Iniciativa quilombola, Casa de Sementes Jucão recebe prêmio internacional de arquitetura
Edificação no Quilombo Nhunguara (SP) foi escolhida por combinar beleza e função ecológica, atender às necessidades locais e dar poder às pessoas de transformar realidades
Construída em estrutura de taipa de pilão, construção da Casa de Sementes Jucão valoriza conhecimento tradicional quilombola|Alain Briatte Mantchev
A premiação, além de reconhecer o valor social e ecológico da construção de 42m2 localizada no Quilombo Nhunguara, em Iporanga (SP), valoriza o conhecimento tradicional dos antepassados dos coletores e abre caminhos para novos projetos.
De acordo com a comissão avaliadora do Ammodo Architecture Award 2025, a escolha da Casa de Sementes do Jucão se deu pela forma inovadora que o projeto combina beleza e função ecológica, ao mesmo tempo em que atende às necessidades locais com potencial de transformação e amplia o poder de transformação social, transformando-se, portanto, em algo extraordinário.
Conheça a Casa de Sementes Jucão!
O espaço é seguro e saudável para sementes, e contribui para a manutenção e regeneração da floresta brasileira no futuro. O reconhecimento exalta um exemplo de como uma estrutura pode ser ao mesmo tempo bela, simples e ainda com potencial de ajudar a resolver um problema global.
Estruturada em taipa de pilão com cascalho do Rio Ribeira de Iguape, podendo armazenar toneladas de sementes coletadas da Mata Atlântica, a casa de sementes foi inaugurada em 15 de dezembro de 2021.
O espaço foi batizado como Casa de Sementes Jucão em homenagem a José Rodrigues de Almeida, liderança do Quilombo Nhunguara, um batalhador pelas roças tradicionais e sempre à frente na luta pelo reconhecimento do seu território, falecido em novembro de 2021.
Giovanna Bernardes, do Instituto Socioambiental (ISA) e responsável técnica da Rede de Sementes do Vale do Ribeira, conta que o prêmio, de 10 mil euros, será revertido para melhorias na construção.
“Essas melhorias fortalecerão o papel da Casa de Sementes, potencializando seu efeito multiplicador em diversas atividades. A Casa de Sementes tornou-se um espaço acolhedor e um elo vital nos esforços contínuos da rede para restauração ecológica e engajamento comunitário”, informa.
A Rede de Sementes do Vale do Ribeira é um projeto apoiado pelo ISA e faz parte do Redário, mobilizando cerca de 60 coletoras e coletores dos quilombos André Lopes, Maria Rosa, Nhunguara, São Pedro e Bombas.
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Maria Tereza Vieira, é quilombola, agricultora, viveirista e coletora de sementes, uma das fundadoras da Cooperativa da Rede de Sementes do Vale do Ribeira|Cláudio Tavares/ISA
De acordo com Maria Teresa Vieira, secretária da Rede de Sementes do Vale do Ribeira, a beleza e funcionalidade da Casa de Sementes faz a diferença na região, além de atrair visitantes há algum tempo.
“Esse prêmio vai nos ajudar, principalmente para nossa casa da semente, que é um local onde a gente está começando a receber o turismo também, para o pessoal que está vindo para visitar. Então, a gente tem que ter alguns reparos”, explicou. “O mais importante de tudo é ser reconhecido, sabendo que tem gente lá fora, tem pessoas que pensa positivo a nosso respeito, seja brasileiro ou estrangeiro, mas que também luta pela mesma causa de ver um planeta mais saudável, um planeta com mais verde. Por esse motivo eu agradeço esse prêmio em nome da rede toda e de todos coletores”, conclui.
Conhecimento tradicional
Alain Briatte Mantchev, arquiteto responsável pelo projeto, acredita que a aplicação da técnica tradicional dos quilombos foi o que proporcionou o resultado premiado.
“Ela já é própria dos quilombos, né? Todos os fogões de taipa que a gente vê tradicionalmente, é a mesma técnica das paredes ali. Então, na verdade, a gente se inspirou nessa técnica quilombola para construir a casa de sementes. E aí acho que cabe uma frase muito significativa para o projeto: guardar as sementes na terra para na terra a gente semear. E acho que tudo isso faz muito sentido”, afirma
Mantchev explica que o Prêmio Ammodo de Arquitetura celebra a arquitetura ecológica e social, a partir da seleção de projetos escolhidos por especialistas de vários continentes. O projeto Casa de Sementes do Jucão foi indicado pela arquiteta chilena, Amanda Riviera.
O evento de premiação aconteceu em cerimônia virtual em 13 de novembro de 2025.
O prêmio
A Ammodo Architecture promove e apoia a arquitetura social e ecologicamente responsável em todo o mundo. O Prêmio Ammodo de Arquitetura para escala local incentiva projetos com orientação social e ecológica. Na edição 2025, 26 projetos foram selecionados - 12 na categoria escala local, 12 na categoria engajamento social e dois na categoria arquitetura social.
A Ammodo é uma fundação holandesa que estimula o desenvolvimento da arte, da ciência e da arquitetura.
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Sistemas Agrícolas Tradicionais reforçam urgência de pacto transnacional pela Amazônia de pé
Saberes e práticas ancestrais sustentam a biodiversidade, garantem soberania alimentar e conectam territórios e povos além dos limites dos países amazônicos
Jose Ignacio G. Gomes Corte
- Analista em desenvolvimento e pesquisa socioambiental do ISA
Os Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs) são conjuntos organizados de saberes e práticas ancestrais que orientam o manejo das paisagens e o uso dos recursos naturais por diferentes povos em seus territórios. Baseados em profundos conhecimentos ecológicos e botânicos, esses sistemas garantem a reprodução social e cultural dos grupos e sustentam as paisagens de diversidade que caracterizam a Amazônia.
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Simoni Yanomami, da comunidade Kori Yauopë, descasca cana-de-açúcar da roça|Erik Vesch/Cama Leão/ISA
Os SATs constituem verdadeiras estratégias de gestão territorial, sustentadas por amplas redes de trocas e interdependências entre humanos e não humanos. Neles, as cosmologias indígenas são centrais: moldam as relações com os territórios e orientam o uso e a domesticação dos recursos. Mandioca, cacau, pupunha, amendoim e inúmeras variedades de pimentas são frutos desses sistemas, que asseguram soberania e segurança alimentar, além de reforçar a reprodução da biodiversidade.
Para a preservação e manutenção dos SATs, é preciso garantir o direito ao território e o reconhecimento das formas de vida dos povos tradicionais. A vitalidade dos SAT é central para a conectividade sociocultural e ecossistêmica do bioma amazônico. Os SAT são uma das peças que articula essa conectividade, a partir de uma ampla rede de interconexões e relações de interdependência entre humanos, não humanos, plantas, animais e recursos naturais.
Dessa forma, a continuidade das contribuições prestadas pela Amazônia às condições de possibilidade da vida na Terra depende da conectividade sociocultural e ecossistêmica que está pautada pela vitalidade dos SAT nos diferentes territórios e contextos.
Entretanto, o avanço de atividades predatórias tem comprometido essa integridade. Pesquisas indicam que a Amazônia se aproxima de um ponto de não retorno, com fragmentação crescente e a formação de “ilhas” de ecossistemas, o que gera perda de conectividade ecológica e social.
Os desafios contemporâneos vêm mostrando a necessidade de uma articulação transfronteiriça que dê conta de ações de proteção ambiental e de modos de vida que garantam o equilíbrio e a preservação da conectividade sociocultural e ecossistêmica. Muitos dos povos que habitam a Amazônia precedem à formação dos estados-nacionais latino-americanos, sendo que as fronteiras entre países não levam em consideração os modos de habitar e usar o território desses povos. Sem uma perspectiva regional que permita observar essas situações que vão além dos limites geográficos entre países, não há possibilidade de garantir a conectividade da Amazônia.
É nesse contexto que a COP30, realizada em Belém, ganha força como um espaço estratégico para evidenciar que a proteção dos SATs – e, com eles, da conectividade amazônica – exige pactos transnacionais e compromissos políticos alinhados à realidade dos povos que constroem e mantêm esses sistemas há milênios.
A Aliança Norte Amazônica (ANA), iniciativa sul-americana de organizações socioambientais da qual o Instituto Socioambiental (ISA) faz parte, surge como uma estratégia fundamental para produzir evidências e promover ações com visão regional e transnacional. A partir da experiência local e territorial junto dos povos indígenas e tradicionais com os quais cada organização trabalha, o esforço é criar entendimentos conjuntos e estruturar ações com uma visão regional e transnacional, atuando num contexto que é regional e transnacional, nas suas relações e interconexões.
Desde o início do ano, ANA vem desenvolvendo uma perspectiva regional sobre os Sistemas Alimentares Indígenas Amazônicos (SAIA), buscando diagnosticar e qualificar sua situação em relação aos direitos territoriais, instrumentos de autodeterminação, políticas de fomento e transformações recentes. O objetivo é reconhecer as contribuições desses sistemas para a resiliência e adaptação às mudanças climáticas, além de reforçar os direitos originários dos povos que os mantêm.
Num cenário global marcado pelo negacionismo climático e por soluções centradas em interesses econômicos, instituições como a FAO desempenham papel crucial ao promover acordos e estratégias baseadas em conhecimento e justiça socioambiental. A participação da ANA na terceira edição do Centro Global sobre Sistemas Alimentares dos Povos Indígenas da FAO, em outubro, levou uma visão amazônica construída a partir de experiências locais e nacionais, reforçando a importância dos SATs para a proteção da floresta e dos povos que a habitam.
A hora demanda acordos e estratégias transnacionais que reconheçam as contribuições e os direitos dos povos indígenas e tradicionais diante do avanço da crise ambiental e climática. Proteger e valorizar seus sistemas alimentares é afirmar a importância dos múltiplos repertórios e modos de vida que sustentam a própria humanidade. A conectividade amazônica é o alicerce dessa visão e os Sistemas Agrícolas Tradicionais, um de seus elos vitais, guardados e praticados há milênios pelos povos que mantêm a floresta de pé.
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Seminário internacional debate como as normas sanitárias afetam a alimentação
Pesquisadores, indígenas, quilombolas e produtores se encontram no Rio e em Brasília para discutir modelos industriais e tradicionais
Você já parou para pensar sobre como as normas sanitárias afetam o que você come? E de que forma os modelos de produção em massa, como o agronegócio, estão ligados à produção de doenças, enquanto os sistemas alimentares tradicionais — promovidos pelos indígenas, quilombolas, povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares — apontam caminhos para uma vida mais saudável?
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Chibé de açaí, chibé de buriti e chibé de água e farinha na comunidade Canadá, próxima ao rio Ayari, na Terra Indígena Alto Rio Negro (AM)|Carol Quintanilha/ISA
Em seguida, nos dias 28 e 29, esses temas serão debatidos também em Brasília, durante o pré-Congresso da Associação Brasileira de Saúde Coletiva - Abrascão.
Os eventos têm o apoio do Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio) e são uma oportunidade única para o público entender as tensões entre a alimentação industrializada e os saberes de quem vive da terra e em territórios tradicionais.
“Estamos reunindo pesquisas e promovendo uma troca de informações e diálogo para refutar a percepção de que a fonte de contaminação vem do modelo tradicional. Há evidências que mostram que as maiores contaminações são, na verdade, fruto do sistema alimentar convencional”, diz a engenheira de alimentos do Instituto Socioambiental (ISA), Bianca Tozato, representante da sociedade civil no Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).
No Rio de Janeiro e em Brasília, um dos destaques da programação é a reunião de saberes múltiplos, com a presença de cientistas internacionais, nacionais, indígenas, quilombolas e produtores.
A abertura do seminário, na quarta-feira, terá o encontro do biólogo evolucionista Rob Wallace (EUA) com o pesquisador indígena André Baniwa, consultor na área de Medicinas Indígenas do Ministério da Saúde, e com a antropóloga Ana Paula Perrota, professora da UFRRJ.
Na mesa seguinte, o produtor de queijo Canastra Luciano Carvalho vai debater com a pesquisadora Élise Demeulenaere, que tem como foco a antropologia do meio ambiente, e com a pesquisadora Rosângela (Bibi) Cintrão, pós-doutoranda no Instituto de Nutrição da UERJ e pesquisadora o Centro de Referência em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (CERESAN).
Na quinta-feira, Fran Paula, da Coordenação Nacional Comunidades Rurais Quilombolas-CONAQ e da Aliança Cientifica Antirracista, pesquisadora em racismo e sistemas alimentares, estará em conversa com Kregg Hetherington (Canadá), com pesquisasobre a expansão da soja e seus impactos.
Em seguida, a engenheira de alimentos Bianca Tozato, do Instituto Socioambiental (ISA), conversa com Will LaFleur (Finlândia), que tem pesquisas em práticas de fermentação e etnografia sensorial.
Contato para a imprensa:
Sabrina Brito/ÓSocioBio - (61) 98439 2831
Ana Amélia Hamdan/ISA - (31) 99806 2958
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Anúncios de políticas na COP30 reconhecem povos da Terra do Meio (PA) como guardiões da floresta
Governo autorizou, em evento na AgriZone, valor de R$ 2,6 milhões para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) na região. Parceria entre o Governo do Pará e o BID prevê investimentos de US$ 3,5 milhões em projeto de Pagamento por Serviços Ambientais
Povos indígenas, beiradeiros e agroextrativistas que convivem na Terra do Meio (PA) têm um papel essencial no manejo e cuidado dessa região, que forma um mosaico de Áreas Protegidas ao redor dos Rios Xingu e Iriri, no Pará. Representantes da Rede Terra do Meio, que reúne associações desses povos, participaram da COP30, em Belém, e vão retornar para casa com o anúncio de duas políticas públicas que promovem seus modos de vida e geram renda.
Na segunda-feira (17/11), o Governo Federal anunciou R$2,6 milhões para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) na região, sendo R$1,8 milhão da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e R$800 mil do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é responsável pelo plano operacional e tem a parceria, além da Funai e do MDS, do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA).
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Ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), Paulo Teixeira, durante anúncio do PAA para a Terra do Meio|Leonardo de Moura/ISA
A assinatura ocorreu na AgriZone, espaço da Embrapa na COP30, e contou com ampla representação dos povos da Terra do Meio e com a presença do ministro do MDA, Paulo Teixeira, e da presidenta da Funai, Joênia Wapichana, entre outras autoridades.
Diretor de Política Agrícola e Informações da Conab, Silvio Porto ressaltou a inovação do projeto e a participação da Funai. Segundo Joênia Wapichana, o acordo reafirma a identidade cultural indígena e pode ser replicado em outros territórios. “Essa é uma medida, uma política pública, que pode e deve ser replicada em outros territórios indígenas do país e mostra que a Terra Indígena tem sua importância neste cenário de segurança alimentar”, destacou a presidenta da Funai.
O PAA na Terra do Meio já vinha se destacando pela diversidade de povos e alimentos. Entre novembro de 2023 e julho de 2025, o programa chegou a 11 territórios, com a participação de 537 pessoas, sendo 63% mulheres. No total, foram entregues 150.000 kg de alimentos de 76 tipos, com 61 escolas recebendo os produtos.
Assista ao vídeo sobre o PAA na Terra do Meio.
Com o programa, o alimento das roças tradicionais, florestas e rios são entregues nas escolas e outras instituições. Para que isso seja possível, vem sendo realizada uma série de adequações nas políticas públicas, de forma a desburocratizar e flexibilizar processos.
A Comissão de Alimentos Tradicionais dos Povos (Catrapovos), encabeçada pelo Ministério Público Federal e com participação da sociedade civil, tem papel essencial na indicação de adequações das políticas de aquisição de alimentos à realidade dos territórios.
Pagamento por Serviços Ambientais (PSA)
Na semana anterior, no dia 12 de novembro, o diretor-presidente da Rede Terra do Meio, Francisco de Assis Porto, participou de cerimônia ao lado do governador do Estado do Pará, Helder Barbalho, e da representante do BID no Brasil, Annette Kilmer.
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Governador do Pará, Helder Barbalho, a representante do BID no Brasil, Annette Kilmer, e o diretor-presidente da Rede Terra do Meio, Francisco de Assis Porto|Ana Amélia Hamdan/ISA
O encontro foi para a assinatura do contrato de projeto-piloto de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) na região da Terra do Meio, que prevê investimentos de US$3,5 milhões. A assinatura ocorreu na Zona Azul, espaço da COP30 onde as delegações negociam acordos climáticos.
“Esse é o primeiro passo para acessarmos um direito que é nosso, que somos os guardiões da floresta. E a organização, a gestão e a visibilidade da Rede Terra do Meio sensibilizaram o Estado. A gente se sente feliz e bem por preservar a floresta”, comemorou.
A construção do projeto será em conjunto com os povos da Terra do Meio. O próximo passo é a implementação do plano de engajamento, consulta e mobilização para a elaboração do projeto-piloto.
O convênio envolve o Governo do Pará, o BID e o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio). O objetivo é reconhecer o papel dessas populações na preservação da floresta e fomentar modelos sustentáveis de desenvolvimento nos territórios coletivos.
Cerca de 40% dos recursos serão utilizados diretamente nos pagamentos, orientando a construção de uma política pública permanente de PSA no Pará.
Tanto o PAA e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o PSA têm se mostrado políticas públicas eficazes de segurança alimentar, mas também de proteção ambiental e regulação climática. Quando adequadas às realidades dos territórios, o PAA e o PNAE promovem os sistemas agrícolas tradicionais de indígenas, quilombolas e povos e comunidades tradicionais, que produzem alimentos e, ao mesmo tempo, promovem o cuidado com a floresta. Já a política de Pagamento por Serviço Ambiental (PSA) reconhece e potencializa o papel dessas populações na preservação.
(Com informações da Agência Brasil de Comunicação)
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Rede Terra do Meio leva as economias da floresta à COP30
Coletivo da Terra do Meio (PA) também deve cobrar financiamento e políticas públicas adequadas aos territórios
“A Rede Terra do Meio somos nós, beiradeiros, indígenas e agricultores familiares. Somos mais de 35 organizações, nove territórios indígenas, três reservas extrativistas e, ainda, comunidades agroextrativistas cuidando de cerca de nove milhões de hectares de área protegida.”
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A Rede Terra do Meio reúne 35 organizações e leva para a COP30 a biodiversidade que eles ajudam fortalecer|Lilo Clareto/ISA
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As economias da sociobiodiversidade na Terra do Meio inspiram o futuro e salvaguardam a floresta |Juliana Oliveira/ISA
Essa fala da comunicadora Marta Gomes faz parte do minidocumentário “Rede Terra do Meio - Economias dos povos protegem a floresta e inspiram o futuro”, que retrata a aliança dos povos que atuam na região da Terra do Meio (PA), promovendo os modos de vida e as economias da sociobiodiversidade. São as economias dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, que produzem fartura de alimentos, geram renda e, ao mesmo tempo, protegem a floresta, promovendo a biodiversidade, o cuidado com a água e a regulação climática.
E a Rede Terra do Meio levará essa potência até a COP30, com seus integrantes participando de mesas e debates, mostrando a comercialização de produtos como a castanha, a borracha e o babaçu, mas também ampliando diálogos sobre políticas públicas adequadas aos territórios e mecanismos de financiamento que possam cuidar e fortalecer os guardiões da floresta.
No domingo (09/11), o diretor-presidente da Rede Terra do Meio, Francisco de Assis Porto, e a comunicadora Marta Gomes, participaram da mesa “Sociobioeconomia Revelada”, no Museu Emílio Goeldi, em Belém.
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O diretor-presidente da Rede Terra do Meio, Francisco de Assis Porto, esteve presente à mesa sobre arqueologias e conhecimentos ancestrais, em Belém|Juliana Oliveira/ISA
O encontro trouxe para o debate o que a arqueologia e os conhecimentos ancestrais revelam sobre a contribuição das economias de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais para a formação das paisagens e regulação climática. Também participaram da conversa o arqueólogo Eduardo Neves e o diretor da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), Hélio Lopes.
Na quarta-feira (12/11), na AgriZone, espaço da Embrapa na COP30, é a vez de Liliane Santos, do Coletivo Olhos do Xingu, representar a Rede Terra do Meio na mesa “Clima, comida e saberes - Estratégias e políticas que salvaguardam Sistemas Agrícolas Tradicionais, promovem soberania alimentar e contribuem para o equilíbrio climático”.
O diretor-presidente da Rede Terra do Meio, Assis Porto, considera que a COP30 é um espaço muito importante para mostrar a força da economia dos povos da floresta. Mas, também, para buscar o reconhecimento dos serviços que vêm sendo prestados por esses povos milenarmente, com sistemas de produção e manejo que convivem com o meio ambiente.
Dessa forma, as discussões envolveram a necessidade de políticas públicas adequadas aos territórios. Um dos exemplos vem da Política de Aquisição de Alimentos (PAA), que após adequações, vem se mostrando eficaz na promoção das roças tradicionais, levando à proteção do meio ambiente.
Entre novembro de 2023 e julho de 2025, as entregas do PAA pela Rede Terra do Meio envolveram 11 territórios e 537 fornecedores, sendo 63% mulheres. Foram entregues 150 mil kg de alimentos de 76 tipos. O número de escolas atendidas chegou a 61.
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10° Semana do Extrativismo (Semex), que ocorreu em maio, reuniu indígenas, agricultores familiares, representantes de órgãos públicos e outros parceiros|Juliana Oliveira/ISA
A Rede Terra do Meio também vem desenvolvendo um piloto de Pagamento por Serviço Ambiental (PSA), em parceria com o Governo do Pará. E criou o Fundo Terra do Meio para captação de recursos e decisões coletivas sobre investimentos.
Os resultados desse manejo e das ações da Rede aparecem nos números. Em 2009, a Rede Terra do Meio movimentava anualmente R$8,5 mil e trabalhava com apenas três produtos. Em 2024, esses números passaram para R$2,1 milhões e pelo menos 86 produtos.
Para o analista sênior em economia da sociobiodiversidade do Instituto Socioambiental (ISA) e membro da secretaria executiva da Rede Terra do Meio, Jeferson Camarão Straatmann, para além da comercialização, a Rede Terra do Meio mostra que é possível promover uma economia da diversidade e do envolvimento.
“É uma economia que fortalece os laços entre os povos. A região da Terra do Meio é um arranjo de povos indígenas, comunidades tradicionais, ribeirinhos, beiradeiros e agricultores familiares, que tem como objetivo primeiro agregar as pessoas em função dos seus sistemas agrícolas tradicionais e seus sistemas de conhecimento. Por meio da comercialização desses produtos, potencializa-se a continuidade desses saberes, de uma geração para outra, transformando florestas em florestas, promovendo a proteção da água, cuidado da biodiversidade e regulação climática”, diz.
Ao final do documentário, a liderança indígena Ney Xipaya resume o principal motivo do fortalecimento das economias da sociobiodiversidade. “Vou permanecer dentro do meu território, junto com a minha família, com meus ancestrais, e manter o legado que é do meu patrimônio cultural, que é a minha história, a minha identidade.”
Mesa “Clima, comida e saberes - Estratégias e políticas que salvaguardam Sistemas Agrícolas Tradicionais, promovem soberania alimentar e contribuem para o equilíbrio climático”, com Liliane Santos, do Coletivo Olhos do Xingu, representando a Rede Terra do Meio Quarta-feira (12/11), das 11h20 às 13h55 Agrizone da Embrapa - Belém - Auditório A3
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COP30: indígenas, quilombolas e ribeirinhos levam à AgriZone seus sistemas agrícolas ancestrais e inovadores
Mesa “Clima, comida e saberes”, em 12/11, promove contraponto ao agronegócio com encontro entre lideranças tradicionais e representantes de órgãos públicos e instituições
As economias da sociobiodiversidade - economias promovidas ancestralmente por indígenas, quilombolas e povos e comunidades tradicionais - têm como base os Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs). Ao produzir alimentos, movimentar a economia e proteger o meio ambiente, essas economias vêm se apresentando como uma solução-chave para a crise climática e a redução de desigualdades.
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Na foto, Cristina da Silva, do povo Baniwa, faz pausa no igarapé antes de chegar à casa de forno, local onde as manivas serão trabalhadas|Fellipe Abreu/National Geographic
No entanto, estão sob constante pressão do agronegócio, do garimpo ilegal, de madeireiros e da emergência climática, sendo que sua proteção e seu pleno desenvolvimento exigem uma estratégia de longo prazo, superando gargalos como direito e segurança territorial, mercados justos, instrumentos financeiros adequados e a integração de políticas públicas.
O debate sobre os caminhos para o fortalecimento das economias da sociobiodiversidade e dos SATs estará no centro da mesa “Clima, comida e saberes - Estratégias e políticas que salvaguardam Sistemas Agrícolas Tradicionais, promovem soberania alimentar e contribuem para o equilíbrio climático”, na COP30, em Belém (PA), em 12 de novembro, às 11h20.
Essa mesa integra a programação da AgriZone, espaço da Embrapa na COP30 que se propõe a discutir e visibilizar inovação e sustentabilidade para tecnologias voltadas à produção de alimentos de baixo carbono, à adaptação às mudanças climáticas e à segurança alimentar global.
Nesse contexto, o fortalecimento dos SATs se torna ainda mais necessário: são sistemas de conhecimento sofisticados e inovadores que protegem o ambiente, gerando ativos como biodiversidade, cuidado com a água e regulação climática.
Os SATs fazem um contraponto com os meios predatórios de produção. Não estão estruturados em monocultura, mas em diversidade; não geram concentração de renda, mas compartilhamento; não são pautados na degeneração dos ecossistemas, mas em sua constante regeneração.
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Trilha para o castanhal e para a roça na Terra do Meio (PA)|Fellipe Abreu/ISA
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Urias Morato com o filho Eulisses Morato, no, Quilombo São Pedro|Claudio Tavares/ISA
Durante o encontro será exibido o minidocumentário “Celebração da Diversidade - Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs)”. Narrado pela liderança Francy Baniwa, o vídeo apresenta esses sistemas de conhecimento e modos de vida no Alto Rio Negro (AM), Terra do Meio (PA), Vale do Ribeiro (SP) e Território Indígena do Xingu (MT).
A mesa é promovida pelo Instituto Socioambiental (ISA), Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio), Instituto Regenera e Embrapa, com mediação de Jeferson Camarão Straatmann, analista sênior em economias da sociobiodiversidade do Instituto Socioambiental (ISA).
Estarão reunidas lideranças indígenas, quilombolas e ribeirinhas e órgãos públicos e instituições que atuam nesta agenda. A promoção do diálogo para que se avance em medidas práticas adequadas aos territórios é o principal objetivo do encontro.
Representando os territórios tradicionais estarão três mulheres que atuam como lideranças: Liliane Santos, do Coletivo Olhos do Xingu, representando a Rede Terra do Meio (PA); Hildete Araújo, povo Tariana, da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), no Amazonas; e Nilce de Pontes Pereira dos Santos, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas - São Paulo.
Já os convidados dos órgãos públicos e instituições são Ana Euler, diretora executiva de Inovação, Negócios e Transferência de Tecnologia da Embrapa e Diretora Executiva de Transferência de Tecnologia da Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater); Moisés Savian, secretário Nacional de Governança Fundiária, Desenvolvimento Territorial e Socioambiental no Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA); Maria Júlia Pinho, assessora da Diretoria Socioambiental do BNDES; e Jorge Alberto Meza Robayo, representante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) no Brasil.
Clima, comida e saberes - Estratégias e políticas que salvaguardam Sistemas Agrícolas Tradicionais, promovem soberania alimentar e contribuem para o equilíbrio climático Local: AgriZone - EMBRAPA - Auditório A3 Embrapa Amazônia Oriental, Travessa Dr. Enéas Pinheiro - Belém (PA) - Pavilhão de exposições Data e horário: 12/11 - 11:20h às 13h50 Atenção: para acessar a tradução simultânea são necessários celular e fones pessoais
Convidados e convidadas Liliane Santos Nascida e atuante na região da Terra do Meio, na Estação Ecológica da Terra do Meio, em Altamira (PA), é estudante de agronomia, jornalista da floresta, ativista ambiental e liderança comunitária. Atua como comunicadora e monitora ambiental, contribuindo para o monitoramento territorial e a defesa dos povos e florestas da Amazônia.
Hildete Araújo, povo Tariana Coordenadora do Departamento Patrimônio Cultural e Pesquisa Intercultural da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), lliderança indígena e mestra pelo Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia (PPGSCA/UFAM), atuando no Alto Rio Negro com a rede dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs), entre outras atividades.
Nilce de Pontes Pereira dos Santos Coordenadora da Conaq SP - Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, liderança quilombola, educadora popular, agricultora agroecológica e ativista política, também é presidente da Rede Agroecologica de Mulheres Agricultoras (Rama); presidente do Quilombo Ribeirão Grande/Terra Seca (SP) e Conselheira Mosaico de Unidades de Conservação do Jacupiranga (Mojac).
Ana Euler Diretora Executiva de Inovação, Negócios e Transferência de Tecnologia da Embrapa e Diretora Executiva de Transferência de Tecnologia da Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater), engenheira Florestal e doutora em Ciências Ambientais e Florestais, tem 20 anos de atuação na Amazônia com passagem pela África. Desde 2008 atua como pesquisadora da Embrapa Amapá, na área de manejo de recursos naturais e como assessora de Relações Internacionais.
Moisés Savian Secretário Nacional de Governança Fundiária, Desenvolvimento Territorial e Socioambiental no Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), engenheiro agrônomo e doutor em Produção Vegetal (Proteção de Plantas e Agroecologia). Coordena o Programa Nacional de Florestas Produtivas e o Programa Nacional de Fortalecimento da Sociobiodiversidade no MDA.
Maria Júlia Pinho Assessora da Diretoria Socioambiental do BNDES, advogada, mestre em políticas públicas, estratégias e desenvolvimento. Atua no assessoramento técnico e jurídico da Diretoria Socioambiental do BNDES, responsável pelas Áreas de Meio Ambiente e de Desenvolvimento Social e Gestão Pública.
Jorge Alberto Meza Robayo Representante da FAO no Brasil, engenheiro florestal com especialização em engenharia econômica e silvicultura nos trópicos e subtrópicos. Atuou pela FAO em países como Paraguai, Argentina, Uruguai e Chile. Em janeiro de 2024 foi designado Representante da FAO no Brasil.
Mediação Jeferson Camarão Straatmann, analista sênior em economias da sociobiodiversidade do Instituto Socioambiental (ISA), é doutor em engenharia de produção e Mestre de Capoeira. Especializou-se em redes das economias da sociobiodiversidade, sendo responsável pelas estratégias no tema no ISA, desde os territórios até o mercado e políticas públicas.
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A resposta econômica e climática que vem dos territórios
Às vésperas da COP30, os conhecimentos e práticas de povos indígenas e comunidades tradicionais apontam caminhos concretos para enfrentar a crise do clima
Jeferson Straatmann
- Analista sênior em economia da sociobiodiversidade do ISA
O ano de 2025 começou com uma notícia climática alarmante: foi registrado o janeiro mais quente da história. O dado veio após 2024 ultrapassar a marca de 1,5°C de aumento na temperatura média da Terra em relação ao período pré-industrial - limite estabelecido pelo Acordo de Paris para evitar impactos catastróficos.
Essas informações reforçam a urgência de medidas práticas a serem definidas na COP30, a 30ª Conferência da ONU sobre mudanças climáticas, que acontecerá em Belém entre 10 e 21 de novembro.
Sendo a primeira na Amazônia, a conferência traz a oportunidade de ampla participação de indígenas, quilombolas e povos e comunidades tradicionais. Em 2024, esses povos lançaram a campanha "A Resposta somos nós", reivindicando protagonismo nos espaços de decisão.
Uma dessas respostas vem das economias da sociobiodiversidade, praticadas ancestralmente por pelo menos 28 povos tradicionais do país. A COP30 poderá tornar internacionalmente conhecida — e reconhecida — a resposta econômica e climática que vem dos territórios.
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Dona Nazária Mandú Lopes caminha até sua roça de pimenta, próxima à comunidade Canadá, Terra Indígena Alto Rio Negro (AM)|Carol Quintanilha/ISA
No centro dessa economia estão os Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs), conjunto de conhecimentos que detém sofisticadas tecnologias para enfrentar a crise climática: produz alimentos, movimenta a economia e, ao mesmo tempo, protege a natureza, promovendo ativos como a biodiversidade, cuidado com a água e regulação climática.
Esses sistemas se contrapõem aos meios degenerativos de produção, como o agronegócio. Não estão estruturados em monocultura, mas em diversidade e regeneração de ecossistemas.
Dessa forma, a diversidade ganha espaço com alimentos nem sempre encontrados nos supermercados, como o buriti, o açaí do mato, a castanha de baru, a bacaba, o sal de aguapé e uma grande variedade de mandioca e milho.
Só no Alto Rio Negro (AM), por exemplo, são 300 espécies de mandioca cultivadas pelos 23 povos indígenas que convivem na região. Variedade garantida inclusive pelas relações de trocas estabelecidas entre as mulheres, que perpetuam espécies, laços e histórias.
Está comprovado que, onde tem povos e comunidades tradicionais, tem floresta protegida. Relatório do Instituto Socioambiental (ISA) com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) aponta que, na Amazônia, no período de 2023/2024, a perda de vegetação foi de apenas 1,74% nas Terras Indígenas, em contraste com 27% fora delas. No Cerrado, o desmatamento nas TIs foi de 5,89%, sendo de 54,4% em outras áreas.
Outra pesquisa, dessa vez da Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e do ISA, mostra que, de 2003 a 2022, os quilombos perderam 1,4% de florestas, sendo que no entorno as perdas foram de 82%.
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Dona Rosana de Almeida, liderança do Quilombo Nhunguara, no Vale do Ribeira (SP), trabalha em sua roça|Manoela Meyer/ISA
As economias da sociobiodiversidade são também vitais para as demais cadeias da economia nacional, do agronegócio à geração de energia, que dependem do equilíbrio de chuvas e da qualidade dos solos e da água.
Além disso, levantamento do Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio) — com base em informações do IBGE e de sua própria rede de parceiros — indica que as economias da sociobiodiversidade movimentaram R$ 17,4 bilhões e geraram 525 mil postos de trabalho. Essa é uma pequena parte dessas economias, pois a maior parte ocorre informalmente e se encontra invisibilizada pelos dados oficiais.
Importante destacar que as economias da sociobiodiversidade diferenciam-se da bioeconomia que, conforme definição da Embrapa, é um modelo industrial baseado no uso de recursos biológicos com objetivo de oferecer soluções sustentáveis.
Mais do que de produtos, as economias da sociobiodiversidade devem ser entendidas, valorizada se promovidas como sistemas de conhecimento, de inovação e de serviços de conservação.
Esses sistemas vêm gerando abundância e preservação há milhares de anos, como mostra o projeto de arqueologia Amazônia Revelada, que questiona a ideia de floresta intocada e indica que a paisagem amazônica é resultado do manejo promovido há pelo menos 12 mil anos por diferentes povos.
Apesar de sua relevância, essas economias estão sob constantes pressões do agronegócio, do garimpo ilegal e de madeireiros, por exemplo. Soma-se a esse cenário crítico, a crise climática. Entre 2024/2025, por exemplo, não houve safra da castanha da região da Terra do Meio (PA) devido à seca na Amazônia.
Há ainda entraves no acesso a políticas públicas - o que gera dificuldades de crédito e incentivos tributários, inclusão sanitária, questões logísticas e carência dedados oficiais.
A proposta inicial da Reforma Tributária, por exemplo, não previa incentivos aos produtos da sociobiodiversidade, o que foi alterado após ampla campanha da rede ÓSocioBio.
O mesmo ocorre com o crédito rural. Outra mobilização, também coordenada pelo ÓSocioBio, revelou que, em 2024, a pecuária - um dos principais setores responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa no Brasil - abocanhou 91,7% dos recursos do Pronaf na Amazônia, enquanto menos de 2% foram destinados às cadeias da sociobiodiversidade.
Para prosperarem plenamente, essas economias demandam políticas públicas coordenadas e adequadas às realidades dos territórios. A garantia e a segurança do território são o ponto de partida.
Programas de aquisição de alimentos, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), vêm se mostrando eficazes na geração de renda, segurança alimentar e regulação climática, quando adequados aos territórios. Ao promoverem as roças tradicionais, ajudam a preservar as florestas.
Outra possibilidade vem da política de Pagamento por Serviço Ambiental (PSA), que propõe mecanismos de reconhecimento dos serviços ambientais providos pelos povos tradicionais.
As economias da sociobiodiversidade são cruciais para a transformação ecológica no Brasil, representando um diferencial único baseado na inovação e no conhecimento dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
Para sua potencialização, é preciso mais que o festival de cores e sabores de alimentos da Amazônia que a COP promete. É necessário que incentivos do Estado se alterem, reconhecendo as economias da sociobiodiversidade como caminho concreto diante da crise climática e das desigualdades sociais, apontando ao futuro em que a economia esteja a serviço da vida - e não o contrário.
A COP30, inclusive pela urgência, é o momento ideal para dar início a essa mudança. Mostrar ao mundo esse sistema funcionando plenamente na Amazônia, no Cerrado, na Caatinga, no Pantanal, na Mata Atlântica, no Pampa e nas águas é uma obrigação climática. É uma oportunidade para a economia do Brasil para além da COP30.
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Se não tiver a mão que coleta a semente, não tem projeto de restauração
Às vésperas da COP30, I Encontro da Rede de Sementes do Vale do Paraíba reforça importância de coletoras e coletores para Brasil cumprir meta de restauração assumida
União entre diversas frentes e políticas públicas para o fortalecimento de redes para garantir que a restauração dos ecossistemas seja realmente efetiva. Essa foi a mensagem que ecoou durante o I Encontro da Coopere (Cooperativa Rede de Coletores de Sementes do Vale do Paraíba), que aconteceu entre os dias 12 e 14 de setembro, em Tremembé, São Paulo.
O evento reuniu mais de 100 pessoas entre coletores, representantes do governo federal, e de organizações não governamentais, chamando a atenção para a necessidade de olhar para questões além da meta de restaurar hectares de vegetação nativa: o comprometimento com o consumo responsável, valorização da cultura popular e talentos locais. Também incentivar o protagonismo feminino, o resgate da ancestralidade e a profissionalização de quem coleta sementes.
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I Encontro da Rede de Sementes do Vale do Paraíba reuniu mais de 100 pessoas, entre coletores, representantes do governo e de ONGs|Andrea Ono/ISA
Café caipira, coco, forró, maracatu, Socorro Lira cantando “Majestade, o sabiá”, yoga ao amanhecer: teve de tudo para alimentar o corpo e a alma.
Quem esteve lá participou de uma prosa boa com os coletores dos núcleos de produção da cooperativa sobre “Os desafios e as oportunidades da restauração ecológica e da agricultura de regeneração” e da feira de trocas de sementes. Também levou pra casa mais conhecimentos sobre a "Muvuca" e seus usos como estratégia de restauração ecológica e produtiva em sistemas agroflorestais; marcação de matrizes e identificação botânica; coleta em altura e segurança no trabalho; produção de sementes florestais (coleta, beneficiamento e armazenagem); e qualidade e análise de sementes (legislação e pesquisa).
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A multiartista e produtora cultural Socorro Lira esteve presente no encontro|Fernanda Medeiros/ISA
Nas paredes da Casa de Sementes, inaugurada durante o encontro, mais que o nome Valdir do Nascimento, o companheiro assassinado em janeiro deste ano, a arte em grafite, idealizada e executada pelas mãos que também coletam sementes nativas e crioulas, conta a trajetória, lutas, parcerias e valores do coletivo que reúne agricultores familiares e assentados da reforma agrária articulado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), à agroecologia e ao Redário.
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Casa de Sementes é uma homenagem a Valdir do Nascimento, que foi agroflorestor, coletor de sementes nativas e restaurador da Rede de Sementes do Vale do Paraíba|Fernanda Medeiros/ISA
Hoje, a Coopere reúne 75 coletores de 40 unidades familiares em 10 municípios do Vale do Paraíba. Já coletou 10 toneladas de sementes de 130 espécies da Mata Atlântica e Cerrado e apoia o desenvolvimento de grupos de coletores na Zona da Mata Mineira.
Meta de restaurar
“A restauração não é feita apenas por coletores. Há várias frentes que precisam entrar em ação, para que ela aconteça. Acho que o desafio nosso aqui é unir essas frentes para que a gente possa conseguir ter resultados de impacto. Já estamos na metade da Década da Restauração. Temos aí mais uns cinco anos. Será que a gente tem esse tempo?”, afirmou Thiago Coutinho, coordenador da Coopere e membro do Conselho das Redes do Redário na abertura das atividades do encontro, fazendo referência à meta assumida pelo Brasil de restaurar 12 milhões de hectares até 2030.
Ao classificar as redes como modelo organizacional conectado aos novos tempos, Marcos Sorrentino, diretor do Departamento de Educação Ambiental e Cidadania do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) falou sobre a importância de criar e fortalecer as redes, envolvendo diferentes setores da sociedade com o objetivo de incidir sobre as políticas públicas, para que a transição para uma sociedade sustentável seja possível.
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Thiago Coutinho, coordenador da Coopere e membro do Conselho das Redes do Redário fala sobre a meta de restaurar 12 mi de hectares até 2030|Fernanda Medeiros/ISA
COP 30
Para Marcos Sorrentino, encontros globais como a COP 30, que acontece em novembro próximo, em Belém, “precisam repercutir as vozes dessa diversidade de redes de sementes. Alguém precisa contar que não é fácil coletar semente para plantar doze milhões de hectares. Acima de tudo, contar para os gestores de políticas públicas que o Estado brasileiro só conseguirá coletar sementes suficientes, se for junto com a sociedade, junto com essas redes. E para fazer isso junto, é necessário que o recurso público fortaleça as redes, no sentido de superar as fragilidades. Então, o estado brasileiro não pode estar alijado, distanciado desse processo de fortalecimento das redes de sementes”.
Eduardo Malta, especialista em restauração do Instituto Socioambiental (ISA) e coordenador do Redário, foi além, lembrando as origens do ISA. “E socioambiental se escreve junto, né? O ISA nasceu lançando esse nome porque a gente acredita que uma floresta vazia de gente, isolada, para ser uma área de preservação, onde as pessoas não podem entrar, não é a solução para o planeta. Ele precisa ter florestas com as pessoas. Onde tenha gente”.
Avisa lá
Luciano Carvalho, representante do MST, reforçou a urgência de ações globais contra o que chamou de devastação brutal dos meios de vida que vem sendo sistematicamente mortos e envenenados.
“O Movimento Sem Terra se colocou o desafio enorme, a ambiciosa meta de plantar cem milhões de árvores. Mas só o movimento Sem Terra sozinho não vai conseguir. Já estamos na marca dos quarenta milhões de árvores plantadas. Temos mais aí, mais cinco anos pela frente para atingir nossa meta. Tem que avisar essas alianças o que nós temos que fazer com o campo e a cidade. Na perspectiva do plano nacional, plantar árvores e produzir alimentos saudáveis. Essa é a nossa tarefa política, esse grupo, essa rede de coletores de sementes. Isso é extraordinário”.
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Luciano Carvalho, representante do MST, fala sobre a meta da organização de plantar 100 milhões de árvores. Até agora, já foram 40 milhões|Andrea Ono/ISA
Onde tem gente, tem que ter comida
Bráulio Furtado Alvarez, do ISA de Viçosa – Zona da Mata Mineira, onde está se formando uma rede de coletores, lembrou que é preciso prestar atenção à produção de alimentos, “porque senão a gente vai restaurar as florestas e vai ficar comendo salsicha”, alertou.
E é justamente a restauração aliada à produção de alimentos a estratégia adotada pela Coopere, que tem sua área de atuação localizada numa das regiões mais industrializadas do país, antes habitada pelo povo puri, e que vem sendo historicamente degradada.
“Não é só a semente. Se não tiver a mão que coleta a semente, se não tiver o coletor, a coletora, não tem a semente. Mas também não é só restauração, é também agricultura regenerativa, restauração produtiva. Acreditamos que vai potencializar o processo e vamos conseguir chegar ali nos doze milhões de hectares. Agora a gente tem que trabalhar! Tá muito atrasado para um processo que é urgente, né? É para ontem”, finalizou Thiago Coutinho.
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A solução que vem da Caatinga
Caatinga Climate Week coloca o bioma exclusivamente brasileiro no centro do debate climático a partir de experiências e saberes de povos e comunidades tradicionais
Caatinga Climate Week: saberes e resistências que floresceram durante quatro dias no coração do Semiárido pernambucano|Arthur de Souza/Centro Sabiá
O chão de terra arenoso entre o amarelo e o cinza, as árvores secas enfileiradas com mandacarus imponentes, a vegetação amarelada e rasteira, que compõem parte de um cenário que no imaginário de muita gente é sinônimo de pobreza, escassez e fome, foram territórios férteis de debates intensos, vivências e trocas entre os dias 1 e 4 de outubro, na região agreste de Pernambuco. Mas não são só essas características que formam o bioma Caatinga, que recebeu nos primeiros dias de outubro a Caatinga Climate Week, iniciativa organizada pelo Centro Sabiá, em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA).
As experiências compartilhadas durante os quatro dias mostraram que o único bioma exclusivamente brasileiro é também morada de milhares de espécies nativas, de uma sociobiodiversidade diversa e rica, de frutas e flores que desabrocham quando vem a chuva e de povos e comunidades tradicionais que há séculos desenvolvem suas estratégias de adaptação a partir de seus saberes ancestrais.
A Caatinga, bioma presente nos estados da Bahia, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe, Ceará, Piauí, Maranhão e Minas Gerais e imortalizada na memória de cada brasileiro pelas letras de Luiz Gonzaga, ilustre pernambucano da cidade de Exu, é também a Caatinga expressada nas falas da líder índigena e coordenadora da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), Elisa Pankararu, da etnia Pankararu, localizada no sertão de Pernambuco: a Caatinga é um bioma de resistência e de beleza.
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Elisa Pankararu: "Somos de beleza, de cultura e de conflito também, porque somos de resistência e somos de enfrentamento"|Beto Figueroa/Centro Sabiá
Segundo ela, a imagem que foi construída no país sobre o bioma é repleta de preconceito e discriminação, mas precisa ser superada: “Está nas artes, no cinema, nas pinturas, nos quadros e nós sempre somos visto como um lugar de mulheres feias com seus maridos magros, e crianças magras e feias também. E não somos. Somos de beleza, de cultura e de conflito também, porque somos de resistência e somos de enfrentamento", completou Elisa Pankararu, uma das lideranças mais respeitadas entre os povos de sua região e no movimento indígena brasileiro.
A Caatinga Climate Week
Durante quatro dias, entre as cidades de Caruaru, Garanhuns, Pesqueira, Vertentes, Jucati, Caetés, Arcoverde e Buíque, entre o agreste e o sertão pernambucano, cerca de 500 pessoas, de vários estados do país, passaram pelo evento e debateram a urgência de colocar a Caatinga no centro do debate climático.
Organizações da sociedade civil, movimentos de base de povos e comunidades tradicionais e da agroecologia, lideranças indígenas e quilombolas, ativistas socioambientais, representantes do poder público, influenciadores digitais e jornalistas puderam ver de perto diferentes experiências ao longo dos 400 quilômetros percorridos pela Caatinga Climate Week, nome propositalmente escolhido para fazer o contraponto a semanas internacionais que debatem a pauta do clima, como a Climate Week NYC (Semana do Clima de Nova York), ocorrida exatamente na semana anterior, em Nova Iorque, Estados Unidos.
Além dos filhos do bioma Caatinga, também estiveram presentes representantes da Amazônia, do Cerrado e da Mata Atlântica.
Segundo o coordenador de Mobilização Social do Centro Sabiá, Carlos Magno, o objetivo do evento foi mostrar que o povo da Caatinga, a partir de suas experiências, tem capacidade de ser protagonista das discussões feitas nos eventos climáticos e, sobretudo, agora no contexto da COP30, que será realizada em novembro, em Belém/PA.
“Essa semana do clima tem o intuito de fazer pontes, de conectar pessoas de diversos lugares para que a gente consiga realmente levar essa mensagem para a COP, de colocar a Caatinga no centro do debate climático. Seja em português, seja em inglês, seja em espanhol”, disse Carlos Magno, durante a plenária de abertura, realizada no Centro de Formação Paulo Freire, no assentamento Normandia, em Caruaru, uma das principais experiências de reforma agrária da região Nordeste.
Para a secretária executiva do ISA, Adriana Ramos, iniciativas como a Caatinga Climate Week são necessárias e urgentes para que o país possa aprender com os povos desse bioma as soluções que eles já apresentam.
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Adriana Ramos (ISA) e Carlos Magno (Centro Sabiá) destacam as soluções dos povos da Caatinga em meio às adversidade|Beto Figueroa/Centro Sabiá
“Aqui é um berço de grandes ideias. De um povo muito forte que vem construindo soluções, que é o que o mundo hoje está buscando. Soluções para o enfrentamento de situações muitas vezes adversas, sobretudo agora com as mudanças climáticas, situações criadas por outros, mas que a gente precisa ajudar a remediar. Então é uma grande honra poder estar aqui, se inspirando, bebendo nessa fonte e trazendo alguma contribuição", pontuou.
Rodrigo Junqueira, secretário-executivo do ISA, destacou que os outros biomas têm ainda muito o que aprender com a Caatinga, que já vem colocando em prática diferentes estratégias de adaptação climática.
“Vocês podem contar com a gente nessa continuidade, com tanta força, tanta resiliência, tanta resistência. Poder levar para Belém e para a COP todo esse aprendizado, toda essa luta que vocês têm. E saber que muito do que os outros biomas ainda estão aprendendo, sobre o que é adaptação, por exemplo, vocês já sabem, porque a vida de vocês passa por isso".
O evento não só cumpriu o objetivo de trazer o bioma de Luiz Gonzaga e de Patativa do Assaré para o centro da pauta mais debatida no momento, como mostrou que os povos da Caatinga têm as soluções para enfrentar a crise.
“A gente quer só que as pessoas reconheçam que a Caatinga é importante e que a gente pode construir muita coisa a partir desse lugar, da experiência dos povos, da inteligência coletiva que esse povo tem, da resistência e da resiliência que essas comunidades construíram nesse território", pontuou Carlos Magno.
Macaxeira: alimento, memória e resistência
Não eram nem 9 horas da manhã de quinta-feira (02/10) quando um grupo de cerca de 20 pessoas chegou no Sítio Serrote dos Bois, na zona rural de Caruaru, cidade pólo do agreste pernambucano e a primeira parada da Caatinga Climate Week. Aluísio Barbosa e Maria José Barbosa, agricultores familiares responsáveis pela casa, receberam os visitantes com café, chá, bolo de macaxeira e beiju. O alimento servido no intervalo da visita era fruto do principal assunto das mais de duas horas de conversa: a macaxeira.
Ali, no semiárido, a raiz, que em alguns lugares do Brasil é chamada de mandioca e em outros de aipim, é muito mais do que alimento e raiz fincada na terra. É também memória e resistência. A partir dela, agricultores familiares produzem farinha, beiju, goma, tapioca e tantos outros derivados e preservam o modo de vida tradicional de manejar a terra.
Enquanto caminhava com o grupo de visitantes pela plantação, Aluísio explicava como a macaxeira se tornou o principal alimento e fonte de recurso das famílias daquela região, tendo substituído a batatinha por ser mais adaptada aos longos períodos sem chuva do semiárido. Uma das aliadas nesse processo é a cisterna que Aluísio tem em seu quintal, parte do bem sucedido Programa de Cisternas do Governo Federal, tecnologia de acesso à água que já atendeu mais de 130 mil famílias nos últimos dois anos.
“Hoje, como eu sofri muito com a falta de água, eu tenho 208 mil litros de cisterna”, contou Aluísio.
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Cisternas do Programa de Cisternas, tecnologia de acesso à água que já atendeu mais de 130 mil famílias nos últimos dois anos|Túlio Seabra/Centro Sabiá
João Barbosa da Silva, o Dão responsável pela casa de farinha da Associação do Pequeno Produtor Rural de Caruaru, também fala sobre as diversas formas de se aproveitar a macaxeira. “Agora nós vamos conhecer como é o processo com ela para transformar na farinha. Ela tá dura, mas ela vai ser triturada, depois vai ser espremida a água, e depois torrada aquela massa”, explicou, percorrendo por todo o processo de produção da farinha e outros derivados da raiz.
Ao final da visita, Aluísio e Dão se juntaram também a José João dos Santos, conhecido como Pelé, para falar sobre os atuais desafios para as famílias que vivem da agricultura familiar na região, que passam pelos impactos das mudanças climáticas no plantio da macaxeira e em seus modos de vida, até o crescimento das frentes de trabalho precário na indústria têxtil da região de Caruaru.
“Passou esse tempo bom e agora a gente tá no tempo ruim. Mas mesmo no tempo ruim eu dou conselhos a muitos pais de família aqui para segurar os filhos na agricultura, incentivar, porque eu sou um exemplo disso”, disse Aluísio, cuja filha é responsável pela venda dos produtos na feira da agricultura familiar.
Nesse mesmo dia, além da visita ao Sítio Serrote dos Bois, os participantes da Caatinga Climate Week, divididos em grupos, visitaram as mulheres agricultoras do Sítio de Carneirinho, que se uniram em associação para acessar políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE); e uma família na zona rural do município de Vertentes, que transformou a escassez de água em oportunidade de produção agroecológica diversificada, por meio das tecnologias sociais de adaptação climática.
Fé no sagrado guia mulheres negras quilombolas
A chegada nas comunidades quilombolas de Castainho e Estivas, na zona rural de Garanhuns, só foi permitida depois de pedir licença aos ancestrais que protegem o território. A recepção do grupo composto por 18 participantes da Caatinga Climate Week ficou por conta de Maria José Isídio, conhecida como Mestra Zeza do Côco, e sua filha Edvani Lopes Isídio, ambas lideranças do Quilombo Castainho; e Aparecida Nascimento e Marinho dos Santos, lideranças do Quilombo Estivas.
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18 participantes da Caatinga Climate Week pediram licença para entrar no território do Quilombo Castainho|Beto Figueroa/Centro Sabiá
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Os cânticos na frente da capela honram a resistência, tradição e cultura quilombola e fortalecem na luta pelo território|Beto Figueroa/Centro Sabiá
De frente a uma capela com uma porta no meio e duas cruzes laterais e diferentes imagens de santos em seu interior, as lideranças entoaram cânticos que fazem referência à travessia pelo Oceano Atlântico de escravizados retirados do continente africano e sua chegada até os territórios quilombolas que seguem resistindo para manter sua tradição, sua cultura e, principalmente, seu direito ao território.
“Pedir licença a essas pessoas que passaram por aqui, que chegaram primeiro antes de nós. Então a gente pede essas bênçãos para todos vocês que estão visitando esse território, que é um território sagrado. Se a gente compreende que essa terra que nós estamos pisando é nosso corpo, que a água que a gente bebe para sobreviver é o nosso sangue, a gente entendeu isso”, explicou Aparecida Nascimento, conhecida como Cida.
Principal liderança do Quilombo Castainho, Mestra Zeza do Côco abriu a porta de sua casa embolando um côco que fala da luta de sua família em preservar as tradições daquele território. Ela e sua filha Edvani apresentaram as estruturas da casa de farinha, de onde tiram os sustento da família.
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Principal liderança do Quilombo Castainho, Mestra Zeza, compartilha emocionada o que a cultura da mandioca representa para ela e sua família||Beto Figueroa/Centro Sabiá
“Não se perde nada da mandioca, tudo é utilizado. Tudo”, sentenciou Edvani, que junto com a mãe mostrou todas as etapas do processo de aproveitamento da raiz, a mesma que os agricultores do Sítio Serrote dos Bois, em Caruaru, chamam de macaxeira.
Mestra Zeza, emocionada, emendou contando o que a mandioca representa para a família: “Eu sinto um orgulho muito grande de falar, sempre eu falo isso. Porque eu vendi na feira por 34 anos. E foi daqui da casa de farinha que eu eduquei meus filhos. Eu tenho quatro filhos que saíram de mim e tenho três do coração. Eu sempre me emociono, porque foi daqui, dessa casa de farinha, que a gente educou nossa família. Tenho três filhos que conseguiram se formar, e foi da casa de farinha e vendendo na feira”, disse, entre choro e aplausos.
Castainho, com cerca de 350 famílias, foi o primeiro quilombo de Pernambuco a receber a titulação parcial da terra, isso porque parte dos 193 hectares que formam o território está judicializado.
“Isso veio depois de muitas lutas, muitas ameaças, pela defesa dos nossos territórios, que é algo essencial para a gente. Não existe justiça climática, se não existir demarcação e titulação dos territórios quilombolas. Nós acreditamos nisso, porque sem nosso território, nós não somos nada, e a partir dos territórios é que nós vamos manter a preservação, a conservação dos nossos biomas, da nossa fauna, da nossa Caatinga, que é algo essencial para a gente. Território é vida, é ancestralidade”, defendeu Edvani.
No Quilombo Estivas, comunidade vizinha de Mestra Zeza do Côco e Edvani, se destacam as hortas orgânicas e os quintais produtivos com as técnicas e saberes da agroecologia. Cida, a mesma que recebeu a equipe da Caatinga Climate Week na entrada do território, explicou que as mulheres do quilombo estão na linha de frente dos trabalhos em comunidade, a partir do Coletivo de Mulheres Negras Quilombolas Flor de Dandara. Elas também são a maioria nos cargos de liderança da associação do Quilombo Estivas.
Nesta comunidade, a cisterna também garante a oferta de água para uso doméstico e no trabalho na roça. Mas, segundo os relatos de Cida e de outras mulheres da comunidade, os impactos das mudanças climáticas já podem ser sentidos. Neste ano, o alface não cresceu como de costume, por falta de sol, e a plantação de coentro não vingou, por conta da grande incidência de geadas.
Diferentemente de Castainho, Estivas, com pouco mais de 200 famílias, ainda não conquistou a titulação da terra e a comunidade enfrenta uma série de ameaças nesse processo. “Nossa luta não será em vão. Temos muita fé que o mundo vai olhar para nós, e que conquistaremos a titulação e a preservação do nosso território quilombola”, destacou Marinho dos Santos.
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Caatinga Climate Week também passou pelo território Xukuru, para ver as estratégias de adaptação e mitigação a partir dos saberes ancestrais|Tulio Seabra/Centro Sabiá
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A atividade "Roçados da Resistência" compartilhou a experiência de agricultores comprometidos com a preservação da biodiversidade|Tulio Seabra/Centro Sabiá
Nesse dia, além das visitas aos quilombos de Garanhuns, a Caatinga Climate Week também esteve com famílias agricultoras que enfrentam os efeitos da instalação de parques eólicos em sua comunidade, no município de Caetés; com agricultores que trabalham com rede de sementes crioulas e na preservação da biodiversidade e da paisagem agrícola, no município de Jucati; e com indígenas do território Xukuru, que desenvolvem estratégias de adaptação e mitigação a partir dos saberes ancestrais da agricultura indígena, no município de Pesqueira.
Vale do Catimbau: espaço sagrado afroindígena
O último dia da Caatinga Climate Week foi com uma plenária final no Parque Nacional do Catimbau, localizado entre o agreste e o sertão pernambucano, nos municípios de Buíque, Tupanatinga e Ibimirim.
O encontro reuniu lideranças indígenas das etnias Xukuru, Pankararu, Pankará, Fulni-ô, Kapinawá e Kambiwá, que saudaram os participantes com seus cantos e rezas.
Liderança do povo Kapinawá, território indígena onde fica parte do Parque Nacional do Catimbau, Cacique Robério Kapinawá falou sobre a necessidade de os espaços de discussão sobre clima ouvirem os povos da Caatinga.
“É importante que de fato a gente diga ao mundo, diga ao Brasil, que nós existimos. Se batem numa tecla de dizer que a Amazônia é o pulmão do mundo, também é importante ter o reconhecimento que a Caatinga é o bioma natural do Brasil e precisa ser valorizado. Isso precisa ser discutido nas mesas de debate sobre clima e de qualquer tipo de discussão”, enfatizou Cacique Robério.
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A plenária final teve a presença de lideranças indígenas das etnias Xukuru, Pankararu, Pankará, Fulni-ô, Kapinawá e Kambiwá|Arthur de Souza/Centro Sabiá
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Reunião de despedida ocorreu no Parque Nacional do Catimbau, localizado entre o agreste e o sertão pernambucano|Arthur de Souza/Centro Sabiá
“A gente fala de Caatinga, que às vezes é muito desvalorizada por quem não tem o conhecimento e não tem a vivência. E a gente veio aqui justamente pautar esse assunto, dentro desse contexto de emergência climática, que a gente também vai dialogar”, completou Hugo Fulni-ô, indígena do povo Fulni-ô.
Liderança do Quilombo Mundo Novo, em Buíque, Irailda Leandro deu o recado para que o país passe a enxergar a Caatinga como um celeiro de cultura e biodiversidade.
“A gente não quer que as pessoas cheguem com peninha da gente. A gente quer que vocês possam chegar a acessar o meu território, com ideia para que as minhas e os meus parentes possam adquirir conhecimento para sobreviver com dignidade. Então esse momento aqui é riquíssimo. A gente tem condições de sobreviver do território, de tirar da terra, da mãe terra a nossa sobrevivência, mas as pessoas insistem para que a gente seja ignorante, que a gente não tenha acesso aos conhecimentos e nem acesso a essas políticas públicas que possam nos libertar”.
Nos dias 1 a 4 de outubro, o agreste pernambucano vai abrigar a Caatinga Climate Week, iniciativa do Centro Sabiá e em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), que é um chamado global para reconhecer o Semiárido como território estratégico na agenda climática, especialmente às vésperas da COP30.
Durante quatro dias, lideranças indígenas, quilombolas, assentados, agricultoras e agricultores agroecológicos, cientistas, movimentos sociais e gestores públicos vão percorrer mais de 400km, entre 7 municípios, onde já estão acontecendo soluções reais de adaptação à crise climática, principalmente em Caruaru, Garanhuns e Buíque.
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Evento ocorre de 1 a 4 de outubro no agreste pernambucano|Divulgação
A experiência imersiva é inspirada em semanas do clima globais, como a de Nova York, e busca levar o debate climático para dentro do território mais afetado. A trilha será baseada em experiências concretas que mostram que o Semiárido, longe de ser um território de escassez, é um laboratório vivo de resistência e inovação climática, e que pode servir de referência para outras regiões e países que têm enfrentado a escassez hídrica e lidado com tempos cada vez maiores de estiagem e secas prolongadas.
A Caatinga vem sofrendo com as mudanças climáticas e com a ameaça da desertificação. O bioma, que já perdeu quase metade da sua vegetação nativa e tem o clima cada vez mais quente e seco, tem se tornado um ambiente pouco favorável para os mamíferos e outras espécies. De acordo com estudo publicado pela Global Change Biology, até 2060, a região poderá perder até 91,6% das suas espécies de mamíferos e 87% dos seus habitats naturais.
O MapBiomas mostra que a Mata Branca teve perda de vegetação primária de 15 milhões de hectares entre 1985 e 2020, o que representa mais de 26% da floresta. O levantamento mostrou um decréscimo de 40% nos cursos de água natural que fluem pela região. Quase a totalidade do bioma no Brasil está classificada entre as Áreas Suscetíveis à Desertificação (ASD).
Para Carlos Magno, coordenador do Centro Sabiá, “a Caatinga pode e deve ser referência no debate climático, pois já existem diversas experiências concretas de adaptação climática, além de ser um território que está enfrentando o avanço dos empreendimentos de energia renovável”.
Visitas de campo
Em Caruaru/PE, a atividade “Entre agulhas e enxadas: a colheita das mulheres de Carneirinho” mostra os frutos da união e resiliência de mulheres agricultoras que criaram a Associação de Mulheres da Agricultura Familiar do Sítio Carneirinho. A luta delas pelo retorno ao trabalho no campo, por meio do acesso a políticas públicas de incentivo rural e o enfrentamento direto das mudanças climáticas e da lógica industrial, serão pontos compartilhados com os participantes. Atualmente as famílias contribuem com a alimentação de qualidade e com a autonomia feminina da comunidade.
Já em Vertentes/PE, a atividade “Da adaptação climática à convivência com o Semiárido: tecnologias sociais na Caatinga” compartilha a experiência da família de Seu Zé e Dona Cilene, que convive com as particularidades do bioma Caatinga gerando renda e se alimentando com qualidade. Isso foi possível graças às tecnologias sociais de adaptação climática, que contribuíram para a captação de água da chuva, reúso de águas cinzas, armazenamento de sementes crioulas e o manejo adequado da terra.
De volta à Caruaru/PE, a Macaxeira vira protagonista das discussões. Na troca “Macaxeira: memória, alimento e resistência no Semiárido”, agricultoras e agricultores da comunidade Serrote dos Bois que tiveram que se adaptar ao aumento das temperaturas e ao regime de chuvas instável mostram quais as saídas encontradas para continuar o plantio dessa espécie nativa e resiliente, que possui diversidade de sementes e de produção de alimentos, como farinha, beiju e tapioca, que são produzidos nas Casas de Farinha.
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O Semiárido é um laboratório vivo de resistência e inovação|Ana Mendes/Acervo Centro Sabiá
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O bioma pode servir de referência de adaptação climática para outras regiões|Ana Mendes/Acervo Centro Sabiá
Em Caetés/PE, a partir da perspectiva de defesa de seus territórios, dezenas de famílias agricultoras do agreste pernambucano se articularam para debater os impactos sofridos pelos parques eólicos, criando, em 2023, a Escola dos Ventos. Essa articulação reúne diversos movimentos campesinos em prol do debate, formação e atuação política frente ao modelo de ocupação predatória dos complexos eólicos no estado e será ponto de partida para a discussão “Quando o vento sopra contra: a experiência da Escola dos Ventos para a transição justa na caatinga”.
No município de Jucati/PE, acontece a “Trocas de sementes e de saberes no Semiárido: estratégia de resistência em rede” entre agricultores familiares, organizações sociais e técnicos rurais, que se articulam para defender a continuidade das sementes crioulas, através da Rede de Sementes Crioulas do Agreste Meridional de Pernambuco (Rede SEMEAM).
No Quilombo Estivas, mulheres negras são exemplos potentes da luta pela justiça climática em Pernambuco. E são elas que vão conduzir a atividade “Mulheres negras e a luta por justiça climática no Agreste de Pernambuco” em Garanhuns/PE. A comunidade formada por 200 famílias se destaca pela construção de quintais produtivos, associado às atividades culturais desenvolvidas no Espaço Cultural Zeza do Coco, onde o artesanato, a música e a dança integram mulheres e jovens às tradições.
Por fim, a aldeia Xukuru do Ororubá, o povo árvore-passarinho que possui a agricultura como a base de sua espiritualidade, recebe os participantes para um “Encantamento e resistência” para compartilhar a “cosmoagricultura” Xukuru. A agricultura de sequeiro, de frutas da estação e a criação de pequenos animais dialoga com a manutenção do banco de sementes e do viveiro de mudas da comunidade, e é por meio desse trabalho integrado que o povo promove a prática de regeneração da floresta e o diálogo com os seres vivos que compõem a Caatinga. A atividade acontece em Pesqueira/PE.
O Caatinga Climate Week tem organização do Centro Sabiá e do Instituto Socioambiental (ISA), e conta com a parceria das seguintes organizações: Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), Movimentos dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra (MST), Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste (APOINME), Observatório do Clima, Plataforma Semiárido e Consórcio de Governadores do Nordeste. O apoio é da Cáritas Alemã e do Instituto Umbuzeiro.