Manchetes Socioambientais
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“O encontro entre índios e brancos só se pode fazer nos termos de uma necessária aliança entre parceiros igualmente diferentes, de modo a podermos, juntos, deslocar o desequilíbrio perpétuo do mundo um pouco mais para frente, adiando assim o seu fim.”
Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo, um dos fundadores do ISA
O tema "Povos Indígenas" está na origem da existência do Instituto Socioambiental. Lá se vão pelo menos quatro décadas de comprometimento e trabalho com o tema, produzindo informações para a sociedade brasileira conhecer melhor seus povos originários. Desde sua fundação, em 1994, o ISA dá continuidade ao trabalho do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), que havia sido iniciado em 1980 e que, por sua vez, remonta ao começo dos anos 1970, quando o então governo da ditadura militar lançava o Plano de Integração Nacional, com forte componente de obras de infraestrutura na Amazônia, região que era então descrita pelo discurso oficial como um "vazio demográfico".
Por meio dos relatos coletados, dados produzidos e pesquisas empreendidas por uma rede de colaboradores espalhada pelas diversas regiões do País, o Cedi ajudou a derrubar essa tese. Ao dar publicidade às informações levantadas por essa rede social do tempo do telex, o Cedi colocou, definitivamente, os povos indígenas e suas terras no mapa do Brasil. Seus integrantes ainda participaram ativamente no movimento de inclusão dos direitos indígenas na Constituição de 1988 e, juntamente com integrantes do Núcleo de Direitos Indígenas (NDI) e ativistas ambientais, fundaram o ISA em 1994.
De lá para cá, ampliando sua rede de colaboradores em todo o País, o ISA se consolidou como referência nacional e internacional na produção, análise e difusão de informações qualificadas sobre os povos indígenas no Brasil. O site "Povos Indígenas no Brasil", lançado em 1997, é a maior enciclopédia publicada sobre as etnias indígenas no Brasil, com suas línguas, modos de vida, expressões artísticas etc. O site é uma das principais referências sobre o tema para pesquisadores, jornalistas, estudantes e acadêmicos.
A atuação hoje é transversal aos territórios onde atuamos, especialmente na Bacia do Xingu, no Mato Grosso e Pará, e Bacia do Rio Negro, no Amazonas e Roraima, e também envolve povos indígenas de todo o Brasil, por meio da atualização permanente do site e de seus mais de 200 verbetes, inclusão de novos textos sobre etnias emergentes e indígenas recém-contatados, além do monitoramento e cobertura jornalística sobre situações de violência e perda de direitos contra estas populações. O tema "Povos Indígenas" ainda é tratado no site "PIB Mirim", voltado ao público infanto juvenil e de educadores.
O monitoramento de Terras Indígenas também é um eixo central do nosso trabalho com o tema, e remonta à sistematização de dados e divulgação de informações iniciada pelo Cedi em 1986, e se dá por meio da produção de livros impressos e mapas temáticos sobre pressões e ameaças, como desmatamento, mineração, garimpo, obras de infraestrutura, entre outras, além do site "Terras Indígenas no Brasil".
Confira os conteúdos produzidos sobre este tema:
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Em formato de enciclopédia, é considerado a principal referência sobre o tema no país e no mundo |
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A mais completa fonte de informações sobre o tema no país |
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Site especial voltado ao público infanto-juvenil e de educadores |
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Painel de indicadores de consolidação territorial para as Terras Indígenas |
#ElasQueLutam! Uma das lideranças de maior projeção nacional e internacional, Soninha não mede esforços para garantir direitos e amplificar as vozes e visões dos povos indígenas
Perfil publicado originalmente em 20 de abril de 2021 e atualizado em 26 de maio de 2022.
