"Cada povo tradicional tem uma identidade, uma história, uma memória partilhada e um território"
Neide Esterci, antropóloga, ex-presidente do ISA
Comunidades Tradicionais são, de acordo com a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, os “grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição”. Assim, podem ser consideradas Comunidades Tradicionais os quilombolas, seringueiros, ribeirinhos, caiçaras, ciganos, beradeiros, quebradeiras de coco babaçu, geraizeiros, sertanejos, entre outros. Todas estes povos e comunidades são parte fundamental da enorme pluralidade e diversidade sociocultural da sociedade brasileira.
O ISA atua com Comunidades Tradicionais na região do Xingu, no Pará e Mato Grosso, e no Vale do Ribeira, desde o final da década de 1990. No Ribeira, atuamos em parceria com associações quilombolas locais, prefeituras e organizações da sociedade civil, visando a implementação de projetos de desenvolvimento sustentável, geração de renda, conservação ambiental e melhoria da qualidade de vida das comunidades tradicionais da região. Vale destacar nosso apoio às atividades produtivas da Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale), que têm contribuído para o fortalecimento e valorização do Sistema Agrícola Tradicional Quilombola. O ISA tem também apoiado o Fórum de Povos e Comunidades Tradicionais do Vale do Ribeira, que defende os direitos das comunidades da região e resiste contra as pressões e ameaças a estes territórios.
No Xingu, trabalhamos com comunidades ribeirinhas, conhecidas também como beiradeiras, e que vivem na região da Terra do Meio, em Altamira, no Pará. As famílias e comunidades beiradeiras são descendentes de seringueiros e de indígenas e têm seu modo de vida baseado em um conhecimento profundo da floresta e rios que habitam. Nossas linhas de atuação incluem estruturar alternativas de renda baseadas no extrativismo, apoiar a organização comunitária e o aumento de protagonismo de associações locais, e implementar projetos de desenvolvimento sustentável. O ISA ainda trabalha junto às associações e famílias beiradeiras, no desenvolvimento de pesquisas colaborativas sobre o modo de vida local, e promove a articulação entre beiradeiros e indígenas para produzir e comercializar os produtos florestais tradicionais desses povos, em bases justas, e que garantam qualidade de vida para as famílias, continuidade das culturas e do modo de ser beiradeiros e indígenas.
Em nível nacional, o ISA também apoia a luta das comunidades tradicionais na defesa de seus direitos - temos orgulho da nossa parceria com Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos, a Conaq - por meio de mobilizações públicas e intervenções políticas nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
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Governo volta a titular territórios e anuncia medidas para quilombolas
Presidente Lula decretou a oficialização definitiva de três áreas, em Minas Gerais e Sergipe. Novo programa prevê ações para regularização fundiária, infraestrutura, economia e desenvolvimento locais
O presidente Luís Inácio Lula da Silva assinou os decretos de titulação de três áreas, somando 3,1 mil hectares: 2,2 mil hectares, na comunidade de Brejo dos Crioulos, nos municípios de São João da Ponte, Verdelândia e Varzelândia (MG); 806 hectares, na comunidade de Serra da Guia, em Poço Redondo (SE); e outros 111 hectares, na comunidade de Lagoa dos Campinhos, entre Amparo de São Francisco e Telha (SE). Os beneficiados aguardaram pelos títulos por mais de 10 anos. Um hectare corresponde, mais ou menos, a um campo de futebol.
O governo também lançou o programa Aquilomba Brasil, com previsão de ações de regularização fundiária; infraestrutura e qualidade de vida; inclusão produtiva; etnodesenvolvimento local; e direitos e cidadania. As medidas foram anunciadas, na terça (21), no Palácio do Planalto.
Denildo Rodrigues, o Biko, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), explica que a expectativa era de que o governo avançasse na conclusão de 39 processos de regularização de territórios que estão parados, aguardando apenas a assinatura dos decretos de titulação.
Ele ressalva, no entanto, que as ações anunciadas são um primeiro passo importante, considerando a paralisação das políticas quilombolas, iniciada há seis anos, no governo Temer. Biko diz que o movimento social vai cobrar do governo mais titulações e os recursos necessários para elas.
“Já é uma esperança esses três territórios titulados. Já mostra sinal de mudança e de retorno da pauta quilombola ao centro principal do governo, de onde nunca deveria ter saído. Então, para nós é importante”, afirma. Ele também vê com esperança a criação do Aquilomba Brasil. “Não é só a garantia do território em si. Mas [esperamos], sim, que o governo possa fazer um plano de regularização fundiária e de desenvolvimento desses territórios”, conclui.
'Agenda de titulação'
“A partir do programa Aquilomba Brasil, no eixo acesso à terra, vamos organizar, junto com o Incra, uma agenda nacional de titulação, que começa com os títulos entregues hoje pelo nosso presidente", informou a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, no evento de terça.
“O título que [essas comunidades] receberão hoje simboliza os novos tempos, não só para esses territórios, mas para muitos outros, que este governo se compromete a avançar na garantia do direito à terra, à reparação e à promoção da dignidade para a população quilombola", apontou.
A ministra contou que o Aquilomba Brasil pretende garantir, entre outras iniciativas, a permanência de estudantes quilombolas no ensino superior, com a ampliação de cotas nas universidades; reconhecer a medicina tradicional quilombola e expandir a presença de unidades básicas de saúde, principalmente no territórios mais isolados; retomar os programas Luz para Todos e de habitação rural para essas populações. Ainda não há informações sobre um plano e prazos para o início das ações.
Na terça, também foi anunciada a criação de um Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) sobre o Cais do Valongo, que é patrimônio histórico da humanidade. O objetivo é articular ações para a área portuária do Rio de Janeiro, por onde passaram mais de um milhão de escravizados. Já há previsão para construção de um centro de referência de herança africana no local.
A data do anúncio das medidas (21/3) foi escolhida para celebrar os 20 anos das políticas de igualdade racial no país, desde a criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, em 2003, no primeiro mandato de Lula. Também por ser o Dia Internacional da Luta pela Eliminação da Discriminação Racial e o Dia Nacional das Tradições de Raízes de Matrizes Africanas e Nações de Candomblé, instituído por lei sancionada pela atual gestão, em janeiro.
Pacote antirracismo
“Apesar de ocupar o posto da segunda maior nação negra no planeta, o Brasil ainda não acertou as contas com o passado de 350 anos de escravidão. Apesar de todos os esforços e avanços, esse país ainda tem uma imensa dívida histórica a resgatar”, pontuou Lula. “Com as cinco ações de hoje, voltamos a responder concretamente a bandeiras históricas do movimento negro”, defendeu.
Ele também assinou os decretos de criação de outros GTIs para formular ações e programas de promoção da igualdade racial. Um deles vai discutir a estrutura do Programa Nacional de Ações Afirmativas, prevendo medidas para o acesso e permanência de estudantes negros nas universidades, além de reservas de vagas em órgãos governamentais.
Outro GTI vai discutir o Plano Juventude Negra Viva, com iniciativas para a redução de homicídios, vulnerabilidades e desigualdades sociais para jovens negros de 15 a 29 anos. O último GTI vai elaborar medidas de enfrentamento ao racismo religioso, que afeta povos e comunidades tradicionais de matriz africana e de terreiros.
Quantos são os quilombolas no Brasil?
Ainda não há uma estimativa oficial, mas o IBGE calcula que existam, hoje no país, cerca de 214 mil famílias quilombolas, num total de aproximadamente 1 milhão de pessoas, em seis mil comunidades e 1,6 mil municípios. O Censo ainda em andamento no país vai trazer informações inéditas sobre essas populações e territórios.
Até hoje, já foram expedidos pelos governos federal e estaduais 315 títulos, em 205 territórios, 355 comunidades, abrangendo 20,7 mil famílias e cerca de um milhão de hectares. Os dados são do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e deste mês.
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Cadastro Ambiental Rural (CAR) precisa respeitar direitos de povos e comunidades tradicionais
Em artigo, assessores do ISA e representantes de comunidades tradicionais analisam a ausência de salvaguardas para os territórios coletivos em decisão do STF
Por Samuel Leite Caetano, presidente do Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT); Francisco das Chagas, assessor técnico da Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq); Diogo Rosa Souza, advogado do ISA; e Thaise Rodrigues, analista de políticas públicas do ISA
Ao julgar a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 743, em 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a omissão do Estado no combate ao desmatamento ilegal e aos constantes incêndios florestais na Amazônia e no Pantanal. Determinou ainda uma série de medidas à União e aos estados, inclusive a reestruturação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), para enfrentar a situação.
Dois anos depois, essas medidas têm se concentrado no combate ao uso inadequado do CAR. O registro de áreas sobrepostas a Terras Indígenas (TIs) e Unidades de Conservação (UCs) tem sido utilizado por grileiros para dar aparência de legalidade às invasões e ao roubo de terra pública, apesar do cadastro não ter validade fundiária, segundo a legislação.
Em março, o relator do processo, ministro Flávio Dino, determinou que os governos federal e estaduais realizassem uma série de ações para tentar resolver o problema. O ministro, no entanto, não considerou áreas que também são uma uma barreira fundamental contra o avanço da degradação ambiental: os territórios quilombolas e de outros povos e comunidades tradicionais (PCTs), que continuam desprovidos das salvaguardas previstas para TIs e UCs.
O Brasil possui 28 populações assim reconhecidas, como quilombolas, ribeirinhos, quebradeiras de coco, geraizeiros, ilhéus e tantos outros que estão na linha de frente da conservação ambiental e no combate à crise climática. Apesar dessa função vital, seus territórios sofrem cotidianamente com as pressões de posseiros e grileiros e, ao mesmo tempo, seguem invisíveis no Sistema Nacional de Cadastro Ambiental, o Sicar.
O CAR foi previsto no novo Código Florestal como um registro eletrônico obrigatório e autodeclaratório para todos os imóveis rurais no país, reunindo e integrando as informações ambientais sobre eles. Nele, são identificados os trechos de terra que podem ser desmatados e os que devem ser protegidos, como a Reserva Legal (RL) e as Áreas de Preservação Permanente (APP).
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Moradores observam o mar em mirante no Território Quilombola de Alcântara (MA) | Ana Mendes / Imagens Humanas
Pressões e conservação
Uma análise do Instituto Socioambiental (ISA) revela que 36% de toda a extensão dos territórios quilombolas mapeados na Amazônia Legal sofre sobreposição de CARs de imóveis rurais privados e de assentamentos, somando mais de 1,3 milhão de hectares, uma extensão equivalente a 8,5 vezes o município de São Paulo. A pressão é exercida majoritariamente por grandes propriedades. Além disso, 53% das 1.198 comunidades quilombolas mapeadas já estão cercadas por imóveis privados com registros em seu entorno imediato.
Em contrapartida, os dados indicam que, apesar dessas pressões, os quilombos preservam mais de 92% de sua cobertura vegetal nativa, registrando uma perda histórica de apenas 4,7% em quase quatro décadas. Esses dados evidenciam um contraste significativo frente às taxas de desmatamento e degradação registradas nas áreas do entorno.
Ainda que a criação do módulo para cadastros de PCTs no Sicar represente um avanço, persistem barreiras estruturais que desconsideram os direitos e as realidades dos territórios tradicionais. A ausência de uma normatização federal com parâmetros técnicos e diretrizes espaciais adequadas tem permitido a proliferação e validação de cadastros irregulares sobre terras de uso coletivo. Diante disso, é dever do Estado instituir regras que reconheçam e valorizem a gestão territorial exercida por essas comunidades na garantia de seus modos de vida e na proteção da biodiversidade.
A lógica de automatização do Sicar e a recente integração de sistemas propostas na ADPF 743 priorizam a propriedade individual, forçando os territórios tradicionais coletivos a uma dinâmica incompatível com seus modos de vida. Ao apoiarem-se em uma base de dados com poucas informações sobre PCTs e sem garantir o direito constitucional à terra, essas medidas geram graves riscos de validação de grilagem digital. A falta de um filtro prévio ou de uma camada espacial que direcione sobreposições envolvendo territórios coletivos para análise técnica obrigatória faz com que a automação legitime a sobreposição de imóveis privados, fragilizando a conservação ambiental sustentada por essas comunidades e travando seus cadastros. O sistema acaba legitimando e reproduzindo tensões fundiárias históricas.
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Ministro do STF Flávio Dino | Gustavo Moreno / STF
Proposta do CNPCT
A solução para essas lacunas já foi pensada e desenhada pelo próprio movimento social: a proposta de regulamentação nacional do CAR-PCT elaborada pelo Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT). Construída entre 2024 e 2025, com ampla participação das comunidades tradicionais, a minuta estabelece o cadastramento por perímetro territorial coletivo, o respeito à autoidentificação de cada grupo e travas automáticas contra sobreposições de imóveis privados. Finalizada e submetida ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) para apreciação, a proposta reúne as condições necessárias para ser formalmente adotada como diretriz normativa nacional.
Para que a ADPF 743 cumpra seu papel de reestruturar o CAR, é necessário que tanto o STF quanto o governo federal e os estados considerem os PCTs e garantam meios adequados de incluí-los no Sicar. Para isso, a administração federal precisa, inevitavelmente, encaminhar e publicar a proposta do CNPCT, assegurando que a reestruturação do CAR seja, de fato, um instrumento de justiça socioambiental.
As populações tradicionais não podem continuar sendo tratadas como exceção na política ambiental, já que seus territórios constituem uma das mais importantes infraestruturas de conservação do país. Torná-los visíveis no Sicar significa fortalecer a proteção dos biomas e garantir justiça territorial. Afinal, onde o Estado muitas vezes enxergou apenas terra, esses povos seguiram cultivando vida, memória e futuro.
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Nota de pesar pelo falecimento de Zulmira Rosa de Oliveira, liderança do Quilombo Porto Velho (SP)
Benzedeira, artesã e referência no Sistema Agrícola Tradicional Quilombola, Dona Zulmira deixa um legado inestimável de fé, sabedoria e cura no Vale do Ribeira
O Instituto Socioambiental (ISA) lamenta com profundo pesar o falecimento de Zulmira Rosa de Oliveira, liderança do Quilombo Porto Velho, no Vale do Ribeira (SP).
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Zulmira Rosa Oliveira com suas peças artesanais na primeira Feira de Troca de Sementes e Mudas de Plantas Tradicionais dos quilombos do Vale do Ribeira, que ocorreu em Eldorado, Vale do Ribeira, em 2008|Claudio Tavares/ISA
Dona Zulmira, como era conhecida no quilombo e nas redondezas, foi uma cuidadora de gentes. No quilombo de Porto Velho, era uma das referências para fazer o benzimento, o chá, a garrafada e as orações quando uma criança ou qualquer outra pessoa ficava doente. Conhecia muitas ervas e rezas de cura. Também era artesã e seu canto iluminava as romarias.
Zulmira, mãe de quatro filhos, um enteado, três netos e seis bisnetos, também sempre esteve próxima à luta pelo território e, com sua família, trabalhou e cultivou a terra, sendo guardião de muitas variedades agrícolas e mestre na arte de fazer farinha.
“Ela realmente dava a vida pela luta. Só tenho a agradecer. É uma perda de história. Ela contava causo de duas horas, três horas a fio de conversa. Eu cresci nesses causos, torrando farinha junto com ela. Ela conheceu a comunidade inteira, conhecia muito. É uma perda irreparável para nossa cultura. Ela fez muito por nós. Muito mesmo”, lamenta Osvaldo dos Santos, liderança do Quilombo Porto Velho.
Participou do grupo de lideranças quilombolas que criaram a Feira de Trocas de Sementes e Mudas Tradicionais dos Quilombos do Vale do Ribeira e participou da primeira edição em 2008.
Agradecemos seus ensinamentos e que sua sabedoria continue inspirando gerações de quilombolas e parceiros para seguir a luta dessa mulher quilombola tão inspiradora que ancestralizou.
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Hoje na História Socioambiental: 25 de julho, Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra
A data homenageia liderança quilombola histórica e celebra o protagonismo das mulheres negras no passado e no presente do Brasil
Celebrado anualmente em 25 de julho, o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra foi instituído pela Lei nº 12.987, sancionada em junho de 2014.
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Nenhum retrato foi feito de Tereza, o que comprova o apagamento de lideranças negras, sobretudo das mulheres. Esta ilustração foi gerada por IA, através do estudo de três pesquisadoras: Aline Nayara da Silva Gonçalves, Rejane Mira e Silvane Ramos Lopes da Silva, sob realização do Banco do Brasil
A lei marca a adesão do Brasil à data que já é reconhecida internacionalmente pelo Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, comemorado por outros países do continente americano desde 1992.
No Brasil, o dia também faz homenagem à Tereza de Benguela, liderança quilombola histórica que, no século XVIII, comandou o Quilombo do Quariterê, o maior quilombo da região que hoje corresponde ao estado do Mato Grosso.
O local de nascimento de Tereza de Benguela é desconhecido. Ela pode ter nascido em algum país do continente africano ou em alguma região do Brasil. Mas seu nome sugere que ela tenha passado pelo porto de Benguela, em Angola.
Tereza foi casada com José Piolho, que chefiava o Quilombo do Piolho, também conhecido como Quilombo do Quariterê, até ser assassinado. Com sua morte, Tereza se tornou liderança, e o quilombo, que abrigava mais de 100 pessoas, negras e indígenas, resistiu à escravidão por aproximadamente duas décadas.
Por lá, se cultivava algodão, tabaco, mandioca, banana, dentre outros alimentos, que eram vendidos nas feiras das redondezas, e as decisões eram tomadas coletivamente, a partir de uma espécie de parlamentarismo instituído por Tereza, também conhecida por “Rainha Tereza” ou “Rainha Negra do Pantanal”.
O quilombo existiu por cerca de 65 anos, de 1730 à 1795, sendo alvo de diversas expedições punitivas que tentaram desmantelá-lo. Foi numa dessas que José Piolho foi assassinado e, anos mais tarde, em 1795, o quilombo se dispersou.
Há registros que Tereza foi capturada em 1790 em um dos ataques e não se sabe muito sobre sua morte, o que mostra o apagamento da memória de lideranças negras, sobretudo das mulheres. Como forma de gerar medo, sua cabeça foi exposta no centro do quilombo. Alguns sobreviveram e refundaram o Quilombo do Quariterê, que resistiu por mais cinco anos, sucumbindo às forças coloniais em 1795.
Hoje, Tereza de Benguela é uma das muitas personalidades negras que construíram a história e o território brasileiro. E assim como muitas mulheres negras têm conquistado mais espaço nos debates públicos, nos livros didáticos, nas universidades e na história do país.
A mobilização das mulheres quilombolas hoje
Refletindo sobre a resistência das lideranças femininas dos quilombos, em junho de 2026, ocorreu o 3º Encontro de Mulheres Quilombolas, no Distrito Federal, com o lema central “Mulheres Quilombolas na defesa por justiça climática, por reparação e democracia: somos o começo, o meio e o começo!”.
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Edvina Silva (Dona Diva), do Quilombo Pedro Cubas de Cima, colhendo limões durante a captação de conteúdo para a campanha "Tá na hora da roça", em defesa das roças quilombolas|Agê Barros/ISA
A mobilização celebrou as três décadas de existência da Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e promoveu o intercâmbio entre mais de 800 mulheres vindas de 24 estados brasileiros, contando ainda com a presença de delegações internacionais.
Também nessa ocasião, as mulheres quilombolas receberam o presidente Lula, acompanhado por ministras de Estados, que assinaram sete decretos de desapropriação fundiária e entregaram 18 títulos de territórios.
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As lideranças quilombolas Selma Dealdina e Maria Rosalina, com o presidente Lula e a ministra Margareth Menezes|Carolina Caramuru/Conaq
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3º Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas reuniu cerca de mil pessoas de todas as regiões do país e celebrou os 30 anos da Conaq|João Victor/Conaq
Comunidades Quilombolas nas salas de aula
Em 2003, foi sancionada a Lei Federal nº 10.639, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira em todas as escolas do país. Em 2008, com a Lei nº 11.645, as histórias e culturas indígenas também foram incluídas no currículo nacional. Tais normativas ampliam o acesso a conteúdos qualificados sobre a população negra e quilombola, também a respeito dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, bem como suas trajetórias históricas, sociais e culturais.
Falar sobre mulheres negras nas salas de aula é uma forma de reparação histórica com esses corpos subjugados historicamente. O que contribui para a justiça curricular, a construção de uma educação mais plural, democrática e comprometida com o enfrentamento do racismo estrutural e das desigualdades de gênero, permitindo que estudantes conheçam diferentes protagonistas da história brasileira e se reconheçam como sujeitos dela.
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Fotocolagem feita pela artista Shirley Espejo, usando fotografias de Júlio César Almeida e Webert da Cruz Elias
Pessoas educadoras, conheçam oKit Didático: Mulheres quilombolas no foco da educação, já disponível no Acervo do ISA. Ele reúne fontes e documentos com propostas de reflexão para apoiar discussões e atividades sobre o protagonismo das mulheres negras e quilombolas em sala de aula.
ANAIS DE VILA BELA. Ano de 1770. In: Anais de Vila Bela: 1734–1789. Cuiabá: Governo do Estado de Mato Grosso, 2006.
BRASIL. Presidência da República. Lei nº 12.987, de 2 de junho de 2014. Dispõe sobre a criação do Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Brasília, DF: Presidência da República, 2014. Disponível em: https://bibliotecadigital.mdh.gov.br/jspui/handle/192/6382. Acesso em: 15 jun. 2026.
DE OLHO NOS RURALISTAS. Saiba quem é a líder quilombola homenageada no Dia da Mulher Negra [vídeo]. YouTube, São Paulo: 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=EyXzbpqN1c8. Acesso em: 16 jun. 2026.
** A série Hoje na História Socioambiental apresenta a riqueza de informações do Acervo do ISA que conta com mais de 250 mil itens catalogados voltados para a temática socioambiental como publicações, livros, teses e dissertações, mapas, notícias, materiais audiovisuais, entre outros. Hoje na História Socioambiental é um convite a reler o Brasil com mais amplitude, sensibilidade e justiça, valorizando a memória e documentação dos diversos povos.
Esta publicação conta com o apoio do Fundo Amazônia e é um produto do projeto "Defesa e Promoção dos Direitos Indígenas no Brasil: Construir Capacidades e Engajar Pessoas por um Futuro mais Justo", realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), com o financiamento da União Europeia.
Este material tem conteúdo de responsabilidade exclusiva da instituição realizadora e não reflete a posição da União Europeia.
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Hoje na História Socioambiental: em 1988, quilombolas conquistam direito ao território na Constituição
Art. 68 do ADCT reconheceu o direito à propriedade coletiva dos territórios quilombolas e marcou a proteção constitucional dos quilombolas no Brasil
Em 1988, a Assembleia Nacional Constituinte aprovou o Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) da Constituição Federal. Uma conquista para quilombolas, o dispositivo reconheceu às comunidades o direito à propriedade definitiva de seus territórios, determinando que o Estado emitisse os títulos de terra correspondentes.
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Ana Maria Eugênia da Silva é coordenadora estadual do Movimento Quilombola, moradora do Quilombo Sitio Veiga (CE) e orgulhosa de suas origens|Ester Cruz/ISA
Diz o artigo: “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.”
Foi o Movimento Negro Unificado (MNU) que, por meio da Sugestão nº 2.886, encaminhou formalmente à Constituinte a proposta popular de garantia de acesso à terra para comunidades quilombolas. Pretendia incluir na Constituição um capítulo específico nominado "Do Negro".
A proposta não atingiu o número mínimo de assinaturas, e Benedita da Silva (PT-RJ), deputada constituinte e única mulher negra a integrar a Constituinte, apresentou o texto formalmente.
Posteriormente, outra emenda popular foi apresentada pelo Centro de Estudos Afro-Brasileiros (DF), pela Associação Cultural Zumbi (AL) e pela Associação José Patrocínio (MG). Essa proposta também não recebeu o número mínimo de assinaturas, e por isso foi reapresentada pelo Deputado Carlos Alberto Caó (PDT-RJ).
No meio da tramitação, a proposta apresentada pelo movimento negro foi divida em duas: a sobre o tombamento dos quilombos ficou no §5º do Art. 216, e a outra parte, das terras, foi para o Art. 68 do ADCT.
Nas discussões da Constituinte, o direito quilombola, assim como os direitos dos povos indígenas, estava inicialmente no ato das disposições transitórias da sessão I, Capítulo III, intitulado Dos Negros, das Minorias e das Populações Indígenas.
Como demonstra a trajetória do Artigo 68, o que foi imposto como um dispositivo de caráter temporário tornou-se um marco permanente na luta pelos direitos territoriais e pelo reconhecimento das comunidades quilombolas no Brasil.
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Manifestantes reforçam em Brasília: "O Brasil também é Quilombola, nossa identidade, nossa riqueza, nossa história"|Webert da Cruz Elias/ISA
Em 1995, o Quilombo de Boa Vista, em Oriximiná (PA), recebeu o primeiro título coletivo após a Constituição de 1988. Desde então, a luta por titulação segue marcada pela reivindicação desses direitos frente a desafios diversos, como a demora na regularização fundiária, conflitos e o avanço de atividades econômicas, como a mineração, que pressionam os territórios tradicionais.
A titulação definitiva de um território quilombola ocorre quando o Estado entrega à comunidade um documento que permite transferir a propriedade de toda a área à associação representativa do quilombo. Mas desde a promulgação da Constituição em 1988, e antes mesmo da titulação, os quilombos têm direitos sobre seus territórios.
Esse processo para entrega do título de propriedade começa com a (1) autodefinição da comunidade como quilombola e (2) a emissão de uma certificação pela Fundação Cultural Palmares. Em seguida, (3) o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), ou órgãos estaduais de terras, realizam estudos históricos, antropológicos, fundiários e ambientais para identificar e delimitar o território. Após (4) etapas de análise, contestação e desapropriação de áreas privadas, quando necessário, o território pode ser (5) oficialmente titulado em nome da associação representativa da comunidade, viabilizando mais garantias para a posse coletiva da terra e a proteção de seus modos de vida, práticas culturais e formas tradicionais de organização.
Quilombos: ancestralidade, território e conservação socioambiental
De acordo com o Decreto nº 4.887/2003, que rege a regularização dessas áreas, os quilombos são formados por “grupos étnico-raciais, segundo critérios de autoatribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida”.
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Vercilene Francisco Dias, advogada do Quilombo Kalunga, de Cavalcante (GO) também honra suas raízes quilombolas|Webert da Cruz Elias/ISA
Assim como as Unidades de Conservação e as Terras Indígenas, os Territórios Quilombolas também são considerados “áreas protegidas” pelo Plano Estratégico Nacional de Áreas Protegidas (PNAP, Decreto nº 5.758/2006).
Os Territórios Quilombolas são reconhecidos como propriedades coletivas das comunidades, tituladas em nome das associações quilombolas, garantindo a permanência dos modos de vida, das práticas culturais e da relação histórica dessas populações com a terra.
Por esse motivo, a terra não pode ser vendida, dividida ou tratada como propriedade individual, porque ela pertence coletivamente à comunidade. Isso significa que o território é inalienável: ele existe para garantir a continuidade da vida, da cultura, da memória e do modo de viver.
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Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira ocorre todos os anos em Eldorado (SP)|Júlio César Almeida/ISA
De acordo com o estudo “Florestas precisam de pessoas” publicado em 2022, áreas protegidas ocupadas por povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais apresentam índices mais elevados de vegetação nativa preservada e em regeneração. Em contrapartida, Unidades de Conservação com menos restrições de uso, como as Áreas de Proteção Ambiental (APAs) e suas zonas de amortecimento, registram maior desmatamento e ciclos mais intensos de degradação ambiental.
Os dados reforçam que os modos tradicionais de ocupação e manejo do território atuam como importantes barreiras ao desmatamento, contribuindo para a proteção da biodiversidade e para a regeneração dos ecossistemas. O estudo também destaca a importância de fortalecer políticas públicas de proteção territorial e de recuperação ambiental nas áreas mais pressionadas.
A efetivação do direito sobre o reconhecimento territorial é fundamental para garantir a proteção da biodiversidade, portanto.
Ao longo da trajetória de luta pelo reconhecimento dos territórios coletivos, consolidou-se também a luta pela conservação ambiental e pela defesa de modos de vida tradicionais. Territórios quilombolas, Terras indígenas e Reservas Extrativistas demonstram que povos e comunidades tradicionais têm atuado historicamente como guardiões das florestas e da biodiversidade.
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Donária Messias dos Santos, do Quilombo Nhunguara (SP), coleta sementes para ajudar a restaurar a Mata Atlântica|Bianca Tozato/ISA
Vale lembrar que há muitos Territórios Quilombolas não titulados ou com o processo de titulação atravessado por várias questões jurídicas. Segundo o censo de 2022 do IBGE, a população quilombola é de 1.330.186 pessoas e existem 7.666 comunidades quilombolas identificadas, em todas as regiões do Brasil. Sendo que apenas nos estados do Acre e Roraima não há quilombos.
Desde 1988, apenas 25 quilombos foram integralmente titulados, além de processos abertos no Incra aguardando titulação. Por isso as comunidades quilombolas seguem resistindo e lutando pela garantia de seus territórios, afirmando modos de vida que contribuem diretamente para a conservação ambiental e para a proteção da biodiversidade.
Em 2026, a Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) comemora seus 30 anos. Para marcar a data, entre os dias 10 e 14 de junho, Brasília sediará o III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas, com o lema central “Mulheres Quilombolas na defesa por justiça climática, por reparação e democracia: somos o começo, o meio e o começo!”. O encontro deve reunir mais de 500 mulheres de 24 estados, além de algumas representações internacionais.
Pessoas educadoras, venham conhecer o kit didático que reúne fontes e documentos com propostas de reflexão para apoiar discussões e atividades sobre o assunto em sala de aula!
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, art. 68. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 25 maio 2026.
DIAS, Luiz Marcos de França et al. Na companhia de Dona Fartura: uma história sobre cultura alimentar quilombola. Ilustrações de Amanda Nainá dos Santos e Vanderlei Ribeiro. 1. ed. São Paulo: Instituto Socioambiental (ISA), 2022. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/publications/03l00037.pdf. Acesso em: 25 maio 2026.
** A série Hoje na História Socioambiental apresenta a riqueza de informações do Acervo do Instituto Socioambiental que conta com mais de 250 mil itens catalogados voltados para a temática socioambiental como publicações, livros, teses e dissertações, mapas, notícias, materiais audiovisuais, entre outros. Hoje na História Socioambiental é um convite a reler o Brasil com mais amplitude, sensibilidade e justiça, valorizando a memória e documentação dos diversos povos.
Esta publicação conta com o apoio do Fundo Amazônia e é um produto do projeto "Defesa e Promoção dos Direitos Indígenas no Brasil: Construir Capacidades e Engajar Pessoas por um Futuro mais Justo", realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), com o financiamento da União Europeia.
Este material tem conteúdo de responsabilidade exclusiva da instituição realizadora e não reflete a posição da União Europeia.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Nota de pesar pelo falecimento de Dona Ana Maria, dirigente nacional da Conaq
Importante liderança do Quilombo Invernada Paiol de Telha, no Paraná, Dona Ana Maria esteve na linha de frente com coragem e compromisso pela titulação de territórios
O Instituto Socioambiental (ISA) manifesta profundo pesar pelo falecimento de Dona Ana Maria Santos da Cruz, coordenadora nacional da Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e importante liderança do Quilombo Invernada Paiol de Telha, no Paraná. Lutadora incansável pelos direitos dos povos quilombolas e linha de frente nas resistências em sua comunidade e em nível nacional, Dona Maria sempre atuou com coragem, sabedoria e compromisso com as ações das comunidades negras rurais de todo o país.
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Dona Ana Maria dos Santos da Cruz será lembrada pela firmeza diante das injustiças, generosidade com seu povo e construção de caminhos de resistência|Arquivo pessoal
Neste momento de tristeza, endossamos as palavras da Conaq, organização da qual ela foi dirigente por anos, de que sua trajetória foi marcada pela firmeza diante das injustiças, generosidade no cuidado com seu povo e construção de caminhos de resistência que inspiraram gerações de lideranças quilombolas.
“Sua voz ecoou nos espaços de decisão, denunciando o racismo, reivindicando direitos e afirmando a dignidade do povo quilombola”, diz a entidade, em nota.
Certa vez, em entrevista ao Brasil de Fato para uma reportagem sobre o direito das comunidades quilombolas às suas terras, Dona Ana Maria ressaltou: “prometi aos meus antepassados que só ficarei em paz quando todos estiverem dentro do território”.
E ela cumpriu sua promessa de luta, pois o povo do Paiol de Telha conseguiu retornar ao território em 2015, mais de quarenta anos após terem sido violentamente expulsos do território. Ainda hoje é a única comunidade quilombola titulada no Paraná.
Que ela siga em paz como quem que sempre esteve do lado certo da história e que não arredou o pé da luta. O legado de Dona Ana Maria ficará presente na memória e no coração de quem teve o privilégio de estar ao seu lado nesses anos de resistência. Nos solidarizamos com seus familiares, amigos e sua comunidade Paiol de Telha.
Presente hoje e sempre!
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Fórum Socioambiental de Políticas Climáticas é tema de novo episódio do “Vozes do Clima”
Programa aborda temas discutidos no evento, realizado em Manaus, como o protagonismo de povos e comunidades tradicionais na agenda climática da Amazônia
O boletim de áudio “Vozes do Clima” abre o ano de 2026 com os debates ocorridos durante o I Fórum Socioambiental de Políticas Climáticas no Amazonas, realizado no final de outubro de 2025, em Manaus (AM). O evento teve a presença de mais de 80 pessoas entre lideranças indígenas e de comunidades tradicionais, representantes da sociedade civil, instituições de pesquisa, órgãos governamentais e parceiros técnicos para debater os caminhos da agenda climática no estado - e no país. A organização foi feita pelo Instituto Socioambiental (ISA), em parceria com o Memorial Chico Mendes, o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), redes e instituições locais.
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Povos da floresta precisam ser protagonistas das soluções para barrar a crise climática|Carol Quintanilha/ISA
O novo episódio, lançado nesta sexta-feira (20/02), traz as vozes de lideranças indígenas, representantes do poder público e ativistas socioambientais que durante os dois dias do Fórum participaram de oito mesas temáticas, abordando experiências de governança e adaptação climática e financiamento para uma transição justa. Foi um momento histórico no debate sobre as consequências enfrentadas e as soluções criadas por quem vive na Amazônia para fazer frente à emergência climática.
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I Fórum Socioambiental de Políticas Climáticas no Amazonas reuniu mais de 80 pessoas em Manaus|Michel Dantas/ISA
O programa tem apresentação de Vanessa Fernandes, jornalista do ISA, e conta com as participações de Júlio Barbosa, presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS); de Dario Baniwa, diretor-presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn); de Almir Suruí, líder maior do povo Paiter Suruí da Terra Indígena Sete de Setembro, em Cacoal, Rondônia; de Henrique Pereira, diretor presidente do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA); de Francisca Arara, Secretária dos Povos Indígenas do Acre; e de Juliana Radler, analista de políticas socioambientais do ISA.
Ouça aqui
Ações para enfrentar a crise
“A floresta que produz a fruta que os animais silvestres comem não tá produzindo. Aí o que que acontece? Os animais que comem aquelas frutinhas ficam passando necessidade. Muitas vezes o macaco, o porquinho, a cutia vem pegar fruta no quintal. Então, a família que planta às vezes uma rocinha de mandioca para fazer farinha para se alimentar, antes daquela mandioca começar a produzir a batata, o porquinho do mato vem e come, porque ele não tem alimento”, contou Júlio Barbosa, do CNS, lembrando que as antigas gerações organizavam a roça com base nos períodos regulares de chuva e seca, mas com o agravamento das mudanças climáticas essas estações estão cada vez menos previsíveis, prejudicando o plantio, a colheita do alimento e o sustento dos animais.
Dario Baniwa, da Foirn, também falou dos efeitos da crise climática e apontou os desafios para a manutenção do manejo tradicional na produção de alimentos.
“Hoje a gente sofre crise climática, mas a injustiça também. Uns 20 anos atrás, as pessoas que produziam, principalmente as mulheres que cuidam da roça, podiam passar quatro horas ou cinco horas na roça. Hoje não, elas têm que ir mais cedo para poder voltar umas nove, 10 horas (da manhã). Ou vai no final do dia, porque o sol a partir de 10 horas até umas três horas da tarde, ninguém consegue aguentar”, disse Dário ao “Vozes do Clima”.
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Dário Baniwa, presidente da Foirn, apontou os desafios para a manutenção do manejo tradicional na produção de alimentos|Michel Dantas/ISA
Almir Suruí, líder do povo Paiter Suruí, reforçou o entendimento dos parentes e compartilhou experiências de seu território no enfrentamento desses desafios.
“A Amazônia não produziu nada de castanha no ano passado, por efeito das mudanças climáticas. Nosso modelo, que nós estamos sugerindo, discutindo, é produzir com planejamento na forma de agrofloresta, da sustentabilidade e criar cadeia produtiva com calendário produtivo também. Você pode produzir dentro de uma espaço vários tipos de produto, como café, castanha, cacau, açaí, cupuaçu, frutíferas. Então, é você trabalhar com esse modelo de agrofloresta para tentar ajudar a trazer o equilíbrio das mudanças climáticas na Amazônia”, enfatizou.
Secretária dos Povos Indígenas do Acre, Francisca Arara ressaltou ao “Vozes do Clima” a necessidade do apoio do poder público para políticas de adaptação.
“Cada vez as coisas estão acontecendo de uma forma mais violenta e mais urgente, e a gente precisa criar alguns mecanismos de como sobreviver dentro do nosso território, trabalhar os poços artesianos, reservatório de água, captação da chuva, que agora o Acre tá fazendo. Mas para fazer isso, você não faz só com a boa vontade, precisa captar recursos. Tem que ter recurso de fundos climáticos, de fundo do Governo Federal, dos estados que estão arrecadando. Então, precisa olhar, não só os povos indígenas, mas também as populações tradicionais, porque agora é saber como enfrentar e se adaptar a viver nesse outro momento”, defendeu.
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Francisca Arara, Juliana Radler e Hulicio Moisés Kaxinawa também participaram do evento e do novo episódio do "Vozes do Clima"|Michel Dantas/ISA
O que é o “Vozes do Clima”?
O boletim de áudio “Vozes do Clima” é uma realização do ISA, com produção da produtora de podcasts Bamm Mídia e apoio da Environmental Defense Fund (EDF) que propõe levar informações a povos e comunidades tradicionais sobre os temas relacionados à pauta climática.
A identidade visual foi concebida pelas designers e ilustradoras indígenas Kath Matos e Wanessa Ribeiro. Além de ser distribuído via Whatsapp e Telegram, o programa poderá ser ouvido nas plataformas de áudio Spotify, iHeartRadio, Amazon Music, Podcast Addict, Castbox e Deezer.
Este é o sétimo episódio da segunda temporada do “Vozes do Clima”, que contará com um total de 12 edições e abordará os diversos debates sobre clima e a pauta socioambiental.
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Nota de pesar por Antônio Luíz Batista de Macêdo (Txai Macêdo)
Macêdo foi um dos idealizadores, junto a Ailton Krenak e outras lideranças indígenas e seringueiros, da Aliança dos Povos da Floresta
O Instituto Socioambiental (ISA) vem manifestar solidariedade aos familiares, amigos e colegas de Antônio Luíz Batista de Macêdo em razão do seu falecimento no último domingo (15/02) no município de Cruzeiro do Sul, Acre.
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Trajetória de Macêdo impulsionou comunidades indígenas e seringueiros na luta por seus direitos territoriais e culturais|Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real
Macêdo, popularmente conhecido como Txai Macêdo, nasceu em 1952 no Seringal Transval, no Rio Muru, Vale do Rio Juruá, no Acre. Começou a trabalhar coletando o látex da borracha ainda criança e dos 14 aos 17 anos trabalhou em embarcações fluviais nos rios do Vale do Juruá, no Acre e Amazonas.
Servindo ao exército, se tornou mecânico de motores e trabalhou em companhias de terraplanagem até os 24 anos. Depois, como Artífice de Obras e Serviços Públicos de 1976 a 1978.
Em 1978, entrou na então Fundação Nacional do Índio (Funai), inicialmente lotado no mal sucedido projeto de instalação de uma serraria na área indígena dos Apurinã, no quilômetro 45 em Boca do Acre, Amazonas. Passou ao cargo de sertanista em 1986.
Como indigenista e sertanista da Funai e assessor da Comissão Pró-Índio do Acre nos anos 1980, Macêdo promoveu o reconhecimento e a demarcação de diversas Terras Indígenas no seu estado, também no sudoeste do Amazonas e noroeste de Rondônia.
Nos anos 80, ele foi um dos coordenadores do movimento de criação da primeira Reserva Extrativista do Brasil, a Reserva Extrativista do Alto Juruá. A criação da figura jurídica de Reserva Extrativista foi uma demanda do 1º Encontro Nacional dos Seringueiros em 1985. Resultado de cinco anos de mobilização, em janeiro de 1990, o governo federal criou Reservas Extrativistas como “espaços territoriais destinados à exploração autossustentável e conservação dos recursos naturais renováveis, por população extrativista”.
Entre janeiro e março de 1990 foram criadas as quatro primeiras Reservas Extrativistas totalizando mais de dois milhões de hectares, entre as quais a Reserva Extrativista do Alto Juruá, com 506 mil hectares.
A Aliança Pelos Povos da Floresta
Macedo ficou à frente da Coordenação Regional do Conselho Nacional dos Seringueiros do Vale do Juruá de 1988 a 1995. Foi um idealizador, junto a Ailton Krenak e outras lideranças indígenas e dos seringueiros, da Aliança dos Povos da Floresta, e em 1990 participou da viagem de membros da Aliança com o cantor e compositor Milton Nascimento às terras do povo Ashaninka no alto Juruá. Da viagem resultou o disco Txai.
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Txai Macêdo, ao lado esquerdo do cantor Milton Nascimento, durante a expedição Txai, no Rio Amônia|Beto Ricardo/ISA/1989
Parte desta história está contada no filme Mapear Mundos, em que Macêdo aparece ao lado de Milton durante coletiva de imprensa.
Assista abaixo:
Em 1990, em Londres, Macêdo expôs as conquistas da Aliança dos Povos da Floresta a uma plateia que incluía o então Príncipe Charles, e em 1992 foi indicado pela ONG Amigos da Terra a entregar ao ex-Beatle Paul McCartney, o Prêmio The Voice for the Planet Earth (‘A Voz Pelo Planeta Terra’).
No mesmo período, Macêdo coordenou a criação do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Mâncio Lima (AC) e ajudou na criação de sindicatos e de diversas associações agroextrativistas em outros municípios no Vale do Juruá.
Também propôs e coordenou a implantação e execução do primeiro projeto do BNDES no Acre entre 1989 e 1995, o que credenciou o estado a obter financiamentos do banco a partir de 2001.
Foi consultor do governo do Acre de 2000 a 2012, inspirando aos governos Jorge Viana e Binho Marques à criação do "Programa de Florestania" e no "Programa de Etnozoneamento em Terras Indígenas", numa ação pioneira que esteve na base da construção da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI).
A contribuição de Txai Macêdo às histórias de luta de povos indígenas e de populações tradicionais - cuja aliança surgida no Acre criou o termo "povos da floresta" - permitiu que comunidades indígenas e seringueiros se posicionassem na vanguarda da luta por seus direitos territoriais e culturais.
Como resultado, estes povos se libertaram de seus antigos patrões (os "senhores da borracha") e imprimiram uma nova fase de sua história, exemplificada pela criação e fortalecimento de organizações de base e associações, a implementação de cantinas de apoio ao abastecimento e comercialização da produção agrícola, extrativa e artesanal, a valorização da cultura e da educação através da construção de escolas e de conteúdos pedagógicos inovadores.
Esta força e inspiração inestimáveis têm contribuído para que os povos da floresta na sua luta por autonomia conquistem a liberdade de habitar suas terras, e obtenham mais educação, saúde, revitalização de culturas tradicionais e melhoria da qualidade de vida na floresta.
Nos últimos tempos, Macêdo deu maior visibilidade ao seu lado musical, gravando em 2022 seu disco Akiri.
Em nota, a Fundação Txai, criada por Macêdo em 1995, escreve:
Partiu Txai Macedo — não apenas um indigenista, não apenas um sertanista, mas um sábio que aprendeu a escutar o tempo da mata, o canto dos povos e a memória profunda da terra. Um homem que caminhou entre mundos sem nunca se separar daquilo que defendia: a vida.
Txai foi herói de um tipo raro.
Não o herói das armas ou dos aplausos, mas o herói paciente, que planta futuro onde outros só veem distância.
Que protege territórios como quem protege histórias.
Francisco Piyãko, da Associação Ashaninka-Apiwtxa escreve:
Se hoje a Apiwtxa é forte, se o nosso território tem a floresta em pé, se as nossas escolas ensinam a nossa língua e se nós caminhamos com as próprias pernas e de cabeça erguida, é porque lá atrás, nos momentos mais sombrios, tivemos a mão estendida de um verdadeiro “Txai”, que a significa mais que um amigo, significa metade de nós mesmos.
Independente de qualquer dor que estejamos sentindo agora, nós assumimos aqui o compromisso inegociável de dar continuidade a essa história. No momento mais difícil, de lutar e conquistar o nosso espaço, o Macedo esteve na linha de frente por nós. Agora, o nosso dever sagrado é cuidar das conquistas que o Txai Macedo trouxe e colocou em nossas mãos.
Macedo foi colaborador e amigo do ISA, e de seu antecessor, o Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), por mais de quarenta anos. Que descanse em paz.
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Primeira titulação de comunidade quilombola no Brasil completa 30 anos
Quilombo de Boa Vista, em Oriximiná (PA), recebeu título em 20 de novembro de 1995, tornou-se referência para outras comunidades quilombolas que lutam pelo reconhecimento de seus territórios
O Quilombo de Boa Vista, localizado em Alto Trombetas, no município de Oriximiná (PA), comemora, no dia 20 de novembro, os 30 anos de sua titulação coletiva. São 1.125,0341 hectares reconhecidos em 1995, a partir da promulgação da Constituição Federal, que, por meio do Artigo 68, estabeleceu que “aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”.
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Os 30 anos de sua titulação coletiva do Quilombo de Boa Vista serão comemorados no próximo dia 20 de novembro|Uchoa Silva/TJPA
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Luta e resistência do Quilombo de Boa Vista inspiraram outras comunidades pelo Brasil|Uchoa Silva/TJPA
O caso de Boa Vista se tornou referência e símbolo da luta coletiva quilombola no Brasil, abrindo caminho e oferecendo precedentes para que outras comunidades reivindicassem também o reconhecimento oficial de seus territórios. Três décadas depois, o exemplo segue como fonte de inspiração e esperança para movimentos que continuam a exigir a efetivação de seus direitos constitucionais.
Apesar da conquista histórica, a comunidade continua convivendo com desafios. Dados do MapBiomas indicam que Oriximiná está entre os cinco municípios com maior área de mineração industrial no país, o que reforça a permanência de conflitos e pressões sobre os territórios tradicionais.
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30 anos depois, o Quilombo de Boa Vista segue na luta pela proteção do território, que sofre com a mineração industrial de bauxita|Uchoa Silva/TJPA
Mesmo diante desse cenário, a comunidade de Boa Vista segue afirmando sua resistência, e entre os dias 28 e 30 de novembro, realiza uma programação especial para celebrar a trajetória de luta, homenagear os mais velhos, destacar o protagonismo da juventude e reafirmar a defesa do direito à terra, ao território e ao bem viver.
A agenda inclui rodas de memória, mesas de debate, feira cultural, apresentações artísticas e atos políticos. A programação completa pode ser acompanhada na publicação a seguir:
Nos dias 1 a 4 de outubro, o agreste pernambucano vai abrigar a Caatinga Climate Week, iniciativa do Centro Sabiá e em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), que é um chamado global para reconhecer o Semiárido como território estratégico na agenda climática, especialmente às vésperas da COP30.
Durante quatro dias, lideranças indígenas, quilombolas, assentados, agricultoras e agricultores agroecológicos, cientistas, movimentos sociais e gestores públicos vão percorrer mais de 400km, entre 7 municípios, onde já estão acontecendo soluções reais de adaptação à crise climática, principalmente em Caruaru, Garanhuns e Buíque.
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Evento ocorre de 1 a 4 de outubro no agreste pernambucano|Divulgação
A experiência imersiva é inspirada em semanas do clima globais, como a de Nova York, e busca levar o debate climático para dentro do território mais afetado. A trilha será baseada em experiências concretas que mostram que o Semiárido, longe de ser um território de escassez, é um laboratório vivo de resistência e inovação climática, e que pode servir de referência para outras regiões e países que têm enfrentado a escassez hídrica e lidado com tempos cada vez maiores de estiagem e secas prolongadas.
A Caatinga vem sofrendo com as mudanças climáticas e com a ameaça da desertificação. O bioma, que já perdeu quase metade da sua vegetação nativa e tem o clima cada vez mais quente e seco, tem se tornado um ambiente pouco favorável para os mamíferos e outras espécies. De acordo com estudo publicado pela Global Change Biology, até 2060, a região poderá perder até 91,6% das suas espécies de mamíferos e 87% dos seus habitats naturais.
O MapBiomas mostra que a Mata Branca teve perda de vegetação primária de 15 milhões de hectares entre 1985 e 2020, o que representa mais de 26% da floresta. O levantamento mostrou um decréscimo de 40% nos cursos de água natural que fluem pela região. Quase a totalidade do bioma no Brasil está classificada entre as Áreas Suscetíveis à Desertificação (ASD).
Para Carlos Magno, coordenador do Centro Sabiá, “a Caatinga pode e deve ser referência no debate climático, pois já existem diversas experiências concretas de adaptação climática, além de ser um território que está enfrentando o avanço dos empreendimentos de energia renovável”.
Visitas de campo
Em Caruaru/PE, a atividade “Entre agulhas e enxadas: a colheita das mulheres de Carneirinho” mostra os frutos da união e resiliência de mulheres agricultoras que criaram a Associação de Mulheres da Agricultura Familiar do Sítio Carneirinho. A luta delas pelo retorno ao trabalho no campo, por meio do acesso a políticas públicas de incentivo rural e o enfrentamento direto das mudanças climáticas e da lógica industrial, serão pontos compartilhados com os participantes. Atualmente as famílias contribuem com a alimentação de qualidade e com a autonomia feminina da comunidade.
Já em Vertentes/PE, a atividade “Da adaptação climática à convivência com o Semiárido: tecnologias sociais na Caatinga” compartilha a experiência da família de Seu Zé e Dona Cilene, que convive com as particularidades do bioma Caatinga gerando renda e se alimentando com qualidade. Isso foi possível graças às tecnologias sociais de adaptação climática, que contribuíram para a captação de água da chuva, reúso de águas cinzas, armazenamento de sementes crioulas e o manejo adequado da terra.
De volta à Caruaru/PE, a Macaxeira vira protagonista das discussões. Na troca “Macaxeira: memória, alimento e resistência no Semiárido”, agricultoras e agricultores da comunidade Serrote dos Bois que tiveram que se adaptar ao aumento das temperaturas e ao regime de chuvas instável mostram quais as saídas encontradas para continuar o plantio dessa espécie nativa e resiliente, que possui diversidade de sementes e de produção de alimentos, como farinha, beiju e tapioca, que são produzidos nas Casas de Farinha.
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O Semiárido é um laboratório vivo de resistência e inovação|Ana Mendes/Acervo Centro Sabiá
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O bioma pode servir de referência de adaptação climática para outras regiões|Ana Mendes/Acervo Centro Sabiá
Em Caetés/PE, a partir da perspectiva de defesa de seus territórios, dezenas de famílias agricultoras do agreste pernambucano se articularam para debater os impactos sofridos pelos parques eólicos, criando, em 2023, a Escola dos Ventos. Essa articulação reúne diversos movimentos campesinos em prol do debate, formação e atuação política frente ao modelo de ocupação predatória dos complexos eólicos no estado e será ponto de partida para a discussão “Quando o vento sopra contra: a experiência da Escola dos Ventos para a transição justa na caatinga”.
No município de Jucati/PE, acontece a “Trocas de sementes e de saberes no Semiárido: estratégia de resistência em rede” entre agricultores familiares, organizações sociais e técnicos rurais, que se articulam para defender a continuidade das sementes crioulas, através da Rede de Sementes Crioulas do Agreste Meridional de Pernambuco (Rede SEMEAM).
No Quilombo Estivas, mulheres negras são exemplos potentes da luta pela justiça climática em Pernambuco. E são elas que vão conduzir a atividade “Mulheres negras e a luta por justiça climática no Agreste de Pernambuco” em Garanhuns/PE. A comunidade formada por 200 famílias se destaca pela construção de quintais produtivos, associado às atividades culturais desenvolvidas no Espaço Cultural Zeza do Coco, onde o artesanato, a música e a dança integram mulheres e jovens às tradições.
Por fim, a aldeia Xukuru do Ororubá, o povo árvore-passarinho que possui a agricultura como a base de sua espiritualidade, recebe os participantes para um “Encantamento e resistência” para compartilhar a “cosmoagricultura” Xukuru. A agricultura de sequeiro, de frutas da estação e a criação de pequenos animais dialoga com a manutenção do banco de sementes e do viveiro de mudas da comunidade, e é por meio desse trabalho integrado que o povo promove a prática de regeneração da floresta e o diálogo com os seres vivos que compõem a Caatinga. A atividade acontece em Pesqueira/PE.
O Caatinga Climate Week tem organização do Centro Sabiá e do Instituto Socioambiental (ISA), e conta com a parceria das seguintes organizações: Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), Movimentos dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra (MST), Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste (APOINME), Observatório do Clima, Plataforma Semiárido e Consórcio de Governadores do Nordeste. O apoio é da Cáritas Alemã e do Instituto Umbuzeiro.