Em consonância com o que evoca Gonzaguinha, nós também acreditamos na fé da moçada, que não foge da fera e enfrenta o leão. O trabalho das jovens lideranças e comunicadores integrantes de povos ou comunidades tradicionais é na linha de frente, repleto de desafios, mas também de muita esperança no futuro.
Imagem
Participantes fizeram indicações de filmes, livros e músicas de referências da luta por direitos em seus territórios|Divulgação
Esse porvir, pavimentado pelos mais velhos, é percorrido pelos mais jovens, sob olhares atentos e muita torcida. E em meio a tantas notícias, há que se ter ginja. Resistir não é apenas luta, pressão, gritos necessários ou mobilização. A cultura é também parte indispensável para renovar as energias e seguir.
Pensando nisso, o Instituto Socioambiental (ISA) lançou em abril a série “Dicas da Floresta”, com indicações dessas lideranças que acompanhamos de perto.
Confira as dicas já publicadas abaixo:
Aldison Lobo, do povo Mirity-tapuya e comunicador da Rede Wayuri, indica o álbum Newen, da artista Brisa Flow (@brisaflow), lançado em 2016 com sete faixas. Seu nome significa "Força" na língua do povo Mapuche e suas músicas passeiam por cantos ancestrais, rap e melodias eletrônicas. Segundo ele, “ouvir esse álbum é sentir potência e conexão com o território”.
Anaya Suya, do povo Suyá, é comunicadora na Associação Terra Indígena do Xingu (ATIX) e faz um convite para para sentir com intensidade e sem medo a partir da indicação da música “Exagerado”, do Cazuza. Para ela, a música a lembra de quem ela é e de onde vem, também pelo o que luta todos os dias.
Joelmir Silva, ribeirinho da Terra do Meio, no Xingu (PA), e comunicador da Rede Xingu+, indica o livro A Queda do Céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert. A obra da liderança, escrita em parceria com o antropólogo Bruce Albert, revela a cosmologia yanomami e a luta de um povo. Publicada em 2015 com apoio do ISA e da Hutukara Associação Yanomami foi eleita pela Folha de S. Paulo o melhor livro brasileiro de não ficção do século 21.
Nayra Sthefany, comunicadora do povo Baniwa e integrante da Rede Wayuri, indica "Apiga", da Banda Marupiara, que canta na língua nheengatu um som que mistura música indígena, forró e toadas amazônicas. Segundo ela, "é especial porque traz um sentimento de nostalgia, eu costumava ouvir quando era criança e fala sobre a vivência no Rio Negro". Assista abaixo:
Renan Khisetje, comunicador da Rede de Comunicadores Xingu + e da AIK Produções, indica Do Colo da Terra, que retrata a infância de quatro povos: Guarani Kaiowá, Guarani Nhandeva, Baniwa e Khisetje. Para ele, é uma obra importante pois ensina as crianças a conhecer a natureza e protegê-la. Dirigido por Renata Meirelles e David Vêluz, do Território do Brincar, o filme está disponível gratuitamente no Itaú Cultural Play.
Raimundo Quilombola, geógrafo e comunicador na Rádio TV Quilombo, do Território do Quilombo Rampa (MA), indica o documentário Tambor na Mata 2025. Como ele explica, “o Tambor na Mata é uma manifestação cultural e ancestral no território Rampa, que mostra a força da união e da resistência da comunidade.” A obra está disponível no canal do Youtube da TV Quilombo. Confira abaixo:
Auritha Tabajara, escritora, arte-educadora, poeta e cordelista indica o livro TYBYRA – Uma Tragédia Indígena Brasileira, do multiartista indígena Juão Nyn, do povo Potyguara. Para ela, é “uma obra que amplia o debate sobre as existências indígenas LGBTQIAPN+, trazendo representatividade, coragem e reflexão.”
Milene Alves, coordenadora de Produção de Sementes no Redário, articulação entre redes e grupos de coletores que atua em todos os biomas do país, sugere o filme Antes da Chuva (2018), produzido pela Rede Sementes do Xingu sobre as mudanças climáticas na região Xingu-Araguaia, no Mato Grosso. Hoje, Milene é (@redarioderedesdesementes). Assista abaixo:
Yamony, dos povos Yawalapiti e Kuikuro, também comunicadora do Movimento das Mulheres do Xingu e da Rede Xingu+, indica os cantos e músicas tradicionais dos povos do Xingu! Nas palavras dela "eles carregam nossa história, nossa espiritualidade e a força dos nossos ancestrais."
O professor e liderança quilombola Luiz Ketu, compartilhou a indicação do livro Roça é Vida, publicado em 2020. Além de apresentar aos leitores os modos de vida e saberes das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, o livro ajuda a preservá-los por meio da sua transmissão.
Maíra Silva, cientista do quilombo de Ivaporunduva (SP), é pesquisadora e doutora em geociências e indica o acervo da EAACONE (Equipe de Articulação e Assessoria às Comunidades Negras do Vale do Ribeira SP/PR) que conta a história da organização e das lutas das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira por seus territórios durante mais de 40 anos.
A artista visual, poeta e liderança Solar Quilombola indica o livro Irmã Outsider, da escritora e ativista norte-americana Audre Lorde, publicado no Brasil em 2019. Audre Lorde (1932 - 1992) construiu uma longa trajetória na defesa dos direitos de mulheres negras lésbicas e sua obra é uma importante contribuição para as teorias feministas contemporâneas. Para Solar, a obra ajuda a entender a importância de reconhecer as trajetórias de mulheres lésbicas no movimento quilombola.
Diretamente de Taiobeiras, no norte de Minas Gerais, a coletora de sementes Edianilha Pereira Ribas (Nina), comunicadora e da agricultura familiar, traz na Dica da Floresta dessa semana a indicação do documentário Cacunda di Librina, filme realizado em 2007, que ajuda a entender o que significa ser geraizeiro e o que é ter uma conexão viva com o Cerrado. Veja o documentário abaixo:
Diretamente do bioma amazônico, a comunicadora e artesã Samela Sateré-Mawé compartilhou duas indicações, para ler e para ouvir: a cartilha Mulheres Indígenas e Justiça Climática, produzida pela Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade, e o podcast Roçado no Ar, produzido pela Rádio Nacional dos Povos. Para ela, são dois materiais que ampliam repertório sobre como povos indígenas e tradicionais enfrentam as mudanças climáticas a partir de conhecimentos ancestrais.
Tem alguma dica? Compartilhe conosco em nossas redes sociais.