“Não podemos arredar o pé da luta pelos nossos direitos”. Em 2021, quando a pandemia de Covid-19 não permitiu que os povos indígenas se reunissem em Brasília para a maior mobilização do movimento, o Acampamento Terra Livre (ATL), pelo segundo ano consecutivo, foi assim que Sonia Guajajara, coordenadora-executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) resumiu o momento. À época, o ATL 2021 seguiu virtualmente, ocupando redes e demarcando telas.
É esse tipo de atitude que dá o tom da trajetória de Soninha, como é carinhosamente conhecida. Na última segunda-feira (23), o compromisso com os direitos dos povos indígenas e com a luta do movimento indígena lhe rendeu um lugar na lista das 100 personalidades mais influentes do ano da revista Time. “É um reconhecimento da luta indígena global, que é coletiva e defende o futuro de toda a humanidade”, ela escreveu em sua conta do Twitter após a publicação da lista.
“Eu já nasci militando”, ela contou ao jornal Brasil de Fato. “Todo tempo eu queria encontrar um jeito de contar como trazer essa história e essa vida dos povos indígenas para um conhecimento da sociedade”. Formou-se em Letras e Enfermagem e atuou por muitos anos nas duas áreas. Mas, em 2001, participou do seu primeiro encontro nacional indígena e percebeu que sua missão seria se dedicar à luta coletiva dos povos originários.
Sonia começou na Coordenação das Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão (COAPIMA), onde ajudou a dar um fôlego cada vez maior ao movimento indígena do estado. Migrou então para a vice-coordenação da Coordenação dos Povos Indígenas da Amazônia (Coiab) e, ao fim dos quatro anos de mandato, foi eleita para a coordenação da Apib. Hoje, ela talvez seja a liderança feminina de maior projeção nacional e internacional, e não mede esforços para garantir direitos duramente conquistados e amplificar as vozes e visões dos povos indígenas.
“Nós estamos aqui para fazer diferente e mostrar a Terra como a Mãe Terra, esse bem sagrado, que precisa de cuidado, que dá sustento e que garante a vida”, afirmou ao Instituto Escolhas. “O desafio só cresce e agora é como se a gente voltasse de novo para o início, de retomar a briga pela demarcação dos territórios, que, para nós, é a bandeira de luta maior e principal dos povos indígenas”.
Em quase duas décadas de mobilização, Sonia alçou voo, assumiu posições de destaque e ajudou a fortalecer a presença feminina no movimento indígena e em outros espaços. Atualmente, como gosta de lembrar, já vê muitas outras colegas à frente de associações indígenas e até mesmo atuando na política partidária. Nas eleições presidenciais de 2018, Sonia foi candidata a vice na chapa de Guilherme Boulos (PSOL). “Eu não tenho dúvidas de que o resultado político da minha candidatura motivou e abriu muitos caminhos para outras mulheres se candidatarem”, disse ao jornal O Globo.
“Estamos aqui demarcando o nosso território, nosso espaço de fala, nossa participação enquanto mulher guerreira. A nossa voz precisa ecoar pelo mundo”, avisou, em discurso durante a 1ª Marcha das Mulheres Indígenas. Sempre ao lado de suas companheiras, as mulheres da terra, das águas e das florestas, Soninha ajudou a fundar a ANMIGA, a Articulação Nacional das Mulheres Indígenas – Guerreiras da Ancestralidade, que une os saberes, tradições e resistências das indígenas de todo o país.
“A gente não vai desistir”, salientou à agência Pública. “Não há outro jeito de a gente continuar vivo, de a gente continuar existindo, se não for por meio da luta”.
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#ElasQueLutam! Atenta à luta pelo território desde criança, a jovem indígena tornou-se advogada por acreditar no coletivo e querer contribuir com seu povo
Quando criança, Samara Pataxó queria ser professora. “Eu tinha a intenção de crescer e ser uma profissional que somasse [na luta]”, conta. Foi assim até o Ensino Médio, quando, após um período como Jovem Aprendiz no escritório da Fundação Nacional do Índio (Funai), decidiu se tornar advogada.
“Eu vi que não só a minha aldeia, mas outras, enfrentavam problemas parecidos: falta de políticas públicas, falta de demarcação. Foi aí que eu escolhi um curso que eu pudesse ajudar o meu povo”.
Mas a dedicação com a luta pelos direitos dos seus começou bem antes. Aos dez, presenciou a demarcação da Terra Indígena Coroa Vermelha (BA), em um processo incompleto que deixou de fora vários trechos de ocupação tradicional e consolidou dentro dela a importância da luta pela defesa o território. Desde cedo, observou a atuação do avô, Manuel Siriri, liderança fundamental na organização da comunidade indígena de Coroa Vermelha.
Mas é à escola básica, que frequentou dentro do território, que ela atribui sua formação para o movimento indígena.
“Meus avós, meus pais, não tiveram acesso à escola, ao ensino. Mas eu tenho a sorte de crescer em uma geração em que essa situação se tornou diferente,” comenta. “A gente tem na escola indígena o ensino da língua materna, o fortalecimento da cultura, da nossa identidade. Há todo um preparo da criança indígena para ela ser uma adulta que vai estar na luta. E essa foi a minha formação”.
Antes mesmo de se formar, Samara já participava de reuniões da comunidade, auxiliava as lideranças a elaborarem documentos e denúncias e atuava na assessoria jurídica de organizações de base. “O meu estágio foi na luta”, relata. Um contraste claro à experiência universitária, onde as questões indígenas mal eram abordadas.
“[Com] o sistema de cotas, você começa a ter indígenas, negros, quilombolas, na universidade. Porém, o tipo de ensino é o mesmo, os professores são os mesmos”, explica.
O curso universitário foi um desafio. Não só ela estava vivendo há 700 quilômetros de casa, em Salvador, mas ainda precisava se desdobrar para incluir a perspectiva do direito indígena nas discussões em classe. Mas, entendendo sua presença na universidade como uma estratégia de luta construída desde muito antes, por todos que acreditaram nela, seguiu em frente e concluiu o curso.
Outra das inspirações de Samara para cursar direito tem nome e sobrenome: Joenia Wapichana, hoje deputada federal pela Rede de Roraima, a primeira mulher indígena a eleger-se para o Congresso. À época, Joenia começava a ganhar relevância no cenário nacional por ser a primeira advogada indígena a fazer uma sustentação oral no Supremo Tribunal Federal (STF), no caso da Terra Indígena Raposa Serra do Sol (RR).
“Ter mulheres indígenas como referência é muito importante. Essas mulheres que acabam assumindo certos protagonismos, sendo pioneiras em determinados lugares, elas abrem caminhos para outras mulheres”, explica. “Eu recebo feedbacks diariamente de outras mulheres jovens indígenas. Assim como eu tive a Joenia como inspiração, essas meninas jovens têm a mim.”
Em 2021, Samara pôde seguir os passos da parlamentar, fazendo a primeira sustentação oral de sua vida no STF, durante o julgamento que irá definir o entendimento sobre a tese do “marco temporal” das demarcações. “Foi uma megaresponsabilidade. Como eu iria sintetizar uma defesa tão importante em cinco minutos? Quais [seriam] as minhas contribuições nesse tema?”, relembra.
Apesar do nervosismo, ela criticou o marco temporal de maneira brilhante e foi bastante elogiada nas redes sociais. “Não há como construir uma tese sobre Terras Indígenas sem considerar as vidas dos povos indígenas,” salientou em sua sustentação. “E não há como falar de vida sem a proteção de nossos territórios”.
🏹 Samara Pataxó (@PataxoSamara)
— socioambiental (@socioambiental) 2 de setembro de 2021
✅ Povo Pataxó, na Bahia
✅ Assessora jurídica da @ApibOficial
✅ Doutoranda em Direito na @unb_oficialhttps://t.co/w5SzDCfou1
O julgamento foi um dos pontos altos de uma intensa trajetória de atuação no movimento indígena. Nos últimos anos, Samara passou pelas instâncias local, regional e nacional, trabalhando no Movimento Unido dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia (Mupoiba), na Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme) e n Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Agora, continua a batalha por direitos indígenas em novas trincheiras, assessorando e implementando um núcleo de diversidade no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
“É uma grande responsabilidade [ocupar esses espaços]. Além de trazer o peso de uma representatividade indígena, também temos que passar por um julgamento pelas pessoas que estão no sistema de Justiça, [sobre] se a gente é capaz mesmo,” finaliza.
“O que me move é valorizar aqueles que lutaram para que eu estivesse aqui, mas também saber que o que eu faço tem importância e representatividade para pessoas que querem fazer a diferença”.
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Em evento no Rio de Janeiro, Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) dos povos Tukano, Desana e Baniwa mostram como a observação das constelações orienta o manejo ambiental
A observação dos ciclos da natureza tendo por referência as constelações guia a escrita de diários dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs), no Alto Rio Negro (AM), que fazem pesquisas a partir do cotidiano em meio à floresta Amazônica.
Esses saberes e práticas foram compartilhados por indígenas dos povos Tukano, Desana e Baniwa durante a XIII Escola Interamericana de Astronomia Cultural “Blas Servín” e a XII Jornada Interamericana de Astronomia na Cultura (SIAC 2026), entre os dias 14 e 20 de setembro, no Rio de Janeiro.
“Nesse calendário a gente observa a constelação, a gente desenha essas estrelas. Mas dentro dessa constelação a gente observa sobre os animais, as plantas, nível do rio, migração dos peixes, migração das aves. Conforme cada constelação, a gente faz esse desenho representando o que acontece nesse período", explica Walter Lopes da Silva, do povo Baniwa, que participou do encontro. Ele vive na comunidade Canadá, região do Rio Ayari, município de São Gabriel da Cachoeira (AM), Alto Rio Negro.
Nessa região, uma das mais preservadas da Amazônia, os indígenas Baniwa e Koripako olham para o céu e enxergam 19 constelações. Mas para organizar seu calendário astronômico, eles privilegiam 12 constelações maiores e, a partir daí, anotam os ciclos ambientais. O calendário está sendo aperfeiçoado com as trocas de informação com os mais velhos, os conhecedores.
Realizadas no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ) e no Museu Nacional, as atividades reuniram pesquisadores, educadores e lideranças para debater as relações entre a sociedade, a cultura e os eventos celestes sob o tema "Sob os céus do Sul Global".
O painel “Ciclos anuais no noroeste amazônico – relações entre ciclos socioambientais e calendário astronômico entre povos Tukano Orientais e Baniwa-Koripako” foi apresentado por Ismael dos Santos, Desana; Lucas Bastos, Tukano; Walter Lopes, Baniwa; pelo conhecedor Roberto Tomé, Baniwa; e Aloisio Cabalzar, antropólogo e pesquisador do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA).
Aloisio Cabalzar explica que o trabalho de observação realizado pelos AIMAs a partir das constelações busca estabelecer o monitoramento ambiental e climático; fortalecer os direitos territoriais; promover os conhecimentos e sua circulação entre as gerações, além de incentivar as pesquisas interculturais, que unem conhecimentos indígenas e não indígenas.
“O monitoramento acompanha a marcação do tempo, o manejo ambiental e as relações entre as espécies. A metodologia é a escrita de diários. Basicamente, o trabalho é observar os ciclos, o que é natural entre o grupo, formado por agricultores, pescadores, coletores de frutos, moradores das comunidades engajados em atividades produtivas. A cada dia eles tomam notas sobre o que observaram e escutaram dos parentes em relação a esses eventos cíclicos. Temos ainda as reuniões e oficinas a cada semestre para organizar dados, fazer textos e realizar as representações do ciclo”, explica.
Durante o encontro de astronomia cultural, diversas formas de olhar para o céu foram apresentadas, como as dos povos Tikuna/Magüta, das populações ribeirinhas na Amazônia, de povos na Argentina e no Uruguai.
Conhecimento tradicional na política pública
Especialista em Indigenismo da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a antropóloga Melissa Santana de Oliveira defendeu que os calendários astronômicos ecológicos devem ser reconhecidos oficialmente por políticas públicas como ferramenta de gestão territorial, devendo integrar os Planos de Gestão Territorial e Ambiental indígenas (PGTAs), que são instrumentos oficiais que traduzem os diagnósticos comunitários em diretrizes de pactuação com o Estado e parceiros.
“Como explicitaram aqui os conhecedores Tukano, Desano e Baniwa, a astronomia é essencial para a gestão ambiental e territorial, porque o movimento das constelações vai reger a ocorrência de invernos e as enchentes dos rios, os períodos de estiagem e de vazantes. Então é uma leitura do céu que orienta o manejo agrícola, o plantio de maniva, as florações, coletas de frutas, frutas, pesca, caça ”, considera. “Os calendários têm o potencial para articular políticas indígenas e indigenistas ambientais, de educação e patrimônio”, completa.
O AIMA Lucas Bastos, do povo Tukano, ensinou que, para seu povo, as estrelas são pessoas. Ao conversar com essas “pessoas”, os conhecedores indígenas conseguem antecipar os fenômenos, apoiando na organização das atividades.
“Os conhecedores - os grandes pajés - conversam com as constelações e repassam para a comunidade os fenômenos que estão por vir. Mas muitos dos saberes se perderam e agora temos poucos conhecedores, o que dificulta recebermos as orientações sobre os ciclos”, explica.
Ele falou da importância do compartilhamento de informações durante o encontro no Rio de Janeiro. “Apresentamos aqui nesse encontro a pesquisa que nós estamos fazendo desde 2005. É importante mostrar para os pesquisadores das universidades a nossa pesquisa local. São visões diferentes e, assim, podemos compartilhar experiências de diferentes lugares e países”, diz. “Mesmo sendo um céu observado, mudam a língua, a escrita, os símbolos”, completa.
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20 anos dos AIMAs: pesquisadores indígenas contam na COP30 como medem a crise climática no Rio Negro
Indígena do povo Desana, Ismael dos Santos traz em seus diários desenhos que são verdadeiras obras de arte que representam os ciclos. Ao ser perguntado sobre as alterações climáticas que - invariavelmente - vêm aparecendo nos diários, ele responde: “O que muda não são as constelações, o que muda é o tempo. Antigamente a chuva e o sol vinham no tempo certo. Agora está diferente”.
Para Lucas Bastos e Ismael dos Santos, a viagem ao Rio de Janeiro guarda um elemento especial. O principal mito de origem dos povos Tukano e Desana indica que a Cobra Canoa ou a Canoa da Transformação, um símbolo sagrado da criação da humanidade, saiu do Lago de Leite - que corresponde à Baía de Guanabara - e seguiu pelo litoral até a região Norte, abrindo caminho até onde hoje é o município de São Gabriel da Cachoeira.
Astronomia cultural
A astronomia cultural é um campo interdisciplinar que estuda como diferentes culturas, antigas e atuais, percebem e integram os fenômenos celestes em sua visão de mundo. Especialista em astronomia cultural e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Walmir Thomazi Cardoso explica que a esse é um campo de investigação que se desenvolveu sobretudo a partir da década de 1990, sendo composta de outras disciplinas como a arqueoastronomia - uma junção de astronomia com arqueologia - e etnoastronomia.
“Quando a gente olha a diáspora africana ou populações indígenas em todos os continentes, e particularmente na América do Sul, a gente vai ver que esses grupos utilizam o céu de maneira calendárica, lendo formas de se relacionar com a natureza e entendendo que esse todo está conectado”, explica.
O pesquisador considera que muitos desses conhecimentos foram invisibilizados nos processos colonizadores.
"O colonizador precisa impor a sua cultura, seja ela material ou imaterial. E quando você olha para as culturas ao redor do planeta e como elas se relacionam com o céu, quais os significados que elas atribuem ao céu, seja na medida do tempo, seja na transcendência, seja em qualquer outro aspecto, isso cria uma ligação tão forte entre as pessoas que são enfeixadas pela cultura, de modo que fica muito difícil você desmontar uma estrutura tão forte quanto essa. É por isso mesmo que muitas dessas culturas, muitos desses grupos tiveram seus símbolos, seus objetos, seus rituais, suas línguas retiradas. No entanto, esses grupos são muito mais fortes", explica.
Durante o encontro no Rio de Janeiro, vários dos grupos que resistem puderam trocar suas experiências.
Saiba mais sobre os Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs)
A Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) completou 20 anos em 2025, sendo um projeto do Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN).
Atualmente a Rede de AIMAs conta com aproximadamente 40 integrantes que vivem em comunidades indígenas na região do Médio e Alto Rio Negro, onde vivem povos de 23 etnias, entre elas Tukano, Tuyuka, Yeba Masã, Piratapuya, Desana, Hupda, Dãw e Baniwa.
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Conhecedores da Amazônia
Com anotações em diários e tablets, os agentes registram enchentes, florações, migração e piracema de peixes, secas e rituais tendo como referência central as constelações indígenas (como Aña - Jararaca, Pamo - Tatu, Ñohkoatero - Plêiades, entre outras). Embora a iniciativa tenha surgido do manejo pesqueiro tradicional, os registros dos AIMAs têm evidenciado os impactos da emergência climática e de fenômenos extremos na Amazônia.
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Atividades de formação e debate realizados durante o Agosto Indígena propuseram caminhos para superar o apagamento histórico e fortalecer o ensino de histórias e culturas indígenas na educação básica
Como parte da programação do Agosto Indígena, nos dias 11, 18 e 22 de agosto, o Instituto Socioambiental (ISA) se aliou à Secretaria Municipal de Educação (SP) para levar uma série de atividades a professores da rede municipal de ensino com objetivo de integrar saberes e histórias indígenas ao cotidiano das salas de aula da capital paulista.
A iniciativa buscou fortalecer a implementação da Lei Federal nº 11.645/2008, que torna obrigatório o ensino de histórias e culturas afro-brasileiras e indígenas na educação básica, ao combater o apagamento histórico e promover o letramento étnico-racial.
A programação, mediada pela Iniciativa de Educação do ISA, foi dividida em duas ações principais: o curso Aldear a Educação, ministrado por Maria Martinha Mendonça, do povo Guajajara, uma das coordenadoras executivas do Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (Fneei) e diretora na Escola Municipal Indígena Guarani Para Poty Nhe'ë Ja, em Maricá (RJ); e a palestra Povos Indígenas no Brasil: debates contemporâneos, com a professora Dona Elisa Pankararu, liderança e antropóloga indígena, com o professor Izaque João, pesquisador, do povo Guarani Kaiowá, e mediação de Luma Prado, responsável pela Iniciativa de Educação no ISA, que compôs a formação Histórias e Culturas Indígenas em perspectivas: possibilidades pedagógicas, realizada por meio da parceria entre o Núcleo de Educação para as Relações Étnico-Raciais (NEER) e o ISA.
O curso, Aldear a Educação, realizado em três encontros, dois síncronos online e uma oficina presencial, teve como objetivo a promoção do diálogo entre as experiências pedagógicas dos educadores e os conhecimentos de escolas indígenas para a construção de propostas de ensino que fortaleçam a aplicação da Lei.
Na formação, realizada nos dias 11, 15 e 18 de agosto, Martinha Guajajara, destacou cinco mudanças essenciais para o ensino de histórias e culturas indígenas. A primeira delas diz respeito ao conhecimento genérico sobre povos indígenas, que deve ser superado por meio da compreensão sobre a sociodiversidade de povos, línguas e territórios. O segundo deslocamento referencial, por sua vez, é em relação ao reconhecimento das vidas, lutas e produções indígenas na atualidade, e não apenas restritas ao passado.
Na sequência, ela falou sobre a importância da autoria indígena e integração da temática ao planejamento anual, e não somente fixado às datas comemorativas. Por fim, ela apontou como essencial o movimento de investigar, pesquisar, analisar e produzir sobre a temática, ressaltando o atributo de pesquisador que os educadores devem, segundo ela, aprimorar.
A partir desses deslocamentos, Martinha propôs na oficina presencial a análise de imagens sobre povos indígenas e o desenvolvimento de uma proposta pedagógica pelos professores em grupo. Os resultados serviram de base para a elaboração de propostas pedagógicas feitas por cada participante como trabalho final da formação.
A palestra Povos Indígenas no Brasil: debates contemporâneos, por sua vez, fez parte da formação Histórias e Culturas Indígenas em perspectivas: possibilidades pedagógicas, sediada na Biblioteca Mário de Andrade, na região central de São Paulo.
Com cerca de 190 professores presentes, a palestra foi precedida pela mesa Histórias e culturas Indígenas: o fazer pedagógico nas Unidades Educacionais, que contou com apresentação de relatos de prática sobre histórias e culturas indígenas pelos professores da rede municipal Barbara Borba, da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Armando Cridey Righetti; Edi Medeiros, da EMEF Prestes Maia; Jefferson Gabriel, da Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEI) Dona Maria de Lourdes Coutinho Torres. A mediação ficou a cargo de Fernanda Borsatto, do Tribunal de Contas do Município de São Paulo (TCM-SP).
Na sequência, Dona Elisa Pankararu e Izaque João, lideranças indígenas do Nordeste e do Centro-Oeste do país, debateram temas como disputas fundiárias, demarcação de Terras Indígenas, luta das mulheres indígenas, resistências e articulação política.
Dona Elisa Pankararu, trouxe em sua fala a violência sofrida pelos povos indígenas no Brasil e como a presença e ausência vêm com o propósito de perpetuar um genocídio. Ela destacou ainda que as escolas já foram espaços usados para perpetuar esse ciclo de violências.
Para ela, diante desse contexto, o papel da educação atualmente é de promover um fazer pedagógico que retrate as culturas dos povos e traga reflexões. Ela reforça que isso é especialmente importante em São Paulo, que de 1940 em diante teve uma intensa migração de indígenas para construir a cidade. Dona Elisa Pankararu defende que é preciso falar de racismo contra povos indígenas e fomentar para que tenha cada vez mais autorias indígenas.
Na sequência, Izaque João falou sobre o contexto dos povos Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Ele explicou sobre o processo de esbulho territorial sofrido por seu povo, que foi expulso de suas áreas e confinado em aldeamentos. Com a perda do território, perdem-se também os cantos, ele lamenta. Neste contexto de conflito entre os grandes proprietários de terra e os Guarani, ele também reforça que os saberes indígenas não estão restritos às salas de aula; mas também do lado de fora: na floresta, na beira de rios, em momento de ritual.
Ele conta ainda que o povo Guarani e Kaiowá tem se fortalecido em processos de retomada. Assim como Dona Elisa, Izaque reforça que a escola, antes uma arma contra os Guarani e Kaiowá, agora passa a ser um espaço de resistência a partir da educação escolar indígena. A exemplo disso, ele cita o encontro de Professores Guarani e Kaiowá, promovido pela Aty Guasu, a Grande Assembleia do Povo Guarani e Kaiowá desde o final dos anos 1990, que foi responsável por muitos marcos e avanços na educação, como é o caso da criação da Licenciatura Intercultural Indígena "Teko Arandu", que desde 2006 forma professores indígenas.
