A Bacia do Rio Negro se estende pelos estados do Amazonas e de Roraima, no Brasil, e também avança pelos territórios vizinhos da Colômbia, Venezuela e Guiana. Na sua porção no Amazonas, a bacia é uma das regiões mais preservadas de todo o bioma amazônico, com biodiversidade incalculável. Por outro lado, a parte da bacia localizada em Roraima vem sofrendo grande degradação ambiental causada pelo garimpo ilegal de ouro, desmatamento e roubo de terra, ou "grilagem de terra".
Aproximadamente 68% da Bacia do Rio Negro no Brasil está formalmente protegida por um conjunto de unidades de conservação e terras indígenas legalmente reconhecidas. A diversidade cultural da região é enorme: ali vivem 45 povos indígenas e estão localizados dois patrimônios culturais do Brasil – a Cachoeira de Iauaretê e o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro – além do ponto mais alto do Brasil, o Pico da Neblina, lugar sagrado do povo Yanomami.
No Rio Negro, o ISA mantém trabalho de longo prazo e parceria institucional - que nos enche de orgulho - com associações indígenas e suas lideranças, entre elas a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), a Hutukara Associação Yanomami (HAY) e o Conselho Indígena de Roraima (CIR).
Mantemos escritório e equipe na cidade de São Gabriel da Cachoeira (AM), considerado o município mais indígena do Brasil, localizado no Alto Rio Negro. De São Gabriel, também descemos com as águas do Negro para apoiar comunidades e associações indígenas dos municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, ambos no Amazonas. Em 2009, o ISA incorporou a organização Comissão Pró-Yanomami (CCPY), sua equipe e legado, abrindo escritório em Boa Vista (RR) e passando a atuar diretamente com o povo Yanomami e outros povos de Roraima.
Atualmente, o ISA atua na Bacia do Rio Negro com a promoção de processos formativos, articulando parcerias para a proteção dos territórios indígenas, valorização da diversidade socioambiental, segurança alimentar das comunidades, desenvolvimento de cadeias de valor da economia da floresta para geração de renda e produção de pesquisas interculturais que dêem visibilidade aos conhecimentos tradicionais e modos de vida das populações que, há muitos anos, mantém as florestas da região preservadas.
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Boa Vista tem picos de ar insalubre em metade do ano, aponta Inpa
Capital de Roraima tem pico de insalubridade causado pela fumaça das queimadas, entre janeiro e março. Qualidade do ar ficou pior que a de São Paulo 4 vezes em 2024
As cores mais quentes indicam os picos de poluição em Roraima. Fonte: Monitoramento da Qualidade do Ar na Cidade de Boa Vista - Roraima / Inpa
Em Boa Vista, em seis meses do ano, o ar respirado pela população apresenta picos de insalubridade, principalmente por causa da fumaça das queimadas e incêndios florestais. É o que revela uma pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) publicada no último dia 6. O relatório “Monitoramento da Qualidade do Ar na Cidade de Boa Vista - Roraima” registrou dados do período de 2020 a 2024.
“Do ponto de vista global, Boa Vista não é uma megacidade que produz grandes quantidades de poluentes urbanos derivados de fábricas e/ou indústrias. Por outro lado, a fumaça derivada de queimadas e incêndios (florestais e não florestais), em especial nos últimos anos, tem tornado a cidade um local insalubre por vários dias”, conclui o estudo assinado por Reinaldo Imbrozio Barbosa e Arthur Camurça Citó.
No dia 2 de abril, o ar na capital roraimense foi classificado como o 15º pior do mundo. O levantamento do Inpa lembra que, neste ano, a cidade teve quatro dias com níveis de poluição que superaram o de algumas das grandes metrópoles mais poluídas do planeta, como Hanoi, no Vietnam, e São Paulo.
De acordo com a pesquisa, nos quatro dias em questão, foi registrado um nível de material particulado no ar superior a 300 microgramas por metro cúbico (µg/m³) de PM 2.5 (partículas de poeira inaláveis de diâmetro igual ou menor que 2.5 microns) – a unidade de medida da concentração de poluentes.
O estado teve recorde de focos de calor em fevereiro deste ano, considerando a série histórica do mês desde 1998. Como várias outras regiões do país, a capital, outros municípios e terras indígenas, incluindo a Yanomami, ficaram cobertos por fumaça. O levantamento do Inpa aponta que a nuvem de poluição gerada em Roraima foi tão grande que acabou alcançando regiões relativamente distantes, como o Alto Rio Negro e o Alto Rio Solimões, no Amazonas.
Vista de Boa Vista com fumaça de queimadas ao fundo neste ano | Lucas Silva/ Platô Filmes/ ISA
“Pico de insalubridade”
“Estamos tratando a insalubridade do ar como a poluição que pode causar danos à saúde humana. Esse impacto à saúde tem níveis diferentes, tanto pela quantidade de poluição quanto pelo público que é afetado”, explica Citó.
O “pico de insalubridade” é um período de tempo que concentra saltos nos níveis máximos de poluição. De acordo com a pesquisa, de janeiro a março, Boa Vista sofre o maior pico por causa de queimadas e incêndios, localizados principalmente no centro e norte de Roraima, em anos de extrema seca e ventos fortes, como em 2024 e 2023.
Ainda conforme o estudo, o segundo período mais crítico, de agosto a outubro, é causado pelo transporte de poluentes vindos de incêndios e queimadas situados no sul da Amazônia, em especial no oeste do Pará e localidades próximas de Manaus.
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Fonte: Monitoramento da Qualidade do Ar na Cidade de Boa Vista - Roraima / Inpa
“No pico de poluição primário (janeiro a março), os valores de poluição são maiores, oferecendo riscos à população em geral”, aponta o pesquisador. “Depois desse pico, os valores de poluição baixam e podem chegar a 0 durante o período de chuvas. Mas a partir de agosto surge um novo pico de poluição, que se estende até outubro, configurando um pico de poluição secundário. Caracterizamos este trimestre como ‘pico secundário’ porque os valores de poluição são menores, oferecendo maior risco a uma parcela mais sensível da população, como crianças e idosos”, detalha.
Pelo fato de parte do estado estar acima da Linha do Equador, em Roraima o período de seca vai de outubro a março e o chuvoso, de abril a setembro, ao contrário do que acontece no resto do país.
Para se ter uma ideia do problema, nos quatros anos analisados pelos cientistas do Inpa, em 70 dias a qualidade média do ar foi classificada como “insalubre para grupos sensíveis”, “insalubre” ou “muito insalubre”. Por outro lado, em 255 dias a leitura máxima da concentração de poluentes feita ao longo do dia alcançou a classificação de “insalubre para grupos sensíveis”, “insalubre", “muito insalubre” ou “péssima” (veja a tabela).
Como a pesquisa foi feita?
Os pesquisadores observaram os dados de qualidade do ar em 1290 dias, entre julho de 2020 e maio de 2024. A pesquisa analisou médias diárias (variação ao decorrer do dia) do grau de poluição e também máximas diárias (pico de insalubridade do dia).
Com base nas médias diárias, Boa Vista teve 689 dias (53,4%) com qualidade de ar considerada boa. No entanto, nos outros 601 dias (46,6%), a qualidade do ar apresentou algum grau de risco para os moradores. Já na análise de máximas diárias, a cidade teve pico de ar insalubre em 1010 dias (78,3%), enquanto a qualidade considerada boa sofreu queda brusca em 280 dias (21,7%) (veja a tabela acima).
Para chegar aos resultados, os cientistas utilizaram dois sensores PurpleAir. A tecnologia é conectada à internet e foi instalada em Boa Vista em 2020. Conforme o estudo, há outros sensores instalados em Roraima, mas nenhum deles possui séries temporais adequadas para formatação de qualquer tipo de padrão que pudesse resultar em uma análise científica.