Assine também o nosso canal no WhatsApp e receba essas e outras informações.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Podcast ‘Vozes do Clima’ abre série especial sobre El Niño e seus impactos em territórios tradicionais
Série com seis episódios compartilha experiências e sugestões de povos e comunidades tradicionais para lidar com eventos climáticos extremos
O Instituto Socioambiental (ISA) lançou nesta quinta-feira (10/09) uma série especial de boletins de áudio sobre o El Niño, fenômeno climático que já impacta várias regiões do país em 2026. A série integra o podcast “Vozes do Clima” e será composta de seis episódios de até 10 minutos cada.
Imagem
Embarcação encalhada durante seca na orla principal de São Gabriel da Cachoeira, na bacia do Rio Negro, Amazonas|Juliana Radler/ISA
O objetivo é apresentar como os efeitos do El Niño vêm se intensificando com o aquecimento global e as mudanças climáticas e apresentar sugestões sobre como lidar com escassez de chuva, estiagem prolongada, ondas de calor, chuvas fortes, alagamentos e insegurança alimentar.
O episódio de lançamento explica o fenômeno e sua intensidade em 2026 e 2027, que deu a ele o nome de “Super El Niño”. Também traz estratégias preventivas, inspiradas em aprendizados gerados nos territórios onde o ISA trabalha.
Ouça agora!
A apresentação do primeiro episódio é de Raimundo Quilombola, comunicador da Rádio Rampa, do Quilombo Rampa, no Maranhão. As vozes são de Nicéia Santos, do Quilombo Maria Rosa, em São Paulo, e integrante da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq); e de Tépãncipa - também conhecido como Clarindo Chagas - benzedor e conhecedor do povo indígena Tariana, em Barcelos, Amazonas.
Imagem
O comunicador Raimundo Quilombola, do Maranhão, é o apresentador do primeiro episódio da série especial|Yane Mendes
O Super El Niño
O El Niño é um processo natural, que ocorre de tempos em tempos, quando as águas da parte superficial do Oceano Pacífico ficam mais quentes que o normal. Isso altera as movimentações do vento, a formação de nuvens e a distribuição das chuvas em várias partes do planeta. Em alguns lugares, chove muito pouco; em outros, chove demais.
Como o planeta está mais quente em consequência do aquecimento global, as águas do pacífico podem esquentar ainda mais, tornando o El Niño mais forte e mais frequente, causando mais impactos e piorando a crise climática. Agora em 2026 e 2027 a previsão é de um El Niño mais forte que o anterior. Por isso, ele está sendo chamado de Super El Niño.
A maioria das previsões indicam que os efeitos mais graves devem começar a partir de outubro, terão o pico em dezembro e podem se prolongar pelo primeiro semestre de 2027. Esses eventos extremos afetam a vida de toda a população, mas para indígenas, quilombolas, povos e comunidades tradicionais e populações periféricas, pode ser ainda pior.
“Meu pai plantou uma uma roça grande de arroz e deu uma chuvarada assim que não produziu”, conta Nicéia Santos, liderança quilombola do Vale do Ribeira.
A perda da roça foi por causa do El Niño de 2023 e 2024. A região do Vale do Ribeira, em São Paulo, e áreas dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul sofreram com fortes chuvas e enchentes.
“Eu converso com o espírito da floresta. Eu converso com o reino das águas. Mas não adianta mais a gente conversar, porque a gente não vai conseguir manter, porque essa mudança é muito drástica, é muito forte e grande. A mãe Terra já foi muito destruída, por causa do ouro, do desmatamento”, completa Clarindo Chagas, com sua sabedoria de benzedor.
Imagem
Nicéia Santos (ao microfone) conta que seu pai perdeu a roça em consequência do El Niño de 2023 e 2024|Juliana Radler/ISA
Na Amazônia, os rios já estão sendo impactados. No alto e médio Rio Negro, região onde vivem Clarindo e seus parentes indígenas, as águas continuam baixando de forma acelerada. A vazão do Rio Xingu, que já sofre por causa da operação da Usina Belo Monte, está diminuindo ainda mais.
Papel do Estado
Para as lideranças ouvidas no “Vozes do Clima”, além das ações desenvolvidas pelos povos da floresta, o poder público também precisa investir em políticas de prevenção, mitigação e adaptação para enfrentar os impactos do Super El Niño. A sociedade precisa unir esforços e cobrar ação dos governos, que muitas vezes não chegam aos territórios mais afetados.
“A gente queria que o Estado, as prefeituras, o governo como um todo, sentassem com a gente enquanto comunidade tradicional e perguntassem: ‘Como vocês estão vivendo, sobrevivendo até hoje?’. Acho que aí a gente conseguiria buscar caminhos para tentar mudar essas essas mudanças”, pontua Nicéia.
Imagem
Clarindo Chagas, benzedor e liderança do povo Tariana, fala sobre os efeitos do El Niño|Ana Amélia Hamdan/ISA
“A gente tenta conversar com autoridade, com instituições governamentais, eles não tem resposta, infelizmente. Mas eu fico matutando na minha cachola que tem que ser rápido”, finaliza Clarindo.
O que é o “Vozes do Clima” e a série especial sobre o El Niño?
O boletim de áudio “Vozes do Clima” é uma realização do ISA, com produção da produtora de podcasts Bamm Mídia e apoio da Environmental Defense Fund (EDF), e propõe levar informações a povos e comunidades tradicionais sobre os temas relacionados à pauta climática. Além de ser distribuído via Whatsapp e Telegram, o programa poderá ser ouvido nas plataformas de áudio Spotify, iHeartRadio, Amazon Music, Podcast Addict, Castbox e Deezer.
Já a série especial de seis episódios sobre o El Niño faz parte do “Vozes do Clima” e leva o tema às comunidades dos territórios onde o ISA trabalha, como as bacias do Rios Xingu (Mato Grosso e Pará), do Rio Negro (Amazonas e Roraima) e do Ribeira de Iguape (Paraná e São Paulo).
Os próximos episódios abordarão temas como: prevenção e controle de incêndios; produção e extrativismo; segurança alimentar; impactos dos extremos climáticos na saúde; e governança local e regional.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Plano Nacional de Logística indica prioridades para a sociobioeconomia
Ministério dos Transportes divulga documento com investimentos prioritários para a região Norte e prevê melhorias em portos de pequeno porte, pistas de pouso em terras indígenas e acesso a financiamento
Povos e comunidades tradicionais acabam de ganhar um reforço para manterem e fortalecerem as atividades econômicas que promovem em seus territórios. Foi divulgado nesta sexta-feira (28/8), pelo Ministério dos Transportes, o detalhamento das prioridades de investimento em logística para a sociobioeconomia na região Norte.
