"Devastamos mais da metade do nosso País pensando que era preciso deixar a natureza para entrar na história: mas eis que esta última, com sua costumeira predileção pela ironia, exige-nos agora como passaporte justamente a natureza".
Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo, um dos motes da fundação do ISA em 1994.
O ISA trabalha em parceria com povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais para elaborar soluções inovadoras para os desafios enfrentados por estas comunidades e povos. Nossas iniciativas apoiam e promovem a defesa de direitos, gestão e proteção territorial, economias do cuidado, processos formativos, restauração ecológica inclusiva e produtiva. Elas são baseadas em processos de experimentações e trocas de saberes transparentes, equitativas e de longo prazo com nossos parceiros, que tem como base a valorização dos modos de vida destas populações e a garantia de seus direitos.
Nossa abordagem de atuação coloca a potência dos saberes tradicionais em diálogo com práticas legais, acadêmicas e de mercado. A inovação, produzida a partir dessa interação entre diferentes mundos, pensamentos e linguagens, oferece caminhos para o reconhecimento pela sociedade brasileira - e mundial -, que são estes povos que cuidam e protegem as florestas que prestam os serviços socioambientais para a própria sobrevivência do planeta e cada um de nós.
Há diversas outras iniciativas que apontam para soluções originais para os desafios enfrentados pelas populações indígenas e tradicionais para garantir o direito à terra, o bem-viver, a preservação de suas florestas e modos de vida, intrinsecamente interdependentes. A formação de jovens comunicadores indígenas, por exemplo, capacita tecnicamente a juventude dos territórios do Xingu e do Rio Negro em dominar a tecnologia para contar suas próprias histórias, defender seus direitos e se conectar com a cultura de seus de seus antepassados. Conheça abaixo outros exemplos de soluções desenvolvidas pelo ISA e seus parceiros locais e nacionais:
Copiô, Parente, o primeiro podcast feito no Brasil para os povos da floresta
Xingu Solar, projeto de promoção de energia fotovoltaica no Xingu
Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira vence prêmio do governo de SP
Iniciativa realizada anualmente há quase 20 anos foi uma das reconhecidas pelo Prêmio Governador do Estado 2026 na categoria Valorização do Patrimônio Cultural na última quarta-feira (29/07)
A Feira de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira venceu o Prêmio Governador do Estado para as Artes 2026, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, na categoria Valorização do Patrimônio Cultural. A cerimônia foi realizada na noite de 29 de julho, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.
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Benedita Santos Rocha, do Quilombo Maria Rosa, e Leonila Priscila da Costa Pontes, do Quilombo Abobral Margem Esquerda, na 11ª Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira|Claudio Tavares/ISA
Realizada em Eldorado de forma comunitária e com uma história de quase duas décadas, a Feira promove o intercâmbio de sementes, mudas e conhecimentos entre as comunidades quilombolas do Vale do Ribeira. A iniciativa contribui para a preservação da biodiversidade, a transmissão dos conhecimentos tradicionais entre gerações e a continuidade das práticas agrícolas ancestrais, como a roça de coivara, parte do Sistema Agrícola Tradicional Quilombola, reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio imaterial do Brasil.
Para Leonila Priscila da Costa Pontes, do Quilombo Abobral Margem Esquerda e integrante do Grupo de Trabalho Roça, que organiza a Feira todos os anos, é uma alegria receber este reconhecimento.
“Eu frequento a feira desde a primeira vez, quando eu morava no sítio, meus tios ainda eram vivos. A gente plantava mandioca, batata, plantava tudo. E quando era na feira de semente, eu trazia bolo de roda, rosquinha econômica, coruja, trazia de tudo que a gente sabia fazer”, explica.
A premiação reforça a importância da Feira como espaço de preservação do patrimônio cultural quilombola, que representa os modos de vida por meio de seus produtos agrícolas, sementes e mudas compartilhadas.
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Variedades de espécies presentes nas tendas da 15° Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira|Júlio César Almeida/ISA
“Eu me criei na Roça de Coivara, além de plantar arroz, feijão, mandioca, cará, banana e laranja, me criei debaixo do pé do café”, celebra Leonila, que hoje está com 77 anos e meio. “Acho muito gratificante ter recebido essa premiação aí, que eu sinto com muita gratidão, muito prazer, e fico sensibilizada com tudo isso”, completa.
A Feira concorreu com outras quatro iniciativas na categoria Valorização do Patrimônio Cultural e recebeu um prêmio de R$ 35,5 mil. A edição de 2026 do Prêmio Governador do Estado reconheceu projetos em 13 categorias e distribuiu mais de R$ 400 mil aos vencedores.
Instituído em 1986, o Prêmio Governador do Estado para as Artes reconhece artistas, instituições e iniciativas que contribuem para a produção e a diversidade cultural paulista. A vitória da Feira amplia a visibilidade dos saberes quilombolas e destaca a contribuição das comunidades do Vale do Ribeira para a proteção da diversidade cultural e ambiental do estado de São Paulo.
E a próxima edição da Feira já tem data marcada. Acompanhe presencialmente em Eldorado (SP) e confira essa e outras novidades em nossas redes sociais.
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A restauração dos sonhos
Restaurar os ecossistemas é essencial e urgente. Mas existe uma dimensão da restauração ainda mais profunda: a restauração da nossa capacidade individual e coletiva de sonhar
*Artigo originalmente publicado no O Eco no dia 29/07/2026 **Artigo preparado para a VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica, apresentado na seção ‘Vozes da Restauração’ em 29 de julho de 2026, na Universidade de Brasília.
Este artigo é fruto da minha trajetória na restauração ecológica e as perguntas que a vida me trouxe ao longo do caminho. Entre florestas, sementes, sonhos e processos de reconstrução pessoal, fui compreendendo que restaurar é muito mais do que recuperar ecossistemas degradados, significa também renovar ideias, regenerar relações, reconectar com a natureza, preservar histórias e cultivar futuros. Neste ensaio, convido o leitor à reflexão sobre uma dimensão frequentemente esquecida da restauração: os sonhos. Afinal, antes de se materializar na paisagem, toda restauração nasce no coração e na imaginação daqueles que acreditam que outros mundos são possíveis.
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Milene Alves, jovem coletora da Rede de Sementes do Xingu, em plantio de Muvuca no Mato Grosso|Rogério Assis/ISA
O pesadelo coletivo
A degradação da natureza é um reflexo da degradação da sociedade. A nossa forma de organização social e as escolhas políticas e econômicas dos grupos que estão no poder deliberaram (e ainda deliberam) a favor da destruição. Essas mesmas escolhas também sustentam diferentes formas de violência contra os seres humanos, perpetuando guerras, racismo, fome, pobreza e exclusão.
A maioria dos sistemas sociais está em colapso e está arrastando junto os ecossistemas e as pessoas, o que já foi descrito em sociedades anteriores. Um sistema social, político e econômico que contamina o ar que respiramos, a água que bebemos, o solo que produz nossos alimentos e os próprios corpos que habitamos é um sistema profundamente adoecido.
Por isso, a degradação ambiental é muito mais do que uma crise ecológica. Ela é um sintoma de uma crise social muito mais profunda. Em muitos aspectos, vivemos um pesadelo coletivo, onde a exploração da natureza e das pessoas é naturalizada. E, talvez, a maior tragédia não seja apenas aquilo que estamos perdendo materialmente, mas a erosão da nossa capacidade individual e coletiva de sonhar e criar novos caminhos.
A degradação começa dentro de nós
Se a degradação da natureza reflete a degradação da sociedade, a sociedade reflete algo que acontece dentro de cada um de nós: a degradação humana.
Não estou falando da presença de microplásticos em quase todos os órgãos do corpo humano, algo que a ciência já comprovou. Falo de outro tipo de poluição, a das mentes sobrecarregadas, dos corações endurecidos e da crescente desconexão com a vida, em suas múltiplas formas. Se formos honestos, perceberemos que, na correria do dia a dia, muitas vezes nos afastamos da nossa própria essência, das pessoas que amamos, da natureza e do momento presente.
Tenho aprendido que a vida acontece em ciclos, como tudo o que existe na natureza. As borboletas e as formigas do meu jardim me lembram disso diariamente. Como as cobras, também podemos trocar de pele. Podemos nos regenerar, recomeçar e nos transformar. A resiliência humana é impressionante.
