçou.
Terapeuta ocupacional, Maria Antonieta Dias, referência em Centro de Atenção Psicossocial – álcool e drogas (Caps-ad) – e redução de danos, participou da formação de forma remota.
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Equipes da Foirn e do ISA estiveram presente no lançamento da cartilha, em São Gabriel da Cachoeira|Ana Amélia Hamdan/ISA
Jaqueline Gonçalves, referência técnica de saúde mental do DSEI-ARN também contribuiu com a formação. Ela apresentou alguns dados levantados pelo DSEI corroborando a preocupação com o uso abusivo de álcool e o manejo desse problema por meio de políticas públicas de saúde integral e humanizada.
Durante o encontro, houve roda de conversa para que os indígenas pudessem trazer os principais pontos do problema.
Articuladora de jovens Josiane Silva Pereira, do povo Tariano, vive no distrito de Iauaretê, que fica próximo da fronteira com a Colômbia, e participou da oficina representando a sua região. Ela informa que, como articuladora de jovens, fará o trabalho de levar adiante as informações disponíveis na cartilha.
“A gente vê na realidade que é um problema difícil. Tem muito adolescente e jovem com problemas com álcool e até alcoolismo. A gente percebe um aumento enorme. E é complicado reduzir, mas uma forma de avançarmos é pela conscientização”, disse.
Tuire Kayapó durante a Pré-Marcha das Mulheres Indígenas, em fevereiro de 2023. Todo ano a liderança percorre mais de 1.110 quilômetros até Brasília, para participar das mobilizações e lutar pela floresta em pé 📷 Benjamin Mast/La Mochila Migrante/ISA
Em 1989, Tuire Kayapó, liderança da Terra Indígena Las Casas (PA), esteve à frente da luta contra a construção de hidrelétricas no Xingu, em especial do projeto da Usina Hidrelétrica Kararaô, que mais tarde se tornou a Usina de Belo Monte.
Foi nesse ano que a liderança Kayapó protagonizou o icônico registro em que brada seu facão contra o rosto do então presidente da Eletronorte, José Antônio Muniz Lopes, em um gesto que marcou para sempre a resistência dos povos indígenas.
Hoje, aos 56 anos, a grande guerreira Kayapó luta pela sua vida e enfrenta um câncer no colo do útero, uma doença que representa 7,5% das mortes femininas por cânceres, com estimativa de 311 mil mortes por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Durante toda sua vida Tuire defendeu incansavelmente os direitos da floresta amazônica e de seus povos: “As florestas, os rios, os povos indígenas: é a sobrevivência deles que eu defendo até hoje”, afirmou em entrevista para o #ElasQueLutam.
Para que Tuire Kayapó continue a lutar pelos direitos dos povos da floresta, ela precisa de apoio para enfrentar o câncer.
Reunião do Comitê de Enfrentamento à Covid-19 na Casa do Saber, Maloca da FOIRN, em junho de 2020|Christian Braga
Com múltiplas vozes indígenas e não indígenas, o podcast A Nova Doença dos Brancos traz relatos das pessoas que viveram a pandemia da Covid-19 no Alto Rio Negro (AM), uma das áreas mais remotas da Amazônia brasileira, e reflete sobre a resistência dos povos originários frente a esta e outras epidemias.
Com quatro episódios semanais, a narrativa debate visões indígenas sobre a doença e a cura. Confira a seguir:
Episódio 1: A chegada do vírus
Apresenta a chegada da Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, as estratégias adotadas pela sociedade civil, organizada e liderada pelo movimento indígena local, para conter o avanço da doença e as dificuldades enfrentadas em relação à propagação de fake news sobre a pandemia.
Episódio 2:As epidemias do passado
Relembra a história de epidemias do passado, que chegaram ao Brasil com a invasão europeia e avançaram sobre os territórios indígenas. Narrativa mostra como a chegada da Covid-19 despertou traumas antigos e enraizados na população indígena dos diversos genocídios vivenciados.
Episódio 3:As práticas terapêuticas indígenas
Trata das estratégias indígenas para fazer frente ao avanço do vírus, sobretudo da mobilização de conhecimentos e práticas tradicionais que fazem parte do repertório local de ações voltadas para combater doenças estrangeiras.
Episódio 4: Um balanço da pandemia no Rio Negro
Apresenta um resumo da epidemia na região com uma homenagem aos que se foram e aos que lutaram contra a pandemia e mostra como a mobilização social produziu uma reconexão com saberes ancestrais, combinada a uma organização política extremamente capilarizada no território, que trouxe maior segurança para seguir sendo indígena no séc. XXI.
Os participantes do podcast também incluem especialistas não-indígenas, que apresentam o histórico das doenças que chegaram aos povos indígenas no Brasil, a persistente omissão dos órgãos públicos em prover condições básicas para a saúde indígena e as relações entre a pandemia e a crise climática que nos afeta.
Esse podcast faz parte do projeto “O Museu Relacional: compartilhando conhecimentos sobre a epidemia e outras crises no Alto Rio Negro”, com pesquisa coordenada pelos antropólgos do Museu de Berlim Andrea Scholz e Thiago da Costa Oliveira e do antropólogo do Instituto Socioambiental (ISA), Aloisio Cabalzar.
O trabalho conta ainda com a rede dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs), ligados ao ISA e à Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn).
Ficha Técnica
Direção: Thiago da Costa Oliveira
Roteiro: Thiago da Costa Oliveira, Mariana Pinheiro e Felipe Barros
Produção: Flávia Heins
Narração: Naiara Alice Bertoli e Thiago da Costa Oliveira
Pesquisa de campo: Naiara Alice Bertoli
Decupagem a partir de entrevistas transcritas pelo Audiotex: Guilherme Pedroso
Trilha sonora, desenho e edição de som: Felipe Barros
Mixagem: Alexandre Jardim
Coordenação local de pesquisa: Andreia Damasceno e Mauro Pedrosa, povo Tukano.
Financiamento: Fundo "Corona Crisis and Beyond – Perspectives for Science, Scholarship and Society" da Fundação Volkswagen, da Alemanha.
Serviço
Lançamentos
Loja Floresta no Centro (ISA)
Data: 05/04, às 19h
Endereço: Av. São Luiz, 187 - Galeria Metrópole - Centro Histórico de São Paulo / SP
*Roda de conversa com a socióloga e liderança Elizângela Costa, povo Baré, e com o antropólogo Aloisio Cabalzar.
Faculdade de Saúde Pública da USP
Data: 19/04 - Dia dos Povos Indígenas, às 16h
Endereço: Anfiteatro Paula Souza - Rua Dr. Arnaldo, 715 - São Paulo / SP
*Roda de conversa com a antropóloga e liderança Francy Baniwa e com a socióloga e liderança Elizângela Costa, povo Baré.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Pesquisa: todos os Yanomami de 9 aldeias assediadas pelo garimpo estão contaminados por mercúrio
Estudo liderado pela Fiocruz identificou a presença do metal tóxico em amostras de cabelo de cerca de 300 pessoas analisadas no Alto Rio Mucajaí, na Terra Indígena Yanomami
Em 2023, 308 indígenas Yanomami e Ye’kwana morreram sem que servidores da saúde conseguissem atender comunidades vulneráveis por medo dos garimpeiros, segundo relatório publicado em janeiro deste ano|Bruno Kelly/ISA
Uma pesquisa realizada com indígenas do povo Yanomami, do subgrupo Ninam, de nove aldeias localizadas em Roraima, mostrou que todos os participantes estão contaminados por mercúrio. Os maiores níveis de exposição foram detectados em indígenas que vivem nas aldeias localizadas mais próximas aos garimpos ilegais de ouro.
O estudo 'Impacto do mercúrio em áreas protegidas e povos da floresta na Amazônia: uma abordagem integrada saúde-ambiente' foi conduzido pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), em parceria com a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), que contou com o apoio do Instituto Socioambiental (ISA).
Os pesquisadores identificaram a presença do metal pesado em amostras de cabelo de cerca de 300 pessoas analisadas, incluindo crianças e idosos.
“Esse cenário de vulnerabilidade aumenta exponencialmente o risco de adoecimento das crianças que vivem na região e, potencialmente, pode favorecer o surgimento de manifestações clínicas mais severas relacionadas à exposição crônica ao mercúrio, principalmente nos menores de 5 anos”, explica o coordenador do estudo, Paulo Basta, médico e pesquisador da Ensp/Fiocruz.
O estudo realizou as coletas na região do Alto Rio Mucajaí, em outubro de 2022. O local é alvo do garimpo ilegal há décadas, o que vem causando destruição ambiental, insegurança, violência e prejuízos à saúde dos indígenas.
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Canteiro em Surucucus (RR). Garimpo persiste na Terra Indígena Yanomami e promove um estrangulamento dos serviços de saúde|Bruno Kelly/ISA
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Vicinal que dá acesso aos portos de garimpo no rio Uraricoera (RR). Desmatamento associado ao garimpo somou 238,9 hectares em 2023|Bruno Kelly/ISA
“O garimpo é o maior mal que temos hoje na Terra Yanomami. É necessário e urgente a desintrusão, a saída desses invasores. Se o garimpo permanece, permanece também a contaminação, devastação, doenças como malária e desnutrição e isso é o resultado dessa pesquisa, é a prova concreta!”, enfatiza o vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami (HAY), Dário Vitório Kopenawa.
Das 287 amostras de cabelo examinadas, 84% registraram níveis de contaminação por mercúrio acima de 2,0 µg/g. Já 10,8% ficaram acima de 6,0 µg/g, índice considerado alto, que requer atenção especial e investigação complementar.
Nas duas faixas de contaminação, é necessário notificar os casos ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), a fim de se produzir estatísticas oficiais sobre o problema na região.
Os pesquisadores destacam que indígenas com níveis mais elevados de mercúrio apresentaram déficits cognitivos e danos em nervos nas extremidades, como mãos, braços, pés e pernas, com mais frequência.
Conforme orienta a Organização Mundial da Saúde (OMS), níveis acima de 6 microgramas de mercúrio por grama de cabelo (μg.g-1 ) podem trazer sérias consequências à saúde, principalmente a grupos vulneráveis. Assim, não há limite seguro para exposição ao Hg.
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Garimpo na Região do Rio Mucajaí. O mercúrio é usado para que o ouro se junte e assim seja mais fácil ser lavado e separado dos demais sedimentos|Daniel Marenco
Além da detecção do mercúrio, a pesquisa fez exames clínicos para identificar doenças crônicas não transmissíveis, como transtornos nutricionais, anemia, diabetes e hipertensão.
Ao cruzar os dados, foi observado que, nos indígenas com pressão alta, os níveis de mercúrio acima de 2,0 µg/g são mais frequentes do que nos indígenas com pressão arterial normal.
Também foram realizados testes para estimar a prevalência de doenças infecciosas e parasitárias, incluindo malária e infecções sexualmente transmissíveis (IST) como HIV/AIDS, Sífilis, e Hepatites B e C.
Mais de 80% dos participantes relataram ter tido malária ao menos uma vez na vida, com uma média de três episódios da doença por indivíduo. Em 11,7% dos indivíduos testados, foi possível identificar casos de malária vivax e falciparum sem manifestações clínicas evidentes, características comuns em áreas de alta transmissão da doença.
Mais de 25% das crianças menores de 11 anos tinham anemia e quase metade apresentaram desnutrição aguda. Além disso, 80% apresentaram déficits de estatura para idade, o que sugere, de acordo com os parâmetros da OMS, um estado de desnutrição crônica.
Outro dado alarmante é referente à cobertura vacinal: Na região do estudo, apenas 15,5% das crianças estavam com as vacinas do calendário nacional de imunização em dia.
O estudo também analisou 47 amostras de peixes, 14 de água e sedimentos do rio Mucajaí e afluentes. Todas as amostras de peixes apresentaram algum grau de contaminação por mercúrio, sendo as maiores concentrações detectadas em peixes carnívoros, em espécies muito apreciadas na Amazônia, tais como o mandubé e piranha.
A análise do risco atribuível ao consumo de pescado revelou que a ingestão diária de mercúrio excede em três vezes a dose de referência preconizada pela Agência de Proteção Ambiental do governo estadunidense (U.S.EPA).
