Com direitos garantidos sobre seus territórios e com suas culturas valorizadas, povos indígenas e comunidades tradicionais buscam o reconhecimento do Estado, da sociedade e do mercado sobre a economia que praticam há séculos, em alguns casos milênios, baseada em técnicas produtivas ancestrais e no cuidado com as florestas.
Com essa economia da floresta - chamada também de Economia da Sociobiodiversidade, ou Economia do Cuidado - as comunidades priorizam a segurança alimentar, garantem o bem-viver e ainda produzem mais biodiversidade, o que beneficia todo o planeta. Contudo, o desenvolvimento a qualquer custo promovido pelo Estado prima por modelos econômicos altamente subsidiados, poluidores, predatórios e atividades ilegais que ameaçam, matam e destroem.
Em resposta a esse enorme e histórico desequilíbrio de forças, o ISA busca fortalecer o protagonismo das comunidades parceiras ao fomentar atividades produtivas, iniciativas de turismo de base comunitária e ações de restauração florestal nas bacias dos rios Negro, no Amazonas e Roraima, Xingu, no Mato Grosso e Pará, e Ribeira do Iguape, em São Paulo.
Ao mesmo tempo, o ISA também busca sensibilizar o setor privado, os governos e o mercado consumidor para a necessidade de promoção de políticas públicas e relações comerciais justas e transparentes que valorizem as contribuições socioambientais dos povos e comunidades e respeitem seus modos de vida, territórios e culturas.
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COP30: indígenas, quilombolas e ribeirinhos levam à AgriZone seus sistemas agrícolas ancestrais e inovadores
Mesa “Clima, comida e saberes”, em 12/11, promove contraponto ao agronegócio com encontro entre lideranças tradicionais e representantes de órgãos públicos e instituições
As economias da sociobiodiversidade - economias promovidas ancestralmente por indígenas, quilombolas e povos e comunidades tradicionais - têm como base os Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs). Ao produzir alimentos, movimentar a economia e proteger o meio ambiente, essas economias vêm se apresentando como uma solução-chave para a crise climática e a redução de desigualdades.
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Na foto, Cristina da Silva, do povo Baniwa, faz pausa no igarapé antes de chegar à casa de forno, local onde as manivas serão trabalhadas|Fellipe Abreu/National Geographic
No entanto, estão sob constante pressão do agronegócio, do garimpo ilegal, de madeireiros e da emergência climática, sendo que sua proteção e seu pleno desenvolvimento exigem uma estratégia de longo prazo, superando gargalos como direito e segurança territorial, mercados justos, instrumentos financeiros adequados e a integração de políticas públicas.
O debate sobre os caminhos para o fortalecimento das economias da sociobiodiversidade e dos SATs estará no centro da mesa “Clima, comida e saberes - Estratégias e políticas que salvaguardam Sistemas Agrícolas Tradicionais, promovem soberania alimentar e contribuem para o equilíbrio climático”, na COP30, em Belém (PA), em 12 de novembro, às 11h20.
Essa mesa integra a programação da AgriZone, espaço da Embrapa na COP30 que se propõe a discutir e visibilizar inovação e sustentabilidade para tecnologias voltadas à produção de alimentos de baixo carbono, à adaptação às mudanças climáticas e à segurança alimentar global.
Nesse contexto, o fortalecimento dos SATs se torna ainda mais necessário: são sistemas de conhecimento sofisticados e inovadores que protegem o ambiente, gerando ativos como biodiversidade, cuidado com a água e regulação climática.
Os SATs fazem um contraponto com os meios predatórios de produção. Não estão estruturados em monocultura, mas em diversidade; não geram concentração de renda, mas compartilhamento; não são pautados na degeneração dos ecossistemas, mas em sua constante regeneração.
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Trilha para o castanhal e para a roça na Terra do Meio (PA)|Fellipe Abreu/ISA
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Urias Morato com o filho Eulisses Morato, no, Quilombo São Pedro|Claudio Tavares/ISA
Durante o encontro será exibido o minidocumentário “Celebração da Diversidade - Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs)”. Narrado pela liderança Francy Baniwa, o vídeo apresenta esses sistemas de conhecimento e modos de vida no Alto Rio Negro (AM), Terra do Meio (PA), Vale do Ribeiro (SP) e Território Indígena do Xingu (MT).
A mesa é promovida pelo Instituto Socioambiental (ISA), Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio), Instituto Regenera e Embrapa, com mediação de Jeferson Camarão Straatmann, analista sênior em economias da sociobiodiversidade do Instituto Socioambiental (ISA).
Estarão reunidas lideranças indígenas, quilombolas e ribeirinhas e órgãos públicos e instituições que atuam nesta agenda. A promoção do diálogo para que se avance em medidas práticas adequadas aos territórios é o principal objetivo do encontro.
Representando os territórios tradicionais estarão três mulheres que atuam como lideranças: Liliane Santos, do Coletivo Olhos do Xingu, representando a Rede Terra do Meio (PA); Hildete Araújo, povo Tariana, da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), no Amazonas; e Nilce de Pontes Pereira dos Santos, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas - São Paulo.
Já os convidados dos órgãos públicos e instituições são Ana Euler, diretora executiva de Inovação, Negócios e Transferência de Tecnologia da Embrapa e Diretora Executiva de Transferência de Tecnologia da Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater); Moisés Savian, secretário Nacional de Governança Fundiária, Desenvolvimento Territorial e Socioambiental no Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA); Maria Júlia Pinho, assessora da Diretoria Socioambiental do BNDES; e Jorge Alberto Meza Robayo, representante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) no Brasil.
Clima, comida e saberes - Estratégias e políticas que salvaguardam Sistemas Agrícolas Tradicionais, promovem soberania alimentar e contribuem para o equilíbrio climático Local: AgriZone - EMBRAPA - Auditório A3 Embrapa Amazônia Oriental, Travessa Dr. Enéas Pinheiro - Belém (PA) - Pavilhão de exposições Data e horário: 12/11 - 11:20h às 13h50 Atenção: para acessar a tradução simultânea são necessários celular e fones pessoais
Convidados e convidadas Liliane Santos Nascida e atuante na região da Terra do Meio, na Estação Ecológica da Terra do Meio, em Altamira (PA), é estudante de agronomia, jornalista da floresta, ativista ambiental e liderança comunitária. Atua como comunicadora e monitora ambiental, contribuindo para o monitoramento territorial e a defesa dos povos e florestas da Amazônia.
Hildete Araújo, povo Tariana Coordenadora do Departamento Patrimônio Cultural e Pesquisa Intercultural da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), lliderança indígena e mestra pelo Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia (PPGSCA/UFAM), atuando no Alto Rio Negro com a rede dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs), entre outras atividades.
Nilce de Pontes Pereira dos Santos Coordenadora da Conaq SP - Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, liderança quilombola, educadora popular, agricultora agroecológica e ativista política, também é presidente da Rede Agroecologica de Mulheres Agricultoras (Rama); presidente do Quilombo Ribeirão Grande/Terra Seca (SP) e Conselheira Mosaico de Unidades de Conservação do Jacupiranga (Mojac).
Ana Euler Diretora Executiva de Inovação, Negócios e Transferência de Tecnologia da Embrapa e Diretora Executiva de Transferência de Tecnologia da Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater), engenheira Florestal e doutora em Ciências Ambientais e Florestais, tem 20 anos de atuação na Amazônia com passagem pela África. Desde 2008 atua como pesquisadora da Embrapa Amapá, na área de manejo de recursos naturais e como assessora de Relações Internacionais.
Moisés Savian Secretário Nacional de Governança Fundiária, Desenvolvimento Territorial e Socioambiental no Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), engenheiro agrônomo e doutor em Produção Vegetal (Proteção de Plantas e Agroecologia). Coordena o Programa Nacional de Florestas Produtivas e o Programa Nacional de Fortalecimento da Sociobiodiversidade no MDA.
Maria Júlia Pinho Assessora da Diretoria Socioambiental do BNDES, advogada, mestre em políticas públicas, estratégias e desenvolvimento. Atua no assessoramento técnico e jurídico da Diretoria Socioambiental do BNDES, responsável pelas Áreas de Meio Ambiente e de Desenvolvimento Social e Gestão Pública.
Jorge Alberto Meza Robayo Representante da FAO no Brasil, engenheiro florestal com especialização em engenharia econômica e silvicultura nos trópicos e subtrópicos. Atuou pela FAO em países como Paraguai, Argentina, Uruguai e Chile. Em janeiro de 2024 foi designado Representante da FAO no Brasil.
Mediação Jeferson Camarão Straatmann, analista sênior em economias da sociobiodiversidade do Instituto Socioambiental (ISA), é doutor em engenharia de produção e Mestre de Capoeira. Especializou-se em redes das economias da sociobiodiversidade, sendo responsável pelas estratégias no tema no ISA, desde os territórios até o mercado e políticas públicas.
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Minidoc e diálogo entre arqueologia e Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs) celebram diversidade na COP30
Mesa “Sociobioeconomia Revelada”, no Museu Goeldi, em 09/11, debate o fortalecimento dos sistemas alimentares ancestrais, ameaçados pelas mudanças climáticas e pela falta de políticas públicas
A floresta amazônica como a conhecemos hoje é o resultado das práticas ancestrais de diversos povos que manejam a floresta há pelo menos 12 mil anos, conforme indicam pesquisas arqueológicas do projeto Amazônia Revelada.
E algumas dessas práticas persistem, apontando caminhos para uma economia resiliente e sustentável que, ao mesmo tempo, produz alimentos e protege as florestas, promovendo ativos como a biodiversidade, o cuidado da água e a regulação climática.
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Fartura de castanhas na Terra do Meio (PA), onde convivem indígenas, beiradeiros e agricultores familiares|Rogério Assis/ISA
A mesa “Sociobioeconomia Revelada - A contribuição das economias de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais para a formação das paisagens e regulação climática”, acontece durante a COP30, em Belém, e propõe um diálogo entre o passado arqueológico e o presente vivo das economias da sociobiodiversidade - as economias promovidas por povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
A discussão ocorre no dia 09/11, na Estação Amazônia Sempre, no Museu Goeldi, e busca ainda caminhos para ações de fortalecimento que possam levar essas práticas para o futuro, reconhecendo sua importância para a economia e clima, tendo como exemplos ações e experiências desenvolvidas nas regiões do Rio Negro (AM) e Xingu (PA) por organizações dos povos indígenas e beiradeiros.
Entre essas experiências estão projetos de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA); cadeias de valor relacionadas ao artesanato e turismo; além de políticas públicas de aquisição de alimento, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
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Mutirão da colheita de arroz no Quilombo Morro Seco (SP). SAT Quilombola do Vale do Ribeira é reconhecido pelo Iphan|Marília Garcia Senlle/ISA
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Produção de óleo de pequi na aldeia Ngôjwêrê, no Território Indígena do Xingu (TIX), onde convivem 16 povos|Rogério Assis/ISA
Essas são ações que fortalecem os modos de vida, as culturas e as economias da sociobiodiversidade, que têm por base os Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs), um conjunto sofisticado de conhecimentos e práticas que promove fartura e cuidado ambiental, nos apontando uma possibilidade de futuro. Apesar de sua importância, esses conhecimentos estão sob constante ameaça, com pressão sobre os territórios, carência de políticas públicas e impacto da mudança climática.
Durante o encontro será lançado o minidocumentário Celebração da Diversidade - Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs) (veja mais informações no box).
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A roça tradicional indígena coexiste com a floresta no Alto Rio Negro (AM). Sistema Agrícola Tradicional (SAT) do Rio Negro é patrimônio cultural nacional|Fellipe Abreu/National Geographic
Na mesa estarão o arqueólogo Eduardo Neves, diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP e professor do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG); o diretor-presidente da Rede Terra do Meio (PA), Francisco de Assis Porto de Oliveira; o diretor da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), Hélio Lopes, do povo Tukano; e a comunicadora e pesquisadora Marta Gomes, também da Terra do Meio. A mediação é de Jeferson Camarão Straatmann, analista sênior em economias da sociobiodiversidade do Instituto Socioambiental (ISA).
Agenda
Mesa: “Sociobioeconomia Revelada - A contribuição das economias de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais para a formação das paisagens e regulação climática” Local: Estação Amazônia Sempre, no Museu Goeldi - Parque Zoobotânico – Auditorium Endereço: Av. Governador Magalhães Barata, 376 – São Braz, Belém – PA Data e hora: 09/11, das 17h às 18h Atenção: para acessar o serviço de tradução simultânea é necessário levar celular/fones de ouvido pessoais.
Participantes: Francisco de Assis Porto, Diretor-presidente da Rede Terra do Meio Hélio Lopes, povo Tukano, Diretor da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) Marta Gomes, Comunicadora e pesquisadora da Rede Terra do Meio Eduardo Neves, Arqueólogo do Museu Paraense Emílio Goeldi e Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP Mediação: Jeferson Camarão Straatmann, Analista sênior em economias da sociobiodiversidade do Instituto Socioambiental - ISA
Minidocumentário narrado por Francy Baniwa celebra diversidade dos Sistemas Agrícolas Tradicionais como solução para a crise climática
Uma imensidão verde recortada por rios talvez seja a imagem mais recorrente quando se retrata a Amazônia. Mas a aproximação do olhar por entre a copa das árvores da floresta vai revelar uma diversidade de cores, alimentos, práticas e modos de vida dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais - o que se repete nos demais biomas do país.
E o que podemos ver e conhecer com a aproximação do olhar é o tema do minidocumentário “Celebração da Diversidade - Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs)”. O filme é narrado pela liderança indígena, mãe, dona da roça e doutora em antropologia, Francy Baniwa, e será exibido pela primeira vez na COP30, em Belém, no dia 9 de novembro, na mesa “Sociobiodiversidade Revelada - A contribuição das economias de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais para a formação das paisagens e regulação climática”.
As imagens do minidocumentário “Celebração da Diversidade: Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs)” compõem o acervo do Instituto Socioambiental (ISA) e foram captadas a partir de projetos desenvolvidos em parceria com a Rede Terra do Meio; Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN); Associação Terra Indígena Xingu (ATIX) e Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale). As filmagens - com exceção do TIX - foram feitas pelo documentarista Fellipe Abreu, especialista em sistemas alimentares. A concepção do projeto é de Jeferson Camarão Straatmann, analista sênior em economias da sociobiodiversidade do ISA, e de Ana Amélia Hamdan, jornalista do ISA.
Ficha Técnica
Narração: Francy Baniwa Concepção: Jeferson Camarão Straatmann e Ana Amélia Hamdan Direção: Ana Amélia Hamdan e Fellipe Abreu Fotografia: Fellipe Abreu Imagem do TIX: Fábio Nascimento Roteiro: Luiz Felipe Silva Edição e finalização: Elder Barbosa Mixagem e som: Giovanni Reginato Realização: Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com o Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio) Agradecimentos: Rede Terra do Meio; Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN); Associação Terra Indígena Xingu (ATIX) e Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale). Apoio: Fundo Amazônia (FAM) e Rainforest (RFN)
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A resposta econômica e climática que vem dos territórios
Às vésperas da COP30, os conhecimentos e práticas de povos indígenas e comunidades tradicionais apontam caminhos concretos para enfrentar a crise do clima
Jeferson Straatmann
- Analista sênior em economia da sociobiodiversidade do ISA
O ano de 2025 começou com uma notícia climática alarmante: foi registrado o janeiro mais quente da história. O dado veio após 2024 ultrapassar a marca de 1,5°C de aumento na temperatura média da Terra em relação ao período pré-industrial - limite estabelecido pelo Acordo de Paris para evitar impactos catastróficos.
Essas informações reforçam a urgência de medidas práticas a serem definidas na COP30, a 30ª Conferência da ONU sobre mudanças climáticas, que acontecerá em Belém entre 10 e 21 de novembro.
Sendo a primeira na Amazônia, a conferência traz a oportunidade de ampla participação de indígenas, quilombolas e povos e comunidades tradicionais. Em 2024, esses povos lançaram a campanha "A Resposta somos nós", reivindicando protagonismo nos espaços de decisão.
Uma dessas respostas vem das economias da sociobiodiversidade, praticadas ancestralmente por pelo menos 28 povos tradicionais do país. A COP30 poderá tornar internacionalmente conhecida — e reconhecida — a resposta econômica e climática que vem dos territórios.
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Dona Nazária Mandú Lopes caminha até sua roça de pimenta, próxima à comunidade Canadá, Terra Indígena Alto Rio Negro (AM)|Carol Quintanilha/ISA
No centro dessa economia estão os Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs), conjunto de conhecimentos que detém sofisticadas tecnologias para enfrentar a crise climática: produz alimentos, movimenta a economia e, ao mesmo tempo, protege a natureza, promovendo ativos como a biodiversidade, cuidado com a água e regulação climática.
Esses sistemas se contrapõem aos meios degenerativos de produção, como o agronegócio. Não estão estruturados em monocultura, mas em diversidade e regeneração de ecossistemas.
Dessa forma, a diversidade ganha espaço com alimentos nem sempre encontrados nos supermercados, como o buriti, o açaí do mato, a castanha de baru, a bacaba, o sal de aguapé e uma grande variedade de mandioca e milho.
Só no Alto Rio Negro (AM), por exemplo, são 300 espécies de mandioca cultivadas pelos 23 povos indígenas que convivem na região. Variedade garantida inclusive pelas relações de trocas estabelecidas entre as mulheres, que perpetuam espécies, laços e histórias.
Está comprovado que, onde tem povos e comunidades tradicionais, tem floresta protegida. Relatório do Instituto Socioambiental (ISA) com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) aponta que, na Amazônia, no período de 2023/2024, a perda de vegetação foi de apenas 1,74% nas Terras Indígenas, em contraste com 27% fora delas. No Cerrado, o desmatamento nas TIs foi de 5,89%, sendo de 54,4% em outras áreas.
Outra pesquisa, dessa vez da Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e do ISA, mostra que, de 2003 a 2022, os quilombos perderam 1,4% de florestas, sendo que no entorno as perdas foram de 82%.
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Dona Rosana de Almeida, liderança do Quilombo Nhunguara, no Vale do Ribeira (SP), trabalha em sua roça|Manoela Meyer/ISA
As economias da sociobiodiversidade são também vitais para as demais cadeias da economia nacional, do agronegócio à geração de energia, que dependem do equilíbrio de chuvas e da qualidade dos solos e da água.
Além disso, levantamento do Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio) — com base em informações do IBGE e de sua própria rede de parceiros — indica que as economias da sociobiodiversidade movimentaram R$ 17,4 bilhões e geraram 525 mil postos de trabalho. Essa é uma pequena parte dessas economias, pois a maior parte ocorre informalmente e se encontra invisibilizada pelos dados oficiais.
Importante destacar que as economias da sociobiodiversidade diferenciam-se da bioeconomia que, conforme definição da Embrapa, é um modelo industrial baseado no uso de recursos biológicos com objetivo de oferecer soluções sustentáveis.
Mais do que de produtos, as economias da sociobiodiversidade devem ser entendidas, valorizada se promovidas como sistemas de conhecimento, de inovação e de serviços de conservação.
Esses sistemas vêm gerando abundância e preservação há milhares de anos, como mostra o projeto de arqueologia Amazônia Revelada, que questiona a ideia de floresta intocada e indica que a paisagem amazônica é resultado do manejo promovido há pelo menos 12 mil anos por diferentes povos.
Apesar de sua relevância, essas economias estão sob constantes pressões do agronegócio, do garimpo ilegal e de madeireiros, por exemplo. Soma-se a esse cenário crítico, a crise climática. Entre 2024/2025, por exemplo, não houve safra da castanha da região da Terra do Meio (PA) devido à seca na Amazônia.
Há ainda entraves no acesso a políticas públicas - o que gera dificuldades de crédito e incentivos tributários, inclusão sanitária, questões logísticas e carência dedados oficiais.
A proposta inicial da Reforma Tributária, por exemplo, não previa incentivos aos produtos da sociobiodiversidade, o que foi alterado após ampla campanha da rede ÓSocioBio.
O mesmo ocorre com o crédito rural. Outra mobilização, também coordenada pelo ÓSocioBio, revelou que, em 2024, a pecuária - um dos principais setores responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa no Brasil - abocanhou 91,7% dos recursos do Pronaf na Amazônia, enquanto menos de 2% foram destinados às cadeias da sociobiodiversidade.
Para prosperarem plenamente, essas economias demandam políticas públicas coordenadas e adequadas às realidades dos territórios. A garantia e a segurança do território são o ponto de partida.
Programas de aquisição de alimentos, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), vêm se mostrando eficazes na geração de renda, segurança alimentar e regulação climática, quando adequados aos territórios. Ao promoverem as roças tradicionais, ajudam a preservar as florestas.
Outra possibilidade vem da política de Pagamento por Serviço Ambiental (PSA), que propõe mecanismos de reconhecimento dos serviços ambientais providos pelos povos tradicionais.
As economias da sociobiodiversidade são cruciais para a transformação ecológica no Brasil, representando um diferencial único baseado na inovação e no conhecimento dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
Para sua potencialização, é preciso mais que o festival de cores e sabores de alimentos da Amazônia que a COP promete. É necessário que incentivos do Estado se alterem, reconhecendo as economias da sociobiodiversidade como caminho concreto diante da crise climática e das desigualdades sociais, apontando ao futuro em que a economia esteja a serviço da vida - e não o contrário.
A COP30, inclusive pela urgência, é o momento ideal para dar início a essa mudança. Mostrar ao mundo esse sistema funcionando plenamente na Amazônia, no Cerrado, na Caatinga, no Pantanal, na Mata Atlântica, no Pampa e nas águas é uma obrigação climática. É uma oportunidade para a economia do Brasil para além da COP30.
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ExpoTix promove festival de diversidade e movimenta as economias do Xingu
De colar de caramujo a sal de aguapé, feira do Território Indígena do Xingu celebra produção indígena, denuncia ameaças e busca apoio para futuras edições
A artesã Babalu Kuikuro, que vive na Aldeia Yawalapiti, no Território Indígena do Xingu (TIX), é conhecida pelos colares de caramujo - a joia do Xingu - que ela confecciona desde muito jovem. Ela aprendeu a fazer os colares com o seu pai e carrega nas mãos as marcas do ofício: a peça é feita com lâminas delicadas moldadas a partir das conchas de caramujo do Cerrado, que a cada dia estão mais difíceis de serem encontradas.
Tamuwa Wauja e sua companheira, Atapuwalu Wauja, da Aldeia Piyulaga, no Alto Xingu, são produtores de sal de aguapé, extraído das cinzas do aguapé, planta aquática manejada pelas famílias xinguanas.
Primeiro vem a coleta da planta aquática e, em seguida, acontece o longo processo de secar, cozinhar, desidratar e pilar. O resultado é um sal fino, claro e saboroso. “Esse é um tempero bastante usado com peixe assado e pirão. Pode ser puro ou misturado com pimenta. E é usado no Xingu todo também como remédio”, explica Tamuwa. Além dos Wauja, os principais produtores do sal de aguapé são os Aweti e Mehinaku.
Já Kumesiperiru Wauja é produtora de héjés - ou tachos para fazer beiju -, panelas, xícaras e outros utensílios feitos com argila, matéria-prima que leva até cinco horas de caminhada para ser encontrada. O cauxi (esponja de água doce), também usado nos objetos, está cada vez mais raro no Xingu devido às mudanças climáticas. As peças são desejadas por sua beleza e por terem uso antigo e tradicional, sendo ideais para a culinária indígena.
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Peças de Kumesiperiru Wauja, produtora de cerâmica tradicional, são desejadas pela beleza e utilidade na culinária indígena|Ana Amélia Hamdan/ISA
Os colares de caramujo, o sal de aguapé - delicadamente guardado em embalagem de folhas secas - e a cerâmica Wauja compuseram, junto com outros produtos, um verdadeiro festival de diversidade na 2ª ExpoTix - Feira e Exposição dos Produtos do Território Indígena do Xingu, entre os dias 16 e 19 de setembro, na aldeia Khikatxi, TI Wawi. Este ano, a ExpoTix comemorou também os 30 Anos da Associação Terra Indígena Xingu (ATIX).
O encontro teve a participação de representantes dos 16 povos do TIX e contou com cerca de 700 pessoas, principalmente indígenas. Povos de fora, como os Xavante e Panará, também estiveram presentes. Na parte cultural, aconteceram danças e cantos tradicionais. As apresentações incluíram um desfile de trajes típicos dos povos, com a participação da atriz e influencer Simone Sampaio, e show do DJ Eric Terena. Os comunicadores indígenas da ATIX e da Associação Indígena Khisêtjê (AIK) fizeram a cobertura do evento.
Presidente da ATIX, Ianukulá Kaiabi Suia considera que a ExpoTix promove a compra e venda de produtos, mas vai muito além. O encontro valoriza a roça e a comida tradicional, promove o intercâmbio entre os povos, fortalece o território e as economias do Xingu, combatendo a visão preconceituosa de que o indígena não produz.
A ATIX já planeja a terceira edição e, para isso, lançou a Carta da 2ª ExpoTix, que denuncia pressões que colocam em risco os modos de vida e produção dos povos do Xingu, desde o agronegócio até a alimentação ultraprocessada. O texto também indica e cobra apoio e políticas públicas que fortaleçam os povos, a cultura e as economias da sociobiodiversidade dos xinguanos.
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Na parte cultural, aconteceram danças, cantos tradicionais e um desfile de trajes típicos dos povos|Kamikia Khisêtjê
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A diretora de Etnodesenvolvimento Territorial da ATIX Watatakalu Yawalapiti e a atriz Simone Sampaio|Ana Amélia Hamdan/ISA
“Esse nosso projeto mostra que as terras indígenas têm produções que não são conhecidas e precisam ser valorizadas. Estamos dizendo para a sociedade não indígena e até para nós mesmos que os nossos produtos são todos orgânicos e deveriam ser reconhecidos e valorizados no mundo comercial também. Além disso, as nossas manifestações culturais estão fortemente ligadas aos nossos produtos das roças. Não é por acaso que existe a Festa do Pequi, a Festa da Mandioca, a Festa do Milho. Estamos falando de dinheiro, compra e venda, mas o nosso sistema tradicional de troca também permanece, com a realização do Moitará”, disse. O Moitará (troca) é um ritual tradicional de trocas e partilhas.
Produtores que participaram da ExpoTix aprovaram a feira e já se preparam para a próxima edição.
“Achei muito bom. Eu vendi bastante e também fiz muitas trocas. Eu trouxe para casa colar de tucum do pessoal do Baixo Xingu, farinha dos Khisêtjê, cestaria, urucum e também peixe seco. Esses foram os produtos que eu trouxe da ExpoTix”, conta Babalu Kuikuro. Ela também conseguiu a matéria-prima para confeccionar seus colares. Bernardina Xavante, da aldeia Abelhinha, Terra Indígena Sangradouro, encontrou as conchas na sua região, levou para a feira e trocou com Babalu, que entregou miçangas a ela.
Kumesiperiru, a artesã do povo Wauja, também vendeu e trocou peças. Ao fim da feira, levou na sua bagagem farinha Kaiabi, banana Khisêtjê e goiaba da mata para plantar.
Para o produtor Yaiku Tapayuna, da Associação Tapayuna (AIT), outra importância da feira é a troca de experiências. “A importância da feira é cada um conhecer a produção do outro e trocar experiências. Isso é importante para manter nossa cultura, nossa tradição e nossa forma de trabalhar. E isso depende da nossa organização. Na feira, estamos todos animados, mulheres, jovens e os parceiros. A feira é importante e mostra a nossa diversidade cultural e de alimentos”, diz.
Coordenador do Programa Xingu do Instituto Socioambiental (ISA), Roberto Rezende esteve na comemoração dos 30 Anos da ATIX e na ExpoTix. Ele ressaltou a importância da diversidade presente na feira, resultado dos modos de vida e produção dos povos indígenas.
“A gente vê aqui cerâmica, tecidos, cestaria, artesanato, comida, beiju, peixe. Mas há produções que resultam das práticas dos povos do Xingu que não cabem em nenhuma exposição. Enquanto o modelo não indígena de produção não gera diversidade e está causando degradação, o modelo diverso dos povos indígenas está interligado à floresta, que produz água, regula o clima”, explicou. “Então, sempre que alguém disser que os povos indígenas produzem pouco, podemos dizer que produzem muito, inclusive porque também produzem o mais essencial hoje: a regulação do clima e a chuva. Isso está começando a ser discutido como serviço ambiental, que é você remunerar os povos que produzem floresta e que produzem diversidade com esse trabalho", disse.
Assessora do Programa Xingu do ISA, Kátia Ono também ressalta a diversidade da ExpoTix, destacando as matérias-primas - algumas raras - que foram encontradas na feira. Uma delas é a resina usada em flechas e também no artesanato.
Ao circular entre os produtores, ela encontrou ainda artesanato com cabaça e linha; peixe com beiju; sucos de frutas do Cerrado; doce de jatobá com mel; paçoca de amendoim, além do prato tradicional feito com massa de mandioca recheada de peixe e assada na folha de bananeira.
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Tecidos, cestaria, urucum fizeram parte das partilhas da ExpoTix|Ana Amélia Hamdan/ISA
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Os artesanatos e a resina usada em flechas também fizeram parte das trocas|Ana Amélia Hamdan/ISA
Essa diversidade foi vista durante toda a ExpoTix: milho, amendoim, cará, mandioca, mangaba, goiaba da mata, abacaxi, coco, cana, farinhas de vários tipos, peixe, beiju foram alguns dos alimentos expostos na feira.
Só na banca dos produtores Jamanary Kaiabi e sua companheira Kunhakatu Kaiabi, da Aldeia Guarujá, tinha farinha de peixe, farinha de fazer pirão, quatro tipos de amendoim, três tipos de milho e dois tipos de cará. Mas Jamanary alerta: “A gente depende da chuva, que já não acontece mais dentro do calendário tradicional”.
Outro produto de destaque foi o mel. Durante a ExpoTix, a ATIX e o ISA montaram um estande do projeto Mel dos Índios do Xingu. Além do produto, foram expostos informações, fotos e até os equipamentos usados para a produção.
Coordenador de Alternativas Econômica da ATIX, Tariaiup Kayabi informa que o projeto do mel envolve 87 apicultores dos povos Kayabi, Ikpeng, Khisêtjê, Matipu, Kalapalo e Kuikuro. A maior parte da produção é para consumo das famílias e da comunidade.
Ele conta ainda que, no passado, seu povo consumia o mel produzido pelas abelhas nativas e não conhecia a abelha Europa, produtoras do mel do Xingu. “Antes de conhecer, o meu povo tinha medo de comer o mel da abelha Apis, que tem ferrão. Pensava assim: como tem a ferroada, talvez o mel tenha veneno. Mas depois foi conhecendo. Os anciãos disseram que o mel da abelha Apis é parente do mel da abelha nativa e também combate a gripe. E assim valorizaram o mel da abelha Apis”, relata.
Os impactos das mudanças climáticas e do avanço do agronegócio também estão afetando a produção do mel. Queimadas e ataques de tatu-canastra foram alguns dos problemas relatados por Tariaiup ocorridos nos últimos anos. A saída encontrada pelos apicultores foi a adaptação: com a ação de brigadas, os incêndios diminuíram. E, para enfrentar os ataques de animais, o grupo está usando cavaletes mais altos, que deixam as colmeias mais protegidas.
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Estande do projeto Mel do Xingu, desenvolvido em parceria entre ATIX e ISA|Ana Amélia Hamdan/ISA
A questão da mudança climática esteve presente em várias das discussões que aconteceram dentro da programação.
“A mudança climática mudou nossos indicadores, que eram o canto do pássaro, o vento, o calor, a umidade. Com essa mudança, de repente vem a chuva. E aí atrapalha o tempo de queima da roça. Agora, a queima da roça dá mais trabalho”, disse Yaiku Tapayuna. Ele levou para a feira artesanato, farinha azeda, farinha de puba, castanha de pequi. Um produto foi destaque: a goiaba da mata, que quase ninguém conhecia.
“Veio o sistema de homem branco e primeiro achamos lindo. Mas dentro do nosso sistema de produção, ninguém coloca veneno. Na nossa tradição, o nosso adubo é a nossa fala. Temos a forma de fazer o canto para adubar a terra”, refletiu.
Na mesa da Comissão de Alimentos Tradicionais dos Povos (Catrapovos), conduzida por Marcelo Martins, articulador territorial do ISA, foram debatidas as políticas públicas de aquisição de alimentos, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Foi trazido também o tema da adaptação, ou seja, medidas que os povos do TIX já estão tomando para se ajustarem às mudanças do clima, entre elas formas de irrigação; manejo do fogo; modos de fazer roça ou de organização das comunidades.
Liderança indígena e ativista, Watatakalu Yawalapiti, diretora de Etnodesenvolvimento Territorial da ATIX, conduziu a roda de conversa das mulheres.
“Estamos na 2ª ExpoTix e não há como não falar das mulheres quando se fala em bioeconomia. Elas cuidam das roças, fazem farinha e polvilho. E repassam esse conhecimento para os filhos e filhas. Os municípios, instituições governamentais e não governamentais precisam olhar para essas mulheres. Este ano vamos receber a COP30 e precisamos olhar para as mulheres que fazem a sustentabilidade dentro dos territórios indígenas”, disse.
Durante o debate, a questão da qualidade da alimentação foi um dos temas de destaque, com a preocupação com o consumo de ultraprocessados trazidos de fora. Consta da Carta da 2ª ExpoTix a ampliação da alimentação tradicional nas escolas e também nas unidades da saúde indígena.
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Sal de aguapé, guardado em embalagem de folhas secas: produto é usado como tempero e remédio|Ana Amélia Hamdan/ISA
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Peixe com beiju faz parte da cultura alimentar xinguana|Ana Amélia Hamdan/ISA
A médica sanitarista Sofia Mendonça, coordenadora do Projeto Xingu da Unifesp, fez uma apresentação indicando a mudança nas doenças que predominam no território, com o avanço de doenças não transmissíveis, como diabetes e hipertensão, muitas vezes ligadas a hábitos alimentares. Ela ressaltou a importância da feira também para saúde, já que valoriza a alimentação tradicional e saudável.
Liderança jovem, Lewaiki Khisêtjê trouxe reflexões sobre a potência das economias indígenas.
“Com esses projetos sustentáveis que a gente tem, podemos mostrar para as pessoas que existe uma economia diferente, não uma economia que destrói tudo, que está matando o nosso planeta. Então, esse é o momento exato de mostrar os nossos produtos da roça, os nossos projetos nos territórios e fazer uma educação para o não indígena, de como preservar, de como manter a floresta em pé. A gente tem a nossa renda, que beneficia a comunidade e os povos. A gente não quer o lucro só pra gente, como o agro quer. Para nós, a sociobioeconomia é isso”, resumiu.
O encontro foi realizado pela ATIX em parceria com a Secel/MT, Governo de Mato Grosso, Ministério da Cultura e Governo Federal, no âmbito do edital Feiras de Economia Criativa e Solidária – Edição Lei Paulo Gustavo, com apoio da Embaixada da França no Brasil, Energisa MT, Funai, Instituto Socioambiental (ISA), Dsei - Xingu, Unifesp (Projeto Xingu), Imaflora, Rede de Sementes do Xingu, Rede Xingu Mais, AIK Produções e Coiab.
Resistência e celebração: ATIX comemora seus 30 anos com cerimônia tradicional
A Associação Terra Indígena Xingu (ATIX) celebrou seus 30 anos de criação com uma grande festa tradicional na aldeia Khikatxi, do povo Khisêtjê. O evento marcou três décadas de luta, resistência e dedicação à preservação da vida e da cultura no Xingu. A solenidade de abertura foi carregada de significado, com o povo Khisêtjê acompanhando a diretoria da ATIX da casa do cacique Kuiussi Suya até o centro da aldeia (Ngá).
Durante a cerimônia, o cacique Kuiussi Suya expressou sua profunda alegria em sediar o encontro, que reuniu representantes de diversos povos: Kuikuro, Wauja, Matipu, Mehinako, Yawalapiti, Kalapalo, Nahukwá, Ikpeng, Awetí, Kamaiurá, Yudjá (Juruna), Kawaiwete (Kaiabi), Trumai, Khisêtjê (Suia) e Kajkwakratxi (Tapayuna).
Em sua fala, o presidente da ATIX, Ianukulá Kaiabi Suya destacou a mensagem central da celebração, que contou com a presença de parceiros. O secretário executivo do ISA, Rodrigo Junqueira, o coordenador do Programa Xingu, Roberto Rezende, o coordenador-adjunto do Programa Xingu, Ivã Bocchini, e outros membros da equipe estiveram presentes.
"A gente chega nos 30 anos da ATIX com a mensagem principal: 30 anos de luta, 30 anos de resistência. A ATIX consegue mostrar à sociedade não indígena que é possível adotar alguns sistemas de organização do "homem branco" ao seu próprio jeito, preservando e protegendo a instituição e a floresta por muitos anos”, disse Ianukulá Kaiabi Suia.
As celebrações contaram com a presença de ex-presidentes da ATIX e lideranças, entre eles Winti Suia, Mairawe Kaiabi e Tapi Yawalapiti. A celebração incluiu competições tradicionais, como torneio de arco e flecha e corrida, reafirmando a força da tradição dos povos do Xingu.
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Mato Grosso atualiza portaria e facilita emissão de nota fiscal por indígenas e quilombolas
Norma corrige lacuna histórica e amplia acesso a programas de compras públicas no estado; negociações foram conduzidas pela Comissão de Alimentos Tradicionais dos Povos no Mato Grosso, e contaram com apoio do ISA e do Instituto Centro de Vida (ICV)
Indígenas e quilombolas do estado do Mato Grosso passaram a contar, nesta semana, com uma nova norma específica que facilita a emissão de notas fiscais para esses povos. Foi publicada nesta quarta-feira, 10/09, a alteração na Portaria nº 131/2025 da SEFAZ-MT, com um capítulo específico que regulamenta a inscrição estadual por esses povos, condição para obtenção da nota fiscal.
A medida inédita corrige uma lacuna que até então dificultava a participação de produtores indígenas e quilombolas em programas de compras públicas, como as destinadas à alimentação escolar, por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) ou Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
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Dois dos alimentos entregues para as escolas via Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)|Ana Amélia Hamdan/ISA
Com a nova portaria, Mato Grosso se torna o primeiro estado brasileiro a regulamentar de forma específica inscrição estadual, facilitando a emissão de notas fiscais por povos indígenas e quilombolas. A regra vale a partir de sua publicação.
A mudança atende a uma demanda histórica e é resultado de mais de um ano de negociações conduzidas pela Comissão de Alimentos Tradicionais dos Povos no Mato Grosso (Catrapovos-MT), com apoio de entidades como Funai, Ministério Público Federal (MPF), Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer) e Secretaria de Estado da Educação do Mato Grosso (Seduc), além de organizações da sociedade civil, como o Instituto Socioambiental (ISA) e o Instituto Centro de Vida (ICV).
Antes, para obtenção da inscrição estadual, havia a exigência de comprovação da posse da terra, o que inviabilizava a inscrição estadual e afastava a emissão de nota fiscal e acesso a benefícios tributários.
O processo de mudança começou em 2023, quando a Catrapovos-MT – espaço de articulação para a adequação de políticas públicas à realidade desses grupos – criou um grupo de trabalho para acompanhar um projeto-piloto de chamada pública voltada à aquisição de alimentos produzidos por povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
A experiência ocorreu na Escola Estadual Indígena Hadori, do povo Iny-Karajá (TI São Domingos, Luciara-MT), que já havia manifestado a demanda de incluir preparos tradicionais no cardápio escolar e adquirir alimentos da própria comunidade.
Com articulação de diversos atores – DRE-Confresa/SEDUC, Empaer, Cecane-IFMT, Catrapovos-MT, MPF e Funai – seis produtores locais foram contemplados e realizaram entregas de alimentos. O piloto, entretanto, esbarrou em um obstáculo decisivo: a emissão de notas fiscais, inviabilizada pela dificuldade de obtenção da inscrição estadual pelos produtores indígenas.
A partir daí, em 2025, foi criado o GT-NF, que reuniu Catrapovos-MT, Sefaz-MT, Seduc-MT, Associação Mato-grossense de Municípios (AMM), MPF e Funai para construir soluções. O esforço culminou na redação aprovada agora, em agosto de 2025.
Conforme a portaria, a adequação das normas institucionais e a simplificação das atividades operacionais têm o intuito de fomentar as políticas públicas e a entrega de resultados.
Com a nova medida do estado do Mato Grosso, abre-se caminho para que essas populações tenham maior participação em programas públicos. A decisão pode influenciar a futura política tributária nacional.
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Produtores indígenas e quilombolas vendem insumos para a alimentação escolar, por meio do PNAE ou PAA|Lidiane Taverny Sales
Mais agricultura familiar e tradicional na alimentação escolar
Os povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares receberam outra boa notícia. A Câmara dos Deputados aprovou nesta semana projeto de lei que aumenta de 30% para 45% o mínimo de recursos do PNAE direcionados à compra de gêneros alimentícios diretamente da agricultura familiar.
Conforme a Agência Câmara de Notícias, o texto já passou pelo Senado e será enviado à sanção presidencial. A nova medida vale a partir de 2026.
Essa ampliação fortalece os sistemas agrícolas tradicionais dos indígenas, quilombolas e outros povos e comunidades. Além de atuar na segurança alimentar, essa é também uma forma de proteger o meio ambiente, modos de vida e cultura. As roças tradicionais são cultivadas em meio às florestas e campos, ou seja, ao mesmo tempo produzem alimentos e promovem o cuidado com a água, com a biodiversidade e com o clima.
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Aliança dos Povos promove mutirão pelo Dia Internacional da Amazônia em Brasília
Coletivos de povos e comunidades reunidos na Semana da Sociobiodiversidade participaram de sessão solene no Congresso e se uniram ao ato “A Resposta Somos Nós”, ampliando vozes e se conectando à agenda da COP30
Um mutirão de povos e comunidades tradicionais marcou o Dia Internacional da Amazônia, nesta quinta-feira (04/09), em Brasília, antecipando em um dia a comemoração da data. Cerca de 450 representantes de coletivos de povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, extrativistas, extrativistas costeiros marinhos e agricultores familiares, reunidos na Semana da Sociobiodiversidade lotaram o plenário da Câmara dos Deputados em sessão solene. Depois, se juntaram a outros povos no ato “A Resposta Somos Nós”, na Esplanada dos Ministérios.
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Em sessão solene, povos e coletivos da Amazônia e outros biomas entregaram a Carta da Sociobiodiversidade aos deputados|Thiago S. Araújo
Durante a solenidade foi entregue aos deputados a Carta da Sociobiodiversidade, onde os povos reforçaram coletivamente o seu protagonismo no enfrentamento à crise climática e também para a economia do país e cobraram políticas públicas adequadas às realidades dos territórios. E deixaram claro que querem espaço e voz na COP30 para terem reconhecimento efetivo de seus modos de vida e produção como promotores da regulação climática. Na sexta-feira, o documento também foi entregue a representantes do Governo Federal, entre eles a secretária Nacional de Bioeconomia, Carina Pimenta.
As principais demandas são: proteção territorial e regularização fundiária; garantia de participação na COP30, em Belém, com participação nos debates e reconhecimento do protagonismo dos povos no enfrentamento à crise climática; apoio financeiro e tributário, com criação do Seguro Climático e implementação do Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), entre outros; ampliação e adequação de políticas públicas; políticas específicas e adequadas para gênero e juventude.
Dione Torquato, secretário geral do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), pontua que para avançar na política socioambiental é preciso um tripé formado por uma estrutura adequada do Estado que possa dar suporte aos povos e comunidades tradicionais; orçamento para a execução das políticas nos territórios; e políticas públicas adequadas.
“Temos uma pauta em comum, que é a manutenção do nosso modo de vida, das nossas culturas, a compreensão da nossa inter-relação com o território, mas cada um dos povos tradicionais tem uma especificidade. Na Amazônia, existem várias amazônias dentro do mesmo bioma, assim como os maretórios e dos outros biomas, e as políticas precisam se adaptar”, diz.
Sessão solene
No início da tarde de quinta-feira, o plenário da Câmara dos Deputados foi tomado por uma diversidade de povos e coletivos da Amazônia e outros biomas. Júlio Barbosa, presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), falou da emoção de ver os extrativistas reunidos no Congresso.
“Essa população que está aqui na nossa frente mostra, de fato, como a Amazônia deve ser valorizada, com a nossa biodiversidade garantida e com a proteção da floresta e do nosso povo”, disse.
A ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, participou da Sessão Solene e falou da importância dos povos e comunidades tradicionais na preservação da floresta. “A Amazônia é mais que o bioma floresta, é um sistema vivo que regula o clima e guarda a maior biodiversidade do planeta e é sustentada pelos modos de vida ancestrais e fruto do manejo, do cuidado e convivência harmoniosa dos povos indígenas, quilombolas, extrativistas ao longo dos séculos”, disse
Ela trouxe ainda os retrocessos do Congresso Nacional em relação à legislação ambiental. Um dos exemplos é o PL da Devastação, aprovado em maio pelo Congresso, mas que teve vetos do presidente Lula.
Também presente na sessão, o diretor-adjunto do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), Marcos Woortmann, informou que cerca de dois terços dos atos legislativos recentes no Brasil foram contrários aos interesses do meio ambiente.
Na mesa também estavam Alana Manchieri, Assessora Internacional, Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), e Ângela Mendes, presidente do Comitê Chico Mendes e filha de Chico Mendes, símbolo da luta pela Amazônia.
Logo após a sessão solene, foi realizado o ato que reforçou a “Declaração do Mutirão dos Povos da Amazônia para COP 30: A resposta somos nós”, construída coletivamente pelos movimentos durante o Mutirão dos Povos, realizado em Belém em julho.
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Cerca de 450 representantes de coletivos de povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, extrativistas e agricultores em marcha|Thiago S. Araújo
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Participantes pedem proteção territorial, participação na COP30 e políticas públicas adequadas aos povos e comunidades tradicionais|Thiago S. Araújo
Com mensagens como “Território protegido, Brasil soberano” e “Amazônia livre de petróleo e gás”, realizaram uma marcha na Esplanada dos Ministérios.
Semana da Sociobiodiversidade
Brasília foi palco, entre 1º e 5 de setembro, da segunda edição da Semana da Sociobiodiversidade, que levou para o centro da política nacional as demandas de povos e comunidades tradicionais.
Com mais de 450 participantes, o encontro reúne organizações extrativistas de diferentes regiões do país que atuam nos segmentos socioprodutivos da borracha, pirarucu, castanha-da-Amazônia e pesca artesanal em Reservas Extrativistas Marinhas e Costeiras.
Dados do Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio) mostram a importância do setor. Em 2023, os produtos da sociobiodiversidade geraram R$17,4 bilhões e criaram 525 mil postos de trabalho. Além disso, o setor protegeu 60 milhões de hectares, o que demonstra sua contribuição direta para a preservação ambiental.
As economias da sociobiodiversidade têm se mostrado vitais inclusive para assegurar o desenvolvimento das demais cadeias produtivas da economia nacional, da agricultura à geração de energia, uma vez que esses setores dependem do equilíbrio de chuvas e da qualidade dos solos e da água. O manejo desses povos e comunidades garante a produção de alimentos ao mesmo tempo que protege o meio ambiente, contribuindo para o equilíbrio e promovendo biodiversidade, cuidado com a água e regulação climática.
“A mobilização nacional reforça que povos extrativistas, indígenas, quilombolas e ribeirinhos não são apenas guardiões da floresta, do mar e dos territórios, mas também protagonistas de soluções concretas para a crise climática e para um modelo de desenvolvimento mais justo e sustentável”, destaca a secretária-executiva do Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio), Laura Souza.
Organizada pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) e pela Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas Costeiras e Marinhas (CONFREM), em parceria com o Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio), a semana teve o apoio de diversas instituições, entre elas o Instituto Socioambiental (ISA).
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Semana da Sociobiodiversidade leva pauta dos povos tradicionais ao Congresso e se conecta à COP30
Encontro acontecerá em Brasília, de 1º a 5 de setembro, com participação de coletivos de todo o país, e contará com sessão solene no Congresso e ato público pela Amazônia
A segunda edição da Semana da Sociobiodiversidade, encontro nacional que mobiliza povos e comunidades tradicionais em defesa de suas economias, territórios e direitos, acontecerá em Brasília, entre os dias 1 e 5 de setembro. Um dos objetivos é mobilizar agendas e encontros, promovendo diálogos entre povos tradicionais e representantes do Executivo e do Legislativo para fortalecer a pauta das economias da sociobiodiversidade.
Estarão reunidos em Brasília cerca de 350 lideranças, juventudes, coletivos e organizações extrativistas que atuam nos segmentos socioprodutivos da borracha, pirarucu, castanha-da-Amazônia e pesca artesanal em Reservas Extrativistas Marinhas e Costeiras.
A programação inclui debates, encontros e mobilização no Congresso Nacional e atos públicos.
No dia 4 de setembro, às 14h, haverá sessão solene no Congresso Nacional, com participação de lideranças dos povos e comunidades tradicionais. Também no dia 4, às 16h, haverá ato público em defesa da Amazônia, com marcha na Esplanada dos Ministérios, em alusão ao Dia da Amazônia. No mesmo dia, a manifestação “A Resposta Somos Nós”, na Praça dos Três Poderes, conectará a agenda da sociobiodiversidade à mobilização global pela COP30.
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Semana da Sociobiodiversidade de 2023 reuniu povos e comunidades no Congresso Nacional|Myke Sena
As discussões giram em torno do tema “Fortalecendo Economias Sustentáveis, Pessoas, Culturas e Gerações”, com o objetivo de valorizar os territórios e maretórios tradicionais e propor soluções e adequações de políticas públicas que promovam as economias dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e outros povos e comunidades tradicionais.
Com seus sistemas de saberes, esses povos vêm produzindo fartura e, ao mesmo tempo, protegendo florestas, o que promove biodiversidade, cuidado da água e regulação do clima.
Organizada pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) e pela Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas Costeiras e Marinhas (CONFREM), em parceria com o Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio), a Semana da Sociobiodiversidade tem o apoio de diversas instituições, entre elas o Instituto Socioambiental (ISA).
“O evento é um espaço no qual as comunidades extrativistas reafirmam seu papel na proteção dos ecossistemas e na construção de um modelo de desenvolvimento justo e sustentável”, afirma o secretário-executivo do CNS, Dione Torquato.
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Organizações extrativistas dos segmentos socioprodutivos da castanha, borracha, pirarucu, e pesca artesanal participam da mobilização|Leonardo Halszuk
A plenária final acontece em 5 de setembro, com a pactuação coletiva “Avanços e Desafios na Agenda da Sociobiodiversidade”. Nesse momento, serão apresentados ao Governo Federal documentos construídos durante a Semana, entre eles a Carta da Sociobiodiversidade e a Carta da Juventude: Rumo à COP30, que será levada a líderes nacionais e internacionais, e a Carta da CONFREM Brasil: pré-COP dos Oceanos.
“A mobilização nacional reforça que povos extrativistas, indígenas, quilombolas e ribeirinhos não são apenas guardiões da floresta, do mar e dos territórios, mas também protagonistas de soluções concretas para a crise climática e para um modelo de desenvolvimento mais justo e sustentável”, destaca a secretária-executiva do ÓSocioBio, Laura Souza.
Confira a programação completa
Local: As atividades da Semana da Sociobiodiversidade ocorrerão na Pousada dos Angicos (Brazlândia/DF). Haverá ainda Sessão Solene no Congresso e Ato Público na Esplanada dos Ministérios e na Praça dos Três Poderes. Data: 1 a 5 de setembro
1/9 - Segunda-feira
10h – Abertura do III Encontro Nacional de Juventude
14h - III Encontro Nacional de Juventude
2/9 - Terça-feira
9h - Abertura Oficial da Semana da Sociobiodiversidade
14h – Encontros Setoriais dos coletivos:
- III Encontro Nacional da Juventude
- Pré-COP dos Oceanos – Coletivo da Pesca Artesanal Extrativista Marinho-costeira
- 14ª Reunião do Coletivo do Pirarucu
- Reunião do Observatório Castanha-da-Amazônia (OCA) & Mobilizadores das Regionais Castanheiras
- Reunião do Coletivo da Borracha
3/9 - Quarta-feira
9h e 14h – Continuidade dos Encontros Setoriais e encaminhamentos para a construção dos documentos:
- Carta da Sociobiodiversidade
- Carta da Juventude: Rumo à COP30, que será levada a líderes nacionais e internacionais
- Carta da CONFREM Brasil: pré-COP dos Oceanos
10h às 18h - Oficina com os jovens sobre comunicação
4/9 - Quinta-feira
9h: Financiamento Climático
14h: Sessão Solene no Congresso Nacional
16h: Ato sobre o Dia da Amazônia - Marcha na Esplanada dos Ministérios
5/9 - Sexta-feira
9h - Pactuação e compromissos - avanços e desafios na agenda da sociobiodiversidade
11h - Plenária sobre Mudanças Climáticas e a garantia dos territórios tradicionais no Brasil
12h - Lançamento pelo ÓSocioBio do livro “Florescendo nas brechas: territórios tradicionais e economias da sociobiodiversidade”, resultado de uma ampla construção coletiva.
14h - Plenária com representantes dos Ministérios
Leitura da Carta da Sociobiodiversidade
16h30 - Feira da Sociobiodiversidade
Entre os dias 07 e 10 de agosto, o Sesc Pinheiros, em São Paulo, vai receber o Fórum Movimentos pela Regeneração – em Direção à COP30, um espaço de mobilização e reflexão sobre a emergência climática e os caminhos possíveis para a regeneração dos ecossistemas e da vida no planeta.
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Roça em meio à floresta: sistema agrícola e de saberes indígenas promove fartura e, ao mesmo, protege o meio ambiente|Fellipe Abreu/National Geographic
A programação reúne mesas de debates, oficinas, vivências e apresentações culturais com a participação de lideranças indígenas, ambientalistas, pesquisadores, artistas, jornalistas e representantes de organizações da sociedade civil e governos.
Um dos destaques do evento é a mesa “Sociobioeconomia e Povos Indígenas”, que acontece no sábado (09/08), das 10h às 11h30, com a presença de André Baniwa (consultor da Secretaria de Saúde Indígena do Ministério da Saúde), Jeferson Straatmann (analista sênior do Instituto Socioambiental – ISA) e Kinyapiler Johnson González (artista e ativista da Comarca Indígena Guna Yala, Panamá). A mediação será da educadora e pesquisadora Naine Terena.
A atividade pretende trazer ao centro do debate os sistemas socioprodutivos indígenas, que articulam diversidade, conhecimento ancestral e conservação da biodiversidade, indicando uma alternativa a atividades predatórias de produção e consumo.
Além da programação presencial, as mesas de debate serão transmitidas ao vivo pelo canal do Sesc SP no YouTube.
A mesa sobre sociobioeconomia dialoga com os conteúdos da Revista E - Sesc São Paulo, publicada em agosto e que também aborda o tema com entrevistas de André Baniwa e Jeferson Straatmann, entre outras fontes.
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Jeferson Straatmann, do ISA, participará da mesa sobre sociobioeconomia|Carol Quintanilha/ISA
Para eles, as tecnologias indígenas e os modos de vida tradicionais representam alternativas ao mesmo tempo ancestrais e inovadoras para o enfrentamento da crise climática global.
A conferência de abertura do Fórum será na quinta-feira (07/08), com o tema “Esperançar diante da emergência climática”, com participação de Márcio Astrini (Observatório do Clima) e Susana Muhamad (ex-ministra do Meio Ambiente da Colômbia e ex-presidenta da COP16), sob mediação da jornalista Cristina Serra. A jornalista Paulina Chamorro será mestre de cerimônias do evento.
Participam da programação nomes como Paulo Artaxo, especialista em mudanças climáticas do Departamento de Física da USP; Marcos Sorrentino, ambientalista e diretor do departamento de educação ambiental e cidadania do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima; Márcio Astrini, do Observatório do Clima; Susana Muhamad, ex-ministra do Meio Ambiente da Colômbia; Amanda Costa, ativista climática.
SERVIÇO
Fórum Movimentos pela Regeneração – em Direção à COP30
De 07 a 10 de agosto de 2025, quinta a domingo
Sesc Pinheiros – Rua Paes Leme, 195, São Paulo
Programação completa em: sescsp.org.br/forumprecop
As mesas terão transmissão ao vivo pelo canal do Sesc SP no YouTube www.youtube.com/sescsp
Mesas de debate - Teatro Paulo Autran
Retirada de ingressos
Online: A partir de 05 de agosto, às 12h, no Portal Sesc SP e no aplicativo Credencial Sesc SP
Presencialmente: A partir de 06/08, às 12h, na bilheteria do Sesc Pinheiros
Grátis - 1 ingresso por CPF
Bate-papos, oficinas e vivências - Ginásio Ónix
Retirada de senhas no local, 30 minutos antes
Demais atividades (intervenções, apresentações artísticas etc.) têm entrada gratuita.
ESPETÁCULOS COM VENDA DE INGRESSOS
Show | Fafá de Belém - Guitarradas do Pará
Dia 10 de agosto. Domingo, 18h
Local: Teatro Paulo Autran.
Ingressos: R$70 / R$35 / R$21
2 ingressos por CPF
Espetáculo | Macuco
De 07 a 09 de agosto. Quinta a sábado, 20h
Local: Auditório
Ingressos: R$50 / R$25 / R$15
Teatro | Crianças | Dia-u'ti’karo: a Sucuri e o Segredo dos Pássaros
Dia 10 de agosto. Domingo, 15h e 17h
Local: Auditório
Ingressos: R$40 / R$20 / R$12
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Ribeirinhos das Resex do Médio Xingu, do Rio Iriri e do Riozinho do Anfrísio lançam Protocolos de Consulta, na UFPA
Documentos construídos coletivamente fortalecem o direito à consulta prévia, o protagonismo das comunidades e a autonomia na tomada de decisões sobre seus territórios
Em uma conquista construída ao longo de anos de mobilização, as Associações de Moradores da Resex do Riozinho do Anfrísio (Amora), do Médio Xingu (Amomex) e do Rio Iriri (Amoreri) lançaram seus Protocolos de Consulta, reafirmando o direito de decidir sobre seus territórios de acordo com seus próprios modos de vida. O lançamento aconteceu no início de julho no Instituto Amazônico de Agriculturas Familiares (Ineaf), da Universidade Federal do Pará (UFPA), em um encontro que reuniu lideranças comunitárias, pesquisadores, estudantes e apoiadores da causa socioambiental.
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Os protocolos de consulta do Riozinho do Anfrísio, Rio Iriri e Resex do Xingu foram lançados na Universidade Federal do Pará (UFPA)|Hugo Chaves/ISA
O evento contou com as participações dos presidentes das associações Raimundo Freire, Júlio César e Francinaldo Lima, das professoras da UFPA Raquel Rodrigues dos Santos e Natália Ribas Guerrero, da coordenadora adjunta do Programa Xingu do Instituto Socioambiental (ISA), Fabíola Silva, do advogado e doutorando em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), Rodrigo Oliveira, da antropóloga Vanuza Cardoso, do Quilombo Abacatal, e do representante do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), José Ivanildo Brilhante, além de pesquisadores e estudantes do Ineaf.
Em sua fala, Fabíola Silva recordou o processo de elaboração dos protocolos, que foi iniciado em 2022 com amplo debate nas comunidades e respeitando as suas formas tradicionais de organização e os espaços de governança existentes.
“É fundamental que o protocolo reflita as práticas e os modos de tomada de decisão que as comunidades já exercem em seus territórios”, afirmou a coordenadora adjunta do ISA. “Nesse sentido, o papel do protocolo é registrar aquilo que já é vivenciado na prática. Assim, o documento se torna mais acessível, favorecendo a apropriação pelas comunidades e fortalecendo a sua efetividade”, avaliou.
O assessor das Associações da Terra do Meio, Francinaldo Lima, explicou que as comunidades que compõem a região são formadas, sobretudo, por descendentes de migrantes nordestinos que vieram trabalhar na época do auge da borracha, mas sem desconsiderar a importante participação da matriz indígena na composição desta sociedade dos seringais. “Com o fim do ciclo da borracha, essas pessoas permaneceram no território e foram desenvolvendo modos de vida com o rio e com a floresta e formando as comunidades ribeirinhas nessas áreas”, contou.
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Da esquerda a direita: Fabíola, Ivanildo, Rodrigo, Vanuza, Natalia e Raquel, durante o Lançamento do Protocolo de Consulta|Hugo Chaves/ISA
Lima relatou que durante muito tempo, esse território foi alvo de pressões externas com o roubo de madeira, a grilagem de terras e o garimpo ilegal, e a população não tinha acesso às políticas básicas.
“Na Resex do Rio do Anfrísio vivem 125 famílias, na Resex do Rio Iriri são aproximadamente 135 famílias e na Resex do Rio Xingu, 65 famílias. Essas famílias não tinham acesso às políticas de saúde e educação, por exemplo. Mas os moradores e as lideranças se mobilizaram para garantir os seus direitos e o acesso às políticas públicas com a construção de escolas e postos de saúde que passaram a funcionar a partir de 2014”, salientou.
O assessor também reforçou a necessidade da construção dos Protocolos de Consulta para delimitar melhor os espaços de governança e de tomada de decisão, sobretudo quando o poder público chega ao território.
O presidente da Associação de Moradores do Médio Xingu (Amomex), Júlio Souza, estava visivelmente emocionado com o lançamento do Protocolo de Consulta da sua comunidade. “Tivemos que passar por muita coisa, muitos direitos foram violados e não consigo nem expressar em palavras a emoção de lançar o Protocolo de Consulta e conquistar o nosso espaço, pois esse é um direito nosso, um direito de sermos consultados e sermos atendidos conforme o nosso modo de vida”, declarou.
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Francinaldo Lima (ao microfone) exalta a mobilização de moradores e lideranças para garantir os seus direitos|Hugo Chaves/ISA
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Júlio Souza (ao microfone) relembra emocionado o processo de construção dos protocolos|Hugo Chaves/ISA
Raimundo Freire, presidente da Associação de Moradores da Resex Riozinho do Anfrísio (Amora), concordou com Souza sobre a importância da consulta prévia à comunidade independente do órgão ou organização que queira desenvolver algum projeto na região.
“Pode ser do governo ou algum empreendimento privado. Nós fizemos os Protocolos e queremos que sejam respeitados através da consulta prévia para que todos os moradores entendam a real situação daquele projeto. Conseguimos lançar esse documento com muita luta, esforço e gasto, para hoje termos a garantia de que não podem fazer nada na nossa comunidade sem sermos consultados ou iremos cobrar do poder público”, enfatizou.
Freire também lembrou do fato do governo do Pará não realizar a consulta prévia nas comunidades da Terra do Meio durante o processo de venda dos créditos de carbono no estado.
Sobre esse tema, no mês passado, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação para anulação de um contrato de compra e venda de créditos de carbono de quase R$ 1 bilhão a um grupo de governos estrangeiros e multinacionais alegando a violação da Lei 15.042, que regulamenta o mercado de carbono no Brasil. Além disso, não houve consulta prévia, livre e informada aos povos e comunidades tradicionais antes de o acordo ser firmado.
Consulta prévia: reflexões e experiências
O Instituto Amazônico de Agriculturas Familiares (Ineaf/UFPA) possui um Bacharelado em Desenvolvimento Rural e um Programa de pós-graduação em Agriculturas Amazônicas e temas como os direitos de povos e comunidades tradicionais, dinâmicas territoriais e a elaboração de instrumentos, como os protocolos de consulta, são abordados na formação acadêmica.
A professora do Ineaf, Natalia Ribas Guerrero, que mediou a segunda mesa sobre as reflexões e experiências do processo de consulta prévia, confirmou a atuação de estudantes do Instituto cujas origens são desses territórios amazônicos.
“Nós entendemos como de suma importância ampliar a informação sobre o direito à consulta e aos protocolos, buscando contribuir com a defesa dos direitos em uma conjuntura marcada por ameaças e pressões”, afirmou.
A antropóloga e liderança espiritual do Quilombo Abacatal, Vanuza Cardoso, também participou do debate sobre as experiências da utilização do Protocolo em sua comunidade.
“Iniciamos a construção no nosso Protocolo de Consulta em 2017 por causa de um empreendimento, o projeto da Avenida Liberdade, que iria passar no meio da comunidade. Mas, com o Protocolo e muitas lutas e questionamentos, conseguimos mudar o projeto e hoje ele está a 1 km da comunidade. Isso não significa que não trará impacto, mas conseguimos tirá-lo de dentro do nosso território”, relatou a liderança.
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Antropóloga e liderança espiritual do Quilombo Abacatal, Vanuza Cardoso, conta como o Protocolo foi importante para a comunidade|Hugo Chaves/ISA
Vanuza também destacou a importância do governo do estado do Pará em reconhecer e respeitar as regras dos protocolos e realizar as consultas prévias, como previstas em lei.
“Temos um banco de dados no Observatório de Protocolos que comprova que o estado do Pará é o que tem mais protocolos dos povos e comunidades tradicionais, mas não vemos uma sensibilidade do governo em observar esses protocolos. Por exemplo, este plano de consulta do [sistema jurisdicional de] REDD+ não foi prévio, nem foi informado”, afirmou.
Segundo o representante do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), José Ivanildo Brilhante, que também participou da mesa, a criação das reservas extrativistas (Resex) ocorreram como uma forma de garantir o direito ao uso da terra e dos recursos naturais, semelhantes aos das reservas indígenas.
“A nossa primeira ferramenta antes do território ser criado foi o Plano de Uso que é algo similar ao Protocolo de Consultas. O plano era utilizado para que o governo reconhecesse que existia uma relação diferenciada dessas comunidades com a natureza”, explicou Brilhante.
“Chico Mendes foi o fundador do CNS e lutava por uma reforma agrária para os seringueiros, o que nós chamamos de reforma agrária ecológica que possibilitou o surgimento das reservas extrativistas como um território coletivo das populações tradicionais e da biodiversidade. Com a publicação do Decreto 6.040/2007, passamos a ter acesso às políticas públicas”, comemorou.
Oficina para elaboração de um Protocolo de Consulta
No segundo dia de atividade de lançamento dos Protocolos das Resex, o advogado e doutorando em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), Rodrigo Magalhães de Oliveira, ministrou uma oficina sobre a elaboração de um protocolo de consulta detalhando as etapas deste instrumento e ressaltando a importância do intercâmbio de conhecimentos e das trocas de experiências entre os participantes que, muitas vezes, são originários de diferentes regiões e culturas, mas sofrem com as violações de direito de forma semelhante.
“Para além de auxiliar na formação de possíveis mediadores e apoiadores das comunidades desses processos de construção de um protocolo de consulta, este espaço também permite o compartilhamento de experiências, pois temos aqui presidentes de associações, lideranças e estudantes com trajetórias diversas e que, certamente, em algum momento se depararam com violações de direito à consulta durante a construção de empreendimentos na Amazônia que desrespeitaram os direitos das populações locais”, ressaltou.
Os principais pontos expostos por Oliveira durante a oficina foram sobre o direito à consulta prévia de uma comunidade ou povo e como aquela comunidade toma as suas decisões. Esse procedimento deve ser detalhado no protocolo de consulta daquele povo, conforme previsto na Convenção 169, da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
O palestrante reforçou também que o Estado tem o dever de realizar a consulta prévia independentemente da existência de um protocolo de um povo ou etnia, e essa consulta não poderá ser uma responsabilidade da empresa interessada em desenvolver algum projeto na região.
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Rodrigo Magalhães conduziu a Oficina de Construção de Protocolo de Consulta|Hugo Chaves/ISA
Oliveira trouxe aspectos teóricos importantes para um melhor entendimento do processo de elaboração de um protocolo como o conceito do multiculturalismo, por exemplo. Segundo o advogado, a ideia do multiculturalismo nasce nos países liberais com a proposta de incorporar as minorias étnicas às regras jurídicas e políticas de um determinado país.
“A ideia de distribuição de direitos coletivos para os grupos étnicos minoritários como os povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, evitou que essas comunidades se insurgissem ou se rebelassem contra o Estado”, explicou.
Essa necessidade de previsão dos direitos das minorias nas legislações dos Estados nacionais, por meio das Constituições, e internacionais, como na Convenção 169 da OIT, foi suscitada pelos inúmeros acirramentos dos conflitos étnicos no mundo e não somente nos países de passado colonial, mas, inclusive, nos países europeus.
Para Oliveira, o objetivo era mudar a relação de integração forçada, de assimilação, de genocídio, de desterritorialização dos povos, a partir dessas novas leis e do reconhecimento dos direitos coletivos desses grupos.
“No entanto, o problema desse modelo é que as decisões continuam a cargo dos grupos hegemônicos. Por isso, a importância dos protocolos de consulta”, concluiu.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Povos da Terra do Meio fortalecem alianças e inovam na sociobioeconomia
Semana do Extrativismo, promovida pela Rede Terra do Meio na aldeia Ita´Aka (PA), reforça união entre indígenas, beiradeiros e agricultores familiares e avança no diálogo com parceiros públicos e privados, protegendo territórios e sustentabilidade
A distância que separa a casa e a roça da família da professora e artesã Ipikiri Assurini, na aldeia Ita´Aka, não é tão grande. Depois de caminhar pela lateral do campo de futebol na parte central da comunidade e, em seguida, passar perto da Casa Sagrada, entra-se numa trilha. E daí a pouco já começam a fartura e a diversidade: cacau, banana, mandioca.
Esses produtos, cultivados em meio à floresta, alimentam a família e são partilhados com a comunidade, algumas vezes em forma de preparos tradicionais, como o mingau da macaxeira doce, espécie que só esse povo domina.
Desde o ano passado, os produtos das roças, dos rios e das florestas têm uma nova destinação: a escola da comunidade. A partir do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), esses alimentos passaram a compor a alimentação escolar.
“Essa roça é da minha família e tem plantação de cacau, banana, mandioca. A gente está entregando na escola, para o pessoal que faz a merenda. E o pessoal nos faz o pagamento. Na escola estudam os meus sobrinhos, minha prima e todos os meus quatro filhos. Eu entrego tudo natural. Não são as coisas que vêm da cidade. E eu me sinto bem feliz que eles estão comendo o que vem da roça”, conta Ipikiri Assurini.
Quando trilham esse caminho dos alimentos, os povos da Terra do Meio - indígenas, beiradeiros e agricultores familiares - garantem alimento da família, dos alunos, da comunidade. Mas também movimentam as economias da sociobiodiversidade, ou seja, a economia praticada ancestralmente por essas pessoas, baseada em seus sistemas agrícolas e de saberes que protegem a floresta e a cultura.
Essa economia dos povos da floresta esteve no centro das discussões na Semana do Extrativismo - Semex 10ª Edição, realizada pela Rede Terra do Meio entre os dias 21 e 25 de maio.
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União dos povos da Terra do Meio e novas parcerias marcaram a 10ª Edição da Semana do Extrativismo|Juliana Oliveira/ISA
O encontro, na Aldeia Ita´Aka, a duas horas de Altamira (PA), fechou suas atividades marcado pela aliança entre os povos e avançando na construção de parcerias para apoio na execução do planejamento da Rede Terra do Meio para o futuro, indicando um coletivo fortalecido e unido para os desafios da sociobiodiversidade. Outro destaque foi a diversidade e a representatividade: entre as cerca de 300 pessoas presentes estavam beiradeiros, agricultores familiares e indígenas de povos como Xipaya, Xikrin e Arara.
Um dos diferenciais dessa edição foi a maior participação do poder público, sendo que também foram renovados diálogos com apoiadores privados e financiadores.
Entre os parceiros e apoiadores estavam órgãos públicos como Ministério do Meio Ambiente (MMA); ICMBio; Companhia Nacional de Abastecimento (Conab); Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai); Banco do Brasil; Governo do Estado do Pará; Banco do Brasil. As empresas Mercur e Natura, entre outras, também estiveram no encontro.
Além de traçar o planejamento da Rede Terra do Meio, a Semex promoveu o debate de temas como políticas públicas de aquisição de alimento - Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE); Pagamento por Serviço Ambiental (PSA); Fundo Terra do Meio e estratégias de mercado.
“Essa décima Semex nos faz refletir o quanto que a Rede cresceu e conseguiu aproximar outros atores que estão colaborando para o fortalecimento. Há alguns anos, dificilmente a gente conseguiria articular e aproximar o poder público. Hoje estamos aqui vivenciando um momento único, fazendo com que o poder público entenda a realidade dessas comunidades e, a partir desta compreensão, possa formular leis e políticas públicas adequadas à realidade desse povo”, disse Francinaldo Lima, membro da secretaria executiva da Rede Terra do Meio.
Diretor-presidente da Rede Terra do Meio, Francisco de Assis Porto de Oliveira, o seu Assis, explica que a Semex é um espaço de governança onde busca-se o diálogo com parceiros para apoio à execução das estratégias planejadas coletivamente, entre elas a comercialização de produtos como a castanha, a borracha, a copaíba.
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Semex teve momentos para trocas entre os integrantes da Rede Terra do Meio e também de diálogo com parceiros|Juliana Oliveira/ISA
“A Rede Terra do Meio tem o objetivo de promover cultura, promover saberes e a soberania alimentar. E também dar transparência na gestão e comercialização dos produtos das comunidades. E quem faz a Rede Terra do Meio é uma grande diversidade de povos: são os cantineiros, os paioleiros, os extrativistas, indígenas e pequenos agricultores familiares. As pessoas fazem a rede existir e ela ser Rede”, disse seu Assis, que divide seu tempo entre Altamira e a Reserva Extrativista (Resex) Rio Iriri.
Moradora da comunidade São Francisco, na Resex do Rio Iriri, Aurilete da Silva Maciel, a Dete, é mãe de família, cantineira, pescadora e extrativista. Com sua atuação frente à cantina - uma das estruturas utilizadas pela Rede para troca e comercialização dos produtos - é um exemplo para as mulheres e jovens.
“O meu envolvimento com a Rede começou porque eu via que meu marido, que trabalha na cantina, precisava de apoio. E eu comecei a ajudar. E aí foi através disso, através de uma história de amor, que eu entrei na rede. E eu tenho muito orgulho também de fazer parte dessa rede. Como jovem, como mulher”, conta.
Dete fala que a participação das mulheres na Rede Terra do Meio vem aumentando.“A mulher está no território, a mulher está na governança, a mulher está em todo o ciclo da Rede. As mulheres ajudam a fortalecer a Rede. E a Rede também apoia as mulheres com geração de renda e fortalecimento de suas culturas”, diz.
A coleta de sementes e a restauração de florestas emergem também como essenciais para promover a sustentabilidade e a conservação na Terra do Meio. O agricultor familiar e agroextrativista José Santiago da Silva, presidente da Associação Agroextrativista Sementes da Floresta (Aasflor), tem se dedicado à coleta de sementes de espécies como o babaçu, andiroba, castanha, cupuaçu e outras, com o objetivo de preservar a biodiversidade e fortalecer a recuperação de áreas degradadas.
“Não precisa a gente fazer a devastação da floresta para viver. Lá você tira alimentação, você tira a medicina, você tira os cuidados pessoais de beleza”, conta. Santiago diz que tem o dom de plantar florestas. E vem colhendo os frutos, com a produção de óleos e cosméticos.
Composta por 39 organizações locais, a Rede Terra do Meio conta com representantes de 10 territórios indígenas, três reservas extrativistas – Resex Xingu, Resex Riozinho do Anfrísio e Resex do Iriri - e uma organização de agricultura familiar, localizadas em uma área de aproximadamente 9 milhões de hectares de áreas protegidas na Amazônia.
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Rede Terra do Meio atua em uma área de 10 milhões de hectares de área protegida|Fellipe Abreu/ISA
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Encontro reuniu indígenas, ribeirinhos e agricultores familiares da Terra do Meio|Juliana Oliveira/ISA
Coordenadora-adjunta do Programa Xingu do Instituto Socioambiental (ISA), Fabíola Silva aponta que a Rede cresceu em diversidade de povos e parceiros, que agora incluem empresas, governos e bancos. “O foco não é só vender produtos, mas valorizar toda a história e o significado cultural por trás deles, o que tem sido fortalecido nessa edição da Semex”, disse.
Marina Aragão, que está à frente da área de Economia e Finanças para a Amazônia Brasileira na The Nature Conservancy (TNC), também trouxe observações sobre a maturidade da Rede. "A Rede Terra do Meio está madura, discutindo, além da comercialização, o protagonismo das comunidades e as políticas públicas. Na Semex estão reunidas associações, governos e setor privado para fortalecer essa governança compartilhada de indígenas, ribeirinhos e pequenos agricultores", considerou.
Da roça e da floresta para a escola
As trocas entre as comunidades e seus parceiros têm dado frutos concretos. Um dos exemplos é a participação da Rede Terra do Meio no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), desenvolvido com a Conab. Em 2023, a ação garantiu R$1,5 milhão em compras de alimentos saudáveis para escolas.
Assessora da Diretoria de Política Agrícola e Informação da Conab, Maria Cazé informa que a Rede Terra do Meio promoveu um PAA que é exemplo nacional. Foram, entregues 516 toneladas de alimentos, sendo de 82 tipos, dos quais 22 até então desconhecidos pela Conab, envolvendo pelo menos 107 famílias e 90 escolas, além de 9 povos indígenas e três reservas extrativistas.
Entre os alimentos estão frutas da região, como golosa e o cacauí, além de preparos tradicionais, como o mingau de macaxeira doce dos Assurini e o berarubu dos Kayapó e Xikrin, uma massa de mandioca recheada de peixe e assada em pedras quentes.
“Temos um resultado exitoso da execução do PAA, qualificando a alimentação escolar dos filhos dessa terra, dos filhos dessas florestas, dos filhos desses rios. Então, essa é hoje considerada uma das maiores referências de PAA no Brasil. É a que tem a diversidade de alimentos, diversidade de povos e que tem o maior número de unidades recebedoras. Isso mostra que é possível as políticas públicas chegarem e mudarem a vida das pessoas em seus territórios”, conclui Maria Cazé.
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Trajetória da Rede Terra do Meio foi retomada durante o encontro e apontou caminhos para o futuro|Fellipe Abreu/ISA
O impacto do PAA nas comunidades “foi uma maravilha”, nas palavras de Assis Porto. Os diálogos apontam que há potencial para a execução do projeto triplicar, elevando para 500 o número de famílias que fornecem alimentos.
“Isso impacta positivamente as comunidades. Toda alimentação que vai para as mesas das pessoas é tirada da floresta, levada para ser manipulada e beneficiada, e depois retorna para as comunidades. O PAA mudou isso, possibilitando que a comida orgânica seja retirada da floresta e entregue diretamente nas escolas. Então isso é um projeto muito fantástico”, diz.
O processo para ampliar o acesso dos povos e comunidades tradicionais às políticas públicas de aquisição de alimentos vem sendo impulsionado pela Comissão de Alimentos Tradicionais dos Povos (Catrapovos), por meio do Ministério Público Federal (MPF), Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) e parceiros.
Outro tema discutido durante a Semex foi o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), que prevê reconhecer e promover as atividades realizadas pelas comunidades que mantêm a floresta viva. Essas atividades, baseadas em seus sistemas de conhecimentos, promovem a manutenção e melhoria da preservação da biodiversidade, proteção da água e regulação climática.
A Rede Terra do Meio vem pilotando mecanismos de PSA com o setor privado desde 2014. As experiências em curso no território e sua capacidade de governança aproximaram o Governo do Estado do Pará, que apresentou a proposta de projeto-piloto conjuntos que viabilizem a estruturação da política estadual de PSA.
Assessora técnica da Secretaria Adjunta de Bioeconomia do Pará, Danyelle Couri, informou que será uma construção participativa para Pagamento por Serviço Ambiental em Territórios Coletivos. “Viemos à Semex participar num momento mais de escuta, sobre os anseios e os planejamentos da Rede, num movimento de construção participativa”, disse.
Francinaldo Lima, o Naldo, explica como os povos da Terra do Meio se conectam ao projeto. “A gente sabe da importância que é a manutenção dessa floresta, na regulação do clima, por exemplo, na manutenção da água, de toda a biodiversidade. Então é necessário que as organizações governamentais e o setor privado valorizem esse serviço que prestamos”, explica.
Diretora do Departamento de Políticas de Estímulo à Bioeconomia do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Bruna De Vita, informa que o pagamento de serviços ambientais é uma forma de aumentar a renda dessas famílias e valorizar as atividades produtivas mais conservativas do ambiente.
“As formas de vida dessas comunidades e, principalmente, as formas de produzir que mantêm a floresta em pé são muito relevantes para a manutenção dos chamados serviços ecossistêmicos, para manter água, a regulação do clima. E a gente tem a necessidade de saber valorizar isso, porque quando eles estão fazendo a roça, quando eles estão colhendo castanha, quando eles estão tirando a borracha, eles estão prestando serviço ambiental, estão protegendo o território e evitando que seja trocado por outras atividades degradantes”, considera.
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Participantes da Semex puderam acompanhar a feitura do cerâmica pelas mulheres Assurini|Ana Amélia Hamdan/ISA
Bruna De Vita já acompanha o território da Terra do Meio há bastante tempo e vê o fortalecimento da Rede. “A gente vê como a Rede vem sendo fortalecida ao longo do tempo. E representa cerca de 9 milhões de hectares de áreas protegidas, o que é muito importante para o Ministério do Meio Ambiente estar trabalhando de forma integrada com as unidades de conservação, com as terras indígenas, os assentamentos. São nesses territórios que a bioeconomia acontece. Então para nós é importante buscarmos formas de integrar as políticas públicas às demandas desses territórios”, disse.
A empresa Mercur, uma das principais parceiras da Rede Terra do Meio, vem executando um projeto de PSA, agregando preço à borracha nativa pelos serviços de proteção ambiental prestados pelos povos da floresta. Jovani Machado, representante da Mercur, esteve na Semex e falou dessa história da empresa - que completou 100 anos em 2024 - com as comunidades.
“O produto é uma consequência dos relacionamentos que fazemos aqui. O que nos faz pagar esse valor a mais por esse produto é entendermos que para manter a floresta em pé precisamos estar aqui apoiando esses povos”, disse. “Temos 15 anos de atuação junto às comunidades. E nós temos uma demanda que é borracha nativa. E posso dizer que a gente fica feliz em ver como o movimento está avançando, com as pessoas engajadas. E seria importante ter mais empresas para compor esse grupo”, completou.
Emergência climática
Se, por um lado, esses povos são os guardiões da floresta e sua economia preserva o ambiente, por outro são os que estão na linha de frente da emergência climática.
Em 2024/2025, sob o impacto da seca recorde na Amazônia, não houve safra da castanha, que é uma das principais fontes de renda do coletivo. Os efeitos também foram sentidos nos seringais - com queda na produção - e nas roças, com prejuízo a alimentos como mandioca, batata e cará.
“O sol de hoje não é mais o mesmo. As crianças não podem brincar como antes. As plantas estão sofrendo. Estamos perdendo variedades”, disse Ney Xipaya, liderança do seu povo e integrante da Rede Terra do Meio.
Ele chama a atenção para os impactos das mudanças climáticas no calendário agrícola tradicional, base da sociobioeconomia. E trouxe ainda a importância da Rede Terra do Meio para a valorização desses sistemas e proteção territorial. “Valorizar a cadeia produtiva da roça, que é o ensinamento do meu vô e da minha avó, traz todos os aspectos ancestrais de plantio, de respeito aos espíritos. E também valoriza a permanência do indígena dentro do território”, considera.
“Nosso sonho é que a rede se sustente sozinha, financeiramente. Mas também que ela mantenha a harmonia, a união e o respeito. Lá fora, a pressão é muito grande. Aqui, precisamos de força coletiva para resistir”, reflete.
Este ano, a COP 30 acontece em Belém, no Pará, e os povos da Rede Terra do Meio pretendem levar para a conferência seu exemplo de governança, sociobioeconomia e conservação.
Analista sênior em economia da sociobiodiversidade do ISA e membro da secretaria executiva da Rede Terra do Meio, Jeferson Straatmann diz que o coletivo deve levar à Conferência do Clima a potencialidade de uma articulação ampla de povos que trabalham a economia de uma forma diversa, baseada em sistemas de saberes ancestrais. “Uma conferência climática passa basicamente pelo que a Rede tem feito”, diz.
Ele explica que os povos da Terra do Meio vêm promovendo uma economia do envolvimento das pessoas, com promoção de direitos e de segurança territorial.
“Uma economia do envolvimento é uma economia que fortalece os laços entre os povos. A região da Terra do Meio é um arranjo de povos indígenas, comunidades tradicionais, ribeirinhos, beiradeiros e agricultores familiares. E que tem como objetivo primeiro agregar as pessoas em função dos seus sistemas agrícolas tradicionais, seus sistemas de conhecimento. Por meio da comercialização desses produtos, potencializa-se a continuidade desses saberes, de uma geração para outra, transformando florestas em florestas, promovendo a proteção da água, cuidado da biodiversidade e regulação climática”, diz.
A 10ª Semana do Extrativismo foi encerrada com danças e cantos tradicionais. A Rede Terra do Meio reuniu um grupo diverso de comunicadores indígenas, beiradeiros e agroextrativistas, da Rede Xingu+, da Aasflor e de associações locais que participaram ativamente das discussões e produziram um vídeo abordando a identidade do coletivo. A exibição aconteceu na noite do fechamento do encontro, tendo como cenário a Casa Sagrada dos Assurini.
Assista abaixo:
Os trabalhos continuam. É a partir da floresta, das sementes e dos saberes ancestrais que os povos da Terra do Meio seguem tecendo seu futuro, reafirmando a sustentabilidade como um modo de viver.
A Semana do Extrativismo foi realizada pela Rede Terra do Meio em parceria com o ISA, TNC, Sama, Origens Brasil e Vem do Xingu, tendo como apoiadores o Bezos Earth Fund, Fundo Amazônia, Fundo Vale e Rainforest - RFN.
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