A Bacia do Rio Negro se estende pelos estados do Amazonas e de Roraima, no Brasil, e também avança pelos territórios vizinhos da Colômbia, Venezuela e Guiana. Na sua porção no Amazonas, a bacia é uma das regiões mais preservadas de todo o bioma amazônico, com biodiversidade incalculável. Por outro lado, a parte da bacia localizada em Roraima vem sofrendo grande degradação ambiental causada pelo garimpo ilegal de ouro, desmatamento e roubo de terra, ou "grilagem de terra".
Aproximadamente 68% da Bacia do Rio Negro no Brasil está formalmente protegida por um conjunto de unidades de conservação e terras indígenas legalmente reconhecidas. A diversidade cultural da região é enorme: ali vivem 45 povos indígenas e estão localizados dois patrimônios culturais do Brasil – a Cachoeira de Iauaretê e o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro – além do ponto mais alto do Brasil, o Pico da Neblina, lugar sagrado do povo Yanomami.
No Rio Negro, o ISA mantém trabalho de longo prazo e parceria institucional - que nos enche de orgulho - com associações indígenas e suas lideranças, entre elas a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), a Hutukara Associação Yanomami (HAY) e o Conselho Indígena de Roraima (CIR).
Mantemos escritório e equipe na cidade de São Gabriel da Cachoeira (AM), considerado o município mais indígena do Brasil, localizado no Alto Rio Negro. De São Gabriel, também descemos com as águas do Negro para apoiar comunidades e associações indígenas dos municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, ambos no Amazonas. Em 2009, o ISA incorporou a organização Comissão Pró-Yanomami (CCPY), sua equipe e legado, abrindo escritório em Boa Vista (RR) e passando a atuar diretamente com o povo Yanomami e outros povos de Roraima.
Atualmente, o ISA atua na Bacia do Rio Negro com a promoção de processos formativos, articulando parcerias para a proteção dos territórios indígenas, valorização da diversidade socioambiental, segurança alimentar das comunidades, desenvolvimento de cadeias de valor da economia da floresta para geração de renda e produção de pesquisas interculturais que dêem visibilidade aos conhecimentos tradicionais e modos de vida das populações que, há muitos anos, mantém as florestas da região preservadas.
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Funai, Foirn e ISA celebram Acordo de Cooperação para fortalecimento de ações no Rio Negro
Iniciativa prevê integração entre poder público e sociedade civil para promover avanços na defesa de direitos e territórios indígenas da região
Com o objetivo de somar esforços para ações de fortalecimentos dos povos indígenas e proteção dos territórios na região do Rio Negro (AM), foi assinado em Brasília, na segunda-feira (15/04), Acordo de Cooperação Técnica (ACT) entre a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e o Instituto Socioambiental (ISA).
“Este acordo de cooperação visa à implementação de uma série de atividades e ações que estão propostas para essa região do Rio Negro”, explicou Joenia Wapichana, presidente da Funai. Ela ressaltou que o instrumento deve servir para somar esforços no fortalecimento dos direitos dos povos indígenas e as políticas públicas previstas para a região do Rio Negro, no Estado do Amazonas.
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Da esquerda para a direita: a secretária executiva do ISA, Adriana Ramos, o diretor-presidente da Foirn, Marivelton Barroso, povo Baré, e a presidente da Funai, Joenia Wapichana|José Rui Gavião/Funai
O Acordo de Cooperação Técnica tem por objeto a atuação conjunta entre a Funai, Foirn e ISA com as organizações indígenas locais para a implementação de ações de gestão territorial, sustentabilidade e governança, conforme a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI).
O diretor-presidente da Foirn Marivelton Barroso, do povo Baré, afirmou que o acordo promove a integração de agenda e pautas de gestão ambiental e territorial, com cada agente atuando em sua área de responsabilidade.
“Este momento traz a retomada dos Acordos de Cooperação Técnica da sociedade civil, organizações indígenas e indigenistas, que trabalham em determinados territórios. Temos ações voltadas às Terras Indígenas, que são de responsabilidade da Funai, órgão indigenista do país, que se soma à representatividade da Foirn e à agenda socioambiental que inclui o ISA como parceiro estratégico nesta região”, disse.
Fundada em 1987, a Foirn representa 23 povos indígenas, 93 organizações de base, sete Terras Indígenas já reconhecidas oficialmente pelo Governo Federal e três ainda no processo de regularização fundiária.
A sede da instituição fica em São Gabriel da Cachoeira, terceiro município mais indígena do país, localizado na região do Rio Negro, em uma das áreas mais preservadas do país.
Para a secretária executiva do ISA, Adriana Ramos, o acordo é um marco para o avanço das políticas e defesa dos direitos indígenas. “É uma alegria para o ISA firmar esse acordo de cooperação. São décadas trabalhando na região do Rio Negro em parceria com a Foirn. E poder contar com uma articulação que envolve a Funai, com esse compromisso de fazer avançar as políticas de defesa dos direitos indígenas na região, é extremamente satisfatório. Temos aqui um marco de como a sociedade civil pode contribuir com o Estado e com os povos indígenas para a garantia dos direitos”, comemorou.
Também esteve presente pelo ISA a advogada do Programa Rio Negro, Renata Vieira.
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Assinatura do Acordo de Cooperação Técnica aconteceu no mês dos Povos Indígenas, na sede da Funai, em Brasília|José Rui Gavião/Funai
O ISA atua na região por meio do Programa Rio Negro (PRN) e tem sede em São Gabriel da Cachoeira, mantendo equipes atuando em áreas como pesquisas inteculturais, economia da sociobiodiversidade, assessoria jurídica, comunicação, fortalecimento da gestão territorial e de associações.
Além de Marivelton Baré, representaram a Foirn o diretor Dario Baniwa, Carlos Nery, diretor da Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro (Caimbrn), o coordenador da Caimbrn eleito, Marcos Zeidam e a advogada Mayte Ambrósio.
Também estiveram presentes pela Funai a coordenadora da Funai - Coordenação Regional Rio Negro, Maria do Rosário Piloto, Dadá Baniwa; as diretoras de Proteção Territorial, Janete Carvalho; de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável, Lucia Alberta; e de Administração e Gestão, Mislene Metchacuna; o coordenador-geral de Gestão Estratégica da Funai, Artur Nobre e a procuradora federal especializada junto à Funai, Carolina Augusta. O chefe da Assessoria de Participação Social e Diversidade do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Tacius Fernandes, representou a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
60ª Bienal de Veneza recebe 31 obras de artistas Yanomami
Maior e mais antigo evento de arte do mundo conta com 13 desenhos de Joseca Yanomami e 18 obras de André Taniki
Na entrada da Bienal, Joseca Yanomami posa em frente a um mural de setecentos metros quadrados pintado pelo Movimento dos Artistas Huni Kuin (MAHKU), coletivo artístico indígena da Amazônia|Daniel Jabra
Trinta e uma obras de artistas Yanomami serão exibidas na 60ª Bienal de Arte de Veneza - o maior e mais antigo evento de arte do mundo - de 20 de abril a 24 de novembro de 2024. Intitulada Foreigners everywhere (Estrangeiros em todos os lugares), a Bienal conta com 13 desenhos de Joseca Yanomami e 18 obras de André Taniki.
Joseca participa da pré-abertura do evento de 16 a 19 de abril a convite da própria Bienal de Veneza e com apoio da Hutukara Associação Yanomami (HAY) e da Galeria Millan. A edição dará visibilidade a artistas de grupos marginalizados como indígenas, imigrantes e refugiados.
Taniki também foi convidado pela Bienal de Veneza, no entanto, tem mais de 80 anos e não poderá comparecer pela sensibilidade de sua idade. Além de artista, Taniki também é um xamã que vive no Alto Rio Catrimani - região onde a arte dos desenhos foi apresentada pela fotógrafa Claudia Andujar - e que produziu a maior parte de suas obras dos anos 1970 a 1980.
A participação do artista na abertura do evento é considerada fundamental para reconhecimento da trajetória dele e para a divulgação da luta yanomami no âmbito internacional.
“Estou muito feliz nesta viagem para participar [da Bienal de Veneza]. É uma felicidade muito grande”, disse Joseca pouco antes de embarcar no aeroporto em São Paulo com destino a Veneza.
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Joseca posa junto a obra exposta na Bienal de Arte de Veneza. O desenho, feito em 2011, retrata indígenas Yanomami na floresta|Daniel Jabra
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Evento de arte na Itália conta com 13 desenhos de Joseca Yanomami e 18 obras de André Taniki|Daniel Jabra
Os desenhos que farão parte da exposição foram cedidos pelo Museu de Arte de São Paulo (MASP), que há três anos adquiriu 92 obras de Joseca e em 2022 realizou a exposição “Joseca Yanomami: Nossa Terra-Floresta”.
O repertório do artista Yanomami é composto pelas inspirações da cosmologia de seu povo, fazendo referência aos cantos, mitos xamânicos, a floresta, a defesa do território e os sonhos.
Sobre Joseca Yanomami
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Joseca Yanomami ilustra cenas da vida cotidiana na floresta, lugares e eventos evocados pelos mitos e cantos xamânicos|Daniel Tancredi/Platô Filmes/ISA
Nascido na década de 1970, na região do Demini, Terra Indígena Yanomami, e membro da comunidade Watorikɨ, Joseca é um notável artista de seu povo. Há mais de duas décadas, ele começou a desenhar e esculpir animais em madeira.
“Quando eu aprendi a desenhar, eu ouvia os pajés cantando e eu gravava na minha cabeça para desenhar depois”, Joseca contou ao ISA em 2021. “Desenho os parentes, os animais, árvores, os passarinhos, araras, macacos, antas, peixes”.
Joseca também é o primeiro estudioso de línguas de sua comunidade e foi professor em Watorikɨ no início dos anos 1990. Além disso, foi o primeiro Yanomami a trabalhar na área de saúde.
