Em artigo, Estêvão Senra, do ISA, diz que apesar dos defensores da mineração ilegal afirmarem sua importância para a economia, estudos revelam que os indicadores financeiros e sociais melhoraram depois que o governo Lula combateu o crime na TI Yanomami
Previsões econômicas apocalípticas para sustentar uma posição imoral no debate público não são nenhuma novidade. Diante da demanda de reconhecimento de direitos sociais básicos ou pela implementação de políticas públicas mais inclusivas e progressistas no Brasil, elas sempre aparecem. A abolição da escravidão é um exemplo clássico. No século 19, houve quem defendesse que a escravidão era um “mal necessário” para garantir a estabilidade econômica do país. Não faz muito tempo, argumentos semelhantes foram mobilizados para se contrapor à regulamentação do trabalho doméstico, e, no último ano, mais uma vez, esse discurso foi adotado no debate sobre o fim da escala 6×1.
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Área impactada pelo garimpo na região do Apiaú na Terra Indígena Yanomami|Christian Braga/Greenpeace/ISA
Em Roraima, no extremo norte do Brasil, o terrorismo econômico foi empregado por parte da elite local para defender a manutenção do garimpo ilegal no território Yanomami, depois que o atual governo anunciou que cumpriria as decisões judiciais que determinavam a desintrusão da Terra Indígena. Mesmo com toda a comoção que as imagens de crianças desnutridas e doentes de malária provocaram na opinião pública, figuras como o ex-governador Antonio Denarium (Republicanos), inelegível por abuso de poder político e econômico durante a campanha de 2022, se prestaram a defender publicamente o garimpo no território do povo originário. Argumentavam que a economia do estado era dependente da atividade e que uma repressão rigorosa à prática criminosa teria impactos negativos graves sobre as finanças de Roraima.
Não foi assim. Passados três anos da intervenção do governo federal, que tem muitas boas lições para deixar (como é o caso da criação da Casa de Governo), chegamos a um bom momento para testar a hipótese da falência de Roraima em decorrência do combate ao garimpo. Testar e refutá-la de vez. Isso mesmo desconfiando que os defensores da mineração ilegal nunca tenham de fato acreditado que ele poderia ser realmente o motor econômico da região, mas sim que o seu objetivo sempre foi aumentar a margem de negociação junto ao governo federal.
Em janeiro de 2026, foram divulgados dados importantes sobre a exploração mineral na TI Yanomami. Segundo o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), entre março de 2024 e janeiro de 2026, a abertura de novas áreas pelo garimpo (comparando com 2022) foi reduzida em 99%. É o resultado de mais de 9 mil operações, sobretudo no entorno da Terra Indígena, fiscalizando postos de combustível, estradas e aeródromos que davam suporte ao garimpo e demais crimes, como o tráfico de drogas e de pessoas.
Os dados governamentais, por sua vez, coincidem com o monitoramento autônomo produzido pelas organizações indígenas. Por meio de análise e interpretação de imagens de satélite de alta resolução, de sobrevoos e de um sistema de monitoramento colaborativo, atestaram a efetiva redução do número de invasores. Hoje, o garimpo está restrito a alguns grupos fragmentados que operam de noite, longe dos grandes rios e em pequenos acampamentos escondidos na floresta. Muitos grupos também passaram a operar em outros países, como a Venezuela e a Guiana.
Mas se o garimpo enquanto fenômeno econômico foi significativamente reduzido na TI Yanomami, o que será que os indicadores econômicos de Roraima nos dizem sobre a performance recente do estado? Caso o ex-governador (Antonio Denarium, Republicanos) estivesse correto, seria possível verificar o impacto do endurecimento da fiscalização. Ainda que não tenhamos disponíveis os dados já consolidados do Produto Interno Bruto (PIB) do estado nos últimos anos, os indicadores e estudos que estão acessíveis sugerem que Roraima seguiu uma trajetória econômica de crescimento – e não o contrário. Projeções para 2024 e 2025 feitas pelo Banco Santander indicam que possivelmente Roraima teria observado um crescimento no PIB da ordem de 4%, enquanto a média nacional projetada foi de 2%.
Os dados sobre o mercado de trabalho e sobre o setor de serviços e comércio também são positivos. Estudos da Secretaria de Planejamento e Orçamento de Roraima sugerem que, em setembro de 2025, o estado apresentou um recorde histórico de empregos formais e, no acumulado, em relação ao percentual de crescimento de empresas, Roraima ocupou a segunda colocação no ranking nacional.
Naturalmente, há limitações nessa análise e seria preciso um estudo mais aprofundado para chegar a conclusões mais contundentes sobre o real impacto econômico do combate ao garimpo na economia de Roraima como um todo. Entretanto, ainda assim, esse pequeno exercício é bastante útil para verificar a fragilidade da hipótese do colapso econômico associado ao fim do garimpo.
Além disso, essas observações vão na mesma direção de outros estudos baseados em evidências. Eles demonstram que o garimpo produz muito mais custos do que benefícios para os territórios onde está presente. Utilizando os dados do Índice de Progresso Social (IPS) para a Amazônia, por exemplo, os autores Antonio Oviedo e Victor da Silva Araújo demonstram que os municípios sobrepostos às Terras Indígenas impactadas pelo garimpo apresentam indicadores significativamente inferiores em comparação com as cidades que não têm garimpo em seu território: 20,6%, na média, inferior à média do Brasil.
Mesmo que os estudos e a análise dos dados econômicos nos apontassem para outra direção, ainda assim seria imoral defender o garimpo em Terra Indígena diante dos horrores revelados pela crise Yanomami. No entanto, nem mesmo os indicadores econômicos conseguem sustentar tal posição, revelando assim não apenas a obscenidade dos defensores da mineração ilegal, mas também a sua desonestidade. O ouro do garimpo das Terras Indígenas não possui nem lastro ético nem econômico.
O Brasil deve celebrar a desintrusão do território Yanomami e aprender. A presença do Estado, por meio de uma articulação inteligente de diferentes agências de fiscalização, é o caminho para combater não apenas o garimpo ilegal, mas todo o ecossistema do crime que avança sobre a Amazônia. E é só com o controle das atividades ilícitas que novas economias não predatórias podem prosperar. Quem sabe assim poderemos finalmente reformular os termos do nosso debate público e, enfim, construir um futuro de fato virtuoso para os Indígenas, os roraimenses e o Brasil.
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Auritha Tabajara e Paola Gibram levam poéticas indígenas para o espaço Floresta no Centro, do ISA
Evento em São Paulo, dia 17 de setembro, marca o lançamento da obra “Poéticas e políticas indígenas” e conta com mediação de Tatiane Klein, antropóloga e jornalista do Instituto Socioambiental (ISA)
No dia 17 de setembro, quinta-feira, às 19h, o espaço Floresta no Centro, do Instituto Socioambiental (ISA), recebe a escritora, poeta e cordelista Auritha Tabajara e a antropóloga e musicista não indígena Paola Gibram para o evento Poéticas Indígenas.
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Evento conta com presença da escritora, poeta e cordelista Auritha Tabajara e da antropóloga e instrumentalista Paola Gibram|Tatiane Klein/ISA
Com mediação de Tatiane Klein, antropóloga e jornalista do ISA, o bate-papo explora as conexões entre poéticas, literatura e música, partindo das trajetórias das convidadas e de duas obras de suas autorias: a coletânea Poéticas e políticas indígenas (Insular, 2026) e o Um cordel para Aldear a Educação (ISA, 2026).
Auritha Tabajara é a primeira cordelista indígena e um dos nomes mais relevantes da literatura indígena contemporânea. Nascida no Ceará, a artista do povo Tabajara navega com sua arte entre a oralidade e a literatura contemporânea. Por suas obras, recebeu o selo da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) em 2019 pela obra Coração na aldeia, pés no mundo. Em 2024, recebeu o Prêmio Jabuti. Auritha ainda integra a Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB) e também foi protagonista do documentário A mulher sem chão, realizado em parceria com Débora MecDwell.
Paola Gibram, por sua vez, possui uma longa trajetória de pesquisa junto a povos indígenas, principalmente aos Kaingang. Junto à pesquisadora Nyg Kuitá, ela dirigiu o documentário audiovisual Nẽn Ga vĩ: uma retomada kanhgág em movimento, que acompanhou o movimento da juventude indígena kaingang. Pós-doutoranda no Museu de Etnologia e Arqueologia da Universidade de São Paulo (USP), Paola também atua como instrumentista, compositora e diretora musical.
No evento, a musicista e a escritora Auritha Tabajara compartilham ainda suas pesquisas antropológicas sobre cantos, danças, ornamentos rituais em sua conexão com as lutas indígenas contemporâneas e o processo de construção do livreto ilustrado e da faixa musical da obra Um cordel para Aldear a Educação, lançado em abril deste ano.
O bate-papo deriva também um episódio do podcast Floresta no Centro, para levar as reflexões sobre o papel das artes na vida e na luta dos povos indígenas para outros públicos. Criado pelo Instituto Socioambiental (ISA), o programa é gravado durante eventos realizados na Floresta no Centro, espaço da organização na Galeria Metrópole, em São Paulo (SP), que apresenta saberes de comunidades do Xingu, Rio Negro e Vale do Ribeira por meio de itens tradicionais, exposições, encontros e publicações.
Ouça um episódio recente abaixo!
Serviço
Evento: Poéticas Indígenas Data: Quinta-feira, 17 de setembro de 2026 Horário: 19h Local: Espaço Floresta no Centro – Galeria Metrópole, 2º andar, Loja 28 (Av. São Luís, 187, São Paulo/SP) Convidadas: Auritha Tabajara e Paola Gibram Mediação: Tatiane Klein
Confira abaixo o clipe da música Aldear a Educação, composto por Auritha Tabajara a pedido do Instituto Socioambiental (ISA).
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Hoje na História Socioambiental: em 4 de setembro de 1987, Ailton Krenak discursava na Assembleia Nacional Constituinte
Marcada na memória, a manifestação de Ailton conseguiu atenção da imprensa nacional e internacional, abrindo espaço para debates importantes dos direitos indígenas
Na sessão da Assembleia Nacional Constituinte de quatro de setembro de 1987, durante os debates que antecederam a promulgação da Constituição de 1988, Ailton Krenak realizou um discurso que na época conquistou olhares da imprensa nacional e internacional:
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No plenário da Câmara em Brasília, Ailton Krenak, então presidente da União das Nações Indígenas (UNI), pinta o rosto de preto em protesto contra ataques aos direitos indígenas no texto da Constituição de 1988|Luiz Antonio Ribeiro/CPDoc JB
“Que [o Brasil] saiba respeitar um povo que sempre viveu à revelia de todas as riquezas, um povo que habita casas cobertas de palha, que dorme em esteiras no chão, não deve ser identificado de jeito nenhum como um povo que é o inimigo dos interesses do Brasil, inimigo dos interesses da nação e que coloca em risco qualquer desenvolvimento. O povo indígena tem regado com sangue cada hectare dos oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil, os senhores são testemunhas disso.”
Foi o que ele disse ao discursar pintando seu rosto de tinta preta na tribuna da Constituinte, na Câmara dos Deputados, quando defendia a emenda popular da União das Nações Indígenas (UNI) sobre os direitos da população originária.
A manifestação teve ampla repercussão na imprensa brasileira e internacional, expandindo a visibilidade das reivindicações dos povos indígenas em um momento decisivo da redemocratização do país.
A imprensa teve uma atuação bastante ativa nas disputas pela inclusão do Capítulo dos Índios no texto da Constituição. Pouco antes do discurso de Ailton, começava uma campanha contra os povos indígenas, que afirmava, entre outras coisas, que os povos originários eram contra os interesses do Estado brasileiro.
O discurso de Ailton veio para desmontar esse argumento. Ao ser questionado sobre a campanha contra os povos indígenas, liderada por parte da imprensa, Ailton afirmou: "Nós ignoramos qualquer iniciativa, nesse sentido, que venha contrariar os interesses do país. Inclusive porque, se há os primeiros filhos desta terra, são os povos indígenas. E não há nada mais estúpido do que afirmar que os povos indígenas vão contrariar os interesses do Brasil. Se o Brasil está ameaçado pelos povos indígenas, então provavelmente não é o Brasil dos brasileiros."*
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Edição de cinco de setembro de 1987 do jornal Diário Popular. Disponível aqui.
A campanha contra os povos conseguiu que, do dia pra noite, o chamado “Capítulo dos Índios” fosse excluído. A ferramenta que os povos e aliados encontraram para remontar a discussão e garantir a inclusão do texto foi o abaixo-assinado, que subsidiou uma emenda-popular.
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Edição de cinco de setembro do Jornal de Brasília. Disponível aqui.
Ailton, como uma das lideranças da União das Nações Indígenas (UNI) e juntamente com representações de diversos povos, participou da articulação desse abaixo-assinado que reuniu mais de 100 mil assinaturas, de ponta a ponta do Brasil, em apoio à inclusão dos direitos dos povos indígenas na nova Constituição Federal.
O que muita gente não sabe é o que estava acontecendo por trás da fotografia emblemática do discurso. No livro “Subvertendo a gramática e outras crônicas socioambientais”, escrito por Márcio Santilli, presidente do Instituto Socioambiental (ISA), são revelados detalhes deste acontecimento histórico que muitos desconhecem.
No livro, Márcio conta que a intenção inicial de Ailton Krenak era apenas pintar o rosto de preto, em silêncio. No entanto, como os registros oficiais das sessões da Assembleia Nacional Constituinte eram feitos por gravações posteriormente transcritas para o Diário do Congresso, uma manifestação sem palavras ficaria registrada apenas pelas câmeras de televisão. Foi preciso, então, que ele discursasse enquanto realizava o gesto.
Outro desafio era o protocolo do plenário: sem trajes formais, Ailton recebeu emprestados um paletó branco e uma gravata de Márcio, criando o contraste que marcaria a cena. Na ausência do jenipapo ou do urucum, os dois percorreram gabinetes de parlamentares recolhendo pequenas quantidades de máscara de cílios e tinta para sobrancelhas, usadas para compor a pintura. Márcio ainda conta que depois foi impossível usar seu paletó, por conta das manchas de tinta.
No filme “Mapear Mundos”, obra que articula imagens de arquivos indigenistas com testemunhos atuais para rememorar os passos dados por organizações da sociedade civil na luta pelos direitos dos povos originários no Brasil, Beto Ricardo, fundador do ISA, conta sobre o momento do discurso:
“Não tinha ninguém no Congresso, era hora do almoço, estava vazio. A câmera fica no Ailton porque não tem ninguém. Ele tava sozinho, ele fala sozinho. Quer dizer, ele fala sozinho não. Ele criou um gesto de comunicação de mídia que explodiu o mundo inteiro, que não haveria sessão do Congresso que chegaria perto da difusão que essa ideia teve, com aquela imagem de 15 segundos, entendeu?”
Assista ao filme 'Mapear Mundos'
Depois de saber que não havia ninguém na plenária, é ainda mais curioso saber que a imagem de Ailton pintando o rosto na tribuna permanece, até hoje, como um dos símbolos visuais mais notáveis da luta indígena no Brasil. A imagem marcada na memória reforça o poder dos gestos comunicativos, e o modo com que alguns símbolos podem representar e lembrar lutas históricas.
Quase quatro décadas depois, a comunicação indígena segue ocupando um papel central na defesa dos direitos dos povos originários e evidenciando o que há de mais bonito na natureza e em suas culturas e histórias. Agora, comunicadores indígenas mobilizam diversas plataformas e variados formatos para garantir que sejam cada vez mais ouvidos.
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Fotocolagem da artista Shirley Espejo para representar o trabalho dos comunicadores indígenas
**A série Hoje na História Socioambiental apresenta a riqueza de informações do Acervo do ISA que conta com mais de 250 mil itens catalogados voltados para a temática socioambiental como publicações, livros, teses e dissertações, mapas, notícias, materiais audiovisuais, entre outros. Hoje na História Socioambiental é um convite a reler o Brasil com mais amplitude, sensibilidade e justiça, valorizando a memória e documentação dos diversos povos.
Esta publicação conta com o apoio do Fundo Amazônia e é um produto do projeto "Defesa e Promoção dos Direitos Indígenas no Brasil: Construir Capacidades e Engajar Pessoas por um Futuro mais Justo", realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), com o financiamento da União Europeia.
Este material tem conteúdo de responsabilidade exclusiva da instituição realizadora e não reflete a posição da União Europeia.
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ISA e Fneei lançam repositório para trabalhar com saberes indígenas nas salas de aula
Repositório de educação antirracista foi desenvolvido para apoiar professores e fortalecer a Lei nº 11.645/2008, que determina o ensino de histórias e culturas afro-brasileiras e indígenas na educação básica
Para difundir propostas pedagógicas sobre histórias, culturas e saberes indígenas, nesta quarta-feira (02/09), o Instituto Socioambiental (ISA) e o Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (Fneei) lançam o repositório Aldear a Educação.
Educadores indígenas e organizadores do evento de premiação do Aldear a Educação, que ocorreu no Sesc 24 de Maio, em São Paulo|Brenda Okubo/ISA
Inserido no site Povos Indígenas no Brasil Mirim, o ambiente virtual foi desenvolvido para apoiar educadores, como um espaço de referência para aqueles que buscam abordar a temática indígena em suas aulas e fortalecer a Lei nº11.645/2008, que determina o ensino de histórias e culturas afrobrasileiras e indígenas em todo o currículo escolar.
Escolhido para abrigar o repositório, o site Mirim.org, do ISA, foi criado em 2009, para dialogar com a publicação da normativa no ano anterior, a partir do site Povos Indígenas no Brasil. Por meio de material destinado ao público infanto-juvenil e de educadores, o Mirim apresenta a sociodiversidade de povos e busca despertar o interesse e o respeito de crianças e jovens às culturas indígenas existentes no Brasil.
Para o lançamento, as onze propostas premiadas no edital “Aldear a Educação Básica” serão disponibilizadas gratuitamente. Uma realização do Fneei e ISA, com apoio técnico do Instituto Alana e parceria da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga), o edital reconheceu estratégias exitosas de ensino-aprendizagem ligadas à Lei 11.645/2008. Tais ações pedagógicas foram realizadas em diversas partes do país, em todas as etapas da educação básica, incluindo a Educação de Jovens e Adultos e o Ensino Médio Técnico, além da modalidade da educação escolar indígena, e refletem a multiplicidade de abordagens pedagógicas sobre histórias, culturas e saberes indígenas.
O repositório reúne recursos pedagógicos, materiais de referência (como orientações normativas) e outros elementos para subsidiar o trabalho de professores que não sabem como começar a trabalhar com a Lei 11.645/2008 ou desejam ampliar seu repertório de práticas de ensino. De caráter colaborativo, o Aldear a Educação será alimentado continuamente com novos materiais do ISA, do Fneei e de parceiros.
Em breve, estará disponível ainda a coleção de kits didáticos do ‘Hoje na História Socioambiental’, que articula documentos históricos do Acervo do ISA com atividades a partir de questões-problema relacionadas às lutas, memórias e resistências de povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais.
“Raízes da cultura, sementes que contam histórias: as sementes e o artesanato do povo Tapeba” – Ana Paula da Rocha, da Escola Indígena Aba Tapeba, em Caucaia (CE)
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Ana Paula da Rocha propôs e executou atividade na Escola Indígena Aba Tapeba, em Caucaia (CE)|Mariana Soares/ISA
A atividade proposta por Ana Paula da Rocha, do povo Tapeba, visa promover a conscientização sobre a importância das espécies nativas utilizadas no artesanato tradicional Tapeba, fortalecendo a identidade cultural e a preservação ambiental na aldeia Jandaiguaba em resposta aos desafios do desmatamento e da urbanização. Por meio de uma abordagem que integra teoria e prática, o projeto articula rodas de conversa com anciões e artesãos, mapeamento de espécies, criação de viveiros e mutirões de plantio, engajando estudantes e a comunidade em processos coletivos de diálogo, escuta e atividades de campo.
“Encontro Indígena: cultura, lutas e resistência - a experiência do CIEJA Campo Limpo” – Andressa dos Santos Silva, de São Paulo (SP)
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Andressa dos Santos Silva propôs experiência no CIEJA Campo Limpo, em São Paulo (SP)|Brenda Okubo/ISA
O projeto "Encontro Indígena", desenvolvido pela educadora Andressa dos Santos Silva, busca valorizar as culturas e saberes dos povos indígenas por meio de ações pedagógicas interdisciplinares construídas em parceria com essas comunidades. A iniciativa utiliza diversas linguagens como teatro, musicalização, oficinas de grafismo e culinária, além de visitas a territórios indígenas, como o Real Parque, para sensibilizar os alunos e desconstruir preconceitos e estereótipos. Ao integrar vivências práticas, literatura e o diálogo direto com a realidade indígena, prática reforçada pela leitura diária de frases de autores indígenas, o projeto promove o reconhecimento da diversidade étnica, as lutas e as contribuições fundamentais desses povos no cotidiano.
“Do Território à Sala de Aula: saberes indígenas na Educação de Jovens e Adultos” – Arley de Araújo Clemente, do Centro Comunitário Indígena/EJA Nordeste, em Ceará Mirim (RN)
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Arley de Araújo Clemente enviou proposta executada Centro Comunitário Indígena/EJA Nordeste, em Ceará Mirim (RN)|Brenda Okubo/ISA
A proposta enviada por Arley de Araújo Clemente, busca valorizar os conhecimentos da comunidade indígena Rio dos Índios ao integrar saberes tradicionais aos conteúdos da Educação de Jovens e Adultos (EJA). O projeto promove a alfabetização e o letramento por meio de práticas como a construção coletiva de cartazes sobre o ciclo de cultivo do milho e da mandioca. Ao combinar rodas de conversa, produção textual, desenhos e discussões sobre plantio e colheita, a iniciativa fortalece a oralidade e a escrita, articulando o ensino formal com a realidade cultural e as vivências cotidianas dos educandos, tornando o aprendizado mais participativo e contextualizado.
“Campos do Cristal encontra Anhetenguá: um caminho para aldear o currículo” – Bruna Moreira da Silva, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Campos do Cristal, em Porto Alegre (RS)
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Bruna Moreira da Silva, desenvolveu projeto na Escola Municipal de Ensino Fundamental Campos do Cristal, em Porto Alegre (RS)|Mariana Soares/ISA
Desenvolvida pela professora Bruna Moreira, a Mostra Cultural Indígena da EMEF Campos do Cristal, em Porto Alegre, utiliza o suporte dos Espaços Educativos Afro-brasileiros e Indígenas (EEABIs) para valorização da sociodiversidade. Na edição de 2025, o projeto envolveu 21 turmas e mais de 400 estudantes na produção de uma feira com apresentações artísticas e de pesquisas. Além disso, em 2025, a atividade colocou a interculturalidade em prática por meio de uma parceria com a aldeia Anhetenguá, do povo Guarani Mbya. Com visitas recíprocas e momentos de troca entre estudantes e representantes indígenas, a escola concretizou seu objetivo de integrar saberes e promoveu um intercâmbio de conhecimentos, fortalecendo a valorização da identidade indígena no cotidiano escolar.
“Vozes da Floresta: um chamado para um novo amanhã” – Cristiana Andrade Butel, da Escola Estadual Senador João Bosco, em Parintins (AM)
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Cristiana Andrade Butel inscreveu proposta feita na Escola Estadual Senador João Bosco, em Parintins (AM)|Mariana Soares/ISA
A atividade proposta por Cristiana Butel articulou saberes indígenas com os diferentes campos da literatura, artes, música, dança e teatro e envolveu, ao longo de um mês, alunos do Ensino Médio. Desenvolvida em Parintins, no Amazonas, a atividade teve como mote o tema “Povos Indígenas: Ontem e Hoje”. Entre as atividades desenvolvidas estão leituras coletivas, debates, produções textuais, seminários, apresentações e produções artísticas. As lideranças estudadas pelos alunos para desenvolver os trabalhos foram Davi Kopenawa, Daniel Munduruku, Ailton Krenak, Márcia Kambeba, Trudruá Dorrico e Eliane Potiguara.
“‘Outro olhar’: um podcast sobre vida e obra de Ailton Krenak e Davi Kopenawa Yanomami” – professores Leonardo Alves da Cunha Carvalho e Enoque Marques Pontes, com participação dos estudantes Gabriela Duarte, Glenda Amaral, Karen Oliveira, Thayane Menezes e Victor Moraes, do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), em São Paulo (SP)
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Glenda Amaral representou os colegas que participaram do podcast "Outro olhar" feito no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), em São Paulo (SP)|Brenda Okubo/ISA
O projeto "Outro Olhar", desenvolvido no Instituto Federal de São Paulo - Campus São Miguel Paulista pelos professores de sociologia e filosofia junto a estudantes do ensino médio, é uma iniciativa interdisciplinar de criação de um podcast. A proposta utiliza o formato de áudio para explorar a biografia e o pensamento de Ailton Krenak e Davi Kopenawa Yanomami, promovendo um debate decolonial e intercultural que questiona os fundamentos eurocêntricos da educação básica. Ao todo são 16 episódios que unem o rigor acadêmico à produção técnica de áudio e vídeo, explorando temas como as cosmologias desses povos, seus direitos, histórico do contato e preservação da floresta, integrando o projeto maior "Pedagogia Antirracista no Chão da Escola".
“Povos da Terra: saberes indígenas, ciência e educação para o bem viver” – Monyque Ferreira Brandão, da Escola Estadual José Domingos da Silveira, em Barueri (SP)
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Monyque Ferreira Brandão idealizou uma disciplina para valorizar conhecimentos indígenas amazônicos na Escola Estadual José Domingos da Silveira, em Barueri (SP)
A disciplina eletiva "Povos da Terra: Memória, Matéria e Ciência", idealizada pela historiadora e professora Monyque Ferreira Brandão em colaboração com a professora Glauciane Lima na Escola Estadual José Domingos da Silveira (SP), propõe uma abordagem interdisciplinar para o ensino médio que articula História, Biologia, Artes e Química. O projeto valoriza os conhecimentos indígenas amazônicos como produtores de ciência e cultura, conectando saberes tradicionais, como o manejo da "Terra Preta" e a etnobotânica, com desafios contemporâneos como as mudanças climáticas. Por meio de metodologias ativas, como oficinas de argila, simulações arqueológicas e análise de fontes, a disciplina discutiu a relação entre os povos da Amazônia e suas práticas de sustentabilidade e saúde
“Saberes que conectam na educação infantil: ancestralidade, natureza, memórias e vivências” – Selma de Souza Sá Silva, da Escola Municipal Virgílio Távora, em São Paulo (SP)
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Selma de Souza Sá Silva fez projeto para valorizar saberes ancestrais na Escola Municipal Virgílio Távora, em São Paulo (SP)|Brenda Okubo/ISA
Indígena do povo Pankará de Pernambuco, Selma de Souza Sá Silva na EMEI Virgílio Távora desenvolveu uma abordagem interdisciplinar e decolonial para o ensino da cultura indígena. Ao longo de quatro meses, a iniciativa buscou romper com estereótipos folclorizados ao integrar História, Geografia, Artes, Ciências e Língua Portuguesa por meio do estudo do povo Pankará, utilizando vivências práticas como o contato com a natureza, o uso de plantas medicinais, a produção de arte com argila e a valorização da oralidade e memória ancestral.
“Mulheres que tecem a história: biografias de lideranças indígenas femininas” – Talita Yosioka Collacio, da Escola Municipal Professor João de Barros Pinto, em Santo André (SP)
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Talita Yosioka Collacio, propôs projeto para combater invisibilidade de mulheres indígenas no debate público da Escola Municipal Professor João de Barros Pinto, em Santo André (SP)|Richard Wera Mirim e Pedro Biava/Mídia Guarani Mbya/ISA
O projeto proposto pela professora Talita Yosioka Collacio na EMEIF Prof. João de Barros Pinto (SP), utiliza o gênero discursivo "biografia" como eixo para uma prática interdisciplinar que articula Língua Portuguesa, História, Geografia e Ciências. Desenvolvida prioritariamente para a Educação de Jovens e Adultos (EJA), a atividade combate a invisibilidade das mulheres indígenas no debate público ao explorar trajetórias de lideranças como Sônia Guajajara, Tuíre Kayapó, Joenia Wapichana e a Cacica Jaqueline Haywã, esta última protagonista de uma palestra que aproximou os estudantes da realidade indígena no contexto urbano. O projeto incluiu análise de vídeos, debates, construção de painéis interativos e leitura de poemas autobiográficos.
“Ariponã: diálogo intercultural e valorização da cultura pataxó em escolas de Betim, MG” – Thais Regina Maciel da Silva - Tamikuã Pataxó, da Escola Municipal Aristides José da Silva, em Betim (MG)
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Thais Regina Maciel da Silva - Tamikuã Pataxó, propôs prática interdisciplinar na Escola Municipal Aristides José da Silva, em Betim (MG)|Mariana Soares/ISA
A proposta conduzida pela educadora Tamikuã Pataxó, do povo Pataxó, na Escola Municipal Aristides José da Silva, em Betim (MG), é uma prática interdisciplinar que articula Artes, Língua Portuguesa, Ciências, Biologia, História e Geografia. Motivada pela necessidade de combater o racismo e a invisibilidade indígena após um episódio de racismo, a proposta desenvolvida pela professora promove o letramento e o diálogo intercultural por meio de vivências práticas, incluindo oficinas de escrita na língua Patxohã, confecção de adornos e tintas naturais, grafismos corporais e culinária tradicional, bem como um intercâmbio cultural com uma aldeia Pataxó da região.
“Opy em maquete: integrando saberes do povo Guarani M’bya e outras ciências” – Vilmone Benites Samaniego - Wera Mirim, da Escola Indígena Pira Rupa, em Palhoça (SC)
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Vilmone Benites Samaniego - Wera Mirim, propôs uma jornada que vai da floresta à matemática na Escola Indígena Pira Rupa, em Palhoça (SC)|Mariana Soares/ISA
Na escola Pira Rupa, em Santa Catarina, o professor Vilmone Wera Mirim, do povo Guarani Mbya, propõe uma jornada que vai da floresta à matemática. A partir da construção coletiva de uma maquete da Opy (casa de reza guarani) com os estudantes, a atividade utiliza o processo construtivo como um eixo para abordar conteúdos de Matemática (geometria e medidas), Física (estrutura e pressão), Química (transformações e estados da matéria) e Ciências Humanas (história e território). A proposta conecta os conceitos curriculares às práticas de coleta de materiais e respeito aos ciclos da natureza, buscando articular os conhecimentos acadêmicos aos modos tradicionais de ensino e aprendizagem do povo Guarani.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Plano Nacional de Logística indica prioridades para a sociobioeconomia
Ministério dos Transportes divulga documento com investimentos prioritários para a região Norte e prevê melhorias em portos de pequeno porte, pistas de pouso em terras indígenas e acesso a financiamento
Povos e comunidades tradicionais acabam de ganhar um reforço para manterem e fortalecerem as atividades econômicas que promovem em seus territórios. Foi divulgado nesta sexta-feira (28/8), pelo Ministério dos Transportes, o detalhamento das prioridades de investimento em logística para a sociobioeconomia na região Norte.
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Transporte de castanhas pelo povo Wai Wai nas trilhas da floresta: planos setoriais devem considerar desafios dos territórios|Rogerio Assis/ISA
Essa estratégia, que compõe o Plano Nacional de Logística - PNL 2050, é voltada principalmente para a realidade amazônica e foca na melhoria do escoamento de produtos da sociobiodiversidade - como açaí, castanha e pirarucu - e no combate ao isolamento de comunidades ribeirinhas e indígenas, combinando infraestrutura física, aviação regional, novas tecnologias e, ainda, identificando fontes de recursos.
O Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio), o Instituto Socioambiental (ISA) e o WWF-Brasil, entre outros representantes da sociedade civil, colaboraram com o Ministério na elaboração do documento.
Secretária executiva do ÓSocioBio, Laura Souza ressalta que o documento é essencial para a construção de políticas públicas voltadas ao setor. "Nem todas as nossas demandas foram contempladas, mas tivemos uma conquista muito importante: a sociobioeconomia entrou oficialmente no Plano Nacional de Logística. Isso muda o patamar dessa agenda e deixa um registro importante para as políticas públicas daqui para frente. Essa conquista é fruto de um trabalho construído em rede, e o reconhecimento dessas demandas mostra a força dessa articulação", disse.
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Marial Nakane em painel da sociedade civil organizada durante o lançamento do PNL 2050, em 12 de agosto|Sabrina Brito/ÓSocioBio
Analista do ISA, Mariel Nakane reforça a importância da inclusão da sociobioeconomia e de demandas de comunidades tradicionais nas diretrizes do planejamento nacional de transportes. “Essa inclusão estabelece um novo marco para o setor. Embora a medida ainda não garanta a execução imediata de obras ou a alocação direta de orçamentos, a consolidação dessas pautas em um documento formal cria o respaldo técnico e político necessário para que a sociedade civil e as comunidades passem a cobrar a efetivação de investimentos públicos”, explica.
A articulação das diretrizes abrange gargalos históricos enfrentados pelas cadeias produtivas locais no transporte e no escoamento, alertando também para o impacto da emergência climática, que muitas vezes coloca populações ribeiras em isolamento.
Quanto à logística para a sociobiodiversidade, foram elencadas três prioridades: melhoria do escoamento com investimentos nas instalações portuárias de pequeno porte (IP4); identificação de possibilidades para financiamento da logística em políticas já existentes e a criação da Câmara Técnica da Sociobioeconomia no âmbito da Comissão Nacional de Bioeconomia.
No processo de elaboração das prioridades, o investimento em portos de pequeno porte - as chamadas Instalações Portuárias de Pequeno Porte (IP4) - apareceu como prioritário. Nesse caso, é necessário pensar em povos que vivem na floresta e que, para escoar a produção, precisam viajar durante dias em pequenas embarcações.
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Pirarucu sendo pesado no Acre. Melhor estrutura dos portos deve melhorar renda das famílias|Edison Caetano/WWF-Brazil
Conforme Andressa Neves, do WWF Brasil, a medida pode reduzir as perdas e os altos custos operacionais — que chegam a consumir cerca de 50% da receita em cadeias como a do pirarucu —, atribuindo ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) o papel de atuar nesses serviços portuários e na estrutura de câmaras frias.
“Para os manejadores de pirarucu, por exemplo, a disponibilidade de câmaras frias permite armazenar o pescado por mais tempo e em melhores condições, evitando desperdícios e possibilitando a venda em mercados mais distantes e com maior valor agregado. Isso pode significar mais renda para as famílias e maior fortalecimento das economias locais”, explica Andressa Neves.
Além disso, há a orientação para direcionar investimentos em infraestrutura portuária prioritariamente para rotas que atendem às cadeias da sociobioeconomia, em especial na região Norte.
No caso de fontes de financiamento, o documento aponta a possibilidade de captação de recursos via Fundo da Marinha Mercante para projetos de logística regional, indicando outras fontes.
A proposta da Câmara Técnica encontra respaldo na estrutura da Comissão Nacional de Bioeconomia - CNBio e pode articular infraestrutura, transporte, armazenagem, conectividade, cadeia de frio e financiamento como condições necessárias à consolidação das cadeias produtivas da sociobiodiversidade.
Andressa Neves aponta que, com maior articulação entre os diversos atores envolvidos, será possível enfrentar de forma mais efetiva os gargalos que hoje limitam a estruturação de cadeias da sociobiodiversidade.
"A logística é um dos principais desafios para que os produtos da sociobiodiversidade cheguem aos mercados com qualidade e gerem mais renda para as comunidades. Por isso, propomos a criação de um programa específico para a logística da sociobiodiversidade, capaz de articular diferentes ministérios, instituições públicas, organizações da sociedade civil e representantes dos territórios em torno desenvolver diretrizes e soluções conjuntamente”, explica.
Dessa forma, a proposta de criação da Câmara Técnica de Logística da Sociobioeconomia na CNBio surge como um espaço permanente para transformar demandas dos povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares em ações integradas de infraestrutura, armazenagem, mobilidade, financiamento e acesso a mercados.
Quando o foco é a conexão de comunidades na região Norte, soma-se à proposta o arranjo institucional para regularização das pistas de pouso em terras indígenas; alinhamento com o Programa ConectAR e subsídios à aviação regional com finalidade social e, por fim, avaliação do uso de tecnologias como drones e eVTOL (aeronaves elétricas).
Sobre as pistas de pouso em terras indígenas, o documento indica que a questão não deve ser resolvida apenas pela lógica da aviação comercial ou da infraestrutura aeroportuária tradicional, pois envolve política pública de transportes, regulação aeronáutica, proteção territorial, atendimento sanitário, proteção e segurança pública de indígenas, orçamento e governança federativa. Com isso, o Comitê de Governança do Planejamento Integrado de Transportes (CGPIT) pode ser a instância para tratar do assunto.
Outra possibilidade trazida são as novas tecnologias de transporte (como eVTOLs e drones) para o atendimento e abastecimento (insumos de saúde e medicamentos, por exemplo) de áreas isoladas.
Ao priorizar a logística para a sociobioeconomia, o Ministério dos Transportes reconhece o setor como essencial para a economia do país. “Em muitas áreas da Amazônia há oferta relevante dos produtos da sociobiodiversidade, assim como conhecimento comunitário acumulado e cadeias com potencial econômico e socioambiental. No entanto, verificou-se a existência de problemas para o escoamento dos produtos, detalhados como objetivos prioritários de atuação até 2050”, informa o documento.
As economias da sociobiodiversidade têm por bases sistemas agrícolas e de conhecimento ancestrais e são praticadas há centenas e, em alguns casos, há milhares de anos por povos tradicionais. Com suas técnicas ancestrais, os povos tradicionais produzem alimentos e, ao mesmo tempo, preservam o meio ambiente, promovendo a economia do país, mas também o cuidado com a água, com a biodiversidade e, ainda, regulação climática.
Prioridades de investimento para a logística da sociobioeconomia. Veja os principais pontos abaixo:
Logística para a sociobiodiversidade - Escoamento produtivo
1 - Qualificação de Portos de Pequeno Porte (IP4): o plano estabelece a estruturação das Instalações Portuárias Públicas de Pequeno Porte sob gestão do DNIT, garantindo não apenas a infraestrutura física, mas a inclusão da "cadeia de frio" (instalação e manutenção de fábricas de gelo, câmaras frias e armazéns) para evitar perdas na produção agrícola e do pescado.
2 - Fontes de Financiamento com política já existentes: previsão de recursos do Fundo da Marinha Mercante (FMM) para infraestruturas portuárias prioritárias, articulando-se com programas como o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia, ARPA Comunidades, Floresta+, Pró-Sociobio e PRONAF, além do Fundo Amazônia e bancos de desenvolvimento.
3 - Câmara Técnica de Logística da Sociobioeconomia: proposta de criação de um órgão colegiado vinculado à Comissão Nacional de Bioeconomia (CNBio) para coordenar intersetorialmente definições e investimentos em infraestrutura, transporte, armazenagem e conexão de mercados para o setor.
Conexão de comunidades e transporte de passageiros
1 - Qualificação de Portos de Pequeno Porte (IP4): foco na manutenção e reativação operacional de IP4s e pontos de atracação essenciais ao deslocamento de pessoas para serviços de saúde e abastecimento, entre outros.
2 - Gestão Integrada de Pistas de Pouso em Terras Indígenas: articulação de um novo modelo institucional para tirar a sobrecarga da Funai (que hoje responde por 224 pistas) e compartilhar a gestão técnica e operacional de aeródromos estratégicos com o Ministério dos Portos e Aeroportos (Infraero) e órgãos parceiros (Saúde/Sesai e Defesa).
Regulamentação Específica na ANAC: solicitação à Agência Nacional de Aviação Civil para a criação da categoria de “aeródromos privados de cunho social-humanitário”, adaptando as exigências regulatórias às particularidades da Amazônia Legal.
3 - Programa ConectAR e Uso Social: regulamentação de subsídios e programas de aviação regional para atender comunidades remotas sem atratividade comercial regular.
4 - Projetos-Piloto com Drones e eVTOLs: avaliação do uso de tecnologias como drones (para entrega de insumos de saúde e medicamentos) e aeronaves elétricas de pouso/decolagem vertical (eVTOL) para transporte complementar de passageiros e cargas em rotas curtas e de difícil acesso.
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Conheça as Terras Indígenas reconhecidas pela Funai na região sob pressão da BR-319
Com a delimitação de três áreas no Amazonas, o governo avança no processo demarcatório de 933 mil hectares no estado; duas delas estão na área de impacto da BR-319
Em 8 de julho, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) oficializou o reconhecimento e delimitação de três novas Terras Indígenas (TIs) no estado do Amazonas, consolidando a proteção de mais de 933 mil hectares, o equivalente a aproximadamente seis vezes a área da cidade de São Paulo.
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Obras na rodovia BR-319 foram reiniciadas em 2026, após aprovação da nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental|Alberto César Araújo/Amazônia Real
O reconhecimento das TIs aconteceu em um cenário de avanços no asfaltamento da BR-319, rodovia que liga Manaus a Porto Velho e que tem sido apontada como vetor de desmatamento, queimadas, grilagem de terras e abertura de ramais clandestinos.
Seguindo o rito demarcatório, agora as TIs aguardam declaração de suas áreas pelo Ministério da Justiça e, na sequência, a homologação pelo presidente da República.
Ao todo, existem 838 TIs em diferentes fases do processo. 167 estão em identificação, aguardando finalização dos estudos pela Funai; 45 TIs já delimitadas aguardam declaração pelo Ministério da Justiça; 71 TIs já declaradas aguardam a homologação pelo Presidente da República. Até hoje, 540 áreas já passaram por esse longo processo, estando homologadas ou reservadas. Há ainda 15 Reservas Indígenas em processo de regularização.
Até o momento, somam-se 21 TIs identificadas no governo Lula, 20 homologadas e 21 declaradas.
BR-319 e a pressão sobre Terras Indígenas
Duas das TI cujos estudos foram aprovados, a TI Apurinã do Alto Tupana e a TI Paiol, Cajual e Palhal, são adjacentes à via e têm sido impactadas pelo processo de ocupação desordenada impulsionado pelo asfaltamento, segundo os Relatórios Circunstanciados de Identificação e Delimitação (RCID).
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Avanço das rodovias federais aumenta a pressão sobre as florestas|ISA/2026
A continuidade das obras na rodovia foram anunciadas em maio, em visita do Presidente Lula ao Amazonas. Na ocasião, além de prometer um pacote de medidas para destravar as obras da BR-319, como parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o presidente também reconheceu a sensibilidade da região e garantiu que os investimentos na região seriam feitos com o "maior cuidado ambiental do mundo".
A aprovação do projeto de lei conhecido como “PL da Devastação”, entretanto, vai na contramão da promessa. O enfraquecimento do licenciamento ambiental promovido pela normativa transforma obras como essas em ainda mais pressão sobre territórios indígenas, defendem especialistas.
Ainda, apesar do julgamento de sua inconstitucionalidade, que começou em 12/08, as obras já foram iniciadas seguindo o que determina a nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental (nº 15.190/2025). Isso é, sem consulta aos povos que serão afetados por ela, como determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) da qual o Brasil é signatário.
Isso ocorre porque a pavimentação de rodovias impulsiona a estrutura fundiária e o uso da terra em seu entorno e funciona como um vetor para incêndios criminosos, como o que aconteceu no que ficou conhecido como ‘Dia do Fogo’, evento que completou sete anos neste ano. É o que mostra a Nota Técnica Queimadas em Terras Indígenas do ISA, de 2024.
“Esse dia, que ficou conhecido como Dia do Fogo, foi marcado pela combinação de grandes queimadas, que contribuíram significativamente para o aumento do desmatamento e da destruição de áreas florestais no entorno da BR-163, entre Peixoto Azevedo, no norte do Mato Grosso, e Trairão, no sul do Pará”, explica a Nota Técnica, que aponta também que naquele ano, foram registrados 3.946 focos de calor.
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Rodovias como a BR-319, na foto acima, são vetores para desmatamento e queimadas|Bruno Kelly/Amazônia Real
Apesar da comoção, nos anos seguintes, os focos de incêndio na região seguiram aumentando nos entornos das BRs 163, 230 e 319.
“A persistência dos incêndios criminosos é parte dos efeitos deletérios da construção de uma rodovia sem o amparo de um plano de sustentabilidade e sem fiscalização ambiental eficiente”, completa o documento.
A formalização das TIs é vista como uma estratégia para assegurar o modo de vida tradicional frente a essas pressões externas, defende o pesquisador do ISA Tiago Moreira.
“A delimitação dessas TIs traz proteção para que os povos indígenas continuem protegendo a floresta e seu território tradicional. Mas só o avanço do processo demarcatório pode frear o avanço do desmatamento e da grilagem que a BR-319 traz para a região”, finaliza.
Conheça as Terras Indígenas identificadas
A Terra Indígena Apurinã do Alto Tupana, situada no estado do Amazonas, é ocupação tradicional do povo Apurinã. Localizada em Beruri (AM), a TI possui uma área delimitada de 251.388,9111 hectares. Ao todo, foram 22 anos de espera pelo andamento do processo de demarcação, com o primeiro Grupo de Trabalho criado em 2004 e reconstituído em 2024. Segundo o RCID, o povo Apurinã que habita esse território foi intensamente afetado durante o período de exploração das chamadas “drogas do sertão”. Além disso, o relatório também aponta que a população indígena Apurinã sofreu com a atuação de missões religiosas, que promoveram um processo de aldeamento e trabalho compulsórios, conversão religiosa e integração forçadas. Além disso, o relatório aponta ainda uma trajetória marcada por deslocamentos compulsórios e violências contínuas.
A Terra Indígena Paiol, Cajual e Palhal, situada no estado do Amazonas, é de ocupação tradicional dos povos Apurinã e Mura. Localizada em Manaquiri (AM), a TI possui uma área de 114.601,0860 hectares. Ao todo, foram 22 anos de espera pelo andamento do processo de demarcação, com o primeiro Grupo de Trabalho criado em 2004 e reconstituído em 2024. Segundo o RCID, a presença dos Mura na região banhada pelos baixos Rios Madeira, Purus, Solimões e Negro é registrada desde o início do século XVIII, em documentos jesuítas relacionados à instalação dos primeiros aldeamentos da Companhia de Jesus na região do baixo Rio Madeira.
O relatório aponta que os Mura ocuparam tradicionalmente e de maneira contínua a localidade até 1970 e 1972, quando funcionários da então Fundação Nacional do Índio (Funai) levaram para a região um grupo Apurinã originário dos igarapés Peneri e Tacaquiri, que havia deixado a região em meados da década de 1950, em razão dos conflitos provocados pela ocupação e exploração violenta do trabalho nos seringais. Atualmente, o território também está inserido em uma região de intensa pressão sobre as florestas públicas, agravada pelo asfaltamento progressivo da BR-319 e pela ocupação desordenada de áreas públicas não destinadas, como indicam as declarações no Cadastro Ambiental Rural sobrepostas a essas áreas.
A Terra Indígena Kapyra Kanakury, situada no estado do Amazonas, é ocupação tradicional dos povos Apurinã (Aruak) e Jamamadi (Arawá). Localizada em Pauini (AM), a TI possui uma área de 567.606,00 hectares e uma população estimada em 300 pessoas. O Grupo de Trabalho para identificação e delimitação do território foi criado em 2024. Foram dois anos de espera pela conclusão dos estudos.
Segundo o RCID, a região do vale do Rio Purus e seus habitantes permaneceram relativamente isolados do mundo ocidental até meados do século XIX, quando a chegada de trabalhadores de diferentes partes do Brasil provocou profundas transformações no modo de vida das populações indígenas que habitavam a região, entre elas os povos Apurinã e Jamamadi. No caso específico da Terra Indígena Kapyra Kanakury, o relatório registra uma ocupação contínua da área pelas mesmas famílias Apurinã há pelo menos 120 anos. A história oral preservada pelo povo também reconhece na paisagem evidências de uma ocupação ainda mais antiga, que ultrapassa o período alcançado pela memória das famílias.
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Audiência pública discute impactos do consumo excessivo de álcool em São Gabriel da Cachoeira (AM)
Audiência reuniu cerca de 300 pessoas e reforçou a urgência de ações integradas de saúde, prevenção e proteção diante dos impactos do álcool na cidade e nas comunidades indígenas
Cerca de 300 pessoas, entre lideranças indígenas, professores, estudantes, representantes de órgãos públicos, organizações da sociedade civil e moradores de diferentes regiões de São Gabriel da Cachoeira (AM) participaram, na última quinta-feira (20/08), de uma audiência pública sobre o consumo abusivo de álcool e seus impactos no município.
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Cerca de 300 pessoas participaram da audiência que falou sobre o consumo abusivo de álcool em São Gabriel da Cachoeira|Vanessa Fernandes/ISA
Realizado pelo Fórum da Comarca de São Gabriel da Cachoeira, em parceria com a Rede Bem Viver, coletivo interinstitucional que atua no município, o encontro foi marcado por relatos sobre o aumento da violência contra mulheres, a vulnerabilidade de crianças e jovens, sobretudo estudantes, e a necessidade de ampliar a presença do poder público nas comunidades do interior.
A audiência reuniu representantes do Conselho Tutelar, da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Alto Rio Negro, da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas), das Secretarias Municipais de Educação, Saúde e Segurança, da Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar (SEDUC/AM), Polícia Civil, Defensoria Pública, Ministério Público, Câmara Municipal, Exército, Instituto Federal do Amazonas (Ifam), organizações indígenas, igrejas e outras instituições, além de lideranças e representantes de comunidades e escolas de Pari Cachoeira e Iauaretê – regiões de fronteira apontadas pelos participantes como especialmente afetadas pela circulação e pelo consumo de bebidas alcoólicas.
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Juiz Manoel Átila Autran Nunes, também apresentou dados que apontam a dimensão do problema no município|Acervo da comarca
Antes da audiência, foram realizadas ações educativas, incluindo uma blitz de orientação junto ao comércio local sobre a proibição de venda de bebidas alcoólicas para menores de idade e sua permanência em locais de consumo, com novas iniciativas previstas em escolas e outros espaços. O objetivo foi criar um espaço de escuta da população, reunindo diferentes setores para construir respostas coletivas e interinstitucionais ao problema.
Durante a abertura, autoridades destacaram a relação entre o consumo abusivo de álcool e diferentes formas de violência. O juiz Manoel Átila Autran Nunes, titular da Vara Única da Comarca de São Gabriel da Cachoeira e responsável pela realização da audiência, apresentou dados que, segundo ele, demonstram a dimensão do problema no município.
Em março, 100% dos casos de violência doméstica julgados por ele estavam relacionados ao consumo de álcool. Durante a semana da audiência, marcada também pela 33ª Semana Justiça pela Paz em Casa, promovida pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o índice chegava a 95% dos casos. Para o juiz, os números são preocupantes e mostram que o enfrentamento da questão exige a participação de toda a sociedade.
A defensora pública Daiane Ayumi Kassada também relatou que quase 100% dos atendimentos que chegam à instituição em São Gabriel da Cachoeira estão relacionados, de alguma maneira, ao uso de álcool, com impactos sobre as famílias, a segurança pública, a saúde e a convivência comunitária.
Valmir Delgado, coordenador do Dsei Alto Rio Negro, relatou o grande aumento da entrada e do consumo de bebidas alcoólicas nas comunidades e seus impactos sobre a população, incluindo casos de violência e estupros. Para ele, é necessário reconhecer a dependência como uma questão de saúde pública que exige acompanhamento e tratamento, evitando que as pessoas sejam simplesmente abandonadas.
Agenda de enfrentamento
A audiência pública realizada em São Gabriel da Cachoeira marca continuidade e dá mais força a uma mobilização já construída por mulheres e jovens indígenas do Rio Negro que, ao longo dos últimos anos, têm promovido debates, formações e estratégias de cuidado baseadas nos saberes locais. Um exemplo é a cartilha "Cuidados com o uso de bebidas alcoólicas na região do Rio Negro", elaborada pela Foirn, Instituto Socioambiental (ISA) e Dsei ARN, que foi disponibilizada também durante a audiência.
Em abril, durante a semana do Acampamento Terra Livre, em Brasília, lideranças do Departamento de Mulheres Indígenas (Dmirn) e do Departamento de Adolescentes e Jovens (Dajirn) da Foirn, em parceria com o ISA, levaram a diferentes órgãos do governo federal um diagnóstico sobre o avanço do uso prejudicial de bebidas alcoólicas e seus impactos nos territórios e na cidade.
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Dulce Morais, antropóloga e assessora de Gênero do ISA, fala da cartilha elaborada pela Foirn, ISA e Dsei|Vanessa Fernandes/ISA
A mobilização partiu de demandas construídas pelas mulheres indígenas e pelos jovens do Rio Negro e buscou chamar a atenção dos ministérios e do sistema de Justiça para a urgência do problema. Entre as reivindicações apresentadas estava a construção de uma política específica de prevenção, atendimento e acompanhamento para os povos indígenas, o fortalecimento dos sistemas de informação sobre o processo de alcoolização, a formação intercultural dos profissionais de saúde e a implantação de um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD) em São Gabriel da Cachoeira.
Um dos encaminhamentos foi a construção de um trabalho piloto interinstitucional de prevenção e enfrentamento ao uso abusivo de bebidas alcoólicas nos territórios, tratando inicialmente o álcool como uma questão de saúde pública, sem reduzir a resposta à dimensão policial, que culminou na realização da audiência da última semana.
O mesmo diagnóstico voltou a ser apresentado às autoridades e à população durante a audiência pública pela assessora de Gênero do ISA, Dulce Morais.
"Esses impactos recaem de forma desproporcional sobre quem já está em maior vulnerabilidade, como as mulheres, crianças e jovens. Isso mostra a necessidade de respostas intersetoriais, sensíveis às dinâmicas sociais e culturais de São Gabriel da Cachoeira", destacou.
Escolas vulneráveis
Grande parte da audiência foi dedicada à manifestação do público. Professores, gestores escolares, estudantes, lideranças comunitárias e representantes de diferentes povos relataram situações vivenciadas nas comunidades e cobraram ações mais concretas do poder público.
O professor Anacleto Gonçalves, conselheiro distrital de Pari Cachoeira, destacou a importância de as instituições estarem presentes também nas comunidades do interior. Segundo ele, enquanto a sede do município concentra a maior parte das estruturas institucionais, as comunidades também precisam de ações concretas e permanentes.
Em Iauaretê, os relatos indicaram uma situação que se estende há anos: Leonardo Ferraz, diretor de uma escola indígena, afirmou que o distrito enfrenta há décadas problemas relacionados à entrada de bebidas e outras substâncias pela fronteira com a Colômbia. Ele pediu mais policiamento e a presença de órgãos de proteção na região.
Outra liderança de Iauaretê, Arlindo Lima Ferreira, também cobrou uma atuação permanente das instituições na região e pediu a elaboração de um plano de ação específico para o distrito.
As escolas apareceram como um dos principais espaços de preocupação. Professores relataram a presença de estudantes afetados pelo consumo de álcool e a necessidade de acompanhamento psicológico e de maior apoio às famílias, além de ações de prevenção, atividades culturais, esportivas e cursos profissionalizantes para crianças e adolescentes como alternativas para ampliar as oportunidades de convivência, emprego e reduzir a exposição a situações de vulnerabilidade.
Para Janete Marcondes, professora e mãe, não basta realizar abordagens pontuais. Ela questionou o que acontece depois que uma pessoa alcoolizada é retirada de uma situação de risco e retorna para uma família também afetada pelo consumo de álcool. Segundo ela, saúde, assistência social, educação e demais setores precisam atuar conjuntamente para garantir continuidade ao atendimento.
Outros participantes chamaram atenção para a situação de pessoas que vivem nas ruas em decorrência da dependência, para a necessidade de espaços de acolhimento e recuperação e para a importância de garantir acompanhamento após o tratamento, com formação profissional e oportunidades de reinserção social.
Durante a audiência, foi lembrada a existência de acordos de convivência construídos pelas próprias comunidades. Para Dadá Baniwa, coordenadora da CR Rio Negro da Funai, o enfrentamento deve envolver tanto as instituições quanto os próprios parentes e comunidades. Segundo ela, é preciso fazer valer os protocolos comunitários e os processos de consulta e convivência construídos localmente.
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A maioria das manifestações foram de professores e gestores escolares, entre eles, Dadá Baniwa|Vanessa Fernandes/ISA
A criação de ações específicas para os diferentes povos, como os de recente contato, também foram mencionadas.
Nova portaria amplia medidas de prevenção
Durante a audiência, o Poder Judiciário publicou a Portaria nº 06/2026 da Vara Única da Comarca de São Gabriel da Cachoeira, que estabelece medidas integradas de prevenção, orientação, fiscalização e comunicação relacionadas às bebidas alcoólicas no município.
A portaria organiza as ações em dois eixos: o Eixo Urbano e Municipal, voltado principalmente à prevenção e repressão da venda, fornecimento e entrega de bebidas alcoólicas a crianças e adolescentes; e o Eixo das Terras e Comunidades Indígenas, destinado à prevenção e ao enfrentamento do ingresso, transporte, fornecimento, distribuição e disseminação irregular de bebidas alcoólicas em terras e comunidades indígenas, respeitando a autonomia, a organização social e as especificidades culturais dos povos indígenas.
O documento também prevê campanhas educativas em português e nas línguas indígenas utilizadas no município, com ações em escolas, unidades de saúde, portos, embarcações, associações, reuniões comunitárias e outros espaços. Entre as medidas está o fortalecimento do Programa Intersetorial de Prevenção ao Consumo de Álcool por Crianças e Adolescentes, com atividades educativas, formação de profissionais, campanhas radiofônicas, participação de famílias e organizações indígenas e articulação da rede de saúde e assistência social.
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Hoje na História Socioambiental: entenda o que foi o Reformatório Krenak
A instituição atuou como uma prisão para pessoas indígenas consideradas como ‘risco’ à integridade do Estado brasileiro, à época, comandado por militares
Atenção: a nota e os documentos utilizados apresentam conteúdos sensíveis sobre graves violações de direitos humanos e violência contra povos indígenas.
Em novembro de 1969, a ditadura militar recrutou forçosamente, em Minas Gerais, indígenas para compor a primeira turma do curso de formação da Guarda Rural Indígena, a GRIN. A Guarda era uma milícia, criada pelo regime, e composta por indígenas de diversas etnias, treinados para vigiar e reprimir outros indígenas que tivessem comportamentos considerados inadequados.
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Recorte da edição de 07 de junho de 1970 do jornal O Estado de S.Paulo. Disponível aqui.
Veja documentário abaixo
A GRIN era uma das faces da militarização da chamada “questão indígena”, que inclusive atuava como forma de incorporar os povos às forças armadas. O idealizador da GRIN, o capitão Manoel dos Santos Pinheiro, assumiu a frente da prisão indígena naquela região, chamada Reformatório Krenak, também criada em 1969, na área do posto indígena Guido Marlière, no Rio Doce, em Resplendor (MG).
Em jornais da época, o Capitão Pinheiro assumiu:
“Fui eu quem criou a Grin e idealizou [o reformatório] Krenak. [...] Tratei logo de prender os índios que lideravam o movimento e fui pouco a pouco restabelecendo a paz no local. Meu trabalho foi considerado excelente e assim fui convidado pela presidência da Funai para trabalhar com os índios de Minas Gerais.”*
Na época, o número exato da população indígena no Brasil era desconhecido pelo Estado. Estimava-se entre 70 a 110 mil, contando apenas indígenas “aldeados”, que eram aqueles que estavam em terras demarcadas oficialmente pelo Estado, desconsiderando assim outros milhares de indígenas fora desses territórios.
Nesse momento, a frase “Terras demais para poucos índios” virou justificativa para remover pessoas de seus territórios de origem, perseguir povos indígenas e acabar com os poucos direitos que tinham.
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Recorte da edição de 13 de abril de 1970 do jornal Correio da Manhã (Rio de Janeiro - RJ). Disponível aqui.
Como acreditava-se que a população indígena era tão pequena que um dia ela desapareceria, outra forma de “tratar” essas pessoas era fazendo uma espécie de “educação”, o que conhecemos hoje como etnocídio, em que o objetivo principal era fazer com que deixassem de parecer indígenas, e se assimilassem com a população não indígena. Dessa forma, as pessoas indígenas que não se parecessem com brancos eram considerados selvagens, rebeldes, arredios, entre muitas outras “categorias” utilizadas para justificar a prática dessas e outras violências.
O Reformatório Krenak foi criado, portanto, na tentativa de concretizar a remoção das populações indígenas dos territórios de interesse do agronegócio e/ou mineração, principalmente na região do Rio Doce, e com isso foi destinado para os indígenas que fossem considerados “rebeldes” na ótica do Estado, seja contrariando suas imposições, seja pelo não cumprimento de qualquer ordem policial. No fim das contas, eles eram perseguidos por estarem em suas próprias terras.
Ao mesmo tempo, o Reformatório representou uma violência coletiva contra o povo Krenak, uma vez que foi instalado em suas terras, comprometendo suas formas de vida, sua autonomia e suas relações com seu território tradicional. Além disso, o Reformatório tornou-se um laboratório para a aplicação e o aperfeiçoamento de técnicas de repressão e tortura posteriormente utilizadas de forma mais ampla pela ditadura, inclusive contra não indígenas.
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Para “reeducar”, os procedimentos se basearam em tortura, trabalho e aculturação forçada, proibindo que os indígenas falassem suas línguas, usassem suas indumentárias e praticassem seus costumes. Apesar do nome da prisão, outros povos, para além do povo Krenak, sofreram com a sua instalação.
Segundo o relatório da Comissão Nacional da Verdade, o reformatório tinha como aprisionados:
22 Karajá, 17 Terena, 13 Maxacali, 11 Pataxó, nove Krenak, oito Kadiweu, oito Xerente, seis Kaiowá, quatro Bororo, três Krahô, três Guarani, dois Pankararu, dois Guajajara, dois Canela, dois Fulniô e um Kaingang, Urubu, Campa, Xavante, Xakriabá, Tupinikim, Sateré-Mawé, Javaé, além de um não identificado, porém, o número de índios presos na ditadura militar pode ser maior.**
Assista à videorreportagem “Reformatório Krenak”
O Reformatório Krenak funcionou entre os anos 1969 e 1972. Com sua desativação, parte dos prisioneiros foi transferida para a Fazenda Guarani, também em Minas Gerais, onde as violações de direitos continuaram até o final da ditadura.
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Recorte da edição de 24 de dezembro de 1971 do Jornal do Brasil (Rio de Janeiro-RJ). Disponível aqui.
Em 19 de outubro de 2021, a 14ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária de Minas Gerais julgou a Ação Civil Pública nº 0064483-95.2015.4.01.3800*** e reconheceu as graves violações de direitos humanos cometidas contra o povo Krenak durante a ditadura militar.
A ação, proposta pelo Ministério Público Federal, solicitava, entre outros pontos, pedido público de desculpas, recuperação ambiental das terras esbulhadas, tradução de documentos fundamentais para a língua Krenak, entrega de registros oficiais da ditadura, inclusão do tema nas escolas, preservação da língua e da cultura, além da conclusão da demarcação da Terra Indígena Krenak de Sete Salões e o reconhecimento da responsabilidade de Manoel dos Santos Pinheiro, o “Capitão Pinheiro”, pelos crimes cometidos; embora ele tenha falecido antes de ser julgado.
Somente em 2024, mais de 40 anos depois do fim da ditadura, o povo Krenak, junto com o povo Guarani Kaiowá, recebeu o pedido de desculpas formal do Estado brasileiro, concedido no dia 02 de abril daquele ano pela Comissão de Anistia, órgão ligado ao Ministério dos Direitos Humanos. Tornaram-se assim os primeiros anistiados políticos coletivos da história do Brasil, devido às violências sofridas por eles durante o período ditatorial no país.
Resistir frente a graves violações de direitos humanos é um ato de coragem e complexidade. A ideia estrita de resistência como apenas resistência armada é colonial. Apesar de o povo Krenak ter travado um longo embate contra o Estado brasileiro por séculos, tendo como momento emblemático as chamadas Guerras Justas de 1808 – que podem ser entendidas como um extermínio promovido pelo Estado e a retomada legal da escravização indígena –, houve outros tipos de resistência na contemporaneidade.
A resistência cultural e política pós-ditadura foi um marco importante para a própria redemocratização do país e também para a memória coletiva da comunidade Krenak.
A partir da relatoria de Maíra Pankararu, no livro Demarcar é Reparar: Povos Indígenas e Justiça de Transição, Shirley Krenak, cujo pai foi levado para o Reformatório Krenak, afirma que a memória da perseguição vivida por uma pessoa não é apenas individual, mas também coletiva. Para ela, a história de sua família pertence igualmente ao povo Krenak, aos demais povos indígenas e à sociedade brasileira como um todo.
Nesse sentido, as memórias do povo Krenak evidenciam como a ditadura militar foi marcada por graves violações de direitos e por uma política sistemática de violência também contra os povos indígenas, reforçando a necessidade de reconhecer, preservar e difundir essas histórias como parte da construção da verdade, da justiça, da reparação e da não repetição.
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Fotocolagem feita pela artista Shirley Espejo sobre o Fórum Memória, Verdade, Reparação Integral, Não Repetição e Justiça para os Povos Indígenas
Foi a partir da compreensão de que preservar e difundir a memória indígena é também enfrentar os silenciamentos produzidos pela violência de Estado que o Kit Didático: Que formato tem a memória dos povos indígenas? Documentos históricos, relatos orais, e outras fontes para construir memórias coletivas foi desenvolvido para usos em sala de aula e já está disponível no Acervo do ISA. Por meio de documentos históricos, relatos orais, produções audiovisuais e outros registros, o material convida estudantes e educadores a refletirem sobre as violações de direitos cometidas durante a ditadura militar, o papel da memória na construção da verdade histórica e a resistência dos povos indígenas diante das políticas de repressão.
Pessoas educadoras, venham conhecer o kit didático que reúne fontes e documentos com propostas de reflexão para apoiar discussões e atividades sobre o assunto em sala de aula!
*Jornal do Brasil (Rio de Janeiro, Primeiro Caderno, p. 30, 27 ago. 1972), citado em: CORRÊA, José Gabriel Silveira. A proteção que faltava: O Reformatório Agrícola Indígena Krenak e a administração estatal dos índios. Arquivos do Museu Nacional: Rio de Janeiro, v. 61, n. 2, abr./jun. 2003, p. 129-146.
**BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório: textos temáticos. Brasília, 2014, p. 244. Disponível em: http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/. Acesso em: 21 maio 2025.
AZOLA, Fabiano André Atenas. A Guerra dita Justa que nunca acabou: uma contra-história Krenak. Dissertação de Mestrado. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021.
BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório: textos temáticos. Brasília, 2014a. Disponível em: http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/. Acesso em: 05 jun. 2024.
MONTEIRO, John Manuel. Tupis, Tapuias e historiadores: estudos de História Indígena e do Indigenismo. Tese de livre docência, Unicamp, Campinas, 2001.
MOREIRA, Vânia Maria Losada. 1808: a guerra contra os botocudos e a recomposição do império português nos trópicos. In: CARDOSO, José Luis; MONTEIRO, Nuno Gonçalo; SERRÃO, José Vicente (Orgs.). Portugal, Brasil e a Europa Napoleônica. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2010
MOREL, MARCO. A saga dos Botocudos: Guerra, imagem e resistência indígena. São Paulo: Hucitec Editora, 2018.
OKUBO, Brenda. História e memória do passado Krenak: levantamento de fontes sobre violência e resistência indígena no pós-ditadura (1988-2024). São Paulo, 2024.
RIBEIRO, Darcy. Os índios e a civilização: a integração das populações indígenas no Brasil moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
VALENTE, Rubens. Os fuzis e as flechas: história de sangue e resistência indígena na ditadura. 1 ed. São Paulo: Cia das Letras, 2017.
ZEMA, Ana Catarina. (Org.). Demarcar é reparar: olhar indígena sobre a justiça de transição no Brasil. 1. ed. São Paulo, SP: Instituto de Políticas Relacionais, 2023.
***A série Hoje na História Socioambiental apresenta a riqueza de informações do Acervo do ISA que conta com mais de 250 mil itens catalogados voltados para a temática socioambiental como publicações, livros, teses e dissertações, mapas, notícias, materiais audiovisuais, entre outros. Hoje na História Socioambiental é um convite a reler o Brasil com mais amplitude, sensibilidade e justiça, valorizando a memória e documentação dos diversos povos.
Esta publicação conta com o apoio do Fundo Amazônia e é um produto do projeto "Defesa e Promoção dos Direitos Indígenas no Brasil: Construir Capacidades e Engajar Pessoas por um Futuro mais Justo", realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), com o financiamento da União Europeia.
Este material tem conteúdo de responsabilidade exclusiva da instituição realizadora e não reflete a posição da União Europeia.
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Em memória: lideranças guarani da Aldeia Kalipety deixam legado de luta por seu modo de vida
As lideranças Kerexu Laudiceia Benites e Karaí Tiago, seus dois filhos e outros três moradores da aldeia Kalipety, na Terra Indígena Tenondé Porã (SP), foram vitimados por uma carreta em rodovia de Mato Grosso do Sul
*Atualizada às 8:05 do dia 18/08 para acréscimo de informações.
O Instituto Socioambiental (ISA) expressa a mais profunda consternação pelo falecimento de sete indígenas Guarani, entre eles lideranças e crianças, em trágico acidente provocado por uma carreta carregada de grãos na noite de sexta-feira (14/08) em Mato Grosso do Sul.
A colisão da carreta de grãos com o veículo de passeio ocupado pelos indígenas ocorreu na rodovia MS-180, próximo à Terra Indígena Yvy Katu, entre os municípios de Iguatemi e Japorã, no extremo sul do estado. A caminho da Terra Indígena Cerrito, o grupo era composto por lideranças e moradores da aldeia Kalipety, na Terra Indígena Tenondé Porã, em São Paulo (SP), que faziam um intercâmbio de sementes e saberes tradicionais por diferentes comunidades.
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Da esq. pra direita: Laudiceia, Cleonice, Luna, Tiago, Ileo, Genilson e Tadeu durante os intercâmbios | Comunidade Indígena Laranjeira Ñanderu
Entre as vítimas estavam as lideranças Karaí Tiago Honório dos Santos (Tiago Karai), de 34 anos, que foi coordenador executivo da Comissão Guarani Yvyrupa (CGY) e do Comitê Interaldeias e Kerexu Laudiceia Benites, de 31 anos, liderança da aldeia Kalipety, estudiosa de remédios tradicionais e sua companheira. Seus filhos Jaxuka Luna Benites Santos, de 7 anos, e Tadeu Hiago Werá Mirim Benites dos Santos, de 14 anos, também faleceram.
A colisão vitimou ainda Kerexu Cleonice Honório dos Santos, de 42 anos, liderança e irmã de Tiago, e outros dois jovens de grande importância para as comunidades: Ileo Benites, de 30 anos, e Genilson Euzébio Karay Mirim, de 32 anos.
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Karaí Tiago fala em evento sobre turismo de base comunitária a partir da experiência na TI Tenondé Porã, em 2019 | Rafael Hupsel/ISA
As lideranças integravam o Coletivo de Lideranças da TI Tenondé Porã e foram atores chave no processo de demarcação da área e no fortalecimento das práticas culturais e socioambientais do povo Guarani. No âmbito municipal, Karaí Tiago liderou as mobilizações pelo #CinturãoVerdeGuarani, baseado nas ações de e recuperação ambiental, gestão territorial e da agrobiodiversidade das Terras Indígenas na capital paulista. Ele e Laudicéia eram também cantadores e seu grupo familiar mantinha uma das casas de rezas da Aldeia Kalipety.
À direita e de braços cruzados, Kerexu Cleonice, liderança e irmã de Karaí Tiago, observa preparo de alimento tradicional Guarani em intercâmbio com Ehuana Yanomami (em pé, às esq.) | Ana Maria Machado
Karaí Tiago esteve à frente ainda da constituição do Comitê Interaldeias, organização indígena criada em resposta aos impactos socioambientais da duplicação de ferrovia que corta as TIs Tenondé Porã, Rio Branco, Tekoa Mirim, Guarani do Aguapeú e Itaóca.
O ISA oferece suas mais sinceras condolências às famílias, amigos das vítimas e ao povo Guarani – em especial à Comissão Guarani Yvyrupa, ao Comitê Interaldeias e às comunidades da Terra Indígena Tenondé Porã. Sublinhamos também a importância de uma apuração célere e rigorosa pelas autoridades competentes sobre as circunstâncias do ocorrido.
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Pesquisadores indígenas do Rio Negro fortalecem registros sobre o território com uso de celular
Oficina de comunicação foi realizada pela Rede Wayuri e pelo ISA durante encontro dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental do Tiquié
Cerca de 20 pessoas, entre AIMAs, professores, lideranças, conhecedores e estudantes da região, participaram da atividade | Foto: Mauro Pedrosa/AIMA
Durante três dias, os Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) do rio Tiquié participaram de uma oficina de produção de conteúdo com celular, realizada na comunidade Serra de Mucura, durante o encontro semestral de pesquisadores da região, que aconteceu de 6 a 16 de agosto.
Conduzida pela Assessoria de Comunicação do Instituto Socioambiental (ISA) e pela coordenação da Rede Wayuri, a oficina foi pensada para aprimorar os registros que os agentes já realizam durante suas atividades de monitoramento e no dia a dia, fortalecendo a comunicação a partir do território.
Cerca de 20 participantes, entre AIMAs, professores, lideranças, conhecedores e estudantes da região, participaram da atividade. A proposta foi partir de algo que já faz parte do cotidiano dos pesquisadores – o uso do celular para fotografar, filmar e se comunicar – para desenvolver um olhar mais atento sobre como registrar uma história, uma paisagem, uma prática ou um conhecimento.
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AIMAs entrevistaram conhecedores durante atividade prática de produção de vídeo | Foto: Vanessa Fernandes/ISA
No primeiro dia, os participantes aprenderam noções básicas de enquadramento, estabilidade da imagem, escolha da orientação do celular, uso da luz natural e cuidados com o áudio. Em uma atividade prática, foram convidados a sair pela comunidade e contar uma história utilizando apenas a fotografia, experimentando diferentes formas de observar e registrar o território.
No segundo dia, o foco foi a produção de áudios com qualidade utilizando apenas o celular. Os participantes aprenderam técnicas para gravar a própria voz e, em seguida, fizeram um primeiro exercício de edição, organizando imagens e sons em uma sequência nos aplicativos de edição para celular. A proposta foi trabalhar com ferramentas simples para transformar os registros em uma narrativa, combinando imagens, sons e locução.
Durante a oficina, também foi trabalhada uma etapa fundamental de qualquer produção: planejar antes de gravar ou fotografar. Para isso, os participantes foram convidados a responder perguntas simples, como: qual é o tema do conteúdo? Quem pode contar essa história? Onde ela será gravada ou fotografada? O que será mostrado? O que será dito na locução? E para qual público aquele conteúdo será produzido?
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Aimas durante prática de enquadramento para fotografia e vídeo com o celular | Fotos: Vanessa Fernandes/ISA
Esse planejamento é especialmente importante quando os registros envolvem conhecimentos tradicionais, como locais sagrados, benzimentos, medicinas tradicionais ou outros conhecimentos específicos. Nesses casos, é necessário conversar previamente com os conhecedores e os mais velhos para definir o que pode ou não ser mostrado, registrado e compartilhado.
No último dia da oficina, divididos em grupos, os participantes colocaram em prática todas as etapas aprendidas: escolheram o que contar, organizaram o roteiro, fizeram os registros, gravaram as locuções, editaram e finalizaram os vídeos.
Entre os temas escolhidos estavam a produção e o uso de instrumentos da maloca, narrativas de criação e aves semeadoras. Para construir as narrativas, conhecedores e os próprios pesquisadores indígenas foram entrevistados, compartilhando conhecimentos e histórias relacionados aos temas escolhidos.
À noite, no encerramento da oficina, todos se reuniram para assistir e comentar as produções. A exibição também se transformou em um momento de troca entre diferentes gerações. Os conhecedores presentes compartilharam outras histórias sobre a origem e a importância de instrumentos rituais, como o tambor e o uhpitu – um apito, cuja forma se assemelha a um jarro, produzido em argila –, ampliando as narrativas apresentadas nos vídeos e aproximando diferentes formas de transmissão de conhecimento.
Fortalecendo narrativas
Para Claudia Ferraz, coordenadora da Rede Wayuri e uma das facilitadoras da oficina, a atividade reforçou a importância de uma comunicação produzida pelos próprios povos indígenas e voltada, sobretudo, para a circulação de informações entre os próprios parentes. Além de ser uma ferramenta para o registro de suas histórias, cotidianos e realidades, o celular também contribui para o combate às fake news sobre os territórios.
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Conhecedores contam histórias sobre instrumentos sagrados durante apresentação das produções e encerramento da atividade de comunicação | Fotos: Claudia Ferraz/Rede Wayuri
“O mais importante é essa produção dos próprios parentes, de nós mesmos, trazendo informações nas nossas línguas. A maior parte das narrações, dos relatos e das informações aqui na oficina foi feita nas línguas maternas da comunidade”, destaca Claudia.
Roberval Pedrosa é liderança e AIMA há mais de 20 anos. Para ele, aprender a utilizar o celular para produzir fotos, vídeos e áudios representa uma ferramenta complementar aos registros que os pesquisadores já fazem em seus diários de campo.
“Isso será uma ferramenta que a gente terá que usar diariamente, acompanhar com os diários, e vai fortalecer bastante as nossas pesquisas”.
Ainda segundo a liderança, também é uma forma de divulgar o trabalho dos pesquisadores indígenas e trocar conhecimentos com pesquisadores de outras regiões. “Com o tempo, a gente vai praticando, mandando as fotos para a Rede Wayuri ou para o ISA, para mostrar diretamente o que está acontecendo, acompanhar a realidade do clima e aprender com outros colegas”, explica.
Para Ismael dos Santos, pesquisador desde 2009, a oficina também abriu possibilidades que ainda não faziam parte de sua experiência. Ele destaca principalmente os aprendizados sobre produção de áudio e aplicativos de edição. “Ninguém tinha tido esse tipo de oficina antes. Eu aprendi bastante. Isso vai ajudar muito para divulgar alguns videozinhos, tirar fotos, enviar e compartilhar com meus colegas do nosso grupo”, finaliza.
Essa foi a primeira oficina de comunicação direcionada aos pesquisadores indígenas. De acordo com Aloísio Cabalzar, antropólogo do ISA e analista de pesquisa intercultural do Programa Rio Negro, a realização é parte de um desejo antigo de fortalecer a colaboração entre a rede de pesquisadores e a rede de comunicadores, a fim de compartilhar os resultados dos registros dos AIMAs, realizados há mais de 20 anos, especialmente sobre o clima e suas mudanças, além do registro das narrativas tradicionais.
As oficinas dos AIMAs são realizadas duas vezes ao ano nas diferentes regiões do Alto Rio Negro onde os pesquisadores estão presentes, com o objetivo de promover a troca de conhecimentos e aprofundar temas específicos relacionados ao monitoramento e à pesquisa no território. Nesta edição no Tiquié, além da comunicação, os participantes trabalharão conhecimentos sobre o manejo de capoeira, dando continuidade à primeira etapa da formação, realizada em novembro de 2025, na comunidade Boca da Estrada.