"Devastamos mais da metade do nosso País pensando que era preciso deixar a natureza para entrar na história: mas eis que esta última, com sua costumeira predileção pela ironia, exige-nos agora como passaporte justamente a natureza".
Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo, um dos motes da fundação do ISA em 1994.
O ISA trabalha em parceria com povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais para elaborar soluções inovadoras para os desafios enfrentados por estas comunidades e povos. Nossas iniciativas apoiam e promovem a defesa de direitos, gestão e proteção territorial, economias do cuidado, processos formativos, restauração ecológica inclusiva e produtiva. Elas são baseadas em processos de experimentações e trocas de saberes transparentes, equitativas e de longo prazo com nossos parceiros, que tem como base a valorização dos modos de vida destas populações e a garantia de seus direitos.
Nossa abordagem de atuação coloca a potência dos saberes tradicionais em diálogo com práticas legais, acadêmicas e de mercado. A inovação, produzida a partir dessa interação entre diferentes mundos, pensamentos e linguagens, oferece caminhos para o reconhecimento pela sociedade brasileira - e mundial -, que são estes povos que cuidam e protegem as florestas que prestam os serviços socioambientais para a própria sobrevivência do planeta e cada um de nós.
Há diversas outras iniciativas que apontam para soluções originais para os desafios enfrentados pelas populações indígenas e tradicionais para garantir o direito à terra, o bem-viver, a preservação de suas florestas e modos de vida, intrinsecamente interdependentes. A formação de jovens comunicadores indígenas, por exemplo, capacita tecnicamente a juventude dos territórios do Xingu e do Rio Negro em dominar a tecnologia para contar suas próprias histórias, defender seus direitos e se conectar com a cultura de seus de seus antepassados. Conheça abaixo outros exemplos de soluções desenvolvidas pelo ISA e seus parceiros locais e nacionais:
Copiô, Parente, o primeiro podcast feito no Brasil para os povos da floresta
Xingu Solar, projeto de promoção de energia fotovoltaica no Xingu
Participantes do evento identificam possíveis locais para coleta de sementes e recuperação de áreas devastadas na região da Serra da Lua|Fabrício Araújo/ISA
Indígenas de três terras indígenas da Região Serra da Lua articulam a criação da Rede de Sementes de Roraima. Moradores de Canauanim, Malacacheta e Tabalascada estiveram reunidos com representantes do Instituto Socioambiental (ISA) no ‘I Seminário de Produção de Sementes Nativas e Restauração Ecológica de Roraima’ para definir os próximos passos do projeto.
O evento ocorreu na Terra Indígena Tabalascada, no município do Cantá - mesma cidade onde estão localizadas as outras terras indígenas que integram o projeto. Cento e vinte e nove pessoas, sendo 61 homens e 68 mulheres, participaram do evento que ocorreu ao longo do dia 17 de maio de 2024.
“Almejamos chegar a um trabalho contínuo. Ele chega em boa hora, após um período de incêndios, e vai agregar muito à comunidade indígena. Falamos muito em preservar, mas ainda não havíamos percebido a importância da discussão sobre restaurar” disse César da Silva, tuxaua-geral da Serra da Lua.
Na fase inicial do projeto, as sementes coletadas serão usadas para restauração de áreas indicadas pelas comunidades como espaços prioritários a serem restaurados. Com o avanço na estruturação do trabalho da rede, as sementes poderão ser vendidas para quem se interessar - poder público, empresas ou proprietários rurais, por exemplo - em restaurar Roraima com sementes nativas do lavrado e da floresta.
Durante o seminário, os indígenas puderam tirar dúvidas sobre a Rede de Sementes, dar sugestões e explicar os cuidados necessários para avançar com o trabalho dentro das três terras indígenas alcançadas inicialmente pelo projeto.
Imagem
Emerson da Silva, assessor do ISA, durante o seminário|Fabrício Araújo/ISA
“Isso é muito especial, principalmente para as mulheres que já coletam sementes desde criança. Com esse seminário, aumentamos o nosso conhecimento para restaurar as áreas degradadas. Isso vai nos ajudar, inclusive, com a nossa medicina tradicional, vamos poder catalogar essas sementes”, disse Alcileia Pinho Cadete, Wapichana da comunidade Canauanim
Os assessores do ISA também explicaram aos indígenas sobre os próximos passos para estruturação da Rede de Sementes, como escolha do nome, definição dos locais para coleta de sementes e das áreas para a restauração. O projeto também apoiará na construção de uma casa de sementes e realizará oficinas sobre as sementes nativas e métodos de conservação, beneficiamento e plantio, inclusive através da Muvuca.
Emerson da Silva Cadete, assessor técnico de produção de sementes e restauração ecológica e a coordenadora do ISA em Roraima Lidia Montanha Castro, foram os responsáveis por passar o diálogo sobre o projeto com o Conselho indígena de Roraima (CIR) definindo a região Serra da Lua.
Na sequência, um longo diálogo com os tuxauas das comunidades Tabalascada, Canauanim e Malacacheta, direcionado pelo Protocolo de Consulta da Região Serra da Lua. Com os devidos consentimentos chegamos a este momento, no seminário reunindo lideranças, professores, alunos e moradores das três comunidades.
“O seminário explicou o projeto que basicamente tem dois eixos: coleta de sementes nativas e restauração ecológica. A ideia era explicar e tudo que fizermos hoje será a partir destas explicações do projeto e dos questionamentos das comunidades. Tudo isso guiará as nossas ações futuras”, explicou Emerson.
Serviços Ecossistêmicos
Durante o evento, Danielle Celentano, analista de restauração ecológica do ISA, explicou sobre a relação da floresta e do lavrado com os serviços ecossistêmicos e o carbono. Ela pontuou que garantir a conservação e a restauração desses ecossistemas garante diversos benefícios, como a provisão de alimentos, água, madeira, assim como o controle de temperatura, a regulação hidrológica, captura de carbono, entre outros.
“O carbono, falando de maneira simples, é o elemento que constitui a tudo que é vivo. Quando temos uma semente de Samaúma, que é tão pequena, mas que cresce e vira uma árvore gigante na floresta é porque ocorre a fotossíntese: a planta vai capturando o carbono que está em forma de CO2 no ar e incorpora ao próprio crescimento fixando o carbono na biomassa”, explica.
Chegada no lavrado
Imagem
Evento na Terra Indígena Tabalascada reuniu 129 pessoas para a criação da primeira Rede de Sementes de Roraima|Fabrício Araújo/ISA
Com presença em 24 redes em diversos territórios no Brasil, a finalidade do Redário é fornecer o apoio necessário à produção de sementes nativas, impulsionar mercado e viabilizar as melhores sementes para a recomposição de cada ecossistema.
Há mais de 1.200 pessoas envolvidas na coleta de sementes, sendo 60% apenas mulheres. Em 2022, o Redário comercializou mais de 16 toneladas de 170 tipos de sementes nativas e no ano anterior, 2021, gerou renda para mais de mil famílias de quase 50 comunidades. Até maio de 2024, o ISA e seus parceiros já restauraram mais de 11.000 hectares de florestas utilizando o método da Muvuca.
Para o coordenador de restauração do ISA, Eduardo Malta Campos Filho, o cenário novo impõe experimentação para entender a melhor forma de trabalhar com as sementes nativas.
“O que vamos ter que aprender é quais são as espécies que são mais importantes para recompor a vegetação e vamos fazer isso com o conhecimento que as comunidades indígenas já têm”, explica.
Ainda de acordo com Eduardo, o conhecimento técnico adquirido em outras redes poderá ser utilizado na primeira fase, mas o lavrado precisa mais do que árvores para ser recomposto e, por isso, novas técnicas de recomposição precisarão ser criadas.
“Uma parte muito importante do lavrado é este tapete de plantas nativas, que formam esse capim, esse campo. Além das árvores, tem o capim e as ervas nativas. Tudo me deixou muito feliz, até as perguntas que foram aparecendo porque percebi que são de pessoas que já se imaginam fazendo esse trabalho”, disse.
No segundo semestre, o ISA promoverá oficinas de capacitação dentro das próprias comunidades. Durante estas oportunidades serão definidos o nome da rede, as espécies que serão coletadas, os locais de restauração e quem serão os coletores.
Através do projeto de Produção de sementes nativas e restauração ecológica em Roraima, apoiado pela União Europeia, o ISA também apoiou comunidades indígenas da Região Serra da Lua no combate a incêndios florestais e à seca durante o recorde de focos de calor com doações de alimentação, combustível e ferramentas (bombas costais, terçados, luvas, óculos de proteção, perneiras entre outros).
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Quilombolas geram renda reflorestando áreas degradadas da Mata Atlântica
Em encontro anual, coletores da Cooperativa da Rede de Sementes do Vale do Ribeira apresentam maior número de integrantes desde sua fundação
Um trabalho que rende frutos nos sentidos literal e figurado. Este é o resultado alcançado pela Rede de Sementes do Vale do Ribeira, que oferta sementes para a restauração de áreas degradadas de Mata Atlântica e gera renda para comunidades quilombolas dos municípios paulistas de Iporanga e Eldorado.
A Rede foi criada em 2017 a partir da reunião de quilombolas da região que iniciaram a coleta de sementes de espécies nativas de seus territórios para disponibilizar ao mercado de reflorestamento. O trabalho deu tão certo que, em 2023, foi formalizada a primeira cooperativa quilombola de coletores de sementes. E, desde então, o grupo extrativista só cresce.
Foi o que ocorreu durante o encontro anual da Rede, nos dias 6 e 7 de maio, quando novos integrantes foram incorporados à Cooperativa da Rede de Sementes do Vale do Ribeira, que hoje soma 52 cooperados. Ao longo dos dois dias, em assembleia, os coletores ainda deliberaram acerca dos valores praticados sobre as sementes; apresentaram seu estatuto, com as funções e tarefas de cada participante e socializaram o balanço de 2023, com os números de venda e coleta.
Imagem
Coletores e apoiadores da Cooperativa da Rede de Sementes do Vale do Ribeira se reúnem no encontro anual, onde comemoram balanço de 2023 e traçam estratégias de trabalho para 2024|Taynara Borges/ISA
Ao todo, o grupo comercializou R$ 140 mil no ano passado, fruto da venda de mais de uma tonelada de sementes nativas da Mata Atlântica, que reflorestaram 35 hectares do bioma degradado a partir de uma variedade de 81 espécies como Jaracatiá, Araçá, Tapixingui, Guapiruvu e Mamica-de-Porca.
“Eu quero ser sócio porque eu acredito no trabalho que está sendo desenvolvido pela Cooperativa da Rede de Sementes. Não quero ser só mais um. Quero somar neste trabalho de restauração da floresta, porque, para mim, esta também é uma luta”, declarou o novo cooperado, Amarildo Meiri de França , coletor do Quilombo São Pedro.
Imagem
A Rede de Sementes trabalha com o plantio a partir da Muvuca: semeadura direta feita com a mistura de diferentes espécies estrategicamente escolhidas para a área a ser restaurada|Andressa Cabral Botelho/ISA
A Rede de Sementes é um exemplo de como se realiza, na prática, a economia da sociobiodiversidade: o uso sustentável da biodiversidade em atividades que geram renda para os povos e comunidades tradicionais, baseadas numa respeitosa relação destas pessoas com a natureza, o que resulta na preservação do meio ambiente, incidindo desde a mitigação dos efeitos críticos resultantes das mudanças climáticas até a garantia da segurança alimentar, ou seja, na melhoria da qualidade de vida de quem historicamente habita e é guardião da floresta em pé.
Pensando em toda esta cadeia, a coletora e secretária da Cooperativa da Rede, Zélia Morato, do Quilombo André Lopes, provoca: “Quem é que fala que dinheiro não dá em árvore? Dinheiro dá em árvore de pé, sim! Aqui está o exemplo disso. Nós não derrubamos. Nós preservamos as árvores e, assim, sempre vamos ter sementes para coletar”.
“No início achei que isso era impossível. Pensei até que era uma brincadeira. Mas logo entendi o tamanho deste trabalho. E é por isso que estou aqui. Estou aqui para reflorestar, para levar árvores para onde não tem, para onde está degradado. E, desde então, além de ajudar a crescer novas florestas, minha família também tem uma nova fonte de renda. Todo mundo sai ganhando”, declara ela que é uma das primeiras coletoras e articuladoras da Rede.
Você sabia que a Economia Circular, a Bioeconomia, a Agroecologia, e Agrofloresta, a Economia Regenerativa e a Bioconstrução são praticadas pelos Povos e Comunidades Tradicionais há séculos?! E que elas são a base da Economia da Sociobiodiversidade?! Entenda o caminho apontado por indígenas, quilombolas, ribeirinhos e tantas outras comunidades como a possibilidade possível de um futuro sem escassez de água, desmatamento e destruição, reduzindo os impactos de devastação da emergência climática. Assista aqui!
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Sementes da Mudança: Adoção do Método da 'Muvuca' para Biodiversidade e Restauração Social
Leia artigo da equipe do Redário, publicado originalmente na página da Década da ONU para Restauração de Ecossistemas
* Artigo originalmente publicado em inglês no site da Década da Restauração de Ecossistemas da ONU
** Autores: Danielle Celentano, Eduardo Malta, Rodrigo Junqueira, Beatriz Murer, Matheus Rezende e Andrea Ono.
A restauração de ecossistemas emerge como uma solução baseada na natureza crucial para enfrentar os desafios da crise climática, da perda de biodiversidade e da escassez de água. Além de sua importância ecológica, a restauração gera impactos positivos diretos e indiretos na economia e no bem-estar humano, da escala local à global. Reconhecendo sua importância e urgência, as Nações Unidas declararam esta a 'Década da Restauração de Ecossistemas'. No Brasil, o Instituto Socioambiental (ISA), uma organização da sociedade civil brasileira sem fins lucrativos estabelecida em 1994, tem se dedicado ativamente à restauração da Amazônia há 20 anos. O ISA é um Ator da Década da ONU e contribui ativamente para seus objetivos. Através da implementação do método de restauração 'Muvuca' e do fortalecimento das redes de sementes nativas de base comunitária, o ISA tem defendido a restauração ecológica com foco em alta biodiversidade. Esta abordagem promove a economia da sociobiodiversidade com a cadeia de sementes nativas e o bem-estar dos coletores de sementes, ao mesmo tempo em que protege territórios e conhecimentos tradicionais.
O Método de Restauração 'Muvuca'
Inspirado pela natureza e aprendendo com o conhecimento tradicional dos povos indígenas, o ISA abraçou o método de restauração da 'Muvuca' através do plantio direto de sementes. Muvuca é uma mistura de sementes de dezenas de espécies nativas em diferentes estágios sucessionais, plantadas todas de uma vez para imitar mecanismos naturais de regeneração, como o banco de sementes no solo e a chuva de sementes. Este sistema inovador emprega uma alta diversidade de espécies e garante eficiência operacional, permitindo a restauração mecanizada com redução no tempo e custo de plantio e manutenção. O plantio pode ser feito manualmente ou mecanizado utilizando tratores e plantadeiras agrícolas, possibilitando escalabilidade e plantio até 20 vezes mais rápido em comparação com o plantio de mudas, a um custo muito menor. Com seus benefícios ecológicos e econômicos cientificamente comprovados,, a metodologia é elegível para acreditação de carbono conforme os padrões do UNDCC.
Imagem
Mistura da muvuca de sementes nativas para restauração|Matheus Rezende/ ISA/ Redário
Até hoje, o ISA e seus parceiros já restauraram mais de 11.000 hectares de florestas utilizando o método da Muvuca, com centenas de espécies nativas; isso se traduz em aproximadamente 33 milhões de novas árvores crescendo e sequestrando 80.000 toneladas de dióxido de carbono anualmente. Além de implementar a restauração em suas áreas de atuação na Amazônia, o ISA e seus parceiros também promovem a disseminação do método Muvuca por todo o Brasil por meio de outra iniciativa - 'Caminhos da Semente'. Esta iniciativa está em andamento desde 2018 em parceria com organizações da sociedade civil, redes de sementes, cooperativas, empresas, universidades e instituições de pesquisa.
Passo a Passo do Método da 'Muvuca'
O método da 'Muvuca' pode ser utilizado para o plantio de áreas inteiras, densificação ou enriquecimento de áreas de regeneração natural e plantio de mudas, estabelecimento de áreas de nucleação e criação de Sistemas Agroflorestais regenerativos. A seleção das espécies pode se dar por critérios ecológicos, econômicos ou bioculturais. Os benefícios econômicos de áreas restauradas com Muvuca incluem produção de culturas de ciclo curto nos primeiros anos, madeira, frutas, outros produtos florestais não madeireiros (PFNMs), bem como créditos de carbono e créditos de biodiversidade. Veja abaixo um guia conciso passo a passo do método 'Muvuca' (informações detalhadas e gráficos estão disponíveis em dois guias técnicos) ,:
Passo 1 - Sementes: Obtenha sementes ortodoxas da mesma vegetação e região de onde será realizado o plantio, evite espécies invasoras e armazene as sementes adequadamente. Calcule a mistura Muvuca, considerando várias espécies com diferentes expectativas de vida. Para formar uma floresta, a mistura deve incluir um mínimo de espécies com uma expectativa de vida de até 1 ano, arbustos e trepadeiras com uma expectativa de vida de até 3 anos, árvores com uma expectativa de vida de até 30 anos e árvores centenárias. Todas devem ser misturadas em uma proporção calculada para garantir uma boa cobertura do solo a partir do segundo mês após o plantio (consulte a tabela abaixo como referência).
Imagem
Passo 2 - Planejamento do Plantio: Escolha entre o plantio mecanizado ou manual com base no terreno e nas condições socioculturais. Misture todas as sementes usando uma betoneira ou lona e adicione areia para consistência. Plante no início das chuvas. Ajuste a profundidade de plantio com base no tamanho e formato das sementes.
Passo 3 - Preparação do Local: Isole a área de plantio de fatores que possam dificultar a restauração. Elimine ou reduza as plantas daninhas e invasoras (manualmente, por meio de pastoreio ou quimicamente). Faça o revolvimento e a nivelação do solo. Considere a utilização de cobertura morta.
Passo 4 - Semeadura: Utilize a semeadura mecanizada ou manual para espalhar as sementes regularmente por toda a área, em seguida, arar levemente para enterrar as sementes. A semeadura em linhas pode ser feita manualmente ou com máquinas semeadoras. Para semeadura em coveta, semeie manualmente e cubra as sementes com cerca de uma polegada de solo solto. Mudas de espécies recalcitrantes ou outras espécies de interesse podem ser plantadas após a semeadura. Escolha a técnica mais adequada dependendo do tipo de solo, inclinação, condições de regeneração e disponibilidade de máquinas e trabalhadores.
Passo 5 - Manejo até 3 Anos: É crucial seguir um plano de manejo bem definido durante os primeiros 3 meses, quando a maioria das sementes deve germinar e estabelecer uma vegetação densa. Monitore parâmetros de cobertura vegetal, riqueza e densidade de árvores para tomar ações como o controle de plantas invasoras, formigas ou replantio. Colha culturas de ciclo curto como feijão, maracujá e abóboras durante este período.
Passo 6 - Manejo de 3 a 6 Anos: Plante sementes ou mudas nas clareiras. Mudas de espécies recalcitrantes ou de interesse podem ser incluídas nessa fase. Colha frutas e madeira leve. Controle as plantas invasoras, quando necessário.
Passo 7 - Manejo dos 7 Anos em diante: Pode-se fazer a poda para aumentar a luz e promover o crescimento das espécies desejadas. Realize o desbaste e obtenha autorização para cortes de madeira. Desenvolva um plano de manejo considerando os ciclos de frutificação, colheita de madeira e regeneração natural. Sempre observe a regeneração natural em sua floresta para garantir a renovação ao longo desses ciclos. Um dos melhores indicadores para a restauração ecológica é o surgimento de plantas nativas regenerantes que não foram plantadas.
As Sementes da 'Muvuca' - a Iniciativa Redário
O plantio direto com Muvuca requer quantidades substanciais de sementes. A coleta e o processamento de sementes são atividades intensivas em mão de obra, criando oportunidades de emprego e renda para as comunidades locais em seus territórios e estabelecendo uma cadeia de valor que conserva os ecossistemas. Além dos benefícios ecológicos, a restauração com Muvuca promove o desenvolvimento de uma cadeia produtiva de sementes nativas de base comunitária, conhecida como Redes de Sementes. Dezesseis anos atrás, a partir da campanha Y Ikatu Xingu do ISA ("Salve as boas águas do Xingu"), surgiu a Rede de Sementes do Xingu, que agora se tornou uma organização independente reconhecida internacionalmente por seu trabalho, também parceira da Década das Nações Unidas. Em 2020, a rede recebeu o Prêmio Ashden, um prêmio internacional para soluções climáticas. Muitos grupos e redes de coletores de sementes surgiram no Brasil e, em 2022, nasceu o Redário para apoiar sua profissionalização dessas redes e seu acesso ao mercado.
O Redário é uma articulação entre redes e grupos de coletores de sementes, com o objetivo de aumentar os impactos socioambientais positivos dos projetos de restauração no Brasil. Ele enfatiza o comércio justo, a colaboração, a ampla diversidade genética e a rastreabilidade. Os negócios de sementes nativas geram renda e emprego para as comunidades em seus territórios, especialmente para as mulheres. Ele cria oportunidades para inovação e crescimento profissional de jovens a idosos em várias áreas, desde aspectos técnicos relacionados a sementes até contabilidade, marketing e comunicação. Eles possibilitam a diversificação econômica para essas populações, melhorando suas condições de vida e resiliência social. As comunidades quilombolas, ribeirinhas, indígenas, geraizeiros, rurais e urbanas de coletores de sementes fornecem para uma restauração ecológica eficaz e econômica, enquanto as sementes carregam os valores dos territórios conservados, do conhecimento tradicional e da inclusão social na luta contra a emergência climática.
Imagem
Vista aérea de participantes de Encontro do Redário em alusão ao logotipo do projeto|Are Yudja/Rede Xingu +
O Redário apoia a profissionalização da governança das redes de sementes, contratos, gestão, capacitação, disseminação de conhecimento, reuniões e trocas, conformidade com a legislação e outros aspectos. Também conectamos pesquisadores nas áreas de sementes nativas e restauração para aprimorar técnicas, análises e influenciar políticas públicas que permitam iniciativas de semeadura comunitária e direta (Confira nossa última Nota Técnica em AQUI). Atualmente, o Redário reúne 24 redes de sementes articuladas e cerca de 1.200 participantes. Até 2023, o Redário comercializou mais de 63 toneladas de sementes de 275 espécies nativas. Isso gerou uma renda superior a 2,5 milhões de reais para os coletores e proporcionou apoio para a restauração de 11.000 hectares por meio do método Muvuca em mais de 95 projetos em diferentes Biomas Brasileiros (Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga).
Desafios e Oportunidades para Promover a Restauração com Sementes
Os desafios na promoção do método de restauração da Muvuca incluem barreiras culturais e o desconhecimento da maioria dos praticantes de restauração no Brasil sobre a técnica. Além disso, dar suporte às redes de sementes nativas representa um desafio significativo, pois requer muita confiança e um delicado equilíbrio entre a demanda e a oferta de sementes. Muitas vezes, as demandas por sementes surgem no último minuto, faltando o aviso prévio que esse processo de coleta de sementes requer devido às condições naturais. Os compradores de sementes para projetos de restauração precisam antecipar sua demanda por sementes nativas, fazendo pedidos antecipados e estabelecendo contratos justos com as organizações de coletores de sementes. Além disso, o fornecimento de sementes nativas para restauração encontra barreiras políticas e legais caracterizadas por regulamentações excessivas e requisitos inadequados, escassez de laboratórios de sementes e falta de diretrizes para testar a qualidade das sementes nativas., Por fim, o valor da semente muitas vezes não é suficiente para cobrir todos os custos necessários para a compensação justa dos coletores e de todo o processo envolvido. Para ampliar a escala, mecanismos financeiros adicionais, como subsídios fiscais, Pagamento por Serviços Ambientais e filantropia, ainda são necessários.
O Brasil se comprometeu com metas ambiciosas de restauração em diversos acordos internacionais sobre clima e biodiversidade. Esses compromissos estão ancorados em leis e políticas públicas que promovem a conservação e restauração tanto em áreas públicas quanto privadas. No entanto, o país ainda não consegue implementar plenamente essas políticas e alcançar as metas estabelecidas. A restauração deve ser integrada a um novo paradigma nacional de desenvolvimento, alinhando benefícios ambientais, socioculturais e econômicos.
Imagem
ISA e o UNEP assinaram um Memorando de Entendimento para colaborar durante a Década das Nações Unidas para a Restauração de Ecossistemas|Redário
A sociedade civil organizada, em colaboração com povos indígenas, populações tradicionais e comunidades locais - os guardiões das florestas, campos e savanas - tem muito a contribuir de forma colaborativa. O método de restauração da 'Muvuca' pode contribuir para ampliar os esforços de restauração, oferecendo custos reduzidos e maior diversidade de espécies, restaurando assim ecossistemas com maior resiliência. Ao mesmo tempo, a demanda por sementes nativas cria um ciclo de promoção da conservação e do bem-estar. Essa abordagem colaborativa é essencial para impulsionar a Década das Nações Unidas para a Restauração de Ecossistemas no sentido de alcançar suas metas de restauração na busca de um futuro mais sustentável e resiliente no Brasil e no mundo.
Equipe Redário: Eduardo Malta (ISA/ Redário), Aline Ferragutti (ISA/ Redário), Andrea Ono (Redário), Beatriz Murer (ISA/ Redário), Danielle Celentano (ISA/ Redário), Elisângela Xipaia (ISA/ Redário), Emerson Cadete (ISA/ Redário), Giovanna Bernardes (ISA/ Redário), Juliano Nascimento (ISA/ Redário), Luciano Eichholz (ISA/ Redário), Matheus Rezende (ISA/ Redário), Milene Alves (ISA/ Redário), Rodrigo Junqueira (ISA/ Redário), Diego Lucena (ISA/ Redário), Anabele Gomes (UnB/ RSC/ Redário), Camila Motta (RSC/ Redário), Cibele Santana (RSC/ Redário), André Benedito (consultor), Maria Eduarda Camargo (RSC/ Redário), Natanna Horstmann (RSC/ Redário), Pedro Guimarães (Terrakrya/ Redário), Laura Antoniazzi (Agroicone/ Redário) and Edézio Miranda (Agroicone/ Redário), Henrique Oliveira (Agroicone/ Redário).
A cuia de caxiri, uma bebida fermentada apreciada pelos indígenas do Médio e Alto Rio Negro (AM), juntamente com a pimenta, cipós e chás, constituem elementos tradicionais fundamentais para os povos dessa região. Estes elementos, combinados com outras substâncias, preparos e alimentos, desempenham um papel essencial no fortalecimento das atividades coletivas, na coesão das comunidades, nos laços familiares e nos rituais.
O material aborda o problema do abuso de álcool nessa região, oferecendo diversas estratégias de redução de danos, cuidados e fortalecimento para lidar eficazmente com essa questão.
Apesar da falta de dados oficiais, a percepção dos indígenas, das organizações e de profissionais da saúde é de que o abuso do álcool vem crescendo nas áreas urbanas e nos territórios indígenas.
Deslocado do contexto cultural e ritualístico, o uso da bebida vem ganhando contornos preocupantes. Alguns problemas pontuados na própria cartilha são: mortes causadas por brigas, violências contra as mulheres e as crianças, acidentes, afogamentos e enforcamentos.
A cartilha aborda o tema de forma intercultural e interinstitucional, abrindo para discussão das formas de enfrentamento ao problema.
Desenvolvido pelo Instituto Socioambiental (ISA) e Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), o material foi elaborado em parceria com o Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (Dsei-ARN) e com apoio de instituições do município.
Coordenador do Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (DAJIRN/Foirn), Elson Kene explica que o conteúdo começou a ser preparado antes da pandemia, sendo que a crise sanitária acabou atrasando a sua divulgação. “Com esse material, vamos ampliar a conscientização e buscar parcerias para minimizar o problema”, explicou.
A liderança indígena Adelina Sampaio, povo Desana, é ex-coordenadora do DAJIRN/Foirn e deu início ao trabalho de construção da cartilha, após rodas de conversas realizadas em escolas de São Gabriel da Cachoeira, onde o problema foi trazido pelos estudantes e professores.
Imagem
Trecho de cartilha editada por ISA e Foirn no Rio Negro/Divulgação
“Em 2017, com problemas de homicídios, suicídios e outros problemas sociais, a gente começou a fazer uma conversa dentro das escolas de São Gabriel da Cachoeira. E fizemos esse apanhado para criar essa cartilha. Foi um trabalho muito estruturado com presença do Conselho Tutelar, DSEI, Diocese, Foirn, ISA e outros parceiros. O DAJIRN trabalhou na construção dessa rede. A cartilha não apenas reconhece a existência do problema, algo já discutido durante as rodas de conversa, mas também busca oferecer estratégias para enfrentá-lo. Sabemos que só conseguiremos superar esses desafios com o engajamento de todos”, disse.
A organização é de Dulce Morais, assessora de gênero do Programa Rio Negro do ISA; as ilustrações são de Larissa Ye´padiho Mora Duarte, povo Tukano, e o projeto gráfico e diagramação são de Ray Baniwa, da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas do Rio Negro.
O material está sendo levado ao território indígena pelos articuladores e articuladoras e foi entregue também ao DSEI-ARN, que vem desenvolvendo atividades com apoio do material. A Rede Wayuri também fez a divulgação na programação da rádio web.
Lançamento em São Gabriel da Cachoeira
O lançamento aconteceu em fevereiro, na Sala Dagoberto Azevedo – Suegu, na sede do ISA em São Gabriel da Cachoeira (AM), reunindo parceiros como a Diocese e órgãos da saúde e da educação.
Na sequência, houve uma semana de atividades de formação para que o conteúdo fosse levado e discutido no território indígena. Essa etapa foi conduzida pelas antropólogas do ISA, Carla Dias e Dulce Morais, pela coordenadora do DMIRN/Foirn, Cleocimara Reis, e por Elson Kene.
Os encontros reuniram articuladores e articuladoras de jovens e mulheres indígenas de todas as regiões do Médio e Alto Rio Negro da área de abrangência da Foirn.
O antropólogo Bruno Marques esteve no lançamento da cartilha e participou das oficinas. “No tempo antigo, o uso da bebida era tido como uma prática de cuidado e saúde, fazendo parte de rituais com outros elementos, como os benzimentos”, reforçou.
Terapeuta ocupacional, Maria Antonieta Dias, referência em Centro de Atenção Psicossocial – álcool e drogas (Caps-ad) – e redução de danos, participou da formação de forma remota.
Imagem
Equipes da Foirn e do ISA estiveram presente no lançamento da cartilha, em São Gabriel da Cachoeira|Ana Amélia Hamdan/ISA
Jaqueline Gonçalves, referência técnica de saúde mental do DSEI-ARN também contribuiu com a formação. Ela apresentou alguns dados levantados pelo DSEI corroborando a preocupação com o uso abusivo de álcool e o manejo desse problema por meio de políticas públicas de saúde integral e humanizada.
Durante o encontro, houve roda de conversa para que os indígenas pudessem trazer os principais pontos do problema.
Articuladora de jovens Josiane Silva Pereira, do povo Tariano, vive no distrito de Iauaretê, que fica próximo da fronteira com a Colômbia, e participou da oficina representando a sua região. Ela informa que, como articuladora de jovens, fará o trabalho de levar adiante as informações disponíveis na cartilha.
“A gente vê na realidade que é um problema difícil. Tem muito adolescente e jovem com problemas com álcool e até alcoolismo. A gente percebe um aumento enorme. E é complicado reduzir, mas uma forma de avançarmos é pela conscientização”, disse.
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Para 2024, a urgência da adaptação climática na Amazônia
Após um ano em que a região enfrentou a pior estiagem da história, Ciro de Souza Brito, analista de Políticas de Clima do ISA, tece caminhos para o enfrentamento à crise climática
Ciro de Souza Brito
- Analista de Políticas de Clima do ISA
*Artigo de opinião publicado originalmente no jornal O Liberal, em 13/01/2024
Imagem
Rio Tarumã-Açu completamente seco em novembro de 2023. Estiagem histórica no Amazonas escancara crise climática|Flávia Abtipol/ISA
A floresta amazônica é de grande importância para o equilíbrio climático global, absorvendo enormes quantidades de dióxido de carbono, a maioria (58%) em terras indígenas e áreas protegidas. No entanto, 2023 foi o ano em que a Amazônia secou: enfrentamos a pior estiagem da história, acompanhada por queimadas ilegais e por uma secura extrema impulsionada pelo El Niño. Esses eventos deixaram 62 municípios do Amazonas em estado de emergência, com Manaus registrando a terceira pior qualidade de ar no mundo.
Quando ocorrem secas extremas e incêndios, o carbono armazenado na floresta é liberado na atmosfera, contribuindo para o aumento das emissões de gases de efeito estufa. Isso destaca a urgência de implementar estratégias de mitigação e adaptação climática.
No Brasil, o Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima, criado em 2016, ainda não foi executado. Está em fase de revisão, com conclusão prevista para 2024. É crucial acelerar sua implementação, dada a rápida intensificação dos eventos climáticos extremos. Em todo o mundo, as cidades estão adotando planos semelhantes para enfrentar os desafios da emergência climática.
Além da seca, os aterros sanitários representam uma séria ameaça à Amazônia. O aterro de Marituba, que recebe o lixo da região metropolitana de Belém desde 2015, é criticado por especialistas por ocasionar graves impactos ambientais e de saúde. O aterro tem uma série de irregularidades e crimes ambientais identificados pelo Ministério Público. Substâncias tóxicas como Arsênio, Mercúrio e Benzeno foram detectadas nos canais hídricos próximos ao aterro.
Um pouco mais adiante de Marituba, partindo de Belém, mais de 20 comunidades quilombolas e ribeirinhas de Acará e Bujaru vêm lutando contra a instalação de três infraestruturas de aterro sanitário que poderão receber até 1,5 mil toneladas de rejeitos de municípios da Grande Belém.
Lideranças comunitárias têm se posicionado contra essas propostas. Há previsão de impactos econômicos, porque o açaí produzido na região pode ficar conhecido como o “açaí que vem do lixão” e perder competitividade no mercado; de impactos ambientais e à saúde, porque os gases emitidos pelos aterros prejudicam os seres humanos, os animais e a própria produção; e de impactos aos modos próprios de vida dessas comunidades, margeadas pelo rio Guamá, que é fonte de água para banhar, lavar roupa e consumo, sendo berço de diversas espécies de peixes que alimentam as comunidades.
A relação entre o inadequado gerenciamento de resíduos sólidos e as emissões de gases de efeito estufa é cada vez mais reconhecida científica e politicamente. Apesar disso, os resíduos sólidos não costumam figurar nas estratégias prioritárias para mitigação e adaptação às mudanças climáticas.
Uma pesquisa da UFPA apontou que o nível de gás sulfídrico emitido pelo aterro de Marituba é 30 vezes maior nos arredores do aterro. A exposição a essa substância gera queimação nos olhos e pele, tosse, falta de ar e pode causar fadiga, perda de peso, insônia e inflamações. O estudo mostrou ainda que a região do aterro acumula 10 vezes mais metano do que se encontra normalmente na atmosfera. O gás metano é cerca de 28 vezes mais prejudicial ao aquecimento global do que o CO2.
O Plano Nacional de Resíduos Sólidos estabelece como estratégia o aproveitamento energético obrigatório nos aterros sanitários do biogás - composto pelos gases sulfídrico, carbônico e pelo metano. Tecnologias de tratamento como a cobertura biologicamente ativa também podem contribuir para a retenção de metano no solo.
É essencial reconhecer o papel fundamental das comunidades quilombolas, ribeirinhas, indígenas e tradicionais na proteção e preservação dos estoques de carbono na Amazônia. O serviço ambiental prestado pelas comunidades tradicionais é vital para combater a crise climática.
Para 2024, é imperativo abordar adequadamente os resíduos sólidos nas grandes cidades, garantir os direitos das comunidades indígenas e tradicionais, e cumprir o Plano Nacional de Resíduos Sólidos. Essas ações devem ser fundamentadas na justiça climática e no combate ao racismo ambiental, porque se diferente for, condenaremos algumas comunidades a um estágio de pobreza e violações de direitos sem precedentes.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Elas que lutam: 30 mulheres para se inspirar em 2024
Onde tem mulher, tem luta socioambiental! Especial reúne 30 perfis de indígenas, quilombolas e ribeirinhas
As mulheres indígenas, quilombolas e ribeirinhas são responsáveis pela gestão dos territórios, pelo cuidado com a saúde, pela preservação da memória ancestral e, mesmo quando longe de casa, sustentam a floresta em pé.
Nos últimos anos, a série #ElasQueLutam costurou perfis sensíveis de 30 mulheres-biomas, guardiãs das história e da memória de suas comunidades, e que fazem de seus corpos uma extensão de seus territórios tradicionais.
Imagem
Nas mobilizações e na política, na luta contra invasores e projetos de desenvolvimento predatórios, no beneficiamento e na comercialização de produtos da biodiversidade brasileira, as lideranças femininas batalham pela igualdade de gênero, pela autonomia das comunidades e pelo futuro do planeta.
Cada uma tem uma função importante para a organização e fortalecimento das mulheres indígenas, ribeirinhas e quilombolas no Brasil. Trata-se de uma luta coletiva, por que quando uma conquista, todas ganham.
“Quando a gente sai daqui para outros territórios, a gente vê que a luta das mulheres são as mesmas. [...] Não é pelo fato de eu ter meu dinheirinho que eu vou ficar acomodada. Eu enxergo que todas nós tem que trabalhar. Eu vou ficar muito orgulhosa de ver outras mulheres, guerreiras, trabalhar e ter sua renda”, diz Givanilda Aguiar Rocha.
Elas são as protagonistas de narrativas potentes para inspirar a luta por direitos e a restauração do país. Suas vozes não cessam, não calam e não cansam.
Primeira mulher a presidir a Associação Indígena Pariri, no Médio Tapajós (PA), Alessandra tem levado à sociedade a incansável luta do povo Munduruku pela proteção de seu território contra invasores e o garimpo ilegal
Integrante da primeira geração de indígenas Kaxuyana nascida no Parque Indígena do Tumucumaque (PA) após deslocamento forçado, Angela é porta-voz da luta pela proteção dos povos indígenas isolados
Liderança do povo Wapichana, Ariene ajudou a construir o Núcleo de Juventude do Conselho Indigena de Roraima. Em 2022, a jornalista também fez parte da equipe de transição do Governo do Presidente Lula
Primeira indígena da história do Estado de Minas Gerais a ser eleita deputada federal, Célia Xakriabá chega na política para superar o racismo da ausência e lutar por demarcações de terra, educação e acesso à cultura
Chirley Pankará já foi deputada estadual em São Paulo e hoje atua na Coordenação para Promoção a Políticas Culturais do Ministério dos Povos Indígenas (MPI)
Primeira indígena coordenadora regional da Funai no Rio Negro, Dadá também coordenou o Departamento de Mulheres da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn)
Daiara é uma das principais artistas visuais indígenas da atualidade. Em 2020, ela se tornou conhecida pela autoria do maior mural urbano pintado por uma artista indígena no mundo
Em uma trajetória marcada por pioneirismo, Ehuana foi a primeira professora de sua comunidade e a primeira mulher yanomami a escrever um livro na língua Yanomae
Liderança do Quilombo Porto Velho (SP), Gabriele faz da arte e da educação ferramentas para ecoar as vozes dos quilombolas da região e lutar pela valorização dos saberes tradicionais de sua comunidade
Nascida no território quilombola de Conceição das Crioulas (PE), a educadora e coordenadora da Conaq é, há décadas, uma voz potente na defesa dos direitos quilombolas e na luta pela transformação social
Givanilda faz parte da primeira geração de professores ribeirinhos da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio (PA) e usa a educação como uma ferramenta de luta pelo território e pela igualdade de gênero
Joênia é pioneira na representação política das mulheres indígenas. Ativista pelos direitos dos povos originários há décadas, foi a primeira deputada indígena eleita no Brasil e hoje ocupa o cargo de presidente da Funai
Chefe de gabinete da ministra Sonia Guajajara, Jozileia foi também uma das fundadoras da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA)
Motivada pelos que vieram antes, Maial Paiakan foi a primeira pessoa do seu povo a concluir uma graduação. Em 2022, se candidatou a deputada federal pelo Estado do Pará
Liderança atuante na Cooperquivale e na Rede de Sementes do Vale do Ribeira (SP), Maria Tereza luta pela preservação da Mata Atlântica e pela garantia dos direitos quilombolas
Neta do cacique Raoni Metuktire, a liderança da juventude Mebêngokrê teve um importante papel na proteção do seu povo contra a Covid-19 e no combate às notícias falsas
Primeira mulher a assumir como coordenadora-geral da Coiab, Nara foi premiada em 2020 por sua atuação e compromisso com a defesa do meio ambiente e dos direitos indígenas
Primeira mulher a participar de expedições de reconhecimento de indígenas isolados na Funai, Neidinha Suruí luta, há mais de 50 anos, pela proteção da floresta
Seja no cuidado com a roça ou na atuação política, a agricultora familiar do Quilombo Ribeirão Grande, no Vale do Ribeira (SP) luta por um Brasil coletivo, livre de preconceito e violências
Frequentemente a única mulher entre as lideranças do seu povo, O-é se tornou cacica da Aldeia Krenhyedjá (MT) e protagoniza a luta por direitos indígenas
Indígena do povo Warao, da Venezuela, Paola Abache imigrou para renascer e liderou o maior abrigo indígena da América Latina. Em 2023, foi coroada Miss Trans na parada LGBTQIA+ de Roraima
Advogada da Equipe de Articulação e Assessoria às Comunidades Negras (EAACONE), Rafaela liderou a luta pela vacinação nos quilombos do Vale do Ribeira (SP) e contribuiu com a criação da ADPF Quilombola
Gestora de uma miniusina de beneficiamento de castanhas e coco-babaçu da Reserva Extrativista Rio Iriri (PA), Raimunda contribui para a geração de renda e o fortalecimento da identidade beiradeira
Da juventude na Terra Indígena Coroa Vermelha (BA) à sustentação oral na Suprema Corte sobre o julgamento da tese do “Marco Temporal”, Samara construiu sua trajetória de luta em defesa do bem-viver coletivo
A mais jovem de uma linha familiar de mulheres guerreiras, Samela é artesã da Associação de Mulheres Indígenas Sateré Mawé, comunicadora da Apib e ativista contra a crise climática
Considerada uma das 100 pessoas mais influentes de 2022 pela revista Time, Sonia Guajajara foi eleita deputada federal e se tornou ministra dos Povos Indígenas em 2023
Coletora da Rede de Sementes do Vale do Ribeira (SP), Suzana luta pelo direito à saúde e à educação por meio da construção de uma estrada de acesso ao Quilombo Bombas
Conhecida pelo registro icônico onde brada um facão contra o rosto do presidente da Eletronorte, Tuíre marcou para sempre a resistência dos povos indígenas contra projetos predatórios
Única brasileira a discursar na abertura da COP26, Txai despontou como uma das principais vozes da juventude indígena na defesa da floresta e no enfrentamento à crise climática
Mestre em Direito, a liderança da comunidade Kalunga (GO) esteve entre as primeiras quilombolas do país a assinar uma ação no STF enquanto assessora jurídica da Conaq
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Quilombolas de São Paulo formalizam cooperativa para restauração ecológica
Cooperativa da Rede de Sementes do Vale do Ribeira reúne coletores para o fornecimento de sementes nativas da Mata Atlântica para recuperação de áreas degradadas e nascentes
Coletores e apoiadores da Rede de Sementes do Vale do Ribeira durante encontro na Casa de Sementes Jucão, no Quilombo Nhunguara, no município de Eldorado (SP)|Frederico Viegas/ISA
Restaurar áreas degradadas de Mata Atlântica, recuperar e proteger nascentes e promover condições para o avanço da biodiversidade. Tudo isso gerando renda e contribuindo para a autonomia das comunidades quilombolas da região do Vale do Ribeira (SP) e para o fortalecimento de seus territórios.
Este é o trabalho da Rede de Sementes do Vale do Ribeira, que encerra o ano com uma grande conquista: a formalização de uma cooperativa de coletores quilombolas voltada à restauração ecológica de floresta nativa do bioma mais degradado do Brasil.
A Rede de Sementes do Vale do Ribeira teve início em 2017 e, desde então, já comercializou mais de seis toneladas de sementes que foram suficientes para a restauração de cerca de 170 hectares de Mata Atlântica nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais e Paraná, com 100 variedades de espécies nativas. Somente em 2023, foi fornecida 1,14 tonelada, dentro de uma variedade de 81 espécies.
São 60 os coletores que realizam este trabalho de extrativismo em seus territórios. Trabalho este que só é possível porque, habitando a região há mais de 400 anos, eles foram os responsáveis pela manutenção do maior remanescente de Mata Atlântica do país. Ou seja, a maior parte do que resta preservado do bioma está em seus quilombos, o que deveria lhes conferir o reconhecimento de guardiões da floresta em pé.
O ciclo de preservação ambiental, manejo de terra e geração de renda para o bem-viver das comunidades é a base da ocupação territorial secular dos quilombos na região. (Muito embora a preservação que eles mesmos praticaram seja razão para a manifestação violenta de um aparelho estatal racista, que hoje tenta criminalizá-los pela prática de suas roças, as mesmas que proporcionaram a conservação da mata ao longo dos últimos séculos.
E hoje eles coletam as sementes do que conservaram para gerar ainda mais floresta.
“Mas semente gera renda?”
Imagem
Maria Tereza Vieira não acreditava que a coleta poderia gerar renda. Hoje, é o Elo da Cooperativa da Rede de Sementes do Vale do Ribeira dentro do Quilombo Nhunguara|Claudio Tavares/ISA
Mas se hoje a Rede de Sementes do Vale do Ribeira se estruturou a tal ponto de surgir a necessidade de formalização em uma cooperativa, lá no início este trabalho gerava desconfiança e era até motivo de zombaria entre os mais céticos.
“A gente ria quando o Juliano [Nascimento, assessor técnico do Instituto Socioambiental (ISA), um dos responsáveis por apresentar este modelo de trabalho às comunidades] vinha com essa conversa de coletar semente. Onde já se viu?! A gente viveu uma vida inteira pisando nestas sementes na estrada. Não tinha como aquilo ser sério”, recorda Dona Zélia Morato, liderança do Quilombo André Lopes, localizado em Eldorado, coletora e agora secretária da recém-criada Cooperativa da Rede de Sementes do Vale do Ribeira.
Dona Nilza Oliveira, do Quilombo André Lopes, se diverte lembrando que o sentimento era compartilhado por todos. “Eu não sentia firmeza nesse negócio de semente, não. Cheguei a ir nas primeiras rodas de conversa, lá no começo, mas fui até embora. Até um dia em que eu vi a Zélia catando e limpando umas sementes na beira da estrada. Parei para conversar e fiquei ajudando ela. E dali a um tempo ela me chegou com parte do pagamento. Eu nem acreditei que era verdade. Foi daí que peguei gosto.”
Zélia só acreditou que a coleta daquelas sementes poderia mesmo se tornar uma fonte de renda quando visitou a Rede de Sementes do Xingu, uma iniciativa com 16 anos de atuação, estruturada por povos indígenas, agricultores familiares e comunidades urbanas localizadas em territórios da Amazônia e do Cerrado no estado de Mato Grosso. “Eu fui como espiã”, brinca. “Mas ali eu vi a grandeza deste trabalho.”
“Ninguém botou fé nisso. Para mim não daria dinheiro. Eu pisei nessas sementes a vida toda. Como que podia?! Eu fui só por curiosidade. E hoje sou muito feliz. Foi uma coisa muito importante para nós. Além do complemento de renda, ainda aproximou as comunidades. E eu, que sempre tive o sonho de escrever um livro, tive a oportunidade de participar de um livro. Meu nome está lá, contando nossas histórias aqui da comunidade”, relata o senhor João da Mota, do Quilombo Nhunguara, de Eldorado.
Uma Rede de empoderamento
Imagem
Dona Zélia Morato, secretária da Cooperativa 📷 Bianca Tozato/ISA
Dona Zélia e Dona Nilza representam a força feminina da cooperativa, vez que mais de 60% de seu quadro é composto por mulheres.
E assim, além de fortalecer a restauração ecológica e a manutenção da floresta em pé, a Rede de Sementes do Vale do Ribeira ainda se torna uma ferramenta de empoderamento das mulheres quilombolas, que têm na coleta a garantia de um complemento de renda para a família ou até fazendo dela sua atividade primeira.
“Hoje, para nós, a Rede é um espetáculo. Ninguém mais quer sair. É uma renda que podemos contar, que ajuda muito. Muitas de nós conseguimos comprar algumas coisas que não conseguiríamos de outra maneira. Eu mesma comprei telhas para minha casa que estava goteirando havia muito tempo. Para mim é um sonho”, reforça Dona Zélia.
“Além da independência financeira, ainda tem uma autonomia, um empoderamento pessoal que é visível desde o início deste trabalho. Elas realizam todas as tarefas. Carregam as sementes. Não precisam pedir que nenhum homem faça isso por elas. E assim elas conquistam sua independência em tantas frentes. E ainda tem a materialização de uma sororidade que é muito bonita de ver. Elas se reúnem para ir para a floresta juntas e se auxiliam nos processos de coleta, limpeza e armazenamento. E, no final, isso se converte em bens para suas famílias”, relata a técnica do ISA, Giovanna Bernardes.
O senhor João Catá, como é conhecido o senhor João da Mota, diz compreender porque as mulheres assumiram a maioria da Rede de Sementes. “As mulheres têm uma visão mais adiante. Nós, homens, somos muito espaçosos. Chegamos em casa e achamos que estamos mais cansados do que elas. Por isso elas encabeçaram esta Rede. Elas tiveram essa força de vontade.” Ele pontua como isso é importante dentro de casa: “o homem ainda gasta o dinheiro errado. Já a mulher sabe do que precisa.”
Cooperativa: floresta que gera floresta
Imagem
Além das formalizações burocráticas, os coletores da Rede também se dedicaram à formação pessoal para adquirirem ferramentas para a gestão da Cooperativa|Taynara Borges/ISA
Maria Tereza Vieira, liderança do Quilombo Nhunguara, que também conheceu a iniciativa desenvolvida no Xingu, conta que, para além de uma oportunidade de trabalho, enxergou na coleta de sementes algo que se transformou em um propósito para as comunidades. “É claro que a renda ajuda muito, mas não é só essa a nossa finalidade. O que queremos é reflorestar esse mundo afora, levar árvores para onde não tem.”
Participando da oficina para melhoria de gestão da Cooperativa da Rede de Sementes do Vale do Ribeira, que teve sua última etapa realizada em dezembro, Maria Tereza ainda reforça como estes encontros para esta construção coletiva serviram de aprendizado para além da Rede. “Agora estamos compreendendo como de fato funciona uma cooperativa, a importância do papel de cada um, da harmonia do conjunto. A gente nem imaginava como precisava deste conhecimento. Foi tão importante que vamos levar estes processos para dentro das nossas comunidades, para estruturar melhor nossas associações.”
O técnico do ISA, Juliano Nascimento, explica que a Cooperativa foi formalizada em julho deste ano de 2023 e que agora segue nas tramitações jurídicas e burocráticas necessárias para seu pleno funcionamento. Segundo ele, a expectativa é de que ela esteja apta a funcionar já no início de 2024. Ele também destaca a importância deste trabalho para as comunidades, e como ele está intimamente ligado à sua história e aos acúmulos adquiridos com o passar do tempo.
“É uma renda que vem de um produto da floresta, fruto do extrativismo, que depende muito do conhecimento destas pessoas e prescinde da conservação que foi feita ao longo dos anos nestes territórios. Porque só é possível coletar tanta semente e gerar renda para estas famílias, para os territórios, porque houve esta conservação. E é incrível pensar que muitas destas mulheres não tinham uma fonte de renda antes da coleta de sementes. Então isso só vem a agregar em todos os sentidos.”
Modelo para a sociedade
Imagem
“Hoje eu sou muito feliz. Foi uma coisa muito importante pra nós. Além do complemento de renda, ainda aproximou as comunidades”, pontua o Senhor João da Mota, do Quilombo Nhunguara|Taynara Borges/ISA
Coordenador do Programa Vale do Ribeira do ISA, Frederico Viegas reforça como a iniciativa cumpre diversos papéis de extrema importância no âmbito socioambiental.
“Esta estratégia cobre duas pontas muito importantes: fortalece as comunidades quilombolas que mantêm a floresta em pé, que vivem e conservam estas áreas para que seja possível coletar estas sementes; e restaura áreas degradadas passíveis de restauração, levando diversidade para onde não tem. E ainda há a geração de renda para o fortalecimento das comunidades.”
De acordo com Viegas, este é um trabalho que deveria servir como exemplo para toda a sociedade. “A partir de seus modos de vida, estas comunidades apresentam um modelo de sociedade que todos deveríamos almejar. Qual é o futuro que nós queremos? Acredito que seja um futuro em que possamos continuar vivendo sobre a Terra. E esta estratégia toda cumpre este objetivo ao juntar estas pontas, contribuindo para a restauração e manutenção da Mata Atlântica, cumprindo uma função socioambiental tão importante para o país.”
A Rede de Sementes do Vale do Ribeira integra o Redário, uma rede de Redes de Sementes coordenada pelo ISA que soma um total de 24 iniciativas de coleta e distribuição de sementes de quase todos os biomas do Brasil para restauração a partir da muvuca, técnica que simula a própria natureza: a reunião estratégica de plantas com diferentes funções biológicas e ciclos de vida em um único plantio.
Imagem
A Rede de Sementes do Vale do Ribeira teve início em 2017 e, desde então, já comercializou mais de seis toneladas de sementes para a restauração de 170 hectares de Mata Atlântica em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais e Paraná|Bianca Tozato/ISA
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
4ª Expedição da Restauração Ecológica percorre o caminho das sementes da Rede de Sementes do Xingu
Cerca de 80 participantes acompanharam o trajeto que as sementes fazem, desde a coleta até o plantio
Sementes nas mãos de Seu Hermínio, coletor da Rede de Sementes do Xingu, durante a 4ª Expedição da Restauração Ecológica|Bianca Moreno/ISA e ARSX
Construir pontes com muvucas e diversidade: eis o que a Rede de Sementes do Xingu (ARSX) faz de melhor. Entre os dias 30 de outubro e 1 de novembro de 2023, a 4ª Expedição da Restauração Ecológica reforçou esta expertise da ARSX ao reunir cerca de 80 pessoas para acompanhar o caminho de suas sementes, desde a coleta até o plantio.
Ao longo de três dias, coletores de sementes indígenas, urbanos e da agricultura familiar, além de técnicos, pesquisadores, restauradores, apoiadores, financiadores e proprietários rurais estiveram juntos, conectando pontos da cadeia da restauração ecológica, visitando espaços institucionais e áreas restauradas em diversos arranjos, contextos e períodos entre os municípios de Nova Xavantina, Canarana e Querência, todos no estado de Mato Grosso.
A Expedição da Restauração Ecológica é um dos maiores e mais expressivos eventos da Rede de Sementes do Xingu (ARSX), organizada bienalmente em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA).
Assista ao vídeo da expedição:
Dia 1: A coleta de sementes e a restauração em um grupo misto de agricultores familiares e moradores urbanos
Cada semente tem um jeito de ser beneficiada. Mão, tesoura, quebrador de baru, facão e até carro: coletor é bicho curioso, caprichoso e criativo na hora de encontrar a melhor forma de tratar cada semente. Quanto mais complexo o beneficiamento, mais alto tende a ser o valor da semente.
"Uma das partes mais empolgantes e curiosas da coleta é o beneficiamento: não tem um jeito certo de beneficiar, mas tem que garantir a qualidade da semente. Os coletores estão sempre inovando, usando de sua criatividade e das ferramentas que tiverem para facilitar o processo", explica Milene Alves, coletora de sementes desde 2013 e bióloga do Redário, uma rede de redes de sementes espalhadas pelo Brasil e coordenada pelo ISA.
"Meu pai diz e é verdade: a semente te ensina a trabalhar com ela. O tamanho, a dureza e o tipo da semente te indicam como fazer o beneficiamento. Não é à toa que a maior parte das coletoras é mulher: este é um trabalho muito cuidadoso, que elas fazem com excelência", completa.
Milene é portadora de uma história interessante e bonita, que revela o poder de transformação que a semente carrega não só para a restauração de ecossistemas, mas para a restauração da vida, da saúde e das relações. Além dela, a mãe, o pai e o marido também são coletores.
Imagem
Milene Alves, coletora de sementes e bióloga do Redário: "depois que entramos na Rede, nossa vida mudou"|Bianca Moreno/ISA e ARSX
"Depois que entramos na Rede, nossa vida mudou. Eu entrei na faculdade, me tornei mestre em Agroecologia e hoje tenho minha família, minha casa e meu carro. Minha mãe era trabalhadora doméstica e sofria com depressão e ansiedade. Trabalhar com a semente deu um novo sentido à vida dela", relata Milene.
Imagem
Vera, mãe de Milene, é coletora urbana desde 2012 no grupo misto de Nova Xavantina, no qual entrega cerca de 600kg de semente por ano|Bianca Moreno/ISA e ARSX
As Casas de Sementes e o Laboratório de Sementes da UNEMAT
Uma vez coletadas, as sementes são armazenadas em uma das três Casas de Sementes da ARSX. Em um ambiente controlado, seco, fresco e escuro, a armazenagem segue protocolos: "As sementes são pesadas e conferidas, incluindo tipo, beneficiamento e qualidade", explica Denise Costa, guardiã da Casa de Sementes de Nova Xavantina.
Imagem
As sementes são armazenadas em dispensers, que facilitam a organização do dia-a-dia das Casas de Sementes|Bianca Moreno/ISA e ARSX
É também nas Casas de Sementes onde são separados lotes para controle no Laboratório de Sementes da UNEMAT, no campus de Nova Xavantina. "Nosso papel é avaliar a qualidade fisiológica e física de algumas sementes da Rede. Analisamos o teor de pureza e de água e fazemos o teste de germinação e de emergência em canteiros de areia", explica Rodrigo de Góes, coordenador do Laboratório.
Ao lado dele, a professora Luciane Roswalka se dedica à Fitopatologia. "Na muvuca, se as sementes estiverem contaminadas por patógenos [doenças], elas podem não se desenvolver. Por isso, buscamos agentes biológicos que possam atuar no controle desses patógenos, como a própria microbiota do solo", afirma Luciane.
Imagem
Laboratório de Sementes da UNEMAT: À esquerda, a professora Luciane Roswaka. À direita, o professor Rodrigo de Goés|Bianca Moreno/ISA e ARSX
Cumprida esta etapa, na época das chuvas, as sementes vão para as áreas de restauração, onde a magia acontece: a muvuca de sementes é feita e semeada! Curioso notar a circularidade desse trajeto: a semente vem do chão e retorna para ele. Entre uma ponta e outra do caminho, há toda uma travessia, aberta e sustentada por muitas mãos.
Crise é oportunidade: a restauração nos territórios de coleta
Apesar do grande passivo ambiental das propriedades rurais brasileiras, a pouca demanda por sementes tem incentivado uma solução próspera para a Rede de Sementes do Xingu: plantar nos territórios de coleta!
A partir de projetos e programas de apoio, a ARSX tem se dedicado cada vez mais à restauração ecológica nos territórios em que atua no intuito de aproximar as árvores matrizes das comunidades, promover a segurança e a soberania alimentar nos territórios e fortalecer sua biodiversidade e recursos hídricos.
Imagem
Renato Nazário, da equipe de Restauração Ecológica da ARSX, cumprimenta os coletores e agricultores rurais Mariozan Ferreira e Vilmar Tusset|Bianca Moreno/ISA e ARSX
"A maior parte dessas áreas está dentro de assentamentos da agricultura familiar e de aldeias indígenas. Nesses locais, planejamos a restauração junto com as comunidades, levando em consideração o que é de interesse delas, olhando sempre para o bem-viver e a permanência na terra", explica Bruna Ferreira, diretora da Rede de Sementes do Xingu.
Assim, o primeiro dia da 4ª Expedição contou com uma visita a uma área de restauração no Projeto de Assentamento (PA) Pé da Serra, no sítio dos coletores e agricultores familiares Mariozan Ferreira e Maria Ângela. Ali, a restauração foi feita em 2021 como uma homenagem a Heber Queiroz, ex-coordenador do componente de Adequação Ambiental do ISA, falecido durante a pandemia da Covid-19.
"Sou coletor da Rede desde quando eu vim para o sítio, há 12 anos, e minha renda principal é a semente. Nossa área está muito bonita, acho que pelo grande carinho que todos tínhamos com Heber. Meus filhos já foram pra cidade, mas eu e minha esposa seguimos por aqui", conta Mariozan.
Imagem
O coletor e agricultor familiar Mariozan no Bosque Heber Queiroz, onde77,57kg de 87 espécies de semente foram semeadas|Bianca Moreno/ISA e ARSX
Simulando a natureza e trabalhando com ela: a ciência por trás da muvuca de sementes
A muvuca é uma simulação do que a própria natureza faz, só que de forma acelerada. Enquanto um processo de regeneração natural pode levar cerca de 200 a 300 anos para acontecer, a muvuca de sementes reúne plantas com diferentes funções biológicas e ciclos de vida em um único plantio estrategicamente pensado.
"Há uma ciência por trás da diversidade de espécies e quantidade de sementes escolhidas em uma muvuca, que vem se aperfeiçoando ao longo dos anos, a partir da experiência", afirma Guilherme Pompiano, do ISA.
Imagem
Guilherme Pompiano, do ISA, durante o preparo da muvuca de sementes na Fazenda Tanguro, da Amaggi, em Querência/MT|Bianca Moreno/ISA e ARSX
Guilherme explica que as espécies vegetais previstas na muvuca estão separadas conforme o extrato e o ciclo de vida para simular o processo de sucessão que a própria natureza faz: primeiro, nascem as espécies pioneiras, que vivem até um ano e desempenham o papel de adubação verde, impedindo o alastramento do capim, fertilizando e fortalecendo o solo.
Depois, as pioneiras morrem e deixam o espaço preparado para as secundárias, cujo ciclo de vida se estende até 20 anos. Só então teremos as espécies tardias (de 20 a 100 anos) e as clímax (acima de 100 anos), que serão a floresta do futuro.
Danielle Celentano, do ISA, complementa: "Um dos mecanismos de regeneração natural é o banco de sementes do solo, que é enriquecido quando implantamos uma muvuca. Em um plantio, plantamos muitas sementes porque poucas de fato vivem e se estabelecem. A natureza é assim".
Dia 2: a Aldeia Ripá e a restauração ecológica no contexto indígena
Imagem
Programação na aldeia Ripá incluiu uma caminhada pela mata com as coletoras de sementes, que marcharam à frente|Bianca Moreno/ISA e ARSX
O segundo dia da Expedição foi todo dedicado à aldeia Ripá, do povo Xavante. Fundada em 2012 pelo cacique José Guimarães Sumené Xavante, a aldeia conta com um grupo coletor formado por 26 mulheres e é referência no trabalho de coleta de sementes.
Imagem
Aldeia Ripá conta com um grupo coletor formado por 26 mulheres e que é referência no trabalho de coleta de sementes|Bianca Moreno/ISA e ARSX
Lá, graças à boa consideração do cacique José Sumené com a Rede de Sementes do Xingu, os participantes da 4ª Expedição da Restauração Ecológica tiveram a honra de conhecer um dos pontos sagrados do aldeia: um poço de águas limpas e azuis, que alegrou os waradzu – palavra Xavante para não-indígena –, habituados a ritmos, tempos e confortos tão outros.
Imagem
Cacique José Sumené nas águas do poço sagrado ao qual conduziu os participantes da Expedição da Rede de Sementes do Xingu|Bianca Moreno/ISA e ARSX
A recepção contou também com cantos e rodas de conversa para apresentações, informes e partilhas sobre a coleta de sementes. Visitaram-se, ainda, duas áreas restauradas com muvuca: a primeira, semeada em 2019, já exibe seus barus, cajus e mamoninhas, indicando a chegada das plantas secundárias e tardias no sistema. A segunda, fruto de uma semeadura direta realizada em 2022, ainda dá seus primeiros passos rumo ao estabelecimento da sonhada floresta do futuro.
Imagem
Arcângelo Xavante, elo do grupo de coletoras, e João Carlos Pereira, um dos técnicos em restauração ecológica da ARSX responsáveis pela implantação das áreas de restauração da aldeia Ripá|Bianca Moreno/ISA e ARSX
À noite, a lua se engrandece ao chegar no horizonte do céu. O centro da aldeia, ainda há pouco aquecido pelo fogo Xavante feito em festa para os visitantes, ecoa frescor e silêncio: alívio. Corpos cansados descansam. O dia quente e a caminhada matinal pela mata, aberta e liderada pelas coletoras de sementes da comunidade, permitem que todos durmam melhor.
O tempo na aldeia é diferente – e parte do cansaço talvez venha da tentativa de controlar um sol determinado a aquecer o chão vermelho da Terra Indígena Pimentel Barbosa. Lado a lado, cada qual em sua rede, cerca de 80 waradzu participantes da Expedição dormem nas poucas horas que antecedem o amanhecer.
Imagem
Fogueira acesa no centro da Aldeia Ripa, do povo Xavante. Ritual com a comunidade e visitantes encerrou o segundo dia de expedição|Bianca Moreno/ISA e ARSX
Dia 3: a restauração ecológica em grandes propriedades rurais
O Mato Grosso, assim como o Brasil, é uma terra de contrastes. Um deles são os modos de ocupação da terra. Da Terra Indígena Pimentel Barbosa, partimos rumo a duas grandes fazendas que são referências de produção agrícola e restauração no estado: a Fazenda Schneider, onde há duas áreas de restauração em estágio avançado, com cerca de 15 anos de idade, e a Fazenda Tanguro, do Grupo Amaggi, onde áreas de restauração com muvuca vêm sendo crescentemente implantadas.
Imagem
Com uma área de 329 mil hectares, a Terra Indígena Pimentel Barbosa está sob os pés da Serra do Roncador, no Mato Grosso|Bianca Moreno/ISA e ARSX
"O Mato Grosso é um território em disputa. Os fazendeiros são poderosos porque mantêm a balança comercial do Brasil positiva, mas dependem de conhecimentos de comunidades locais, de agricultores, assentados e povos indígenas, que são quem sabem de sementes. Esse conhecimento é muito sofisticado e poderoso, capaz de promover a convivência entre grupos que até pouco tempo estavam em uma guerra aberta – se não continua. A Rede de Sementes do Xingu construiu pontes – das poucas que a gente tem, de mundos que se entendem excludentes", afirma Biviany Rojas, coordenadora do Programa Xingu/ISA.
Imagem
Da lavoura de soja, avista-se, ao fundo, a mata fruto do projeto de restauração implantado entre os anos de 2009 e 2010 na Fazenda Schneider|Bianca Moreno/ISA e ARSX
Fundada em 1988 por uma família do Rio Grande do Sul, a Fazenda Schneider é referência no plantio de soja, algodão e milho no estado de Mato Grosso. Com uma área total de 3000 ha e uma área produtiva de 2150 ha, a propriedade se tornou um case de sucesso pelo bom estabelecimento de uma área restaurada entre os anos de 2009 e 2010. Hoje, caminha-se com a sensação de realmente estar em uma mata.
Imagem
Duas áreas de restauração foram implantadas na Fazenda Schneider entre 2009 e 2010, com 830 kg de 47 espécies de sementes|Bianca Moreno/ISA e ARSX
Além disso, a restauração na propriedade conta com outra particularidade de destaque: o balanço de carbono. Graças a um projeto feito com a Natura, a restauração na Fazenda Schneider monitora a taxa de absorção de carbono, que tem surpreendido os técnicos envolvidos com este plantio.
"Na segunda medição, de 10 anos, o projeto absorveu quatro vezes mais carbono do que previsto. Este é um carbono premium. A nossa expectativa é compartilhar essa história para que outras pessoas não cometam os mesmos erros que nós e aprendam a partir da nossa experiência", conta Rodrigo Junqueira, atual secretário geral do ISA, que acompanhou os primeiros plantios.
Imagem
Rodrigo Junqueira, do ISA, e o proprietário rural Valmir Schneider em uma das áreas de restauração da Fazenda Schneider|Bianca Moreno/ISA e ARSX
"Hoje, ainda temos espécies germinando e se estabelecendo. O solo e o clima dessa área são totalmente diferentes, com uma cobertura de matéria orgânica dentro da floresta, pássaros e animais. Se todo mundo fizer sua parte, o ambiente vai andar em paralelo com a agricultura", afirma Valmir Schneider, proprietário da Fazenda Schneider.
A muvuca de sementes na Fazenda Tanguro
O ponto final de nossa Expedição foi a Fazenda Tanguro, da Amaggi, em Querência/MT. Com cerca de 87 mil hectares de extensão, a Fazenda Tanguro se dedica à soja, ao algodão e ao milho ao mesmo tempo em que mantém mais de 50% de sua área como reserva legal. Foi lá onde fizemos nossa muvuca, semeada em uma Área de Proteção Permanente (APP), cuja restauração prevê uma área total de 35 ha.
Imagem
Participantes da 4ª Expedição misturam muvuca de sementes para semeadura direta na Fazenda Tanguro, da Amaggi|Bianca Moreno/ISA e ARSX
“Estamos trabalhando duas áreas de um mesmo fragmento com 17,5ha de cada lado. Será um experimento interessante: a área foi toda preparada da mesma forma, mas metade dela vai receber muvuca de sementes e a outra metade será destinada à regeneração natural para, no futuro, compararmos os resultados", explica Paulo Mariotti, analista socioambiental da Fazenda Tanguro.
Imagem
O plantio foi feito de forma manual a lanço e com implementos agrícolas para demonstrar aos participantes que na hora de semear uma muvuca, é possível usar o que estiver à disposição|Bianca Moreno/ISA e ARSX
"Viemos de um processo de restauração em um modelo mais tradicional, com plantio de mudas, e encontramos dificuldades como o controle de formigas, o plantio manual das mudas e a obtenção delas. Experimentamos a muvuca de sementes em 2020 e os resultados foram bastante positivos – tanto em termos de germinação de sementes, quanto econômicos. Agora, trabalhamos quase exclusivamente só com essa técnica", completa Paulo.
Não faltam sementes: falta demanda!
Um dos argumentos da restauração ecológica por meio da muvuca de sementes é a falta de sementes. E isso não é verdade. A Rede de Sementes do Xingu tem capacidade de coletar até 30t de sementes por ano, através de um trabalho coletivo que reúne seis etnias indígenas – sendo cinco delas na Terra Indígena do Xingu (TIX) –, mais de 20 assentamentos da reforma agrária e coletores urbanos de três municípios em Mato Grosso.
"Somos a maior iniciativa do tipo no Brasil. Fazemos, ainda, parte do Redário, uma rede de redes de sementes coordenada pelo Instituto Socioambiental (ISA), que inclui outros 24 projetos como o nosso, capazes de coletar e distribuir sementes de todos os biomas do Brasil. A disponibilidade de sementes não é mais um gargalo para restauração com muvuca”, afirma Bruna Ferreira, diretora da Rede de Sementes do Xingu.
Imagem
Parte da equipe técnica da Rede de Sementes do Xingu, que se divide mas frentes de de Sociobiodiversidade, Restauração Ecológica, Vendas, Casas de Sementes, Comunicação e Administrativo/Financeiro|Bianca Moreno/ISA e ARSX
"O ponto de não retorno está mostrando que não basta só parar de desmatar: temos que plantar. A restauração pode contribuir com o clima, com a diminuição da desigualdade e com a diversidade do Brasil. A coleta de sementes é capaz de complementar a renda e restaurar relações, principalmente em um mundo tão polarizado. A semente tem o poder de conectar mundos e trajetórias muito diferentes", lembra Rodrigo Junqueira, do ISA.
Ao longo de seus 16 anos de atuação, a Rede de Sementes do Xingu já comercializou mais de 330 t de sementes de 220 espécies diferentes, contribuindo para a restauração de mais de 8 mil hectares de área. Por um lado, é pouco, se temos em vista o passivo ambiental brasileiro. Por outro, é muito, visto que essa semeadura não germina apenas floresta: além da renda de mais de R$ 6,125 milhões gerada aos coletores de semente, a Rede semeia também afeto e cuidado entre gentes, bichos e plantas, promovendo uma restauração ecológica que fortalece as bases e o território de quem vive no campo.
"Pra mim, a maior importância de coletar semente é saber que um dia ela vai ser plantada em algum lugar. Tenho orgulho de fazer um trabalho tão bonito – coletar semente, sabendo que ela tá fazendo um bem enorme para o planeta. O que a gente faz com amor e com carinho nunca é em vão", conclui Cleusa Nunes de Paula, coletora e elo da Rede de Sementes do Xingu desde 2010.
Imagem
Cleusa Nunes de Paula é elo do grupo Novo Paraíso, que reúne coletoras indígenas da comunidade Xavante|Bianca Moreno/ISA e ARSX
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Povos indígenas: guardiões da floresta e do carbono
Reconhecer e fortalecer os direitos territoriais indígenas é crucial para o cumprimento dos compromissos climáticos assumidos pela comunidade internacional; Leia artigo publicado no Valor Econômico
Artigo originalmente publicado no Valor Econômico em 05/12/2023.
A Amazônia desempenha um papel crucial no combate às mudanças climáticas devido à sua vasta reserva de carbono florestal. Suas árvores armazenam carbono, evitando que se acumulem na atmosfera e promovam o aquecimento global. E os principais responsáveis por esses estoques robustos são os povos indígenas, guardiões ancestrais das florestas.
Segundo dados gerados pela RAISG (Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada) e pelo Woodwell Climate Research Center (WCRC), que foram divulgados dia 4 de dezembro na COP28 em Dubai, Emirados Árabes Unidos, o bioma amazônico em seis países – Bolívia, Brasil, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela – armazena aproximadamente 79 mil MtC de carbono florestal. Destes, 58% estão em Terras Indígenas e Áreas Naturais Protegidas.
Ou seja, reconhecer e fortalecer os direitos territoriais indígenas não apenas promove justiça social, mas também se revela crucial para a proteção e preservação dos estoques de carbono na Amazônia, e assim contribui para o cumprimento dos compromissos climáticos (NDC) assumidos por cada país.
O armazenamento de carbono é um serviço ambiental fundamental para combater a crise climática. No entanto, políticas de ampliação de atividades econômicas na Amazônia, especialmente agropecuárias, geram altas taxas de desmatamento e a perda de estoques de carbono florestal.
Adicionalmente, os marcos normativos nos países amazônicos não proporcionam a proteção necessária das suas florestas – nem para manter os serviços, nem para salvaguardar os direitos territoriais e as vidas dos povos indígenas.
Trata-se de um passo urgente que precisa ser dado pelos governos da região. O carbono florestal tornou-se uma apetitosa commodity, mas a gestão dos créditos e a comercialização ainda não foram regulamentadas, o que abre caminho para comportamentos predadores das empresas e uma negociação desigual com os indígenas.
Um panorama preocupante, por exemplo, é o da falta de aplicação de salvaguardas dos direitos dos povos indígenas, regulação e supervisão no âmbito do instrumento REDD+ (reduções de emissões de gases de efeito estufa e aumento de estoques de carbono florestal).
É urgente reconhecer, promover e fornecer incentivos diretos no que diz respeito ao trabalho realizado pelos povos indígenas no monitoramento e vigilância de seus territórios para a proteção de suas florestas. Fundamental também preservar sua integridade física.
A conservação das florestas e a baixa perda de carbono dentro das Terras Indígenas não são produto do acaso, mas da capacidade de gestão florestal dos povos indígenas que as habitam. Isso se deve ao profundo conhecimento do meio ambiente, que lhes permite fazer uso sustentável da floresta e também proteger e garantir seus modos e meios de vida.
Portanto, o principal desafio em relação aos mercados de carbono é garantir que os povos indígenas sejam interlocutores centrais na tomada de decisões sobre seus territórios. Nesse sentido, a implementação de mecanismos de participação das comunidades indígenas e protocolos de consulta prévia, livre e informada são estratégias fundamentais.
Os povos indígenas são sujeitos coletivos, com livre determinação e autogoverno que não podem ser desconhecidos, muito menos quando seu conhecimento, modos de vida e práticas ancestrais de respeito e harmonia com o território demonstram imensa capacidade de contribuir com o enfrentamento às mudanças climáticas.
*Adriana Ramos, Instituto Socioambiental (Brasil); Bibiana Sucre, Provita (Venezuela); Carlos Souza Júnior, Imazon (Brasil); Carmen Josse, EcoCiencia (Equador); María Teresa Quispe, Wataniba (Venezuela); Natalia Calderón, Fundación Amigos de la Naturaleza (Bolívia); Renzo Piana, Instituto del Bien Común (Peru); Silvia Gómez, Fundación Gaia Amazonas (Colômbia). Membros da Junta Diretiva de RAISG.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Rede Xingu+ lança série de animações 'Carbono: o que você precisa saber'
Quatro episódios produzidos em parceria com o ISA apresentam informações para que povos indígenas e comunidades tradicionais entendam um projeto de carbono e seus impactos
O que é carbono, como o carbono e outros gases na atmosfera estão acelerando as mudanças climáticas e que negociações internacionais estão sendo feitas para diminuir o aquecimento do planeta?
Com destaque para a importância das salvaguardas socioambientais, a série de 4 episódios “Carbono: o que você precisa saber” apresenta uma introdução a um dos temas mais discutidos no campo do socioambientalismo.
A série contribui com o debate sobre como o desmatamento está acelerando as mudanças climáticas e sua relação com o carbono e outros gases na atmosfera, além das soluções propostas para diminuir o aquecimento do planeta.
Clique abaixo e confira os episódios da temporada sobre o carbono e as soluções dos povos da floresta.
Episódio 1
Episódio 2
Episódio 3
Episódio 4
Ficha técnica:
Realização: Rede Xingu+ e Instituto Socioambiental (ISA)
Direção geral: André Villas-Bôas, Paulo Junqueira e Silia Moan
Produção: Cama Leão
Direção e Montagem: João Maia
Coordenação pós-produção: Natália Rodrigues
Roteiro: Ana Paula Anderson
Ilustração: Amanda Miranda
Animação: Bernardo Vaz
Locução: Erik Vesch
Apoio: Environmental Defense Fund (EDF)
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS