Rede Wayuri estreia vodcast com informações sobre as eleições de 2026
Primeiro episódio do programa Vozes do Rio Negro responde dúvidas de parentes da região, no Amazonas, sobre documentação, justificativa de voto, segurança das urnas e outros temas do processo eleitoral
A Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas do Rio Negro estreou, nesta quinta-feira (01/10), um novo formato de produção: o vodcast. O primeiro episódio é dedicado às eleições de 2026 e reúne especialistas em direito eleitoral para responder dúvidas enviadas por indígenas de diferentes regiões do território.
Apresentado pelas comunicadoras Nayra Sthefany, do povo Baniwa, e Lilian Batista, do povo Yanomami, o episódio recebe o juiz Manoel Átila Araripe Autran Nunes, titular da 19ª Zona Eleitoral de São Gabriel da Cachoeira (AM), e o advogado eleitoral Tales Bernal Bornia.
Os convidados responderam a perguntas encaminhadas por comunicadores correspondentes, baseados em comunidades nas cinco coordenadorias regionais da Federação das Organizações Índígenas do Rio Negro (Foirn). Documentação necessária para votar, justificativa de voto, segurança das urnas e outras questões relacionadas ao processo eleitoral estão entre os temas abordados.
O nome Vozes do Rio Negro carrega uma história que atravessa diferentes momentos da comunicação do movimento indígena na região. Claudia Ferraz, comunicadora do povo Wanano e coordenadora da Rede Wayuri, relembra que, nos anos 1990, a Foirn mantinha um programa com esse nome na Rádio Municipal AM, em São Gabriel da Cachoeira, que já naquela época se propunha a levar informações sobre o movimento indígena às comunidades, com a participação de lideranças, diretores e coordenadores da Federação.
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Claudia Ferraz, coordenadora da Rede Wayuri, explica conexão com o nome do programa|Vanessa Fernandes/ISA
O programa também faz parte da memória afetiva de Claudia, que cresceu ouvindo junto com os pais. “Era um programa de uma hora, se não me engano, ia das seis às sete da manhã. Lembro que meus pais sempre escutavam bem cedo”, recorda.
Para ela, resgatar esse nome é também reencontrar uma parte da história da comunicação indígena no Rio Negro. “Eu acredito que foi um dos primeiros programas de rádio que dava essa abertura para os povos indígenas do Rio Negro, feito pela Federação, e agora está sendo resgatado pelos jovens comunicadores da Rede Wayuri, por uma nova geração, através das plataformas digitais”, finalizou.
A iniciativa começou a ser desenvolvida durante a Oficina de Estruturação de Conteúdo Jornalístico e Produção de Vodcast, realizada em agosto, com a participação de 15 comunicadores indígenas. O formato combina a linguagem do rádio com a imagem.
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Comunicadores em atividade prática de entrevista e apresentação na Oficina de Estruturação de Conteúdo Jornalístico e Produção de Vodcast|Vanessa Fernandes/ISA
Facilitada pela equipe de apresentadores da Rádio Nacional dos Povos (RNP) Yago Kaingang, Nathalia Purificação e Juliana Albuquerque – que já integrou o time de apresentadores da rede – a oficina abordou temas como comunicação indígena e comunitária, estrutura da notícia, apuração, identificação de fontes, técnicas de entrevista, construção de roteiro e produção audiovisual com recursos simples. Os participantes também experimentaram o formato na prática, produzindo conteúdos e discutindo possibilidades de uso do vodcast para abordar temas de interesse das comunidades.
Entre as pautas levantadas estão mudanças climáticas, território, políticas públicas, cultura, educação, saúde e eleições, em diálogo com o planejamento editorial da Rede Wayuri para 2026. A atividade também reforçou a importância da apuração, da escuta e da diversidade de fontes para a produção de conteúdos jornalísticos mais completos.
Estas ações integram o projeto “Vozes indígenas por justiça climática, sociedades resilientes e uma transformação socioecológica justa e com equidade de gênero”, executado pelo Instituto Socioambiental (ISA), em parceria com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e a Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas do Rio Negro, com apoio financeiro do Instituto para a Democracia, Mídia e Intercâmbio Cultural (IDEM) da Alemanha e da Fundação Gordon and Betty Moore.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Juventude indígena, ribeirinha e quilombola traz 'Dicas da Floresta' para ver, ouvir e se inspirar
Série criada pelo Instituto Socioambiental (ISA) reúne indicações de filmes, livros e músicas de referências da luta por direitos em seus territórios
Em consonância com o que evoca Gonzaguinha, nós também acreditamos na fé da moçada, que não foge da fera e enfrenta o leão. O trabalho das jovens lideranças e comunicadores integrantes de povos ou comunidades tradicionais é na linha de frente, repleto de desafios, mas também de muita esperança no futuro.
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Participantes fizeram indicações de filmes, livros e músicas de referências da luta por direitos em seus territórios|Divulgação
Esse porvir, pavimentado pelos mais velhos, é percorrido pelos mais jovens, sob olhares atentos e muita torcida. E em meio a tantas notícias, há que se ter ginja. Resistir não é apenas luta, pressão, gritos necessários ou mobilização. A cultura é também parte indispensável para renovar as energias e seguir.
Pensando nisso, o Instituto Socioambiental (ISA) lançou em abril a série “Dicas da Floresta”, com indicações dessas lideranças que acompanhamos de perto.
Confira as dicas já publicadas abaixo:
Aldison Lobo, do povo Mirity-tapuya e comunicador da Rede Wayuri, indica o álbum Newen, da artista Brisa Flow (@brisaflow), lançado em 2016 com sete faixas. Seu nome significa "Força" na língua do povo Mapuche e suas músicas passeiam por cantos ancestrais, rap e melodias eletrônicas. Segundo ele, “ouvir esse álbum é sentir potência e conexão com o território”.
Anaya Suya, do povo Suyá, é comunicadora na Associação Terra Indígena do Xingu (ATIX) e faz um convite para para sentir com intensidade e sem medo a partir da indicação da música “Exagerado”, do Cazuza. Para ela, a música a lembra de quem ela é e de onde vem, também pelo o que luta todos os dias.
Joelmir Silva, ribeirinho da Terra do Meio, no Xingu (PA), e comunicador da Rede Xingu+, indica o livro A Queda do Céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert. A obra da liderança, escrita em parceria com o antropólogo Bruce Albert, revela a cosmologia yanomami e a luta de um povo. Publicada em 2015 com apoio do ISA e da Hutukara Associação Yanomami foi eleita pela Folha de S. Paulo o melhor livro brasileiro de não ficção do século 21.
Nayra Sthefany, comunicadora do povo Baniwa e integrante da Rede Wayuri, indica "Apiga", da Banda Marupiara, que canta na língua nheengatu um som que mistura música indígena, forró e toadas amazônicas. Segundo ela, "é especial porque traz um sentimento de nostalgia, eu costumava ouvir quando era criança e fala sobre a vivência no Rio Negro". Assista abaixo:
Renan Khisetje, comunicador da Rede de Comunicadores Xingu + e da AIK Produções, indica Do Colo da Terra, que retrata a infância de quatro povos: Guarani Kaiowá, Guarani Nhandeva, Baniwa e Khisetje. Para ele, é uma obra importante pois ensina as crianças a conhecer a natureza e protegê-la. Dirigido por Renata Meirelles e David Vêluz, do Território do Brincar, o filme está disponível gratuitamente no Itaú Cultural Play.