Histórico de exposições com obras de Joseca Yanomami
Yanomami: O Espírito da Floresta - Fundação Cartier para Arte Contemporânea, Paris, França - 2003
Histórias de Verão - Fundação Cartier para Arte Contemporânea, Paris, França - 2012
Histórias Mestiças - Instituto Tomei Ohtake, São Paulo, Brasil - 2014
Nós, as Árvores - Fundação Cartier para Arte Contemporânea, Paris, França - 2019
Mundos Indígenas - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil - 2020
Árvores - Power Station of Art / Fundação Cartier para Arte Contemporânea, Xangai, China - 2021
Moquém Surari: Arte Indígena Contemporânea - Museu de Arte Moderna de São Paulo, Brasil - 2021
Reunião do Comitê de Enfrentamento à Covid-19 na Casa do Saber, Maloca da FOIRN, em junho de 2020|Christian Braga
Com múltiplas vozes indígenas e não indígenas, o podcast A Nova Doença dos Brancos traz relatos das pessoas que viveram a pandemia da Covid-19 no Alto Rio Negro (AM), uma das áreas mais remotas da Amazônia brasileira, e reflete sobre a resistência dos povos originários frente a esta e outras epidemias.
Com quatro episódios semanais, a narrativa debate visões indígenas sobre a doença e a cura. Confira a seguir:
Episódio 1: A chegada do vírus
Apresenta a chegada da Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, as estratégias adotadas pela sociedade civil, organizada e liderada pelo movimento indígena local, para conter o avanço da doença e as dificuldades enfrentadas em relação à propagação de fake news sobre a pandemia.
Episódio 2:As epidemias do passado
Relembra a história de epidemias do passado, que chegaram ao Brasil com a invasão europeia e avançaram sobre os territórios indígenas. Narrativa mostra como a chegada da Covid-19 despertou traumas antigos e enraizados na população indígena dos diversos genocídios vivenciados.
Episódio 3:As práticas terapêuticas indígenas
Trata das estratégias indígenas para fazer frente ao avanço do vírus, sobretudo da mobilização de conhecimentos e práticas tradicionais que fazem parte do repertório local de ações voltadas para combater doenças estrangeiras.
Episódio 4: Um balanço da pandemia no Rio Negro
Apresenta um resumo da epidemia na região com uma homenagem aos que se foram e aos que lutaram contra a pandemia e mostra como a mobilização social produziu uma reconexão com saberes ancestrais, combinada a uma organização política extremamente capilarizada no território, que trouxe maior segurança para seguir sendo indígena no séc. XXI.
Os participantes do podcast também incluem especialistas não-indígenas, que apresentam o histórico das doenças que chegaram aos povos indígenas no Brasil, a persistente omissão dos órgãos públicos em prover condições básicas para a saúde indígena e as relações entre a pandemia e a crise climática que nos afeta.
Esse podcast faz parte do projeto “O Museu Relacional: compartilhando conhecimentos sobre a epidemia e outras crises no Alto Rio Negro”, com pesquisa coordenada pelos antropólgos do Museu de Berlim Andrea Scholz e Thiago da Costa Oliveira e do antropólogo do Instituto Socioambiental (ISA), Aloisio Cabalzar.
O trabalho conta ainda com a rede dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs), ligados ao ISA e à Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn).
Ficha Técnica
Direção: Thiago da Costa Oliveira
Roteiro: Thiago da Costa Oliveira, Mariana Pinheiro e Felipe Barros
Produção: Flávia Heins
Narração: Naiara Alice Bertoli e Thiago da Costa Oliveira
Pesquisa de campo: Naiara Alice Bertoli
Decupagem a partir de entrevistas transcritas pelo Audiotex: Guilherme Pedroso
Trilha sonora, desenho e edição de som: Felipe Barros
Mixagem: Alexandre Jardim
Coordenação local de pesquisa: Andreia Damasceno e Mauro Pedrosa, povo Tukano.
Financiamento: Fundo "Corona Crisis and Beyond – Perspectives for Science, Scholarship and Society" da Fundação Volkswagen, da Alemanha.
Serviço
Lançamentos
Loja Floresta no Centro (ISA)
Data: 05/04, às 19h
Endereço: Av. São Luiz, 187 - Galeria Metrópole - Centro Histórico de São Paulo / SP
*Roda de conversa com a socióloga e liderança Elizângela Costa, povo Baré, e com o antropólogo Aloisio Cabalzar.
Faculdade de Saúde Pública da USP
Data: 19/04 - Dia dos Povos Indígenas, às 16h
Endereço: Anfiteatro Paula Souza - Rua Dr. Arnaldo, 715 - São Paulo / SP
*Roda de conversa com a antropóloga e liderança Francy Baniwa e com a socióloga e liderança Elizângela Costa, povo Baré.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Pesquisa: todos os Yanomami de 9 aldeias assediadas pelo garimpo estão contaminados por mercúrio
Estudo liderado pela Fiocruz identificou a presença do metal tóxico em amostras de cabelo de cerca de 300 pessoas analisadas no Alto Rio Mucajaí, na Terra Indígena Yanomami
Em 2023, 308 indígenas Yanomami e Ye’kwana morreram sem que servidores da saúde conseguissem atender comunidades vulneráveis por medo dos garimpeiros, segundo relatório publicado em janeiro deste ano|Bruno Kelly/ISA
Uma pesquisa realizada com indígenas do povo Yanomami, do subgrupo Ninam, de nove aldeias localizadas em Roraima, mostrou que todos os participantes estão contaminados por mercúrio. Os maiores níveis de exposição foram detectados em indígenas que vivem nas aldeias localizadas mais próximas aos garimpos ilegais de ouro.
O estudo 'Impacto do mercúrio em áreas protegidas e povos da floresta na Amazônia: uma abordagem integrada saúde-ambiente' foi conduzido pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), em parceria com a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), que contou com o apoio do Instituto Socioambiental (ISA).
Os pesquisadores identificaram a presença do metal pesado em amostras de cabelo de cerca de 300 pessoas analisadas, incluindo crianças e idosos.
“Esse cenário de vulnerabilidade aumenta exponencialmente o risco de adoecimento das crianças que vivem na região e, potencialmente, pode favorecer o surgimento de manifestações clínicas mais severas relacionadas à exposição crônica ao mercúrio, principalmente nos menores de 5 anos”, explica o coordenador do estudo, Paulo Basta, médico e pesquisador da Ensp/Fiocruz.
O estudo realizou as coletas na região do Alto Rio Mucajaí, em outubro de 2022. O local é alvo do garimpo ilegal há décadas, o que vem causando destruição ambiental, insegurança, violência e prejuízos à saúde dos indígenas.
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Canteiro em Surucucus (RR). Garimpo persiste na Terra Indígena Yanomami e promove um estrangulamento dos serviços de saúde|Bruno Kelly/ISA
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Vicinal que dá acesso aos portos de garimpo no rio Uraricoera (RR). Desmatamento associado ao garimpo somou 238,9 hectares em 2023|Bruno Kelly/ISA
“O garimpo é o maior mal que temos hoje na Terra Yanomami. É necessário e urgente a desintrusão, a saída desses invasores. Se o garimpo permanece, permanece também a contaminação, devastação, doenças como malária e desnutrição e isso é o resultado dessa pesquisa, é a prova concreta!”, enfatiza o vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami (HAY), Dário Vitório Kopenawa.
Das 287 amostras de cabelo examinadas, 84% registraram níveis de contaminação por mercúrio acima de 2,0 µg/g. Já 10,8% ficaram acima de 6,0 µg/g, índice considerado alto, que requer atenção especial e investigação complementar.
Nas duas faixas de contaminação, é necessário notificar os casos ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), a fim de se produzir estatísticas oficiais sobre o problema na região.
Os pesquisadores destacam que indígenas com níveis mais elevados de mercúrio apresentaram déficits cognitivos e danos em nervos nas extremidades, como mãos, braços, pés e pernas, com mais frequência.
Conforme orienta a Organização Mundial da Saúde (OMS), níveis acima de 6 microgramas de mercúrio por grama de cabelo (μg.g-1 ) podem trazer sérias consequências à saúde, principalmente a grupos vulneráveis. Assim, não há limite seguro para exposição ao Hg.
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Garimpo na Região do Rio Mucajaí. O mercúrio é usado para que o ouro se junte e assim seja mais fácil ser lavado e separado dos demais sedimentos|Daniel Marenco
Além da detecção do mercúrio, a pesquisa fez exames clínicos para identificar doenças crônicas não transmissíveis, como transtornos nutricionais, anemia, diabetes e hipertensão.
Ao cruzar os dados, foi observado que, nos indígenas com pressão alta, os níveis de mercúrio acima de 2,0 µg/g são mais frequentes do que nos indígenas com pressão arterial normal.
Também foram realizados testes para estimar a prevalência de doenças infecciosas e parasitárias, incluindo malária e infecções sexualmente transmissíveis (IST) como HIV/AIDS, Sífilis, e Hepatites B e C.
Mais de 80% dos participantes relataram ter tido malária ao menos uma vez na vida, com uma média de três episódios da doença por indivíduo. Em 11,7% dos indivíduos testados, foi possível identificar casos de malária vivax e falciparum sem manifestações clínicas evidentes, características comuns em áreas de alta transmissão da doença.
Mais de 25% das crianças menores de 11 anos tinham anemia e quase metade apresentaram desnutrição aguda. Além disso, 80% apresentaram déficits de estatura para idade, o que sugere, de acordo com os parâmetros da OMS, um estado de desnutrição crônica.
Outro dado alarmante é referente à cobertura vacinal: Na região do estudo, apenas 15,5% das crianças estavam com as vacinas do calendário nacional de imunização em dia.
O estudo também analisou 47 amostras de peixes, 14 de água e sedimentos do rio Mucajaí e afluentes. Todas as amostras de peixes apresentaram algum grau de contaminação por mercúrio, sendo as maiores concentrações detectadas em peixes carnívoros, em espécies muito apreciadas na Amazônia, tais como o mandubé e piranha.
A análise do risco atribuível ao consumo de pescado revelou que a ingestão diária de mercúrio excede em três vezes a dose de referência preconizada pela Agência de Proteção Ambiental do governo estadunidense (U.S.EPA).
A análise das amostras de água não revelou contaminação por mercúrio. Por outro lado, duas amostras de sedimentos apresentaram níveis de mercúrio acima do nível 1 da resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) que trata do tema.
Os pesquisadores fazem uma série de recomendações com base no cenário encontrado durante os estudos. Como ações emergenciais, mencionam interrupção imediata do garimpo e do uso do mercúrio, desintrusão de invasores e a construção de unidades de saúde em pontos estratégicos da Terra Indígena Yanomami.
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Proteção do território e Saúde foram temas prioritários do IV Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana, que reuniu mais de 200 lideranças da Terra Indígena Yanomami na comunidade de Maturacá (AM), em 2023|Fred Rahal/ISA
“Não é a primeira vez que a Fiocruz faz uma pesquisa na Terra Yanomami e que comprova que os nossos parentes estão contaminados pelo mercúrio. Isso é muito grave! As nossas crianças estão nascendo doentes. As mulheres estão doentes, os nossos velhos estão doentes! O nosso povo está morrendo por causa do garimpo”, analisa Dário Kopenawa.
Como ações estruturais, propõem que haja atualização da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI), que seja assegurada a presença regular de profissionais de saúde e que se invista na formação continuada de agentes indígenas de saúde.
Além disso, o estudo também indica como necessárias ações específicas para as populações expostas e potencialmente expostas ao mercúrio, tais como: rastreamento de comunidades cronicamente expostas ao mercúrio, para a realização de diagnósticos laboratoriais tempestivos a fim de avaliar pessoas com quadros sugestivos de intoxicação por mercúrio já instalados, elaboração de protocolos e rotinas apropriadas para diagnóstico e tratamento de pacientes com quadro de intoxicação por mercúrio estabelecido e criação de um centro de referência para acompanhamento de casos crônicos e/ou com sequelas reconhecidas.
Janete Alves Desana e Elizângela Baré, coordenadoras do Departamento de Mulheres Indígenas da Foirn, estiveram à frente do combate à Covid-19 no Rio Negro|Raquel Uendi/ISA
Da arrumação xamânica do mundo até a chegada da vacina contra a Covid-19, a resistência indígena no Médio e Alto Rio Negro (AM) enfrentou um longo caminho de omissões, mas também de colaboração e compartilhamento de saberes.
Para retratar esse cenário, será lançado em abril, Mês dos Povos Indígenas, o especial Memoráveis: resistência, estratégias e saberes indígenas no combate à pandemia de Covid-19 no Rio Negro, composto pela 5ª edição daAru – Revista de Pesquisa Intercultural da Bacia do Rio Negro e o documentárioCura, desenvolvidos em parceria pelo Instituto Socioambiental (ISA) e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), além do podcast A Nova Doença dos Brancos, feito em parceria com o Museu Etnográfico de Berlim.
O podcastA Nova Doença dos Brancos tem lançamento previsto para o dia 5 de abril. Acompanhe nas redes sociais do ISA.
Trazendo relatos de indígenas e não indígenas, os três produtos se complementam para retratar o cenário pandêmico no Rio Negro e a estratégia dos povos indígenas de resistência e proteção frente à crise sanitária numa das regiões mais preservadas da Amazônia, onde vivem 750 comunidades indígenas (algumas delas remotas) de 23 etnias.
Serviço
Lançamentos
Loja Floresta no Centro (ISA)
Data: 05/04, às 19h
Endereço: Av. São Luiz, 187 - Galeria Metrópole - Centro Histórico de São Paulo / SP
*Roda de conversa com a socióloga e liderança Elizângela Costa, povo Baré, e com o antropólogo Aloisio Cabalzar.
Faculdade de Saúde Pública da USP
Data: 19/04 - Dia dos Povos Indígenas, às 16h
Endereço: Anfiteatro Paula Souza - Rua Dr. Arnaldo, 715 - São Paulo / SP
*Roda de conversa com a antropóloga e liderança Francy Baniwa e com a socióloga e liderança Elizângela Costa, povo Baré.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Revista de pesquisa intercultural da Bacia do Rio Negro chega à 5ª edição com narrativas sobre a pandemia
Editada pelo ISA e pela Foirn, a Aru 5 traz as estratégias dos povos indígenas do Rio Negro para proteger vidas em um cenário de omissão
5ª edição da Aru – Revista de Pesquisa Intercultural da Bacia do Rio Negro
Da arrumação xamânica do mundo até a chegada da vacina contra a Covid-19, o enfrentamento à pandemia na região do Médio e Alto Rio Negro, Amazonas, percorreu um longo caminho serpenteando rios, igarapés, igapós e corredeiras – com turbulência, omissão e mortes –, resistência indígena e colaboração.
Com textos de indígenas e não indígenas, a 5ª edição da Aru – Revista de Pesquisa Intercultural da Bacia do Rio Negro, editada em parceria pelo Instituto Socioambiental (ISA) e Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), retrata esse cenário e a memorável estratégia indígena de resistência e proteção frente à crise sanitária numa das regiões mais preservadas da Amazônia, onde estão os municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos e cerca de 750 comunidades (algumas delas remotas) onde convivem povos de 23 etnias.
Essa edição é lançada em 2024 – quatro anos após o início da pandemia –, com a perspectiva de que não é possível deixar de lembrar da crise sanitária, especialmente frente à emergência climática e a um modelo de desenvolvimento que nos coloca cada vez mais diante do risco de novas epidemias.
Diante da falta de resposta da ciência do não indígena, à quase ausência de ações de órgãos oficiais e de um Governo Federal negacionista e anti-indígena, os povos do Rio Negro fortaleceram parcerias. A proteção veio também do entendimento sofisticado de saúde, que incorpora ambiente, natureza, saberes ancestrais, cosmologia e bem-viver.
A mobilização pelo mínimo de estrutura e oxigênio ocorreu num esforço interinstitucional de órgãos públicos – especialmente de profissionais da saúde da linha de frente - e de organizações da sociedade civil, entre elas a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e o ISA.
Homenagem
Em São Gabriel da Cachoeira (AM), o lançamento aconteceu em 22 de fevereiro, na sede do ISA na cidade. O momento foi marcado pela homenagem ao antropólogo Dagoberto Azevedo, um dos autores da Aru, falecido em 2023. Parte de seu trabalho foi dedicada à possibilidade dos encontros – de culturas, de conhecimentos, de indígenas e não indígenas –, ideia essa presente na publicação.
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Dagoberto Azevedo, antropólogo e liderança do povo Tukano, falecido em 2023|Ana Amélia Hamdan/ISA
A esposa de Dagoberto, Helena Marques, povo Piratapuya, e as filhas Adele e Rutiene, ao lado do diretor da Foirn, Nildo Fontes, povo Tukano, e de Aloiso Cabalzar, revelaram a placa com o nome do antropólogo indígena: o Telecentro na sede do ISA em São Gabriel da Cachoeira agora leva o nome de Sala Dagoberto Azevedo - Suegʉ. Na placa, a imagem do banco Tukano, que compõe a cultura do povo dessa etnia.
Sobre a revista
Em publicação semestral desde 2017, a Aru – Revista de pesquisa intercultural da Bacia do Rio Negro é um projeto conduzido por Aloisio Cabalzar, tendo como base o trabalho da Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAS). Sua proposta é estimular iniciativas de colaboração e trocas entre conhecedores e pesquisadores indígenas e não indígenas, que atuam em diferentes espaços de produção de conhecimento sobre a Bacia do Rio Negro, seus ciclos de vida e processos de transformação.
Serviço
Lançamento Especial Memoráveis
Loja Floresta no Centro (ISA)
Data: 05/04, às 19h
Endereço: Av. São Luiz, 187 - Galeria Metrópole - Centro Histórico de São Paulo / SP
*Roda de conversa com a socióloga e liderança Elizângela Costa, povo Baré, e com o antropólogo Aloisio Cabalzar.
Faculdade de Saúde Pública da USP
Data: 19/04 - Dia dos Povos Indígenas, às 16h
Endereço: Anfiteatro Paula Souza - Rua Dr. Arnaldo, 715 - São Paulo / SP
*Roda de conversa com a antropóloga e liderança Francy Baniwa e com a socióloga e liderança Elizângela Costa, povo Baré.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Minidoc 'Cura' registra como indígenas do Rio Negro combateram a pandemia
Filme relata as estratégias de enfrentamento à Covid-19 dos povos que vivem no Alto Rio Negro (AM), na Amazônia
“Neste mundo que vivemos, dentro da nossa terra, existem pessoas que benzem para o bem e para o mal.
Eles se chamam benzedores e kumuã (pajés) na nossa cultura.
Nossos sábios já preveem no destino das pessoas, quem ocupa o papel dos benzedores e pajés.
Assim, ao longo de suas vidas, eles são preparados para atuar e usar essa sabedoria.
Nossos avôs, nossos ancestrais, transmitiram a sabedoria para esses conhecedores.
E assim eles guardam com eles esses benzimentos que foram repassados pelos mais velhos.
Assim nós estamos vivendo nessa terra.
E enquanto estamos com vida nesse plano, a nossa morada é aqui com essa cultura.”
Nildo Fontes, povo Tukano
A narrativa acima – falada na língua Tukano, uma das línguas indígenas dos povos do Alto Rio Negro (AM), na Amazônia, e traduzida para o português – abre o minidocumentário Cura, que trata das práticas e estratégias utilizadas pelos indígenas no enfrentamento à Covid-19.