No processo de restauração da minha própria saúde, aprendi que as dificuldades e as dores podem ensinar muito mais do que os acertos. Compreendi também que restaurar não significa voltar a ser quem éramos antes, mas encontrar novas formas de ser e de estar depois de rupturas.
Mas aquilo que é verdadeiro para os indivíduos nem sempre se aplica da mesma forma à sociedade. Nós podemos aprender com os nossos erros, mudar de direção e recomeçar. Coletivamente, porém, existe um limite para os equívocos que podemos cometer. Quando ultrapassamos determinados limiares, comprometemos a capacidade do planeta de sustentar a vida como a conhecemos.
Por isso, conservar e restaurar a natureza não é apenas uma escolha técnica, econômica ou política. É um compromisso ético com a continuidade da vida e com aqueles que virão depois de nós. E é justamente por isso que estamos aqui.
A Restauração Ecológica Integral
A restauração dos ecossistemas precisa refletir os processos de restauração social e individual. Sem envolver a sociedade e o ser humano, corremos o risco de realizar apenas mudanças superficiais e paliativas. Podemos plantar árvores, recuperar nascentes e pastagens degradadas, mas dificilmente construiremos uma sociedade verdadeiramente sustentável se continuarmos reproduzindo os mesmos padrões de desconexão que nos trouxeram até aqui.
E é por isso que sonho com uma Restauração Ecológica Integral: um processo social que integra o bem-estar humano, a saúde dos territórios e a espiritualidade, a dimensão invisível da relação entre as pessoas e a natureza, independente de religião. Restauração é muito mais do que recuperar áreas degradadas. É reconstruir vínculos e nos reconectar com a natureza. É saber e sentir que fazemos parte da mesma teia da vida que buscamos conservar.
Na dimensão ambiental já conhecemos muitas das soluções. Os avanços da ciência, somados aos conhecimentos tradicionais e aos ensinamentos da própria natureza, mostram caminhos concretos para restaurar ecossistemas, conservar a biodiversidade e enfrentar as mudanças climáticas. Atualmente, o desafio deixou de ser técnico e passou a ser político e econômico.
Na dimensão social, combater a degradação passa pela restauração da ética, da solidariedade, da justiça e do cuidado. Em muitos territórios, pessoas, organizações e movimentos sociais resistem diariamente às diversas formas de degradação e violência. Há lutas, conquistas e exemplos inspiradores em todas as partes. As transformações estruturais costumam ser lentas, mas a história também é marcada por pontos de inflexão, quando mudanças consideradas impossíveis se tornam realidade em um curto espaço de tempo.
Por isso, a dimensão pessoal da restauração é tão importante.
A restauração começa dentro de nós
A restauração que começa dentro de nós é aquela sobre a qual podemos agir todos os dias, o tempo todo. Cada pessoa influencia o seu entorno por meio dos seus valores, suas escolhas e atitudes. Como uma rede invisível de micorrizas que conecta árvores e distribui nutrientes pela floresta, nossas ações também se espalham muito além do que conseguimos enxergar.
É por isso que quero falar aqui com todas as pessoas restauradoras e também com aquelas que ainda não reconheceram sua própria missão nesse processo. Afinal, a restauração é muito mais do que uma técnica, uma atividade profissional ou um conjunto de metas. Ela é, antes de tudo, uma forma de estar no mundo, uma postura ética diante da vida.
Essa é talvez a dimensão mais desafiadora da restauração, porque exige coragem para revisitar valores, rever caminhos e cultivar coerência entre aquilo que acreditamos e aquilo que fazemos. Em um tempo que transforma quase tudo em indicadores e negócios, existe o risco de que a própria restauração se torne apenas mais uma atividade rotineira, desconectada de seu propósito mais profundo.
Por isso, independentemente da idade, da profissão, da origem, da crença ou da trajetória de cada pessoa, a restauração tem origem no coração e se manifesta no brilho dos olhos. Começa naquilo que nos move, na força que nos faz seguir mesmo diante das dificuldades e na decisão de contribuir ativamente para um mundo melhor.
E é justamente nesse ponto que os sonhos se tornam essenciais. Sonhar é o primeiro ato de restauração, pois é nele que enxergamos aquilo que ainda não existe.
Os sonhos
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Sob o céu estrelado na aldeia Tukayá, na Terra Indígena Xipaya no Pará|Lilo Clareto/ISA
Os sonhos fazem parte da história evolutiva da vida de diferentes espécies. Na experiência humana, atravessam culturas, tradições e formas de conhecimento. Para a ciência, estão associados à consolidação da memória, à aprendizagem e à regulação das emoções. Para a psicanálise, revelam conteúdos profundos do inconsciente. Em muitas culturas e tradições, os sonhos são compreendidos como fontes de orientação, cura e diálogo com dimensões invisíveis.
Independente da interpretação adotada, há algo que une essas diferentes perspectivas: os sonhos nos conectam a algo maior do que a experiência imediata do presente. Eles despertam a imaginação e nos ajudam a vislumbrar novas possibilidades.
Por que paramos de sonhar?
As crianças sonham com naturalidade. Sonham dormindo e acordadas. Imaginam mundos, criam histórias e inventam possibilidades. Em algum momento da vida, porém, muitas pessoas deixam de sonhar com a mesma liberdade. Aos poucos, a imaginação cede lugar à rotina, a esperança é substituída pelo medo e o futuro passa a ser percebido mais como ameaça do que como possibilidade.
Vivemos em uma época marcada pela aceleração. Trabalhamos demais, dormimos menos, passamos horas diante de telas e somos constantemente estimulados por informações, imagens e demandas, em uma dinâmica que favorece a distração permanente e a alienação de nós mesmos e do mundo real.
Em uma sociedade orientada pelo desempenho, pela produtividade e pelo consumo, até mesmo o descanso precisa ser justificado. O sono, um dos momentos mais íntimos da experiência humana, tornou-se uma das últimas fronteiras ainda não completamente dominadas pela lógica do capitalismo.
Uma sociedade privada de tempo, de silêncio e de sono perde sua capacidade de sonhar. E uma sociedade que não sonha perde a possibilidade de se restaurar e até de existir.
Precisamos (re)aprender a sonhar!
Se a degradação ambiental reflete a degradação social, e esta revela uma desconexão profunda dos seres humanos consigo mesmos e com a natureza, então restaurar também significa resgatar nossa capacidade de sonhar.
Segundo o neurocientista Sidarta Ribeiro, o sonho é uma ferramenta biológica. Enquanto dormimos, o cérebro reorganiza memórias, processa emoções e combina experiências para simular futuros possíveis. Como um oráculo, os sonhos nos ajudam a antecipar desafios, orientar escolhas e imaginar caminhos alternativos.
Os povos indígenas sabem disso há muito tempo.
Para Ailton Krenak, o primeiro membro indígena da Academia Brasileira de Letras, sonhar é uma herança cultural que conecta os seres humanos e a natureza para além do tempo e do espaço, amplia horizontes e permite imaginar outros modos de habitar a Terra.
Para o xamã e líder indígena Davi Kopenawa Yanomami, o sonho não é apenas uma experiência individual. É uma prática espiritual coletiva e política. Quando compartilhados, os sonhos tornam-se instrumentos de diálogo, aprendizado e transformação social. Davi distingue os sonhos cotidianos das experiências oníricas profundas vivida por xamãs e ‘sonhadores’, que permitem o encontro com outros seres e outros mundos. Em A Queda do Céu, ele afirma que “Os brancos não sabem sonhar, e é por isso que destroem a floresta.”
O grande convite que emerge é simples e profundo: (re)aprender a sonhar. Sonhar é ampliar a realidade. É construir pontes no lugar de muros. É cultivar esperança sem perder o senso de urgência. Porque nenhum futuro diferente será possível enquanto não formos capazes de sonhá-lo.
A restauração dos sonhos
Sonhar é um direito humano. O direito de imaginar, criar, desejar e participar da construção da realidade que compartilhamos. Quando a sociedade perde a sua capacidade de sonhar, perde também sua liberdade. Restaurar os sonhos é, portanto, restaurar uma dimensão essencial da própria condição humana.
Existem sonhos de uma noite, existem sonhos de uma vida e sonhos de muitas vidas. Os sonhos individuais trazem sentido às pessoas. Mas são os sonhos coletivos que transformam a sociedade. Toda grande mudança começou como um sonho compartilhado: o sonho da liberdade, da justiça, da democracia, da igualdade, da paz, da conservação da natureza e do bem-viver. Sonhos são sementes. Alguns germinam rapidamente. Outros levam décadas ou gerações. Podem ser ressignificados, mas nunca envelhecem e nem morrem.
Muitas vezes plantamos árvores sob cuja sombra jamais iremos sentar. Ainda assim, a plantamos. Também plantamos sonhos e ideias no planeta, mesmo sabendo que nem todos serão colhidos por nós.
Em um mundo marcado por tantas formas de degradação e por tantos pesadelos coletivos, restaurar os sonhos é um ato de resistência e de amor. É reafirmar a vida diante das forças que alimentam a destruição.
Sementes de sonhos
Como os ecossistemas, a dimensão dos sonhos é rica em formas, diversidade e funções. Há sonhos que curam, orientam, conectam e transformam. Quanto mais sonhamos, mais sonhos chegam. Como uma muvuca de sementes, a fertilidade do imaginário humano se multiplica quando encontra espaço.
Como na sucessão ecológica, onde a vida se reorganiza, se complexifica e se renova ao longo do tempo, também existe uma sucessão de sonhos. Cada geração herda os sonhos das gerações anteriores. E cabe a ela mantê-los vivos e cultivar novos sonhos para as gerações que virão.
Restaurar também é cuidar dessa continuidade, garantindo que as crianças não percam sua capacidade de sonhar e que os adultos tenham a oportunidade de (re)aprender. Em vez de podar, precisamos adubar e criar condições para que diferentes formas e capacidades de sonhar possam emergir e se fortalecer na sociedade.
Por fim, devemos aprender com os Yanomamis que sonhar também é um ato político. Precisamos sonhar juntos, compartilhar visões, ampliar vozes e abrir espaço para plantar nossos sonhos coletivos. Sonhar com os pés no chão e o coração aberto. Sonhar por nós, pelos que vieram antes e pelos que virão depois. Sonhar florestas, cerrados, rios, cidades, comunidades e territórios vivos.
Toda restauração começa com uma semente.
E toda semente nasce, primeiro, como um sonho.
Que não nos faltem sonhos para plantar.
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Do Acervo do ISA para a sala de aula: conheça 7 kits didáticos da série ‘Hoje na História Socioambiental’
Iniciativa transforma documentos históricos em ferramentas que ensinam a reler o Brasil com mais amplitude, sensibilidade e justiça ao valorizar a memória e documentação de diversos povos e comunidades tradicionais na luta por direitos
Fotocolagem feita pela artista Shirley Espejo com fotos do Acervo do ISA|Erik Vesch/Cama Leão/ISA
Os materiais articulam documentos do Acervo do ISA com sugestões de atividades, questões para debate e referências bibliográficas, aproximando estudantes das histórias, memórias e reivindicações de povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais.
Ela torna obrigatório o ensino das histórias e culturas indígenas e afro-brasileiras nas escolas.
O reconhecimento dessas culturas e desses povos nas salas de aula brasileiras são essenciais para o combate ao racismo estrutural, enfrentamento da crise climática e valorização da sociodiversidade do nosso país.
Até o momento, a coleção reúne sete kits didáticos, cada um dedicado a um tema fundamental da construção da história socioambiental brasileira.
Conheça cada um deles!
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Capas dos 6 primeiros kits didáticos, com fotocolagens feitas pela artista Shirley Espejo (@__espejismos__) e diagramação de Kath Xapi Puri (@txori.art)
O protagonismo dos povos indígenas na luta por direitos (1988–2024)
O primeiro kit da série apresenta a mobilização indígena desde a Assembleia Constituinte até os desafios contemporâneos, chegando nas primeiras edições do Acampamento Terra Livre.
A partir de documentos históricos, registros fotográficos e materiais produzidos pelo movimento indígena, o conteúdo evidencia o protagonismo dos povos na conquista e defesa de seus direitos constitucionais.
A atuação das comunidades tradicionais na preservação da biodiversidade da região da Volta Grande do Xingu
O segundo kit da série, lembra a movimentação das comunidades no entorno da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, antes, durante e após a sua instalação.
Voltado à relação entre território, biodiversidade e modos de vida, este kit reúne documentos sobre a atuação das comunidades tradicionais da Volta Grande do Xingu na proteção dos ecossistemas locais, destacando seus conhecimentos, práticas de manejo e formas de organização coletiva.
Saberes tradicionais e estratégias sustentáveis de geração de renda: as propostas de povos indígenas e comunidades tradicionais
O terceiro material aborda experiências da sociobioeconomia, manejo sustentável e valorização dos conhecimentos tradicionais, mostrando como povos indígenas e comunidades tradicionais desenvolvem alternativas econômicas que conciliam geração de renda, conservação ambiental e fortalecimento cultural.
As facetas da luta indígena contemporânea
O quarto kit didático apresenta diferentes dimensões da luta dos povos indígenas na atualidade, abordando temas como direitos territoriais, participação política, cultura, memória, educação e resistência. São trabalhadas desde a mobilização na Assembléia Constituinte até as pautas mais atuais, como atuação de mulheres e o protagonismo LGBTQIAPN+.
Os documentos permitem compreender a diversidade das estratégias de mobilização indígena em diferentes contextos históricos.
Floresta com gente dentro: a luta pelos territórios tradicionais e coletivos e pela conservação ambiental
A publicação evidencia que a conservação das florestas está diretamente relacionada à garantia dos direitos territoriais de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
Os documentos selecionados demonstram como esses grupos desempenham papel central na proteção da biodiversidade brasileira.
Quem fala em nome dos povos indígenas? O associativismo indígena no foco das reivindicações
O kit apresenta a trajetória das organizações indígenas e do associativismo como instrumento de representação política e fortalecimento das reivindicações coletivas.
A proposta permite compreender como diferentes povos construíram formas próprias de organização para dialogar com o Estado e a sociedade brasileira.
Mulheres quilombolas no foco da educação
Lançado em julho de 2026, o kit destaca o protagonismo das mulheres quilombolas na preservação da memória, dos territórios, dos modos de vida e das formas de organização comunitária.
A partir de documentos do Acervo e de produções audiovisuais, o material propõe reflexões sobre identidade, educação, racismo, gênero e resistência, valorizando trajetórias frequentemente invisibilizadas nos currículos escolares.
Hoje na História Socioambiental é um convite do Acervo do ISA a revisitar o passado por outras lentes. A série busca ajudar a compreender o presente e inspirar novas formas de pensar o futuro. Fiquem atentas(os) para os próximos lançamentos!
**A série Hoje na História Socioambiental apresenta a riqueza de informações do Acervo do ISA que conta com mais de 250 mil itens catalogados voltados para a temática socioambiental como publicações, livros, teses e dissertações, mapas, notícias, materiais audiovisuais, entre outros.
Esta publicação conta com o apoio do Fundo Amazônia e é um produto do projeto "Defesa e Promoção dos Direitos Indígenas no Brasil: Construir Capacidades e Engajar Pessoas por um Futuro mais Justo", realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), com o financiamento da União Europeia.
Este material tem conteúdo de responsabilidade exclusiva da instituição realizadora e não reflete a posição da União Europeia.
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Documentário registra manejo da fauna pelo povo Baniwa
'Eenonai: Conservação e manejo na casa dos animais' traz registro do conhecimento ancestral desse povo e os impactos da emergência climática que ameaçam essa prática no Alto Rio Negro (AM)
O tempo certo para sair em busca da caça; o pote de guardar o curare - veneno que vai ser colocado na flecha; o cuidado para não abater nada além do necessário; a partilha com a comunidade; os impactos da emergência climática nos ciclos. Esses são alguns elementos do milenar manejo da fauna pelo povo Baniwa registrados no filme “Eenonai: Conservação e manejo na casa dos animais”, lançado na COP30, em Belém.
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Cartaz do filme Eenonai
Eenonai é o termo na língua dos conhecedores Baniwa que se refere aos animais e dá nome ao documentário sobre o manejo da fauna na região do Rio Ayari (Alto Rio Negro, Amazonas), na bacia do Rio Içana, território predominantemente do povo Baniwa.
Entre os Baniwa, a prática da caça se mantém de geração em geração e integra um sistema sofisticado de conhecimentos dos povos indígenas do Alto Rio Negro, uma das regiões mais preservadas da Amazônia. Esse manejo também compõe o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro (SAT-RN), reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histório e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio cultural.
O educador-pesquisador, físico, cientista ambiental e liderança indígena Dzoodzo Baniwa, que participou da produção do Eenonai, ressalta a importância do documentário, que registra o manejo sustentável da caça pelo povo Baniwa.
“O documentário traz esse registro importante sobre o conhecimento. Cada povo indígena tem seu próprio sistema de conhecimento e do manejo do seu território. Cada técnica, cada domínio da tecnologia é muito importante. Os Baniwa utilizam, por exemplo, instrumentos tradicionais, como zarabatana, e tem outras técnicas. O documentário resgata essas práticas tradicionais e dá esse horizonte de como podemos continuar mantendo o manejo da caça no nosso território, inclusive nessa perspectiva de impacto de mudanças climáticas. É muito importante, porque tanto os animais quanto nós povos indígenas manejamos esse território todo, ajudamos a diversificar as plantas, distribuindo sementes. A gente tem esse papel muito importante na proteção da floresta”, diz.
As práticas e saberes sobre esse manejo são acompanhados pelos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) da região, que desenvolvem pesquisas sobre temas socioambientais, em diálogo permanente com os conhecedores de suas comunidades e com pesquisadores especializados não-indígenas.
Constituída a partir de colaborações entre o Instituto Socioambiental (ISA), a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e organizações e escolas indígenas locais, a Rede de AIMAS atua na região do Içana e em outras áreas do Alto e Médio Rio Negro, registrando em diários e tablets práticas de manejo das roças, pesca, caça, coleta de frutos e insetos, intercâmbios econômicos e rituais, fabricação dos instrumentos e utensílios.
Constantemente, os pesquisadores relatam os impactos das mudanças climáticas nos ciclos ecológicos e nas práticas de manejo, que afetam a disponibilidade da fauna e flora, bem como os eventos sociais e rituais.
O objetivo da Rede de AIMAs é promover pesquisas colaborativas e interculturais de longa duração para o fortalecimento dos conhecimentos indígenas e da gestão territorial. Para isso, os agentes indígenas também contam com a parceria com institutos de pesquisa e universidades.
Essas pesquisas geram observações e indicadores que apoiam a governança territorial, conforme explica Dzoodzo Baniwa.
“A pesquisa sobre a fauna no território Baniwa Koripako é muito importante porque gera indicadores que vão orientar diretrizes para construção do plano de manejo, sobretudo pensando gestão territorial e governança do território. A pesquisa consegue traduzir o manejo tradicional que está sendo praticado no território há milhares de anos. O documentário Eenonai também retrata o resultado da pesquisa registrada por nós da rede de pesquisadores indígenas. E com isso esperamos contribuir com debates e diretrizes para implementação do Plano de Gestão Territorial e Ambiental nos territórios”, diz.
A pesquisa retratada no documentário é fruto da dedicação da Rede de AIMAs em parceria com o Centro de Pesquisa e Monitoramento Eenopana e a Rede Fauna - Pesquisa em Conservação, Uso e Manejo da Fauna da Amazônia.
Assista abaixo
A idealização do projeto é da pesquisadora e coordenadora-adjunta do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (PRN/ISA), Natalia Pimenta, e dos pesquisadores André Pinassi Antunes e Walter Lopes da Silva, do povo Baniwa. A direção é do documentarista Fellipe Abreu, especialista em sistemas alimentares, e da analista do ISA, Giselle Sousa.
Ficha técnica
Idealização: Natalia Camps Pimenta, André Pinassi Antunes e Walter Lopes da Silva
Produção: Natalia Camps Pimenta, André Pinassi Antunes, Walter Lopes da Silva, Dzoodzo Baniwa e Ana Amélia Hamdan Gontijo
Direção: Fellipe Abreu e Giselle Sousa
Direção de fotografia e captação de áudio: Fellipe Abreu
Entrevistas em Baniwa: Laise Cardoso
Roteiro: Luiz Felipe Silva
Edição/finalização: Elder Barbosa
Agradecimentos: Aos moradores e conhecedores de Canadá e demais comunidades do rio Ayari, Escola Baniwa Eeno Hiepole, Centro de Pesquisa e Formação Eenopana, National Geographic, Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) da Bacia do Rio Negro.
Realização: ISA, FOIRN, Rede Fauna, Nadzoeri
Apoio: Ipê/Lira e Nia Tero.
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O elo invisível da restauração
O Brasil atrai capital para restaurar milhões de hectares, mas ainda trata como periférico o elo que decide a qualidade, a escala e o legado socioambiental da restauração: as sementes nativas
O Brasil assumiu o compromisso de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa. Trata-se de uma das maiores oportunidades do país para enfrentar as mudanças climáticas, conservar a biodiversidade, fortalecer a segurança hídrica e impulsionar uma economia baseada na natureza. A restauração vem atraindo investimentos crescentes, impulsionados por mercados de carbono, pela implementação do Código Florestal e outros instrumentos públicos, assim como por compromissos do setor privado. Mas uma pergunta estratégica permanece praticamente ausente desse debate: como garantir que investimentos pontuais em restauração deixem um legado socioambiental permanente no país?
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Muvuca realizada no entorno do Território Indígena do Xingu (TIX), em 2018, reuniu mais de 80 espécies de sementes nativas|Camila Grinsztejn/Amazonia Livre
Muito se discute sobre financiamento, carbono e tecnologias de plantio. Pouco se fala dos arranjos institucionais e das capacidades necessárias para consolidar a restauração como um setor econômico permanente. Esse legado depende de organizações sociais, conhecimento, governança, pessoas e de mercados que sustentam uma demanda concreta e viabilizar, com visão de longo prazo, a oferta contínua de sementes e mudas nativas com diversidade e qualidade.
As sementes são o primeiro elo da restauração. Delas dependem a diversidade genética e a resiliência climática das futuras florestas. Sua coleta também gera renda para povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares, tornando as redes de sementes um dos exemplos mais promissores da sociobioeconomia brasileira. Paradoxalmente, essas redes continuam sendo o elo mais frágil da cadeia. Sabemos que a atividade de coleta de sementes pode ocorrer em condições precárias, com baixa remuneração, proteção social insuficiente e arranjos institucionais frágeis, limitando sua capacidade de gerar benefícios duradouros e legados positivos nos territórios.
À medida que se multiplicam projetos de restauração e carbono, tornou-se frequente que cada iniciativa estruture sua própria produção local de sementes, inclusive onde já existem organizações capacitadas. O que parece eficiente para um projeto isolado acaba fragmentando o mercado, criando estruturas paralelas que competem entre si e enfraquecem organizações capazes de atender sucessivos ciclos de investimento. Sem demanda contínua, muitos coletores deixam de operar entre um projeto e outro, dificultando a consolidação de uma cadeia nacional de sementes.
O recém-lançado mapa de Zonas de Transferência de Sementes (ZTS) oferece uma oportunidade estratégica nesse sentido. Além de orientar as procedências mais adequadas para aumentar a adaptação climática dos plantios, as ZTS podem direcionar investimentos para fortalecer redes existentes e apoiar novas iniciativas apenas onde houver lacunas, considerando as metas nacionais de restauração, os passivos ambientais e as oportunidades reais de mercado. Assim, contribuem para expandir a oferta de sementes adaptadas nas diferentes zonas climáticas sem criar sobreposições desnecessárias às capacidades já instaladas.
Embora a verticalização possa fazer sentido em determinados modelos de negócio, na restauração ela frequentemente direciona recursos para a criação de estruturas paralelas. Na prática, isso faz com que recursos públicos, privados e filantrópicos financiem repetidamente essas estruturas, em vez de fortalecer organizações capazes de atender sucessivos ciclos de investimento.
O desafio é ainda maior porque esse mercado está em construção. A demanda por sementes ainda é irregular e pouco previsível, enquanto as redes operam com margens reduzidas e assumem riscos elevados na coleta, beneficiamento e armazenamento. Não se trata de substituir o mercado, mas de criar as condições para que ele amadureça com a participação de organizações de base comunitária.
Também é preciso aperfeiçoar o ambiente regulatório. As regulamentações são importantes para garantir qualidade e rastreabilidade, mas não podem ignorar a realidade da megabiodiversidade e sociodiversidade do Brasil, sob o risco de elevar custos desnecessariamente e dificultar a participação de organizações comunitárias que são justamente os atores responsáveis por ampliar a oferta e a diversidade de sementes nativas para restauração ecológica nas últimas duas décadas.
As redes de sementes são ativos territoriais estratégicos para a economia da restauração. Fortalecer essa cadeia não significa criar o maior número possível de redes de sementes. Significa expandir a produção nas zonas onde ela realmente será necessária e consolidar e aprimorar as organizações já existentes, orientando investimentos por uma análise integrada entre oferta e demanda.
A experiência do Redário demonstra que é possível transformar investimentos em um legado perene. Ao articular 37 redes comunitárias de coletores, promover padrões de qualidade, ampliar a governança e conectar oferta, demanda e pesquisa, o Redário contribui para consolidar uma cadeia nacional de sementes capaz de atravessar os ciclos dos projetos e permanecer nos territórios.
A restauração pode se tornar uma das grandes agendas econômicas do Brasil nas próximas décadas. Esse potencial dependerá menos do número de projetos e mais da capacidade de transformar investimentos pontuais em estruturas permanentes, com organizações fortalecidas, regulação adequada e mercados estáveis.
A conta da restauração não fecha se a base da cadeia continuar invisível. Para além dos hectares recuperados e do carbono contabilizado, o verdadeiro legado da restauração será a capacidade permanente dos territórios de seguir restaurando.
*Eduardo Malta Campos Filho, analista sênior no Instituto Socioambiental (ISA) e coordenador do Redário
*Danielle Celentano, analista sênior no Instituto Socioambiental (ISA) e membro do Comitê Gestor do Redário
*Laura Antoniazzi, pesquisadora Agroicone e membro do Comitê Gestor do Redário
*Anabele Gomes, presidente da Rede de Sementes do Cerrado e membro do Comitê Gestor do Redário
*Rodrigo Gravina Prates Junqueira, diretor executivo do Instituto Socioambiental (ISA) e membro do Comitê Gestor do Redário
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Nova norma amplia presença dos povos tradicionais no PNAE e leva mais diversidade à alimentação escolar
Resolução do FNDE orienta chamada pública específica para indígenas, quilombolas e outros povos em todo o país, ampliando alimentos tradicionais, saúde e cultura nas escolas dos territórios
A participação dos povos indígenas, quilombolas e outros povos e comunidades tradicionais nas chamadas públicas do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) tem levado para os estudantes diversidade, cultura e saúde às cantinas com alimentos como biribá, bacaba, pequi, murici, açaí e peixe fresco. E agora, essa lista vai crescer.
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Novas medidas publicadas na resolução do FNDE incentivam a diversidade de alimentos na alimentação escolar|Claudio Tavares/ISA
Resolução do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), publicada em 24 de junho de 2026, orienta a realização, por parte das Entidade Executora - EEx ou pela Unidade Executora - UEx, de chamada pública específica para povos indígenas, quilombolas e povos e comunidades tradicionais em todos os municípios do país.
Com a publicação da Resolução nº 11/2026 do FNDE, a participação dos povos tradicionais no PNAE ganha novo impulso, ampliando as possibilidades de inclusão de alimentos produzidos, coletados, beneficiados e conservados de acordo com os sistemas alimentares tradicionais. Na prática, isso significa mais alimentos locais, mais diversidade no cardápio escolar e maior valorização dos saberes, culturas e modos de vida dos PCTs.
As chamadas públicas específicas para Povos e Comunidades Tradicionais já vinham sendo realizadas em diferentes estados do país, especialmente por meio da articulação promovida pela Comissão de Alimentos Tradicionais dos Povos (Catrapovos), iniciativa coordenada pelo Ministério Público Federal em parceria com instituições públicas e organizações da sociedade civil. Com a publicação da nova Resolução, essa experiência passa a contar com regulamentação específica no âmbito do FNDE e do PNAE.
“Com essa nova medida, acontecerá uma verdadeira revolução no prato dos estudantes. Pela primeira vez, o FNDE regulamenta nacionalmente uma experiência que já vinha sendo construída nos territórios por PCTs”, informa Márcio Menezes, membro da Catrapovos Brasil, assistente técnico da Catrapoa e assessor do ÓSocioBio.
Entre as principais inovações da resolução está o reconhecimento dos alimentos de autoconsumo tradicional no âmbito da alimentação escolar. Com isso, alimentos produzidos, coletados, beneficiados e conservados de acordo com os modos de vida e sistemas alimentares dos PCTs poderão ser adquiridos por meio da chamada pública específica, sem a exigência de regularização sanitária prévia, respeitando as práticas de soberania e segurança alimentar e nutricional desses povos, desde que o produto seja consumido pela própria comunidade tradicional, respeitando assim os hábitos alimentares.
É essa norma que possibilita que o beiju, o “vinho” de açaí, o bolo de fubá e o pão caseiro vindo dos quintais, roças, florestas e cozinhas tradicionais cheguem até os pratos dos estudantes.
E a nova resolução do FNDE tem esse mesmo entendimento.
Saiba mais
A resolução 11/2026 do FNDE indica que aquisição de alimentos destinada às escolas de educação básica pública localizadas em territórios tradicionais, situadas em contextos urbanos, periurbanos ou rurais, deverá ser realizada diretamente de fornecedores pertencentes aos povos e comunidades tradicionais (PCTs), na forma de autoconsumo tradicional. A aquisição será realizada por meio de edital de chamada pública específico, de forma administrativa, sem procedimento licitatório.
Considera-se autoconsumo tradicional o conjunto de alimentos coletados, produzidos, manipulados, beneficiados e conservados pelos próprios PCT, de acordo com suas culturas alimentares, sistemas produtivos tradicionais e modos de organização social.
O autoconsumo tradicional abrange alimentos provenientes dos territórios tradicionais, nos quais os PCT mantenham vínculos históricos, sociais, culturais ou econômicos, baseados em relações de consanguinidade, solidariedade, reciprocidade, afinidade ou afetividade, com compartilhamento de valores, modos de vida e sistemas alimentares semelhantes.
Isso quer dizer que os alimentos das roças, florestas, rios e quintais vão abastecer as escolas localmente. A medida promove um efeito em cascata positivo: os estudantes terão acesso a mais alimentos frescos e naturais, com oferta menor de ultraprocessados. Além disso, a compra dos produtos fortalece a renda, mas também a cultura, incentivando cultivos e preparos tradicionais.
E ainda vai além: ao incentivar as roças tradicionais, essa medida também protege o meio ambiente. Os sistemas agrícolas e de saberes dos povos e comunidades tradicionais são cultivados de forma a conservar os biomas, promovendo ativos como cuidado com a água, com a biodiversidade e o clima.
Outros avanços
Essa mudança se soma a outras alterações importantes acontecidas no PNAE este ano. Uma delas foi a elevação do percentual de produtos que deve ser comprado de agricultores familiares, que passou de 30% para 45%. Também houve o aumento médio de 14,35% no valor do repasse per capita por aluno.
Além disso, resolução do FNDE de 18 de fevereiro de 2026 determinou o valor diferenciado para a alimentação escolar dos povos e comunidades tradicionais. Antes, esse diferencial valia apenas para os indígenas e quilombolas.
Conforme o novo texto, para os estudantes matriculados em escolas de educação básica em áreas indígenas, remanescentes de quilombos e demais povos e comunidades tradicionais, o valor per capita para a alimentação escolar passa a ser de R$ 0,98. No caso das creches, o valor passa a ser de R$ 1,57.
O ponto central dessa mudança está no reconhecimento da diversidade pela política pública. No país, há pelo menos 28 povos e comunidades tradicionais.
O PNAE é uma política pública federal que garante alimentação escolar saudável e de qualidade a cerca de 40 milhões de alunos da rede pública de educação básica no Brasil. Gerenciado pelo FNDE, transfere recursos a estados e municípios para oferecer refeições, visando segurança alimentar, nutrição e melhor desempenho escolar. O orçamento anual do programa passou de cerca de R$ 3,6 bilhões, em 2022, para R$ 6,8 bilhões neste ano.
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Lideranças do Rio Negro levam debate sobre soberania linguística indígena e conectividade ao Fórum da Internet no Brasil
Debate passou pela inclusão digital, proteção de dados e fortalecimento das línguas indígenas a partir das experiências do Rio Negro
A relação entre conectividade e fortalecimento das línguas indígenas esteve em discussão nesta quarta-feira (27), durante o workshop “Vozes em Rede: Experiências de Inclusão Digital e Soberania Linguística Indígena”, realizado no 16º Fórum da Internet no Brasil (FIB), promovido pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), em Belém do Pará.
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Participaram da mesa no 16º Fórum da Internet no Brasil (FIB) Alberto Fernandes, Ray Baniwa, Dadá Baniwa, Edson Baré|Cleuber Amaro/Funai
Organizado pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e pela Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas, o encontro teve como foco as experiências do Rio Negro, território que concentra uma das maiores diversidades linguísticas do país, a partir do reconhecimento das línguas indígenas como patrimônio imaterial e base da soberania cultural, territorial e epistêmica dos povos indígenas.
Assista como foi a participação abaixo:
A atividade reuniu lideranças indígenas da região, pesquisadores e desenvolvedores para discutir os impactos, desafios e possibilidades da presença indígena no ambiente virtual. Edson Baré, diretor da Foirn e mediador da mesa, destacou iniciativas como o projeto Nheengatu Digital, desenvolvido pela Federação em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), que atua com estudantes de comunidades do Alto Rio Negro para fortalecer o uso da língua indígena em plataformas digitais. Segundo Edson, um dos desafios do projeto está justamente na adaptação tecnológica para as especificidades do Nheengatu.
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Dadá Baniwa, coordenadora da CR-Rio Negro/Funai, destacou a diversidade linguística do Rio Negro|Vanessa Fernandes/ISA
“O teclado, por exemplo, ainda precisa ser adaptado. Existem letras que são necessárias para dar a entonação correta dos sons, mas não aparecem nos teclados convencionais”, explicou.
Mesmo com as limitações, ele relatou resultados positivos nas comunidades de Juruti e Tabocal, onde cerca de 40 adolescentes já utilizam os tablets do projeto para escrever e se comunicar na própria língua no ambiente virtual.
Também integrante da mesa, a liderança Maria do Rosário Piloto Martins, conhecida como Dadá Baniwa, títular da Coordenadoria Regional Rio Negro da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai/CR-Rio Negro), destacou que o debate sobre línguas indígenas na internet precisa considerar as especificidades e diversidades dos territórios amazônicos.
Dadá lembrou que São Gabriel da Cachoeira possui 18 línguas indígenas identificadas, sendo 16 ainda faladas no município, e ressaltou que a valorização das línguas passa também pelo uso das redes sociais, pelas publicações digitais e pelo registro das memórias indígenas.
“Antes da internet, a gente já tinha nosso jeito de comunicar: pela oralidade, pelas mudanças da natureza, pelas constelações. Quando se fala das línguas na internet, também é preciso levar em consideração como elas estão sendo tratadas nesse ambiente”, afirmou.
A liderança também reforçou a importância da comunicação intercultural e das redes de comunicadores indígenas como estratégia de combate à desinformação sobre os territórios e também da valorização das línguas.
Outro ponto debatido foi a construção de acordos ortográficos para as línguas indígenas. O tema gerou reflexões sobre os limites entre oficialização e preservação da diversidade linguística e os riscos de padronizações excessivas apagarem as variações linguísticas existentes nos territórios.
Sobre este ponto, Dadá Baniwa afirmou que os acordos ortográficos não pretendem estabelecer uma “língua certa”, mas criar instrumentos de reconhecimento institucional e fortalecimento das línguas em espaços oficiais, como escolas, documentos e concursos públicos. Edson Baré acrescentou que o processo busca preservar ao máximo os diferentes dialetos e variantes regionais.
Soberania digital e autonomia tecnológica
Ao refletir sobre a chegada da internet ao Rio Negro, Ray Baniwa, cofundador da Rede Wayuri e doutorando em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lembrou que os povos indígenas do Rio Negro já convivem com processos de contato e adaptação tecnológica há décadas. Segundo ele, que tem pesquisas centradas no impacto da internet e das tecnologias digitais nas comunidades indígenas sob uma perspectiva decolonial, o uso da internet se tornou uma ferramenta fundamental para afirmar a existência e a diversidade dos povos no ambiente digital.
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Alberto Fernandes e Ray Baniwa refletiram sobre autonomia tecnológica e soberania digital|Vanessa Fernandes/ISA
“Foi necessário usarmos as tecnologias para mostrar que existimos. Antes era o rádio, agora é a internet”, afirmou Ray, destacando ainda que grande parte das iniciativas de inclusão digital na região surgiu das próprias organizações indígenas, diante da ausência de políticas públicas estruturadas para as comunidades mais distantes. Mesmo quando a política chega, na opinião dele, muitas vezes ela esteve desconectada da realidade local.
Ele lembrou experiências conduzidas pelas lideranças da Foirn e pelo projeto Conexão Povos da Floresta, ressaltando que iniciativas locais conseguem integrar conectividade e letramento digital de maneira mais próxima da realidade das comunidades. Ray aproveitou para fazer um alerta.Para ele, além do acesso à internet, é necessário discutir os impactos sociais e culturais da hiperconectividade, especialmente entre crianças e adolescentes indígenas, que já enfrentam situações de golpes, violência digital e afastamento dos espaços tradicionais de transmissão de saberes.
Durante as perguntas do público, participantes levantaram preocupações sobre o uso de plataformas privadas controladas pelas big techs, como Starlink, Meta e Google, e os riscos relacionados à vigilância de dados linguísticos indígenas.
Ray reconheceu que as comunidades acabam se tornando reféns das grandes empresas de tecnologia diante da ausência de alternativas públicas acessíveis. “Hoje é muito difícil pensar soberania sem discutir alternativas às big techs”, afirmou. Ao mesmo tempo, destacou que as comunidades vêm construindo protocolos próprios sobre o que pode ou não ser compartilhado no ambiente virtual. “Nossos sábios nos orientam sobre o que pode ser publicado. Tem conhecimento que só pode ser transmitido presencialmente, dentro da comunidade”, explicou.
A preocupação com a formação técnica também foi defendida por Alberto Fernandes, técnico de telecomunicações que atua na região do Rio Negro que também integrou a mesa. Ele questionou por que ainda há tão poucos investimentos na capacitação local para instalação e manutenção dos equipamentos de conectividade.
Alberto citou o projeto Rio Negro Solar, desenvolvido pela Foirn em parceria com estudantes da Unicamp, voltado à formação técnica em energia fotovoltaica, como exemplo de iniciativa que alia autonomia tecnológica e permanência dos conhecimentos nos territórios.
Nas considerações finais, Ray Baniwa chamou atenção para a necessidade de refletir também sobre o direito à desconexão. “Desconectar também é estar conectado à terra, aos pais, à ancestralidade”, afirmou. Para ele, a presença da internet nos territórios indígenas não pode significar imposição, mas uma escolha consciente das comunidades sobre como, quando e para quê utilizar a tecnologia.
O comunicador também destacou a importância de o FIB abrir espaço para o debate sobre conectividade e povos indígenas. Segundo ele, ao longo dos anos tem sido possível observar o crescimento da participação indígena e de populações tradicionais no evento, ampliando a presença desses territórios nas discussões sobre tecnologia e governança digital.
Em 2025, a Rede Wayuri participou da 15ª edição do FIB, realizada em Salvador (BA), promovendo o workshop “Teias de Conexão: Retrato da Conectividade nas Comunidades Indígenas”. Na ocasião, o debate abordou os impactos da conectividade em comunidades indígenas do Médio e Alto Rio Negro, a partir das experiências do projeto de inclusão digital promovido pela Foirn.
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Conhecimento indígena orienta ações de combate a incêndios no Território Indígena do Xingu
Em ano de El Niño, e a partir das necessidades dos povos indígenas, ISA apoia a elaboração e entrega de 15 Planos de Manejo Comunitários do Fogo ao PrevFogo, do Ibama
Resultado de cinco anos de trabalho na região do Alto Xingu, Território Indígena do Xingu (MT), o Instituto Socioambiental (ISA) entregou ao Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), do Ibama, um total de 15 Planos de Manejo Comunitários do Fogo. A entrega foi realizada no dia 13 de maio em assembleia do Instituto Aritana, no Polo Leonardo.
Equipes do Prevfogo, do Ibama, trabalham para controlar incêndio florestal no Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, em 2016|Vinícius Mendonça/Ascom/Ibama
O fogo é uma tecnologia milenar de manejo da paisagem, utilizado na roça de coivara, na limpeza de caminhos e aldeamentos, no preparo da comida, na coleta do mel, no aquecimento das casas, em técnicas de caça e em inúmeras outras atividades. No entanto, nos últimos anos, os incêndios florestais se tornaram um dos principais desafios enfrentados pelos povos xinguanos.
A entrega dos Planos de Manejo Comunitário do Fogo para o PrevFogo marca um novo momento na prevenção de incêndios dentro do Território Indígena do Xingu: a possibilidade de a política pública ser aperfeiçoada a partir do conhecimento e necessidades específicas dos povos indígenas.
“Os Planos de Manejo Integrado do Fogo, frutos do Mapeamento da Cultura do Fogo, que são produzidos de maneira participativa, revelam os saberes e fazeres das comunidades do Alto Xingu, quanto ao conhecimento tradicional associado ao uso, ou não uso, do fogo no território”, explica Marcos Guedes, técnico especialista em Manejo Integrado do Fogo do PrevFogo.
Para ele, a abordagem é muito exitosa em trazer o protagonismo comunitário como base para a efetiva promoção da gestão do fogo nos territórios. “Os Planos de Manejo Integrado do Fogo do Alto Xingu servirão de bússolas a apontar caminhos e soluções na árdua missão de conservação do território e prevenção aos incêndios florestais”, afirma.
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O Cacique Tapi Yawalapiti, presidente do Instituto Aritana, conduz a Assembleia|Iano Yawalapiti
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Ivã Bocchini, do ISA, entrega Planos de Manejo Comunitários do Fogo para Marcos Guedes, do PrevFogo|Iano Yawalapiti
Mudanças climáticas e adaptação
O trabalho começou em diálogo com aldeias do Rio Kuluene, principal rio formador do Xingu, onde moram indígenas dos povos Kalapalo e Kuikuro, principalmente. A região é caracterizada pela presença de campos naturais, uma vegetação adaptada ao fogo. No entanto, os indígenas têm sofrido com incêndios que começam nos campos, mas se descontrolam e queimam áreas de floresta.
Preocupados com a manutenção das condições de vida em suas comunidades, os xinguanos passaram a procurar o ISA para pensar novas estratégias de manejo do fogo. O trabalho resultou na elaboração dos mapas.
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Desenho do Plano de Manejo Comunitário da Aldeia Tangurinho|Emilton Paixão
"Estes planos abrange as diretrizes dos povos nativos que vivem no Território Indígena do Xingu. É gerido coletivamente por diversas etnias, como Kuikuro, Naruvotu, Tapayuna, Wauja, Kalapalo e Yudja. Suas frentes prioritárias incluem executar os planos de manejo comunitário do Xingu e mitigar os impactos das mudanças climáticas na região, com foco na restauração ecológica, manejo tradicional de roçados, recuperação de cultivos nativos, manejo sustentável e fomento a sistemas agroflorestais", explica Emilton Paixão, técnico do ISA que apoiou a elaboração dos Planos de Manejo.
O desmatamento crescente no entorno do território, o uso intensivo de agrotóxicos “secantes” nas lavouras de soja e milho e o secamento de nascentes e diminuição das águas fluviais tornaram a floresta mais seca e vulnerável ao fogo.
Antes, o fogo era mais brando, queimava lentamente uma pequena área e apagava naturalmente ao anoitecer ou ao encontrar uma porção de mata mais úmida. Agora, o fogo está “bravo” e avança descontroladamente sobre a floresta, degradando imensas áreas de mata. A floresta degradada pelo fogo se torna mais seca e mais suscetível à incêndios no ano seguinte, gerando um ciclo perverso de savanização da floresta amazônica.
Recursos estratégicos para a construção de casas, confecção de utensílios e artesanatos, coleta de frutas e plantas medicinais são destruídos, gerando prejuízos para as aldeias.
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Gráfico de área queimada no TIX ano a ano, com dados do Mapbiomas - Coleção 10|Ricardo Abad
“Este ano de 2026 será extremamente desafiador. O Xingu se prepara para um El Niño de seca intensa e altas temperaturas. O ISA seguirá junto com os povos do Xingu e suas instituições representativas, como a Associação Terra Indígena do Xingu (ATIX) e o Instituto Aritana, monitorando, avaliando e colaborando com o manejo do fogo e combate aos incêndios, ao lado dos agentes públicos do PrevFogo”, afirma Ivã Bocchini, coordenador-adjunto do programa Xingu do ISA.
A atuação do PrevFogo no Território Indígena do Xingu se caracteriza por duas estratégias fundamentais: ações de manejo e ações de combate. As primeiras, orientadas pelo Plano Nacional de Manejo Integrado do Fogo, ocorrem no período de maio a julho, quando a chuva diminui, mas a mata ainda está úmida, momento ideal para realizar queimas controladas, onde o fogo é tecnologia ancestral de manejo e conservação da floresta. s ações de combate a incêndios se estendem de agosto a outubro, no auge da estiagem, quando qualquer fogo precisa ser rapidamente detectado e apagado.
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Estudo divide Brasil em 48 zonas para orientar restauração de ecossistemas
Redário e parceiros lançam mapas das Zonas de Transferência de Sementes. O objetivo é aumentar a resiliência climática em plantios de espécies nativas no país
Como equilibrar a conservação da biodiversidade local com a necessidade de preparar os ecossistemas para um clima em transformação? No Brasil, milhões de árvores, arbustos e ervas são plantados todos os anos por iniciativas de restauração ecológica. Mas esses plantios amadurecerão em um cenário marcado pelas mudanças climáticas, crise hídrica e perda crescente da diversidade biológica. Um estudo científico inédito promovido pelo Redário e publicado pela revista Plants, People, Planet apresenta uma ferramenta estratégica para a implantação de plantios mais resilientes, elaboração de referências técnicas para subsidiar políticas públicas, protocolos e diretrizes nacionais para a restauração ecológica biodiversa e o enfrentamento da emergência climática.
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Frente às emergências climáticas, estudo do Redário apresenta ferramenta para implantação de plantios mais resilientes|Rodrigo Carvalho Gonçalves/Redário/ISA
Pela primeira vez, pesquisadores mapearam o Brasil em 48 Zonas de Transferência de Sementes (ZTS), que são regiões que compartilham climas e solos similares. Depois, essas mesmas ZTS foram projetadas no futuro, considerando cenários otimistas e pessimistas de mudanças climáticas. O cruzamento das projeções atual e futura indicará de quais localidades as sementes devem ser colhidas para terem mais chances de germinar, se desenvolverem bem e sobreviverem em cada local de plantio.
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Zonas de Transferência de Semente (ZTS) conforme o clima atual e com a projeção do clima esperado para 2100, segundo o modelo MPI-ESM1.2-HR|Silva et al., 2026
Oferta de sementes
Os resultados do estudo, conduzido pelo pesquisador Mateus Silva, da Universidade de Exeter, revelam que mais da metade do território brasileiro provavelmente enfrentará graves mudanças climáticas até o ano 2100 e que em muitas dessas ZTS ainda não há oferta de sementes nativas para o mercado.
“O Brasil concentra uma grande parcela de áreas prioritárias para restauração em escala global, mas até então não havia um sistema de zoneamento para orientar o fluxo de sementes desde o local de coleta até a área a ser restaurada, contrariando a tendência observada em outros países. Neste estudo, buscamos preencher essa lacuna e incorporar uma dimensão climática às zonas de sementes. Esperamos que este seja um primeiro passo para que o Brasil assuma um papel de liderança não apenas na restauração inclusiva, mas também na restauração resiliente às mudanças climáticas”, afirma Mateus Silva.
Por se tratar do primeiro trabalho dessa natureza desenvolvido para o Brasil, a expectativa dos parceiros - pesquisadores e restauradores de organizações nacionais e internacionais - é que o mapeamento das Zonas de Transferência de Sementes evolua nos próximos anos, promovendo debates, novas pesquisas científicas, conhecimentos locais e testes em campo com diferentes perspectivas territoriais e de escala.
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Encontro anual do Redário reúne coletores, técnicos, parceiros e convidados que conversam sobre restauração de ecossistemas|Caio Ferraz/Redário/ISA
“Esse mapa é fundamental porque conecta com inteligência climática e ecológica os territórios onde as sementes são coletadas e onde são plantadas. Nos faz evoluir sobre o paradigma de que a semente coletada no local sempre é a mais segura para um plantio, uma ideia que é muito presente globalmente, mas que estudos científicos têm mostrado que não é tão simples assim. Uma semente local, para performar bem, deve ser coletada até que distância do local do plantio? O mapa de Zonas de Transferência de Sementes no Brasil responde a essa pergunta de forma objetiva considerando o clima atual. A semente local é aquela coletada dentro da mesma ZTS atual do local de plantio e que, provavelmente, compartilha adaptações genéticas a esse mesmo clima. Já o mapa de ZTS que considera cenários de clima futuro orienta a compra de sementes nativas da ZTS do clima atual local e da ZTS do clima futuro ( 2060 ou 2100), em proporções a serem testadas, resultando em plantios com maior variabilidade genética para a resiliência climática, aumentando as chances de sucesso no longo prazo dos plantios no Brasil”, afirma Eduardo Malta, do Instituto Socioambiental (ISA) e coordenador do Redário.
Coletores
O Redário é uma articulação nacional, apoiada pelo ISA e outros parceiros, que atualmente conecta 37 redes e grupos coletores de sementes nativas em diferentes biomas brasileiros.
A articulação, hoje com mais de 3 mil coletoras e coletores, incluindo povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares (PIQCTAFs), incorporará as Zonas de Transferência de Sementes aos sistemas operacionais e de rastreabilidade, como ferramenta de apoio nas decisões sobre origem, oferta, demanda e fluxo de sementes entre territórios de atuação da articulação.
A plataforma digital em construção através de parceria entre o Redário, Mateus Silva, o Centro de Referência em Informação Ambiental (CRIA), Associação Nativas Brasil e o WWF-Brasil, disponibilizará publicamente informações georreferenciados das ZTS, além de mapas de ocorrência de 1.200 espécies nativas ofertadas atualmente pelo mercado de sementes e mudas. Também será possível saber em quais redes de sementes, viveiros e Zonas de Transferência estas espécies estão disponíveis.
A iniciativa tem o apoio da União Europeia, Fundação Good Energies, Instituto Clima e Sociedade, Bezos Earth Foundation, Itaú e Biomas Serviços Ambientais, Restauração e Carbono S.A.
Ciência para resiliência
Para Danielle Celentano, do ISA e membro do comitê gestor do Redário, “grandes iniciativas de restauração, políticas públicas e empresas do setor florestal têm aqui uma oportunidade concreta de liderar essa transformação e promover resiliência climática, alinhando ciência, prática e impacto em escala. Tudo isso favorecendo a economia da sociobiodiversidade e a conservação dos territórios”.
Outros
Denominadas como Seed Transfer Zones ou apenas Seed Zone no campo da restauração ecológica, as ZTS são utilizadas há bastante tempo em outros países, assim como na agricultura e silvicultura brasileiras, com a finalidade de orientar o trânsito de sementes entre regiões, embora sejam chamadas de nomes diferentes.
No Brasil, o setor florestal as denomina como Dendrozonas, Zonas Bioclimáticas ou Zonas de aptidão climática, enquanto o setor agrícola utiliza mapas como o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), publicado regularmente pelo governo federal para contratação de seguro rural.
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Comissão organizadora anuncia abertura das inscrições para a 48ª edição do Prêmio Vladimir Herzog
A partir de 20 de maio, jornalistas, repórteres fotográficos, escritores e artistas do traço já podem se inscrever no mais tradicional prêmio da imprensa brasileira. Vencedores serão conhecidos em 30 de setembro e premiação acontece no dia 20 de outubro
As inscrições para a 48ª edição do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos seguem abertas até o dia 20 de junho de 2026. O mais tradicional prêmio da imprensa brasileira reconhece jornalistas, repórteres fotográficos, escritores e artistas do traço que, por meio do trabalho cotidiano, defendem a democracia, a justiça e os direitos humanos.
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As inscrições estão abertas até o dia 20 de junho|Divulgação
De abrangência nacional, o PVH tradicionalmente recebe inscrições em sete categorias:
- Produção jornalística em texto: Reportagens em texto publicadas em veículos impressos ou eletrônicos
- Produção jornalística em áudio: Reportagens ou documentários em áudio
- Produção jornalística em vídeo: Reportagens ou documentários em vídeo Produção jornalística em multimídia: Reportagens multimídia publicadas na internet
- Fotografia: Foto ou série fotográfica publicada em veículos impressos ou eletrônicos
- Arte: Ilustrações, charges, cartuns, caricaturas e quadrinhos publicados em veículos impressos ou eletrônicos
- Livro-reportagem: obras editadas e lançadas no ano de 2025
Para concorrer, basta acessar a ficha de inscrição e seguir as orientações da plataforma. Para esta 48ª edição são aceitos trabalhos jornalísticos publicados ou veiculados no período compreendido entre 10 de junho de 2025 e 20 de junho de 2026. Na categoria livro-reportagem, serão aceitas inscrições de obras editadas entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2025.
Neste site os interessados podem conferir o Regulamento das sete categorias tradicionais de premiação (texto, vídeo, áudio, multimídia, foto, arte e livro reportagem) e o calendário da edição.
A taxa de R$60,00 (sessenta reais) por trabalho inscrito é uma forma de marcar o compromisso da sociedade e dos profissionais da Comunicação com essa premiação histórica. O valor arrecadado nessa Contribuição Solidária vai ajudar os organizadores a honrar os compromissos assumidos com parceiros e fornecedores envolvidos na construção de mais esta jornada.
Comissão organizadora e promotora
Desde a sua primeira edição, concedida em 1979, o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog presta homenagem a personalidades e profissionais da comunicação que se destacam na promoção dos direitos humanos fundamentais e celebra a vida e obra do jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado pela ditadura civil-militar no dia 25 de outubro de 1975 nas dependências do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo.
Desde 2023, na histórica edição de 45 anos, a premiação passou a ser organizada pelo Instituto Prêmio Vladimir Herzog, associação civil de direito privado, sem fins lucrativos ou político-partidários, fundada em novembro de 2022, em São Paulo. A entidade reúne 18 instituições da sociedade civil, além da família Herzog: Associação Brasileira de Imprensa (ABI); Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI); Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor); Artigo 19; Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo; Conectas Direitos Humanos; Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP); Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ); Geledés; Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB Nacional); Instituto Vladimir Herzog, Instituto Socioambiental (ISA); Ordem dos Advogados do Brasil – Secção São Paulo; Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo; Periferia em Movimento; Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo; Sociedade Brasileira dos Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e União Brasileira de Escritores (UBE).
O 48º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos tem o patrocínio da Petrobras, da Caixa e do Governo Federal por meio da Lei de Incentivo à Cultura. Atuam como parceiros institucionais a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), o Teatro da PUC, a TV PUC, a OBORÉ e a CDI Comunicação.
- Período de inscrições: 20 de maio a 20 de junho 2026.
- Sessão pública de julgamento e divulgação dos vencedores: 30 de setembro de 2026, quarta-feira, 14h, com transmissão ao vivo.
- Solenidade de Premiação: 20 de outubro de 2026, terça-feira, no Tucarena, em São Paulo
Neste ano, a cerimônia será antecedida da Roda de Conversa com os autores das produções premiadas e de visita ao Calçadão do Reconhecimento da Praça Memorial Vladimir Herzog - Rua Santo Antônio, 33, Bela Vista – São Paulo – SP, atrás da Câmara Municipal de São Paulo, em frente ao Terminal Bandeira.