Raimundo Quilombola, geógrafo e comunicador na Rádio TV Quilombo, do Território do Quilombo Rampa (MA), indica o documentário Tambor na Mata 2025. Como ele explica, “o Tambor na Mata é uma manifestação cultural e ancestral no território Rampa, que mostra a força da união e da resistência da comunidade.” A obra está disponível no canal do Youtube da TV Quilombo. Confira abaixo:
Auritha Tabajara, escritora, arte-educadora, poeta e cordelista indica o livro TYBYRA – Uma Tragédia Indígena Brasileira, do multiartista indígena Juão Nyn, do povo Potyguara. Para ela, é “uma obra que amplia o debate sobre as existências indígenas LGBTQIAPN+, trazendo representatividade, coragem e reflexão.”
Milene Alves, coordenadora de Produção de Sementes no Redário, articulação entre redes e grupos de coletores que atua em todos os biomas do país, sugere o filme Antes da Chuva (2018), produzido pela Rede Sementes do Xingu sobre as mudanças climáticas na região Xingu-Araguaia, no Mato Grosso. Hoje, Milene é (@redarioderedesdesementes). Assista abaixo:
Yamony, dos povos Yawalapiti e Kuikuro, também comunicadora do Movimento das Mulheres do Xingu e da Rede Xingu+, indica os cantos e músicas tradicionais dos povos do Xingu! Nas palavras dela "eles carregam nossa história, nossa espiritualidade e a força dos nossos ancestrais."
O professor e liderança quilombola Luiz Ketu, compartilhou a indicação do livro Roça é Vida, publicado em 2020. Além de apresentar aos leitores os modos de vida e saberes das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, o livro ajuda a preservá-los por meio da sua transmissão.
Maíra Silva, cientista do quilombo de Ivaporunduva (SP), é pesquisadora e doutora em geociências e indica o acervo da EAACONE (Equipe de Articulação e Assessoria às Comunidades Negras do Vale do Ribeira SP/PR) que conta a história da organização e das lutas das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira por seus territórios durante mais de 40 anos.
A artista visual, poeta e liderança Solar Quilombola indica o livro Irmã Outsider, da escritora e ativista norte-americana Audre Lorde, publicado no Brasil em 2019. Audre Lorde (1932 - 1992) construiu uma longa trajetória na defesa dos direitos de mulheres negras lésbicas e sua obra é uma importante contribuição para as teorias feministas contemporâneas. Para Solar, a obra ajuda a entender a importância de reconhecer as trajetórias de mulheres lésbicas no movimento quilombola.
Diretamente de Taiobeiras, no norte de Minas Gerais, a coletora de sementes Edianilha Pereira Ribas (Nina), comunicadora e da agricultura familiar, traz na Dica da Floresta dessa semana a indicação do documentário Cacunda di Librina, filme realizado em 2007, que ajuda a entender o que significa ser geraizeiro e o que é ter uma conexão viva com o Cerrado. Veja o documentário abaixo:
Diretamente do bioma amazônico, a comunicadora e artesã Samela Sateré-Mawé compartilhou duas indicações, para ler e para ouvir: a cartilha Mulheres Indígenas e Justiça Climática, produzida pela Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade, e o podcast Roçado no Ar, produzido pela Rádio Nacional dos Povos. Para ela, são dois materiais que ampliam repertório sobre como povos indígenas e tradicionais enfrentam as mudanças climáticas a partir de conhecimentos ancestrais.
Thayne Fulni-ô, secretaria executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), sugeriu o curta-metragem Vitória Régia, filme de 2026 protagonizado por Alice Braga e Ywyzar Tentehar, que retrata uma distopia onde um candidato derrotado nas urnas consegue dar um golpe de Estado no Brasil e entrega a Amazônia aos interesses internacionais. Nesse cenário, nasce uma resistência formada por povos indígenas e comunidades quilombolas para defender o território e o futuro. O curta faz parte da campanha “A Resposta Somos Nós”, da Apib e Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). Assista abaixo:
Integrante do Quilombo Maria Rosa, no Vale do Ribeira, no estado de São Paulo, Nicéia da Prata Santos, educadora quilombola e integrante da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), indicou o filme Preciosa, Uma História de Esperança (2009). A obra retrata Claireece, uma adolescente negra, que consegue superar uma realidade de abusos e encontrar outras possibilidades de vida com ajuda de sua professora, Srª Rain. Assista ao trailer aqui.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Kayapó e Panará se mobilizam na BR-163 para cobrar cumprimento de medidas de compensação pelos impactos da rodovia
Manifestação em Novo Progresso (PA) reúne três organizações indígenas diante do risco de interrupção das medidas emergenciais. Povos cobram providências da concessionária Via Brasil e conclusão do PBA-CI definitivo
Lideranças dos povos Kayapó e Panará, representadas pelo Instituto Kabu, pela Associação Iakiô e pela Associação Indígena Mantinó, realizam nesta sexta-feira (25) uma manifestação às margens da BR-163, em Novo Progresso, no Pará. O ato pacifico cobra da concessionária Via Brasil BR-163 a renovação imediata das medidas emergenciais destinadas a mitigar os impactos da rodovia sobre os territórios indígenas.
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A manifestação conjunta pretende dar visibilidade às reivindicações dos povos atingidos pela BR-163|Débora Siqueira/Instituto Kabu
“Estamos nos manifestando contra a demora na aprovação do Plano Emergencial, que é uma medida antecipatória do PBA da BR-163. Na época, firmamos um acordo com a Via Brasil para garantir essas medidas emergenciais enquanto os estudos dos impactos da rodovia fossem concluídos e aprovados pela Funai e demais órgãos responsáveis. Até agora, a concessionária não se manifestou sobre a devolução dos estudos e sobre a continuidade desse acordo. Queremos deixar nosso recado: o Ministério Público Federal, em Altamira, já foi informado da nossa mobilização, para que nossas reivindicações sejam encaminhadas à Justiça.” Doto Takak-Ire, presidente do Instituto Kabu.
O terceiro ciclo de medidas emergenciais do Componente Indígena do Plano Básico Ambiental (PBA-CI) termina em 30 de setembro. Sem a formalização do quarto ciclo, as organizações alertam para o risco de interrupção das equipes, da infraestrutura e das ações de proteção territorial desenvolvidas nas Terras Indígenas Panará, Baú e Menkragnoti.
As organizações encaminharam suas propostas à concessionária e à Justiça Federal em agosto de 2026, após um minucioso processo de escuta das comunidades. Segundo as associações, a resposta apresentada pela Via Brasil em 4 de setembro foi insuficiente. A concessionária solicitou mais prazo para análise técnica e questionou os valores apresentados, sem contestar individualmente as medidas propostas.
Atrasos no plano definitivo
O impasse ocorre em meio aos sucessivos atrasos na elaboração e na implementação do PBA-CI definitivo, que deveria substituir as medidas emergenciais. Em manifestação apresentada à Justiça Federal em 31 de agosto de 2026, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) registrou que o cronograma pactuado para a entrega do plano não foi cumprido. Previsto para janeiro, o documento foi protocolado em 29 de maio, após sucessivos pedidos de prorrogação.
A Funai também informou que não havia comprovação de consulta às organizações indígenas sobre as alterações no cronograma. Entre as pendências apontadas estão projetos arquitetônicos e de engenharia e o plano de trabalho para manutenção e recuperação dos ramais de acesso às aldeias.