A análise das amostras de água não revelou contaminação por mercúrio. Por outro lado, duas amostras de sedimentos apresentaram níveis de mercúrio acima do nível 1 da resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) que trata do tema.
Os pesquisadores fazem uma série de recomendações com base no cenário encontrado durante os estudos. Como ações emergenciais, mencionam interrupção imediata do garimpo e do uso do mercúrio, desintrusão de invasores e a construção de unidades de saúde em pontos estratégicos da Terra Indígena Yanomami.
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Proteção do território e Saúde foram temas prioritários do IV Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana, que reuniu mais de 200 lideranças da Terra Indígena Yanomami na comunidade de Maturacá (AM), em 2023|Fred Rahal/ISA
“Não é a primeira vez que a Fiocruz faz uma pesquisa na Terra Yanomami e que comprova que os nossos parentes estão contaminados pelo mercúrio. Isso é muito grave! As nossas crianças estão nascendo doentes. As mulheres estão doentes, os nossos velhos estão doentes! O nosso povo está morrendo por causa do garimpo”, analisa Dário Kopenawa.
Como ações estruturais, propõem que haja atualização da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI), que seja assegurada a presença regular de profissionais de saúde e que se invista na formação continuada de agentes indígenas de saúde.
Além disso, o estudo também indica como necessárias ações específicas para as populações expostas e potencialmente expostas ao mercúrio, tais como: rastreamento de comunidades cronicamente expostas ao mercúrio, para a realização de diagnósticos laboratoriais tempestivos a fim de avaliar pessoas com quadros sugestivos de intoxicação por mercúrio já instalados, elaboração de protocolos e rotinas apropriadas para diagnóstico e tratamento de pacientes com quadro de intoxicação por mercúrio estabelecido e criação de um centro de referência para acompanhamento de casos crônicos e/ou com sequelas reconhecidas.
Janete Alves Desana e Elizângela Baré, coordenadoras do Departamento de Mulheres Indígenas da Foirn, estiveram à frente do combate à Covid-19 no Rio Negro|Raquel Uendi/ISA
Da arrumação xamânica do mundo até a chegada da vacina contra a Covid-19, a resistência indígena no Médio e Alto Rio Negro (AM) enfrentou um longo caminho de omissões, mas também de colaboração e compartilhamento de saberes.
Para retratar esse cenário, será lançado em abril, Mês dos Povos Indígenas, o especial Memoráveis: resistência, estratégias e saberes indígenas no combate à pandemia de Covid-19 no Rio Negro, composto pela 5ª edição daAru – Revista de Pesquisa Intercultural da Bacia do Rio Negro e o documentárioCura, desenvolvidos em parceria pelo Instituto Socioambiental (ISA) e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), além do podcast A Nova Doença dos Brancos, feito em parceria com o Museu Etnográfico de Berlim.
O podcastA Nova Doença dos Brancos tem lançamento previsto para o dia 5 de abril. Acompanhe nas redes sociais do ISA.
Trazendo relatos de indígenas e não indígenas, os três produtos se complementam para retratar o cenário pandêmico no Rio Negro e a estratégia dos povos indígenas de resistência e proteção frente à crise sanitária numa das regiões mais preservadas da Amazônia, onde vivem 750 comunidades indígenas (algumas delas remotas) de 23 etnias.
Serviço
Lançamentos
Loja Floresta no Centro (ISA)
Data: 05/04, às 19h
Endereço: Av. São Luiz, 187 - Galeria Metrópole - Centro Histórico de São Paulo / SP
*Roda de conversa com a socióloga e liderança Elizângela Costa, povo Baré, e com o antropólogo Aloisio Cabalzar.
Faculdade de Saúde Pública da USP
Data: 19/04 - Dia dos Povos Indígenas, às 16h
Endereço: Anfiteatro Paula Souza - Rua Dr. Arnaldo, 715 - São Paulo / SP
*Roda de conversa com a antropóloga e liderança Francy Baniwa e com a socióloga e liderança Elizângela Costa, povo Baré.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Revista de pesquisa intercultural da Bacia do Rio Negro chega à 5ª edição com narrativas sobre a pandemia
Editada pelo ISA e pela Foirn, a Aru 5 traz as estratégias dos povos indígenas do Rio Negro para proteger vidas em um cenário de omissão
5ª edição da Aru – Revista de Pesquisa Intercultural da Bacia do Rio Negro
Da arrumação xamânica do mundo até a chegada da vacina contra a Covid-19, o enfrentamento à pandemia na região do Médio e Alto Rio Negro, Amazonas, percorreu um longo caminho serpenteando rios, igarapés, igapós e corredeiras – com turbulência, omissão e mortes –, resistência indígena e colaboração.