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Nível do Rio Branco, em Boa Vista, chegou a quase 40 cm abaixo da medição mínima | Stephanie Vieira / Platô Filmes / ISA
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Nós e eles
O sócio fundador do ISA Márcio Santilli avalia os desdobramentos da crise sanitária dos Yanomami e cobra solução para suas causas
Márcio Santilli
- Sócio fundador e presidente do ISA
Presidente Lula visita Casa de Saúde Indígena em Boa Vista (RR) para avaliar crise sanitária dos Yanomami, janeiro de 2023 | Ricardo Stuckert / PR
Na cosmologia ensinada por Davi Kopenawa, o ouro e outros minérios, quando retirados dos seus depósitos subterrâneos, exalam energias que forçam o rompimento e a queda do céu. Por isso, os pajés Yanomami precisam trabalhar o tempo todo para segurar o céu. Se os invasores matarem os Yanomami, o céu desabará sobre a Terra.
O pensamento de Davi tem uma similaridade impressionante com a ciência do clima e com as emissões excessivas de gases do efeito estufa, que aquecem a atmosfera e provocam secas agudas e violentas tempestades, ameaçando todas as formas de vida. É, também, uma metáfora viva da interdependência entre os povos e deles com a natureza.
Davi nos faz essa denúncia há 40 anos, desde as primeiras invasões garimpeiras à Terra Indígena Yanomami (AM-RR), ainda nos tempos de ditadura militar. Eram, então, 40 mil garimpeiros, grande parte oriunda do garimpo exaurido de Serra Pelada, no Pará. Foram milhares, mas nem é possível precisar quantos Yanomami morreram, vítimas de armas de fogo, da malária e de outras doenças. Quase todos os invasores foram retirados e a terra foi demarcada, mas pequenos focos ficaram, pulando de um lado para outro na fronteira com a Venezuela.
Agora, há outra invasão em massa. Os garimpeiros estão em menor número, mas provocam destruição maior. Talvez sejam uns 20 mil ou menos. Mas usam dragas, escavadeiras e outros equipamentos muito maiores e com alta capacidade de destruir igarapés inteiros. A contaminação do solo, das águas e dos organismos é muito maior.
Parte deles presta serviços de apoio, manutenção, alimentação e lazer, enquanto outros operam na extração do ouro ou da cassiterita. Entre esses, há garimpeiros profissionais, que tendem a vazar pela fronteira em busca de outros garimpos, e os sazonais, que seguem esse caminho para tentar levantar dinheiro, para a compra de imóveis ou carros, entre outros. Os nossos motivos são comezinhos. Por isso, os Yanomami dizem que os brancos não têm memória.
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Yanomami recebem atendimento em hospital em Boa Vista (RR) | Felipe Medeiros / Amazônia Real
Chocante
Não faltaram denúncias. Várias comunicações e alertas formais foram feitas às autoridades. A Hutukara Associação Yanomami liderou campanhas e a mídia publicou bastante sobre o assunto. O caso chegou ao Tribunal Penal Internacional. Mas foi só depois que mudou o governo que informações oficiais do Ministério da Saúde revelaram as mortes (subnotificadas) de 570 crianças indígenas por desnutrição e outras causas evitáveis e vieram à tona imagens estarrecedoras de velhos e crianças famélicos.
Mas o que levantou, mesmo, a poeira foi a decisão do presidente Lula de visitar Roraima, de supetão, com ministros e jornalistas, pondo em evidência a situação caótica na Casa de Saúde Indígena de Boa Vista. Lula não foi ao território, mas colocou as cenas chocantes na casa de cada um de nós, tornando urgentes soluções para aquela situação inaceitável. E determinou ações emergenciais aos órgãos envolvidos, como os ministérios da Justiça, Defesa e dos Povos Indígenas, enquanto se planeja a retirada dos invasores.
No meio desse escândalo planetário, o governador reeleito de Roraima, Antônio Denarium, ainda foi capaz de piorar as coisas, declarando-se a favor da aculturação forçada dos indígenas, à revelia dos seus direitos constitucionais de viverem conforme as suas culturas, como se está fosse a solução para o gencídio em seu estado. Ele já havia promulgado uma lei estadual legalizando o garimpo predatório, declarada inconstitucional pelo STF. Mostrou-se ao mundo como um dos cúmplices dessa situação.
Representantes do ex-governo genocida tentam minimizar a repercussão da tragédia. Bolsonaro disse que o problema sempre existiu e não responde pelo crescimento de mais de 300% do garimpo durante o seu mandato nas terras Yanomami. Ele visitou pessoalmente garimpos ilegais e tentou assediar líderes yanomami para estender a predação pelo território. O genocídio decorreu de políticas deliberadas.
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Militares jogam mantimentos para aldeia na Terra Indígena Yanomami em meio à crise sanitária | Fernando Frazão / Agência Brasil
Solidariedade
Muita gente, chocada, está ajudando nas ações emergenciais com doações em dinheiro, alimentos e remédios. A Hutukara e o Conselho Indígena de Roraima (CIR) mobilizam parceiros na sociedade civil, como a Central Única das Favelas (CUFA), Médicos Sem Fronteira, Diocese de Roraima e o Instituto Socioambiental (ISA) para apoiarem as iniciativas do governo na assistência à saúde, distribuição de alimentos e comunicação.
Certamente, há entre as doações contribuições de empresas e de empresários indignados com a situação. O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) reiterou a sua oposição ao garimpo ilegal. Mas não houve, até agora, um movimento empresarial de escala para barrar de vez o acesso da produção predatória aos mercados e para viabilizar investimentos num modelo econômico sustentável na Amazônia. A cooperação internacional está oferecendo recursos para ajudar no front emergencial e na reestruturação das políticas socioambientais, desmanteladas no mandato anterior. Mas também pode fazer mais para impedir o acesso dos produtos e dos recursos ilegais aos mercados. A comoção gerada pelo genocídio precisa ir além da justa indignação para dar suporte à reversão definitiva do quadro atual.
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O que você precisa saber para entender a crise na Terra Indígena Yanomami
Dados confirmam que tragédia é resultado direto do desmonte de serviços de saúde e do agravamento da invasão garimpeira promovidos pelo governo Bolsonaro
No dia 20/1, a agência Sumaúma noticiou que 570 crianças de até cinco anos morreram de doenças evitáveis, entre 2019 e 2022, na Terra Indígena (TI) Yanomami (AM-RR). As fotos de crianças e idosos esquálidos, desnutridos, divulgadas na imprensa e nas redes sociais causaram comoção dentro e fora do Brasil.
Acompanhado de vários ministros, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi a Roraima avaliar a crise. O governo decretou emergência de saúde na área e anunciou uma série de medidas, como o envio de equipes médicas à região e a instalação de um hospital de campanha em Boa Vista.
A repercussão do caso gerou indignação, dúvidas, surpresa, com a impressão de que o problema veio a público só agora, e, claro, fake news. Logo começaram a circular notícias falsas para desviar o foco da responsabilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro. Contra fatos e imagens, ele classificou a situação como uma “farsa da esquerda”.
O ISA resumiu abaixo, num texto de perguntas e respostas, as principais informações e dados científicos colhidos por pesquisadores, técnicos do governo, imprensa, sociedade civil e as próprias comunidades para você entender a tragédia humanitária que se abateu sobre os Yanomami e ajudar a combater a desinformação.
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Garimpo no Rio Uraricoera, Terra Indígena Yanomami, em janeiro de 2022
O que está acontecendo na Terra Indígena Yanomami pode ser considerado genocídio?
A Lei 2.889/1956 diz que o genocídio é caracterizado pela “intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso”, por meio de atos como: “matar membros do grupo; causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo; submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial; adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo; efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo”. A definição segue a legislação internacional.
Juristas ouvidos pela imprensa nos últimos dias dizem que há indícios de que a gestão Bolsonaro cometeu o crime na TI Yanomami, mas apenas um julgamento pela Justiça brasileira ou internacional poderá confirmá-lo.
Na segunda (30), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso determinou a abertura de inquérito contra autoridades federais para apurar essa possibilidade. Não se sabe exatamente quem é alvo do processo porque ele está sob sigilo.
Na semana passada, o ministro da Justiça, Flávio Dino, já tinha determinado que a Polícia Federal (PF) também investigasse os possíveis crimes de genocídio e omissão de socorro por parte do governo anterior no território indígena.