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Manifestação em Novo Progresso (PA) reúne três organizações indígenas diante do risco de interrupção das medidas emergenciais|Débora Siqueira/Instituto Kabu
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Povos cobram providências da concessionária Via Brasil e conclusão do PBA-CI definitivo|Débora Siqueira/Instituto Kabu
Para as organizações indígenas, a manutenção de sucessivos ciclos emergenciais, com recursos insuficientes para atender às necessidades das comunidades, não pode substituir a implementação do plano definitivo.
Proteção territorial sob ameaça
A demora na implementação das medidas ocorre em um contexto de crescente pressão sobre os territórios indígenas. Segundo dados da Rede Xingu+ citados pelas organizações, o garimpo ilegal e outras atividades ilícitas avançam sobre os limites das terras indígenas. Há indícios de utilização da própria BR-163 e de ramais próximos às aldeias como rotas logísticas destas atividades. Nesse contexto, as medidas de vigilância e proteção territorial previstas no PBA-CI são consideradas essenciais pelas lideranças para enfrentar os riscos associados à pressão crescente sobre seus territórios.
Em despacho de 2 de setembro, o Juíz da Vara Federal Cível e Criminal de Altamira determinou que a Funai, o Ministério Público Federal e a Via Brasil se manifestassem sobre o pagamento imediato de valores mínimos para garantir a continuidade das medidas emergenciais enquanto as propostas integrais são analisadas.
“Já estamos mobilizados para mandar nosso recado à Via Brasil e à Funai, diante da demora na análise e aprovação do PBA da BR-163. Articulamos nossos guerreiros, caciques e lideranças, junto às organizações indígenas, para realizar esta manifestação na rodovia. Estamos fazendo a nossa parte e não queremos esperar mais. Queremos um posicionamento imediato da concessionária.” Be-i Kayapó, presidente da Associação Indígena Mantinó.
As três organizações reivindicam a formalização imediata do quarto ciclo, a análise técnica individualizada de suas propostas, a continuidade dos recursos emergenciais e a conclusão da análise do PBA-CI definitivo pela Funai, com consulta livre, prévia e informada às comunidades sobre eventuais alterações de cronograma.
A manifestação conjunta pretende dar visibilidade às reivindicações dos povos atingidos e cobrar respostas antes do encerramento do ciclo vigente, que se encerra no próximo dia 30 de setembro.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Artista indígena Aymara, Shirley Espejo realiza oficina de colagens para educadores no espaço Floresta no Centro, do ISA
Atividade gratuita, dia 17 de outubro, em São Paulo, convida professores da educação básica a refletir e ressignificar narrativas sobre povos indígenas e comunidades tradicionais
No dia 17 de outubro, sábado, a artista visual Shirley Espejo (@espejismo) realiza no espaço Floresta no Centro, na Galeria Metrópole, em São Paulo, a oficina “Colagem para mãos livres”, um encontro voltado especialmente a professores da educação básica interessados em explorar novas possibilidades de criação e de trabalho com imagens em sala de aula.
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Fotocolagem de Shirley Espejo para a série "Hoje na História Socioambiental"|Shirley Espejo
A atividade acontece das 9h30 às 13h e tem 25 vagas disponíveis, com 70% delas reservadas para educadores da rede pública de ensino. Inscreva-se agora: https://isa.to/4ywcuUl.
A oficina não exige experiência prévia com técnicas artísticas e propõe exercícios de observação, composição e desconstrução de imagens e textos a partir de perguntas como
“Com quantas imagens se faz uma colagem?”
“Com quantas imagens se constrói um sonho visual?”
Shirley também apresenta princípios da colagem manual e convida os participantes a experimentar outras formas de olhar para os materiais gráficos que circulam no cotidiano.
A atividade aborda ainda a maneira como corpos indígenas e racializados são historicamente representados em revistas, jornais, enciclopédias e outros materiais impressos.
A colagem aparece, assim, como possibilidade de deslocar imagens de seus contextos originais, questionar representações cristalizadas e construir novas narrativas. Para Shirley, a técnica pode contribuir para a ressignificação de narrativas impostas sobre corpos racializados e marginalizados ao longo da história pós-colonial, e pode ser incorporada ao exercício da docência.
Arte, memória e educação socioambiental
A oficina está conectada ao projeto “Hoje na História Socioambiental”, iniciativa que busca transformar documentos históricos e acervos em ferramentas didáticas para professores e estudantes.
Ao aproximar documentos, imagens, memória e criação artística, a proposta é estimular outras formas de leitura do passado e do presente e contribuir para uma educação capaz de questionar narrativas hegemônicas sobre povos indígenas, comunidades tradicionais e outros grupos historicamente invisibilizados ou representados de maneira estereotipada.
A oficina também busca demonstrar que a produção artística pode ser acessível e pode ajudar a construir imagens e narrativas utilizando poucos recursos, como fragmentos de textos, fotografias, papéis e até mesmo dispensando ferramentas de corte, como tesouras e estiletes, marca já reconhecida da artista.
Sobre Shirley Espejo
Shirley Espejo (@_espejismo_), é artista visual indígena aymara e filha de imigrantes bolivianos. Sua produção investiga identidade, memória, migração e as representações de povos originários e corpos racializados, especialmente por meio da colagem manual e do deslocamento de imagens. Em 2025, foi indicada ao Prêmio Pipa, uma das principais premiações dedicadas à arte contemporânea brasileira.
É idealizadora do projeto “Colagem para mãos livres”, voltado à investigação e experimentação artística a partir da colagem manual, e do “Agosto do Papel”, iniciativa independente de difusão do papel como meio de expressão artística.
Shirley também integrou o 33º Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo, onde apresentou sua primeira exposição individual, “Rasgo”. Participou ainda do Projeto Emergir – Leituras Expandidas com livros Pop-up, contemplado pelo ProAC, para a produção de um livro infantojuvenil sobre identidade e imigração, e foi selecionada para a I Exposição e Ciclo de Acompanhamento Artístico da Rede ArteRefúgio, iniciativa ligada à Unicamp e ao ACNUR dedicada às expressões artísticas produzidas em contextos de migração e deslocamento humano.
Serviço
Oficina “Colagem para mãos livres”, com Shirley Espejo (Espejismo) Data: 17 de outubro de 2026 Horário: 9h30 às 13h Local: Floresta no Centro, espaço do ISA – Praça Dom José Gaspar, 134, São Paulo (SP). 2º Mezanino da Galeria Metrópole Público: professores da educação básica e outros Vagas: limitadas, sendo 70% delas reservadas a profissionais da rede pública de ensino. Inscreva-se aqui: https://isa.to/4ywcuUl.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Chuvas em Roraima podem ficar abaixo da média e incêndios florestais devem se intensificar em 2027, apontam estudos
Efeitos do El Niño estão previstos por estudo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e monitoramento consolidado do Instituto Socioambiental (ISA)
Dados consolidados de monitoramento do Instituto Socioambiental (ISA), com base na plataforma European Centre for Medium-Tange Weather Forecasts, mostram que Roraima deve sofrer, no último trimestre de 2026, com chuvas abaixo da média histórica do estado. A situação pode se estender até janeiro de 2027, conforme as previsões atuais.
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Incêndio ocorrido em 2016 na Terra Indígena Yanomami|Estêvão Benfica Senra/ISA
Para Arthur Citó, pesquisador do Inpa, os efeitos mais intensos do El Niño serão observados entre janeiro e março de 2027, com impactos para a saúde da população do estado.
“Se o fogo não estiver sob controle nesse período, podemos nos deparar com um cenário de intensa poluição atmosférica causada pela fumaça dos incêndios. Isso pode ser grave tanto para a população mais vulnerável, como crianças, idosos e pessoas com comorbidades, como para a população geral, dependendo dos níveis de poluição”, afirma Citó.
Conforme a análise do Inpa, em anos normais o fogo de incêndios se distribui pelo lavrado no nordeste de Roraima e avança em direção ao sul pelas BRs 432, 174 e 210. Enquanto em anos com influência do El Niño, os incêndios se concentram na fronteira leste da Terra Indígena Yanomami, entre a Perimetral Norte, Vila Apiaú, Vila Nova e Rio Mucajaí.
“A floresta, que costuma conter as queimadas graças à sua umidade, tem essa característica enfraquecida em fortes estiagens. Isso ajuda a deixar a fronteira leste da Terra Indígena Yanomami mais vulnerável, passando a concentrar boa parte dos incêndios em Roraima”, explica trecho do documento.
O impacto não é somente sobre o meio ambiente, envolve perdas na produção agropecuária e consequências na qualidade do ar sobre comunidades tradicionais, já que a densa fumaça é deslocada pelo vento para dentro do território Yanomami.
“Pela localização do território Yanomami, em relação à direção predominante do vento e de eventos de queimadas, é o território Yanomami que sofre os impactos do que acontece, majoritariamente, fora dele. Em geral, o contrário não tem sido observado pelos dados analisados”, detalha Arthur Citó.
Roraima pode ter até 500 mortes em razão do calor provocado pelo El Niño, é o que aponta uma estimativa do Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago. A projeção, divulgada na quarta-feira (23), também estima 13,3 mil mortes no Brasil e 451 mil em todo o mundo. O período considerado para as estimativas é de setembro de 2026 até fevereiro de 2027.
A região de Surucucu, uma das mais afetadas pelo garimpo ilegal, começou a se recuperar após a ação emergencial do governo federal. As lideranças começaram a abrir roças que já forneciam alimentos, mas os incêndios têm preocupado os indígenas quanto a viabilidade de manutenção das atividades.
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Indígena com alimentos plantados nas roças de Surucucus|Erik Veisch/Cama Leão/ISA
“Estamos preocupados com a seca na Terra Indígena Yanomami. As lideranças relatam que já está fazendo muito calor na terra e que não conseguem plantar porque com a terra quente como está, a roça vai queimar”, explica Waihiri Hekurari, presidente da Urihi Associação Yanomami.
Hekurari aponta ainda que há uma preocupação geral com os rios que devem começar a secar porque os pajés já preveem um verão forte pela frente.
“Precisamos manter o diálogo com o governo sobre como lidar com essa situação. Neste ano, plantamos muito e agora estamos recuando porque estamos preocupados ", detalha.
O governo de Roraima decretou situação emergencial no início de setembro em razão da forte estiagem. Um gabinete de crise foi montado para ações coordenadas de combate e prevenção ao El Niño.
Anomalia nas chuvas
“Roraima está todo abaixo da média (de chuvas) em outubro e tende a piorar em novembro e dezembro. Em janeiro vai chover abaixo da média, talvez no norte do estado vai se manter a média de chuvas normais”, explica Ricardo Abad, analista do ISA.
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Rio Branco, em Roraima, durante estiagem de 2024|Lucas Silva/Platô/ISA
Em fevereiro, as previsões consolidadas pelo ISA indicam uma anomalia positiva com chuvas acima da média histórica que deve seguir até março. A partir de abril, deve haver chuvas acima da média em todo o estado.
“Para maio há uma anomalia polarizada. Enquanto no norte do estado há uma previsão de chuvas acima da média, o sul apresenta um cenário de chuvas abaixo da média. Mas é preciso lembrar que maio do ano que vem é muito distante e as previsões podem mudar. Por isso, seguimos acompanhando todas as semanas”, afirma Abad.
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Indígenas do Rio Negro (AM) levam seus calendários às Jornadas de Astronomia Cultural
Em evento no Rio de Janeiro, Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) dos povos Tukano, Desana e Baniwa mostram como a observação das constelações orienta o manejo ambiental
A observação dos ciclos da natureza tendo por referência as constelações guia a escrita de diários dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs), no Alto Rio Negro (AM), que fazem pesquisas a partir do cotidiano em meio à floresta Amazônica.
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O painel foi apresentado por Ismael dos Santos, Desana; Lucas Bastos, Tukano; Walter Lopes, Baniwa; pelo conhecedor Roberto Tomé, povo Baniwa; e pelo antropólogo Aloisio Cabalzar|Thayná Ferraz/Funai
Esses saberes e práticas foram compartilhados por indígenas dos povos Tukano, Desana e Baniwa durante a XIII Escola Interamericana de Astronomia Cultural “Blas Servín” e a XII Jornada Interamericana de Astronomia na Cultura (SIAC 2026), entre os dias 14 e 20 de setembro, no Rio de Janeiro.
“Nesse calendário a gente observa a constelação, a gente desenha essas estrelas. Mas dentro dessa constelação a gente observa sobre os animais, as plantas, nível do rio, migração dos peixes, migração das aves. Conforme cada constelação, a gente faz esse desenho representando o que acontece nesse período", explica Walter Lopes da Silva, do povo Baniwa, que participou do encontro. Ele vive na comunidade Canadá, região do Rio Ayari, município de São Gabriel da Cachoeira (AM), Alto Rio Negro.
Nessa região, uma das mais preservadas da Amazônia, os indígenas Baniwa e Koripako olham para o céu e enxergam 19 constelações. Mas para organizar seu calendário astronômico, eles privilegiam 12 constelações maiores e, a partir daí, anotam os ciclos ambientais. O calendário está sendo aperfeiçoado com as trocas de informação com os mais velhos, os conhecedores.
Realizadas no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ) e no Museu Nacional, as atividades reuniram pesquisadores, educadores e lideranças para debater as relações entre a sociedade, a cultura e os eventos celestes sob o tema "Sob os céus do Sul Global".
O painel “Ciclos anuais no noroeste amazônico – relações entre ciclos socioambientais e calendário astronômico entre povos Tukano Orientais e Baniwa-Koripako” foi apresentado por Ismael dos Santos, Desana; Lucas Bastos, Tukano; Walter Lopes, Baniwa; pelo conhecedor Roberto Tomé, Baniwa; e Aloisio Cabalzar, antropólogo e pesquisador do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA).
Aloisio Cabalzar explica que o trabalho de observação realizado pelos AIMAs a partir das constelações busca estabelecer o monitoramento ambiental e climático; fortalecer os direitos territoriais; promover os conhecimentos e sua circulação entre as gerações, além de incentivar as pesquisas interculturais, que unem conhecimentos indígenas e não indígenas.
“O monitoramento acompanha a marcação do tempo, o manejo ambiental e as relações entre as espécies. A metodologia é a escrita de diários. Basicamente, o trabalho é observar os ciclos, o que é natural entre o grupo, formado por agricultores, pescadores, coletores de frutos, moradores das comunidades engajados em atividades produtivas. A cada dia eles tomam notas sobre o que observaram e escutaram dos parentes em relação a esses eventos cíclicos. Temos ainda as reuniões e oficinas a cada semestre para organizar dados, fazer textos e realizar as representações do ciclo”, explica.
Durante o encontro de astronomia cultural, diversas formas de olhar para o céu foram apresentadas, como as dos povos Tikuna/Magüta, das populações ribeirinhas na Amazônia, de povos na Argentina e no Uruguai.
Conhecimento tradicional na política pública
Especialista em Indigenismo da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a antropóloga Melissa Santana de Oliveira defendeu que os calendários astronômicos ecológicos devem ser reconhecidos oficialmente por políticas públicas como ferramenta de gestão territorial, devendo integrar os Planos de Gestão Territorial e Ambiental indígenas (PGTAs), que são instrumentos oficiais que traduzem os diagnósticos comunitários em diretrizes de pactuação com o Estado e parceiros.
“Como explicitaram aqui os conhecedores Tukano, Desano e Baniwa, a astronomia é essencial para a gestão ambiental e territorial, porque o movimento das constelações vai reger a ocorrência de invernos e as enchentes dos rios, os períodos de estiagem e de vazantes. Então é uma leitura do céu que orienta o manejo agrícola, o plantio de maniva, as florações, coletas de frutas, frutas, pesca, caça ”, considera. “Os calendários têm o potencial para articular políticas indígenas e indigenistas ambientais, de educação e patrimônio”, completa.
O AIMA Lucas Bastos, do povo Tukano, ensinou que, para seu povo, as estrelas são pessoas. Ao conversar com essas “pessoas”, os conhecedores indígenas conseguem antecipar os fenômenos, apoiando na organização das atividades.
“Os conhecedores - os grandes pajés - conversam com as constelações e repassam para a comunidade os fenômenos que estão por vir. Mas muitos dos saberes se perderam e agora temos poucos conhecedores, o que dificulta recebermos as orientações sobre os ciclos”, explica.
Ele falou da importância do compartilhamento de informações durante o encontro no Rio de Janeiro. “Apresentamos aqui nesse encontro a pesquisa que nós estamos fazendo desde 2005. É importante mostrar para os pesquisadores das universidades a nossa pesquisa local. São visões diferentes e, assim, podemos compartilhar experiências de diferentes lugares e países”, diz. “Mesmo sendo um céu observado, mudam a língua, a escrita, os símbolos”, completa.
Indígena do povo Desana, Ismael dos Santos traz em seus diários desenhos que são verdadeiras obras de arte que representam os ciclos. Ao ser perguntado sobre as alterações climáticas que - invariavelmente - vêm aparecendo nos diários, ele responde: “O que muda não são as constelações, o que muda é o tempo. Antigamente a chuva e o sol vinham no tempo certo. Agora está diferente”.
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Ciclo anual do calendário indígena do rio Tiquié. Desenho feito por Josival Rezende (Tuyuka), Félix Barbosa (Makuna) e Ismael dos Santos (Desana)|AIMAs
Para Lucas Bastos e Ismael dos Santos, a viagem ao Rio de Janeiro guarda um elemento especial. O principal mito de origem dos povos Tukano e Desana indica que a Cobra Canoa ou a Canoa da Transformação, um símbolo sagrado da criação da humanidade, saiu do Lago de Leite - que corresponde à Baía de Guanabara - e seguiu pelo litoral até a região Norte, abrindo caminho até onde hoje é o município de São Gabriel da Cachoeira.
Astronomia cultural
A astronomia cultural é um campo interdisciplinar que estuda como diferentes culturas, antigas e atuais, percebem e integram os fenômenos celestes em sua visão de mundo. Especialista em astronomia cultural e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Walmir Thomazi Cardoso explica que a esse é um campo de investigação que se desenvolveu sobretudo a partir da década de 1990, sendo composta de outras disciplinas como a arqueoastronomia - uma junção de astronomia com arqueologia - e etnoastronomia.
“Quando a gente olha a diáspora africana ou populações indígenas em todos os continentes, e particularmente na América do Sul, a gente vai ver que esses grupos utilizam o céu de maneira calendárica, lendo formas de se relacionar com a natureza e entendendo que esse todo está conectado”, explica.
O pesquisador considera que muitos desses conhecimentos foram invisibilizados nos processos colonizadores.
"O colonizador precisa impor a sua cultura, seja ela material ou imaterial. E quando você olha para as culturas ao redor do planeta e como elas se relacionam com o céu, quais os significados que elas atribuem ao céu, seja na medida do tempo, seja na transcendência, seja em qualquer outro aspecto, isso cria uma ligação tão forte entre as pessoas que são enfeixadas pela cultura, de modo que fica muito difícil você desmontar uma estrutura tão forte quanto essa. É por isso mesmo que muitas dessas culturas, muitos desses grupos tiveram seus símbolos, seus objetos, seus rituais, suas línguas retiradas. No entanto, esses grupos são muito mais fortes", explica.
Durante o encontro no Rio de Janeiro, vários dos grupos que resistem puderam trocar suas experiências.
Saiba mais sobre os Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs)
A Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) completou 20 anos em 2025, sendo um projeto do Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN).
Atualmente a Rede de AIMAs conta com aproximadamente 40 integrantes que vivem em comunidades indígenas na região do Médio e Alto Rio Negro, onde vivem povos de 23 etnias, entre elas Tukano, Tuyuka, Yeba Masã, Piratapuya, Desana, Hupda, Dãw e Baniwa.
Com anotações em diários e tablets, os agentes registram enchentes, florações, migração e piracema de peixes, secas e rituais tendo como referência central as constelações indígenas (como Aña - Jararaca, Pamo - Tatu, Ñohkoatero - Plêiades, entre outras). Embora a iniciativa tenha surgido do manejo pesqueiro tradicional, os registros dos AIMAs têm evidenciado os impactos da emergência climática e de fenômenos extremos na Amazônia.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
ISA e Secretaria Municipal de Educação (SP) realizam formações para aldear o currículo escolar da capital paulista
Atividades de formação e debate realizados durante o Agosto Indígena propuseram caminhos para superar o apagamento histórico e fortalecer o ensino de histórias e culturas indígenas na educação básica
Como parte da programação do Agosto Indígena, nos dias 11, 18 e 22 de agosto, o Instituto Socioambiental (ISA) se aliou à Secretaria Municipal de Educação (SP) para levar uma série de atividades a professores da rede municipal de ensino com objetivo de integrar saberes e histórias indígenas ao cotidiano das salas de aula da capital paulista.
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Luma Prado, do ISA, Eva Santos, do Núcleo de Educação para as Relações Étnico-Raciais da Prefeitura de São Paulo, e professores da rede municipal que apresentaram seus relatos de prática sobre o trabalho que realizaram sobre histórias e culturas indígenas|Eva Santos/SME-SP
A iniciativa buscou fortalecer a implementação da Lei Federal nº 11.645/2008, que torna obrigatório o ensino de histórias e culturas afro-brasileiras e indígenas na educação básica, ao combater o apagamento histórico e promover o letramento étnico-racial.
A programação, mediada pela Iniciativa de Educação do ISA, foi dividida em duas ações principais: o curso Aldear a Educação, ministrado por Maria Martinha Mendonça, do povo Guajajara, uma das coordenadoras executivas do Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (Fneei) e diretora na Escola Municipal Indígena Guarani Para Poty Nhe'ë Ja, em Maricá (RJ); e a palestra Povos Indígenas no Brasil: debates contemporâneos, com a professora Dona Elisa Pankararu, liderança e antropóloga indígena, com o professor Izaque João, pesquisador, do povo Guarani Kaiowá, e mediação de Luma Prado, responsável pela Iniciativa de Educação no ISA, que compôs a formação Histórias e Culturas Indígenas em perspectivas: possibilidades pedagógicas, realizada por meio da parceria entre o Núcleo de Educação para as Relações Étnico-Raciais (NEER) e o ISA.
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Um cordel para aldear a educação, obra de Auritha Tabajara, ilustrada por Lucélia Borges, à pedido do ISA, foi distribuída durante a programação|Martinha Guajajara/ISA
O curso, Aldear a Educação, realizado em três encontros, dois síncronos online e uma oficina presencial, teve como objetivo a promoção do diálogo entre as experiências pedagógicas dos educadores e os conhecimentos de escolas indígenas para a construção de propostas de ensino que fortaleçam a aplicação da Lei.
Na formação, realizada nos dias 11, 15 e 18 de agosto, Martinha Guajajara, destacou cinco mudanças essenciais para o ensino de histórias e culturas indígenas. A primeira delas diz respeito ao conhecimento genérico sobre povos indígenas, que deve ser superado por meio da compreensão sobre a sociodiversidade de povos, línguas e territórios. O segundo deslocamento referencial, por sua vez, é em relação ao reconhecimento das vidas, lutas e produções indígenas na atualidade, e não apenas restritas ao passado.
Na sequência, ela falou sobre a importância da autoria indígena e integração da temática ao planejamento anual, e não somente fixado às datas comemorativas. Por fim, ela apontou como essencial o movimento de investigar, pesquisar, analisar e produzir sobre a temática, ressaltando o atributo de pesquisador que os educadores devem, segundo ela, aprimorar.
A partir desses deslocamentos, Martinha propôs na oficina presencial a análise de imagens sobre povos indígenas e o desenvolvimento de uma proposta pedagógica pelos professores em grupo. Os resultados serviram de base para a elaboração de propostas pedagógicas feitas por cada participante como trabalho final da formação.
A palestra Povos Indígenas no Brasil: debates contemporâneos, por sua vez, fez parte da formação Histórias e Culturas Indígenas em perspectivas: possibilidades pedagógicas, sediada na Biblioteca Mário de Andrade, na região central de São Paulo.
Com cerca de 190 professores presentes, a palestra foi precedida pela mesa Histórias e culturas Indígenas: o fazer pedagógico nas Unidades Educacionais, que contou com apresentação de relatos de prática sobre histórias e culturas indígenas pelos professores da rede municipal Barbara Borba, da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Armando Cridey Righetti; Edi Medeiros, da EMEF Prestes Maia; Jefferson Gabriel, da Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEI) Dona Maria de Lourdes Coutinho Torres. A mediação ficou a cargo de Fernanda Borsatto, do Tribunal de Contas do Município de São Paulo (TCM-SP).
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Evento reuniu professores da rede municipal de São Paulo para fortalecer o ensino de histórias e culturas indígenas na educação básica|Tatiane Klein/ISA
Na sequência, Dona Elisa Pankararu e Izaque João, lideranças indígenas do Nordeste e do Centro-Oeste do país, debateram temas como disputas fundiárias, demarcação de Terras Indígenas, luta das mulheres indígenas, resistências e articulação política.
Dona Elisa Pankararu, trouxe em sua fala a violência sofrida pelos povos indígenas no Brasil e como a presença e ausência vêm com o propósito de perpetuar um genocídio. Ela destacou ainda que as escolas já foram espaços usados para perpetuar esse ciclo de violências.
Para ela, diante desse contexto, o papel da educação atualmente é de promover um fazer pedagógico que retrate as culturas dos povos e traga reflexões. Ela reforça que isso é especialmente importante em São Paulo, que de 1940 em diante teve uma intensa migração de indígenas para construir a cidade. Dona Elisa Pankararu defende que é preciso falar de racismo contra povos indígenas e fomentar para que tenha cada vez mais autorias indígenas.
Na sequência, Izaque João falou sobre o contexto dos povos Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Ele explicou sobre o processo de esbulho territorial sofrido por seu povo, que foi expulso de suas áreas e confinado em aldeamentos. Com a perda do território, perdem-se também os cantos, ele lamenta. Neste contexto de conflito entre os grandes proprietários de terra e os Guarani, ele também reforça que os saberes indígenas não estão restritos às salas de aula; mas também do lado de fora: na floresta, na beira de rios, em momento de ritual.
Ele conta ainda que o povo Guarani e Kaiowá tem se fortalecido em processos de retomada. Assim como Dona Elisa, Izaque reforça que a escola, antes uma arma contra os Guarani e Kaiowá, agora passa a ser um espaço de resistência a partir da educação escolar indígena. A exemplo disso, ele cita o encontro de Professores Guarani e Kaiowá, promovido pela Aty Guasu, a Grande Assembleia do Povo Guarani e Kaiowá desde o final dos anos 1990, que foi responsável por muitos marcos e avanços na educação, como é o caso da criação da Licenciatura Intercultural Indígena "Teko Arandu", que desde 2006 forma professores indígenas.
A programação, uma iniciativa da SME-SP com o ISA, integra uma série de atividades da Iniciativa de Educação do Instituto Socioambiental como o Edital Aldear a Educação Básica, que premiou onze propostas pedagógicas de educadores. Saiba mais.
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Povo Kayapó reúne conhecimentos tradicionais e novas tecnologias para proteção de Terra Indígena no Sul do Pará
Curso de Vigilância Indígena na Aldeia Gorotire, Terra Indígena Kayapó, reuniu diferentes gerações para debater direitos, pensar a proteção territorial e reforçar a luta contra o garimpo e outras atividades ilegais
Luís Filipe Lima
- Analista de Proteção e Direitos Territoriais do Programa Xingu
Jonas Roberto
- Analista de Proteção e Direitos Territoriais do Programa Xingu
Entre os dias 04 e 07 de agosto, as associações indígenas da Terra Indígena (TI) Kayapó, o Instituto Socioambiental (ISA), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) e o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e realizaram uma formação de Vigilância Indígena na aldeia Gorotire, na Terra Indígena Kayapó.
A formação é fruto da parceria entre as organizações e contou com a participação de 35 indígenas para o planejamento de ações de proteção no contexto pós-desintrusão do território. As associações presentes foram Angrokrere, Tuto Pombo, Kranhmenhti, Piokrere, Floresta Protegida, Kenorukuare e Wejo.
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Participantes do primeiro ciclo de formação em proteção territorial exibem seus certificados|Eduardo Aguiar Sorice
A formação envolveu indígenas de diferentes faixas etárias e gênero que refletiram juntos sobre a dimensão do desafio de proteger uma área de mais de 3,2 milhões de hectares na floresta amazônica.
Nos últimos anos, a TI Kayapó vem lidando com a fragmentação da paisagem no entorno e a constante invasão para a retirada de madeira e, sobretudo, para o garimpo ilegal. A necessidade de fortalecer a proteção tornou-se ainda mais evidente após o cumprimento da ADPF 709, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a desintrusão de áreas invadidas em oito TIs no Brasil.
Embora a desintrusão da TI Kayapó tenha sido finalizada oficialmente em julho de 2025, a proteção preventiva e segura pelas próprias comunidades é essencial para impedir o avanço dos invasores.
Manifesto histórico contra o garimpo
O engajamento dos participantes no curso está atrelado a uma decisão política já consolidada entre o povo Mẽbêngôkre, quando caciques e lideranças da TI Kayapó reuniram-se numa assembleia na Casa do Guerreiro, na Aldeia Gorotire, e relataram suas preocupações com os impactos do garimpo sobre os rios, a fauna, a saúde das comunidades e o enfraquecimento da governança indígena.
Diante disso, ficou decidido por unanimidade que qualquer atividade ilícita no interior da Terra Indígena, especialmente o garimpo, mas também a extração ilegal de madeira ou outras práticas que possam degradar os recursos naturais e culturais do território, devem ser recusadas e coibidas por todos.
Os indígenas destacaram que impedir os ilícitos na TI é condição central para dar continuidade às parcerias vitais para a comunidade, como o Projeto de Crédito de Carbono e o Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da TI Kayapó.
O documento também reafirmou que, embora o compromisso de coibir o garimpo seja das lideranças, as ações de combate direto aos ilícitos são função do Estado brasileiro e de instituições como Funai, Ibama e a Polícia Federal.
Diálogo de saberes e o mapeamento das ameaças
Com esse espírito de urgência, esperança e mobilização, o curso de Vigilância Indígena foi marcado por grandes trocas e contou com a tradução simultânea conduzida por dois professores indígenas seguindo uma metodologia integradora e participativa.
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A atividade participativa mapeou as situações de vulnerabilidade na Terra Indígena|Eduardo Aguiar Sorice
O primeiro dia foi dedicado à apresentação dos participantes e o compartilhamento dos conceitos fundamentais para a atividade. No segundo, os participantes foram estimulados a mostrar o processo de ocupação histórica da TI Kayapó e os indígenas ilustraram o território antes da exploração ilegal de ouro e madeira, o que mudou após as invasões e quais são os desafios atuais para garantir o usufruto exclusivo da terra. O grupo também debateu instrumentos vitais de proteção, como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e os protocolos de consulta.
No terceiro dia de formação, ocorreu o mapeamento coletivo de situações de vulnerabilidade utilizando mapas impressos e os indígenas apontaram as principais ameaças, destacando o tipo de ilícito, as regiões mais vulneráveis, a época do ano em que ocorrem e as possíveis estratégias para enfrentá-las. Para inspirar essas estratégias, o grupo conheceu relatos de vigilância indígena bem-sucedidas na bacia do Xingu apresentados por integrantes da Rede Xingu+, além das bases de vigilância da própria TI Kayapó, coordenada pela Associação Floresta Protegida (AFP), e também do Plano de Proteção Territorial da TI Arara.
O fechamento da atividade foi coordenado pelos próprios indígenas, sob mediação do assessor da AFP, Igor Ferreira, com uma recapitulação dos conceitos abordados ao longo das atividades, a apresentação das suas percepções sobre a formação e a reflexão sobre os próximos passos para proteção territorial.
De acordo com o coordenador da CR Kayapó Sul do Pará, Camilo Soares, esta oficina se insere no conjunto de ações de pós-desintrusão e busca garantir a posse plena da TI pelos indígenas com o apoio das organizações indígenas, instituições governamentais e não governamentais.
“A oficina de vigilância indígena foi um momento de pensar conjuntamente em estratégias para proteger o território e fortalecer a gestão compartilhada por meio da participação de representantes de todas as regiões da TI”, disse Soares.
O representante da Associação Floresta Protegida e conselheiro da Rede Xingu+, Kajte Kayapó, também avaliou como positiva a realização da atividade.
“Esta formação é muito importante, pois os indígenas estão aprendendo cada vez mais sobre as expedições, o monitoramento do território e das bases de vigilância”, destacou o conselheiro da Rede Xingu +.
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Campanha 'Sociobio nas Urnas' leva propostas às candidaturas
Manifesto de cerca de 40 organizações que compõem o ÓSocioBio reúne 46 propostas para candidatas e candidatos nas Eleições 2026 e aponta papel central das economias promovidas pelos povos tradicionais e pequenos agricultores
Cerca de 40 organizações da sociobioeconomia estão mobilizadas na campanha "Sociobio nas Urnas", reunindo demandas dos povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares. Com o lema "Deixa a sociobio crescer!”, a campanha é coordenada pelo Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio) e apresenta às candidaturas da Eleição 2026 uma carta com 46 propostas de políticas públicas organizadas em oito eixos temáticos.
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Políticas públicas devem estar adequadas aos territórios tradicionais de forma a fortalecer a sociobioeconomia|Fellipe Abreu/ISA
“A sociobioeconomia gera renda, trabalho e conserva os territórios, mas ainda enfrenta barreiras que limitam seu potencial. O que estamos propondo é que ela deixe de ser tratada como exceção e passe a ocupar o lugar que merece nas políticas de desenvolvimento do Brasil. Queremos que os candidatos reconheçam essa economia como estratégica e assumam compromissos concretos para fazê-la crescer”, diz a secretária-executiva do ÓSocioBio, Laura Souza.
Secretário-geral do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), Dione Torquato reforça que a garantia do território é essencial para a sociobioeconomia. "Nessas eleições, o que está em jogo é garantir que os povos e comunidades tradicionais e os agricultores e agricultoras familiares continuem vivendo e produzindo em seus territórios. Não tem sociobioeconomia sem território garantido", diz.
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Alimentos produzidos pelas comunidades ribeirinhas da Rede de Cantinas da Terra do Meio|Carol Quintanilha/ISA
O documento conta com o apoio dos chefs de cozinha Rodrigo Oliveira (Mocotó), Bel Coelho, Neide Rigo, Adriana Salay, que assinam a carta, reconhecendo a floresta como fonte não apenas da culinária e identidade brasileira, mas de seu projeto de futuro.
Com a carta mobilizada pelo ÓSocioBio, observatório do qual o Instituto Socioambiental (ISA) faz parte, as candidatas e candidatos têm a oportunidade de assumirem um compromisso público de criar ou adequar políticas públicas para que a economia da sociobiodiversidade tenha acesso às mesmas condições de crédito, infraestrutura, políticas de fomento, regras sanitárias que os modelos produtivos convencionais já têm garantidos há décadas.
Um exemplo da disparidade vem do crédito rural. Entre 2013 e 2025, 91,6% do crédito rural foi destinado a médios e grandes produtores, e só 8,4% para a agricultura familiar. No Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), que é destinado justamente para os pequenos, R$151,7 bilhões foram para produção de commodities versus R$3,26 bilhões para sociobio entre 2020 e 2024 — uma diferença de 46,5 vezes.
“Há uma assimetria histórica nas políticas públicas, nos incentivos e nos recursos destinados aos diferentes modelos de uso da terra, e precisamos corrigi-la”, afirma Fabíola Zerbini, Diretora Executiva da Conexsus.
As Economias da Sociobiodiversidade são promovidas por povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares, estando baseadas na diversidade, no conhecimento tradicional e na inovação, nos sistemas socioprodutivos locais e nos produtos e serviços gerados a partir de recursos da biodiversidade — conectados aos modos de vida, às práticas e saberes desses povos, e à melhoria da qualidade de vida e bem viver das comunidades em seus territórios e maretórios.
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Indígena do povo Asurini colhe alimentos em sua roça, na aldeia Ita´Aka, Terra do Meio (PA)|Fellipe Abreu/ISA
Hoje, os territórios de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais cobrem cerca de ¼ do Brasil e mais da metade da Amazônia; é sobre essa base, e sobre os biomas que ela mantém, que o setor se sustenta. Segundo estimativas do ÓSócioBio, essa economia movimenta hoje R$17,4 bilhões e 525 mil postos de trabalho.
Mas os benefícios da sociobioeconomia não ficam restritos a quem vive dela. Ela contribui para enfrentar o desmatamento, a mudança do clima e a desigualdade social, gerando emprego e renda, conservando e restaurando territórios e distribuindo riqueza.
Como destaca o documento, a sociobio funciona, essencialmente, como a infraestrutura natural da economia brasileira: sustenta o regime de chuvas, a regulação climática, a fertilidade do solo e a polinização dos quais dependem setores inteiros, do agronegócio à energia hidrelétrica. Mais de 95% da área agrícola e 99% das pastagens do Brasil dependem da chuva regulada pela floresta, conforme dados da WRI.
As organizações vão levar o documento às candidaturas ao longo da campanha eleitoral, coletando compromissos públicos que servirão de base para cobrança de mandato após a eleição. O lançamento aconteceu, em agosto, de forma online pelo site sociobionasurnas.com.br, onde é possível ler a carta na íntegra, além das redes sociais das organizações que compõem o ÓSócioBio.
Candidatos podem assinar o compromisso público com a carta pelo link e pessoas físicas podem apoiar assinando o abaixo-assinado aqui.
Sobre a campanha
Sociobio nas Urnas 2026 é uma campanha suprapartidária do ÓSócioBio, rede composta por mais 40 organizações das economias da sociobiodiversidade. Com o lema "Deixa a sociobio crescer!”, a campanha pede compromisso das candidatas e candidatos deste ciclo eleitoral com destravar e adequar as políticas públicas para que os agentes da sociobioeconomia possam aprimorar cada vez mais seu modelo de desenvolvimento que distribui renda entre muitos enquanto conserva as riquezas naturais do nosso país.
O Instituto Socioambiental (ISA) lançou nesta quinta-feira (10/09) uma série especial de boletins de áudio sobre o El Niño, fenômeno climático que já impacta várias regiões do país em 2026. A série integra o podcast “Vozes do Clima” e será composta de seis episódios de até 10 minutos cada.
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Embarcação encalhada durante seca na orla principal de São Gabriel da Cachoeira, na bacia do Rio Negro, Amazonas|Juliana Radler/ISA
O objetivo é apresentar como os efeitos do El Niño vêm se intensificando com o aquecimento global e as mudanças climáticas e apresentar sugestões sobre como lidar com escassez de chuva, estiagem prolongada, ondas de calor, chuvas fortes, alagamentos e insegurança alimentar.
O episódio de lançamento explica o fenômeno e sua intensidade em 2026 e 2027, que deu a ele o nome de “Super El Niño”. Também traz estratégias preventivas, inspiradas em aprendizados gerados nos territórios onde o ISA trabalha.
Ouça agora!
A apresentação do primeiro episódio é de Raimundo Quilombola, comunicador da Rádio Rampa, do Quilombo Rampa, no Maranhão. As vozes são de Nicéia Santos, do Quilombo Maria Rosa, em São Paulo, e integrante da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq); e de Tépãncipa - também conhecido como Clarindo Chagas - benzedor e conhecedor do povo indígena Tariana, em Barcelos, Amazonas.
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O comunicador Raimundo Quilombola, do Maranhão, é o apresentador do primeiro episódio da série especial|Yane Mendes
O Super El Niño
O El Niño é um processo natural, que ocorre de tempos em tempos, quando as águas da parte superficial do Oceano Pacífico ficam mais quentes que o normal. Isso altera as movimentações do vento, a formação de nuvens e a distribuição das chuvas em várias partes do planeta. Em alguns lugares, chove muito pouco; em outros, chove demais.
Como o planeta está mais quente em consequência do aquecimento global, as águas do pacífico podem esquentar ainda mais, tornando o El Niño mais forte e mais frequente, causando mais impactos e piorando a crise climática. Agora em 2026 e 2027 a previsão é de um El Niño mais forte que o anterior. Por isso, ele está sendo chamado de Super El Niño.
A maioria das previsões indicam que os efeitos mais graves devem começar a partir de outubro, terão o pico em dezembro e podem se prolongar pelo primeiro semestre de 2027. Esses eventos extremos afetam a vida de toda a população, mas para indígenas, quilombolas, povos e comunidades tradicionais e populações periféricas, pode ser ainda pior.
“Meu pai plantou uma uma roça grande de arroz e deu uma chuvarada assim que não produziu”, conta Nicéia Santos, liderança quilombola do Vale do Ribeira.
A perda da roça foi por causa do El Niño de 2023 e 2024. A região do Vale do Ribeira, em São Paulo, e áreas dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul sofreram com fortes chuvas e enchentes.
“Eu converso com o espírito da floresta. Eu converso com o reino das águas. Mas não adianta mais a gente conversar, porque a gente não vai conseguir manter, porque essa mudança é muito drástica, é muito forte e grande. A mãe Terra já foi muito destruída, por causa do ouro, do desmatamento”, completa Clarindo Chagas, com sua sabedoria de benzedor.
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Nicéia Santos (ao microfone) conta que seu pai perdeu a roça em consequência do El Niño de 2023 e 2024|Juliana Radler/ISA
Na Amazônia, os rios já estão sendo impactados. No alto e médio Rio Negro, região onde vivem Clarindo e seus parentes indígenas, as águas continuam baixando de forma acelerada. A vazão do Rio Xingu, que já sofre por causa da operação da Usina Belo Monte, está diminuindo ainda mais.
Papel do Estado
Para as lideranças ouvidas no “Vozes do Clima”, além das ações desenvolvidas pelos povos da floresta, o poder público também precisa investir em políticas de prevenção, mitigação e adaptação para enfrentar os impactos do Super El Niño. A sociedade precisa unir esforços e cobrar ação dos governos, que muitas vezes não chegam aos territórios mais afetados.
“A gente queria que o Estado, as prefeituras, o governo como um todo, sentassem com a gente enquanto comunidade tradicional e perguntassem: ‘Como vocês estão vivendo, sobrevivendo até hoje?’. Acho que aí a gente conseguiria buscar caminhos para tentar mudar essas essas mudanças”, pontua Nicéia.
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Clarindo Chagas, benzedor e liderança do povo Tariana, fala sobre os efeitos do El Niño|Ana Amélia Hamdan/ISA
“A gente tenta conversar com autoridade, com instituições governamentais, eles não tem resposta, infelizmente. Mas eu fico matutando na minha cachola que tem que ser rápido”, finaliza Clarindo.
O que é o “Vozes do Clima” e a série especial sobre o El Niño?
O boletim de áudio “Vozes do Clima” é uma realização do ISA, com produção da produtora de podcasts Bamm Mídia e apoio da Environmental Defense Fund (EDF), e propõe levar informações a povos e comunidades tradicionais sobre os temas relacionados à pauta climática. Além de ser distribuído via Whatsapp e Telegram, o programa poderá ser ouvido nas plataformas de áudio Spotify, iHeartRadio, Amazon Music, Podcast Addict, Castbox e Deezer.
Já a série especial de seis episódios sobre o El Niño faz parte do “Vozes do Clima” e leva o tema às comunidades dos territórios onde o ISA trabalha, como as bacias do Rios Xingu (Mato Grosso e Pará), do Rio Negro (Amazonas e Roraima) e do Ribeira de Iguape (Paraná e São Paulo).
Os próximos episódios abordarão temas como: prevenção e controle de incêndios; produção e extrativismo; segurança alimentar; impactos dos extremos climáticos na saúde; e governança local e regional.
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