Imagem
Transporte de castanhas pelo povo Wai Wai nas trilhas da floresta: planos setoriais devem considerar desafios dos territórios|Rogerio Assis/ISA
Essa estratégia, que compõe o Plano Nacional de Logística - PNL 2050, é voltada principalmente para a realidade amazônica e foca na melhoria do escoamento de produtos da sociobiodiversidade - como açaí, castanha e pirarucu - e no combate ao isolamento de comunidades ribeirinhas e indígenas, combinando infraestrutura física, aviação regional, novas tecnologias e, ainda, identificando fontes de recursos.
O Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio), o Instituto Socioambiental (ISA) e o WWF-Brasil, entre outros representantes da sociedade civil, colaboraram com o Ministério na elaboração do documento.
Secretária executiva do ÓSocioBio, Laura Souza ressalta que o documento é essencial para a construção de políticas públicas voltadas ao setor. "Nem todas as nossas demandas foram contempladas, mas tivemos uma conquista muito importante: a sociobioeconomia entrou oficialmente no Plano Nacional de Logística. Isso muda o patamar dessa agenda e deixa um registro importante para as políticas públicas daqui para frente. Essa conquista é fruto de um trabalho construído em rede, e o reconhecimento dessas demandas mostra a força dessa articulação", disse.
Imagem
Marial Nakane em painel da sociedade civil organizada durante o lançamento do PNL 2050, em 12 de agosto|Sabrina Brito/ÓSocioBio
Analista do ISA, Mariel Nakane reforça a importância da inclusão da sociobioeconomia e de demandas de comunidades tradicionais nas diretrizes do planejamento nacional de transportes. “Essa inclusão estabelece um novo marco para o setor. Embora a medida ainda não garanta a execução imediata de obras ou a alocação direta de orçamentos, a consolidação dessas pautas em um documento formal cria o respaldo técnico e político necessário para que a sociedade civil e as comunidades passem a cobrar a efetivação de investimentos públicos”, explica.
A articulação das diretrizes abrange gargalos históricos enfrentados pelas cadeias produtivas locais no transporte e no escoamento, alertando também para o impacto da emergência climática, que muitas vezes coloca populações ribeiras em isolamento.
Quanto à logística para a sociobiodiversidade, foram elencadas três prioridades: melhoria do escoamento com investimentos nas instalações portuárias de pequeno porte (IP4); identificação de possibilidades para financiamento da logística em políticas já existentes e a criação da Câmara Técnica da Sociobioeconomia no âmbito da Comissão Nacional de Bioeconomia.
No processo de elaboração das prioridades, o investimento em portos de pequeno porte - as chamadas Instalações Portuárias de Pequeno Porte (IP4) - apareceu como prioritário. Nesse caso, é necessário pensar em povos que vivem na floresta e que, para escoar a produção, precisam viajar durante dias em pequenas embarcações.
Imagem
Pirarucu sendo pesado no Acre. Melhor estrutura dos portos deve melhorar renda das famílias|Edison Caetano/WWF-Brazil
Conforme Andressa Neves, do WWF Brasil, a medida pode reduzir as perdas e os altos custos operacionais — que chegam a consumir cerca de 50% da receita em cadeias como a do pirarucu —, atribuindo ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) o papel de atuar nesses serviços portuários e na estrutura de câmaras frias.
“Para os manejadores de pirarucu, por exemplo, a disponibilidade de câmaras frias permite armazenar o pescado por mais tempo e em melhores condições, evitando desperdícios e possibilitando a venda em mercados mais distantes e com maior valor agregado. Isso pode significar mais renda para as famílias e maior fortalecimento das economias locais”, explica Andressa Neves.
Além disso, há a orientação para direcionar investimentos em infraestrutura portuária prioritariamente para rotas que atendem às cadeias da sociobioeconomia, em especial na região Norte.
No caso de fontes de financiamento, o documento aponta a possibilidade de captação de recursos via Fundo da Marinha Mercante para projetos de logística regional, indicando outras fontes.
A proposta da Câmara Técnica encontra respaldo na estrutura da Comissão Nacional de Bioeconomia - CNBio e pode articular infraestrutura, transporte, armazenagem, conectividade, cadeia de frio e financiamento como condições necessárias à consolidação das cadeias produtivas da sociobiodiversidade.
Andressa Neves aponta que, com maior articulação entre os diversos atores envolvidos, será possível enfrentar de forma mais efetiva os gargalos que hoje limitam a estruturação de cadeias da sociobiodiversidade.
"A logística é um dos principais desafios para que os produtos da sociobiodiversidade cheguem aos mercados com qualidade e gerem mais renda para as comunidades. Por isso, propomos a criação de um programa específico para a logística da sociobiodiversidade, capaz de articular diferentes ministérios, instituições públicas, organizações da sociedade civil e representantes dos territórios em torno desenvolver diretrizes e soluções conjuntamente”, explica.
Dessa forma, a proposta de criação da Câmara Técnica de Logística da Sociobioeconomia na CNBio surge como um espaço permanente para transformar demandas dos povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares em ações integradas de infraestrutura, armazenagem, mobilidade, financiamento e acesso a mercados.
Quando o foco é a conexão de comunidades na região Norte, soma-se à proposta o arranjo institucional para regularização das pistas de pouso em terras indígenas; alinhamento com o Programa ConectAR e subsídios à aviação regional com finalidade social e, por fim, avaliação do uso de tecnologias como drones e eVTOL (aeronaves elétricas).
Sobre as pistas de pouso em terras indígenas, o documento indica que a questão não deve ser resolvida apenas pela lógica da aviação comercial ou da infraestrutura aeroportuária tradicional, pois envolve política pública de transportes, regulação aeronáutica, proteção territorial, atendimento sanitário, proteção e segurança pública de indígenas, orçamento e governança federativa. Com isso, o Comitê de Governança do Planejamento Integrado de Transportes (CGPIT) pode ser a instância para tratar do assunto.
Outra possibilidade trazida são as novas tecnologias de transporte (como eVTOLs e drones) para o atendimento e abastecimento (insumos de saúde e medicamentos, por exemplo) de áreas isoladas.
Ao priorizar a logística para a sociobioeconomia, o Ministério dos Transportes reconhece o setor como essencial para a economia do país. “Em muitas áreas da Amazônia há oferta relevante dos produtos da sociobiodiversidade, assim como conhecimento comunitário acumulado e cadeias com potencial econômico e socioambiental. No entanto, verificou-se a existência de problemas para o escoamento dos produtos, detalhados como objetivos prioritários de atuação até 2050”, informa o documento.
