A Bacia do Rio Negro se estende pelos estados do Amazonas e de Roraima, no Brasil, e também avança pelos territórios vizinhos da Colômbia, Venezuela e Guiana. Na sua porção no Amazonas, a bacia é uma das regiões mais preservadas de todo o bioma amazônico, com biodiversidade incalculável. Por outro lado, a parte da bacia localizada em Roraima vem sofrendo grande degradação ambiental causada pelo garimpo ilegal de ouro, desmatamento e roubo de terra, ou "grilagem de terra".
Aproximadamente 68% da Bacia do Rio Negro no Brasil está formalmente protegida por um conjunto de unidades de conservação e terras indígenas legalmente reconhecidas. A diversidade cultural da região é enorme: ali vivem 45 povos indígenas e estão localizados dois patrimônios culturais do Brasil – a Cachoeira de Iauaretê e o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro – além do ponto mais alto do Brasil, o Pico da Neblina, lugar sagrado do povo Yanomami.
No Rio Negro, o ISA mantém trabalho de longo prazo e parceria institucional - que nos enche de orgulho - com associações indígenas e suas lideranças, entre elas a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), a Hutukara Associação Yanomami (HAY) e o Conselho Indígena de Roraima (CIR).
Mantemos escritório e equipe na cidade de São Gabriel da Cachoeira (AM), considerado o município mais indígena do Brasil, localizado no Alto Rio Negro. De São Gabriel, também descemos com as águas do Negro para apoiar comunidades e associações indígenas dos municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, ambos no Amazonas. Em 2009, o ISA incorporou a organização Comissão Pró-Yanomami (CCPY), sua equipe e legado, abrindo escritório em Boa Vista (RR) e passando a atuar diretamente com o povo Yanomami e outros povos de Roraima.
Atualmente, o ISA atua na Bacia do Rio Negro com a promoção de processos formativos, articulando parcerias para a proteção dos territórios indígenas, valorização da diversidade socioambiental, segurança alimentar das comunidades, desenvolvimento de cadeias de valor da economia da floresta para geração de renda e produção de pesquisas interculturais que dêem visibilidade aos conhecimentos tradicionais e modos de vida das populações que, há muitos anos, mantém as florestas da região preservadas.
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Liderança indígena registra em vídeo inundação das roças na Amazônia
Dzoodzo Baniwa estava na hora e no lugar certos para documentar um evento climático extremo. Em vídeo-reportagem, ele denuncia a segunda cheia recorde em menos de um ano no Rio Ayari (AM)
O cenário de roças tradicionais inundadas, com prejuízos às populações ribeirinhas e indígenas, está se repetindo no Amazonas. Em 2021, o estado atravessou cheias e inundações recordes. Neste ano, o chamado inverno amazônico, que se acentua a partir de junho com a intensificação de chuvas, ainda nem bem começou, mas as cheias já estão causando danos.
Essa realidade vem sendo acompanhada de dentro do território indígena pelo olhar atento da liderança indígena Baniwa Juvêncio Cardoso, também conhecido pelo nome de benzimento Dzoodzo Aawadzoro. Ele divulgou em sua página nas redes sociais um vídeo mostrando roças inundadas pela cheia do Rio Ayari, afluente do Rio Içana, na Terra Indígena Rio Negro, município de São Gabriel da Cachoeira (AM). Segundo o relato do pesquisador baniwa, o rio já atingiu 50 cm a mais no comparativo com 2021.
A inundação das roças compromete a segurança alimentar das comunidades indígenas. Para garantir que parte da plantação não se perdesse, mulheres chegaram a mergulhar para colher a mandioca, que é a base alimentar da região e dá origem a uma série de produtos como farinha, beiju, tapioca e tucupi.
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Juvêncio Cardoso Baniwa registrou efeito das cheias no Alto Rio Negro|Natalia C. Pimenta / ISA
Segundo Dzoodzo Baniwa, a cheia volta a se repetir antes mesmo do período de um ano. “Em 2021, as famílias também foram impactadas. Faltavam 10 dias para completar um ano e a água do Rio Ayari voltou a tomar conta das roças”, descreveu. Ano passado, as cheias causaram prejuízos a 18 famílias em seis comunidades, com a perda de 30 roças. Em 2022, os levantamentos ainda estão sendo realizados, já que o período de cheias está apenas começando.
“Estamos numa das áreas mais preservadas da Amazônia, mas ainda assim ficamos com o prejuízo das mudanças climáticas. Queremos que o poder público e a sociedade civil organizada tomem medidas para nos ajudar”, disse.
Coordenador da Organização Baniwa e Koripako Nadzoeri, uma das cinco coordenadorias da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), Dzoodzo também é professor licenciado em física intercultural e mestre em ciências ambientais.
Ele vive na comunidade de Canadá e acompanha a situação na Bacia do Rio Içana, território tradicional dos povos Baniwa e Koripako, como liderança e colaborar de projeto de Monitoramento Ambiental e Climático na Bacia do Rio Negro. Ele ainda compõe a Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (Aimas) e monitora os ciclos ambientais e socioeconômicos indígenas a partir das constelações.
Agora dá um passo adiante, denunciando praticamente em tempo real, com vídeos registrados por celular, eventos climáticos extremos e seus impactos na Amazônia.
Dzoodzo vem mobilizando parceiros para receber apoio em doações que serão direcionadas às famílias atingidas e, ainda, realizar oficinas sobre o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, de forma a garantir a segurança alimentar dos povos que vivem nessa região. As oficinas serão realizadas no Centro de Formação e Monitoramento da Biodiversidade Enopana, vinculado à Escola Eeno Hiepole, que reúne alunos de todas as comunidades da calha do Rio Ayari e que recebem a merenda regionalizada com produtos da agricultura familiar, que conta com o incentivo do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).
Veja abaixo como contribuir:
Associação do Conselho de Gestão da Escola Eeno Hiepole (ACGEH) CNPJ: 20.878.325/0001-18 Banco do Brasil Agência: 1136-3 Conta Corrente: 29.308-3 Contato ou envio de comprovante: eenohiepole@gmail.com Conheça a escola: https://eenohiepole.wordpress.com/quem-somos/
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Wai Wai criam departamentos de mulheres indígenas
Iniciativa busca fortalecer autonomia e sustentabilidade das mulheres – protagonistas na fabricação de diversos produtos da sociobiodiversidade
Evilene Paixão
- Jornalista da Hutukara Associação Yanomami
Mulheres Wai Wai fundaram departamentos próprios em diversas associações indígenas|Evilene Paixão/ISA
Pela primeira vez as mulheres Wai Wai terão espaços somente delas. Foram criados os Departamentos de Mulheres Indígenas Wai Wai (DMIW), em cada associação indígena: Associação dos Povos Indígenas Wai Wai (APIW), Associação do Povo Indígena Wai Wai Xaary (APIWX) e Associação Indígena Wai Wai da Amazônia (AIWA).
A mobilização para a criação dos departamentos aconteceu no III Encontro Anual do Instituto Socioambiental (ISA) com os Wai Wai do Estado de Roraima, que aconteceu na comunidade Soma, na Terra Indígena Trombetas Mapuera, município de Caroebe, divisa com os estados do Amazonas e Pará.
Era antigo o desejo de criar espaços exclusivos de mulheres indígenas, como conta Geneide Wai Wai, responsável geral pelos departamentos. “Sempre foi do interesse das mulheres ter alguma representação, associação ou departamento. Isso já era discutido entre os homens e as mulheres”, conta.
Segundo ela, a criação dos departamentos é um passo importante para o fortalecimento e valorização do trabalho das mulheres indígenas dos produtos vendidos. Um deles é o mawkîn, um tipo de paçoca torradinha de castanha-do-Pará com beiju, produzido pelas mulheres Wai Wai. “Agora vamos nos organizar melhor para trabalhar bem com as vendas e produzir mais”, aposta Geneide.
O encontro reuniu cerca de 150 indígenas entre lideranças, jovens e mulheres, das 10 comunidades das Terras indígenas Trombetas Mapuera e Wai Wai, localizadas entre os municípios de Caracaraí, São João da Baliza e Caroebe, nas calhas dos rios Anauá e Jatapu.
Há quase cinco anos, o ISA constrói projetos com esses povos no desenvolvimento da cadeia produtiva da castanha, com assessoria na parte de boas práticas de manejo e promoção de comércio ético das castanhas e na formalização e o funcionamento das associações Wai Wai, com assessoria técnica de Felipe Reis.
Agora, os Departamentos de Mulheres Indígenas Wai Wai serão assessorados pela cientista ambiental Stephany Caroline Rodrigues, que chegou recentemente para fortalecer a equipe. Para ela, os DMIW são o início de um trabalho que vai garantir mais autonomia e sustentabilidade às mulheres indígenas.
“Começamos muito bem! Além de estabelecermos em conjunto os principais eixos temáticos de trabalho, com artesanato e mawkîn, conseguimos encaminhar a criação do departamento de mulheres Wai Wai dentro de cada associação, APIW, APIWX e AIWA, com a aprovação dos respectivos presidentes, e uma mulher representante por comunidade, além de uma coordenadora geral, para ajudar na interlocução”, explica.
III Encontro do ISA com os Wai Wai em Roraima, realizado de 04 a 07 de abril, na comunidade Soma, Terra Indígena Trombetas Mapuera, em Caroebe|Evilene Paixão/ISA
III Encontro do ISA com os Wai Wai em Roraima, realizado de 04 a 07 de abril, na comunidade Soma, Terra Indígena Trombetas Mapuera, em Caroebe|Evilene Paixão/ISA
III Encontro do ISA com os Wai Wai em Roraima, realizado de 04 a 07 de abril, na comunidade Soma, Terra Indígena Trombetas Mapuera, em Caroebe|Evilene Paixão/ISA
III Encontro do ISA com os Wai Wai em Roraima, realizado de 04 a 07 de abril, na comunidade Soma, Terra Indígena Trombetas Mapuera, em Caroebe|Evilene Paixão/ISA
III Encontro do ISA com os Wai Wai em Roraima, realizado de 04 a 07 de abril, na comunidade Soma, Terra Indígena Trombetas Mapuera, em Caroebe|Evilene Paixão/ISA
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Livros de bolso apresentam a arte indígena, feminina e ancestral das cerâmicas Tukano e Baniwa
Práticas e saberes para produção das peças são parte do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, reconhecido em 2010 como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Iphan
Polimento de cerâmica com semente de inajá em São Joaquim do Ayari, Terra Indígena Alto Rio Negro (AM). Foto: Natália Pimenta/ISA
As cerâmicas produzidas pelos povos indígenas Tukano e Baniwa, da Terra Indígena Alto Rio Negro (AM), são uma arte feminina milenar. Da escolha da argila à modelagem, polimento, secagem, queima e acabamento, o caminho realizado das artesãs é de uma relação profunda com o sagrado e a floresta.
O leitor agora pode se sentir mais próximo a essa experiência com o lançamento dos livros de bolso Cerâmica Tukano e Cerâmica Baniwa, realizados em parceria entre a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e o Instituto Socioambiental (ISA), e com apoio de União Europeia e Nia Tero.
Organizados por Thiago Oliveira (Cerâmica Baniwa) e Juliana Lins (Cerâmica Tukano), as obras fazem parte de uma coleção mais ampla e se juntam aos também livros de bolso Arte Baniwa, Pimenta Jiquitaia Baniwa e Banco Tukano, lançados pelo ISA nos últimos anos.
O conjunto apresenta de forma condensada e plena de informações as riquezas do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Para Dadá Baniwa, uma das coordenadoras do departamento de mulheres da Foirn, é um “sonho” compartilhar os conhecimentos para que outros povos e culturas valorizem a produção das peças. “Não é um trabalho fácil. Dar visibilidade ao trabalho das mulheres a nível estadual, nacional e internacional é integrar essa cultura material e preservá-la pela via da educação”, disse.
“Esse conhecimento para mim, como neta e filha, é um patrimônio, uma herança da minha avó”, afirmou Larissa Duarte, ceramista do povo Tukano. “É um conhecimento que fica para nossa comunidade e para a região toda. Isso vai ficar comigo e pretendo passar meu conhecimento para minhas filhas também.”
“Para nós, mulheres indígenas, essa cerâmica não é um simples objeto. É uma parte de nós”, resumiu ela, que é também uma das coordenadoras do departamento de mulheres da Foirn. “Esse é nosso modo de lutar, nosso modo de viver. A mulher é muito mais resistente e pensa no bem-estar coletivo, da comunidade, do território.”
Os povos indígenas do Rio Negro têm, ao todo, 11 cadeias produtivas em diferentes graus de amadurecimento na região, com gestão indígena, para desenvolvimento e proteção dos territórios.
Para Luciane Lima, do departamento de negócios da Foirn, a comercialização das cerâmicas “é uma forma de sustentação para as famílias”. “É geração de renda e valorização da cultura”, disse. “Estamos investindo em processos que tenham resultados a longo prazo”, afirmou.
Respeito e limite
As cerâmicas Tukano e Baniwa sempre tiveram uma inserção na vida ritual nas comunidades indígenas do Rio Negro. A produção das peças, no entanto, foi levada ao limite do desaparecimento e, por isso, as publicações retomam saberes que estavam restritos a poucas artesãs.
“As mulheres não tinham mais o conhecimento completo sobre as cerâmicas, sabiam apenas parte do processo”, relembrou Oliveira, antropólogo e organizador de Cerâmica Baniwa. A pesquisa constatou, por exemplo, que existem no território apenas cinco jazidas de argila ideais. “Os locais de ocorrência são de conhecimento tradicional ligados às comunidades”, afirma.
Segundo Juliana Lins, bióloga e organizadora de Cerâmica Tukano, impressiona a complexidade do trabalho das artesãs para confecção das peças. “A história e o processo envolvem tempo e conhecimento. Uma peça pode levar até 10 dias para ficar pronta, e ver o resultado é como ver o mundo através de um olhar feminino”, disse.
“Uma coisa que chama muito a atenção nos povos indígenas é a noção de limite. Você não lida com a natureza sem limites. Você tem relações sociais com a floresta, com o barro e a cerâmica. É o respeito. É, por exemplo, o pedido de licença para pegar a ‘vovó’ argila para então produzir as peças”, observou.
É o que contou Larissa Duarte, ceramista Tukano. “Nós, povos indígenas, temos nosso ritmo, tempo de produção. As pessoas de fora têm que entender isso, conhecer nossa realidade aqui. As mulheres não trabalham 24 horas só no artesanato. Ela vai pra roça, faz comida para as crianças, cuida da casa e depois faz o artesanato. E faz uma peça.”
O que é o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro?
O Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, conjunto de práticas e saberes milenares dos povos do Rio Negro, agricultores por excelência, foi reconhecido em 2010 anos como patrimônio imaterial brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Estão catalogadas, ao todo, mais de 300 variedades de plantas cultivadas pelos 23 povos indígenas que vivem na região há milênios, além de 32 espécies de peixes comestíveis.
Fazem parte do sistema as técnicas de manejo dos espaços de cultivo (roça e quintais); do sistema alimentar; dos utensílios de processamento e armazenamento como a cerâmica e a cestaria; e, por fim, da conformação de redes sociais de troca de sementes e plantas que se estende de Manaus, no Amazonas, a Mitu, na Amazônia Colombiana.
O cultivo da mandioca brava, por meio da técnica de queima, plantio e manejo de capoeiras (conhecido como coivara), é a base desse sistema, compartilhado pelos povos indígenas da região.
São Gabriel da Cachoeira é o município do Amazonas em que se situa a fronteira trinacional entre o Brasil, a Colômbia e a Venezuela. Com 109 mil km2, é o terceiro mais extenso do país. A região é também conhecida como “Cabeça do Cachorro”, por causa do desenho que conforma o mapa no extremo noroeste do Brasil. É, também, o município mais indígena do país, tanto no seu núcleo urbano quanto na zona rural, onde há 750 comunidades de 23 povos indígenas diferentes. Além do Português, são as línguas oficiais da cidade o Tukano, o Baniwa e o Nheengatu (língua franca no Brasil colonial difundida pelos jesuítas, e hoje só falada lá).
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Não há estrada ligando Manaus a São Gabriel. Pode-se ir de carro até Novo Airão. Barcelos, Santa Isabel e São Gabriel, no Alto Rio Negro, só são acessíveis por via aérea ou fluvial. Isto faz da Cabeça do Cachorro uma das regiões mais preservadas da Amazônia e das mais úmidas do mundo. É um pouco mais a oeste deste fundão da floresta que os ventos alísios, que movem os chamados ‘rios voadores’, encontram a barreira natural da Cordilheira dos Andes e fazem uma inflexão rumo ao sul, levando as chuvas amazônicas para o centro-sul do Brasil, o norte da Argentina, o Paraguai e o Uruguai.
Esta é, também, uma região estratégica, em razão das fronteiras, onde há forte presença militar. Uma brigada do Exército foi transferida para lá há 18 anos atrás, tendo um general no seu comando. Há, também, um radar do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), operado pela Aeronáutica, além de uma unidade da Marinha. O Negro é um rio internacional, que nasce com o nome de Guainia, na Colômbia, e se conecta ao Rio Orinoco (que desagua no Mar do Caribe) pelo Canal do Cassiquiare, antes de adentrar em território brasileiro. Já houve, ou ainda há, presença de guerrilhas e do narcotráfico operando na região.
Desafios econômicos
A vida não é fácil na Cabeça do Cachorro. A concentração de aldeias é maior do que em outras regiões indígenas, enquanto a disponibilidade de peixes é relativamente menor em rios de águas pretas. Onde há melhores solos para agricultura, o peixe é mais escasso; e onde tem mais peixe, não se encontram terrenos propícios para as roças. As roças são diversas e abundantes. Mais de cem variedades de manivas são cultivadas. Porém, o aumento da população e da sua sedentarização, principalmente nas comunidades maiores e nas cidades ribeirinhas, obriga o plantio de roças a maiores distâncias. Quando secas ou enchentes afetam a produção, ocorrem situações de insegurança alimentar e de maior dependência de alimentos de fora.
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Vista de São Gabriel da Cachoeira (AM). Crédito: Márcio Santilli / ISA
Os excedentes são comercializados na região e poucos produtos chegam a Manaus e a outros lugares, como as cestarias de arumã, bancos rituais de madeira e outros artesanatos. Farinhas e pimentas, devidamente embaladas, também podem alcançar outros mercados. O turismo de base comunitária afirma-se e é promissor, a exemplo do ecoturismo Yanomami ao Pico da Neblina, chamado de Yaripo pelos Yanomami. Reportagem da jornalista Sônia Bridi no Fantástico, da Rede Globo, há alguns dias, mostrou a expedição ao ponto mais alto do Brasil, assim como a diversidade cultural e de paisagens do Alto Rio Negro.
Grandes distâncias dos mercados consumidores, limitações e os altos custos do transporte constituem barreiras logísticas desafiadoras para melhorar as condições econômicas locais. Mas o que mais agrava essa situação - e pode ser resolvida - é a dependência em relação ao óleo diesel, que chega a São Gabriel a preços extorsivos. O diesel, hoje essencial para o transporte, a iluminação e o funcionamento de equipamentos, consome grande parte da renda indígena e limita demais a economia local. A geração de energia limpa é fundamental para superar o problema, além de contribuir para a redução de emissões de gases do efeito estufa.
Políticas Sociais
Aposentadorias rurais e programas de renda mínima contribuem de forma significativa para a economia regional. No entanto, o pagamento dos benefícios sociais, concentrado na sede de São Gabriel, tem causado migrações para a zona urbana e a periferia da cidade. Esse impacto tem potencial desagregador, sobretudo para as comunidades mais distantes, e também agrava o déficit de habitações e a dependência de insumos externos para o consumo da população local.
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Indígenas reunidos na sede da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro.|Márcio Santilli / ISA
Descentralizar esse pagamento é um objetivo importante para estabilizar as condições de vida nas aldeias. Mas requer um conjunto articulado de medidas, como a definição de núcleos de serviços nas calhas dos rios mais populosos, o que depende da disponibilidade de internet menos precária, terminais e cartões digitais, algum dinheiro em espécie e cantinas para a compra de produtos de consumo básico, reduzindo deslocamentos e facilitando a vida.
Para isso, será preciso mobilizar as instituições públicas, como a agência local da Caixa Econômica Federal, a Fundação Nacional do Índio (Funai), a prefeitura e o Exército, que poderia prover as condições de segurança para a instalação de núcleos de serviços, próximos aos locais que estão instalados batalhões de fronteira. Essa mobilização depende da decisão e da vontade política do governo federal, hoje inexistentes.
Serviços socioambientais
A região da Cabeça do Cachorro certamente seria elegível para receber compensações pela prestação de serviços ambientais. A floresta preserva um formidável estoque de carbono e viabiliza um especial regime de chuvas. O complexo multicultural também impressiona, com a prevalência de casamentos interétnicos e a profusão de pessoas poliglotas. Os conhecimentos tradicionais estão diretamente associados ao manejo de condições ecológicas específicas. A permanência das comunidades nas suas regiões e a gestão ambiental dos territórios cumprem funções essenciais para o país e para toda a humanidade.
Com a regulamentação do mercado compensatório de carbono florestal na última conferência da ONU sobre mudanças climáticas, realizada no ano passado em Glasgow, Escócia, a possibilidade de se construir um programa de escala para terras indígenas deixou de ser uma hipótese vaga, como antes, para se tornar mais efetiva. Porém, considerando o status jurídico das terras indígenas no Brasil, que são de propriedade da União e destinadas à posse permanente e usufruto dos povos ocupantes, é importante que esse caminho seja construído por uma parceria entre o governo e as populações indígenas, o que não é viável agora, mas poderá ocorrer a partir do próximo ano, sob um novo governo.
Nesse caso, o alto Rio Negro teria grandes chances de dispor de uma fonte de recursos perene e significativa para promover o desenvolvimento sustentável em bases mais promissoras do que em outras regiões da Amazônia, mais impactadas pelo desmatamento e pela ocupação predatória. Cada vez mais, os projetos de futuro dos povos indígenas e de outras comunidades tradicionais estarão associados ao enfrentamento, pela humanidade, das consequências das mudanças climáticas globais. A Cabeça do Cachorro poderá ocupar a linha de frente neste processo.
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Grafismo indígena em maloca no Alto Rio Negro.|Márcio Santilli / ISA
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Comunidade Aracaçá vive tragédia humanitária, alerta organização Yanomami
Em nota, a Hutukara Associação Yanomami apresentou levantamento que evidencia rotina de terror imposta aos indígenas e cobrou a expulsão dos invasores da Terra Indígena Yanomami
Em comunicado divulgado nesta sexta-feira (06/05), a Hutukara Associação Yanomami reforçou que segue acompanhando as investigações em torno da denúncia de estupro seguido de morte de uma menina de 12 anos na comunidade de Aracaçá, na região de Waikás, em Roraima, e apresentou informações “que revelam um grave histórico de tragédias associadas ao garimpo na comunidade”.
Comunidade de Aracaçá convive há anos com invasão garimpeira|Marcos Wesley/ISA (20.11.2014)
O levantamento cruzou relatos coletados junto a dois Yanomami esta semana com dados oficiais do distrito de saúde (censos populacionais de 2017 e 2022 e registros de óbitos), tornando possível identificar a cronologia dos episódios narrados.
“Até o momento, foi possível levantar que o histórico de tragédias na comunidade teve início em 2017, com o assassinato de um homem conhecido como C. Sanumá”, durante uma briga com garimpeiros. Segundo a Hutukara, o indígena tinha duas esposas e, depois de sua morte, as mulheres ficaram em uma situação de “extrema vulnerabilidade”, sendo prostituídas nos acampamentos de garimpo.
Uma delas teria morrido logo em seguida ao falecimento do esposo. “Há diferentes versões sobre sua morte, mas foi possível confirmar no registro de óbitos o falecimento de uma pessoa da mesma faixa etária, em 2018, tendo por causa de óbito envenenamento auto provocado”, afirma o comunicado.
De acordo com relatos colhidos pela Hutukara, uma das filhas dos indígenas, de 16 anos na época, teria sido vítima de seguidos abusos após ser levada para se prostituir em um acampamento localizado próximo a Aracaçá, onde teve uma criança que veio a falecer com poucos meses de vida. No registro de óbitos oficiais consta o falecimento de uma criança por traumatismo intracraniano em 2019.
A adolescente também teria ficado com uma deficiência física permanente após seguidos abusos. Ela então teria engravidado de um garimpeiro conhecido como “Pastor” e seu filho teria sido levado à cidade. “Desesperada, tirou a própria vida se enforcando”. A morte por suicídio possui lastro no registro de óbitos de 2021.
“A sequência de tragédias que marcaram a família de C. apresenta um cenário na aldeia de Aracaçá de casos generalizados de abusos e violência”, afirma a organização no comunicado. “A vulnerabilidade das pessoas da comunidade é tamanha que é bastante provável que episódios assim se repitam cotidianamente. Os fatos narrados corroboram a percepção dos Yanomami da região de Palimiu que, em 2021, relataram o receio de que vivessem uma tragédia similar à de Aracaçá, que estava levando ao desaparecimento desta comunidade”.
A região de Waikás, onde fica Aracaçá, foi a que teve o maior avanço de exploração de garimpeiros, de acordo com o relatório "Yanomami Sob Ataque", divulgado pela Hutukara em abril. Com quase metade da área degradada concentrada ali, a região registrou uma devastação de 296,18 hectares – 25% em um ano. Em 2016, estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) detectou que 92,3% da população de Aracaçá estava contaminada com níveis altos de mercúrio – metal líquido extremamente tóxico usado por garimpeiros para extrair ouro.
Já existem decisões judiciais nacionais e internacionais que orientam as autoridades brasileiras a protegerem a Terra Indígena Yanomami dos invasores. Conforme salientou o advogado da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Luiz Eloy Terena, em 2020 a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) emitiu medidas cautelares de proteção aos indígenas e, desde maio do ano passado, uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) determina a proteção integral desses povos. Também há decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, de 2020, determinando a extrusão dos garimpeiros ilegais.
Segundo Eloy, um dos advogados da ação no STF, o “governo brasileiro, de forma reiterada, vem descumprindo preceitos fundamentais dos povos indígenas”. A Apib protocolou nesta quinta-feira (05/05) uma peça com vários pedidos emergenciais e a denúncia de que a cautelar deferida pelo ministro Luís Roberto Barroso, em 2021, não está sendo cumprida.
Metade das aldeias sob assédio
No documento, a Hutukara reforça os dados alarmantes que constam no relatório “Yanomami Sob Ataque” e que revelam crescimento de 46% das áreas destruídas em 2021, com um incremento anual de 1.038 hectares, atingindo um total acumulado de 3.272 hectares. “As denúncias sobre Aracaçá só podem ser compreendidas dentro desse cenário, no qual praticamente metade das aldeias da Terra Indígena Yanomami está sujeita ao assédio dos invasores”, afirma a nota da Hutukara.
A organização Yanomami defende a condução de uma apuração mais ampla e aprofundada do histórico de violências vivido pelos indígenas em Aracaçá por consequência do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami.
“Por se tratar de um povo indígena que vive conforme seus costumes tradicionais e falante de sua língua ancestral, esse trabalho exige a participação continuada de especialistas com formação técnica em antropologia e com domínio da língua, e durante tempo suficiente para que os fatos sejam analisados com a profundidade que merecem”, sublinha o comunicado.
No documento, a Hutukara reforça a urgência da retirada dos garimpeiros do território para o restabelecimento do bem estar dos indígenas. “Precisamos impedir a tragédia humanitária que está se passando com os Yanomami. Queremos ver nossas famílias novamente saudáveis e em segurança. (...) Precisamos do comprometimento do poder público e do apoio da sociedade para a proteção das Terras Indígenas, da terra-floresta, e das vidas indígenas.”
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Alessandra Korap Munduruku e seu grito de alerta aos povos indígenas do Rio Negro
"Até o gosto do peixe aqui é diferente, ainda tá bom. Aqui podemos comer peixe sem preocupação. Lá na minha terra não tem mais como comer, não", alertou a liderança indígena
Alessandra Munduruku explica as agressões sofridas no seu território durante oficina em São Gabriel da Cachoeira|Juliana Radler/ISA
“Que não aconteça aqui nesse rio (Negro) tão bonito, limpo e vivo o que está acontecendo com o Tapajós, que era lindo, verdinho, e agora é barrento e contaminado pelo mercúrio”. Assim falou repetidamente aos seus parentes de 23 povos indígenas do rio Negro, Alessandra Korap, liderança Munduruku, em sua primeira visita ao município mais indígena do Brasil, São Gabriel da Cachoeira (AM), na fronteira com a Colômbia e a Venezuela, região mais preservada da Amazônia.
Ganhadora do prêmio de Direitos Humanos Robert F. Kennedy, em 2020, pela defesa do seu território, no Pará, frente às ameaças do garimpo ilegal, madeireiros e projetos do agronegócio, Alessandra participou da I Oficina Participativa de Formação Política promovida pelo Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA), em São Gabriel da Cachoeira, nos dias 27 e 28 de abril, em parceria com a Rede Wayuri de Comunicação Indígena e com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn).
Assista à entrevista completa com a liderança Alessandra Munduruku no canal da Foirn
Alessandra esteve em Brasília entre 4 e 14 de abril participando do Acampamento Terra Livre (ATL), maior mobilização indígena do planeta, para alertar contra a liberação de mineração em Terra Indígena que vem sendo puxada pelo governo por meio do Projeto de lei (PL) 191. No dia 19 de abril, Korap foi convidada pela comunicadora Fátima Bernardes, da TV Globo, a expor ao grande público a defesa que vem fazendo do seu território Munduruku como presidente da Associação Indígena Pariri e vice coordenadora da Federação dos Povos Indígenas do Pará (Fepipa), que reúne 57 etnias.
Em meio a essa agenda cheia, ameaças de perseguição e morte, Alessandra – que atualmente estuda Direito na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), em Santarém, foi ao Rio Negro dar uma aula de defesa territorial, comunicação, persistência e coragem frente às violências e invasões sofridas pelos Munduruku na terra indígena Sawré Muybu, no Pará.
“Vocês acham que eu queria estar aqui? Eu não queria ficar viajando. Eu queria ficar com meus filhos, cuidar da roça, banhar no rio, brincar, pescar. Não posso mais fazer nada disso. Isso dói. Mas, eu não vou desistir, eu vou estudar e lutar pelo meu povo contra o retrocesso, não posso me calar vendo o homem branco destruir a terra dos meus filhos. Ver outros povos sofrendo também, crianças sendo abusadas, como as Yanomami. Defender o território é defender a vida”, frisou durante debate com os diretores da Foirn, Janete Alves, do povo Desana, e Nildo Fontes, Tukano, na mesa sobre ameaças aos povos indígenas no Brasil atual.
“Em 2018 começou a entrada de invasores, em 2019 era máquina de todos os lados, os caciques saíram das aldeias, começaram a aliciar muitas lideranças e o nosso território começou a ser violado. Várias carretas, o rio sendo ocupado pelas balsas. Nossos jovens entrando no mundo da bebida, chegando em casa drogados e as moças se prostituindo”, lembrou Korap, dizendo que os caciques pediram que denunciasse e lutasse pelo povo.
Janete Desana ressalta que povos do Rio Negro são contra garimpo em Terra Indígena|Juliana Radler/ISA
O avanço do garimpo ilegal que despejou mais de 100 toneladas de mercúrio nas águas amazônicas em 2019 e 2020 também ameaça a bacia hidrográfica do Rio Negro, a maior bacia de águas pretas e mais extensa área úmida protegida do planeta. Ocorrências de garimpo ilegal cresceram nos últimos dois anos e vêm sendo denunciadas pela sociedade civil. Com a falta de fiscalização territorial dos órgãos competentes, os próprios indígenas vêm tendo que se expor em defesa do seu território, trazendo insegurança e ameaças às suas vidas, como foi colocado pelo presidente da Foirn, Marivelton Barroso, do povo Baré, durante a oficina.
Contaminando os maiores tucunarés do mundo
Projetos sustentáveis como o de pesca esportiva em Terra Indígena, iniciativa que gerou o recorde no Guineess book de maior tucunaré pescado e atrai centenas de turistas do Brasil e do mundo, estão ameaçados por conta da ação ilegal de garimpeiros e narcotraficantes, que agem associados e invadem as terras indígenas no Rio Negro. Além da destruição do meio ambiente e da fauna, a bandidagem leva o medo, ameaças e violência às comunidades indígenas em regiões remotas e até então protegidas da Amazônia, diante da inércia e negligência do Estado brasileiro.
“A garimpagem é um problema muito sério na Amazônia, que não pode ser deixado de lado. A gente não quer isso aqui. A gente aqui usufrui das nossas frutas, da nossa caça, da nossa pesca, ainda temos nossos rios limpos. Por isso, precisamos seguir nossa luta política e o fortalecimento das nossas lideranças para a melhoria e proteção das Terras Indígenas demarcadas do Rio Negro”, ressaltou a diretora e comunicadora Janete Alves, do povo Desana, que no fim deste mês irá a Haia, Holanda, receber o prêmio Estado de Direito do projeto Justiça Global, pelos trabalhos realizados pela Rede Wayuri de comunicadores indígenas no combate as fake news e defesa dos direitos indígenas.
Comunicadores indígenas do Rio Negro premiados pelo combate à desinformação|Juliana Radler/ISA
Nos tempos que a Funai existia
Também se somaram ao encontro dois ex-presidentes da Funai de tempos passados quando a Fundação Nacional do Índio ainda defendia os direitos indígenas: Márcio Santilli e João Pedro Gonçalves da Costa. O primeiro foi também deputado federal (1983-1987) e é sócio fundador do ISA, tendo participado como figura central na articulação pelos artigos 231 e 232 da Constituição Federal que colocaram os direitos indígenas na Carta Magna.
Santilli compartilhou com as lideranças indígenas as histórias de bastidores da Constituinte, algumas vividas ao lado de Mário Juruna (primeiro deputado federal indígena) e Ailton Krenak, na ocasião presidente da UNI (União das Nações Indígenas), cujo discurso histórico no dia 4 setembro de 1987 reverteu a conjuntura política anti-indígena naquela legislatura do Congresso Nacional, sendo decisivo para a aprovação dos artigos 231 e 232 da Constituição Federal de 1988 pelos parlamentares constituintes.
“A Constituição é fruto de uma briga enorme, resultado de uma negociação dura que garantiu aos índios os seus territórios e a defesa dos seus direitos. Aquela coisa de tratar os índios e os seus direitos como algo provisório acabou a partir da Constituição de 88. Isso foi a grande vitória”, lembrou Santilli.
João Pedro, também ex-senador pelo Amazonas (2007-2011), pôde dividir sua experiência na vida pública e no poder Legislativo, neste momento no qual esperamos o maior número de candidaturas indígenas já lançada na história do Brasil. No último ATL, várias mobilizações de convocação para uma bancada do cocar foram feitas, com grande disposição das mulheres indígenas em “aldearem a política” de Brasília para derrotar o lobby da mineração e a bancada ruralista. Atualmente, só existe uma parlamentar indígena, Joenia Wapichana, deputada federal por Roraima (Rede).
João Pedro, Márcio Santilli, Alessandra Munduruku e Anna Lazo no encerramento da oficina de formação política|Juliana Radler/ISA
“Formação política que motiva a estudar, pensar e refletir deve ser permanente. É preciso que a sociedade esteja organizada, a juventude, as mulheres. Por isso, é importante essa iniciativa de vocês. A Foirn, os rios, as aldeias, vocês precisam estar com o pensamento organizado para nunca aceitar a falta de liberdade e a falta de democracia”, enfatizou João Pedro, que está lançando essa semana em Manaus o livro “Nossas Utopias – A Esquerda de Manaus em 13 Atos”, pela editora Valer, na banca do Largo (em frente ao Teatro Amazonas).
Recordar é viver
Recordar, do latim re-cordis, significa voltar a passar pelo coração. A origem da palavra evoca o sentimento do encontro de João Pedro com Alessandra na oficina, ao lembrarem que foi em sua gestão na Funai, no dia 19 de abril de 2016, que foi publicado o relatório no Diário Oficial da União que delimitava a terra indígena Sawré Muybu, dando continuidade ao processo de demarcação do território de 173 mil hectares.
Na ocasião, a região sofria a pressão do setor energético para a construção da usina hidrelétrica de São Luiz do Tapajós, que previa inundar boa parte do território ocupado historicamente pelos Munduruku, inclusive alagando áreas sagradas. Com a divulgação do estudo da Funai, a construção da obra ficou mais difícil.
A oficina de formação política contou com a participação de cerca de 50 lideranças indígenas ligadas à Foirn, incluindo jovens e mulheres, com intuito de debater sobre democracia, sobre os três poderes do Estado, assim como fazer uma análise conjuntural sobre as principais ameaças aos direitos indígenas e à jovem democracia brasileira, com foco especial no debate eleitoral, fake news e a importância da imprensa livre.
Na conclusão do evento, os participantes fizeram uma exposição sobre suas reflexões em relação à democracia, à proteção de seus direitos e territórios, assim como sobre o combate às notícias falsas e desinformação. “Informar, consultar, dialogar e só assim decidir. Isso é democracia. Uma liderança não pode decidir sozinha. E temos que colocar em prática os nossos protocolos de consulta”, concluiu Max Tukano, liderança e ex-presidente da Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), durante as apresentações finais.
Max Tukano defendeu protocolos de consulta e diálogo com os povos indígenas|Juliana Radler/ISA
A Rede Wayuri participou da formação e fez a cobertura da oficina. Quem quiser saber um pouco mais sobre a atividade pode escutar o podcast Wayuri dessa semana pelo Spotify da rede, eleita como um dos 30 herois globais da informação mundial pelos Repórteres Sem Fronteiras. Todo o evento foi gravado pela Rede Wayuri para posterior circulação para as comunidades e transcrição dos debates.
Juliana Radler é articuladora de políticas socioambientais do Programa Rio Negro e organizadora da oficina
Alessandra Korap explica os danos em seu território para os povos do Rio Negro|Juliana Radler/ISA
Presença de jovens lideranças marcou a I oficina de formação política, em São Gabriel da Cachoeira|Juliana Radler/ISA
Larissa Duarte, do povo Tukano, sugeriu esclarecer sobre fake news nas escolas indígenas|Juliana Radler/ISA
Lideranças do Médio Rio Negro debatem democracia e direitos indígenas|Juliana Radler/ISA
Dadá Baniwa, da Foirn, e Dulce Morais, do ISA, pontuaram importância da liberdade de expressão e da soberania popular numa democracia|Juliana Radler;ISA
Anacleto Desana comenta sobre atuação do Exército na fronteira|Juliana Radler/ISA
Cerca de 50 lideranças indígenas participaram da I Oficina Participativa de Formação Política|Juliana Radler/ISA
Rosilda Cordeiro, do povo Tukano, uma das primeiras coordenadoras do departamento de mulheres da Foirn debateu democracia|Juliana Radler/ISA
Diretor da Foirn, Dário Baniwa, fez crítica ao capitalismo predatório|Juliana Radler/ISA
Nildo Fontes Tukano e Márcio Santilli, sócio fundador do ISA, durante oficina de formação política|Juliana Radler/ISA
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Traduções de indígenas do Rio Negro facilitam acesso à Justiça
Parceria entre ISA, Foirn e CNJ contribui para ampliar a compreensão de direitos de falantes do Nheengatu, Tukano e Baniwa
Um grupo de cinco indígenas dos povos Baré, Tukano, Tuyuka e Baniwa, que vivem na região do Rio Negro, no Amazonas, enfrentou o desafio de traduzir dois mundos diferentes. Eles foram convidados a transpor para suas línguas nativas cartazes com informações sobre audiências de custódia – quando o detido é levado à presença de um juiz logo após ser preso, na tentativa de facilitar do entendimento sobre os direitos e acesso ao Judiciário.
Edson Cordeiro Gomes, Baré, tradutor do Nheengatu, Alfredo Brazão, tradutor do Baniwa e Manuele Pimentel Serra, do povo Tuyuka, tradutora do Tukano
Traduções de cartazes para as línguas Tukano, Nheegatu e Baniwa (da esquerda para a direita)
Uma das tradutoras foi Manuele Pimentel Serra, do povo Tuyuka, falante de Tukano. Mesmo sendo estudante de Direito da Universidade de Brasília (UnB) e fluente em Tukano, ela contou que precisou de ajuda para esclarecer dúvidas.
“Quando me foi proposto participar da iniciativa, achei que seria uma tradução simples e que daria conta, pois sou fluente em Tukano. Mas, depois, fui ver que era mais complexo, pois os cartazes têm muitos termos jurídicos. Por exemplo, audiência de custódia não existe em Tukano. O maior desafio foi traduzir o conceito sem sacrificar a clareza da ideia para os indígenas que vão ler e adquirir conhecimento”, disse.
O termo audiência de custódia foi traduzido com uma frase explicando ao indígena que, caso ele ou algum parente seja preso, deverá ser levado até uma autoridade judicial, no Fórum.
A produção dos cartazes traduzidos sobre audiência de custódia nasceu de uma parceria entre o Instituto Socioambiental (ISA), a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O lançamento aconteceu na Maloca - Casa do Saber da Foirn, em São Gabriel da Cachoeira (AM), em 29 de abril, com a presença de representantes do Poder Judiciário – CNJ e Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) – e do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC).
No evento, houve apresentação das danças tradicionais Japurutu e Cariçu conduzidas pelo cacique e conhecedor Luiz Laureano, da etnia Baniwa, da Comunidade de Itacoatiara-Mirim.
Apresentação das danças tradicionais Japurutu e Cariçu conduzidas pelo cacique e conhecedor Luiz Laureano|Ana Amélia Hamdan/ISA
Conforme o CNJ, além de informações sobre o direito à audiência de custódia, os cartazes abordam temas como direitos das pessoas presas, medidas cautelares e prevenção a maus-tratos e violência. A ação integra o programa “Fazendo Justiça”.
Os cartazes foram produzidos tendo por base cartilhas em português e serão encaminhados a órgãos de segurança pública locais e para comunidades indígenas nos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, com apoio do ISA e da Foirn. O tema também será pauta do programa de rádio Papo da Maloca, da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas.
Com a parceria estabelecida, novos passos já começaram a ser dados. Ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e conselheiro do CNJ, Luiz Philippe Vieira de Mello Filho participou da solenidade na Casa do Saber da Foirn e informou que está sendo articulada uma nova visita do CNJ a São Gabriel da Cachoeira ainda neste semestre.
A proposta é promover uma capacitação para implementar a Justiça Restaurativa, que prevê uma técnica de solução de conflitos que se orienta pela criatividade e sensibilidade a partir da escuta de ofensores e vítimas. “Estamos reunindo os colegas para ensinar e difundir essa cultura restaurativa no Tribunal de Justiça do Amazonas, mas teríamos um núcleo especial aqui. Dada a singularidade dessa cidade, a gente tem por obrigação fazer essa proteção e essa restauração”, afirmou.
São Gabriel é o município do país com maior concentração de população indígena, sendo que na região há 23 etnias falantes de 18 línguas, sendo quatro delas cooficiais: Nheengatu, Tukano, Baniwa e Yanomami.
Em seu discurso durante a solenidade, o ministro do TST lembrou da dívida histórica que o país tem com os povos originários. “Eu não vim falar de Justiça com os senhores, vim falar de respeito, de dignidade. A nossa presença significa o respeito aos povos indígenas, à cultura de vocês. Nós viemos buscar uma parceria, trazer um auxílio dos órgãos públicos, representar o sistema de Justiça para sermos parceiros dos senhores”, disse. “O futuro se constrói com compromisso, respeito e solidariedade de mãos dadas e não com destruição, violência e desrespeito. Não com retrocesso de conquistas que foram objetos de muitas lutas de muitas décadas e séculos”, completou.
Sócio-fundador do ISA, Márcio Santilli participou do lançamento na maloca e reforçou que o objetivo da parceria é viabilizar um atendimento adequado do Judiciário aos povos indígenas.
Márcio Santilli, sócio-fundador do ISA, faz uma fala durante recepção a autoridades em São Gabriel|Ana Amélia Hamdan/ISA
“É uma honra para o ISA poder ser parte do conteúdo fundamental dessa visita, que é democratizar o acesso ao Judiciário e viabilizar por parte da Justiça um atendimento adequado às pessoas indígenas. São Gabriel da Cachoeira é uma cidade que cresce e, com isso, crescem também os problemas, os conflitos, situações que requerem uma mediação do Poder Judiciário. Nós estamos no centro de um complexo interétnico composto por 23 povos diferentes, cujas relações entre si são complexas, assim como as relações com a sociedade. Diante disso, a presença e eficácia do provimento de Justiça é uma questão fundamental”, salientou.
Os representantes do Judiciário participaram de reunião da sede do ISA em São Gabriel com Santilli e com o coordenador-adjunto do Programa Rio Negro, Aloisio Cabalzar. O ISA atuou na facilitação do contato com os tradutores indígenas, com o trabalho conduzido pela advogada do Programa Rio Negro, Renata Vieira.
Equipe de trabalho, autoridades do Judiciário, representantes da Foirn e a advogada do Programa Rio Negro-ISA, Renata Vieira (de vestido claro)|Ana AMélia Hamdan/ISA
Durante o lançamento dos cartazes, o presidente da Foirn, Marivelton Barroso, do povo Baré, falou da importância da parceria e não deixou de enumerar os desafios que os povos indígenas vêm enfrentando com os retrocessos do atual Governo Federal. Ele citou problemas como a pressão do tráfico de drogas e do garimpo, a violência contra as mulheres e o abuso do uso de álcool entre os indígenas.
“A Foirn vem sendo uma embaixada dos povos indígenas, pois são 18 línguas faladas, além do espanhol e português. Temos a responsabilidade de valorizar a cultura e manter a resistência dos povos indígenas diante de um governo que só traz retrocessos e perseguições", afirmou.
"Esse não é um momento só de conquista, a gente tem desafios e resiste para exigir. Esse é nosso parlamento indígena, nossa Casa do Saber. No momento em que vocês se unem aos indígenas e aos direitos humanos, a gente se junta a vocês para o acesso à Justiça”, pontuou Marivelton Barroso.
Liderança do povo Munduruku, Alessandra Korap participou do encontro como convidada da Foirn e do ISA e levou às autoridades denúncia de ataques ao seu povo, no Pará.
“A região do Rio Negro está preservada, a água do rio está limpa. Isso precisa ser preservado. A minha região também era assim, o rio era verde. Hoje está lamacento, com os peixes contaminados pelo mercúrio”, lamentou.
Direitos
Renata Vieira explica que os cartazes traduzidos para línguas indígenas são referentes à audiência de custódia, mas a iniciativa traz a garantia de ao menos outros três direitos: direito à cultura dos povos indígenas, direito a falar e ter acesso à informação na sua própria língua e direito de acesso à Justiça. “Não se pode falar de acesso à Justiça quando não se tem compreensão dos direitos”, enfatizou.
Ela atenta ainda para a importância da presença de representantes do Judiciário nacional e estadual em São Gabriel da Cachoeira.
“A emergência dos povos indígenas tem ganhado protagonismo dentro do Judiciário. Trazer o Judiciário para perto dos indígenas também é muito importante. É o Estado se abrindo para a pluralidade dos povos indígenas. Essas pessoas viram a floresta e o rio preservado, estiveram com os indígenas, vão se lembrar disso quando retornarem a seus gabinetes”, disse.
Defensora pública em São Gabriel da Cachoeira, Isabela Sales considera que a iniciativa é de extrema importância. Ela explica que, muitas vezes, o indígena que recorre à Defensoria sabe a língua portuguesa, mas não ao ponto de compreender termos técnicos do Direito. “Muitas vezes, a pessoa detida fala o português, mas não tem o entendimento da situação. Então pode até mesmo se comprometer ou se incriminar na frente do juiz. Em algumas situações precisamos de tradutor, intérprete. Nesses casos, pedimos apoio à Foirn”, explicou.
Em São Gabriel da Cachoeira, há uma delegacia de Polícia Civil com carceragem, onde os presos ficam detidos. A projeção dos órgãos de segurança locais é que aproximadamente 90% dos detentos sejam indígenas.
Ação pioneira
A produção das cartilhas de audiência de custódia em línguas indígenas é pioneira no país e mostra dois movimentos principais: o fortalecimento do movimento indígena e ações do sistema Judiciário para maior inclusão.
Desembargador do Tribunal de Justiça, conselheiro do CNJ e supervisor do Departamento de Monitoramento e Fiscalização Carcerária e Socioeducativa (DMF), Mauro Pereira Martins informa que a tradução dos cartazes é o primeiro passo para implementação da resolução 287 do CNJ, de 2019, que disciplina os direitos das pessoas indígenas nos processos criminais e determina que os tribunais dos Estados adotem providências para concretizar o previsto. Segundo ele, o objetivo é fazer com que a Justiça vá ao encontro das comunidades indígenas, respeitando a cultura e a tradição local.
Aloisio Cabalzar mostra a magistrados o mapa constante do Plano de Gestão Indígena do Alto e Médio Rio Negro|Ana Amélia Hamdan/ISA
Ainda de acordo com o magistrado, o CNJ indica que todo preso deve passar por essa audiência de custódia, ou seja, ser apresentado ao juiz até 24 horas após sua prisão. No encontro, o juiz pode verificar possíveis marcas de agressões e saber das circunstâncias da prisão. “A audiência de custódia é considerada primordial para assegurar que o processo da prisão ocorreu dentro da legalidade, coibindo abusos e torturas eventualmente cometidas pelos próprios agentes do Estado”, esclareceu.
Juíza da 5ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) e à frente da Coordenadoria de Audiências de Custódia no Estado, Andrea Medeiros afirmou que é necessário ensinar e explicar os procedimentos jurídicos. “Muitas vezes, o detento, quando é indígena, não fala o português e não compreende essa carga de palavras jurídicas. Pode ter dúvida, por exemplo, sobre o que é uma tornozeleira eletrônica”, exemplificou.
Coordenador da Unidade de Estado de Direito do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), Nivio Nascimento disse que a entidade integra a parceria com o Programa Fazendo Justiça, desenvolvido pelo CNJ. Uma das iniciativas foi a produção de cartilhas informativas sobre audiências de custódia.
Tornozeleira eletrônica
As dificuldades de tradução de palavras e situações próprias do sistema de Justiça foram encontradas por todos os tradutores indígenas. Edson Gomes, do povo Baré, falante de Nheengatu, relata que o trabalho foi desafiador. Um dos problemas encontrados foi traduzir o termo tornozeleira eletrônica. Para passar aos indígenas o significado correto, usou a palavra que indica o que fica no tornozelo: takão pura.
Mestrando em comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o comunicador Ray Baniwa participou do projeto e atuou junto a Alfredo Brazão, também do povo Baniwa. Como exemplo de dificuldade na tradução, Ray também citou o termo tornozeleira eletrônica.
“Na nossa língua Baniwa, não tem o termo tornozeleira eletrônica. Então, utilizei a palavra relógio, que já é bastante usada pelos Baniwa. E tornozeleira eletrônica foi explicada como sendo um tipo de relógio que monitora pessoas, que é colocado na pessoa para saber onde é que ela está”, explicou.
Ele acredita que, à medida que os indígenas forem se habituando com esse tema, as traduções serão adaptadas. “É um trabalho importante para mim, para nós como Baniwa, pois vai trazer pela primeira vez o acesso ao sistema Judiciário, o que não é comum. Quando apresentei o trabalho, expliquei que vai demorar um pouco para a gente conhecer melhor essa linguagem. Essa primeira versão terá que ser adaptada. Com mais pessoas se habituando, vamos achar novas formas de traduzir os termos que são, por enquanto, difíceis para nós”, finalizou.
Conheça os tradutores indígenas
Alfredo Brazão, do povo Baniwa - Tradução para o Baniwa
Professor, formado em magistério indígena e licenciado pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) em Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável Indígena.
Ray Baniwa, do povo Baniwa – Tradução para o Baniwa
Comunicador da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas, com formação em Marketing e mestrando em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Manuele Pimentel Serra, do povo Tuyuka – Tradução para o Tukano
Graduanda em Direito na Universidade de Brasília (UnB) e estagiária do Programa Rio Negro do ISA.
Dagoberto Lima Azevedo, do povo Tukano – Tradução para o Tukano
Doutorando em Antropologia pela Ufam, assessor técnico do Programa Rio Negro do ISA.
Edson Cordeiro Gomes, do povo Baré - Tradução para o Nheengatu
Licenciado em Educação Indígena pela Ufam, pesquisador da Política Linguística da Região do Alto Rio Negro e atualmente supervisiona as atividades da Confederação Nacional dos Agricultores e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer) na região do Rio Negro.
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Anfitriões Yanomami começam a receber turistas no Yaripo, o Pico da Neblina
Modelo de turismo de base comunitária propõe desenvolvimento sustentável na Amazônia com autonomia dos povos indígenas
Visitantes fazem imagens do Pico da Neblina antes de seguir para o cume, o mais alto do Brasil|Marcos Wesley/ISA
Na metade de abril deste ano, os turistas que participaram da expedição ao Yaripo – nome Yanomami para o Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil – estavam quase finalizando o trajeto de dez dias em plena floresta amazônica. Exaustos, pararam no último alojamento para passar a noite e tiveram um jantar especial com cogumelos e palmito Xirãkomi embrulhados em folha de bananeira e assados na brasa, acompanhado de peixe fresco. O prato foi preparado pela cozinheira Lucilene Souza Pereira, indígena da etnia Yanomami, com os ingredientes encontrados ali mesmo, na mata.
Essa foi uma das surpresas vivenciadas pelo grupo que subiu o Yaripo, que significa Serra dos Ventos, numa das primeiras expedições após a reabertura ao turismo. Os anfitriões – ou os Teri këpë – do Yaripo guiaram os visitantes. E, para muitos dos turistas, esse é o grande diferencial do projeto: caminhar pela floresta ao lado dos Yanomami.
Essa expedição foi acompanhada pela jornalista Sônia Bridi e pelo repórter cinematográfico Paulo Zero, da Rede Globo, para reportagem sobre o Pico da Neblina e o povo Yanomami que foi ao ar neste domingo (01/05) no Fantástico. Em suas redes sociais, a jornalista falou do privilégio em escalar o pico e de aprender “com os donos da casa”. “Muito antes de os brancos enxergarem essa montanha e chamá-la de Pico da Neblina, os Yanomami já a conheciam: Yaripo, a morada da ventania”, escreveu.
Com cerca de 3 mil metros de altitude, o Yaripo está localizado em território indígena Yanomami, em área de sobreposição do Parque Nacional Pico da Neblina, no Amazonas. Para os Yanomami, é um local sagrado, morada dos espíritos.
Turistas chegam no início da trilha (porto do rio Irokae) após pernoite na comunidade Maturacá, rumo ao Yaripo|Marcos Wesley/ISA
O Projeto Yaripo - Ecoturismo Yanomami é de base comunitária e busca o protagonismo dos indígenas, tendo como objetivo gerar renda, proteger o território e fortalecer a cultura. A gestão é dos próprios indígenas, com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e Fundação Nacional do Índio (Funai). Três operadoras atuam também em apoio aos indígenas: Amazon Emotions, Ambiental Turismo e Roraima Adventures.
Coordenador do Programa Rio Negro do ISA, Marcos Wesley de Oliveira participou da expedição no início de abril, sendo a terceira vez que completa o percurso. Ele considera que esse é um modelo de empreendedorismo indígena que visa à geração de renda por meio de atividade sustentável.
“Os Yanomami, com o projeto Yaripo, estão nos apontando um modelo de desenvolvimento sustentável para a Amazônia que valoriza duas das suas principais riquezas: os povos indígenas e suas culturas; e a própria floresta, com rios, cachoeiras, pedras, flores, árvores e todas as paisagens. Ter a oportunidade de andar alguns dias com os Yanomami nos apresentando a floresta e se apresentando a nós é uma experiência transformadora”, disse.
Grupo reunido no porto Irokae, início da trilha para o topo do Pico da Neblina|Marcos Wesley/ISA
Presidente da Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes (Ayrca), José Mário Pereira Góes fez uma avaliação positiva do Projeto Yaripo após as duas primeiras expedições, com os indígenas atentos para a necessidade de ajustes. “Aqueles que estão envolvidos com o projeto estão vendo a realidade, que aquilo que pensávamos e sonhávamos está acontecendo. É um ponto positivo, agora acreditam que temos um projeto de ecoturismo Yanomami em funcionamento”, afirmou.
José Mário relembra que a reabertura do Pico Neblina ao turismo estava prevista para acontecer no início de 2020, mas foi adiada devido à pandemia. Depois disso, já em 2022, houve outro adiamento devido à variante Ômicron do novo coronavírus. Para participar da expedição, o turista precisa estar vacinado contra a Covid-19 e passar por testagem.
“O sonho do meu povo Yanomami está sendo realizado agora, está tendo resultado muito bom para dar suporte nas comunidades. Não é pensamento só de uma pessoa – é pensamento de todos. Várias reuniões e assembleias foram realizadas. É um projeto que não degrada a mata, o rio”, completou.
Visitantes
Vários dos visitantes que subiram o Pico da Neblina na reabertura para o turismo falaram que caminhar lado a lado com os Yanomami em meio à floresta Amazônica é uma experiência única. O administrador e empresário Oswaldo Toyofuku, de 69 anos, participou da expedição no início de abril e era o mais velho de seu grupo. Ele disse que fez viagens em várias partes do mundo, tendo inclusive subido até a base do Everest, mas, após ter a experiência do Yaripo e do contato com o povo Yanomami, decidiu conhecer mais o Brasil.
Acampamento Areal é o mais próximo ao Yaripo. De lá, no quinto dia, se ataca o cume|Marcos Wesley/ISA
Trabalhando e estudando desde os 13 anos de idade, ele conta que passou a se dedicar a subir montanhas quando viu todos os filhos criados. E vem cumprindo um ritual: faz uma “montanha” por ano, sendo que deixa o cabelo e a barba crescerem e só corta ao chegar ao seu destino. No caso do Yaripo, houve um componente especial, pois ele estava há três anos sem cortar o cabelo e a barba, já que precisou se recolher devido à pandemia. “Lá no cume do Pico da Neblina, cortei a barba e joguei para o lado da Venezuela. Depois cortei o cabelo e joguei para o lado do Brasil. Foi uma festa”, relatou. O Pico da Neblina fica na fronteira entre os dois países.
A médica Lilian Meissner, de 67 anos, também subiu o Yaripo. Ela sonhava em conhecer o Pico da Neblina desde a época do colégio, quando aprendeu sobre o ponto mais alto do país. Como sempre foi aventureira, fez expedições em várias partes do Brasil e em outras partes do mundo, com viagens ao Everest, Monte Roraima (RR) e Pedra da Gávea (RJ). “Essa foi a expedição mais desafiadora”, contou.
Para o jornalista Ivan Zumalde, de 43 anos, nessa expedição, o contato com o povo Yanomami é mais importante até mesmo que atingir o ponto mais alto do país. “A cultura indígena é maior que o pico em si”, resumiu. Ele participou da viagem como turista e não tinha intenção de escrever sobre o assunto. Mas ficou tão estimulado com a experiência que redigirá um artigo.
“Vendo que o projeto é realmente de base comunitária, isso me estimulou a escrever. Há negócios de impacto socioambiental atraindo investimentos. Mas esse projeto é totalmente diferente do que o mercado financeiro está enxergando. Quando eu vi, senti e vivi a realidade do povo Yanomami, eu percebi que não é preciso muito malabarismo. Precisa de gente trabalhando e fomentando isso, o povo Yanomami já está no protagonismo. Na verdade, é simples”, avaliou.
Jornalista Ivan Zumalde fotografa a expedição ao Yaripo, ponto mais alto do Brasil|Marcos Wesley/ISA
A empresária Katharina Brazil, de 46 anos, também se encantou com o povo Yanomami. Ela não é montanhista e está acostumada a outro tipo de aventura: o turismo em carro 4x4. Em suas viagens, já rodou quase todo o país e, mesmo com toda essa experiência, se surpreendeu com o Yaripo. “Foram os dias mais incríveis dessa minha descoberta do Brasil. A floresta é incrível e os Yanomami são muito o 'aqui o agora', o presente, a noção de tempo é diferente. Isso é aprendizado para quem vive na correria da cidade”, analisou a empresária.
Para o geólogo Luiz Antônio Pereira de Souza, de 65 anos, a viagem sem a presença dos Yanomami não teria graça. “Chegar ao ponto mais alto do Brasil é muito interessante, mas cruzar parte da Amazônia com os Yanomami e conversando com eles, conhecendo o que a gente pode comer no meio do mato, é uma experiência única. Estou na casa deles!”, celebrou.
Ovos de Inambú encontrados pelos Yanomami e que serviram para sua dieta alimentar|Marcos Wesley/ISA
O empresário suíço-brasileiro Hanspeter Gass, de 39 anos, vinha buscando informações sobre o Pico da Neblina desde 2008. Preparou-se para a primeira expedição, que seria em janeiro de 2020, mas o mundo foi surpreendido pela pandemia da Covid-19. Ele adiou a viagem e acabou participando da primeira expedição ao Pico da Neblina, em março de 2022. Chegou ao topo do Brasil em dia aberto, o que possibilitou que ele fizesse muitas fotos.
Ele elogia o acolhimento dos Yanomami e a trilha. “Minha rede rasgou no caminho e os Yanomami me emprestaram a rede deles. Ajudaram em tudo. Eu adorei a trilha, na minha opinião não precisa de pontes (sobre algumas áreas) ou conforto. Mas isso, é claro, vai depender do que os Yanomami querem”, afirmou. “Já fui a quase 100 lugares em expedições e posso dizer que essa foi uma experiência única que quase não existe mais no nosso planeta. A convivência com a selva foi intensa”, ressaltou.
Irokae, primeiro e último acampamento na caminhada até o ponto mais alto do Brasil|Marcos Wesley/ISA
Marcos Wesley, do ISA, explica que esse contato com os turistas é positivo também para os indígenas. “É importante que os não indígenas conheçam os Yanomami, sejam seus aliados. Esse contato reforça a pergunta sobre o modelo de desenvolvimento que queremos para a Amazônia: é um desenvolvimento sustentável que valoriza os povos indígenas e a floresta ou é o desenvolvimento que está sendo incentivado hoje que destrói a floresta, que destrói os rios, que contamina a natureza, que invade Terra Indígena e causa caos humanitário? Diante das emergências climáticas, a resposta é só uma: a da economia sustentável. A gente tem que se posicionar hoje no Brasil diante das agressões que a floresta e os povos indígenas vêm sofrendo. E o projeto Yaripo nos inspira nesse sentido”, pontuou.
Sob o aspecto da proteção territorial, o ecoturismo se apresenta como alternativa ao garimpo. A data da segunda expedição ao Yaripo coincidiu com o lançamento pela Hutukara Associação Yanomami do relatório Yanomami Sob Ataque, que denuncia a crise humanitária provocada pelo garimpo em território Yanomami, mas em área localizada no estado de Roraima, onde o problema é mais grave.
Segundo o coordenador do Projeto Ecoturismo Yanomami Yaripo, Celso Lopes Góes, da etnia Yanomami, a comunidade está se mostrando satisfeita com o projeto. “É como se estivéssemos recebendo alguém de nossa família. A comunidade está se sentindo alegre vendo o turismo funcionar, com muito respeito dos visitantes, com geração de renda”, resumiu.
Yanomami descansam no trajeto de volta ao acampamento Areal|Marcos Wesley/ISA
E os indígenas que estão envolvidos diretamente na expedição também dizem que estão gostando da experiência. “Sempre tive vontade de conhecer a montanha porque minha avó contava dos caminhos do pico, com árvores de frutas como abiu, bacaba, pupunha. Eu fico cansada, mas estou acostumada a andar na floresta. Tenho experiência na comida dos brancos, tenho capacitação em culinária. E fiz de tudo: acompanhei, conversei, cuidei. Cantei junto com os visitantes!”, contou a cozinheira e agricultora Lucilene, que participou da expedição e ainda preparou as refeições do grupo, inclusive o jantar especial com cogumelos, palmito e peixe fresco.
Projeto
O Yaripo ou Pico da Neblina fica no território Yanomami, no Amazonas, em área de sobreposição com parque nacional sob gestão do ICMBio. Todo o processo para a construção do plano de visitação durou cerca de sete anos, envolvendo capacitação, reuniões e assembleias entre os agentes envolvidos. A primeira expedição após reabertura do turismo aconteceu de 20 a 29 de março. Já o segundo grupo subiu o Yaripo entre os dias 3 e 12 de abril.
Este ano, a previsão é que aconteça uma viagem por mês, respeitando o ritmo de trabalho dos Yanomami. Cada grupo tem até 10 turistas, que podem contratar Yanomami como apoio para carregamento das bagagens e alimentos. Os indígenas utilizam os jamaxis, cestos que são levados nas costas, para levar os materiais. O trajeto é considerado de montanha de alta dificuldade.
Área de charco no caminho do Pico da Neblina. Trajeto é considerado de montanha de alta dificuldade|Marcos Wesley/ISA
Para chegar ao Pico da Neblina, os turistas partem do município de São Gabriel da Cachoeira, no Noroeste do Amazonas, até a comunidade Yanomami de Maturacá, onde são recebidos e benzidos em ritual promovido pelos xamãs – lideres espirituais. Os visitantes ficam na sede da Ayrca até partirem rumo ao Pico da Neblina. O projeto não envolve etnoturismo, ou seja, os turistas não ficam em contato com a comunidade indígena.
Assessora do ISA para o Projeto Yaripo, Lana Rosa explica que o plano de visitação construído junto com os Yanomami prevê a implantação de turismo de base comunitária. Nesse tipo de proposta busca-se preservar a cultura e os modos de vida de comunidades, como indígenas, ribeirinhos ou quilombolas.
Um dos cuidados é a não interferência em atividades tradicionais. “No turismo de base comunitária, o cuidado não é só com o visitante, mas também com a comunidade tradicional. No caso dos Yanomami, alguns vão se dedicar a essa nova atividade, vão gerar renda a partir disso. Isso é importante, pois as comunidades costumam ser isoladas e com possibilidade limitada de renda. Mas é necessário cuidado para que eles não sejam afastados das atividades tradicionais, como a de fazer a roça”, explicou.
Coordenador do Programa Rio Negro do ISA, Marcos Wesley chega ao cume do Yaripo|Marcos Wesley/ISA
A técnica de turismo da Foirn, Tifane Máximo, da etnia Baré, informou que cerca de 80 indígenas Yanomami estão envolvidos diretamente no Projeto Yaripo. “Estamos fortalecendo o turismo de base comunitária para dar protagonismo ao povo Yanomami, os grandes guardiões de seu território. Como instituição, vamos dar o apoio necessário”, disse.
Dentro do projeto, os indígenas exercem funções de coordenação, guia, barqueiros, acompanhantes e cozinheiras. Eles recebem um valor pelo trabalho e, além disso, a cada expedição é destinado um montante para o fundo comunitário gerido pela Ayrca. Outra fonte de renda é a venda de produtos da agricultura indígena que são levados nas expedições. Também está entre os objetivos buscar o protagonismo das mulheres, inclusive com promoção de venda de artesanatos e participação no projeto da Associação das Mulheres Yanomami - Kumirayoma (Amyk).
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Organização Yanomami exige retirada de garimpeiros após denúncia de estupro e morte de menina
Em nota, a Hutukara Associação Yanomami lembrou que outros casos de violência sexual foram registrados e publicados recentemente no relatório “Yanomami Sob Ataque”
A Hutukara Associação Yanomami (HAY) comunicou nesta quarta-feira (27/4) em nota que está acompanhando o caso do ataque de garimpeiros à comunidade Aracaçá, na região Waikás, Terra Indígena Yanomami e exigiu que os invasores ilegais sejam retirados do território.
Conforme relatos, garimpeiros teriam estuprado e matado uma adolescente de 12 anos, e sequestrado outra mulher e uma criança, que desapareceu nas águas do rio ao tentar fugir. A associação indígena disse que está apurando mais informações junto às comunidades para esclarecer os fatos e encaminhar o que for necessário junto às autoridades.
Garimpo na Foz do Rio Aracaçá na Terra Indígena Yanomami|Divulgação
A HAY também destaca no documento que episódios de violência sexual contra crianças, adolescentes e mulheres Yanomami praticadas por garimpeiros invasores já foram registrados em outras regiões e publicados recentemente no relatório Yanomami Sob Ataque. O relatório também denuncia casos de violência armada e ameaças de garimpeiros contra a vida dos Yanomami e Ye’kwana.
A organização relembra que a região de Waikás é a mais impactada pelo garimpo ilegal na TIY, com 25% do aumento da devastação de 2020 a 2021. “E a comunidade Aracaçá já foi o centro de um estudo conduzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), onde 92% das pessoas que participaram do estudo apresentaram índices elevadíssimos de contaminação de mercúrios no corpo, resultado do garimpo ilegal na região”, afirmou a Hutukara.
O nota também destaca que a comunidade Aracaçá está próxima à região de Palimiu, onde em maio do ano passado ocorreram seguidos ataques de garimpeiros armados e uma criança morreu afogada tentando fugir para se proteger dos invasores.
“Mesmo com toda a violência, a Base de Proteção Etnoambiental (Bape) da Funai, que deveria proteger o acesso ao Rio Uraricoera ainda não foi reativada e o garimpo continua atuando livremente”, diz o documento.
Confira na íntegra a nota da Hutukara que pede mais uma vez que o Estado brasileiro cumpra o seu dever constitucional e promova urgentemente a retirada dos invasores.
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Resistência marca celebração pelo Dia dos Povos Indígenas no Rio Negro
Encontro em São Gabriel da Cachoeira, cidade mais indígena do Brasil, reuniu representantes dos mais de 20 povos da região em defesa de seus territórios e da diversidade cultural
Apesar de todos os ataques aos seus direitos constitucionais, os 23 povos indígenas do Rio Negro celebraram o Dia dos Povos Indígenas em São Gabriel da Cachoeira, Alto Rio Negro, valorizando sua diversidade cultural e territórios tradicionais, no Noroeste Amazônico, região mais preservada da Amazônia brasileira.
A comemoração começou dia 19 de abril pela manhã, com dabucuri (cerimônia de oferta de alimentos) na comunidade Waruá, do povo Dâw, na Terra Indígena Médio Rio Negro II, bem em frente à cidade de São Gabriel.
Grupo de cariço composto por indígenas Wanano e Desana se apresentaram na celebração|Juliana Radler/ISA
Os Dâw são um povo de aproximadamente 200 pessoas, falantes de sua língua do tronco linguístico Naduhup, e que vêm ampliando sua população nos últimos anos graças à demarcação do território e um melhor enfrentamento de diversas ameaças, que quase levaram o povo à extinção.
“Nossa luta em defesa do nosso território, do nosso rio e dos nossos igarapés, é grande. Porque sem a floresta nós não podemos viver. Nós não pensamos somente em nós, pensamos na geração que está vindo. Mas, se acontecer entrada de mineração, entrada de destruição da nossa natureza, seria uma morte para nós, para nosso povo”, afirmou a professora Auxiliadora Fernandes da Silva, liderança do povo Dâw.
Com grande valorização da fartura amazônica e das crianças da comunidade, os Dâw – conhecedores dos caminhos da floresta – caçaram por quatro dias para oferecer apenas comida tradicional durante o dia festivo, além de frutas, beiju, goma de tapioca, peixe moqueado e outros alimentos produzidos na comunidade ou colhidos na floresta e no rio.
Dabucuri uniu jovens e crianças do povo Dâw nas celebrações na comunidade do Waruá|Juliana Radler/ISA
Já a tradicional Maloca de Itacoatiara Mirim, do mestre Luiz Laureano, da etnia Baniwa, na comunidade de Itacoatiara Mirim, na área periurbana de São Gabriel, recebeu indígenas de cerca de 10 etnias, além de não indígenas, em sua celebração intercultural.
Luiz Laureano e seu irmão Mário Joaquim fizeram uma apresentação com as flautas japurutu, trazendo para a maloca suas músicas tradicionais. “Tenho que manter a maloca alegre, tenho que trazer felicidade para não deixar espaço para as coisas ruins”, disse o mestre Luiz Laureano.
Seu filho Moisés Baniwa, cineasta e fotógrafo da Rede Wayuri, foi o mestre de cerimônia da festa. “Essa é uma forma de incentivar a nossa cultura. As pessoas que participam dessa festa acabam voltando ou levando adiante as tradições”, contou. Em Itacoatiara Mirim vivem 45 famílias das etnias Baniwa, Wanano, Desano, Koripako, Bará e Tuyuka. Houve dabucuri, com oferta farta de alimentos em agradecimento aos parceiros.
A comemoração também envolveu os alunos e alunas da Escola Municipal Jerusalém, com incentivo da professora Marlene Domingos, da etnia Baré, e do professor Felisberto Montenegro, da etnia Wanano. Felisberto resgatou em um trabalho de pesquisa a dança do Choro do Tukano. Uma das alunas fez a leitura de um texto abordando a violência histórica dos invasores e a necessidade de proteção aos povos tradicionais.
Diversidade linguística
Um grupo da etnia Wanano que mora em uma comunidade próxima apresentou a dança Cariço. O professor Efrain Brazão Alana, Wanano, considera que a festa ajuda a reforçar a cultura, mas ressalta que está lutando pelo reconhecimento de sua língua – o Wanano – também como oficial no município.
Povo Dâw celebrou sua resistência na Terra Indígena Médio Rio Negro II|Juliana Radler/ISA
São Gabriel da Cachoeira tem quatro línguas oficiais, além do português: Baniwa, Nheengatu, Tukano e Yanomami. “O ideal é que tivéssemos escolas que ensinassem a nossa língua”, avaliou.
As mulheres indígenas participaram das danças, entoaram cânticos em língua indígena e serviram rodadas de caxiri, bebida fermentada da mandioca. A agricultora Maria Madalena Alves Cabral, da etnia Desana, levou caxiri de cana e batata para servir na festa. Ela é falante da língua Desana e Wanano e fez apresentação de cantos indígenas durante o encontro.
Professora de dança da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), Iara Costa fez uma performance durante a festa. Ela e a estudante de dança Tainá Andes, do povo Kokama, estão na comunidade de Itacoatiara Mirim para participar do projeto Residência Partilhada, que envolve Canadá, Colômbia e Brasil e é conduzido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Comunidades localizadas até mesmo em áreas remotas da bacia do rio Negro prepararam comemorações para o Dia dos Povos Indígenas. A Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas divulgou localmente as centenas de atividades comemorativas dentro do território indígena, que incluíram torneios esportivos, gincanas e performances culturais.
Na área urbana de São Gabriel da Cachoeira houve programação durante todo o dia no Ginásio Arnaldo Coimbra, com feira e apresentação de dança de agremiações culturais do Festribal.
Dia dos Povos Indígenas e não Dia do Índio, defende deputada Joênia Wapichana
A Câmara dos Deputados realizou em 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas, sessão solene para celebrar a data. Primeira mulher indígena a ser eleita deputada federal, Joenia Wapichana (Rede-RR) abriu a sessão denunciando que o governo segue incentivando o garimpo nos territórios indígenas e que as políticas públicas voltadas aos povos originários estão negligenciadas.
Os participantes da sessão se posicionaram contra o PL 191/20, do Governo Federal, que regulamenta a exploração de recursos minerais, hídricos e orgânicos em terras indígenas. Houve repúdio também ao PL 490/07, que trata da demarcação de terras indígenas e traz o tema do marco temporal. Ambas as propostas estão tramitando no Congresso Nacional.
A deputada Joenia Wapichana também é autora do projeto de lei que muda o nome do “Dia do Índio” para “Dia dos Povos Indígenas”. Segundo ela, a intenção ao renomear a data é ressaltar, de forma simbólica, não o valor do indivíduo estigmatizado "índio" mas o valor dos povos indígenas para a sociedade brasileira. As informações são da Agência Câmara de Notícias.
Povo Dâw celebrou sua resistência na Terra Indígena Médio Rio Negro II
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