O assassinato de 16 Yanomami por garimpeiros, em 1993, conhecido como “Massacre de Haximu”, é o único caso do crime de genocídio confirmado pela Justiça brasileira.
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Garimpo no Rio Uraricoera, Terra Indígena Yanomami, janeiro de 2022
Quais os motivos para a crise de saúde na Terra Indígena Yanomami?
Agravadas ao longo dos últimos cinco anos, as razões da crise são a desestruturação da assistência à saúde indígena e a invasão garimpeira, responsável por uma série de impactos sanitários, ambientais, socioculturais e econômicos sobre as comunidades.
Não é verdade que a origem da situação seja a suposta incapacidade produtiva dos indígenas. Ao contrário, com suas terras e seus recursos naturais preservados, eles conservam boas condições de vida.
Também não é verdade que a crise Yanomami seja comum a outras populações indígenas neste momento. Há outras TIs com problemas parecidos, mas não na mesma escala e pelos mesmos motivos.
Qual a relação entre o garimpo ilegal, a disseminação de doenças e a desnutrição entre os Yanomami?
O garimpo é o responsável direto por uma série de problemas graves entre os povos originários. No caso Yanomami, há relação comprovada entre a explosão da atividade e o aumento de casos de doenças infectocontagiosas, como gripe e pneumonia.
É inequívoca ainda a associação entre a devastação provocada pela mineração ilegal e a propagação da malária, facilitada pela multiplicação de invasores e pelas crateras com água parada, fruto da atividade e propícias à proliferação de mosquitos transmissores da enfermidade.
Em virtude do contato razoavelmente recente e do isolamento relativo, os indígenas têm menos defesas imunológicas para moléstias comuns entre não indígenas.
A ocupação do território, a destruição da floresta, a contaminação dos corpos de água promovidas pelo garimpo dificultam a manutenção e abertura de roças, a caça, a pesca e a coleta de frutos, as principais fontes de alimentação das comunidades.
Uma parte delas também é aliciada. Especialmente vulneráveis a falsas promessas de prosperidade, jovens recebem armas e comida para trabalhar ou aliar-se aos invasores. Mulheres são abusadas e exploradas sexualmente. O recrudescimento da violência cria um clima de tensão permanente. Os moradores ficam sitiados em suas próprias aldeias.
Todo o quadro é agravado pelo desmonte da assistência aos indígenas. Além disso, os invasores têm se apossado de parte da infraestrutura de atendimento, como pistas de pouso e postos de saúde. A violência do garimpo dificulta a presença de equipes médicas, a distribuição de medicamentos e alimentos.
Sem comida e assistência médica, a condição dos enfermos piora. Como a economia indígena depende da mão de obra familiar, as atividades tradicionais de subsistência ficam inviáveis com as pessoas permanentemente adoecidas ou trabalhando no garimpo, num círculo vicioso de fome, debilidade física e escassez.
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Garimpo no Rio Novo, Terra Indígena Yanomami, janeiro de 2022
Qual a extensão da crise de saúde na Terra Yanomami?
Conforme dados do Ministério da Saúde obtidos pela agência Sumaúma, 570 crianças de até cinco anos morreram de doenças evitáveis na TI Yanomami, entre 2019 e 2022, um aumento de 29% em relação a 2015-2018. De acordo com o Ministério dos Povos Indígenas, 99 crianças de um a quatro anos teriam morrido, só em 2022, por causas como desnutrição, pneumonia e diarreia.
Cerca de 56% das crianças da área acompanhadas tinham um quadro de desnutrição aguda (baixo ou baixíssimo peso para a idade) em 2021, segundo dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) fornecidos à agência Pública. “O estado nutricional das crianças Yanomami é realmente muito ruim, só comparável aos dados de crianças da África Subsaariana”, afirmou o médico Paulo Basta, da Fiocruz à agência.
Apenas entre 2020 e 2021, a TI Yanomami registrou mais de 40 mil casos de malária, de acordo com o Sistema de Informações de Vigilância Epidemiológica (Sivep) do Ministério da Saúde. Isso tudo para uma população de cerca de 30 mil pessoas.
É importante observar que a TI Yanomami é a maior do país, com cerca de 96 mil km2 (superando a extensão de Portugal), e há diferenças entre as 370 comunidades. As regiões mais distantes das invasões têm uma condição sanitária mais favorável, embora a precarização do atendimento à saúde impacte todo o território.
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Bebês yanomami desidratados são atendidos em hospital em São Gabriel da Cachoeira (AM), em 2020 | Raquel Uendi / ISA
O que aconteceu com os serviços de saúde Yanomami nos últimos anos?
A saúde indígena foi desestruturada pelo governo Bolsonaro, embora sempre tenha apresentado deficiências. A pandemia de Covid-19 agravou e escancarou a situação.
No caso Yanomami, a má gestão de recursos e o aparelhamento político, com a nomeação de pessoas sem conhecimento e experiência para cargos importantes, criaram um quadro de desorganização, escassez de equipamentos, mão de obra, medicamentos e outros insumos.
Indígenas e profissionais de saúde relataram o fechamento ou abandono de postos de saúde e a redução dos atendimentos nos que continuaram funcionando. O problema foi documentado pelo relatório Yanomami Sob Ataque, publicado pela Hutukara Associação Yanomami e a Associação Wanasseduume Ye’kwana.
Auditorias da própria administração federal confirmaram várias falhas no Distrito Especial de Saúde Indígena Yanomami (DSEI-Y): desatualização de indicadores de saúde; descumprimento de jornadas de trabalho e metas de atendimento; entrega de medicamentos com data de validade próxima do vencimento; transporte por aeronaves sem autorização de voo, entre outros. Os relatórios foram ignorados pelo governo.
Na verdade, a crise sanitária é ainda pior por causa da subnotificação e do “apagão” de dados dos últimos anos. Por exemplo, 90% das crianças yanomami eram monitoradas pelo DSEI-Y em 2019, mas o número baixou para 75%, em 2022. Nas estatísticas oficiais, houve melhora nos registros de desnutrição, mas ocorreu o contrário, simplesmente porque o número de crianças acompanhadas caiu. No início do governo Bolsonaro, já se sabia que a situação era ruim e, mesmo assim, a vigilância foi reduzida.
Quando começou exatamente a crise de saúde na Terra Indígena Yanomami? Ela veio a público só agora?
Não há dúvida de que a situação agravou-se a partir de 2018 e 2019, com as eleições e o início do governo Bolsonaro, embora já houvesse problemas na assistência e invasores na área. O discurso antiambiental de Bolsonaro e seus aliados e o desmonte dos órgãos de fiscalização estimularam a ocupação ilegal de áreas protegidas e provocaram recordes sucessivos de desmatamento. O território yanomami foi um dos mais afetados.
Não é verdade, portanto, que a situação seja a mesma em 30 anos, embora os Yanomami já tenham passado por crises graves, principalmente com a intensificação do contato com os não indígenas e a primeira grande onda garimpeira, nos anos 1970 e 1980. Profissionais de saúde e lideranças indígenas reafirmam que a situação nunca foi tão grave nesse período.
Muita gente teve a impressão de que a crise veio a público só agora porque as notícias sobre ela alcançaram uma audiência sem precedentes, resultado da repercussão da visita do recém-empossado presidente Lula e das medidas emergenciais tomadas por seu governo.
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Quem são os responsáveis pela crise de saúde dos Yanomami?
Notoriamente anti-indígena, Bolsonaro foi o primeiro presidente da República desde a Redemocratização a não demarcar “nenhum centímetro” de TIs, como prometeu em campanha.
Durante todo o governo, ele estimulou o crime ambiental e sua regularização, em especial o garimpo ilegal nas TIs. Também promoveu um desmonte administrativo sem precedentes na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e no Ibama, responsáveis pela fiscalização dessas áreas.
Tudo isso resultou, a partir de 2019, numa onda de invasões a áreas protegidas e recordes sucessivos de desmatamento em cerca de 15 anos. A TI Yanomami foi uma das mais afetadas.
A saúde indígena também sofreu com a desestruturação de políticas públicas do governo Bolsonaro. As deficiências já existentes recrudesceram.
Forças militares e de segurança também reduziram a fiscalização e, muitas vezes, negaram apoio a operações para a retirada dos invasores e proteção das aldeias.
Toda a situação foi denunciada aos órgãos federais, ao Ministério Público, à imprensa e nas redes sociais pelo Conselho Distrital de Saúde Yanomami e Ye’kwana (Considisi-Y), a Hutukara Associação Yanomami, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e o ISA. Os alertas foram desprezados, no entanto. Pelo menos 21 ofícios sobre o caso foram ignorados por diversas instituições oficiais em apenas dois anos, informou o The Intercept Brasil.
A ordem de isolar e conter os garimpeiros na TI Yanomami também foi ignorada. O mesmo aconteceu com decisões do próprio STF e da Justiça Federal para que a União formulasse e executasse um plano para retirar os invasores. Também foi desconsiderada uma deliberação da Corte Interamericana de Direitos Humanos e pedidos da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Se as determinações e alertas tivessem sido atendidos, a crise não teria ocorrido ou seria menor.
Portanto, têm responsabilidade sobre a tragédia, em diferentes graus e aspectos, o ex-presidente Jair Bolsonaro e o ex-vice-presidente Hamilton Mourão, então coordenador do Conselho Nacional da Amazônia, responsável por articular as ações de fiscalização ambiental na região durante o último governo. Também podem ser responsabilizados os respectivos dirigentes, no antigo governo, da Funai, do Ibama, da PF e dos ministérios da Saúde, da Justiça, da Defesa e do Meio Ambiente, entre outros que uma investigação adequada vier a apontar.
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Presidente Lula visita indígenas yanomami em Boa Vista, Roraima, 20/1/2023 | Ricardo Stuckert / PR
Quais as medidas tomadas pelo governo até agora para enfrentar a crise sanitária na TI Yanomami?
Ainda no dia 20, o governo federal decretou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional na TI Yanomami. Trata-se de uma situação que demanda o emprego urgente de medidas de prevenção, controle e contenção de riscos, de danos e de agravos à saúde pública, em situações que podem ser epidemiológicas (surtos e epidemias), de desastres ou de desassistência à população. Esse último é o caso dos Yanomami.
A gestão federal também anunciou o envio de equipes médicas para prestar assistência emergencial e fazer um diagnóstico da situação, além da instalação de um hospital de campanha em Boa Vista e de um Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública (COE), que fará a coordenação das ações contra a crise e deverá ser gerido pela Sesai.
Foi criado ainda um Comitê de Coordenação Nacional para Enfrentamento à Desassistência Sanitária das Populações em Território Yanomami, que vai discutir as medidas a serem adotadas, apoiar a articulação entre poderes e estados e apresentar um plano de ação em 45 dias. Fazem parte do colegiado os ministérios dos Povos Indígenas, da Saúde, da Defesa, da Justiça, do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome e da Gestão e Inovação em Serviços Públicos.
O governo planeja uma grande operação de retirada dos garimpeiros. A ação ainda não tem data para acontecer, mas nesta segunda (30), em reunião com vários ministros, o presidente Lula pediu pressa no bloqueio do espaço aéreo e dos principais rios que cortam a área, com o objetivo de estrangular a logística do garimpo. Cerca de 56 toneladas de alimentos e medicamentos já teriam sido enviados à TI Yanomami, segundo a Força Aérea Brasileira (FAB).
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COP15: Sítios Ramsar na Amazônia reforçam papel estratégico na proteção de espécies migratórias
Reconhecido desde 2018, o Sítio Ramsar do Rio Negro é o maior de águas pretas do mundo, com cerca de 12 milhões de hectares, e foi pauta na COP15 sobre Espécies Migratórias
As zonas úmidas da Amazônia estiveram no centro das discussões sobre estratégias para a conservação de espécies migratórias no Brasil. Durante dois debates realizados na 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias, especialistas reforçaram que proteger esses territórios exige fortalecer a governança local e reconhecer o papel das populações que vivem nessas áreas.
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Painel foi realizado no Espaço Brasil e destacou a governança territorial como um dos pilares da conservação|Vanessa Fernandes/ISA
Realizados nos dias 26 e 27 de março, os encontros abordaram desde a governança territorial até os desafios enfrentados por espécies migratórias em paisagens aquáticas cada vez mais pressionadas. Em comum, as discussões apontaram que a conservação depende da integridade dos ecossistemas e da participação ativa das comunidades.
O primeiro painel, realizado no Espaço Brasil (Zona Azul), trouxe experiências de Sítios Regionais da Amazônia, os sítios Ramsar no Rio Negro, no Juruá e no estuário da foz do Amazonas, evidenciando que a governança territorial é um dos pilares da conservação.
Nessas experiências, o monitoramento comunitário tem sido fundamental não apenas para registrar mudanças ambientais, mas também para fortalecer a autonomia dos territórios.
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Renata Alves, analista de geoprocessamento do ISA e membro do CNZU fala sobre a importância dos PGTAs|CCOM/ICMBio
As falas também evidenciaram que as mudanças nos padrões das espécies migratórias já são perceptíveis localmente. Alterações no comportamento de peixes e aves têm sido observadas com maior frequência, reforçando a urgência de ações integradas.
Neste contexto, o Agente Indígena de Manejo Ambiental (AIMA) Tiago Pacheco apresentou pesquisa intercultural na região do Rio Negro sobre aves migratórias nos ciclos anuais, onde se tem observado a redução no número de avistamentos na região, que pode estar relacionada às mudanças climáticas.
Participaram da mesa Renata Alves, ecóloga e analista de geoprocessamento do Instituto Socioambiental (ISA) e membro do Comitê Nacional de Zonas Úmidas (CNZU), Gabriela Soeiro, do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Sociobiodiversidade Associada a Povos e Comunidades Tradicionais (CNPT/ICMBio), Selma Ribeiro, do Centro Nacional de Pesquisa em Biodiversidade e Restauração Ecológica (CBC/ICMBio), Tiago Pacheco, AIMA do Rio Negro, e Guillermo Estupiñán, da Wildlife Conservation Society (WCS)
Reconhecido desde 2018, o Sítio Ramsar do Rio Negro é a maior zona úmida de águas pretas de importância internacional do mundo, com cerca de 12 milhões de hectares. A área abrange um mosaico de oito terras indígenas e unidades de conservação municipal, estadual e federal, localizados no noroeste amazônico, formando um dos maiores contínuos de florestas e rios preservados do planeta. A alta diversidade biológica da região inclui animais em extinção como o peixe-boi-da-Amazônia e o boto-cor-de-rosa.
Segundo Renata Alves, o processo de governança do sítio está diretamente relacionado à articulação com os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) das terras indígenas que compõem esse território. Esses instrumentos, elaborados pelos povos indígenas, orientam o uso, a proteção e o manejo dos recursos naturais.
“A governança neste sítio não começa do zero, ela se baseia em instrumentos que já existem e que expressam como os povos querem cuidar dos seus territórios”, destaca.
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Sítio Ramsar do Rio Negro é a maior zona úmida de águas pretas do mundo|Renata Alves/Rio Negro
Conectividade ecológica
No segundo painel, que discutiu paisagens aquáticas e suas vulnerabilidades e oportunidades, realizado pelo ISA, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), especialistas destacaram que espécies migratórias dependem de grandes áreas conectadas para sobreviver.
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Pesquisador Carlos Durigan (Ipam) dividiu painel sobre paisagens aquáticas, suas vulnerabilidades e oportunidades com Renata Alves (ISA)|Vanessa Fernandes/ISA
A fragmentação de habitats, causada por desmatamento, mudanças hidrológicas e grandes obras de infraestrutura, foi apontada como uma das principais ameaças à biodiversidade. “As espécies migratórias precisam de continuidade. Quando você rompe essa conectividade, você compromete todo o ciclo de vida dessas espécies”, alerta Jochen Schongart, pesquisador do INPA.
Ao mesmo tempo, os Sítios Ramsar foram apresentados como uma oportunidade estratégica para integrar conservação, ciência e políticas públicas, ampliando a visibilidade internacional dessas áreas e organizando esforços de conservação em larga escala.
Nesse contexto, especialistas também chamaram atenção para o papel das florestas públicas não destinadas na Amazônia, que somam cerca de 50 milhões de hectares e ainda aguardam definição fundiária por parte dos governos. Sem destinação, essas áreas permanecem altamente vulneráveis à grilagem e ao desmatamento.
“A destinação dessas florestas é uma agenda urgente. É uma oportunidade concreta de reduzir a pressão sobre a Amazônia e, ao mesmo tempo, garantir conectividade ecológica em larga escala”, destacou Carlos Durigan, pesquisador do Ipam.
Segundo ele, a criação de unidades de conservação, o reconhecimento de territórios tradicionais, como indígenas e quilombolas, e outras formas de uso sustentável podem transformar essas áreas em corredores ecológicos estratégicos, fundamentais para a manutenção dos fluxos das espécies migratórias e para a proteção das zonas úmidas no país.
Os Sítios Ramsar são áreas úmidas reconhecidas internacionalmente por sua importância para a conservação da biodiversidade. O título é concedido no âmbito da Convenção de Ramsar, um acordo global criado em 1971 para promover a proteção e o uso sustentável desses ecossistemas.
As zonas úmidas incluem ambientes como rios, lagos, áreas alagadas, manguezais e florestas inundáveis, que são ecossistemas fundamentais para a conservação da água, do clima e da vida silvestre.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
COP15: conhecimento indígena revela rotas e alterações na migração de aves no Rio Negro
Resultados iniciais de pesquisa intercultural sobre aves migratórias nos ciclos anuais foram apresentados em evento organizado pelo ISA no espaço Conexão sem Fronteiras, durante a 15ª COP sobre Espécies Migratórias
De acordo com a cosmologia dos povos Koripako e Baniwa da bacia do Rio Içana, a queda das folhas anuncia a chegada do inverno no alto Rio Negro – fenômeno que ocorre na região a partir de maio. É nesse período que algumas aves grandes, como cabeças-seca, garças e cararás, iniciam sua jornada migratória, subindo do mar (leste) para fazer um dabucuri para sua tia, Wenia, que vive na serra de Kodamadali, no alto Rio Uaupés. Elas levam materiais para a reforma de sua maloca.
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Tiago Pacheco, professor e pesquisador Koripako; Aloísio Cabalzar, antropólogo do ISA; e Mario Cohn-Haft, ornitólogo do Inpa|Vanessa Fernandes/ISA
Essa é uma das explicações dos conhecedores indígenas para os movimentos migratórios de algumas aves por seu território. O conhecimento sobre aves migratórias integra as pesquisas sobre os ciclos de vida conduzidas pelos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) no Médio e Alto Rio Negro, região localizada no noroeste do Amazonas, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela.
Os resultados iniciais foram apresentados em evento organizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), no espaço Conexão sem Fronteiras, durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), que acontece até 29 de março de 2026, em Campo Grande (MS).
O encontro reúne governos, cientistas e organizações da sociedade civil para debater estratégias globais de conservação da fauna migratória. Participaram da atividade Aloisio Cabalzar, antropólogo do ISA e coordenador da pesquisa intercultural no Rio Negro; Tiago Pacheco, professor e pesquisador Koripako; e Mario Cohn-Haft, ornitólogo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
Os AIMAs monitoram eventos ligados à migração e à reprodução de 18 espécies de aves na região. Além dos deslocamentos, os agentes classificam as observações entre registros ocasionais, presença de ovos e ocorrência de filhotes. O conjunto de dados analisado reúne cerca de 34.812 registros de mais de cem espécies na região do Rio Negro feitos em aplicativo ODK próprio utilizado pelos agentes indígenas.
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Tiago Pacheco apresentou a pesquisa sobre aves migratórias na região do Rio Negro pela pespectiva do povo Koripako-Baniwa|Vanessa Fernandes/ISA
Ainda de acordo com a narrativa dos mais velhos, conta Tiago Pacheco, as penas mais longas nas asas de garças e cabeças-secas são semelhantes ao koyape – folhas de uma espécie de palmeira utilizadas na cobertura das malocas. Após passarem meses com a tia, contribuindo para a reconstrução da casa, as aves retornam ao seu habitat no leste, quando o verão já prevalece na região.
Há também as oolio, uma espécie de andorinha cujos bandos caem no rio e se transformam em cardumes de peixe toloya no início do inverno. Já as waliperhe, outra espécie de andorinha, se transformam no mesmo peixe no meio da estação, entre junho e julho.
Pacheco contou que agora os agentes indígenas estão aprofundando a pesquisa sobre as aves, envolvendo também os estudantes do ensino médio da escola da comunidade Bela Vista, no Médio Içana, onde ele leciona. Além de observar, anotar e analisar os dados, as informações são discutidas com os conhecedores mais velhos.
Para os povos Koripako e Baniwa, as aves migratórias se reproduzem em áreas úmidas (llanos) na Venezuela. “Sempre no início do inverno elas voam bem alto e, de lá, seguem para outras regiões do Brasil. Voam alto para facilitar a viagem longa e costumam procurar as cabeceiras dos rios”, explica Tiago.
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Ilustração sobre a migração de aves observado pelos AIMAs|Ismael dos Santos/AIMA
Um dos pontos levantados pela pesquisa, segundo Pacheco, é a redução no número de avistamentos na região, que pode estar relacionada às mudanças climáticas. “As aves se conectam com o clima da região, dependem muito das estações do ano, inverno e verão. Atualmente, aparecem de vez em quando, porque as estações estão variando e não acontecem sempre no período esperado. Com isso, as aves migratórias estão cada vez menos presentes na região”, afirma. Essa afirmação coincide com o que vem sendo observado e registrado pelos AIMAs em seus diários.
Entre as espécies que mais costumavam ser avistadas estão o carará (wanali), a garça-grande (maali), o socó-dorminhoco (walha), o socozinho (pitshaaro), o martim-pescador grande e pequeno (dzaaliro), a tesourinha (kamawaapa) e a andorinha que cai na água (oolio). Segundo os pesquisadores, essas aves ainda migram, mas em menor número.
Aloisio Cabalzar explica que na pesquisa sobre os ciclos anuais, os AIMAs observam e registram uma ampla diversidade de fenômenos relacionados aos ciclos anuais e à dinâmica socioambiental do território. Entre eles estão a presença, ausência e intensidade das chuvas; o nível dos rios; o nome das constelações que marcam cada período; as estações do ano; revoadas de insetos; o canto e a reprodução de sapos e rãs; a migração e reprodução de mamíferos e aves, entre outros.
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Aloísio Cabalzar, antropólogo do ISA, falou sobre o trabalho de pesquisa intercultural realizado em parceria com os AIMAs no Rio Negro|Vanessa Fernandes/ISA
Segundo o antropólogo, a análise específica sobre as aves migratórias ainda está em estágio inicial. Nesse contexto, levar o tema para discussão durante a COP15 também representa uma oportunidade de refletir sobre caminhos possíveis para o aprofundamento da análise e interpretação dos dados desse fenômeno que abrange várias regiões (e países) onde se desenvolvem as diferentes fases da vida das aves. Inclui a construção de protocolos de coleta mais completos, buscando conexões com outros grupos de pesquisa.
“A pesquisa intercultural é uma metodologia para abordar temas complexos e interescalares, que são observados pelos moradores das comunidades e pelos pesquisadores indígenas, mas que envolvem um âmbito espacial mais amplo, e que podem ser melhor compreendidos conectando-se com conhecimentos produzidos mais amplamente”, pondera Aloisio.
Mario Cohn-Haft destacou que a região conhecida como “encostada” funciona, na prática, como uma tríplice fronteira ecológica entre Brasil, Colômbia e Venezuela, que é muito anterior às divisões políticas atuais. “Essas fronteiras que hoje regem tanto as nossas vidas nunca foram relevantes para esses povos”, afirmou.
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Mario Cohn-Haft, ornitólogo do Inpa, destacou que oportunidades para estudos de migração de espécies na tríplice fronteira|Vanessa Fernandes/ISA
Segundo ele, o conhecimento indígena sobre os llanos da Venezuela, que são áreas de cerrado sazonalmente alagadas, semelhantes ao Pantanal, ajuda a explicar a origem de espécies como a garça, cabeça-seca e outras aves que aparecem no Rio Negro.
Para o pesquisador, esse diálogo entre saberes aponta caminhos ainda pouco explorados pela ciência. “A gente não tem essa tradição de pesquisa integrada com a Colômbia e a Venezuela, mas vocês já carregam esse conhecimento”, disse. Ele defende que o atual contexto de maior articulação internacional pode abrir oportunidades para avançar nesses estudos, aprofundando investigações sobre rotas migratórias e fortalecendo cooperações transfronteiriças até então pouco desenvolvidas.
Presente entre o público do evento, a secretária de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Rita Mesquita, chamou atenção para os impactos silenciosos das mudanças ambientais sobre as espécies migratórias na Amazônia e destacou o papel fundamental das populações que vivem nos territórios na produção de registros e conhecimentos.
Segundo ela, eventos extremos, como secas em níveis inéditos na bacia amazônica, têm alterado profundamente as condições de vida dessas espécies, que dependem diretamente da relação com rios e áreas úmidas. “O que está mudando? O que está sumindo?”, questionou, ao enfatizar a importância de observar e documentar essas transformações.
Para a secretária, ainda há pouco monitoramento sobre esses impactos, o que reforça a necessidade de aprimorar protocolos de observação e produzir registros mais detalhados. Ela ainda destacou o valor do conhecimento de quem está na floresta e a importância da memória para identificar mudanças ao longo do tempo, além de apontar a relevância de conceitos como o de “migrações curtas”, apresentado na pesquisa dos AIMAs, dentro da Amazônia, ainda pouco estudados e documentados.
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Apagões persistem em São Gabriel da Cachoeira (AM) e justiça aponta falhas graves no sistema de energia
“Cada hora de apagão representa um risco concreto à vida e à integridade física dos cidadãos”, aponta a decisão judicial que determina medidas para o restabelecimento do fornecimento regular e ininterrupto
Há cerca de 10 dias, moradores de São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas, enfrentam constantes desligamentos de energia elétrica, que têm provocado prejuízos financeiros, suspensão de aulas e indisponibilidade de sinal de telefone e internet na cidade. Este já é o segundo período de “alívio de carga programado” em menos de dois meses.
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Moradores pedem soluções definitivas para os apagões recorrentes em São Gabriel da Cachoeira (AM)|Coletivo Energia Digna/Divulgação
Entre janeiro e março, também foram frequentes os desligamentos aos finais de semana, com duração de quatro a cinco horas, sob a justificativa de manutenção para “melhorias na rede”. Na prática, porém, o que se observa é uma piora gradual da situação.
Um grupo de WhatsApp com mais de mil participantes acumula relatos de prejuízos, com danos a eletrodomésticos, como geladeiras, máquinas de lavar, além de televisores e antenas de internet via satélite. No período da tarde, quando ocorre a maioria dos desligamentos, alunos têm sido liberados mais cedo e as aulas suspensas. Com a indisponibilidade do sinal de internet e telefone, os pais, muitas vezes, sequer conseguem ser avisados.
Outra reclamação recorrente diz respeito aos cronogramas de desligamento, que não são cumpridos, resultando em interrupções mais longas do que o previsto ou fora dos horários informados.
Mobilização
O coletivo Energia Digna, formado por moradores do município, tem realizado uma série de mobilizações em busca de esclarecimentos e soluções para os constantes apagões. Uma das manifestações ocorreu na orla da cidade, no dia 17 de março, e uma carreata foi realizada no dia 19, percorrendo ruas dos bairros Areal e Centro até a Câmara Municipal.
O grupo foi convidado por vereadores para uma reunião e, durante o encontro, um representante da VP FlexGen, empresa responsável pela geração de energia no município, participou por meio de ligação telefônica. Segundo ele, a usina atualmente opera abaixo da capacidade necessária para atender à demanda do município.
De acordo com o relato, o representante teria indicado que uma das soluções seria a conclusão da usina fotovoltaica. No entanto, a obra foi embargada em abril de 2025 após ação da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM), que ajuizou processo contra a VP FlexGen por contaminação de igarapés que abastecem a comunidade ribeirinha Amazonino Mendes, vizinha à obra.
O coletivo afirma que, diante da falta de respostas efetivas, os moradores buscam ampliar o diálogo com organizações da sociedade civil em busca de soluções para a crise. “A gente quer reunir organizações que tenham interesse em ajudar e construir, quem sabe, uma solução definitiva para isso. A ideia agora é dialogar com as instituições e tentar uma conversa com a própria empresa, mas até o momento não conseguimos”, relata um dos representantes.
Nova Ação Civil Pública
No dia 18 de março, Defensoria Pública e Ministério Público do Estado do Amazonas protocolaram uma Ação Civil Pública (ACP) solicitando que VP FlexGen e Amazonas Energia – responsáveis pela geração e distribuição de energia, respectivamente,– adotem medidas para assegurar o restabelecimento do fornecimento regular e ininterrupto.
Ao analisar o caso, o juiz Manoel Átila Nunes, titular da Comarca de São Gabriel da Cachoeira, apontou falhas estruturais graves na operação do sistema. Segundo a decisão, é “inadmissível” que o grupo gerador G05 esteja indisponível desde 19 de dezembro de 2025 e o G03 desde 20 de janeiro de 2026, o que demonstra a ausência de reserva técnica na usina.
Para o magistrado, essa fragilidade operacional faz com que falhas pontuais, como a ocorrida em um transformador no dia 29 de janeiro deste ano, tenham consequências “catastróficas para a coletividade”.
A decisão também destaca que a crise enfrentada em 2023 serve como parâmetro histórico de reincidência, indicando negligência logística e operacional por parte das empresas, especialmente no que diz respeito à manutenção de estoques mínimos de combustível e à prevenção de colapsos previsíveis.
O juiz ainda enfatiza que o risco da demora na adoção de medidas é evidente. Em um município de logística complexa como São Gabriel da Cachoeira, a falta de energia elétrica compromete diretamente o funcionamento do Hospital de Guarnição, o único de urgência e emergência da cidade, a conservação de vacinas e alimentos, o abastecimento de água potável, a segurança pública e as atividades educacionais.
“Cada hora de apagão representa um risco concreto à vida e à integridade física dos cidadãos”, aponta a decisão, ao destacar a violação ao mínimo existencial e ao princípio da dignidade da pessoa humana.
Na ação também foi solicitada a apresentação de um plano detalhado de contingência e manutenção, a adoção de medidas estruturais para evitar novos apagões e a condenação das empresas ao pagamento de indenização por danos morais coletivos, em valor não inferior a R$ 5 milhões, além da reparação dos prejuízos individuais sofridos pelos consumidores.
No início de 2024, o titular da Vara Única da Comarca já havia homologado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), no âmbito de outra ACP, estabelecendo obrigações para prevenir uma nova crise no fornecimento de energia.
A reportagem procurou representantes da VP FlexGen e da Amazonas Energia, mas não obteve resposta. Em uma nota encaminhada à Prefeitura de São Gabriel da Cachoeira e publicada nas redes sociais do órgão, a Amazonas Energia informou que os desligamentos foram causados pela indisponibilidade de grupos geradores da usina termelétrica independente de energia (PIE) VP FlexGen.
O Programa Energias da Amazônia, instituído pelo Decreto nº 11.648, em 2023, busca modernizar o fornecimento de eletricidade para cerca de três milhões de pessoas que vivem em sistemas isolados nos nove estados da Amazônia Legal, entre eles, o Amazonas. Atualmente, essas populações dependem majoritariamente de termelétricas a óleo diesel, como a VP FlexGen, que já se consolidou como um modelo caro, poluente e instável, que compromete a qualidade dos serviços públicos. Com investimentos estimados em R$ 5 bilhões, a iniciativa visa reduzir em 70% o uso desse combustível fóssil até 2030, substituindo-o por fontes de energia limpa, renovável ou pela interligação ao Sistema Interligado Nacional (SIN).
A transição energética é fundamental para promover o desenvolvimento socioeconômico e a resiliência das comunidades locais, garantindo maior segurança no abastecimento e reduzindo os impactos ambientais. Além de melhorar a vida dos moradores, o programa tem um papel estratégico no combate às mudanças climáticas, com a meta de evitar a emissão de 1,5 milhão de toneladas de dióxido de carbono até o fim da década.
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Nota de pesar por Israel Serafim Santos, agente da Força Nacional
Conforme a Casa de Governo em Roraima, Israel morreu durante operação na Terra Indígena Yanomami
O Instituto Socioambiental (ISA) lamenta a morte de Israel Serafim Santos, agente da Força Nacional de Segurança Pública que atuava em operação de combate ao garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami.
Conforme a Casa de Governo, Israel atravessava o Rio Uraricaá durante o trabalho quando se afogou, tendo sido encontrado no sábado (21).
Israel era soldado da Polícia Militar da Bahia e, segundo o Governo Federal, atuava na corporação desde 2011. Ele ingressou na Força Nacional em 2023 e atuou em operações de desintrusão nas Terras Indígenas Apyterewa e Trincheira Bacajá, no Pará.
Neste momento de tristeza, o ISA se solidariza com os dois filhos de Israel, os familiares, os amigos e os colegas de trabalho. Também agradecemos o comprometimento do agente de segurança com as ações de proteção ao meio ambiente e povos indígenas.
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ISA leva pesquisas interculturais do Rio Negro à COP15 sobre Espécies Migratórias
Experiências levadas ao evento articulam conhecimentos indígenas, conservação de paisagens aquáticas e governança territorial em Sítios Ramsar da Amazônia
O Instituto Socioambiental (ISA) participa da 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), que acontece de 23 a 29 de março, em Campo Grande (MS), levando três frentes de atuação: a pesquisa intercultural com povos indígenas, a conservação de paisagens aquáticas e a governança territorial em Sítios Ramsar na Amazônia.
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Evento evidencia o papel dos povos indígenas do Rio Negro na produção de conhecimento sobre ciclos ecológicos e na gestão de seus territórios|Ismael dos Santos/AIMA
A participação tem início no dia 24 de março, às 16h, com a atividade “Espécies migratórias no Médio e Alto Rio Negro: conhecimentos e práticas de manejo indígena no Noroeste Amazônico”, no Espaço Conexão Sem Fronteiras, no Parque Estadual das Nações Indígenas. A proposta evidencia o papel dos povos indígenas da região – que abrange territórios no Brasil, Colômbia e Venezuela – na produção de conhecimento sobre ciclos ecológicos e na gestão de seus territórios.
A atividade apresenta a experiência da rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs), que há duas décadas monitora fenômenos como a migração e reprodução de peixes, aves e mamíferos, articulando essas dinâmicas a observações climáticas e aos ciclos anuais da floresta.
Os dados sistematizados pelos próprios pesquisadores indígenas contribuem para o entendimento das dinâmicas ecológicas e para o monitoramento das mudanças ambientais na região. O AIMA Tiago Pacheco, do povo Koripako, da região do Rio Içana, também participa da mesa ao lado de outros pesquisadores.
O ISA também integra a mesa “Paisagens aquáticas, vulnerabilidades e oportunidades: fortalecendo áreas protegidas e Sítios Ramsar para a conservação de espécies migratórias no Brasil”, no dia 27 de março, às 9h, em colaboração com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).
O debate busca construir uma agenda de ações voltadas à conservação de áreas úmidas e paisagens aquáticas, fundamentais para a biodiversidade e a conectividade ecológica, frente a pressões como desmatamento, fogo, mineração e eventos climáticos extremos.
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Experiência de governança participativa do Sítio Ramsar do Rio Negro também será apresentada durante evento na COP15|Renata Alves/Rio Negro
Complementando essa agenda, o ISA participa ainda do evento “Governança Territorial e Conectividade Ecológica: estratégia integrada nos Sítios Ramsar do Rio Negro, Juruá e do Estuário da Foz do Amazonas e seus Manguezais”, no dia 26 de março, às 15h45, no Espaço Brasil (Zona Azul).
A atividade apresentará experiências de governança territorial baseadas em arranjos participativos e articulação interinstitucional, evidenciando contribuições para a manutenção da conectividade ecológica e a conservação de habitats críticos para espécies migratórias.
COP15
A COP15 integra a Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS), um tratado ambiental das Nações Unidas firmado em 1979, em Bonn, que parte do princípio de que os animais migratórios não reconhecem fronteiras nacionais. Por isso, sua conservação depende de ações coordenadas entre países ao longo de suas rotas e ciclos de vida.
As espécies abrangidas pela Convenção são organizadas em dois anexos: o Anexo I reúne aquelas ameaçadas de extinção, que demandam medidas rigorosas de proteção, como a conservação de habitats e a redução de barreiras às migrações; e o Anexo II inclui espécies que requerem cooperação internacional por meio de acordos de gestão compartilhada.
Realizadas a cada três anos, as Conferências das Partes são o principal espaço de decisão da CMS, reunindo 132 países e a União Europeia para definir prioridades, revisar medidas de conservação e avaliar a inclusão de novas espécies nos anexos do tratado.
Entre os resultados esperados estão também a análise do progresso das Ações Concertadas, que são as iniciativas coordenadas entre países, além da construção de acordos regionais e declarações políticas que reforçam o compromisso global com a conservação da biodiversidade.
A realização da COP15 no Brasil, próximo ao Pantanal, um bioma estratégico para espécies migratórias e atualmente sob forte pressão de mudanças climáticas e incêndios, reforça a urgência de avançar em soluções integradas para a proteção desses ecossistemas e de suas espécies.
ISA na COP15
Espécies migratórias no Médio e Alto Rio Negro: conhecimentos e práticas de manejo indígena no Noroeste Amazônico 24 de março, terça-feira 16h – 17h Auditório Arara Azul - Espaço Conexão Sem Fronteiras - Parque Estadual das Nações Indígenas
Governança Territorial e Conectividade Ecológica: estratégia integrada nos Sítios Ramsar do Rio Negro, Juruá e do Estuário da Foz do Amazonas e seus Manguezais 26 de março, quinta-feira 15h45 - 16h35 Espaço Brasil – Zona Azul
Paisagens aquáticas, vulnerabilidades e oportunidades: fortalecendo áreas protegidas e Sítios Ramsar para a conservação de espécies migratórias no Brasil 27 de março, sexta-feira 9h – 10h Sala Tululú - Espaço Conexão Sem Fronteiras - Casa do Homem Pantaneiro
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Rede de Sementes dos Coletores da Serra da Lua promove ciclo de palestras com alunos indígenas em Roraima
Lideranças da comunidade e analistas do Instituto Socioambiental falaram com estudantes sobre a Terra Indígena Yanomami, a Usina Hidrelétrica de Bem-Querer e restauração ecológica
O Instituto Socioambiental (ISA) e comunidades da região da Serra da Lua promoveram um ciclo de palestras com alunos da Escola Estadual Indígena Edmilson Lima Cavalcante na comunidade Tabalascada, localizada na terra indígena de mesmo nome, em Roraima, na manhã da última a terça-feira (17/03).
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Ciclo de palestras ocorreu na Terra Indígena Tabalascada, em Roraima, com a presença de estudantes, lideranças e analistas do ISA|Fabrício Araújo/ISA
A ação faz parte das atividades desenvolvidas pela Rede de Sementes dos Coletores da Serra da Lua (Ressel). Três analistas do ISA em Roraima apresentaram as palestras que tiveram como temas: garimpo illegal na Terra Indígena Yanomami, a proposta de construção da hidrelétrica de bem-querer e os trabalhos da Ressel.
Lídia Montanha, coordenadora-adjunta do Programa Rio Negro em Roraima, apresentou aos estudantes um panorama sobre o garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami. O território foi alvo de invasão massiva de garimpeiros entre 2019 e 2022. O período também foi marcado por desestruturação da saúde e explosão de casos de malária e desnutrição, além de mortes de crianças por doenças facilmente tratáveis, como gripe.
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Lídia Montanha apresentou um panorama do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, que causou explosão de casos de malária e desnutrição|Fabrício Araújo/ISA
“Nos últimos anos, o governo tem atuado fortemente para retirar os invasores. Há várias operações para prender quem garimpa ilegalmente, destruir maquinários e fiscalizar nas Bases de Proteção que foram criadas”, disse Montanha durante a palestra.
Ciro Campos, analista do ISA, explicou aos alunos sobre os possíveis impactos da Usina Hidrelétrica Bem Querer. Esta usina começou a ser materializada em 2007, e seria uma das menos eficientes do Brasil, precisando alagar cerca de 80 hectares para cada megawatt gerado.
Ainda de acordo com Campos, há quatro hidrelétricas planejadas e a de Bem-Querer é só o projeto mais conhecido. Ele aponta ainda que o projeto consegue desagradar a grupos diversos porque afeta bandeiras comuns mesmo a grupos opostos.
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Ciro Campos também se apresentou falando sobre os possíveis impactos da Usina Hidrelétrica Bem Querer|Fabrício Araújo/ISA
“Eu acho que tem poucas coisas em Roraima que conseguem unir pessoas diferentes e o Rio Branco é uma delas”, disse Campos ao exemplificar um dos locais que seria afetado pela usina.
Para finalizar o ciclo de palestras, Emerson Cadete, analista do ISA que atua na Rede de Sementes da Serra da Lua (Ressel), explicou a implementação do projeto em Roraima e as atividades que foram realizadas até então.
Emerson, que é carinhosamente conhecido como Sementinhas, explicou o método da muvuca, lembrou que a rede de sementes fez capacitações para os coletores, além de promover intercâmbio com a rede do Xingu.
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Emerson Sementinhas finalizou o ciclo de palestras falando sobre a Rede de Sementes da Serra da Lua (Ressel)|Fabrício Araújo/ISA
“Uma das coisas que vai beneficiar a comunidade é que a Casa de Sementes vai receber energia solar. Esta energia vai beneficiar tanto os pais de vocês, quanto o trabalho com as sementes. E tudo isso fortalece a governança da comunidade”, disse o técnico em produção de sementes.
Esta etapa do ciclo de palestras encerrou junto ao fim das aulas do período matutino da escola e os estudantes seguiram para um almoço coletivo na comunidade Tabalascada.
O Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (PREVFogo) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) também participou do evento.
A brigada formada pelos indígenas das comunidades da Terra Indígena Tabalascada palestraram sobre o trabalho que desenvolvem na região, a importância das queimas prescritas e consequências de incêndios criminosos. Estas brigadas têm o trabalho apoiado pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR).
Os professores e lideranças apresentaram o ponto de vista do movimento indígena sobre os temas e estimularam o debate com os estudantes após o fim das palestras.
Esta atividade de educação socioambiental foi apoiada com recursos doados pelo Cultures of Resistance Foundation. A Ressel também conta com o apoio do Amazon Investor Coalition.
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Mulheres Yanomami e Ye’kwana discutem parto, saúde e violência em oficina de Direitos Humanos
Atividade promovida pela Universidade Federal de Minas Gerais e ISA também incluiu reflexões sobre juventude e abuso de álcool
Mulheres da Terra Indígena Yanomami estiveram reunidas em Boa Vista participando de uma oficina de Direitos Humanos promovida pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com apoio do Instituto Socioambiental (ISA) entre 26 de janeiro e 06 de fevereiro.
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A oficina de Direitos Humanos para mulheres na TI Yanomami refletiu, entre outras pautas, sobre questões da cidade que afetam o território|Fabrício Araújo/ISA
Durante a atividade, as yanomami e ye’kwana refletiram sobre condições de parto na cidade, violência nas comunidades e, principalmente, sobre a relação dos jovens com o consumo de álcool.
A oficina contou com 22 representantes de nove associações e nove regiões da Terra Indígena Yanomami.
Conforme Karenina Vieira Andrade, que é antropóloga e professora da UFMG, a oficina foi conduzida a partir dos assuntos do interesse das mulheres.
“Nesta oficina, elas falaram muito sobre o abuso de álcool e substâncias pelos jovens nas comunidades. Elas se preocupam muito porque não se restringe só a vinda a cidade, afeta o território também”, explica a antropóloga.
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A antropóloga Viviane Cajusuanaima Rocha exaltou o papel do encontro para estratégias de enferentamento às violências que atingem os jovens|Fabrício Araújo/ISA
A primeira antropóloga do povo ye’kwana, Viviane Cajusuanaima Rocha, acompanhou os seis dias de oficina. Ela apontou que as mulheres enfrentam desafios diferentes em cada comunidade e o encontro com pessoas de regiões diversas permite entender o contexto geral da maior terra indígena do Brasil.
“A Terra Indígena Yanomami é muito grande e não conhecemos o que vivem as mulheres de outras comunidades, tem vários povos e subgrupos yanomami. É muito importante conhecer os direitos das mulheres. Nós que vivemos nas comunidades não sabemos os direitos, mas ao sair da comunidade temos que conhecer nossos direitos”, afirmou.
Com as discussões em andamento, Viviane entendeu que a relação que os jovens yanomami e ye’kwana desenvolvem com álcool ao visitarem a cidade é um ponto de preocupação em comum entre todas elas.
“A bebida dos brancos é prejudicial para o nosso povo, causa conflitos e não respeita a nossa cultura. Não é da nossa cultura e essa discussão foi muito difícil, mas foi preciso levantar o tema aqui. Queremos respeito ao que foi discutido com as mulheres e posto no papel”, pontuou.
A oficina resultou em uma nova cartilha elaborada a partir das reflexões das yanomami e ye’kwana estratégias para o enfrentamento de formas de violência: bebidas, drogas, celulares e internet.
A oficina foi finalizada com uma reunião entre as mulheres yanomami e ye’kwana com os representantes da Secretaria Estadual de Saúde (Sesau), Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami e Ye’kwana (DSEI-YY), Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) e Defensoria Pública da União (DPU). Na ocasião foram apresentados o guia de pré natal e a cartilha que aborda a Saúde da Mulheres yanomami, sanöma e ye´kwana.
A atividade resultou em uma nova cartilha elaborada a partir das reflexões das yanomami e ye’kwana sobre como elas desejam ser atendidas pelos profissionais de saúde. Estes materiais foram usados em uma conversa que encerrou a oficina na sexta-feira (06/02) e são frutos das atividades desenvolvidas pelo projeto Redes de Cuidado na TIY.
“Esta cartilha não fica só aqui. Ela vai para várias comunidades para as pessoas entenderem como as mulheres yanomami e ye´kwana querem ser tratadas”, disse Ariane de Souza Goes, que esteve na oficina representando a Associação Yanomami do Rio Caburais e Afluentes (Ayrca).
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Ana Lúcia defendeu que profissionais da saúde conheçam a realidade dos territórios para um atendimento mais efetivo|Fabrício Araújo/ISA
“Os médicos e profissionais da saúde precisam entrar no território conhecendo a nossa realidade para trabalhar em acordo com o que nós queremos. O trabalho deles precisa ser específico para os yanomami”, disse Ana Lúcia Paixão, vice-presidente da Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK).
Os outros projetos são: A Ação Saberes Indígena na Escola (ASIE), um programa regular do governo federal que têm como foco a formação continuada de professores indígenas e produção de materiais didáticos. Também está em curso a construção de Espaços Comunitários de Saberes, Cultura e Bem Viver na Terra Indígena Yanomami e o projeto Redes de Cuidados da Saúde.
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