As economias da sociobiodiversidade têm por bases sistemas agrícolas e de conhecimento ancestrais e são praticadas há centenas e, em alguns casos, há milhares de anos por povos tradicionais. Com suas técnicas ancestrais, os povos tradicionais produzem alimentos e, ao mesmo tempo, preservam o meio ambiente, promovendo a economia do país, mas também o cuidado com a água, com a biodiversidade e, ainda, regulação climática.
Prioridades de investimento para a logística da sociobioeconomia. Veja os principais pontos abaixo:
Logística para a sociobiodiversidade - Escoamento produtivo
1 - Qualificação de Portos de Pequeno Porte (IP4): o plano estabelece a estruturação das Instalações Portuárias Públicas de Pequeno Porte sob gestão do DNIT, garantindo não apenas a infraestrutura física, mas a inclusão da "cadeia de frio" (instalação e manutenção de fábricas de gelo, câmaras frias e armazéns) para evitar perdas na produção agrícola e do pescado.
2 - Fontes de Financiamento com política já existentes: previsão de recursos do Fundo da Marinha Mercante (FMM) para infraestruturas portuárias prioritárias, articulando-se com programas como o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia, ARPA Comunidades, Floresta+, Pró-Sociobio e PRONAF, além do Fundo Amazônia e bancos de desenvolvimento.
3 - Câmara Técnica de Logística da Sociobioeconomia: proposta de criação de um órgão colegiado vinculado à Comissão Nacional de Bioeconomia (CNBio) para coordenar intersetorialmente definições e investimentos em infraestrutura, transporte, armazenagem e conexão de mercados para o setor.
Conexão de comunidades e transporte de passageiros
1 - Qualificação de Portos de Pequeno Porte (IP4): foco na manutenção e reativação operacional de IP4s e pontos de atracação essenciais ao deslocamento de pessoas para serviços de saúde e abastecimento, entre outros.
2 - Gestão Integrada de Pistas de Pouso em Terras Indígenas: articulação de um novo modelo institucional para tirar a sobrecarga da Funai (que hoje responde por 224 pistas) e compartilhar a gestão técnica e operacional de aeródromos estratégicos com o Ministério dos Portos e Aeroportos (Infraero) e órgãos parceiros (Saúde/Sesai e Defesa).
Regulamentação Específica na ANAC: solicitação à Agência Nacional de Aviação Civil para a criação da categoria de “aeródromos privados de cunho social-humanitário”, adaptando as exigências regulatórias às particularidades da Amazônia Legal.
3 - Programa ConectAR e Uso Social: regulamentação de subsídios e programas de aviação regional para atender comunidades remotas sem atratividade comercial regular.
4 - Projetos-Piloto com Drones e eVTOLs: avaliação do uso de tecnologias como drones (para entrega de insumos de saúde e medicamentos) e aeronaves elétricas de pouso/decolagem vertical (eVTOL) para transporte complementar de passageiros e cargas em rotas curtas e de difícil acesso.
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Cadastro Ambiental Rural (CAR) precisa respeitar direitos de povos e comunidades tradicionais
Em artigo, assessores do ISA e representantes de comunidades tradicionais analisam a ausência de salvaguardas para os territórios coletivos em decisão do STF
Por Samuel Leite Caetano, presidente do Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT); Francisco das Chagas, assessor técnico da Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq); Diogo Rosa Souza, advogado do ISA; e Thaise Rodrigues, analista de políticas públicas do ISA
Ao julgar a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 743, em 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a omissão do Estado no combate ao desmatamento ilegal e aos constantes incêndios florestais na Amazônia e no Pantanal. Determinou ainda uma série de medidas à União e aos estados, inclusive a reestruturação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), para enfrentar a situação.
Dois anos depois, essas medidas têm se concentrado no combate ao uso inadequado do CAR. O registro de áreas sobrepostas a Terras Indígenas (TIs) e Unidades de Conservação (UCs) tem sido utilizado por grileiros para dar aparência de legalidade às invasões e ao roubo de terra pública, apesar do cadastro não ter validade fundiária, segundo a legislação.
Em março, o relator do processo, ministro Flávio Dino, determinou que os governos federal e estaduais realizassem uma série de ações para tentar resolver o problema. O ministro, no entanto, não considerou áreas que também são uma uma barreira fundamental contra o avanço da degradação ambiental: os territórios quilombolas e de outros povos e comunidades tradicionais (PCTs), que continuam desprovidos das salvaguardas previstas para TIs e UCs.
O Brasil possui 28 populações assim reconhecidas, como quilombolas, ribeirinhos, quebradeiras de coco, geraizeiros, ilhéus e tantos outros que estão na linha de frente da conservação ambiental e no combate à crise climática. Apesar dessa função vital, seus territórios sofrem cotidianamente com as pressões de posseiros e grileiros e, ao mesmo tempo, seguem invisíveis no Sistema Nacional de Cadastro Ambiental, o Sicar.
O CAR foi previsto no novo Código Florestal como um registro eletrônico obrigatório e autodeclaratório para todos os imóveis rurais no país, reunindo e integrando as informações ambientais sobre eles. Nele, são identificados os trechos de terra que podem ser desmatados e os que devem ser protegidos, como a Reserva Legal (RL) e as Áreas de Preservação Permanente (APP).
Imagem
Moradores observam o mar em mirante no Território Quilombola de Alcântara (MA) | Ana Mendes / Imagens Humanas
Pressões e conservação
Uma análise do Instituto Socioambiental (ISA) revela que 36% de toda a extensão dos territórios quilombolas mapeados na Amazônia Legal sofre sobreposição de CARs de imóveis rurais privados e de assentamentos, somando mais de 1,3 milhão de hectares, uma extensão equivalente a 8,5 vezes o município de São Paulo. A pressão é exercida majoritariamente por grandes propriedades. Além disso, 53% das 1.198 comunidades quilombolas mapeadas já estão cercadas por imóveis privados com registros em seu entorno imediato.
Em contrapartida, os dados indicam que, apesar dessas pressões, os quilombos preservam mais de 92% de sua cobertura vegetal nativa, registrando uma perda histórica de apenas 4,7% em quase quatro décadas. Esses dados evidenciam um contraste significativo frente às taxas de desmatamento e degradação registradas nas áreas do entorno.
Ainda que a criação do módulo para cadastros de PCTs no Sicar represente um avanço, persistem barreiras estruturais que desconsideram os direitos e as realidades dos territórios tradicionais. A ausência de uma normatização federal com parâmetros técnicos e diretrizes espaciais adequadas tem permitido a proliferação e validação de cadastros irregulares sobre terras de uso coletivo. Diante disso, é dever do Estado instituir regras que reconheçam e valorizem a gestão territorial exercida por essas comunidades na garantia de seus modos de vida e na proteção da biodiversidade.
A lógica de automatização do Sicar e a recente integração de sistemas propostas na ADPF 743 priorizam a propriedade individual, forçando os territórios tradicionais coletivos a uma dinâmica incompatível com seus modos de vida. Ao apoiarem-se em uma base de dados com poucas informações sobre PCTs e sem garantir o direito constitucional à terra, essas medidas geram graves riscos de validação de grilagem digital. A falta de um filtro prévio ou de uma camada espacial que direcione sobreposições envolvendo territórios coletivos para análise técnica obrigatória faz com que a automação legitime a sobreposição de imóveis privados, fragilizando a conservação ambiental sustentada por essas comunidades e travando seus cadastros. O sistema acaba legitimando e reproduzindo tensões fundiárias históricas.
Imagem
Ministro do STF Flávio Dino | Gustavo Moreno / STF
Proposta do CNPCT
A solução para essas lacunas já foi pensada e desenhada pelo próprio movimento social: a proposta de regulamentação nacional do CAR-PCT elaborada pelo Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT). Construída entre 2024 e 2025, com ampla participação das comunidades tradicionais, a minuta estabelece o cadastramento por perímetro territorial coletivo, o respeito à autoidentificação de cada grupo e travas automáticas contra sobreposições de imóveis privados. Finalizada e submetida ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) para apreciação, a proposta reúne as condições necessárias para ser formalmente adotada como diretriz normativa nacional.
Para que a ADPF 743 cumpra seu papel de reestruturar o CAR, é necessário que tanto o STF quanto o governo federal e os estados considerem os PCTs e garantam meios adequados de incluí-los no Sicar. Para isso, a administração federal precisa, inevitavelmente, encaminhar e publicar a proposta do CNPCT, assegurando que a reestruturação do CAR seja, de fato, um instrumento de justiça socioambiental.
As populações tradicionais não podem continuar sendo tratadas como exceção na política ambiental, já que seus territórios constituem uma das mais importantes infraestruturas de conservação do país. Torná-los visíveis no Sicar significa fortalecer a proteção dos biomas e garantir justiça territorial. Afinal, onde o Estado muitas vezes enxergou apenas terra, esses povos seguiram cultivando vida, memória e futuro.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Carta convoca candidatos a assumir compromisso com a restauração ecológica
Documento assinado durante Conferência Brasileira de Restauração Ecológica defende a implementação dos compromissos ambientais do Brasil e reconhece o protagonismo dos povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares e redes de sementes
Organizações e movimentos que atuam na conservação da natureza e na restauração ecológica lançaram a carta "Restauração na Eleição: um compromisso com a natureza, as pessoas e o futuro do Brasil", um chamado para que candidatas e candidatos aos Poderes Executivo e Legislativo assumam o compromisso de fortalecer a conservação e ampliar a restauração ecológica em todos os biomas brasileiros.
Coletivos da restauração assinam a carta "Restauração na Eleição: um compromisso com a natureza, as pessoas e o futuro do Brasil" durante a Assembleia da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica|Flávio André/Pacto pela Restauração do Pantanal
Coletivos da restauração assinam a carta "Restauração na Eleição: um compromisso com a natureza, as pessoas e o futuro do Brasil" durante a Assembleia da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica.
A carta foi assinada dia 30 de julho de 2026 durante a Assembleia Geral na VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE2026), realizada na Universidade de Brasília (UnB), reunindo entidades que representam diferentes biomas, setores e experiências da restauração no país.
O documento destaca que a degradação dos ecossistemas já ameaça a segurança hídrica, energética e alimentar, além de comprometer a economia, a saúde e a qualidade de vida da população. Diante desse cenário, as entidades defendem que conservar os ecossistemas remanescentes e restaurar áreas degradadas são medidas indispensáveis para aumentar a resiliência do Brasil frente às mudanças climáticas.
A carta reforça que a restauração vai muito além do plantio de árvores. Ela recupera ecossistemas, protege a biodiversidade, fortalece a produção agropecuária, reduz riscos de desastres, gera emprego e renda e impulsiona negócios da sociobiodiversidade e da economia de baixo carbono.
Outro ponto de destaque é o reconhecimento do papel estratégico dos povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares, cujos conhecimentos e formas de manejo são fundamentais para conservar a biodiversidade e restaurar ecossistemas. O documento também chama atenção para a necessidade de fortalecer as redes de coletores de sementes e os viveiros de espécies nativas, elementos essenciais para garantir diversidade genética, qualidade ecológica e escala às ações de restauração.
Mais do que propor novos compromissos, a carta conclama os futuros gestores públicos a implementar a legislação e os acordos nacionais e internacionais já assumidos pelo Brasil, garantindo planejamento, financiamento, governança, monitoramento e continuidade das políticas públicas voltadas à conservação e à restauração.
Assinam o documento a Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE), a Aliança pela Restauração na Amazônia, a Articulação pela Restauração do Cerrado (Araticum), a Associação Brasileira dos Produtores de Sementes e Mudas Nativas (Nativas Brasil), o Observatório do Código Florestal, o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, o Pacto pela Restauração do Pantanal, o Redário, a Rede para Restauração da Caatinga (ReCaa) e a Rede Sul de Restauração Ecológica.
A iniciativa reafirma que proteger e restaurar a natureza não é apenas uma agenda ambiental, mas uma estratégia para promover desenvolvimento, justiça social, adaptação às mudanças climáticas e qualidade de vida para as atuais e futuras gerações.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Do Acervo do ISA para a sala de aula: conheça 7 kits didáticos da série ‘Hoje na História Socioambiental’
Iniciativa transforma documentos históricos em ferramentas que ensinam a reler o Brasil com mais amplitude, sensibilidade e justiça ao valorizar a memória e documentação de diversos povos e comunidades tradicionais na luta por direitos
Fotocolagem feita pela artista Shirley Espejo com fotos do Acervo do ISA|Erik Vesch/Cama Leão/ISA
Os materiais articulam documentos do Acervo do ISA com sugestões de atividades, questões para debate e referências bibliográficas, aproximando estudantes das histórias, memórias e reivindicações de povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais.
Ela torna obrigatório o ensino das histórias e culturas indígenas e afro-brasileiras nas escolas.
O reconhecimento dessas culturas e desses povos nas salas de aula brasileiras são essenciais para o combate ao racismo estrutural, enfrentamento da crise climática e valorização da sociodiversidade do nosso país.
Até o momento, a coleção reúne sete kits didáticos, cada um dedicado a um tema fundamental da construção da história socioambiental brasileira.
Conheça cada um deles!
Imagem
Capas dos 6 primeiros kits didáticos, com fotocolagens feitas pela artista Shirley Espejo (@__espejismos__) e diagramação de Kath Xapi Puri (@txori.art)
O protagonismo dos povos indígenas na luta por direitos (1988–2024)
O primeiro kit da série apresenta a mobilização indígena desde a Assembleia Constituinte até os desafios contemporâneos, chegando nas primeiras edições do Acampamento Terra Livre.
A partir de documentos históricos, registros fotográficos e materiais produzidos pelo movimento indígena, o conteúdo evidencia o protagonismo dos povos na conquista e defesa de seus direitos constitucionais.
A atuação das comunidades tradicionais na preservação da biodiversidade da região da Volta Grande do Xingu
O segundo kit da série, lembra a movimentação das comunidades no entorno da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, antes, durante e após a sua instalação.
Voltado à relação entre território, biodiversidade e modos de vida, este kit reúne documentos sobre a atuação das comunidades tradicionais da Volta Grande do Xingu na proteção dos ecossistemas locais, destacando seus conhecimentos, práticas de manejo e formas de organização coletiva.
Saberes tradicionais e estratégias sustentáveis de geração de renda: as propostas de povos indígenas e comunidades tradicionais
O terceiro material aborda experiências da sociobioeconomia, manejo sustentável e valorização dos conhecimentos tradicionais, mostrando como povos indígenas e comunidades tradicionais desenvolvem alternativas econômicas que conciliam geração de renda, conservação ambiental e fortalecimento cultural.
As facetas da luta indígena contemporânea
O quarto kit didático apresenta diferentes dimensões da luta dos povos indígenas na atualidade, abordando temas como direitos territoriais, participação política, cultura, memória, educação e resistência. São trabalhadas desde a mobilização na Assembléia Constituinte até as pautas mais atuais, como atuação de mulheres e o protagonismo LGBTQIAPN+.
Os documentos permitem compreender a diversidade das estratégias de mobilização indígena em diferentes contextos históricos.
Floresta com gente dentro: a luta pelos territórios tradicionais e coletivos e pela conservação ambiental
A publicação evidencia que a conservação das florestas está diretamente relacionada à garantia dos direitos territoriais de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
Os documentos selecionados demonstram como esses grupos desempenham papel central na proteção da biodiversidade brasileira.
Quem fala em nome dos povos indígenas? O associativismo indígena no foco das reivindicações
O kit apresenta a trajetória das organizações indígenas e do associativismo como instrumento de representação política e fortalecimento das reivindicações coletivas.
A proposta permite compreender como diferentes povos construíram formas próprias de organização para dialogar com o Estado e a sociedade brasileira.
Mulheres quilombolas no foco da educação
Lançado em julho de 2026, o kit destaca o protagonismo das mulheres quilombolas na preservação da memória, dos territórios, dos modos de vida e das formas de organização comunitária.
A partir de documentos do Acervo e de produções audiovisuais, o material propõe reflexões sobre identidade, educação, racismo, gênero e resistência, valorizando trajetórias frequentemente invisibilizadas nos currículos escolares.
Hoje na História Socioambiental é um convite do Acervo do ISA a revisitar o passado por outras lentes. A série busca ajudar a compreender o presente e inspirar novas formas de pensar o futuro. Fiquem atentas(os) para os próximos lançamentos!
**A série Hoje na História Socioambiental apresenta a riqueza de informações do Acervo do ISA que conta com mais de 250 mil itens catalogados voltados para a temática socioambiental como publicações, livros, teses e dissertações, mapas, notícias, materiais audiovisuais, entre outros.
Esta publicação conta com o apoio do Fundo Amazônia e é um produto do projeto "Defesa e Promoção dos Direitos Indígenas no Brasil: Construir Capacidades e Engajar Pessoas por um Futuro mais Justo", realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), com o financiamento da União Europeia.
Este material tem conteúdo de responsabilidade exclusiva da instituição realizadora e não reflete a posição da União Europeia.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Plano Safra amplia apoio à sociobioeconomia, mas acesso a crédito ainda é desafio
Pacote de R$ 97,3 bilhões reduz juros e amplia limites de financiamento para agricultura familiar, mas regras precisam ampliar acesso de povos tradicionais
Produção dos indígenas, quilombolas e povos tradicionais resulta em diversidade e cuidado com os biomas | Cláudia Araújo / ARSX
Do Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio)
O Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/2027, anunciado pelo governo federal no final de junho, terá investimento recorde de R$ 97,3 bilhões, um crescimento de 13,5% em relação ao ciclo anterior. Desse total, R$ 85,2 bilhões serão destinados ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), principal política pública de crédito voltada aos agricultores familiares, assentados da reforma agrária, povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
Desde 2023, a gestão federal já destinou mais de R$ 225 bilhões ao segmento, beneficiando mais de 2 milhões de agricultores familiares.
Para o Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio), rede composta por 42 movimentos sociais, organizações da sociedade civil e de base, o pacote anunciado representa um avanço importante para o setor, mas o principal desafio continua sendo o acesso ao crédito.
Na avaliação da secretária-executiva do ÓSocioBio, Laura Souza, o crédito rural precisa chegar de forma adequada a quem está na ponta: agricultores familiares, cooperativas, associações, povos e comunidades tradicionais. "Esses grupos têm papel central na segurança alimentar do país e na proteção dos biomas, mas ainda enfrentam barreiras históricas para acessar financiamento, assistência técnica, tecnologia e mercados", diz.
A campanha nacional pela ampliação do Plano Safra 2026/2027 e a atualização do Manual de Crédito Rural (MCR), a +Sociobio no Pronaf, coordenada pela Conexsus em articulação com as organizações que integram o ÓSocioBio, entre elas o Instituto Socioambiental (ISA), contou com uma Nota Técnica com propostas para ampliar o acesso ao crédito rural por povos e comunidades tradicionais, agricultores familiares e negócios comunitários da sociobioeconomia.
As organizações que acompanharam o lançamento do Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/2027 no Palácio do Planalto, em Brasília, em 30 de junho, destacam como principal conquista a redução da taxa de juros do Pronaf Custeio para sistemas agroecológicos, produtos orgânicos e da sociobiodiversidade, que caiu de 2% para 1% ao ano, reduzindo pela metade o custo do crédito para cadeias produtivas como castanha, açaí, babaçu, óleos vegetais, sementes, mel, frutas nativas e plantas medicinais. O plano também ampliou os limites de financiamento em diversas linhas estratégicas, como produção sustentável, agregação de valor, recuperação ambiental e sistemas produtivos de base florestal.
Entenda
“Sociobiodiversidade” é o resultado da coexistência e inter-relação entre a diversidade biológica e a diversidade de territórios e povos, seu conhecimento tradicional e seus modos de vida, considerados como aspectos centrais para a formação e manutenção das paisagens, do patrimônio genético, dos ecossistemas e economias.
“Economias da Sociobiodiversidade” são economias promovidas por povos indígenas, quilombolas e outros povos e comunidades tradicionais, baseadas em seus modos de vida, culturas, sistemas agrícolas e conhecimentos.
Outro destaque foi a ampliação do Pronaf Bioeconomia, cujo limite de financiamento passou de R$ 250 mil para R$ 450 mil, aumento de 80%, permitindo ampliar investimentos em sistemas agroflorestais, silvicultura, restauração produtiva e outras iniciativas que conciliam conservação da floresta e geração de renda. O plano também manteve juros reduzidos de 0,5% ao ano para o Pronaf A e Pronaf B, ampliando simultaneamente os limites de financiamento para esses públicos.
Entre os avanços também estão medidas específicas para públicos historicamente excluídos. O limite do Pronaf A passou para R$ 55 mil, mantendo juros de 0,5% ao ano e bônus de adimplência de 40%. Houve ainda aumento da remuneração destinada à Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater), que passou de R$ 2,5 mil para R$ 3 mil por operação, atendendo parcialmente proposta apresentada pela campanha +Sociobio no Pronaf para fortalecer o atendimento técnico às famílias beneficiárias.
Para as mulheres, a taxa do Pronaf Investimento caiu de 3% para 2% ao ano, com limite de até R$ 100 mil. No Pronaf B, foi criada uma nova linha de R$ 8 mil para custeio, que se soma aos R$ 20 mil destinados aos Quintais Produtivos, permitindo operações de até R$ 28 mil em microcrédito rural para mulheres. O governo também anunciou chamada pública de R$ 50 milhões para assistência técnica voltada a 10 mil produtoras.
Imagem
Indígenas do povo Xavante coletam buriti: povos tradicionais têm papel central na segurança alimentar e na preservação ambiental do país | Rogério Assis / ISA V
O Plano Safra também amplia instrumentos de compras públicas, seguro agrícola, habitação rural, mecanização, inovação, adaptação às mudanças climáticas e regularização fundiária. Entre os destaques estão mais de R$400 milhões para o programa Terra à Mesa Garantia-Safra e R$ 80 milhões do Fundo Amazônia para a iniciativa Florestas e Comunidades: Amazônia Viva, destinada ao fortalecimento de organizações produtivas de povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares.
“O Plano Safra é uma ferramenta essencial para transformar o potencial da sociobioeconomia em renda concreta para as famílias e em desenvolvimento para os territórios”, afirma Fernando Moretti, diretor de Políticas da Sociobioeconomia da Conexsus. “Quando o crédito tem juros menores, assistência técnica e condições adaptadas à realidade da agricultura familiar e das comunidades tradicionais, ele deixa de ser apenas um financiamento e passa a ser uma política de inclusão produtiva, conservação ambiental e valorização da floresta”, conclui.
Desafios
Apesar dos avanços, as alterações consideradas estruturantes pela campanha +Sociobio no Pronaf ficaram de fora desta edição do Plano Safra. Permaneceram sem atualização as regras do Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF) e do MCR, instrumentos essenciais para ampliar o acesso de povos indígenas, comunidades tradicionais, extrativistas e agricultores familiares às políticas públicas de financiamento.
Os dados demonstram esse desafio. Segundo o IBGE, a Região Norte reúne aproximadamente 500 mil estabelecimentos da agricultura familiar, enquanto o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) registra apenas cerca de 80 mil CAFs ativos, menos de 20% do universo potencial de beneficiários. Quando o recorte considera povos indígenas, comunidades tradicionais e extrativistas, a exclusão é ainda maior.
A diferença demonstra que a maior barreira para o acesso ao Pronaf está na dificuldade de inserir os agricultores familiares nas políticas públicas de crédito. A situação é ainda mais desafiadora para povos indígenas, comunidades tradicionais, extrativistas e demais populações da sociobiodiversidade, que enfrentam exigências documentais e procedimentos operacionais muitas vezes incompatíveis com suas realidades territoriais.
Imagem
Produtora seleciona o arroz da sua roça no Quilombo Praia Grande, Vale do Ribeira. Taxas de crédito para as mulheres tiveram queda | Fellipe Abreu / ISA
A consequência aparece nas estatísticas do crédito rural. Durante o primeiro semestre do último Plano Safra, foram realizadas apenas 57,8 mil operações do Pronaf no Norte do país, número bastante reduzido diante do potencial produtivo da região. Além disso, mais de 85% dessas operações destinaram-se à pecuária, demonstrando que o crédito continua fortemente concentrado em poucas cadeias produtivas, enquanto atividades ligadas à sociobiodiversidade, agroecologia, restauração florestal e sistemas agroflorestais ainda recebem participação muito inferior ao seu potencial econômico, ambiental e social.
O ÓSociobio e a Conexsus entendem que o Plano Safra 2026/2027 representa um importante passo no fortalecimento da agricultura familiar. Ao mesmo tempo, consideram que o processo de aperfeiçoamento do Pronaf permanece em construção. O diálogo continua aberto com os ministérios do Desenvolvimento Agrário, da Fazenda, da Integração e Desenvolvimento Regional, o Banco Central e demais instituições parceiras para atualizar as regras do CAF e do MCR, tornando o acesso ao crédito mais simples, eficiente e compatível com as diferentes realidades dos territórios.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Nota de pesar pelo falecimento de Dona Ana Maria, dirigente nacional da Conaq
Importante liderança do Quilombo Invernada Paiol de Telha, no Paraná, Dona Ana Maria esteve na linha de frente com coragem e compromisso pela titulação de territórios
O Instituto Socioambiental (ISA) manifesta profundo pesar pelo falecimento de Dona Ana Maria Santos da Cruz, coordenadora nacional da Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e importante liderança do Quilombo Invernada Paiol de Telha, no Paraná. Lutadora incansável pelos direitos dos povos quilombolas e linha de frente nas resistências em sua comunidade e em nível nacional, Dona Maria sempre atuou com coragem, sabedoria e compromisso com as ações das comunidades negras rurais de todo o país.
Imagem
Dona Ana Maria dos Santos da Cruz será lembrada pela firmeza diante das injustiças, generosidade com seu povo e construção de caminhos de resistência|Arquivo pessoal
Neste momento de tristeza, endossamos as palavras da Conaq, organização da qual ela foi dirigente por anos, de que sua trajetória foi marcada pela firmeza diante das injustiças, generosidade no cuidado com seu povo e construção de caminhos de resistência que inspiraram gerações de lideranças quilombolas.
“Sua voz ecoou nos espaços de decisão, denunciando o racismo, reivindicando direitos e afirmando a dignidade do povo quilombola”, diz a entidade, em nota.
Certa vez, em entrevista ao Brasil de Fato para uma reportagem sobre o direito das comunidades quilombolas às suas terras, Dona Ana Maria ressaltou: “prometi aos meus antepassados que só ficarei em paz quando todos estiverem dentro do território”.
E ela cumpriu sua promessa de luta, pois o povo do Paiol de Telha conseguiu retornar ao território em 2015, mais de quarenta anos após terem sido violentamente expulsos do território. Ainda hoje é a única comunidade quilombola titulada no Paraná.
Que ela siga em paz como quem que sempre esteve do lado certo da história e que não arredou o pé da luta. O legado de Dona Ana Maria ficará presente na memória e no coração de quem teve o privilégio de estar ao seu lado nesses anos de resistência. Nos solidarizamos com seus familiares, amigos e sua comunidade Paiol de Telha.
Presente hoje e sempre!
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Rede Terra do Meio integra o projeto Desafio Bioinovação Amazônia
Comunidades amazônicas e pesquisadores se unem em desafio internacional com premiação de até R$ 450 mil com o objetivo de conectar saberes tradicionais, ciência aplicada e mercado
Comunidades do Acre e da Terra do Meio, no Pará, cocriaram, em parceria com o Instituto de Conservação e Desenvolvimento da Amazônia (Idesam), o Desafio Bioinovação Amazônia, iniciativa internacional que está com inscrições gratuitas abertas até 30 de junho para selecionar inovadores e especialistas em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Os participantes terão acesso a mentorias, bolsas mensais de até R$ 7,5 mil e U$1.300,00, imersões em territórios amazônicos e capital semente para desenvolver o negócio de até R$450 mil. As inscrições podem ser feitas no site Desafio Bioinovação Amazônia.
Imagem
Propostas vão contemplar cadeias da castanha e da borracha, entre outras|Rogério Assis/ISA
O objetivo do desafio é conectar saberes tradicionais, ciência aplicada e mercado para desenvolver soluções voltadas aos setores de alimentos, cosméticos e novos materiais verdes, utilizando matérias-primas da sociobiodiversidade amazônica. A iniciativa irá selecionar 25 inovadores com experiência em biodiversidade amazônica e 25 especialistas globais em desenvolvimento de produtos.
Em equipes multidisciplinares, os participantes irão desenvolver soluções para seis desafios construídos a partir de escutas ativas realizadas com comunidades paraenses e acreanas, que geram renda de forma sustentável com produtos da floresta. As propostas estão ligadas às cadeias do açaí, castanha-do-brasil, óleos e amidos vegetais e borracha nativa.
A iniciativa conta com parceiros estratégicos como a Rede Terra do Meio, articulação formada por mais de 35 organizações comunitárias, indígenas, ribeirinhas e de agricultores familiares da região da Terra do Meio do Xingu, no Pará. E também da Cooperacre, que reúne cerca de 35 cooperativas e associações, representando mais de 2,5 mil famílias extrativistas e de agricultores familiares.
Para Sílvio Botelho, representante da Rede Terra do Meio, que participou do processo de construção dos desafios, o programa representa uma oportunidade de fortalecer o protagonismo das comunidades.
“A iniciativa do Desafio Bioinovação Amazônia conecta diferentes saberes em torno da agenda da sociobiodiversidade, apontando caminhos e possibilidades que tornam possível, ao mesmo tempo, produzir e conservar a partir de novas tecnologias, com cooperação e respeito às populações que vivem na floresta. Por isso essa iniciativa é importante para a Rede Terra do Meio", comenta.
Para a Cooperacre, o programa representa uma oportunidade de impulsionar tecnologias disruptivas, promover a verticalização dos produtos da sociobiodiversidade e agregar mais valor às cadeias produtivas amazônicas.
“A iniciativa também visa estimular a inovação de produtos, otimizar processos produtivos — especialmente no aproveitamento de resíduos — e ampliar as oportunidades de desenvolvimento econômico e social das comunidades envolvidas. Assim, vamos fortalecer as cadeias da sociobiodiversidade amazônica por meio da inovação, criando mais oportunidades de desenvolvimento econômico e social para as comunidades”, comenta Weverton de Oliveira, coordenador de projetos da Cooperacre.
Da ideia ao negócio
A jornada dos participantes inclui mentorias, capacitações, desenvolvimento de protótipos e uma residência imersiva de 15 dias com atividades em Manaus e nas comunidades envolvidas na criação dos desafios. A experiência permitirá que pesquisadores e desenvolvedores convivam diretamente com o cotidiano das populações amazônicas, compreendendo os problemas, oportunidades e conhecimentos presentes nas cadeias da sociobiodiversidade.
Além das bolsas mensais de até R$ 7,5 mil para os inovadores e de até US$ 1.300 para especialistas em P&D, as equipes terão acesso a suporte técnico especializado e recursos para o desenvolvimento das tecnologias. Ao final da jornada, três equipes serão premiadas: o primeiro lugar receberá R$ 200 mil; o segundo, R$ 150 mil; e o terceiro, R$ 100 mil para implementação das soluções.
Segundo Renato Rebelo, coordenador da Zôma, geradora de negócios responsável pelo Desafio, em parceria com o Idesam, a proposta vai além da inovação tecnológica. Ele afirma que o diferencial do programa é unir ciência de ponta, mercado e saberes amazônicos em um processo de cocriação real.
“Queremos incentivar a criação de negócios sustentáveis que valorizem quem vive na floresta e promovam conservação com geração de renda. O programa nasce com a missão de desenvolver soluções construídas junto às comunidades amazônicas, respeitando os conhecimentos tradicionais e fortalecendo cadeias produtivas locais. A floresta não é apenas fornecedora de matéria-prima, ela é protagonista do processo de inovação”.
O Desafio Bioinovação Amazônia é uma correalização da Zôma, por meio do Idesam, e da Penn State University, uma das principais universidades de pesquisa do mundo, com apoio financeiro do Bezos Earth Fund. Também são parceiros estratégicos o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e o Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA), além de especialistas e consultores de diversas áreas do conhecimento.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS