Obras de Davi Kopenawa, Ailton Krenak e Nêgo Bispo estão na lista de melhores livros de não ficção do século 21
A Queda do Céu foi eleito o melhor livro na seleção do jornal Folha de S.Paulo; Ideias para Adiar o Fim do Mundo e Dar Terra à Terra reforçam presença indígena e quilombola no topo da literatura brasileira
O jornal Folha de S.Paulo elegeu “A Queda do Céu” como o melhor livro brasileiro de não ficção do século 21. A obra de Davi Kopenawa e Bruce Albert foi indicada por 23 dos 100 jurados que ajudaram a elaborar a lista.
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Em ritual durante a comemoração dos 30 anos da Terra Indígena Yanomami, o xamã Davi Kopenawa segura o céu na Aldeia Xihopi, Amazonas|Christian Braga/ISA
Lançado em 2010, originalmente em francês, “A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami” reúne reflexões de Davi Kopenawa, contadas ao amigo Bruce Albert, sobre o contato de seu povo com os não indígenas desde os anos 1960.
O livro do maior líder indígena yanomami, Davi Kopenawa, tem 768 páginas e foi publicado no Brasil em 2015 pela Companhia das Letras, com apoio da Hutukara Associação Yanomami (HAY) e do Instituto Socioambiental (ISA).
A Folha de S.Paulo afirma que o resultado da votação é “uma seleção de livros instrumentais para entender melhor o Brasil e o mundo de hoje, analisando como chegamos até aqui e sugerindo novos ângulos para mirar adiante”. O jornal descreve o livro como “a obra que marcou a disseminação do pensamento indígena no Brasil”.
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Davi Kopenawa Yanomami fala sobre o seu livro A Queda do Céu - Palavras de um xamã yanomami em roda de conversa do ISA, em 2015|Claudio Tavares/ISA
Em 2025, a obra já havia aparecido na lista de melhores livros de literatura brasileira em uma eleição organizada pela Folha de S. Paulo com 101 jurados, diferentes dos que participaram da lista atual.
“A Queda do Céu” inspirou o enredo da Salgueiro no desfile de 2024, denominado “Ya Temi Xoa” (Ainda Estamos Vivos, em tradução literal para o português) com um desfile que projetava a cosmovisão yanomami. Os bastidores e a festa resultaram em um filme, fruto de parceria entre o ISA e HAY, disponível no YouTube. Assista abaixo:
Além de ter se tornado um marco teórico e leitura obrigatória para a Antropologia contemporânea, o livro figura como obra de referência em diversas áreas do conhecimento e regiões do país – inclusive na própria Universidade Federal de Roraima (UFRR), uma das instituições em que Davi recebeu o título de doutor honoris causa. A Queda do Céu também vem inspirando pesquisadores indígenas na academia, como é o caso dos primeiros mestres yanomami, formados pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), na metodologia de suas dissertações de Mestrado.
Os exercícios de escrita colaborativa entre a liderança yanomami e o antropólogo não indígena que resultaram na obra foram iniciados há décadas, parte deles publicados na seção “Narrativas Indígenas”, da série Povos Indígenas no Brasil, do ISA. Confira Sonhos das origens/Descobrindo os brancos, narrativa publicada no ano 2000.
A obra também se desdobra em produções audiovisuais, como o curta-metragem “Mãri hi – A árvore do sonho”, do cineasta Mozarniel Yanomami – vencedor do Festival É Tudo Verdade em 2023 – e um longa-metragem com o mesmo nome do livro, lançado em 2024 após estreia no Festival de Cannes. O documentário é centrado no reahu - festa tradicional dos Yanomami - e apresenta a cosmologia do povo Yanomami, o mundo dos espíritos Xapiri pë, o trabalho dos xamãs para segurar o céu e curar o mundo das doenças produzidas pelos não-indígenas, o garimpo ilegal, o cerco promovido pelo povo da mercadoria e a vingança da Terra.
Autorias indígenas e quilombolas em destaque
Além de A Queda do Céu, outro livro de autoria indígena figura na lista do jornal: Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak. A obra deste que foi o primeiro escritor indígena a ter assento na Academia Brasileira de Letras (ABL), recebeu 17 votos e figura em 4º lugar na seleção.
No 21º lugar ficou a obra Dar terra à terra, de Nêgo Bispo, aclamado escritor e liderança quilombola do Quilombo do Saco-Curtume, no Piauí, falecido em 2023.
Entre os jurados votantes, estiveram especialistas como a psicóloga indígena Geni Nũnez, do povo Guarani, o jornalista não indígena Rubens Valente, além de pesquisadores não indígenas como Muniz Sodré, Tiganá Santana, Márcia Lima, Aparecida Vilaça, Débora Diniz, entre outros.
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Revista Aru nº 7 celebra trajetórias e saberes de mulheres indígenas do Rio Negro
Publicação reúne 21 textos de autoras do Brasil e da Colômbia, exalta a trajetória das mais velhas e reafirma o protagonismo feminino indígena na produção de conhecimento
A maloca Casa do Saber, da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), em São Gabriel da Cachoeira (AM), foi palco do lançamento da sétima edição da revista de pesquisa intercultural da Bacia do Rio Negro, Aru. Dedicada às mulheres indígenas da região e com caráter binacional, a edição reúne 21 textos de autoras indígenas e não indígenas do Brasil e da Colômbia, propondo uma reflexão ampla sobre o ser mulher na bacia do Rio Negro.
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Autoras e organizadora da Aru durante lançamento da sétima edição da revista|Vanessa Fernandes/ISA
Realizado nesta segunda-feira (27/04), o evento reuniu lideranças indígenas, estudantes e autoras em uma tarde marcada pela celebração, memória e reconhecimento da trajetória das mulheres rionegrinas, evidenciando o papel das mais velhas como precursoras do movimento indígena feminino na região – muitas vezes silenciadas ao longo da história.
Inspirada nas sociocosmologias indígenas da região, a publicação parte da ideia da mulher como agente de transformação, associada ao movimento, à renovação e à capacidade de recriar mundos. A edição articula gênero, território e identidade a partir de perspectivas interseccionais, reafirmando que as experiências das mulheres indígenas estão em constante transformação e só podem ser compreendidas em relação a dimensões sociais, culturais e políticas mais amplas.
Dulce Morais, assessora de gênero do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA) e uma das editoras desta edição, explica que o processo de construção da publicação partiu das próprias experiências das mulheres da região.
“No processo de organizar os textos, partimos dos múltiplos temas trabalhados e discutidos pelas mulheres indígenas do Rio Negro e também de quem caminha junto com elas, no intuito de ampliar os conhecimentos que circulam nas comunidades para um público maior, seguindo com o propósito da Aru”, afirmou.
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Capa da Revista Aru nº 7|Larissa Duarte, do Povo Tukano
Neste contexto, a assessora chama atenção, ainda, para o simbolismo da capa desta edição, ilustrada por Larissa Duarte, do povo Tukano. Produzida com tinta de urucum e técnica de aquarela, a arte traz a imagem da cobra-canoa, elemento central nas narrativas de origem da região.
A ilustração destaca que a travessia não é feita apenas por homens, mas também por mulheres, muitas vezes invisibilizadas nessas histórias. Representadas no interior da cobra-canoa, elas simbolizam a trajetória de formação da humanidade, ao longo da qual os povos foram aprendendo a benzer, caçar e curar, recebendo os conhecimentos que seguem vivos até hoje.
Organizada em seis eixos temáticos, a revista aborda desde participação política e economia indígena até saúde, violência contra mulheres, saberes tradicionais e mudanças climáticas, incluindo reflexões no contexto da COP30.
Durante o lançamento, cinco autoras compartilharam com o público os processos de escrita e as experiências que deram origem aos seus textos: Elizabete Moraes, Tukano, advogada e multiartista; dona Cecília Albuquerque, Piratapuia, liderança histórica e ex-coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas (Dmirn) da Foirn; Cleocimara Reis, Piratapuia, atual coordenadora; Rosijane Moura Tukano, doutoranda; e Carlinha Lins Yanomami, presidente da Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (Amyk), de Maturacá.
No início do evento, Dulce resgatou o significado de Aru nas narrativas de conhecedores de diferentes povos do Rio Negro: um personagem que avança de leste para oeste, remando rio acima, trazendo consigo o frio e o chuvisco que fertilizam as roças recém-plantadas com ideias e reflexões para fortalecimento das vozes indígenas na região.
Abrindo os diálogos da mesa de autoras, Cleocimara Reis ressaltou os avanços construídos ao longo dos anos pelo Departamento de Mulheres, especialmente no enfrentamento à violência de gênero e na ampliação da participação feminina nos espaços de decisão.
Segundo ela, as conquistas atuais são fruto de uma trajetória coletiva de luta e resistência. “Somos o sonho das mulheres que vieram antes da gente. Ocupamos todos os espaços que também são nossos”.
As falas evidenciaram que escrever para a revista, para muitas delas, foi também um exercício de memória, resistência e continuidade. Rosijane Moura destacou que seu texto nasce das histórias de outras mulheres que a formaram ao longo da vida.
“Hoje, eu sou formada por várias mulheres indígenas que eu tive a oportunidade de conhecer”, afirmou ela ao lembrar trajetórias marcadas por dificuldades, violência e também por saberes e ensinamentos transmitidos entre gerações.“Se hoje eu estou aqui, é graças a essas mulheres que enfrentaram, que sofreram, muitas vezes em silêncio”, completou durante a fala.
Já dona Cecília Albuquerque relembrou os primeiros anos de atuação do Dmirn, marcados por desafios e ausência de recursos. “Nós éramos as primeiras a enfrentar vários desafios, onde não tínhamos nada. Até bote e motor a gente tinha que carregar. Mas, com muito sacrifício, fizemos nosso trabalho”, contou.
Ela destacou ainda que uma das principais lutas foi pelo reconhecimento dos direitos das mulheres indígenas e pelo direito à fala: “Nós temos os mesmos direitos. Podemos não ter a mesma força, mas a nossa fala, a nossa inteligência é a mesma”.
A fala de Carlinha Yanomami trouxe o processo de criação da associação Kumirayoma, formada por mulheres Yanomami que buscavam conquistar espaço de participação. “A gente não tinha esse espaço. As reuniões eram decididas pelos homens e nós apenas ouvíamos”, relatou.
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Dona Cecília Albuquerque, Cleocimara Reis e Rosijane Moura em diálogo sobre a construção da Aru 7|Vanessa Fernandes/ISA
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Carlinha Yanomami, presidente da Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (Amyk)|Vanessa Fernandes/ISA
A partir da organização coletiva, ela contou, foi possível avançar em pautas fundamentais, como o enfrentamento à violência. “Hoje as mulheres estão conseguindo perceber o que é violência e falar sobre isso nas comunidades”.
Para Carlinha, o trabalho também envolve fortalecer as novas gerações e manter vivas as práticas culturais. “A cestaria não é apenas cestaria, ela é ancestralidade. Não podemos perder isso com a juventude”, finalizou.
A multiartista Elizabete Moraes destaca a escrita como forma de expressão sensível e política do feminino, conectada à memória, à espiritualidade e à relação com a natureza. “O feminino está em tudo, em todos os lugares”, afirmou.
Sua fala também reforçou a importância da imaginação e da escuta interna como caminhos de criação e afirmação identitária, especialmente para crianças e adolescentes presentes no evento.
Após a mesa de falas, o público participou com perguntas e comentários, em um momento de troca entre gerações. Em seguida, Janete Alves, do povo Desana, vice-presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro e ex-coordenadora do Departamento de Mulheres, ressaltou a importância da publicação como reconhecimento do trabalho e das pesquisas realizadas pelas mulheres indígenas, além de seu papel no fortalecimento do trabalho intercultural no Rio Negro.
O encontro foi encerrado com um café coletivo, mantendo o clima de acolhimento e celebração que marcou toda a tarde.
Esta publicação e evento de lançamento foram realizados pelo ISA, em parceria com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), com apoio da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), Aliança Pelo Clima (ApC) e TerrIndígena.
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Agenda interministerial debate processo de alcoolização no Rio Negro e articula ações de enfrentamento
Lideranças da Foirn, em parceria com o ISA, apresentam diagnóstico e pleitearam a criação de CAPS AD, ações de combate à violência de gênero e implementação de políticas de saúde mental específicas para os povos do Rio Negro
Durante a semana da 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL), lideranças indígenas do Rio Negro articularam uma agenda interministerial, em Brasília, para tratar de um dos temas mais urgentes enfrentados nos territórios: o avanço do uso prejudicial de bebidas alcoólicas e seus impactos nas comunidades indígenas e contextos urbanos.
A mobilização foi organizada pelo Departamento de Mulheres Indígenas (Dmirn) e pelo Departamento de Adolescentes e Jovens (Dajirn) da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), em reuniões com o Ministério da Saúde, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Ministério da Justiça.
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Delegação do Rio Negro realizou uma série de reuniões entre ministérios para tratar do avanço do uso prejudicial do alcool na região|Vanessa Fernandes/ISA
O objetivo dos encontros foi apresentar um conjunto de reivindicações construídas a partir da realidade vivida em São Gabriel da Cachoeira (AM) e fortalecer a articulação com o poder público para a construção de respostas integradas e adequadas às especificidades da região.
Na reunião com o Ministério da Saúde, realizada na última segunda-feira(06), o grupo foi recebido por representantes do Departamento de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas (Desmad) e da Coordenação-Geral de Saúde Mental e Direitos Humanos (CGSMDH). As lideranças apresentaram o documento com recomendações voltadas à prevenção, ao cuidado e ao fortalecimento das políticas públicas no território.
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Cleocimara Reis, coordenadora do Dmirn, alertou que o tema exige ações concretas de enfrentamento|Vanessa Fernandes/ISA
O material aponta que o uso prejudicial de bebidas alcoólicas tem se intensificado na região do Rio Negro, que compreende os municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, afetando tanto comunidades indígenas quanto contextos urbanos.
A ampliação do acesso a bebidas industrializadas, especialmente de baixo custo e alto teor alcoólico, tem contribuído para a transformação dos modos tradicionais de consumo e para o agravamento de situações de vulnerabilidade.
Entre os principais impactos relatados pelas lideranças durante o diálogo estão o aumento da violência interpessoal e doméstica com diversos casos de homicídios e feminicídios, o rompimento de vínculos familiares, acidentes e o agravamento de problemas de saúde mental, incluindo tentativas e suicídios consumados.
Cleocimara Reis, coordenadora do Dmirn, alertou para a urgência do tema diante do agravamento dos casos. “Não tem como esperar mais. Isso está avançando e quem perde somos nós, que perdemos nossos adolescentes e jovens. A bebida gera violência, gera suicídio, e isso tem nos preocupado muito”, destacou a liderança.
À frente do Dajirn, Jucimery Teixeira Garcia reforçou a gravidade da situação entre a juventude indígena, especialmente entre as meninas. “Quando a gente fala da juventude, é bastante preocupante. Principalmente quando se trata das meninas, com casos de gravidez precoce, abuso sexual e importunação. Muitas vezes, nós, enquanto povos indígenas, ainda temos dificuldade de identificar essas situações como vocês [não indígenas] identificam”, afirmou.
As lideranças chamaram a atenção ainda para os riscos enfrentados por quem denuncia e atua no enfrentamento do problema, sofrendo muitas vezes ameaças, perseguições e intimidações.
Entre os principais pontos solicitados pelas lideranças na reunião relacionada à saúde, destacou-se a necessidade de criação de uma política de enfrentamento, atendimento e acompanhamento específicos para povos indígenas, com o fortalecimento dos sistemas de informação sobre a alcoolização; a formação intercultural de profissionais de saúde; e a implantação de um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD) em São Gabriel da Cachoeira, mesmo que o município não atenda ao critério populacional para o dispositivo público.
Atuação interinstitucional para o enfrentamento
Na reunião com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), realizada na última terça-feira (07), o diálogo reforçou a necessidade de atuação do sistema de justiça no enfrentamento dos impactos associados ao consumo de álcool, especialmente no que diz respeito à proteção de crianças, adolescentes e mulheres.
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Lideranças Rionegrinas também tiveram reunião no CNJ, onde foram articuladas ações de enfrentamento ao uso abusivo de álcool na região|Vanessa Fernandes/ISA
O grupo foi recebido pelo coordenador de Gestão de Programas e Projetos do CNJ, Caio Henrique Faustino da Silva, e pelo juiz auxiliar da Corregedoria Nacional de Justiça, Rodrigo Gonçalves de Sousa, e resultou em encaminhamentos voltados ao fortalecimento da articulação institucional.
O juiz titular da Comarca de São Gabriel da Cachoeira, Manoel Átila Araripe Autran Nunes, também participou do encontro de forma remota e destacou a dimensão do problema no sistema de justiça local. “Eu acredito que cerca de 90% das ocorrências criminais em São Gabriel da Cachoeira acontecem no contexto de excesso de ingestão de bebida alcoólica”, afirmou.
Segundo o magistrado, a relação entre álcool e violência é ainda mais evidente nos casos envolvendo mulheres. “Nas audiências de violência doméstica, praticamente 100% dos casos [no mês de março] ocorreram com ingestão de bebida alcoólica. É uma situação muito preocupante”, relatou o juiz.
Ele também chamou atenção para a gravidade da exposição de crianças e adolescentes. “É muito grave quando a gente vê relatos de venda de bebida alcoólica para crianças e adolescentes. Isso precisa ser combatido com fiscalização e responsabilização”, reforçou.
A fala do juiz corrobora os relatos das lideranças indígenas, evidenciando como o processo de alcoolização é um grave problema de saúde e segurança pública, que se desdobra em múltiplas dimensões sociais, impactando diretamente a vida de meninas e mulheres indígenas, que frequentemente estão entre as principais afetadas pelas violências.
Entre os encaminhamentos definidos na reunião está a construção de um trabalho piloto interinstitucional voltado à prevenção e ao enfrentamento do uso abusivo de bebidas alcoólicas nos territórios, com a primeira ação prevista para a primeira quinzena de junho.
“A ideia é tratar o álcool primeiro como um problema de saúde pública, para que ele não se torne apenas um problema de polícia. A partir disso, conseguimos articular outras frentes, como infância e juventude e proteção às mulheres”, explicou Caio Henrique Faustino da Silva.
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No MJ, as lideranças falaram sobre proteção territorial e outros desafios enfrentados por povos indígenas do Rio Negro|Vanessa Fernandes/ISA
A agenda em Brasília foi encerrada com uma reunião no Ministério da Justiça nesta quarta-feira (08), onde o grupo foi recebido por representantes da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad) e da Secretaria Nacional de Acesso à Justiça (Saju).
Além das pautas relacionadas ao uso de álcool e seus impactos nas comunidades, o encontro também abordou questões de proteção territorial e a incidência de crimes em regiões de fronteira, contexto que agrava os desafios enfrentados pelos povos indígenas do Rio Negro.
A articulação interinstitucional durante o ATL reforçou o papel central das organizações indígenas e, especialmente, das lideranças femininas na formulação de propostas e na incidência política sobre temas que impactam diretamente seus territórios.
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Dulce Morais, do ISA, destaca que mobilização é para cumprimento de legislação e ações informativas|Nayra Sthefany/Rede Wayuri
Nos últimos anos, iniciativas lideradas por mulheres e jovens indígenas do Rio Negro já têm promovido debates, formações e estratégias de cuidado baseadas nos saberes locais. Um exemplo é a elaboração e publicação da cartilha “Cuidados com o uso de bebidas alcoólicas na região do Rio Negro”.
Esse material informativo vem sendo trabalhado nas comunidades por meio de rodas de conversa e ações de conscientização pelo Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (DSEI/ARN) e na área urbana, através de rodas de conversas e formações, pela equipe da Federação indígena e o ISA.
Dulce Morais, antropóloga e sanitarista do Programa Rio Negro do ISA, ressalta que as lideranças não reivindicam a proibição do uso de bebidas alcoólicas entre os povos indígenas da região, nem defendem abordagens estritamente repressivas. Segundo ela, o foco está no cumprimento da legislação vigente e na ampliação de medidas informativas que fortaleçam o acesso à informação e promovam um debate qualificado sobre o tema.
“As reuniões realizadas nos ministérios foram produtivas, pois permitiram compreender melhor a rede de profissionais e as instâncias envolvidas na temática. Também foi possível encaminhar parte das reivindicações apresentadas, o que representa um avanço importante no diálogo institucional”, afirma.
Ela destaca ainda que o processo já aponta para desdobramentos concretos: “Iniciamos a construção de um plano de trabalho, com a definição de ações alinhadas à realidade local, o que contribui para dar mais efetividade à implementação e ao acompanhamento das propostas discutidas”.
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COP15: Sítios Ramsar na Amazônia reforçam papel estratégico na proteção de espécies migratórias
Reconhecido desde 2018, o Sítio Ramsar do Rio Negro é o maior de águas pretas do mundo, com cerca de 12 milhões de hectares, e foi pauta na COP15 sobre Espécies Migratórias
As zonas úmidas da Amazônia estiveram no centro das discussões sobre estratégias para a conservação de espécies migratórias no Brasil. Durante dois debates realizados na 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias, especialistas reforçaram que proteger esses territórios exige fortalecer a governança local e reconhecer o papel das populações que vivem nessas áreas.
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Painel foi realizado no Espaço Brasil e destacou a governança territorial como um dos pilares da conservação|Vanessa Fernandes/ISA
Realizados nos dias 26 e 27 de março, os encontros abordaram desde a governança territorial até os desafios enfrentados por espécies migratórias em paisagens aquáticas cada vez mais pressionadas. Em comum, as discussões apontaram que a conservação depende da integridade dos ecossistemas e da participação ativa das comunidades.
O primeiro painel, realizado no Espaço Brasil (Zona Azul), trouxe experiências de Sítios Regionais da Amazônia, os sítios Ramsar no Rio Negro, no Juruá e no estuário da foz do Amazonas, evidenciando que a governança territorial é um dos pilares da conservação.
Nessas experiências, o monitoramento comunitário tem sido fundamental não apenas para registrar mudanças ambientais, mas também para fortalecer a autonomia dos territórios.
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Renata Alves, analista de geoprocessamento do ISA e membro do CNZU fala sobre a importância dos PGTAs|CCOM/ICMBio
As falas também evidenciaram que as mudanças nos padrões das espécies migratórias já são perceptíveis localmente. Alterações no comportamento de peixes e aves têm sido observadas com maior frequência, reforçando a urgência de ações integradas.
Neste contexto, o Agente Indígena de Manejo Ambiental (AIMA) Tiago Pacheco apresentou pesquisa intercultural na região do Rio Negro sobre aves migratórias nos ciclos anuais, onde se tem observado a redução no número de avistamentos na região, que pode estar relacionada às mudanças climáticas.
Participaram da mesa Renata Alves, ecóloga e analista de geoprocessamento do Instituto Socioambiental (ISA) e membro do Comitê Nacional de Zonas Úmidas (CNZU), Gabriela Soeiro, do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Sociobiodiversidade Associada a Povos e Comunidades Tradicionais (CNPT/ICMBio), Selma Ribeiro, do Centro Nacional de Pesquisa em Biodiversidade e Restauração Ecológica (CBC/ICMBio), Tiago Pacheco, AIMA do Rio Negro, e Guillermo Estupiñán, da Wildlife Conservation Society (WCS)
Reconhecido desde 2018, o Sítio Ramsar do Rio Negro é a maior zona úmida de águas pretas de importância internacional do mundo, com cerca de 12 milhões de hectares. A área abrange um mosaico de oito terras indígenas e unidades de conservação municipal, estadual e federal, localizados no noroeste amazônico, formando um dos maiores contínuos de florestas e rios preservados do planeta. A alta diversidade biológica da região inclui animais em extinção como o peixe-boi-da-Amazônia e o boto-cor-de-rosa.
Segundo Renata Alves, o processo de governança do sítio está diretamente relacionado à articulação com os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) das terras indígenas que compõem esse território. Esses instrumentos, elaborados pelos povos indígenas, orientam o uso, a proteção e o manejo dos recursos naturais.
“A governança neste sítio não começa do zero, ela se baseia em instrumentos que já existem e que expressam como os povos querem cuidar dos seus territórios”, destaca.
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Sítio Ramsar do Rio Negro é a maior zona úmida de águas pretas do mundo|Renata Alves/Rio Negro
Conectividade ecológica
No segundo painel, que discutiu paisagens aquáticas e suas vulnerabilidades e oportunidades, realizado pelo ISA, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), especialistas destacaram que espécies migratórias dependem de grandes áreas conectadas para sobreviver.
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Pesquisador Carlos Durigan (Ipam) dividiu painel sobre paisagens aquáticas, suas vulnerabilidades e oportunidades com Renata Alves (ISA)|Vanessa Fernandes/ISA
A fragmentação de habitats, causada por desmatamento, mudanças hidrológicas e grandes obras de infraestrutura, foi apontada como uma das principais ameaças à biodiversidade. “As espécies migratórias precisam de continuidade. Quando você rompe essa conectividade, você compromete todo o ciclo de vida dessas espécies”, alerta Jochen Schongart, pesquisador do INPA.
Ao mesmo tempo, os Sítios Ramsar foram apresentados como uma oportunidade estratégica para integrar conservação, ciência e políticas públicas, ampliando a visibilidade internacional dessas áreas e organizando esforços de conservação em larga escala.
Nesse contexto, especialistas também chamaram atenção para o papel das florestas públicas não destinadas na Amazônia, que somam cerca de 50 milhões de hectares e ainda aguardam definição fundiária por parte dos governos. Sem destinação, essas áreas permanecem altamente vulneráveis à grilagem e ao desmatamento.
“A destinação dessas florestas é uma agenda urgente. É uma oportunidade concreta de reduzir a pressão sobre a Amazônia e, ao mesmo tempo, garantir conectividade ecológica em larga escala”, destacou Carlos Durigan, pesquisador do Ipam.
Segundo ele, a criação de unidades de conservação, o reconhecimento de territórios tradicionais, como indígenas e quilombolas, e outras formas de uso sustentável podem transformar essas áreas em corredores ecológicos estratégicos, fundamentais para a manutenção dos fluxos das espécies migratórias e para a proteção das zonas úmidas no país.
Os Sítios Ramsar são áreas úmidas reconhecidas internacionalmente por sua importância para a conservação da biodiversidade. O título é concedido no âmbito da Convenção de Ramsar, um acordo global criado em 1971 para promover a proteção e o uso sustentável desses ecossistemas.
As zonas úmidas incluem ambientes como rios, lagos, áreas alagadas, manguezais e florestas inundáveis, que são ecossistemas fundamentais para a conservação da água, do clima e da vida silvestre.
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COP15: conhecimento indígena revela rotas e alterações na migração de aves no Rio Negro
Resultados iniciais de pesquisa intercultural sobre aves migratórias nos ciclos anuais foram apresentados em evento organizado pelo ISA no espaço Conexão sem Fronteiras, durante a 15ª COP sobre Espécies Migratórias
De acordo com a cosmologia dos povos Koripako e Baniwa da bacia do Rio Içana, a queda das folhas anuncia a chegada do inverno no alto Rio Negro – fenômeno que ocorre na região a partir de maio. É nesse período que algumas aves grandes, como cabeças-seca, garças e cararás, iniciam sua jornada migratória, subindo do mar (leste) para fazer um dabucuri para sua tia, Wenia, que vive na serra de Kodamadali, no alto Rio Uaupés. Elas levam materiais para a reforma de sua maloca.
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Tiago Pacheco, professor e pesquisador Koripako; Aloísio Cabalzar, antropólogo do ISA; e Mario Cohn-Haft, ornitólogo do Inpa|Vanessa Fernandes/ISA
Essa é uma das explicações dos conhecedores indígenas para os movimentos migratórios de algumas aves por seu território. O conhecimento sobre aves migratórias integra as pesquisas sobre os ciclos de vida conduzidas pelos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) no Médio e Alto Rio Negro, região localizada no noroeste do Amazonas, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela.
Os resultados iniciais foram apresentados em evento organizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), no espaço Conexão sem Fronteiras, durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), que acontece até 29 de março de 2026, em Campo Grande (MS).
O encontro reúne governos, cientistas e organizações da sociedade civil para debater estratégias globais de conservação da fauna migratória. Participaram da atividade Aloisio Cabalzar, antropólogo do ISA e coordenador da pesquisa intercultural no Rio Negro; Tiago Pacheco, professor e pesquisador Koripako; e Mario Cohn-Haft, ornitólogo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
Os AIMAs monitoram eventos ligados à migração e à reprodução de 18 espécies de aves na região. Além dos deslocamentos, os agentes classificam as observações entre registros ocasionais, presença de ovos e ocorrência de filhotes. O conjunto de dados analisado reúne cerca de 34.812 registros de mais de cem espécies na região do Rio Negro feitos em aplicativo ODK próprio utilizado pelos agentes indígenas.
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Tiago Pacheco apresentou a pesquisa sobre aves migratórias na região do Rio Negro pela pespectiva do povo Koripako-Baniwa|Vanessa Fernandes/ISA
Ainda de acordo com a narrativa dos mais velhos, conta Tiago Pacheco, as penas mais longas nas asas de garças e cabeças-secas são semelhantes ao koyape – folhas de uma espécie de palmeira utilizadas na cobertura das malocas. Após passarem meses com a tia, contribuindo para a reconstrução da casa, as aves retornam ao seu habitat no leste, quando o verão já prevalece na região.
Há também as oolio, uma espécie de andorinha cujos bandos caem no rio e se transformam em cardumes de peixe toloya no início do inverno. Já as waliperhe, outra espécie de andorinha, se transformam no mesmo peixe no meio da estação, entre junho e julho.
Pacheco contou que agora os agentes indígenas estão aprofundando a pesquisa sobre as aves, envolvendo também os estudantes do ensino médio da escola da comunidade Bela Vista, no Médio Içana, onde ele leciona. Além de observar, anotar e analisar os dados, as informações são discutidas com os conhecedores mais velhos.
Para os povos Koripako e Baniwa, as aves migratórias se reproduzem em áreas úmidas (llanos) na Venezuela. “Sempre no início do inverno elas voam bem alto e, de lá, seguem para outras regiões do Brasil. Voam alto para facilitar a viagem longa e costumam procurar as cabeceiras dos rios”, explica Tiago.
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Ilustração sobre a migração de aves observado pelos AIMAs|Ismael dos Santos/AIMA
Um dos pontos levantados pela pesquisa, segundo Pacheco, é a redução no número de avistamentos na região, que pode estar relacionada às mudanças climáticas. “As aves se conectam com o clima da região, dependem muito das estações do ano, inverno e verão. Atualmente, aparecem de vez em quando, porque as estações estão variando e não acontecem sempre no período esperado. Com isso, as aves migratórias estão cada vez menos presentes na região”, afirma. Essa afirmação coincide com o que vem sendo observado e registrado pelos AIMAs em seus diários.
Entre as espécies que mais costumavam ser avistadas estão o carará (wanali), a garça-grande (maali), o socó-dorminhoco (walha), o socozinho (pitshaaro), o martim-pescador grande e pequeno (dzaaliro), a tesourinha (kamawaapa) e a andorinha que cai na água (oolio). Segundo os pesquisadores, essas aves ainda migram, mas em menor número.
Aloisio Cabalzar explica que na pesquisa sobre os ciclos anuais, os AIMAs observam e registram uma ampla diversidade de fenômenos relacionados aos ciclos anuais e à dinâmica socioambiental do território. Entre eles estão a presença, ausência e intensidade das chuvas; o nível dos rios; o nome das constelações que marcam cada período; as estações do ano; revoadas de insetos; o canto e a reprodução de sapos e rãs; a migração e reprodução de mamíferos e aves, entre outros.
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Aloísio Cabalzar, antropólogo do ISA, falou sobre o trabalho de pesquisa intercultural realizado em parceria com os AIMAs no Rio Negro|Vanessa Fernandes/ISA
Segundo o antropólogo, a análise específica sobre as aves migratórias ainda está em estágio inicial. Nesse contexto, levar o tema para discussão durante a COP15 também representa uma oportunidade de refletir sobre caminhos possíveis para o aprofundamento da análise e interpretação dos dados desse fenômeno que abrange várias regiões (e países) onde se desenvolvem as diferentes fases da vida das aves. Inclui a construção de protocolos de coleta mais completos, buscando conexões com outros grupos de pesquisa.
“A pesquisa intercultural é uma metodologia para abordar temas complexos e interescalares, que são observados pelos moradores das comunidades e pelos pesquisadores indígenas, mas que envolvem um âmbito espacial mais amplo, e que podem ser melhor compreendidos conectando-se com conhecimentos produzidos mais amplamente”, pondera Aloisio.
Mario Cohn-Haft destacou que a região conhecida como “encostada” funciona, na prática, como uma tríplice fronteira ecológica entre Brasil, Colômbia e Venezuela, que é muito anterior às divisões políticas atuais. “Essas fronteiras que hoje regem tanto as nossas vidas nunca foram relevantes para esses povos”, afirmou.
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Mario Cohn-Haft, ornitólogo do Inpa, destacou que oportunidades para estudos de migração de espécies na tríplice fronteira|Vanessa Fernandes/ISA
Segundo ele, o conhecimento indígena sobre os llanos da Venezuela, que são áreas de cerrado sazonalmente alagadas, semelhantes ao Pantanal, ajuda a explicar a origem de espécies como a garça, cabeça-seca e outras aves que aparecem no Rio Negro.
Para o pesquisador, esse diálogo entre saberes aponta caminhos ainda pouco explorados pela ciência. “A gente não tem essa tradição de pesquisa integrada com a Colômbia e a Venezuela, mas vocês já carregam esse conhecimento”, disse. Ele defende que o atual contexto de maior articulação internacional pode abrir oportunidades para avançar nesses estudos, aprofundando investigações sobre rotas migratórias e fortalecendo cooperações transfronteiriças até então pouco desenvolvidas.
Presente entre o público do evento, a secretária de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Rita Mesquita, chamou atenção para os impactos silenciosos das mudanças ambientais sobre as espécies migratórias na Amazônia e destacou o papel fundamental das populações que vivem nos territórios na produção de registros e conhecimentos.
Segundo ela, eventos extremos, como secas em níveis inéditos na bacia amazônica, têm alterado profundamente as condições de vida dessas espécies, que dependem diretamente da relação com rios e áreas úmidas. “O que está mudando? O que está sumindo?”, questionou, ao enfatizar a importância de observar e documentar essas transformações.
Para a secretária, ainda há pouco monitoramento sobre esses impactos, o que reforça a necessidade de aprimorar protocolos de observação e produzir registros mais detalhados. Ela ainda destacou o valor do conhecimento de quem está na floresta e a importância da memória para identificar mudanças ao longo do tempo, além de apontar a relevância de conceitos como o de “migrações curtas”, apresentado na pesquisa dos AIMAs, dentro da Amazônia, ainda pouco estudados e documentados.
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Apagões persistem em São Gabriel da Cachoeira (AM) e justiça aponta falhas graves no sistema de energia
“Cada hora de apagão representa um risco concreto à vida e à integridade física dos cidadãos”, aponta a decisão judicial que determina medidas para o restabelecimento do fornecimento regular e ininterrupto
Há cerca de 10 dias, moradores de São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas, enfrentam constantes desligamentos de energia elétrica, que têm provocado prejuízos financeiros, suspensão de aulas e indisponibilidade de sinal de telefone e internet na cidade. Este já é o segundo período de “alívio de carga programado” em menos de dois meses.
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Moradores pedem soluções definitivas para os apagões recorrentes em São Gabriel da Cachoeira (AM)|Coletivo Energia Digna/Divulgação
Entre janeiro e março, também foram frequentes os desligamentos aos finais de semana, com duração de quatro a cinco horas, sob a justificativa de manutenção para “melhorias na rede”. Na prática, porém, o que se observa é uma piora gradual da situação.
Um grupo de WhatsApp com mais de mil participantes acumula relatos de prejuízos, com danos a eletrodomésticos, como geladeiras, máquinas de lavar, além de televisores e antenas de internet via satélite. No período da tarde, quando ocorre a maioria dos desligamentos, alunos têm sido liberados mais cedo e as aulas suspensas. Com a indisponibilidade do sinal de internet e telefone, os pais, muitas vezes, sequer conseguem ser avisados.
Outra reclamação recorrente diz respeito aos cronogramas de desligamento, que não são cumpridos, resultando em interrupções mais longas do que o previsto ou fora dos horários informados.
Mobilização
O coletivo Energia Digna, formado por moradores do município, tem realizado uma série de mobilizações em busca de esclarecimentos e soluções para os constantes apagões. Uma das manifestações ocorreu na orla da cidade, no dia 17 de março, e uma carreata foi realizada no dia 19, percorrendo ruas dos bairros Areal e Centro até a Câmara Municipal.
O grupo foi convidado por vereadores para uma reunião e, durante o encontro, um representante da VP FlexGen, empresa responsável pela geração de energia no município, participou por meio de ligação telefônica. Segundo ele, a usina atualmente opera abaixo da capacidade necessária para atender à demanda do município.
De acordo com o relato, o representante teria indicado que uma das soluções seria a conclusão da usina fotovoltaica. No entanto, a obra foi embargada em abril de 2025 após ação da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM), que ajuizou processo contra a VP FlexGen por contaminação de igarapés que abastecem a comunidade ribeirinha Amazonino Mendes, vizinha à obra.
O coletivo afirma que, diante da falta de respostas efetivas, os moradores buscam ampliar o diálogo com organizações da sociedade civil em busca de soluções para a crise. “A gente quer reunir organizações que tenham interesse em ajudar e construir, quem sabe, uma solução definitiva para isso. A ideia agora é dialogar com as instituições e tentar uma conversa com a própria empresa, mas até o momento não conseguimos”, relata um dos representantes.
Nova Ação Civil Pública
No dia 18 de março, Defensoria Pública e Ministério Público do Estado do Amazonas protocolaram uma Ação Civil Pública (ACP) solicitando que VP FlexGen e Amazonas Energia – responsáveis pela geração e distribuição de energia, respectivamente,– adotem medidas para assegurar o restabelecimento do fornecimento regular e ininterrupto.
Ao analisar o caso, o juiz Manoel Átila Nunes, titular da Comarca de São Gabriel da Cachoeira, apontou falhas estruturais graves na operação do sistema. Segundo a decisão, é “inadmissível” que o grupo gerador G05 esteja indisponível desde 19 de dezembro de 2025 e o G03 desde 20 de janeiro de 2026, o que demonstra a ausência de reserva técnica na usina.
Para o magistrado, essa fragilidade operacional faz com que falhas pontuais, como a ocorrida em um transformador no dia 29 de janeiro deste ano, tenham consequências “catastróficas para a coletividade”.
A decisão também destaca que a crise enfrentada em 2023 serve como parâmetro histórico de reincidência, indicando negligência logística e operacional por parte das empresas, especialmente no que diz respeito à manutenção de estoques mínimos de combustível e à prevenção de colapsos previsíveis.
O juiz ainda enfatiza que o risco da demora na adoção de medidas é evidente. Em um município de logística complexa como São Gabriel da Cachoeira, a falta de energia elétrica compromete diretamente o funcionamento do Hospital de Guarnição, o único de urgência e emergência da cidade, a conservação de vacinas e alimentos, o abastecimento de água potável, a segurança pública e as atividades educacionais.
“Cada hora de apagão representa um risco concreto à vida e à integridade física dos cidadãos”, aponta a decisão, ao destacar a violação ao mínimo existencial e ao princípio da dignidade da pessoa humana.
Na ação também foi solicitada a apresentação de um plano detalhado de contingência e manutenção, a adoção de medidas estruturais para evitar novos apagões e a condenação das empresas ao pagamento de indenização por danos morais coletivos, em valor não inferior a R$ 5 milhões, além da reparação dos prejuízos individuais sofridos pelos consumidores.
No início de 2024, o titular da Vara Única da Comarca já havia homologado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), no âmbito de outra ACP, estabelecendo obrigações para prevenir uma nova crise no fornecimento de energia.
A reportagem procurou representantes da VP FlexGen e da Amazonas Energia, mas não obteve resposta. Em uma nota encaminhada à Prefeitura de São Gabriel da Cachoeira e publicada nas redes sociais do órgão, a Amazonas Energia informou que os desligamentos foram causados pela indisponibilidade de grupos geradores da usina termelétrica independente de energia (PIE) VP FlexGen.
O Programa Energias da Amazônia, instituído pelo Decreto nº 11.648, em 2023, busca modernizar o fornecimento de eletricidade para cerca de três milhões de pessoas que vivem em sistemas isolados nos nove estados da Amazônia Legal, entre eles, o Amazonas. Atualmente, essas populações dependem majoritariamente de termelétricas a óleo diesel, como a VP FlexGen, que já se consolidou como um modelo caro, poluente e instável, que compromete a qualidade dos serviços públicos. Com investimentos estimados em R$ 5 bilhões, a iniciativa visa reduzir em 70% o uso desse combustível fóssil até 2030, substituindo-o por fontes de energia limpa, renovável ou pela interligação ao Sistema Interligado Nacional (SIN).
A transição energética é fundamental para promover o desenvolvimento socioeconômico e a resiliência das comunidades locais, garantindo maior segurança no abastecimento e reduzindo os impactos ambientais. Além de melhorar a vida dos moradores, o programa tem um papel estratégico no combate às mudanças climáticas, com a meta de evitar a emissão de 1,5 milhão de toneladas de dióxido de carbono até o fim da década.
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Nota de pesar por Israel Serafim Santos, agente da Força Nacional
Conforme a Casa de Governo em Roraima, Israel morreu durante operação na Terra Indígena Yanomami
O Instituto Socioambiental (ISA) lamenta a morte de Israel Serafim Santos, agente da Força Nacional de Segurança Pública que atuava em operação de combate ao garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami.
Conforme a Casa de Governo, Israel atravessava o Rio Uraricaá durante o trabalho quando se afogou, tendo sido encontrado no sábado (21).
Israel era soldado da Polícia Militar da Bahia e, segundo o Governo Federal, atuava na corporação desde 2011. Ele ingressou na Força Nacional em 2023 e atuou em operações de desintrusão nas Terras Indígenas Apyterewa e Trincheira Bacajá, no Pará.
Neste momento de tristeza, o ISA se solidariza com os dois filhos de Israel, os familiares, os amigos e os colegas de trabalho. Também agradecemos o comprometimento do agente de segurança com as ações de proteção ao meio ambiente e povos indígenas.
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ISA leva pesquisas interculturais do Rio Negro à COP15 sobre Espécies Migratórias
Experiências levadas ao evento articulam conhecimentos indígenas, conservação de paisagens aquáticas e governança territorial em Sítios Ramsar da Amazônia
O Instituto Socioambiental (ISA) participa da 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), que acontece de 23 a 29 de março, em Campo Grande (MS), levando três frentes de atuação: a pesquisa intercultural com povos indígenas, a conservação de paisagens aquáticas e a governança territorial em Sítios Ramsar na Amazônia.
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Evento evidencia o papel dos povos indígenas do Rio Negro na produção de conhecimento sobre ciclos ecológicos e na gestão de seus territórios|Ismael dos Santos/AIMA
A participação tem início no dia 24 de março, às 16h, com a atividade “Espécies migratórias no Médio e Alto Rio Negro: conhecimentos e práticas de manejo indígena no Noroeste Amazônico”, no Espaço Conexão Sem Fronteiras, no Parque Estadual das Nações Indígenas. A proposta evidencia o papel dos povos indígenas da região – que abrange territórios no Brasil, Colômbia e Venezuela – na produção de conhecimento sobre ciclos ecológicos e na gestão de seus territórios.
A atividade apresenta a experiência da rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs), que há duas décadas monitora fenômenos como a migração e reprodução de peixes, aves e mamíferos, articulando essas dinâmicas a observações climáticas e aos ciclos anuais da floresta.
Os dados sistematizados pelos próprios pesquisadores indígenas contribuem para o entendimento das dinâmicas ecológicas e para o monitoramento das mudanças ambientais na região. O AIMA Tiago Pacheco, do povo Koripako, da região do Rio Içana, também participa da mesa ao lado de outros pesquisadores.
O ISA também integra a mesa “Paisagens aquáticas, vulnerabilidades e oportunidades: fortalecendo áreas protegidas e Sítios Ramsar para a conservação de espécies migratórias no Brasil”, no dia 27 de março, às 9h, em colaboração com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).
O debate busca construir uma agenda de ações voltadas à conservação de áreas úmidas e paisagens aquáticas, fundamentais para a biodiversidade e a conectividade ecológica, frente a pressões como desmatamento, fogo, mineração e eventos climáticos extremos.
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Experiência de governança participativa do Sítio Ramsar do Rio Negro também será apresentada durante evento na COP15|Renata Alves/Rio Negro
Complementando essa agenda, o ISA participa ainda do evento “Governança Territorial e Conectividade Ecológica: estratégia integrada nos Sítios Ramsar do Rio Negro, Juruá e do Estuário da Foz do Amazonas e seus Manguezais”, no dia 26 de março, às 15h45, no Espaço Brasil (Zona Azul).
A atividade apresentará experiências de governança territorial baseadas em arranjos participativos e articulação interinstitucional, evidenciando contribuições para a manutenção da conectividade ecológica e a conservação de habitats críticos para espécies migratórias.
COP15
A COP15 integra a Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS), um tratado ambiental das Nações Unidas firmado em 1979, em Bonn, que parte do princípio de que os animais migratórios não reconhecem fronteiras nacionais. Por isso, sua conservação depende de ações coordenadas entre países ao longo de suas rotas e ciclos de vida.
As espécies abrangidas pela Convenção são organizadas em dois anexos: o Anexo I reúne aquelas ameaçadas de extinção, que demandam medidas rigorosas de proteção, como a conservação de habitats e a redução de barreiras às migrações; e o Anexo II inclui espécies que requerem cooperação internacional por meio de acordos de gestão compartilhada.
Realizadas a cada três anos, as Conferências das Partes são o principal espaço de decisão da CMS, reunindo 132 países e a União Europeia para definir prioridades, revisar medidas de conservação e avaliar a inclusão de novas espécies nos anexos do tratado.
Entre os resultados esperados estão também a análise do progresso das Ações Concertadas, que são as iniciativas coordenadas entre países, além da construção de acordos regionais e declarações políticas que reforçam o compromisso global com a conservação da biodiversidade.
A realização da COP15 no Brasil, próximo ao Pantanal, um bioma estratégico para espécies migratórias e atualmente sob forte pressão de mudanças climáticas e incêndios, reforça a urgência de avançar em soluções integradas para a proteção desses ecossistemas e de suas espécies.
ISA na COP15
Espécies migratórias no Médio e Alto Rio Negro: conhecimentos e práticas de manejo indígena no Noroeste Amazônico 24 de março, terça-feira 16h – 17h Auditório Arara Azul - Espaço Conexão Sem Fronteiras - Parque Estadual das Nações Indígenas
Governança Territorial e Conectividade Ecológica: estratégia integrada nos Sítios Ramsar do Rio Negro, Juruá e do Estuário da Foz do Amazonas e seus Manguezais 26 de março, quinta-feira 15h45 - 16h35 Espaço Brasil – Zona Azul
Paisagens aquáticas, vulnerabilidades e oportunidades: fortalecendo áreas protegidas e Sítios Ramsar para a conservação de espécies migratórias no Brasil 27 de março, sexta-feira 9h – 10h Sala Tululú - Espaço Conexão Sem Fronteiras - Casa do Homem Pantaneiro
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Rede de Sementes dos Coletores da Serra da Lua promove ciclo de palestras com alunos indígenas em Roraima
Lideranças da comunidade e analistas do Instituto Socioambiental falaram com estudantes sobre a Terra Indígena Yanomami, a Usina Hidrelétrica de Bem-Querer e restauração ecológica
O Instituto Socioambiental (ISA) e comunidades da região da Serra da Lua promoveram um ciclo de palestras com alunos da Escola Estadual Indígena Edmilson Lima Cavalcante na comunidade Tabalascada, localizada na terra indígena de mesmo nome, em Roraima, na manhã da última a terça-feira (17/03).
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Ciclo de palestras ocorreu na Terra Indígena Tabalascada, em Roraima, com a presença de estudantes, lideranças e analistas do ISA|Fabrício Araújo/ISA
A ação faz parte das atividades desenvolvidas pela Rede de Sementes dos Coletores da Serra da Lua (Ressel). Três analistas do ISA em Roraima apresentaram as palestras que tiveram como temas: garimpo illegal na Terra Indígena Yanomami, a proposta de construção da hidrelétrica de bem-querer e os trabalhos da Ressel.
Lídia Montanha, coordenadora-adjunta do Programa Rio Negro em Roraima, apresentou aos estudantes um panorama sobre o garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami. O território foi alvo de invasão massiva de garimpeiros entre 2019 e 2022. O período também foi marcado por desestruturação da saúde e explosão de casos de malária e desnutrição, além de mortes de crianças por doenças facilmente tratáveis, como gripe.
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Lídia Montanha apresentou um panorama do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, que causou explosão de casos de malária e desnutrição|Fabrício Araújo/ISA
“Nos últimos anos, o governo tem atuado fortemente para retirar os invasores. Há várias operações para prender quem garimpa ilegalmente, destruir maquinários e fiscalizar nas Bases de Proteção que foram criadas”, disse Montanha durante a palestra.
Ciro Campos, analista do ISA, explicou aos alunos sobre os possíveis impactos da Usina Hidrelétrica Bem Querer. Esta usina começou a ser materializada em 2007, e seria uma das menos eficientes do Brasil, precisando alagar cerca de 80 hectares para cada megawatt gerado.
Ainda de acordo com Campos, há quatro hidrelétricas planejadas e a de Bem-Querer é só o projeto mais conhecido. Ele aponta ainda que o projeto consegue desagradar a grupos diversos porque afeta bandeiras comuns mesmo a grupos opostos.
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Ciro Campos também se apresentou falando sobre os possíveis impactos da Usina Hidrelétrica Bem Querer|Fabrício Araújo/ISA
“Eu acho que tem poucas coisas em Roraima que conseguem unir pessoas diferentes e o Rio Branco é uma delas”, disse Campos ao exemplificar um dos locais que seria afetado pela usina.
Para finalizar o ciclo de palestras, Emerson Cadete, analista do ISA que atua na Rede de Sementes da Serra da Lua (Ressel), explicou a implementação do projeto em Roraima e as atividades que foram realizadas até então.
Emerson, que é carinhosamente conhecido como Sementinhas, explicou o método da muvuca, lembrou que a rede de sementes fez capacitações para os coletores, além de promover intercâmbio com a rede do Xingu.
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Emerson Sementinhas finalizou o ciclo de palestras falando sobre a Rede de Sementes da Serra da Lua (Ressel)|Fabrício Araújo/ISA
“Uma das coisas que vai beneficiar a comunidade é que a Casa de Sementes vai receber energia solar. Esta energia vai beneficiar tanto os pais de vocês, quanto o trabalho com as sementes. E tudo isso fortalece a governança da comunidade”, disse o técnico em produção de sementes.
Esta etapa do ciclo de palestras encerrou junto ao fim das aulas do período matutino da escola e os estudantes seguiram para um almoço coletivo na comunidade Tabalascada.
O Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (PREVFogo) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) também participou do evento.
A brigada formada pelos indígenas das comunidades da Terra Indígena Tabalascada palestraram sobre o trabalho que desenvolvem na região, a importância das queimas prescritas e consequências de incêndios criminosos. Estas brigadas têm o trabalho apoiado pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR).
Os professores e lideranças apresentaram o ponto de vista do movimento indígena sobre os temas e estimularam o debate com os estudantes após o fim das palestras.
Esta atividade de educação socioambiental foi apoiada com recursos doados pelo Cultures of Resistance Foundation. A Ressel também conta com o apoio do Amazon Investor Coalition.
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Mulheres Yanomami e Ye’kwana discutem parto, saúde e violência em oficina de Direitos Humanos
Atividade promovida pela Universidade Federal de Minas Gerais e ISA também incluiu reflexões sobre juventude e abuso de álcool
Mulheres da Terra Indígena Yanomami estiveram reunidas em Boa Vista participando de uma oficina de Direitos Humanos promovida pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com apoio do Instituto Socioambiental (ISA) entre 26 de janeiro e 06 de fevereiro.
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A oficina de Direitos Humanos para mulheres na TI Yanomami refletiu, entre outras pautas, sobre questões da cidade que afetam o território|Fabrício Araújo/ISA
Durante a atividade, as yanomami e ye’kwana refletiram sobre condições de parto na cidade, violência nas comunidades e, principalmente, sobre a relação dos jovens com o consumo de álcool.
A oficina contou com 22 representantes de nove associações e nove regiões da Terra Indígena Yanomami.
Conforme Karenina Vieira Andrade, que é antropóloga e professora da UFMG, a oficina foi conduzida a partir dos assuntos do interesse das mulheres.
“Nesta oficina, elas falaram muito sobre o abuso de álcool e substâncias pelos jovens nas comunidades. Elas se preocupam muito porque não se restringe só a vinda a cidade, afeta o território também”, explica a antropóloga.
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A antropóloga Viviane Cajusuanaima Rocha exaltou o papel do encontro para estratégias de enferentamento às violências que atingem os jovens|Fabrício Araújo/ISA
A primeira antropóloga do povo ye’kwana, Viviane Cajusuanaima Rocha, acompanhou os seis dias de oficina. Ela apontou que as mulheres enfrentam desafios diferentes em cada comunidade e o encontro com pessoas de regiões diversas permite entender o contexto geral da maior terra indígena do Brasil.
“A Terra Indígena Yanomami é muito grande e não conhecemos o que vivem as mulheres de outras comunidades, tem vários povos e subgrupos yanomami. É muito importante conhecer os direitos das mulheres. Nós que vivemos nas comunidades não sabemos os direitos, mas ao sair da comunidade temos que conhecer nossos direitos”, afirmou.
Com as discussões em andamento, Viviane entendeu que a relação que os jovens yanomami e ye’kwana desenvolvem com álcool ao visitarem a cidade é um ponto de preocupação em comum entre todas elas.
“A bebida dos brancos é prejudicial para o nosso povo, causa conflitos e não respeita a nossa cultura. Não é da nossa cultura e essa discussão foi muito difícil, mas foi preciso levantar o tema aqui. Queremos respeito ao que foi discutido com as mulheres e posto no papel”, pontuou.
A oficina resultou em uma nova cartilha elaborada a partir das reflexões das yanomami e ye’kwana estratégias para o enfrentamento de formas de violência: bebidas, drogas, celulares e internet.
A oficina foi finalizada com uma reunião entre as mulheres yanomami e ye’kwana com os representantes da Secretaria Estadual de Saúde (Sesau), Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami e Ye’kwana (DSEI-YY), Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) e Defensoria Pública da União (DPU). Na ocasião foram apresentados o guia de pré natal e a cartilha que aborda a Saúde da Mulheres yanomami, sanöma e ye´kwana.
A reunião ocorreu no espaço onde estão o Centro de Referência em Direitos Humanos para Yanomami e Ye'kwana (CREDHYY) e o Centro de Atendimento Integrado às Crianças Yanomami e Ye'kwana (CAICYY), que são iniciativas do Governo Federal.
A atividade resultou em uma nova cartilha elaborada a partir das reflexões das yanomami e ye’kwana sobre como elas desejam ser atendidas pelos profissionais de saúde. Estes materiais foram usados em uma conversa que encerrou a oficina na sexta-feira (06/02) e são frutos das atividades desenvolvidas pelo projeto Redes de Cuidado na TIY.
“Esta cartilha não fica só aqui. Ela vai para várias comunidades para as pessoas entenderem como as mulheres yanomami e ye´kwana querem ser tratadas”, disse Ariane de Souza Goes, que esteve na oficina representando a Associação Yanomami do Rio Caburais e Afluentes (Ayrca).
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Ana Lúcia defendeu que profissionais da saúde conheçam a realidade dos territórios para um atendimento mais efetivo|Fabrício Araújo/ISA
“Os médicos e profissionais da saúde precisam entrar no território conhecendo a nossa realidade para trabalhar em acordo com o que nós queremos. O trabalho deles precisa ser específico para os yanomami”, disse Ana Lúcia Paixão, vice-presidente da Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK).
Os outros projetos são: A Ação Saberes Indígena na Escola (ASIE), um programa regular do governo federal que têm como foco a formação continuada de professores indígenas e produção de materiais didáticos. Também está em curso a construção de Espaços Comunitários de Saberes, Cultura e Bem Viver na Terra Indígena Yanomami e o projeto Redes de Cuidados da Saúde.
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