Dirigido pelo documentarista Christian Braga e pela jornalista Juliana Radler, analista de políticas socioambientais do Instituto Socioambiental (ISA), o filme foi lançado em fevereiro deste ano em São Gabriel da Cachoeira – onde foi filmado.
Em São Paulo, o lançamento será nesta sexta-feira (05/04), na loja Floresta no Centro, do ISA, e em 19 de Abril, Dia dos Povos Indígenas, em parceria com a Escola de Saúde Pública da USP. O filme traz narrativas e vivências de indígenas que atravessaram a pandemia e se fortaleceram mesmo enfrentando a precariedade das respostas oficiais.
Rituais, benzimentos, chás com plantas dos quintais e da floresta, sem dispensar a medicina não indígena e seus recursos, fizeram parte de um conjunto de práticas que, segundo os próprios indígenas e profissionais que trabalham junto a esses povos, salvaram vidas.
Além de ser um importante registro sobre o cenário pandêmico em uma das regiões mais preservadas da Amazônia e em áreas remotas da floresta, o documentário traz a reflexão sobre a necessidade do reconhecimento oficial da medicina indígena.
E propõe, inclusive, os meios para isso, com a criação de unidades que possam unir saberes. Também trata do efeito da exploração predatória do ambiente sobre a saúde do planeta.
As filmagens aconteceram no final de 2020, quando a primeira onda da Covid-19 arrefeceu na região, e tiveram início na comunidade Serra de Mucura, no Rio Tiquié, na Bacia do Rio Negro.
Quem nos conta a maior parte da história é a liderança indígena Nildo Fontes, do povo Tukano, vice-presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn). A narrativa é complementada pelo antropólogo e assessor do ISA, Dagoberto Azevedo, do povo Tukano, falecido em 2023 e homenageado no documentário.
O filme contou com o conselho editorial formado pelo antropólogo do ISA, Aloisio Cabalzar, Dagoberto Azevedo, Nildo Fontes e Juliana Radler e foi realizado em parceria pelo ISA e Foirn.
Assista ao filme!
Ficha técnica
Direção: Christian Braga e Juliana Radler
Roteiro: Christian Braga
Produção: Juliana Radler
Assistentes de produção: Paulo Desana e Mauro Pedrosa Tukano
Fotografia: Christian Braga
Assistente de fotografia: Paulo Desana
Imagens de apoio: Greenpeace Brasil
Montagem: Fred Siewerdt e Christian Braga
Finalização: Christian Braga
Animação: Brunno Lobato
Entrevistas: Juliana Radler
Tradução/transcrição: Akira Oettinger
Conselho editorial: Aloisio Cabalzar, Dagoberto Azevedo Tukano, Juliana Radler e Nildo Fontes Tukano
Tradução (Tukano-Português) – Dagoberto Azevedo Tukano
Narração de Nildo Damião - defumação no Serra de Mucura no encontro de conhecedores
Serviço
Lançamento Especial Memoráveis
Loja Floresta no Centro (ISA)
Data: 05/04, às 19h
Endereço: Av. São Luiz, 187 - Galeria Metrópole - Centro Histórico de São Paulo / SP
*Roda de conversa com a socióloga e liderança Elizângela Costa, povo Baré, e com o antropólogo Aloisio Cabalzar.
Faculdade de Saúde Pública da USP
Data: 19/04 - Dia dos Povos Indígenas, às 16h
Endereço: Anfiteatro Paula Souza - Rua Dr. Arnaldo, 715 - São Paulo / SP
*Roda de conversa com a antropóloga e liderança Francy Baniwa e com a socióloga e liderança Elizângela Costa, povo Baré.
Imagem pajé Pajé Jairo Villegas, ao lado de Damião Amaral, em ritual de proteção contra a Covid-19 durante o encontro de conhecedores|Ana Amélia Hamdan/ISA
Solidariedade e plantas do quintal e da floresta estão nas receitas de chás da conhecedora Jacinta Sampaio, do povo Tukano
Ipadu, pó usado nos rituais do Alto Rio Negro|Ana Amélia Hamdan/ISA
Insumos chegam ao aeroporto de São Gabriel da Cachoeira, transportados pelo Greenpeace|Marcos Amend/Greenpeace
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Megaincêndios em florestas de Roraima podem causar desastre ambiental
Áreas afetadas por incêndios tornam-se menos úmidas e nascentes devem produzir menos água que chegaria aos rios nos próximos anos
Focos de incêndio na Terra Indígena Serra da Lua, em Roraima, em imagens feitas em fevereiro de 2024 |Conselho Indígena de Roraima (CIR)
Áreas de florestas e serras em Roraima estão sendo afetadas por megaincêndios - fogo de grandes proporções, com larga quilometragem e com impactos econômicos, ambientais e sociais, incluindo a saúde pública. A situação pode ser considerada um desastre ambiental em andamento e suas consequências podem alterar ecossistemas no estado com florestas úmidas tornando-se cada vez mais secas e prejudicando até a sobrevivência da fauna.
Conforme Haron Xaud, doutor em sensoriamento remoto e pesquisador na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e professor da Pós-graduação em Recursos Naturais da UFRR, à medida que as áreas são repetidamente afetadas por incêndios, elas se degradam e podem afetar até mesmo nascentes de água de Roraima.
Xaud explica que os serviços ambientais ficam cada vez mais negativamente impactados: biodiversidade, proteção do solo, geração de água etc. “As serras de Roraima, principalmente as de cobertura vegetal florestal, têm muitas nascentes de água que dependem da vegetação estar saudável e conservada. Se você tem uma intensa mudança degenerativa na vegetação, para uma mesma quantidade de chuva que caia, você vai ter mudanças na capacidade de captação, infiltração, velocidade de passagem da água pelas bacias hidrográficas afetadas”.
Conforme o especialista, a consequência esperada é que o estado sofra com crises hídricas mais intensas em períodos mais curtos, com extremos mais intensos tanto para épocas de cheias, quanto para épocas de secas.
“A degradação contínua da cobertura vegetal, principalmente em relevos mais inclinados, tende a aumentar ainda a erosão dos solos mobilizando sedimentos para os rios tributários e para os grandes rios de Roraima, o que potencializará também estes períodos de cheias e de estiagem, e o resultado de médio e longo prazos vai ser percebido nos diversos rios, inclusive no rio Branco”, resume.
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Secas severas geram impacto direto no nível do Rio Branco, principal rio abastecedor de água do Estado de Roraima|Stephanie Vieira/Platô Filmes/ISA
Roraima enfrenta uma severa estiagem, intensificada pelo El Niño, e o Rio Branco, seu principal abastecedor de água potável, chegou ao nível negativo de -0,39m, se aproximando do ponto mais baixo de sua história. Conforme a Companhia de Águas e Esgotos de Roraima (Caer), a situação compromete em 30% o abastecimento da capital, Boa Vista, enquanto em Mucajaí o comprometimento do serviço já chega a 70%.
Em sua pesquisa de doutorado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Xaud analisou 50 parcelas em áreas de floresta em Roraima. De 1997 a 2010, ele monitorou a quantidade de incêndios e como eles modificavam áreas monitoradas, considerando cinco cenários: florestas não atingidas por fogo, atingidas uma vez com baixo impacto, atingidas uma vez com alto impacto, atingidas duas vezes e atingidas três vezes. Leia o trabalho aqui.
“Existe uma progressão da degradação quanto maior for a recorrência. Observei o aumento de determinadas espécies de plantas que ocorrem tipicamente em florestas secundárias, que não são comuns para florestas conservadas. À medida que há um incêndio, começa a haver alteração da biodiversidade e há maior ocorrência de indivíduos que são considerados de florestas perturbadas”, explica sobre as mudanças.
Ainda conforme Xaud, as espécies que ocupam os espaços após o fogo podem ser chamadas de pioneiras. Elas têm funções importantes na recuperação dos ecossistemas pois permitem que a vegetação original destas áreas, que depende de mais sombra e umidade, chamadas de espécies clímaxes, retornem aos poucos.
No entanto, quanto mais afetadas pelo fogo, mais as florestas se modificam, pois perdem biomassa e estatura, assim o sol direto e ventos adentram mais e deixam o local mais quente e mais seco, o que por sua vez, torna as áreas menos adequadas para as espécies que são comuns a ambientes úmidos e mais propício para as pioneiras, como a embaúba.
“Muda toda a biodiversidade, toda a composição da floresta. Espécies que eram típicas são substituídas por outras. A alta biodiversidade de florestas tropicais é simplificada, reduzida, passando a apresentar maior homogeneização de espécies em áreas muito impactadas com incêndios”, afirma Xaud.
O especialista explica que com todas essas mudanças, também é perdida a volumetria em madeira de espécies de maior valor econômico e ocorre grande emissão de carbono para a atmosfera. Além disso, a cada novo evento, a área se torna mais vulnerável a novos incêndios.
“Algumas espécies rasteiras invasoras, como capins, começam a tomar conta da parte rasteira sendo mais aptas a queimar, mais rápido e mais intensamente. Dessa forma, toda a floresta se torna progressivamente mais vulnerável ao fogo”, detalha.
Não só a vegetação é impactada, como a fauna também. De acordo com o pesquisador, outras pesquisas na Amazônia revelam que desde invertebrados a grandes mamíferos, todos são afetados de diferentes formas. De uma forma geral, quanto mais próximas ao topo da cadeia alimentar, mais prejudicadas pela situação é a espécie animal, com tendência a terem dificuldades para se alimentar e reproduzir.
Megaincêndios e fome na Terra Indígena Yanomami
Roraima acumula 3.973 focos de calor em 2024. O Estado é o líder nacional com acúmulo de 28.3% do total de focos de calor do país. Em fevereiro, houve recorde histórico de 2.057. Em março, já foram registrados 1.312 e em janeiro, 604.
A capital Boa Vista atingiu um nível de poluição do ar considerado perigoso neste domingo (24), conforme o monitor de qualidade do ar Gaia. O nível de partículas PM2,5 - um dos poluentes atmosféricos mais nocivos - chegou a 414. Conforme Xaud, é o pior índice já registrado na história de Boa Vista.
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Céu de Boa Vista, em Roraima, coberto por fumaça em trecho às margens da BR-174 no sentido de Manaus (AM)|Stephanie Vieira/Platô Filmes/ISA
Segundo Ciro Campos, analista do Instituto Socioambiental (ISA) em Roraima, ainda é cedo para comparar a situação com o megaincêndio de 1998, que foi uma tragédia ambiental sem precedentes. No entanto, ele acredita que o problema ainda pode aumentar muito se a estiagem se prolongar durante o mês de abril.
"Do jeito que a vegetação está seca e os ventos estão fortes, se não chover logo, podemos novamente ter um cenário de desastre em Roraima", alerta.
Duas Florestas Nacionais (Flonas) no estado, Anauá e Roraima, estão sofrendo com megaincêndios, e o fogo também já se aproxima da Flona Parima. A Flona Roraima começou a queimar em 05 de fevereiro e em cerca de um mês o fogo atingiu 30 km de norte a sul e 13 km de leste a oeste. Enquanto a Flona Anauá iniciou incêndio em 04 de março e em cerca de uma semana teve 14 a 15 km de área queimada em orientação norte a sul.
“O que caracteriza um megaincêndio é uma série de coisas, como impacto econômico, impactos ambientais, dimensão em área dos incêndios, importância das áreas incendiadas e as populações que são atingidas. São vários fatores de análise para podermos dizer que estamos diante de megaincêndios. Eles têm danos que chegam a ser irreversíveis”, principalmente, se houver recorrência nos próximos anos, explica Xaud.
Hutukara Associação Yanomami denuncia impactos da seca na Terra Indígena Yanomami:
Na Terra Indígena Yanomami, uma das grandes frentes de incêndio começou em 09 de fevereiro próximo às áreas incendiadas na Flona Roraima e se expandiu rapidamente em todas as direções, chegando a atingir nos primeiros 30 dias cerca de 32 km de extensão na direção norte sul e cerca de 17 km na direção Leste-Oeste. As frentes de incêndio da Flona Roraima e da TI Yanomami desta região, acabaram se encontrando e continuam ativas até o momento.
Conforme o monitoramento de Xaud, outra importante área afetada na Terra Indígena Yanomami está na região da Missão Catrimani, que começou a queimar mais tarde, mas se mantém ativa ainda até o momento.
As associações Hutukara Yanomami (HAY) e Wanasseduume Ye’kwana (Seduume) enviaram um ofício sobre alerta de insegurança alimentar causada pelo fogo em três regiões às autoridades em 19 de março. Conforme o documento, os incêndios seguem destruindo roças e as poucas plantações que sobram acabam atacadas por pragas.
Duas regiões já haviam relatado problemas causados por fogo em fevereiro através do Sistema de Monitoramento da Terra Indígena Yanomami. Neste mês, moradores do Apiaú usaram a ferramenta para pedir cestas básicas, pois a perda das roças resultou em estado de escassez e fome na região.
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Incêndios afetam produção em Waikas, na Terra Indígena Yanomami|Seduume
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Plantações de indígenas Ye'kwana em Waikas destruídas pelo fogo|Seduume
Em Waikás, as comunidades tentaram deter o fogo sem sucesso e quatro roçados foram destruídos. As chamas também atingiram o plantio de cacau de três anos, que faz parte de um projeto de comercialização das amêndoas para produção do Chocolate Yanomami, resultando em prejuízo à economia da região.
A região da Missão Catrimani sofre com um dos quadros mais críticos: quase todos os roçados foram destruídos, mais duas casas foram queimadas em março e as plantações restantes sofrem ataques de lagartas.
Para Estêvão Benfica Senra, geógrafo e analista do ISA, o manejo de fogo para renovação de pastagem tem ligação direta com as chamas que atingem o território Yanomami. Ele afirma, ainda, que a ação humana com o fogo também é feita para expansão de pastagem nestas áreas.
“Existe uma maior concentração de focos de calor nas áreas dos assentamentos e na zona de transição floresta-lavrado, onde está o limite leste da Terra Indígena Yanomami. O Apiaú, por exemplo, está em uma área de expansão da fronteira agrícola, onde o fogo é utilizado para renovação da pastagem, limpeza do terreno e grilagem de terra”, diz.
Ele conta que a região já sofreu com incêndios diversas vezes e o fogo se repete todas as vezes em que o El Niño se manifesta. A situação empobrece a vegetação a cada nova queimada e fica mais suscetível a queimar de forma descontrolada durante as tentativas de limpeza.
“A ocupação de áreas de floresta para uso agropecuário, na borda da terra indígena, aumentou muito desde o megaincêndio de 1998, assim como aumentou o desmatamento e o uso do fogo para formação de roçados e pastagens. Este cenário de expansão desordenada da fronteira agrícola, aliado à uma seca extrema, criou as condições para o surgimento de incêndios ao longo de uma faixa de centenas de quilômetros, de controle difícil e consequências imprevisíveis”, complementa Ciro Campos.
O ISA apoia as organizações da Terra Indígena Yanomami com o monitoramento dos focos de calor e a qualificação de informações territoriais sobre os impactos dos incêndios nas comunidades, além de realizar doações de alimentos e materiais diversos (redes, roupas, panelas, ferramentas agrícolas, etc.) para as famílias afetadas nas regiões do Médio Catrimani e Apiaú.
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Serra Grande e reflorestamento
Com uma distância aproximada de 60 km da capital Boa Vista, a Serra Grande é um dos principais pontos de ecoturismo de Roraima. Localizada no município do Cantá, esta serra tem 850m de altura e seu cenário mescla a floresta amazônica com o lavrado roraimense em áreas próximas. No entanto, a diversidade que encanta os turistas está ameaçada de profunda mudança em razão do fogo.
“A própria Serra Grande, não é a primeira vez que está incendiando, ela já incendiou outras partes e nesse histórico que vemos hoje, dela estar sendo incendiada em todos os lados de forma crescente, a mudança vai ser maior. Se temos áreas repetidamente incendiadas nas serras, que não foram mapeadas em detalhes, isso vai ter todos os impactos já mencionados na flora, na fauna e nas nascentes, além de eminente efeito de queda de árvores, que ficarão mais vulneráveis à erosão e desestruturação de encostas nos períodos de chuvas”, explica Xaud.
Conforme o pesquisador, a atual situação vai exigir forte mobilização em restauração florestal a fim de recuperar a complexidade vegetal da Serra Grande e das demais serras. “Isso é um ponto crucial. O fogo da forma que está hoje vai exigir das instituições um intenso programa para restauração destas áreas de forma acelerada, senão elas não vão conseguir se recuperar”.
Rede de Sementes em Roraima
O ISA implementou a iniciativa da Rede de Sementes em Roraima neste ano. O objetivo do projeto é coletar vários tipos de sementes nativas, fazer uma muvuca (mistura das sementes) e promover a restauração ecológica em áreas degradadas.
Segundo Emerson da Silva Cadete, biólogo e técnico responsável pela Rede de Sementes no estado, os povos da Terra Indígena Serra da Lua devem ser os primeiros parceiros para as coletas. Inicialmente, a muvuca será usada para reflorestar áreas indicadas pelos próprios indígenas no território.
“Estamos em um processo de ajuda às comunidades que participam deste processo por conta das queimadas. Se queimar toda a floresta não tem sementes e se não tem sementes, não tem restauração”, afirma Cadete.
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Imagens de sobrevoo na Terra Indígena Serra da Lua, em Roraima, em fevereiro de 2024|Conselho Indígena de Roraima (CIR)
Para apoiar comunidades indígenas da Região Serra da Lua no combate aos incêndios florestais e à seca, o ISA faz doações de alimentos, combustível e ferramentas (bombas costais, terçados, luvas, óculos de proteção, perneiras entre outros).
Os próximos passos da Rede de Sementes em Roraima envolvem o diálogo com governos federal e estadual, prefeituras, agricultores e fazendeiros para a restauração ecológica em outras áreas afetadas pelo fogo, como a Serra Grande, ou que tenham sofrido com outro tipo de degradação no Estado.
“Vamos buscar compradores, que podem ser pessoas do governo para atingir o objetivo de restaurar áreas de proteção e reservas legais. Também faremos isso com donos de lotes, produtores rurais e donos de fazenda, pois são obrigados por lei a restaurarem se ultrapassarem áreas de reserva legal.
Cadete explica que o diferencial da Rede de Sementes para outras formas de restauração é a simplificação do processo, pois existe menor demanda de trabalho, como a preparação do solo, mas a dispersão de sementes é mais fácil. Além disso, o projeto gera renda para as comunidades de coletores que vendem as sementes para outros atores que necessitam fazer a restauração.
Para Xaud, aliar todas as instituições e seu conhecimento sobre os impactos dos incêndios florestais em Roraima, bem como sua prevenção e controle, em articulação com as ações de redes de sementes e programas de restauração florestal, será de suma importância para todas as dimensões de ações de conservação e desenvolvimento do estado de Roraima, uma vez que em todas as atividades produtivas e de qualidade de vida das populações, os recursos naturais e, em especial a água, só se manterão disponíveis nos atuais níveis tanto no meio ambiente e quanto para nosso uso, caso haja efetivo controle destes grandes desastres ambientais, cada vez mais intensos e frequentes.
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'Roraima está queimando': recorde de calor gera incêndios em Terras Indígenas e deixa capital coberta pela fumaça
Edinho Batista, coordenador do Conselho Indígena de Roraima, alertou para os graves problemas gerados pela forte estiagem no Estado
Área de mata destruída pelo fogo às margens da BR-174 no sentido de Manaus|Lucas Silva/Platô Filmes/ISA
Roraima, o Estado mais ao norte do Brasil, bateu recorde histórico de focos de calor em fevereiro, com 2057 registros. No mesmo mês, o Rio Branco, seu principal abastecedor de água potável, chegou ao nível negativo de -0,15m.
Enquanto os não indígenas seguem a rotina na capital Boa Vista - coberta por fumaça desde meados de fevereiro - os Yanomami, Macuxi, Wapichana e povos de outras etnias vêem suas casas e roças serem destruídas por incêndios e, em quatro municípios, comunidades indígenas têm à disposição para beber água que mais parece lama.
Para a Defesa Civil, a situação deve se estender por cerca de mais 60 dias, quando há a previsão do inverno começar no estado. Durante os próximos dois meses, a densidade de fumaça deve aumentar, assim como a quantidade de focos de calor e incêndios, que na avaliação do Corpo de Bombeiros são causados em 100% dos casos pela ação humana.
“A certeza que temos é que Roraima está queimando, Roraima está pegando fogo”, diz Edinho Batista, coordenador do Conselho Indígena de Roraima, sobre a situação do Estado que enfrenta uma severa estiagem intensificada pelo fenômeno El Niño, conforme relatório da Defesa Civil.
“Sabemos que 90% da população depende da água do Rio Branco e sabemos que essas pessoas precisam olhar para isso como uma consequência dos impactos da soja, do garimpo e grandes empreendimentos. Isso tem afetado a todos nós. Precisamos acordar, porque se continuar com falta de água, fumaça e incêndios, não é só o indígena que vai morrer, vai morrer todo mundo”, ponderou Batista.
Conforme monitoramento da Companhia de Águas e Esgotos de Roraima (CAER), o Rio Branco começou fevereiro com o nível de 0,20m e às 15h do dia 15 atingiu o nível negativo pela primeira vez no ano. Ao fim do mês, o nível estava em -0,15m.
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Boa Vista coberta por fumaça e nível das águas negativo no Parque do Rio Branco|Lucas Silva/Platô Filmes/ISA
Quando Edinho foi entrevistado, em 27 de fevereiro, relatou que cerca de 50 mil indígenas que vivem em comunidades estavam sem água potável porque 50 poços artesianos já haviam secado. No entanto, ele deixou o alerta de que até, a publicação desta reportagem, o número aumentaria. Para estas pessoas terem acesso a água é preciso caminhar 5km e até escolas indígenas ficaram desabastecidas.
“Não queremos revoltar as pessoas, mas sensibilizar sobre qualidade de vida que não se dá só no mundo material, mas também no espiritual. É preciso entender que a água, as plantas, os animais e as pessoas são importantes e a vida não pode ser colocada abaixo do mercado. O capitalismo influencia as pessoas a se contentarem com que recebem e não com o que têm e ficará para o futuro”, refletiu o coordenador do CIR.
Em quatro municípios, há comunidades indígenas bebendo água sem tratamento que pode ser comparada à lama, conforme o Diretor Executivo de Proteção e Defesa Civil, Coronel Cleudiomar Ferreira. Ele afirma que existe um esforço das prefeituras na distribuição de água, mas que não há garantia de que haja tratamento adequado, apenas que é menos prejudicial que a água suja de pequenos riachos.
“Nos municípios de Amajari, Pacaraima, Uiramutã e Normandia as comunidades indígenas estão bebendo lama, uma água de riacho sem tratamento e por não saberem da gravidade estão fazendo isso há muito tempo e durante a estiagem isso se agrava”, declarou Cleudiomar.
As queimadas e escassez de água atingem diversas regiões como Raposa Serra do Sol, Serra da Lua e São Marcos. Além de também ter chegado a Terra Indígena Yanomami, onde há relatos de crianças e idosos prejudicados pela fumaça, além de casas e roças destruídas por incêndios e falta de água potável.
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Bodó morto pela seca do rio. Peixe faz parte da alimentação de indígenas e ribeirinhos da Amazônia|Stephanie Vieira/Platô Filmes/ISA
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Estiagem no Rio Branco expôs base de pilares, antes submersos, na Orla Taumanan|Stephanie Vieira/Platô Filmes/ISA
Rotina na fumaça
A contadora Márcia Iully sai da casa para o trabalho, em uma rota de 9,6km, e diz que tem a impressão de que Boa Vista está sob uma neblina. Não fossem pelos sintomas de rápido cansaço e dificuldade para respirar, ela poderia ser enganada pela fumaça.
Como trabalha em uma sala fechada com ar-condicionado, Márcia quase chega a esquecer do intenso calor, da fumaça e da fuligem por algumas horas, mas basta cruzar a porta de saída do trabalho e é lembrada da real situação de Boa Vista.
Na primeira noite em que percebeu o excesso de fumaça, em 20 de fevereiro, pensou que a casa dela havia queimado. “Eu cheguei do trabalho, desci do carro e pensei: ‘minha casa pegou fogo’. Eu saí correndo e dei voltas pelo terreno para tentar entender de onde o fogo vinha, até que percebi que não era minha casa. Depois soube que houve alguns incêndios e que há queimadas no estado”, relatou.
Todos os 51 bairros da capital de Roraima estão tomados por fumaça, fuligem e cheiro de queimado há mais de uma semana. Boa Vista também é o 9º município com mais focos de calor em todo o Brasil neste ano. Outras oito cidades do estado integram o top 10, conforme o monitoramento do Programa Queimadas do do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
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Desde que 2024 começou, Roraima já registrou 2661 focos de calor, liderando o ranking nacional com quase o dobro de Mato Grosso do Sul, que ocupa a segunda posição com 1710 focos de calor. Do total de focos deste ano em Roraima, 2057 foram apenas em fevereiro, chegando a um recorde histórico desde que o monitoramento do Inpe começou em 1998. O maior número para o mês pertencia ao ano de 2007, quando houve 1.347 registros.
“A diferença do foco de calor para o incêndio é que o foco é o momento que o satélite passa e identifica a alta temperatura, pode ser só algo que tenha passado ou uma chama que tocou e apagou imediatamente, mas podemos dizer que 90% é fogo”, explica o Coronel Cleudiomar.
Ainda conforme Cleudiomar, todos os incêndios no Estado são resultados de ações humanas – seja com ou sem intenção. Ele exemplifica com caminhões que soltam faíscas pelo escapamento (involuntário) e limpezas de roças e terrenos (voluntários), sendo este último o que representa o maior número de casos.
“Não existe incêndio espontâneo, é muito difícil. A causa disso que estamos vivendo é 100% de ação humana. Também está em investigação os incêndios criminosos de pessoas que colocam fogo propositalmente e fogem do cenário, mas o mais comum são queimas de roças por agricultores e em nível menor em comunidades indígenas”, afirma.
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Roraima lidera o ranking nacional de focos de calor por município, com 2661 registros |Lucas Silva/Platô Filmes/ISA
Para lidar com a situação, o governo de Roraima decretou situação de emergência no dia 24 de fevereiro em nove dos 14 municípios do Estado após recomendação da Defesa Civil em um parecer técnico que afirma que Roraima enfrenta escassez de água, prejuízos à agricultura e pecuária, incêndios florestais e problemas de saúde como impactos negativos da estiagem. O que caracteriza uma situação de desastre nível II.
Apesar do alto número de focos de calor, Boa Vista não entrou na lista de emergência do governo estadual. Os municípios em situação de emergência decretada, que agora possuem dispensa de licitação para compras e contratações relacionadas a situação climática do estado, são:
Amajari;
Alto Alegre;
Cantá;
Caracaraí;
Iracema;
Mucajaí;
Pacaraima;
Normandia;
Uiramutã.
Conforme a Defesa Civil, a estiagem está atrelada ao El Niño, fenômeno associado ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico. Ainda conforme a Defesa, uma longa faixa de águas quentes pôde ser observada no Oceano Pacífico Equatorial a partir de junho de 2023.
A Defesa diz ainda que os efeitos foram intensificados a partir de setembro “culminado na configuração de uma forte estiagem, o qual tem desencadeado uma série de repercussões adversas tanto para as comunidades, quanto para os ecossistemas”.
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o sul de Roraima pode ter chuvas de até 50mm acompanhadas de raios, rajadas de ventos e trovoadas de 26 de fevereiro até 04 de março. Com as chuvas no Amazonas, o Rio Uraricoera foi beneficiado e a Defesa Civil espera que parte desta água eleve o nível do Rio Branco.
Caminho da fumaça
É do Nordeste para o Sudoeste por onde os ventos sopram predominantemente em Roraima. Dessa forma, o que queima em Amajari e ao Norte de Alto Alegre, joga fumaça para dentro da Terra Indígena Yanomami.
Os incêndios em Mucajaí, cidade também coberta por fumaça segundo a Defesa Civil, sopram consequências para a calha do Rio Negro, incluindo a região do Demini, que é a casa do xamã e liderança Davi Kopenawa na Terra Indígena Yanomami.
Já Boa Vista está coberta principalmente por fumaça produzida na própria capital, mas também recebe dos municípios em seu entorno como Cantá, Bonfim e Normandia – sendo este último com uma influência muito fraca.
“Não tem o que fazer, só aguardar. A fumaça persiste até três ou quatro dias após o combate aos incêndios dos Bombeiros. A incidência de fumaça vai crescer até que o inverno comece”, disse o Coronel Cleudiomar acrescentando que o inverno deve começar em cerca de 60 dias.
Fogo destrói casas e roças na Terra Yanomami
Áreas de florestas vitais da Terra Indígena Yanomami têm sido atingidas por incêndios que estão destruindo casas comunitárias e roçados dos indígenas. O Sistema de Monitoramento da Hutukara Associação Yanomami (HAY) recebeu dois relatos das regiões Missão Catrimani e Apiaú em fevereiro.
Moradores de Apiaú relataram que o fogo começou em uma região externa da Terra Indígena Yanomami, em locais onde existem fazendas para criação de gado. Ao adentrar no território indígena, o fogo atingiu áreas de floresta vitais para a economia das comunidades.
Já na região da Missão Catrimani, os moradores relatam que a casa comunitária de Manopi e Bacabal foi destruída após uma queima de roças, iniciada em 19 de fevereiro, sair do controle. Redes e outros objetos pessoais também foram destruídos após as lideranças tentarem apagar o fogo sem sucesso. As lideranças relatam ainda que quase todas as 22 comunidades da região estão com seus roçados queimados.
Em ambas as regiões, houve queixa de problemas respiratórios causados pela fumaça, principalmente em crianças e idosos. A severa estiagem em Roraima também é percebida pelos Yanomami, que relatam falta de acesso à água potável após rebaixamento do nível do Rio de Apiaú.
Na região de Waikas, onde vive o povo Ye’kwana, uma roça de cacau, que seria usada na produção do chocolate yanomami deste ano, também foi atingida e destruída por um incêndio.
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Roça de cacau destruída pelo fogo na região de Waikas, Terra Indígena Yanomami|Hutukara Associação Yanomami
Para controlar a situação e apoiar as comunidades, a Hutukara pediu em ofício enviado à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) que:
- Sejam acionadas as brigadas de incêndio com urgência;
- Que o Distrito Sanitário Especial de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kwana (DSEI-YY) recupere os sistemas de abastecimento de água das comunidades Serrinha, Hatyanai e Natureza em Apiaú;
- Um planejamento de oficinas sobre boas práticas de manejo de fogo para as comunidades;
- Que o DSEI-YY redobre as ações de vigilância nutricional e de prevenção e tratamento de doenças respiratórias.
Ajude as comunidades indígenas de Roraima
Casas também foram destruídas por incêndios que atingiram a mata da Terra Indígena São Marcos, em Pacaraima. Em um vídeo gravado pelos moradores e divulgado pelo Conselho Indígena de Roraima, uma família deixa a residência enquanto é alertada para salvar apenas os próprios documentos.
“Hoje, em Normandia e Pacaraima, temos bastante comunidades que estão sendo afetadas pelo fogo. Deixamos uma orientação para a população em geral: antes de fazer algum tipo de queimada, seja de roçado ou lixo de residência, ou até se for jogar um cigarro em beira de estrada, para que tenha a consciência de que não fazer isso durante este período, pois sabemos que está bastante seco e você pode estar contribuindo para ter mais focos de incêndios”, orientou O coordenador de campo das Brigadas Comunitárias, Jabson Nagelo Macuxi.
Para apoiar as comunidades afetadas, o CIR mobiliza esforços e pede doações que serão direcionadas a ajudar as famílias prejudicadas pelos incêndios. Saiba como doar AQUI.
Através do projeto de Produção de sementes nativas e restauração ecológica em Roraima, o Instituto Socioambiental (ISA) apoia comunidades indígenas da Região Serra da Lua no combate a incêndios florestais e à seca com doações de alimentação, combustível e ferramentas (bombas costais, terçados, luvas, óculos de proteção, perneiras entre outros).
Com três brigadas comunitárias geridas pelo CIR, o Instituto apoia desde 2019 com materiais de consumo, equipamentos, apoios locais e fardamento. O trabalho envolve 36 brigadistas de 8 terras indígenas em Roraima. Eles são formados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovavéis (Ibama) em parceria com o CIR.
O ISA também apoia as organizações da Terra Indígena Yanomami com o monitoramento dos focos de calor e a qualificação de informações territoriais sobre os impactos dos incêndios nas comunidades, além de realizar doações de alimentos e materiais diversos (redes, roupas, panelas, ferramentas agrícolas, etc.) para as famílias afetadas nas regiões do Médio Catrimani e Apiaú.
Rio Branco é o principal abastecedor de água potável de Roraima|Stephanie Vieira/Platô Filmes/ISA
Fogo atingiu área de mata às margens da BR-174|Stephanie Vieira/Platô Filmes/ISA
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Posse de novo bispo de São Gabriel da Cachoeira (AM) tem ritos católicos e indígenas
Antecessor, Dom Edson Damian passa a ser bispo emérito; em entrevista ao ISA, ele relembra viagens às comunidades e encontros com papas
Marivelton Baré, ao lado da esposa Rosane Cruz, povo Piratapuya, e da filha, entregou colar de proteção e cocar a dom Vanthuy|Ana Amélia Hamdan/ISA
Em uma cerimônia que reuniu ritos católicos e rituais indígenas, o bispo Dom Raimundo Vanthuy Neto assumiu em 11 de fevereiro a Diocese de São Gabriel da Cachoeira (AM). O bispo Dom Edson Damian, que esteve à frente da Diocese por 15 anos, fez a passagem na presença do cardeal dom Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus.
O diretor-presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), Marivelton Barroso, do povo Baré, colocou um cocar no novo bispo.
A cerimônia aconteceu no ginásio Arnaldo Coimbra e reuniu religiosos, instituições e representantes de paróquias de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos. As danças e rituais indígenas na cerimônia foram o Carriçu, Mauako e Japurutu, além da defumação.
Dom Edson Damian apresentou sua renúncia ao Papa Francisco ao completar 75 anos de idade, dando início ao processo para indicação de um novo religioso. Dom Vanthuy foi escolhido e ordenado bispo em 4 de fevereiro deste ano, em Roraima, onde atuava.
Com grande emoção, ele apresentou a família e contou que os pais são migrantes nordestinos que se mudaram para Roraima na busca por uma melhor condição de vida.
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Dom Vanthuy apresentou os pais Manoel e Vicência e contou a trajetória da família, que migrou do Nordeste em busca de melhores condições de vida|Ana Amélia Hamdan/ISA
O novo bispo nasceu em 10 de maio de 1973 em Pau dos Ferros, Rio Grande do Norte. Começou a sua formação no Seminário São José de Manaus em 1991, sendo ordenado diácono em 11 de julho de 1999 e presbítero da Diocese de Roraima em 2001.
Foi diretor e professor do Instituto de Teologia, Pastoral e Ensino Superior da Amazônia, atualmente Faculdade Católica do Amazonas, e colabora com os estudos sobre o Cristianismo e Povos Indígenas na Amazônia.
Com o lema “Servir na caridade e na esperança”, Dom Vanthuy escolheu celebrar a missa descalço. Ele pediu aos povos indígenas que ensinassem a ele sua coragem, lembrando a persistência e a resistência frente às pressões da colonização. “É um povo subversivo, que enfrentou o processo de colonização. E, resguardando suas línguas indígenas, dizem: ‘continuamos indígenas’”, disse. “A esperança tem outro nome, que é a coragem”, completou.
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Rituais indígenas fizeram parte da cerimônia realizada no Ginásio Arnaldo Coimbra|Ana Amélia Hamdan/ISA
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Na cerimônia Dabucuri, os indígenas oferecem alimentos e presentes em forma de agradecimento e acolhida|Ana Amélia Hamdan/ISA
Dom Vanthuy falou da preocupação com o alcoolismo, um dos principais problemas enfrentados pelos povos indígenas do Médio e Alto Rio Negro e se dirigiu às instituições pedindo para que haja união de esforços no enfrentamento à questão.
Gilce Guilherme França, professora do povo Baré, participou da cerimônia e ofereceu a Dom Vanthuy uma peneira de arumã com contornos do rosto do novo bispo e um cálice em madeira da floresta.
“Ele mostrou essa preocupação com a ecologia e com a casa comum, que é o nosso território. Mostrou humildade com os povos indígenas. Também mostrou preocupação com o alcoolismo, que é um problema grande nas cidades e nas nossas comunidades. Está sendo acolhido pelos povos do Rio Negro”, disse.
Além do diretor-presidente da Foirn, participaram da celebração representantes de outras instituições, como a coordenadora da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) Regional Rio Negro, Dadá Baniwa; o coordenador do Distrito Sanitário Especial do Alto Rio Negro (DSEI-ARN), Luiz Brasão; o diretor do Instituto Federal do Amazonas - Campus São Gabriel da Cachoeira, Renato Valadares; Instituto Socioambiental (ISA) e Exército.
Durante sua atuação em São Gabriel da Cachoeira, dom Edson Damian esteve aberto ao diálogo interinstitucional, com parceria e colaboração constantes em encontros e debates realizados na FOIRN e no ISA.
Em seu site, a FOIRN informa que a presença de Marivelton Baré na cerimônia destaca a importância do diálogo e cooperação entre diferentes instituições e grupos sociais para a promoção da paz e da harmonia na sociedade.
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Marivelton Barroso, do povo Baré, diretor-presidente da FOIRN, coloca cocar em Dom Vanthuy|Ana Amélia Hamdan/ISA
Durante o ano de 2023, dom Edson esteve em várias sessões do Cine Japu - projeto do ISA e da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas que promove exibições de filmes em São Gabriel da Cachoeira -, participando dos debates e divulgando a programação durante as missas.
A Diocese é formada por 11 paróquias: três na cidade de São Gabriel da Cachoeira (Catedral, Dom Bosco e Aparecida), e seis no território indígena, sendo Taracuá, Iauaretê e Pari-Cachoeira (Triângulo Tukano), Assunção do Içana, Cucuí e Maturacá. Há ainda as paróquias de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.
Em janeiro, o então padre Vanthuy esteve em São Gabriel e, acompanhado de dom Edson Damian, conheceu lideranças de comunidades indígenas e participou de encontro da Escola de Teologia, quando foi lançada a Carta compromisso para prevenir as violências e o suicídio.
Para Dom Edson Damian essa é uma iniciativa que trará benefícios para toda a população. “Meus últimos dias em São Gabriel são coroados por propostas oportunas e que trarão benefícios para a população”, disse. Ele recebeu na Diocese a visita da ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, e da presidente da Funai, Joenia Wapichana, repassando a elas as demandas que constam na carta.
Muito emocionado durante a cerimônia de troca de bispos, ele fez agradecimentos, dizendo que em seu coração tem lugar para todos aqueles com quem caminhou.
Dom Edson passa agora a ser bispo emérito da Diocese de São Gabriel da Cachoeira e, até o final do ano, ficará em Jaguari (RS), na companhia de seu pai, Gerônimo, que completará 102 anos, e dos irmãos e irmãs.
Quando assumiu a Diocese, também ganhou um cocar, que ficará no Rio Negro. Ele falou do grande aprendizado que teve ao lado dos povos indígenas: “Os indígenas me ensinaram a viver com o estritamente necessário e a ser feliz.”
Em entrevista, dom Edson relembrou algumas passagens enquanto esteve à frente da Diocese mais indígena do país. Leia abaixo algumas delas:
Diários
Antes de vir para cá (São Gabriel da Cachoeira) me aconselharam a escutar vários sábios que tinham trabalhado aqui. Um deles se chamava padre Casimiro Beksta. Ele foi um salesiano que teve grande sensibilidade nos valores culturais indígenas e foi o primeiro que começou a estudar muito, inclusive devemos a ele a tradução do livro de Grünberg do alemão para o português (Theodor Koch-Grünberg - “Dois anos entre os indígenas: viagens no noroeste do Brasil - 1903-1905”).
Foi o padre que descobriu o talento do Feliciano Lana (artista indígena, do povo Desana), visitando comunidade perto do Rio Tiquié e oferecendo materiais a ele.
Eu visitei o velho salesiano que estava acamado para fazer uma entrevista. E uma das coisas que ele me disse foi: “você está chegando numa realidade totalmente diferente, numa riqueza sociocultural e linguística extraordinária. Você leve um caderninho para registrar a cada dia aquilo que você viu, as impressões que teve, as pessoas com quem você conversou.” E fiz isso desde o primeiro dia. Hoje tenho cerca de 15 diários com essas anotações.
Temores
Eu lembro-me do medo que eu sentia quando eu ia visitar as comunidades acima de Iauaretê. No Rio Uaupés e no Rio Papuri há cachoeiras perigosíssimas. E os práticos indígenas diziam: “bispo, aqui podemos passar na cachoeira sem desembarcar.” E eu pensava, mas será que vai dar? Com essa água tão violenta. Pois dava.
As primeiras vezes eu fechava os olhos, tomava um banho de água que vinha contra a gente, e passava. Outras vezes diziam: “bispo, aqui é perigoso. O senhor anda pela trilha que nós vamos pelo rio.”
Nas primeiras vezes eu usava colete, depois com o tempo eu levava o colete e servia para assentar em cima, pois o banco é duro. Nas últimas vezes eu já esquecia o colete. Deus me perdoe porque, às vezes, a gente coloca Deus à prova e confia demais.
No ano passado, sabendo que era a última viagem que eu faria pelo Rio Papuri, lá tem a famosa Cachoeira do Pato – são três cachoeiras, uma seguida da outra. E todas as vezes que eu passei lá, o prático dizia: “agora, o senhor desembarca, e vai pela trilha. Eu vou subir a cachoeira sozinho.” Tinha sempre um outro que ajudava a carregar o material, a comida, a lona, e caminhava mais de hora pela trilha e lá em cima embarcava de novo.
Da última vez era um prático jovem, arrojado. E ele perguntou: “bispo, o senhor já subiu a Cachoeira do Pato?”. Eu respondi que não, que todas as vezes eu desembarquei.
“Mas dessa vez tem água suficiente para subir com segurança.” Eu perguntei: “Você tem certeza?” “Tenho.” Os jovens são assim.
Então foi assim. Mas que medo eu senti, eu fechava os olhos. Mas senti segurança nesse jovem e consegui transpor as três cachoeiras. Eu venci o medo definitivamente. Já posso partir passando por essa aventura também.
Alagamento
É claro que eu tinha medo de alagar. E aconteceu uma vez. Eu estava indo de Maturacá (no território Yanomami) para visitar a comunidade do Maiá, muito longe. Saímos de madrugada porque chegaríamos lá no fim da tarde, pelo Rio Cauaburis.
Fazia cerca de três horas que tínhamos saído da aldeia e o prático, numa corredeira, ele entrou com muita velocidade. E bateu com violência numa pedra ou numa árvore. Eu estava sentado na voadeira (pequena embarcação a motor) e caí. Afundei.
Quando estava afundando na água eu lembrei: “os meus pais e meus familiares vão me receber morto. Se um dia puderem, dessa distância, me encontrar.”
Mas de repente eu consegui subir. E aconteceu o milagre que foi o seguinte: o prático, um indígena Yanomami, que também caiu fora da voadeira, não sei se com a mão ou com o pé, ele tirou a mangueira que abastecia o motor. O motor ficou funcionando, mas a voadeira não saiu do lugar porque não tinha combustível.
E tinha um seminarista que estava dormindo na voadeira. Ele não caiu. Quando ele viu que eu subi pedindo socorro, ele me pegou pelos braços e me ajudou a entrar de novo.
E, por incrível que pareça, o Adão, que era nosso prático, ele vinha nadando com uma mão e trazendo um banquinho com a outra. Porque ele era muito baixinho, ele tinha que assentar no banquinho para poder dirigir.
Aí embarcamos sem palavra alguma. E chegamos tarde da noite ao Maiá. Eu achei que eu ia partir para a eternidade.
Malária
Quando eu vim para cá, eu tive muito medo da malária. Quando eu fui para Roraima, em 1999, me disseram: prepare-se para a malária, que é o batismo que a gente recebe quando chega lá.
Eu fiquei 10 anos em Roraima, nenhuma malária. Quando eu vim para São Gabriel, me disseram: agora você não escapa, pois tem malária em todas as aldeias. Eu visitei todas as aldeias e parto daqui sem nenhuma malária.
Línguas indígenas
É a minha limitação. É claro que se aqui fossem faladas apenas uma ou duas línguas, eu teria me dedicado. Mas são 18.
Mas eu me esforcei tanto que, desde as primeiras visitas, quando chegava às aldeias, o prático indígena, ele me ensinava como é que eu devia dizer “bom dia, boa tarde, boa noite, como vai, é uma alegria estar com vocês”.
Ele explicava isso, então aprendi essas poucas palavras em várias línguas. Isso causou um impacto que impressionou. Porque a gente chegava saudando, eles diziam: “mas o bispo mau chegou e já fala a nossa língua.” É claro que na segunda pergunta eu me perdia.
Bento XVI
Quanto eu fui a Roma para a primeira visita ao Papa Bento XVI, que era muito sisudo, conservador inclusive. Eu fui preparado para 15 minutos de conversa.
Eles me disseram: “chegando lá, você vai fazer um pequeno relato da situação da Diocese.” Cheguei, ele me saudou e, para minha surpresa, ele tinha um mapa sobre a mesa. Disse-me: “a sua região é imensa, não tem estradas, você deve gastar muitas horas pelos rios”.
Eu disse que tinha um pequeno relatório, mas ele preferiu conversar.
Primeira pergunta: “o povo daquela região está destruindo muito a floresta?”
Aí foi a minha vez de dizer: “é a região mais preservada da Amazônia porque os habitantes são povos indígenas: 90%. O povo indígena não destrói a floresta. Eles são os guardiões da floresta. Eles são nossos mestres em ecologia. É por isso que se explica que eles não destroem. Eles cuidam da nossa mãe terra, nossa casa comum.”
Ele perguntou: “e os índios se confessam?”
Aí eu disse: “confessam. E tem um detalhe, eles começam a confessar e dizem assim, agora eu vou confessar na minha língua.” O papa perguntou para mim: “você entende todas as línguas?” Respondi: “de que jeito? Eu cheguei lá velho, já com 60 anos, são 18 línguas. Como é que eu vou aprender? Mas Deus Pai, Criador, ele fez todos os povos à sua imagem e semelhança. E é Deus Pai que perdoa, Ele que se entenda com os seus índios.”
Papa Francisco
Em 2015, o Papa Francisco escreveu a encíclica Lovato si´. Uma carta dirigida ao mundo inteiro falando sobre o cuidado com a casa comum, a ecologia, o aquecimento global. A necessidade de mudar completamente esse sistema que ele chama de tecnocrático que está destruindo e colocando em perigo a sobrevivência da humanidade.
Em 2019, surpreende mais ainda, convocando um sínodo especial para a Amazônia. Em 2020, eu participo do Sínodo de Roma. Esse encontro é dedicado ao tema ecologia integral.
Aí eu pude conversar pessoalmente com o papa e entreguei a ele o cálice feito de pau-brasil por um artesão daqui. E ele ficou tão feliz. Ele olhou para mim e disse assim: “hoje faz 75 anos que eu fiz a minha primeira comunhão”.
Depois, eu pude fazer uma outra visita agora em 2021, com todos os 19 bispos da regional Norte. Eu levei um presente em nome de todos os bispos. Ao fim da conversa eu me aproximei, disse: “olha, eu sou da diocese mais indígena. Amazonas é o Estado que concentra a maior população indígena do país e por isso estou lhe oferecendo esse presente que foi confeccionado pelas mulheres indígenas lá de São Gabriel.”
Quando eu coloquei na cabeça dele, ele perguntou: “imagina se apareço na Praça de São Pedro com uma mitra dessa?”
Aprendizado
Uma das coisas que me impressionou foram os povos que vivem em comunidades tão isoladas. Chegávamos às comunidades para visitar as casas com quase nada. Sem móveis. Eu ficava me perguntando. “Como é que eles vivem?”
Então, uma das lições que eu aprendi aqui se chama sobriedade. Os indígenas ensinam a gente a viver com o estritamente necessário.
Para que encher a vida de bugiganga. Quando a gente tem o necessário para viver, a gente é mais feliz do que comprando, consumindo desenfreadamente.
Esse materialismo consumista está destruindo a mãe Terra e gerando pessoas sempre insatisfeitas e infelizes.
Os indígenas me ensinaram a viver com o estritamente necessário e ser feliz.
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