Com textos de indígenas e não indígenas, a 5ª edição da Aru – Revista de Pesquisa Intercultural da Bacia do Rio Negro, editada em parceria pelo Instituto Socioambiental (ISA) e Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), retrata esse cenário e a memorável estratégia indígena de resistência e proteção frente à crise sanitária numa das regiões mais preservadas da Amazônia, onde estão os municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos e cerca de 750 comunidades (algumas delas remotas) onde convivem povos de 23 etnias.
Essa edição é lançada em 2024 – quatro anos após o início da pandemia –, com a perspectiva de que não é possível deixar de lembrar da crise sanitária, especialmente frente à emergência climática e a um modelo de desenvolvimento que nos coloca cada vez mais diante do risco de novas epidemias.
Diante da falta de resposta da ciência do não indígena, à quase ausência de ações de órgãos oficiais e de um Governo Federal negacionista e anti-indígena, os povos do Rio Negro fortaleceram parcerias. A proteção veio também do entendimento sofisticado de saúde, que incorpora ambiente, natureza, saberes ancestrais, cosmologia e bem-viver.
A mobilização pelo mínimo de estrutura e oxigênio ocorreu num esforço interinstitucional de órgãos públicos – especialmente de profissionais da saúde da linha de frente - e de organizações da sociedade civil, entre elas a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e o ISA.
Homenagem
Em São Gabriel da Cachoeira (AM), o lançamento aconteceu em 22 de fevereiro, na sede do ISA na cidade. O momento foi marcado pela homenagem ao antropólogo Dagoberto Azevedo, um dos autores da Aru, falecido em 2023. Parte de seu trabalho foi dedicada à possibilidade dos encontros – de culturas, de conhecimentos, de indígenas e não indígenas –, ideia essa presente na publicação.
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Dagoberto Azevedo, antropólogo e liderança do povo Tukano, falecido em 2023|Ana Amélia Hamdan/ISA
A esposa de Dagoberto, Helena Marques, povo Piratapuya, e as filhas Adele e Rutiene, ao lado do diretor da Foirn, Nildo Fontes, povo Tukano, e de Aloiso Cabalzar, revelaram a placa com o nome do antropólogo indígena: o Telecentro na sede do ISA em São Gabriel da Cachoeira agora leva o nome de Sala Dagoberto Azevedo - Suegʉ. Na placa, a imagem do banco Tukano, que compõe a cultura do povo dessa etnia.
Sobre a revista
Em publicação semestral desde 2017, a Aru – Revista de pesquisa intercultural da Bacia do Rio Negro é um projeto conduzido por Aloisio Cabalzar, tendo como base o trabalho da Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAS). Sua proposta é estimular iniciativas de colaboração e trocas entre conhecedores e pesquisadores indígenas e não indígenas, que atuam em diferentes espaços de produção de conhecimento sobre a Bacia do Rio Negro, seus ciclos de vida e processos de transformação.
Serviço
Lançamento Especial Memoráveis
Loja Floresta no Centro (ISA)
Data: 05/04, às 19h
Endereço: Av. São Luiz, 187 - Galeria Metrópole - Centro Histórico de São Paulo / SP
*Roda de conversa com a socióloga e liderança Elizângela Costa, povo Baré, e com o antropólogo Aloisio Cabalzar.
Faculdade de Saúde Pública da USP
Data: 19/04 - Dia dos Povos Indígenas, às 16h
Endereço: Anfiteatro Paula Souza - Rua Dr. Arnaldo, 715 - São Paulo / SP
*Roda de conversa com a antropóloga e liderança Francy Baniwa e com a socióloga e liderança Elizângela Costa, povo Baré.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS