As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Onde estão Bruno Pereira e Dom Phillips?
Até o momento não há vestígios de indigenista e jornalista desaparecidos na região da cidade de Atalaia do Norte (AM). Sociedade civil cobra mais empenho do governo nas buscas
O jornalista britânico Dom Phillips, colaborador do jornal The Guardian no Brasil, e o indigenista Bruno Araújo Pereira, servidor da Fundação Nacional do Índio (Funai), estão desaparecidos, desde domingo (5), na região do município de Atalaia do Norte, no extremo oeste do Amazonas. Segundo a União das Organizações Indígenas do Vale do Javari (Univaja), a última informação do paradeiro deles foi da comunidade São Gabriel, rio abaixo da comunidade São Rafael.
A dupla estava em campo para visitar a equipe de vigilância da Univaja na localidade Lago do Jaburu, a 15 minutos de São Rafael. O lago também está nas proximidades da Base de Vigilância da Funai no Rio Ituí, uma das quatro existentes na Terra Indígena Vale do Javari, a segunda maior do país, com 8,5 milhões de hectares. A região é alvo de conflitos e invasões provocados por madeireiros, garimpeiros, pescadores ilegais e pelo narcotráfico internacional.
Após pressão da Embaixada da Inglaterra e a comoção que tomou parte das redes sociais, a Marinha e a Polícia Federal iniciaram timidamente, na tarde da segunda-feira (6), as buscas, mas sem nenhum resultado concreto até agora. Apesar do governo federal ter divulgado uma nota, o presidente Jair Bolsonaro banalizou o caso, como em diversas outras situações, sugerindo tratar-se de uma “aventura não-recomendável”, como divulgou o canal R7.
A Univaja, o Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (OPI) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) publicaram uma nota pública, denunciando a omissão do Estado e exigindo a rapidez nas buscas dos dois profissionais.
A UNIVAJA (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), o Opi (Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato), a COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) e a APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) informam que o indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips seguem desaparecidos desde a manhã deste domingo (dia 05 de junho de 2022), quando viajavam em uma embarcação de pequeno porte entre a comunidade ribeirinha São Rafael e a cidade de Atalaia do Norte, no rio Itaquaí (afluente do rio Javari), no estado do Amazonas.
Durante todo o dia de segunda-feira, 6 de junho, a equipe de vigilância da UNIVAJA continuou a estabelecer articulações e solicitar pedidos para que as instituições que operam na fronteira pudessem ampliar as buscas que a organização indígena já tinha iniciado no domingo (dia 5), realizando duas incursões na região sem obter resultado. Foram acionados o Comando de Fronteira Solimões/8° Batalhão de Infantaria de Selva (Cmdo Fron Solimões/8°BIS), a Capitania Fluvial de Tabatinga, o Departamento da Polícia Federal de Tabatinga, o 8° Batalhão da Polícia Militar e o Ministério Público Federal de Tabatinga.
Com exceção dos 06 Policiais Militares e de uma equipe da Funai, que iniciaram as buscas ainda ontem junto com a equipe da Univaja, as informações acerca do cenário das buscas revelam a omissão dos órgãos federais de proteção e segurança, assim como das Forças Armadas. Embora tenha sido instado a colaborar com um efetivo de 25 militares, o exército brasileiro até o presente momento não disponibilizou nenhum efetivo para a operação. A Polícia Federal, da mesma forma, deslocou um único delegado para Atalaia do Norte, junto com oficiais da Marinha que se deslocaram ainda ontem para Atalaia. Ressaltamos que não foi constituída uma Força-Tarefa para as operações de busca.
A Univaja e a Defensoria Pública da União - DPU recorreram à Justiça Federal (processo de número 1004249-82.2018.4.01.3200) pedindo: “a) Que a União viabilize o uso de helicópteros à Polícia Federal, sejam eles das Forças de Segurança ou das Forças Armadas, pois até o presente momento não existem helicópteros auxiliando as buscas, o que seria imprescindível; b) ampliação das equipes de buscas; c) ampliação do número de barcos”. A solicitação da UNIVAJA foi feita diante da necessidade de serem realizadas buscas tanto por meio fluvial como por meio aéreo. Ressaltamos que na região de Tabatinga se encontram efetivos e pelotões de fronteira das Forças Armadas. Até o momento, no entanto, o número de agentes disponibilizados é ínfimo diante da urgência em se encontrar o paradeiro do indigenista e do jornalista desaparecidos.
Durante todo o dia 6, as articulações da UNIVAJA tiveram apoio de parlamentares da Câmara dos Deputados e do Senado. A Frente Parlamentar Indígena oficiou o ministro da Justiça e Segurança Pública, a Diretoria da Polícia Federal e a Superintendência da Polícia Federal em Manaus. Os Gabinetes dos Senadores Randolfe Rodrigues (REDE) e Jaques Wagner (PT/BA), bem como o Ofício da liderança da minoria na Câmara, reiteraram as solicitações ao MJSP e Ministério da Defesa para emprego de maiores efetivos nas buscas.
Na tarde do dia 6, o Comando Militar da Amazônia (CMA) divulgou nota informando que tem condições para realizar “missão humanitária de busca salvamento” mas que as ações só “serão iniciadas mediante acionamento por parte do Escalão Superior”. Dadas as características de logística, infraestrutura, eficácia operativa e capacidade de intervenção imediata em ações humanitárias garantidas pela autoridade militar na Amazônia, assistimos com perplexidade à demora, hesitação e lentidão do “Escalão Superior” para implementar de forma imediata as ações de busca e salvamento. Apesar do que tem sido veiculado nos canais oficiais do Ministério da Justiça, por exemplo, e em alguns veículos de imprensa, não há força tarefa atuando na região de maneira efetiva.
Já na manhã de hoje (07/06), a Assessoria Especial de Imprensa do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) divulgou uma nota informando que o “Departamento de Polícia Federal (PF) está atuando naquela região e tomando todas as providências para localizá-los o mais rápido possível. A PF fez repetidas incursões e tem contado com o apoio da Marinha do Brasil, que se somou aos esforços nos trabalhos de buscas de ambos os cidadãos”. Tais informações divulgadas pelo Governo Brasileiro, no entanto, não são verdadeiras, considerando que na data de ontem a Marinha do Brasil ainda não havia iniciado as buscas e apenas 01 agente da Polícia Federal havia sido deslocado para a região.
A principal informação que temos até agora é a de que a Polícia Civil deteve dois dos principais suspeitos de estarem envolvidos com o desaparecimento (pescadores identificados apenas por "Churrasco" e "Jâneo") no início da noite da segunda-feira. Ambos foram levados para a cidade de Atalaia do Norte para prestar esclarecimentos. Segundo informações do movimento indígena, os dois suspeitos foram liberados depois de intervenção do poder público local de Atalaia do Norte. Há informações também de que um terceiro suspeito, conhecido por “Pelado”, está foragido na floresta, na região das comunidades ribeirinhas em questão.
Diante dessa situação desgovernada, a UNIVAJA convocou as instituições para uma Sala de Situação na manhã de hoje (7 de junho), na cidade de Atalaia do Norte-AM. No entanto, apenas o já mencionado efetivo de seis policiais militares participou da reunião.
Hoje as buscas prosseguem. As equipes formadas pela Equipe de Vigilância da UNIVAJA (EVU) e pela Polícia Militar seguem com o objetivo de encontrar tanto os desaparecidos quanto o suspeito foragido.
A região do desaparecimento condensa conflitos graves num clima de violência em que madeireiros, pescadores ilegais e o narcotráfico internacional exercem suas atividades no entorno e no interior da Terra Indígena Vale do Javari, diante da incapacidade e omissão dos órgãos responsáveis pela fiscalização e proteção dos territórios indígenas. Esse cenário exige uma intervenção organizada e bem articulada das forças de segurança pública, numa necessária interlocução e cooperação com as organizações indígenas locais, que têm assumido desde o primeiro momento a iniciativa pelas buscas e apuração dos fatos, uma vez percebido o desaparecimento de Bruno Pereira e Dom Phillips.
Ressaltem-se os trágicos precedentes ocorridos na região em 2019, quando o colaborador da Funai Maxciel Pereira dos Santos, da Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari, foi brutalmente assassinado a tiros em sua residência em Tabatinga. A sensação de impunidade se consolidou diante da ausência de julgamento e punição do crime perpetrado contra Maxciel por invasores da Terra Indígena Vale do Javari. A Base de Proteção Etnoambiental Ituí, situada nas proximidades do local do desaparecimento, também foi atacada recentemente em oito episódios de violência armada contra indígenas e funcionários da Funai. Essas e outras situações vem sendo sistematicamente denunciadas às autoridades pelo movimento indígena, inclusive ao Supremo Tribunal Federal, no âmbito da ADPF nº 709, pela APIB.
Diante desse panorama, torna-se necessária de maneira urgente uma ação eficaz de apuração dos fatos e de busca imediata: cada hora que passa coloca em risco definitivo a possibilidade de sobrevivência dos dois desaparecidos, ao mesmo tempo em que faz crescer a consolidação de um território sem lei, nas mãos de criminosos confiantes nos seus plenos poderes perante a incapacidade de atuação dos representantes legítimos do Estado de direito.
Durante a jornada de ontem, circularam informações sobre as limitações das forças de segurança para obter, entre outros meios, helicópteros que dessem o necessário suporte às operações de busca, o que é imprescindível para complementar as ações fluviais e terrestres dadas as condições geográficas da região. As Forças Armadas e de segurança pública não deveriam poupar esforços para garantir direitos fundamentais colocados em xeque no atual cenário do vale do Javari.
Nesta região, avança de forma cada vez mais descontrolada a violência exercida mediante a invasão das terras indígenas e outras terras da União, a repressão contra a liberdade de imprensa e o exercício do jornalismo e a ameaça impune contra a vida e a atuação de servidores públicos engajados no cumprimento da Constituição Federal. Diante deste quadro de quebra drástica dos fundamentos da democracia, é urgente uma intervenção do Governo Brasileiro para uma efetiva busca e salvamento do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips.
Assistimos uma vez mais o atual Governo Brasileiro se omitir de suas responsabilidades diante da escalada de violência contra os povos indígenas e defensores de direitos humanos no Brasil. A UNIVAJA e o movimento indígenas e seus aliados, ao contrário, não estão medindo esforços, estando de forma permanente na área do ocorrido, realizando o trabalho de vigilância indígena para encontrar nossos amigos Bruno e Dom.
Atalaia do Norte, Amazonas, 07 de junho de 2022
União dos Povos Indígenas do Vale do Javari - UNIVAJA
Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato - Opi
Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira - COIAB
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil - APIB
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‘Essa vitória também nasceu da nossa força e união’, dizem Yanomami em carta a Lula
Lideranças contam como mobilizaram todo o território e pedem representação na posse presidencial, em Brasília
A Hutukara Associação Yanomami (HAY), a maior e mais representativa das oito associações que compõem o Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana, publicou nesta segunda-feira (26/10) uma carta parabenizando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a quem reconhece como “parceiro”, pela vitória no segundo turno das eleições.
Lideranças Yanomami e Ye’kwana celebram vitória do presidente Lula|Erik Vesch/Cama Leão/ISA
A organização pede, também, a presença de suas lideranças na posse presidencial, dia 5 de janeiro de 2027, em Brasília.
O documento vem na trilha de outras duas cartas produzidas por organizações Yanomami e Ye’kwana entre o 1º e o 2º turno das eleições, que alertavam para os riscos da repetição de uma massiva invasão garimpeira em caso de vitória do candidato do PL, o senador pelo Rio de Janeiro Flávio Bolsonaro.
Foi durante o governo de seu pai, Jair Bolsonaro, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado, que os Yanomami enfrentaram a pandemia da Covid-19 com a presença de cerca de 20 mil invasores garimpeiros, a desestruturação da saúde e mortes por doenças facilmente tratáveis, como pneumonia e desnutrição.
Jair Bolsonaro foi denunciado por genocídio ao Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, em razão da omissão na proteção aos indígenas. No Brasil, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a abertura de investigações para apurar eventuais crimes de genocídio e omissão de socorro. A Polícia Federal e o Ministério Público Federal conduzem as apurações, que seguem em sigilo.
“Mas você, Lula, nos deu a mão. Colocou equipes de saúde e de seguranças em nossa terra, expulsou os invasores garimpeiros, fortaleceu a Funai e trouxe comida para onde a fome ameaçava”, agradecem, em texto. “Ao criar o Ministério dos Povos Indígenas e a Casa de Governo em Roraima, você nos colocou no centro das decisões sobre a nossa própria terra e trouxe de volta o sonho da floresta viva”.
Segundo a carta, houve um grande movimento nas aldeias para garantir os votos dos Yanomami. A ação coordenada das lideranças envolveu caravanas atravessando a mata e navegando longos rios. “Esta vitória também nasceu da nossa própria força e união”, afirmam os Yanomami.
A Terra Indígena (TI) Yanomami tem 9,6 milhões de hectares - mesmo tamanho de Portugal - e centenas de comunidades que acolheram umas às outras dando água, alimentação e acomodação a fim de garantir que todos pudessem votar.
Em 1º de janeiro de 2023, durante a posse de seu terceiro mandato, Lula subiu a rampa do Palácio do Planalto ao lado de representantes dos trabalhadores, ativistas e do cacique Raoni Metuktire, do povo indígena Kayapó. Para a próxima posse presidencial, dia 5 de janeiro de 2027, os Yanomami demandam estar presentes.
“Como um ato simbólico de continuidade desta caminhada e do nosso trabalho conjunto, queremos estar ao seu lado na posse presidencial, subindo a rampa do Palácio do Planalto junto com você. Queremos que os nossos representantes levem a força do povo Yanomami para esse momento, para mostrar ao povo brasileiro e a todo o mundo a nossa aliança e reafirmar o seu compromisso com os povos indígenas da Amazônia e de todo o Brasil”, diz trecho da carta.
Yanomami pela defesa da democracia brasileira
A dois dias do pleito, os Yanomami e Ye’kwana lançaram duas cartas ao povo brasileiro. Uma construída no âmbito do Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana, a mais alta instância de decisões do território, e a outra durante o Encontro de Mulheres na comunidade Rokoari.
Em ambos os documentos, os Yanomami explicitaram a situação da TI Yanomami e seus temores diante da possibilidade de o Brasil eleger Flávio Bolsonaro (PL), derrotado nas urnas no domingo (25/10). Dessa forma, apelaram à consciência e ao coração dos brasileiros para impedir uma nova tragédia em seu território.
Em 2022, após a vitória de Lula, as mulheres yanomami também escreveram uma carta. Elas relataram os horrores que o garimpo causou em suas famílias, na terra e nos rios, além de pedir socorro a Lula.
Em 20 de janeiro de 2023, o presidente se dirigiu a Boa Vista onde anunciou uma megaoperação para reestruturar a saúde e retirar os invasores.
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Cesta do povo indígena Ye'kwana é vencedora do 10º Prêmio Objeto Brasileiro
Parte da tradição e confeccionada seguindo os “fazeres sábios” desse povo, a peça venceu na categoria Produção Coletiva e ficará em exposição com outras 25 obras no Museu A CASA do Objeto Brasileiro, em São Paulo
Ana Amélia Hamdan
- Jornalista do ISA
Wuara Antezana
- Assistente de comunicação
Juliana Carla
- Assessora do ISA em economia da sociobiodiversidade
As folhas de cipó Ködaayu coletadas na floresta são a base do Fishau ou Wöwa Tömennato, cesta do povo Ye'kwana que está entre os vencedores do 10º Prêmio Objeto Brasileiro, promovido pelo Museu A CASA do Objeto Brasileiro, em São Paulo.
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O Fishau carrega a sabedoria dos povos Ye'Kwana e está entre os vencedores do 10º Prêmio Objeto Brasileiro|Juliana Carla/ISA
O prêmio reconhece a riqueza e a diversidade da produção artesanal e do design em todo o país. O cesto, com cor vibrante, arte, cultura e beleza, venceu na categoria Produção Coletiva.
No total, foram selecionadas 26 obras - sendo quatro vencedoras de categorias e 22 selecionadas para a exposição presencial. O prêmio destaca iniciativas divididas nas categorias de Produção Autoral, Produção Coletiva, Ação Socioambiental e Novos Talentos. As peças selecionadas farão parte da exposição presencial na sede do museu, com abertura e cerimônia de premiação marcadas para 14 de novembro de 2026.
A peça foi inscrita no Prêmio Objeto Brasileiro pela Associação Wanasseduume Ye'kwana (Seduume), com sede em Boa Vista (RR), em parceria com o Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA).
Presidente da Seduume, Júlio Ye'Kwana comemora a premiação e diz que a exposição é muito importante como forma de valorizar a floresta, o artesanato e o conhecimento do seu povo.
“A premiação é bem importante para nós, pois com a exposição a gente mostra o nosso artesanato e leva mais longe nossos conhecimentos tradicionais. A exposição para nós é isso: mostrar para a algumas pessoas, para a sociedade brasileira ou até mesmo para o mundo todo, a importância do nosso conhecimento e da nossa floresta. Porque a natureza é importante para nós”, diz.
Formado em Gestão Territorial e pesquisador do artesanato Ye'Kwana, Julio dedicou seus estudos à relação das cestarias, conhecimentos e preservação dos saberes Ye'kwana, fazeres indissociáveis - o que ele denomina de fazeres sábios.
Ele explica que as pessoas que se destacam por tal habilidade dominam não apenas a técnica de produção, mas todas as relações, os espíritos/donos dos recursos utilizados e os seres invisíveis com os quais os Ye'kwana esperam se comunicar ao utilizar as produções.
“Por isso somos sábios, ainda temos os sábios para cantar, rezar, fazer ritual, sonhar. Ainda tem natureza. A natureza é bem importante pra nós. Sem a natureza, a gente não vive”, defende.
“Eu optei por fazer essa pesquisa para não esquecer de vez, mas hoje em dia a gente pratica muitas coisas ainda nos conhecimentos tradicionais. É forte ainda porque a nossa fala aqui é língua Yequã. Na comunidade a gente se comunica com a Yequã, língua indígena, e não em português”, completa.
O Fishau é uma cesta artesanal, com tampa e de formato cilíndrico tradicionalmente confeccionada por homens do povo Ye'kwana da região de Awaris, na Terra Indígena Yanomami, em Roraima. A peça é trançada manualmente com diferentes desenhos e grafismos tradicionais e apresentam imagens como a do Yaddakadu (macaco) e de outras diferentes gravuras culturais Ye'kwana.
Após serem coletadas, as folhas do cipó usadas na composição são descascadas, limpas, fiadas e tingidas e, só então, trançadas. O tingimento é feito com corantes naturais retirados de cipós, cascas de árvores e raízes. Alguns dos pigmentos ficam na lama por até duas semanas até que atinja a cor desejada pelo artesão. Com os fios já pintados de amarelo, vermelho e preto, o cipó é trançado e os grafismos e desenhos de animais vão aparecendo.
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O cipó retirado da floresta vai dar vida à tradicional peça do artesanato do povo Ye'kwana|Juliana Carla/ISA
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Os indígenas que confeccionam a peça domina a técnica, mas também a conexão com os espíritos|Juliana Carla/ISA
O reconhecimento do Fishau no 10º Prêmio Objeto Brasileiro evidencia a relevância das tradições indígenas e do fazer coletivo na valorização do patrimônio cultural brasileiro perante o design e a arte contemporânea.
Além de preservar a cultura ancestral dos Ye'kwana e fortalecer os conhecimentos tradicionais, o artesanato tem importante papel na geração de renda e na proteção territorial, pois, ao coletarem a matéria-prima na floresta, os indígenas percorrem longas distâncias a partir de suas malocas e, durante esse percurso, também realizam a vigilância.
A Associação Ye'kwana Seduume conta com 72 associados e representa, em média, 1.500 pessoas dos povos Ye'kwana do Brasil, desempenhando papel fundamental no fortalecimento do artesanato por meio do apoio técnico às comunidades, da valorização da produção tradicional e do auxílio na comercialização das peças.
O ISA atua em parceria com a Sedumme para fortalecimento das Economias da Sociobiodiversidade por meio da valorização do artesanato Ye'kwana e da mobilização por políticas públicas adequadas aos territórios, entre outras frentes.
Agenda
10º Prêmio Objeto Brasileiro De 14 de novembro de 2026 a 14 de março de 2027 Museu A CASA do Objeto Brasileiro | Avenida Pedroso de Morais, 1216, Pinheiros, São Paulo – SP Terça a domingo, das 10h às 18h. Fechado às segundas Entrada gratuita.
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Em carta ao povo brasileiro, Yanomami e Ye'kwana pedem: ‘Não nos deixem morrer de novo’
Mulheres yanomami também lançam manifesto e demandam o direito de continuar criando seus filhos com saúde
Os povos da Terra Indígena (TI) Yanomami, a maior do Brasil, lançaram nesta sexta-feira (23/10) duas cartas abertas endereçadas ao povo brasileiro sobre as eleições do próximo domingo. Os documentos foram divulgados pela Rede Pró-Yanomami e Ye’kwana.
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Rede Pró-Yanomami e Ye’kwana lançou cartas escritas pelos indígenas|Erik Vesch/Cama Leão/ISA
A primeira carta foi redigida no dia 27/9, antes do primeiro turno das eleições, durante o Encontro das Mulheres Yanomami, realizado na comunidade Rokoari. A segunda data do dia 19/10 e é assinada pelo Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana, composto por oito associações da TI Yanomami.
Em ambas, a memória do sofrimento e das mortes evitáveis causadas pela invasão garimpeira, estimulada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, dão o tom dos apelos.
“Não queremos que nossos filhos voltem a morrer, queremos poder continuar a viver em uma floresta saudável”, afirmam as mulheres yanomami. “Não nos deixem morrer de novo”, afirma o Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana.
A carta das mulheres yanomami é resultado do encontro, que analisou a situação da TI Yanomami após três anos e oito meses de ações do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Elas conversaram sobre alimentação e soberania alimentar, desintrusão e defesa do território e, principalmente, sobre saúde e o bem-viver das famílias, especialmente as crianças.
Em 20 de janeiro de 2023, o governo federal anunciou uma megaoperação na TI Yanomami. Os esforços iniciais se concentraram nos casos de desnutrição e doenças. Também houve esforço do governo para permitir que garimpeiros ilegais saíssem por vontade própria e em 2024, com a instalação da Casa de Governo em Roraima, as operações de desestruturação da atividade garimpeira ilegal se tornaram sistemáticas.
No entanto, o texto, escrito em em yanomae e português, abre com as lembranças do período entre 2019 e 2022 e a violência sofrida durante o governo Bolsonaro.
“O rastro de Bolsonaro é contaminado por doenças, está cheio de malária, diarreia, verminose, feridas, pneumonia, tomado pela desnutrição, vômito e coceira”, escrevem as mulheres yanomami. “O caminho de Bolsonaro é assim e por isso nós, mulheres da floresta, não queremos que seu filho Flávio [Bolsonaro, candidato do PL] assente na cadeira de presidente, pois queremos continuar vivendo com saúde junto aos nossos filhos na floresta.”
‘O perigo da tragédia se repetir’
A carta do Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana faz o mesmo percurso. Os yanomami assistiram à Terra Indígena Yanomami começar a se recuperar com a retirada dos invasores, os rios iniciarem o processo de limpeza e até as roças voltarem a crescer. As ações do governo Lula repercutiram nos núcleos familiares dos Yanomami e Ye’kwana.
“Nasceram novas crianças saudáveis que precisam da nossa proteção. Voltamos a sonhar com o nosso futuro e não mais nos preocuparmos apenas em sobreviver”, afirma a carta do fórum.
“Só que agora vemos o perigo da tragédia se repetir. E a situação pode ser pior, pois ainda estamos nos recuperando, não terminamos de nos fortalecer depois daqueles quatro anos de total destruição. Falta muito a ser feito! E precisamos de um governo comprometido em não nos deixar morrer de novo”, continua o texto.
As lideranças indígenas também relembram a dor de perder crianças por doenças como malária, gripe, pneumonia e verminoses, que seriam facilmente tratáveis se não fosse a desestruturação da saúde entre 2019 e 2023, além da massiva invasão garimpeira.
“Em 2019, vimos os garimpeiros invadirem a nossa terra como se fossem bandos enormes de porcões famintos, deixando um rastro de mais de 6 mil hectares de terra destruída até o final de 2022. Além do desmatamento, o garimpo ilegal contaminou os peixes com o mercúrio, causando doenças irreversíveis nos nossos corpos. Quem mais sofre com esses danos são as crianças”, diz trecho da carta.
“Desde então, temos acompanhado os esforços incansáveis dos órgãos de proteção, que já conseguiram retirar mais de 90% dos garimpeiros do nosso território. Com isso, vimos nossas crianças voltarem a brincar com saúde, voltamos a produzir nossas roças nas áreas antes dominadas pelos garimpeiros, os índices de desnutrição reduziram muito e as mortes por malária caíram pela metade”, comparam.
Enfraquecimento de políticas ambientais e incentivo ao garimpo ilegal
Evidências de que as políticas do governo de Jair Bolsonaro provocaram uma explosão do garimpo ilegal na TI Yanomami foram reunidas em um filme e um estudo lançados em 2022 pelos centros de estudo FA (Forensic Architecture), da Inglaterra e CLX (Climate Litigation Accelerator), dos EUA.
Na produção audiovisual, são exibidas táticas do governo Bolsonaro para enfraquecer a proteção aos territórios indígenas, como a diminuição de verbas para a fiscalização, a redução de multas por crimes ambientais e a tentativa de liberar o garimpo em TIs por meio de projetos de lei.
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Iniciativa de formação de Promotoras Legais Populares Indígenas do Rio Negro é finalista em prêmio de enfrentamento à violência contra a mulher
Realizada pelo Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro e ISA, ação fortalece redes de cuidado e acolhimento construídas por mulheres indígenas
Uma rede de cuidado entre mulheres indígenas, construída a partir dos saberes tradicionais, do conhecimento sobre direitos e da articulação comunitária, é a base da formação de Promotoras Legais Populares Indígenas do Rio Negro, realizada em São Gabriel da Cachoeira, no extremo noroeste do Amazonas. A iniciativa é finalista do prêmio “Antes que Aconteça”, do Ministério da Justiça e Segurança Pública e concorre na categoria “Justiça perto de quem precisa”, que busca reconhecer e apoiar projetos que descentralizam e aproximam o acesso ao sistema de Justiça para mulheres e meninas, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade ou isolamento. A cerimônia de premiação está prevista para 04 de novembro, em Brasília (DF).
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Primeira edição da formação de Promotoras Legais Populares Indígenas, realizada em 2021|Paulo Dessano
Desenvolvida pelo Instituto Socioambiental (ISA) e Departamento de Mulheres Indígenas da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Dmirn/Foirn), em parceria com a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP) e com o Observatório da Violência de Gênero no Amazonas (OVGAM/Ufam), a iniciativa é uma adaptação da experiência das Promotoras Legais Populares, projeto criado no Brasil na década de 1990 para enfrentar as dificuldades de acesso à Justiça, especialmente em situações de violência de gênero. No Rio Negro, a formação foi construída a partir das demandas das próprias mulheres indígenas da região.
Ao longo de suas três edições, a formação buscou preparar mulheres indígenas para atuar como referências em suas comunidades, oferecendo escuta, orientação e apoio a outras mulheres no reconhecimento de situações de violência e na busca por seus direitos.
A proposta parte de uma compreensão fundamental: o enfrentamento à violência precisa considerar as realidades dos territórios indígenas, valorizar seus conhecimentos e fortalecer as redes de proteção que as próprias mulheres constroem em suas famílias, comunidades e organizações.
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Formação buscou preparar mulheres indígenas para atuar como referências em suas comunidades|Vanessa Fernandes/ISA
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Mapeamento de serviços públicos de atenção e cuidado em São Gabriel da Cachoeira realizado durante a formação|Vanessa Fernandes/ISA
A formação também aproxima as participantes dos serviços públicos de atendimento e proteção disponíveis no município, como unidades de saúde, Centros de Atenção Psicossocial (Caps), delegacias e órgãos de assistência social. O objetivo é ampliar o conhecimento sobre os direitos das mulheres, os mecanismos legais de proteção e os caminhos para acessar a Justiça, articulando os conhecimentos tradicionais às ferramentas jurídicas e aos serviços oferecidos pelo Estado.
O prêmio “Antes que Aconteça” está vinculado ao programa nacional de mesmo nome, resultado da atuação conjunta da Bancada Feminina do Congresso Nacional, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, dos conselhos nacionais de Justiça e do Ministério Público, e busca reconhecer e impulsionar ações que ampliem o acesso das mulheres à Justiça e contribuam para a prevenção e o enfrentamento da violência de gênero no Brasil.
Em dezembro de 2024, o Ministério da Justiça e Segurança Pública firmou um termo de execução descentralizada no valor de R$ 27,08 milhões para implementar o programa nacional, com vigência até julho de 2027. O instrumento, relevante diante da dimensão da violência de gênero no país, prevê, entre outras ações, a formação de uma rede de mulheres formadas em direitos por meio do curso Defensoras Populares.
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Turma de Promotoras Legais Populares Indígenas de 2024|Vanessa Fernandes/ISA
Segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam) 2026, elaborado pelo Ministério das Mulheres a partir de dados da segurança pública, o Brasil registrou 1.548 feminicídios em 2025, uma média de mais de quatro mortes por dia. Foi o maior número da série histórica desde a tipificação do crime, em 2015.
Política Pública para mulheres entre cortes e retomada
O financiamento das políticas públicas para as mulheres é um desafio persistente no Brasil. De acordo com nota técnica do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), que analisou as políticas de enfrentamento à violência contra as mulheres no período de 2019 a 2022, durante o governo Bolsonaro a execução orçamentária das ações oscilou entre a baixa alocação e a baixa execução de recursos.
Em valores corrigidos pela inflação, os gastos com enfrentamento à violência, promoção da igualdade e autonomia das mulheres somaram R$ 56,6 milhões em 2019 e caíram para R$ 38,2 milhões em 2020, uma queda de 33% no ano mais grave da pandemia, quando o ministério utilizou apenas 29% dos recursos autorizados.
Em 2022, a execução voltou a R$ 56,7 milhões, mas o orçamento autorizado encolheu de R$ 64,1 milhões para R$ 43,8 milhões em relação a 2021. Para 2023, a proposta enviada pelo governo previa apenas R$ 13 milhões para essas ações.
No governo Lula, o Ministério das Mulheres, recriado em 2023, passou a contar, a partir do Plano Plurianual (PPA) 2024–2027, com três programas próprios, voltados à participação das mulheres nos espaços de decisão, à autonomia econômica e ao enfrentamento à violência.
Segundo o Inesc, em 2024, primeiro ano de execução desses programas, apenas 14,29% do orçamento autorizado havia sido efetivamente pago. Em 2025, a execução avançou para R$ 172,38 milhões, o equivalente a cerca de 75% dos R$ 229,51 milhões autorizados. Para 2026, o orçamento autorizado para os três programas chegou a R$ 303,82 milhões, um crescimento de aproximadamente 32% em relação ao ano anterior.
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
STF reconhece riscos aos direitos indígenas e suspende licença de Belo Sun, megamina canadense de ouro na Amazônia
Decisão de Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, representa vitória para povos e comunidades tradicionais que resistem na Volta Grande do Xingu (PA); movimento alerta que disputa judicial continua
Protesto contra Belo Sun durante o Acampamento Terra Livre, em abril de 2026|Brenda Okubo/ISA
BRASÍLIA, BRASIL — O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, restabeleceu a suspensão da licença de instalação do projeto de mineração de ouro da empresa canadense Belo Sun, na Volta Grande do Xingu, no Pará. A decisão, assinada em 19 de outubro, atende parcialmente a um pedido do Ministério Público Federal (MPF) e reconhece o risco de grave lesão à ordem pública constitucional e ao meio ambiente diante da possibilidade de instalação da mina sem o cumprimento integral das exigências de proteção dos direitos indígenas.
A decisão representa um novo revés para a Belo Sun Mining Corp., que pretende construir uma das maiores minas de ouro a céu aberto do Brasil, em uma região da Amazônia já profundamente impactada pela hidrelétrica de Belo Monte. Em fevereiro, uma decisão monocrática do desembargador Flávio Jardim, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), havia restabelecido a licença, anteriormente suspensa pela Justiça Federal de Altamira. Em abril, a mineradora anunciou aos investidores a reemissão da autorização pelo governo do Pará, com validade até 2029.
Ao analisar o caso, Fachin considerou que permanecem pendências importantes no Estudo do Componente Indígena (ECI), incluindo a identificação de comunidades potencialmente afetadas fora de terras demarcadas, a avaliação de possíveis reassentamentos e a análise dos impactos cumulativos da mineração com Belo Monte. A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) também apontou insuficiências nos estudos e na consulta livre, prévia e informada às comunidades afetadas, exigida pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
A decisão foi celebrada pela Aliança pela Volta Grande do Xingu, articulação que reúne organizações e movimentos em defesa das comunidades ameaçadas pelo empreendimento. Em nota pública, a Aliança classificou a suspensão como uma vitória da resistência indígena e alertou para o risco de que interpretações judiciais semelhantes enfraqueçam garantias de proteção em outros projetos de mineração.
“Essa vitória ocorre em um momento especialmente preocupante para os direitos indígenas no Brasil. O avanço da extrema direita nas eleições de 2026 fortaleceu no Congresso Nacional setores políticos comprometidos com a flexibilização das salvaguardas ambientais e a abertura de terras indígenas à mineração. Diante desse cenário, a decisão do STF demonstra a importância das garantias constitucionais, mas também evidencia a necessidade de fortalecer a organização e a resistência dos territórios contra novas ofensivas legislativas e econômicas”, diz a coalizão.
A decisão ocorre após meses de mobilizações lideradas por mulheres indígenas do Médio Xingu. Em fevereiro, mais de 140 indígenas ocuparam a sede regional da Funai, em Altamira, exigindo a suspensão da licença. Nas semanas seguintes, manifestações reuniram centenas de pessoas em defesa dos territórios e do rio Xingu, denunciando a exclusão de comunidades do processo de licenciamento.
"A gente ganha tempo para nos organizar, fortalecer e mostrar ao mundo que o que essa mineradora conta é mentira: não fomos consultados, existe sim um povo que resiste e quer seu território livre de mineração. Fora Belo Sun!", disse Eliete Juruna, liderança do Movimento de Mulheres do Médio Xingu.
Suspensão não encerra disputa judicial
A decisão do STF tem caráter provisório e mantém a licença suspensa até eventual homologação judicial de um acordo em discussão no TRF1. O processo de conciliação teve uma audiência em junho, após a decisão monocrática que havia restabelecido a autorização da mineradora. Na ocasião, foi celebrado um acordo parcial, apesar da oposição expressa do MPF. Seu exame judicial permanece inconcluso.
Para Luís Filipe Lima, analista de Proteção e Direitos Territoriais do Instituto Socioambiental (ISA), a Mesa de Conciliação não pode ser usada para sobrepor as irregularidades do licenciamento. “Para que os vícios do processo sejam realmente combatidos, é fundamental que o espaço de decisão seja embasado na legislação ambiental, na avaliação técnica real dos impactos do projeto em sua integralidade e no direito à consulta livre, prévia e informada”, afirmou.
Já o advogado Diogo Cabral, do Movimento Xingu Vivo, considera remota a possibilidade de uma conciliação que resulte no restabelecimento da licença, diante das manifestações do MPF e da Funai sobre as irregularidades do empreendimento. "Manter uma licença para Belo Sun configuraria uma evidente violação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT)", afirma Cabral.
O novo revés judicial também contrasta com as declarações da mineradora ao mercado. Em comunicado de setembro, a Belo Sun defendeu a validade de sua licença e afirmou ter cumprido as exigências judiciais relacionadas aos estudos e à consulta indígena. Fachin concluiu, porém, que o cumprimento integral dessas exigências ainda não havia sido demonstrado de forma inequívoca.
A decisão ocorre em um momento de fortalecimento de setores favoráveis à expansão da mineração no Brasil. As eleições de outubro ampliaram a representação da extrema direita no Congresso Nacional, incluindo parlamentares que defendem a abertura de terras indígenas à exploração mineral. Para a Aliança pela Volta Grande do Xingu, o cenário reforça a necessidade de manter a mobilização pela proteção dos territórios e pelo respeito aos direitos constitucionais dos povos indígenas.
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Demarcar terras indígenas é uma questão de sobrevivência para todos nós
Em artigo, Juliana Radler e Renata Vieira, do ISA, abordam como os territórios contribuem de forma decisiva para a regulação climática, a economia brasileira e a segurança alimentar
*Artigo originalmente publicado no jornal A Crítica em 18 de outubro de 2026
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Manifestação durante o 20º Acampamento Terra Livre (ATL), em 2024, com o tema "Nosso marco é ancestral, sempre estivemos aqui" | Lucas Landau/ISA
Ondas de calor, incêndios florestais e muita fumaça poluindo o ar que respiramos. Esse é o quadro preocupante dos impactos iniciais do Super El Niño nesta temporada de verão no Amazonas. O fenômeno climático pode ser o mais intenso em 150 anos, tendo consequências agravadas pelo aquecimento global decorrentes das emissões dos gases de efeito estufa na atmosfera.
Enquanto lutamos para respirar, precisamos de políticas eficientes para conter os impactos das mudanças climáticas. Uma das formas mais efetivas é demarcar as Terras Indígenas (TIs), que formam um escudo contra o desmatamento ilegal, maior causa das emissões no Brasil. Na Amazônia, estes territórios são 16 vezes mais preservados do que as áreas ao seu redor e, em 40 anos, perderam menos de 1% de sua vegetação nativa, segundo o Mapbiomas.
A demarcação das terras indígenas é um direito garantido pela Constituição, mas também uma política climática necessária a toda a sociedade. Estudo realizado pelo Instituto Serrapilheira demonstra que as Terras Indígenas na Amazônia influenciam o ciclo de chuvas de ao menos 18 estados e do Distrito Federal, abastecendo 80% da área agropecuária do Brasil. Em 2021, a renda do setor agrícola nas regiões beneficiadas por essa umidade atingiu R$ 338 bilhões, o equivalente a 57% de toda a renda agropecuária nacional.
Somente na Bacia Amazônica, o estoque de carbono acima do solo em TIs e áreas protegidas corresponde a 58% do total da região, o equivalente a cerca de 42 bilhões de toneladas de carbono. Na Amazônia brasileira, as florestas em terras indígenas retiram mais de 170 milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano — metade das emissões anuais de combustíveis fósseis do Reino Unido. Esse serviço ecossistêmico decorre não apenas da conservação das áreas, mas, sobretudo, do manejo e do conhecimento dos povos indígenas sobre os ecossistemas que habitam há milênios.
Um passo importante para que estes territórios sejam valorizados e reconhecidos por todos os serviços essenciais à manutenção do equilíbrio climático foi a regulamentação da Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais, em junho deste ano. A medida estabelece regras para recompensar financeiramente quem protege, recupera e mantém ecossistemas no Brasil e prevê que as iniciativas envolvendo povos indígenas respeitem o consentimento livre, prévio e informado, a autonomia e os protocolos comunitários dessas populações.
Demarcações na Bacia do Rio Negro
Terras indígenas em processo demarcatório no Amazonas, como a TI Aracá-Padauiri e a TI Baixo Rio Negro e Rio Caurés, na região da Bacia do Rio Negro, nos municípios de Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro, representam avanços necessários à política climática brasileira e também regional, considerando o grande potencial amazonense para ser protagonista no mercado de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) no país.
A preservação dos territórios indígenas e de outras populações tradicionais, como os quilombolas e extrativistas, significa uma oportunidade de desenvolvimento econômico sustentável e de justiça social para o Amazonas. Em tempos de emergência climática, o próximo governo tem a obrigação de estar preparado para acessar fundos destinados a ações de enfrentamento à crise climática. Somente o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima (Fundo Clima), principal instrumento federal voltado ao financiamento climático, criado pela Lei nº 12.114/2009, teve um salto de recursos. Passou de R$ 634 milhões em 2023 para R$ 13,63 bilhões em 2024, alcançou R$ 24,2 bilhões em 2025 e chega a 2026 com R$ 42,4 bilhões, segundo o Observatório do Clima (Cartilha sobre financiamento climático: do orçamento à implementação).
Além disso, a titulação de território indígena não significa barrar o desenvolvimento econômico nos territórios, muito pelo contrário. A regularização fundiária permite que as comunidades indígenas desenvolvam atividades como o turismo de base comunitária, a pesca esportiva, artesanato, cerâmica e outras cadeias produtivas da sociobiodiversidade, com enorme potencial de geração de renda, valorização cultural e fortalecimento da autonomia. Um exemplo próspero vem do próprio município de Santa Isabel do Rio Negro, onde a Associação das Comunidades Indígenas do Médio Rio Negro (Acimrn) desenvolve produtos para valorização do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, patrimônio cultural do Brasil, na Casa de Frutas Iwaita Ruka, iniciativa premiada pelo BNDES, Iphan, Embrapa e FAO.
Por fim, vale frisar a recente decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que publicou a Opinião Consultiva nº 32 de 2025, reconhecendo a emergência climática como ameaça aos direitos humanos e afirmou que a proteção do clima é obrigação legal dos Estados. Seguir adiante com as demarcações é essencial para o Brasil cumprir as metas assumidas na Convenção do Clima da ONU e exercer seu protagonismo na luta global por justiça climática. Todos nós ganhamos quando os territórios dos povos indígenas são reconhecidos e preservados, a começar pelo mais essencial: garantir o equilíbrio climático e ambiental, que inclui o ar que respiramos, a água que bebemos e as chuvas que garantem a produção alimentar.
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Na Escola Baniwa Kalipana, aprender também é cuidar do território
Escola pública de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, está entre as finalistas do prêmio de melhores escolas do mundo, na categoria Ação Ambiental; votação popular vai até 29 de outubro
Na comunidade Santa Isabel, às margens do Rio Ayari, na Terra Indígena Alto Rio Negro, a aprendizagem escolar não acontece somente entre quatro paredes. A roça, a aldeia, os ciclos da natureza, os conhecimentos dos mais velhos e a vida comunitária também são espaços onde se ensina e se aprende.
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Escola Baniwa Kalipana está localizada na comunidade Santa Isabel do rio Ayari, na Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas|Juny Baniwa/Kalipana
É a partir dessa compreensão que a Escola Baniwa Kalipana, em São Gabriel da Cachoeira (AM), vem construindo uma educação enraizada na cosmovisão do povo Baniwa. A experiência ultrapassou as fronteiras do Rio Negro e colocou a escola entre as 50 finalistas do World’s Best School Prizes 2026, premiação internacional conhecida como a “Copa do Mundo da educação”. Agora, a Kalipana também disputa o voto do público, aberto até 29 de outubro.
Entre as quatro escolas públicas brasileiras que chegaram à fase final, é a única escola indígena localizada dentro de uma aldeia. Mas o caminho até aqui começou muito antes da inscrição no prêmio. Dzoodzo Baniwa, professor, pesquisador e coordenador regional da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) na bacia do Içana, que há quase três décadas atua na educação indígena, explica que a Kalipana reúne uma experiência acumulada desde o início dos anos 2000 e vai de encontro às necessidades e aos projetos desenvolvidos pela comunidade que dialoga com seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental.
"Nos últimos 26 anos, a gente vive essa construção da escola mais significativa, e, o mais importante: a escola que corresponde às necessidades locais", destaca.
Santa Isabel do Ayari é uma comunidade de cerca de 35 famílias e mais de 150 moradores. Antes da Kalipana, havia ali uma pequena escola que atendia até o 5º ano do ensino fundamental. Depois disso, os estudantes precisavam deixar a comunidade para continuar os estudos. Com a mobilização dos moradores, o ensino fundamental foi ampliado e, em 2023, a escola passou a oferecer do 6º ao 9º ano. Em 2025, conquistou autonomia administrativa e pedagógica junto à Secretaria Municipal de Educação e Educação Escolar Indígena (Semedi) e deixou de funcionar como extensão de outra escola.
A mudança veio acompanhada de outra decisão simbólica: a Escola Municipal Indígena Santa Isabel passou a se chamar Escola Baniwa Kalipana. A troca de nome fez parte de um processo de reflexão da comunidade sobre a própria identidade e sobre o sentido de uma escola pensada a partir do seu lugar.
Uma educação sistêmica comunitária
Na Kalipana, a educação não é pensada separadamente das demais dimensões da vida comunitária. É o que Dzoodzo chama de "educação sistêmica comunitária": uma proposta que conecta os conteúdos escolares às experiências vividas pelos estudantes. Os componentes curriculares obrigatórios, como matemática, língua portuguesa, geografia, são seguidos, mas são trabalhados de forma conectada aos modos de vida Baniwa. Ao invés de percorrer os livros didáticos apenas página por página, os professores desenvolvem projetos integradores a partir da realidade local.
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Atividades comunitárias, oficinas e encontros do movimento indígena também são espaços de aprendizagem|Juny Baniwa/Kalipana
Assim, uma fórmula matemática continua sendo ensinada, mas o ponto de partida pode ser uma situação vivida no território. Um cálculo feito na roça, na associação, ou no preparo de alimentos. O conhecimento escolar não substitui o conhecimento indígena. Os dois caminham juntos.
Essa concepção também amplia os lugares onde se aprende. Como explica Dzoodzo, há o tempo-escola, dedicado ao trabalho pedagógico em sala de aula. O tempo-aldeia, em que cerimônias, atividades comunitárias, refeições coletivas e a convivência cotidiana também são entendidas como processos educativos. Além do tempo-território, que leva os estudantes à vivência para além da aldeia, como os encontros do movimento indígena, a oficinas, estágios, conversas com lideranças e profissionais de saúde.
“A gente trabalha o plano curricular, não no sentido do plano cartesiano, mas tridimensional, nesse sentido de olhar para o plano territorial, espacial e ligado à nossa cosmologia”, detalha a liderança.
Os estudantes também fazem pesquisas guiadas e mantêm cadernos de observação onde registram as mudanças no ambiente e o que aprendem com os conhecedores tradicionais. Uma metodologia que se inspira nas pesquisas desenvolvidas pelos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) no Rio Negro, iniciativa fomentada pelo Instituto Socioambiental (ISA) e pela Foirn.
No centro dessa proposta está o Sistema Agrícola Káali, do povo Baniwa, que, para além de um conjunto de técnicas de produção, Dzoodzo define como um modo de vida que reúne dimensões culturais, ecológicas, geográficas, sociais e econômicas.
A partir dos ciclos observados, como a época de plantio e colheita, de floração e de frutificação das plantas, da migração dos peixes e das aves, a roça é, então, este lugar onde diferentes conhecimentos se encontram e são transmitidos entre gerações.
Essa visão ajuda a explicar por que a Ação Ambiental, categoria em que a escola concorre na premiação, é uma das dimensões centrais da Kalipana. Preservar o território não aparece como um conteúdo isolado no currículo. Está ligado à alimentação, à geração de renda, à cultura, à autonomia comunitária e à continuidade dos conhecimentos Baniwa.
A escola também participa de iniciativas de valorização da produção local e de compras públicas de alimentos, fortalecendo a presença de produtos tradicionais na alimentação escolar. Farinha, beiju, tapioca, tucupi, frutas, mel e outros alimentos produzidos pelas famílias passam a integrar uma cadeia que conecta roça, comunidade e escola.
Para Dzoodzo, dar visibilidade a essa produção também é uma forma de enfrentar a ideia de que as comunidades indígenas não produzem alimentos. "É porque eu acho que o sistema de produção não tem visibilidade porque é produzido e consumido ao mesmo tempo, não tem uma lógica de acúmulo", observa.
A valorização dos alimentos tradicionais ganhou ainda mais importância diante das mudanças nos hábitos alimentares e do aumento do consumo de produtos industrializados. Para a comunidade, fortalecer o sistema alimentar Baniwa significa também fortalecer a saúde, a autonomia e a transmissão de conhecimentos.
Uma experiência construída por muitas mãos
A Kalipana é parte de uma história mais longa. Dzoodzo começou a atuar na educação indígena em 2000, na escola Pamáali, onde permaneceu por 13 anos. Em 2014, voltou ao Rio Ayari para fortalecer as escolas do seu território. Ao longo desse tempo, organizações indígenas, a Federação das Organizações Indígenas (Foirn), escolas, professores e parceiros investiram no caminho que hoje sustenta a experiência.
Entre esses parceiros está o Instituto Socioambiental (ISA), que apoia as tecnologias sociais de água e iniciativas de renda ligadas ao Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, como a casa de farinha solar, a meliponicultura e a cerâmica. Também apoiou a formação de pesquisadores indígenas em monitoramento ambiental nas escolas da região. Experiência que integra, ainda, o programa Escolas 2030, voltado a práticas educacionais inovadoras.
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Dzoodzo Baniwa, ao lado do Capitão da comunidade Santa Isabel do Ayari, Gerson Lopes da Silva, durante premiação da Fundação Banco do Brasil|Juny Baniwa/Kalipana
Antes do prêmio internacional, a comunidade já havia recebido outros reconhecimentos. Em 2025, foi selecionada pelo programa Periferia Viva, do Ministério das Cidades e da Secretaria Nacional de Periferias. Também foi finalista de uma premiação da Fundação Banco do Brasil na categoria de tecnologias sociais e recebeu certificação como tecnologia social.
Do Rio Ayari para o mundo
Foi nesse percurso que surgiu a oportunidade de inscrever a experiência no World's Best School Prizes, na categoria Ação Ambiental. A candidatura apresentou a Kalipana a partir da valorização do sistema agrícola, da aprendizagem sistêmica e dos conhecimentos tradicionais.
O resultado colocou a escola entre as dez finalistas da categoria. O prêmio tem cinco categorias, com dez escolas em cada uma, o que resulta em 50 finalistas no mundo. Os vencedores de cada categoria serão escolhidos por um júri e anunciados em novembro. Em paralelo, as 50 escolas disputam o Community Choice Award (Prêmio Escolha da Comunidade), definido por votação popular pela internet até 29 de outubro. Para Dzoodzo, chegar a essa etapa já é maior do que a possibilidade de vencer.
"Eu vejo como um reconhecimento dessa experiência de sucesso da educação escolar indígena nos últimos 25 anos aqui no Rio Negro", afirma. "É fruto de todo esse investimento, da parceria, da reconstrução do bem viver".
Ainda de acordo com a liderança, é também uma oportunidade de afirmar, em escala internacional, a ideia que orienta a escola desde a origem. Para ele, aprender não é se afastar do território para acessar o conhecimento. É também conhecer o território, cuidar dele e manter vivos os saberes que permitem às novas gerações continuar vivendo nele.
"Não é só para responder ao índice do Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica], do Saeb [Sistema de Avaliação da Educação Básica] e de outras coisas. A gente estuda para nós, para a pessoa em si", finaliza Dzoodzo".
Como votar
A votação popular do World's Best School Prizes 2026 vai até 29 de outubro e os vencedores gerais de cada categoria e do voto popular serão revelados em novembro.
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Página de votação|Reprodução/World's Best School Prizes
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Promotoras Legais Populares Indígenas: uma caminhada que continua em cada comunidade, território e mulher
Lideranças femininas do Rio Negro discutem saber tradicional, ampliação das redes de apoio para proteção em suas comunidades e enfrentamento legal em São Gabriel da Cachoeira (AM)
Dulce Morais
- Antropóloga do ISA
Natalia Farias
- Enfermeira e doutoranda na FSP/USP
Durante os dias 22, 23 e 24 de setembro aconteceu o terceiro módulo de formação das Promotoras Legais Populares Indígenas, na Casa do Saber da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), em São Gabriel da Cachoeira, Amazonas.
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Terceiro módulo de formação de Promotoras Legais Populares Indígenas teve a participação de aproximadamente 100 mulheres|Comunicação da FOIRN
A formação contou com aproximadamente 100 mulheres da sede municipal e das cinco coordenadorias regionais da Foirn que compreendem os municípios amazonenses de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.
Além das promotoras, a formação teve a participação de representantes de instituições locais, bem como da coordenação da Rede de Mulheres Indígenas do Estado do Amazonas (Makira E'ta) e de representante da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga).
Após histórico feito pelas lideranças indígenas e ex-coordenadoras do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN), dona Rosilda Cordeiro (Tukano) e Elizângela Costa (Baré) compartilharam sobre o trabalho colaborativo no enfrentamento às violências contra mulheres no Rio Negro realizado pelo DMIRN, Instituto Socioambiental (ISA), Observatório da Violência de Gênero no Amazonas da Universidade Federal do Amazonas (OVGAM/UFAM) e da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP).
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Elizângela Costa Baré apresentou o trabalho coletivo no enfrentamento às violências de gênero no Rio Negro|Dulce Morais/ISA
Segundo elas, o enfrentamento às violências contra as mulheres tornou-se parte da agenda institucional do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro.
A assessoria de gênero do ISA apresentou o projeto de formação das Promotoras Legais Populares (PLPs), criado no Brasil no início dos anos 1990 diante das dificuldades de acesso à justiça em casos de violação de direitos, especialmente de violência de gênero. A formação qualifica mulheres lideranças comunitárias para que atuem como referências locais, oferecendo escuta, orientação e apoio a outras mulheres no acesso à justiça.
A formação de Promotoras Legais Populares Indígenas foi inspirada no projeto e pensada de maneira adaptada à realidade rionegrina. No primeiro módulo de formação, realizado no segundo semestre de 2021, o objetivo foi promover um ambiente seguro para a produção de um entendimento das violências contra as mulheres do Rio Negro.
Na ocasião, foram compartilhadas informações sobre direitos das mulheres, ferramentas jurídicas destinadas à proteção de mulheres e meninas, bem como formas de fortalecer estratégias locais e coletivas relacionadas aos cuidados, à prevenção e ao enfrentamento às violências.
O segundo módulo, realizado em 2024, procurou fortalecer a rede de mulheres indígenas no enfrentamento à violência de gênero a fim de promover melhores condições para participação qualificada e segura nos espaços de decisão do movimento indígena rionegrino.
Agora, no final de setembro de 2026, a terceira formação de Promotoras Legais Populares Indígenas buscou ampliar o conhecimento das participantes sobre a rede de proteção e os serviços disponíveis em seus municípios; promover maior compreensão dos procedimentos técnicos, administrativos e periciais relacionados ao atendimento e à proteção de mulheres em situação de violência; aproximar as participantes das instituições responsáveis pelo acolhimento, atendimento e garantia dos direitos das mulheres; promover um espaço de compartilhamento sobre as estratégias comunitárias de enfrentamento às violências realizadas pelas próprias mulheres em suas famílias e comunidades, nos municípios de Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira.
Para isso, a formação contou com a participação de representantes do Centro de Referência Especializado de Assistência Social, que compartilharam informações sobre seus serviços e demandas; do Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro, que abordou alguns cuidados relacionados aos casos de violência sexual; e da Defensoria Pública, que apresentou os diversos serviços oferecidos pela instituição e a importância de intérpretes indígenas para o entendimento dos processos e seguimentos dos casos.
No início do ano, a doutoranda em Saúde Pública, Natalia Farias, e a liderança indígena Adelina Sampaio, realizaram para o ISA, em parceria com o DMIRN, um diagnóstico sobre o fluxo de atendimento de mulheres indígenas pelos equipamentos de saúde, segurança pública e assistência social nos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.
Parte dos resultados deste diagnóstico foi exposta por Natalia, que também realizou uma atividade de identificação e mapeamento das instituições dos três municípios coletivamente.
Em relação às estratégias comunitárias de proteção e cuidados com meninas e mulheres, o terceiro módulo viabilizou um momento de compartilhamento e fortalecimento dessas ações a fim de articular um trabalho em rede.
Na oportunidade, as mulheres apresentaram diversas plantas medicinais como práticas de cuidado que contribuem para a prevenção de violências, especialmente aquelas relacionadas à violência doméstica ligada ao consumo abusivo de bebidas alcoólicas por parte dos companheiros, prevenção de violência obstétrica, cuidados com o corpo, fortalecimento da convivência familiar e estratégias para aumento de inteligência.
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Lucilene Veloso e Madalena Fontes apresentaram o projeto Espaços Seguros para meninas e meninos em territórios indígenas|Natalia Farias/FSP/USP
Fortalecer a luta, de forma adequada
Na formação, foi apresentada e discutida pelas lideranças Madalena Fontes (Koripako) e Lucilene Veloso (Dessana) a metodologia do Guia Metodológico de Espaços Seguros para Meninas e Meninos em Territórios Indígenas, que reúne e sistematiza experiências construídas pelas mulheres rionegrinas em parceria com organizações indígenas, instituições públicas, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e a Rede de Mulheres Makira E’ta. O guia, uma das entregas do projeto “Proteção Integral e Promoção dos Direitos de Crianças, Adolescentes e Jovens Indígenas na Amazônia Legal Brasileira”, realizado no âmbito do Fundo Brasil-ONU para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (MPTF), busca contribuir para a criação de espaços de convivência lúdicos, acolhedores e seguros, voltados à promoção do bem-estar e do desenvolvimento de crianças e adolescentes indígenas em situação de vulnerabilidade.
Cleocimara Reis Gomes (Piratapuya) e Maria do Rosário (Baniwa) da Coordenação Regional da Funai lideraram o encerramento da formação com a construção de encaminhamentos e demandas das rionegrinas para as próximas formações de Promotoras Indígenas e as demais agendas de gênero do Departamento de Mulheres.
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Cleocimara Reis Gomes, coordenadora do DMIRN, falou sobre os próximos passos para as demandas das mulheres rionegrinas|Natalia Farias/FSP/USP
Dentre os diversos encaminhamentos, as participantes destacaram a importância de “fortalecer e intensificar o compromisso das instituições públicas com as discussões e ações de enfrentamento à violência contra a mulher de forma culturalmente adequada”.
Ainda, reiteraram a importância de retomar a articulação para a construção de uma Casa de Acolhimento à Mulher Indígena em São Gabriel da Cachoeira e construir um plano de trabalho de redução de danos sobre o uso abusivo de álcool para o enfrentamento às violências contra as mulheres.
Por fim, Janete Alves (Dessana), vice-presidente da Foirn, compartilhou uma mensagem de agradecimento e força para as participantes:
“O III Encontro de Promotoras Legais Populares Indígenas foi marcado por escuta, partilha, coragem e fortalecimento coletivo. Os depoimentos e experiências compartilhados revelaram as dores, os desafios e, sobretudo, a força das mulheres indígenas na defesa de seus direitos, famílias, comunidades, territórios e culturas [...] Nossa caminhada não termina aqui. Ela continua em cada comunidade, em cada território e em cada mulher”.
O terceiro módulo de formação do Promotoras Legais Populares Indígenas foi produzido com apoio da Nia Tero, Misereor, Elas+, Incube, Pawanka e Cosmopolíticas do Cuidado no Fim do Mundo. As opiniões expressas na reportagem não refletem necessariamente as opiniões dos parceiros apoiadores.
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