A programação, uma iniciativa da SME-SP com o ISA, integra uma série de atividades da Iniciativa de Educação do Instituto Socioambiental como o Edital Aldear a Educação Básica, que premiou onze propostas pedagógicas de educadores. Saiba mais.
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Curso de Vigilância Indígena na Aldeia Gorotire, Terra Indígena Kayapó, reuniu diferentes gerações para debater direitos, pensar a proteção territorial e reforçar a luta contra o garimpo e outras atividades ilegais
Entre os dias 04 e 07 de agosto, as associações indígenas da Terra Indígena (TI) Kayapó, o Instituto Socioambiental (ISA), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) e o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e realizaram uma formação de Vigilância Indígena na aldeia Gorotire, na Terra Indígena Kayapó.
A formação é fruto da parceria entre as organizações e contou com a participação de 35 indígenas para o planejamento de ações de proteção no contexto pós-desintrusão do território. As associações presentes foram Angrokrere, Tuto Pombo, Kranhmenhti, Piokrere, Floresta Protegida, Kenorukuare e Wejo.
A formação envolveu indígenas de diferentes faixas etárias e gênero que refletiram juntos sobre a dimensão do desafio de proteger uma área de mais de 3,2 milhões de hectares na floresta amazônica.
Nos últimos anos, a TI Kayapó vem lidando com a fragmentação da paisagem no entorno e a constante invasão para a retirada de madeira e, sobretudo, para o garimpo ilegal. A necessidade de fortalecer a proteção tornou-se ainda mais evidente após o cumprimento da ADPF 709, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a desintrusão de áreas invadidas em oito TIs no Brasil.
Embora a desintrusão da TI Kayapó tenha sido finalizada oficialmente em julho de 2025, a proteção preventiva e segura pelas próprias comunidades é essencial para impedir o avanço dos invasores.
Manifesto histórico contra o garimpo
O engajamento dos participantes no curso está atrelado a uma decisão política já consolidada entre o povo Mẽbêngôkre, quando caciques e lideranças da TI Kayapó reuniram-se numa assembleia na Casa do Guerreiro, na Aldeia Gorotire, e relataram suas preocupações com os impactos do garimpo sobre os rios, a fauna, a saúde das comunidades e o enfraquecimento da governança indígena.
Diante disso, ficou decidido por unanimidade que qualquer atividade ilícita no interior da Terra Indígena, especialmente o garimpo, mas também a extração ilegal de madeira ou outras práticas que possam degradar os recursos naturais e culturais do território, devem ser recusadas e coibidas por todos.
Os indígenas destacaram que impedir os ilícitos na TI é condição central para dar continuidade às parcerias vitais para a comunidade, como o Projeto de Crédito de Carbono e o Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da TI Kayapó.
O documento também reafirmou que, embora o compromisso de coibir o garimpo seja das lideranças, as ações de combate direto aos ilícitos são função do Estado brasileiro e de instituições como Funai, Ibama e a Polícia Federal.
Diálogo de saberes e o mapeamento das ameaças
Com esse espírito de urgência, esperança e mobilização, o curso de Vigilância Indígena foi marcado por grandes trocas e contou com a tradução simultânea conduzida por dois professores indígenas seguindo uma metodologia integradora e participativa.
O primeiro dia foi dedicado à apresentação dos participantes e o compartilhamento dos conceitos fundamentais para a atividade. No segundo, os participantes foram estimulados a mostrar o processo de ocupação histórica da TI Kayapó e os indígenas ilustraram o território antes da exploração ilegal de ouro e madeira, o que mudou após as invasões e quais são os desafios atuais para garantir o usufruto exclusivo da terra. O grupo também debateu instrumentos vitais de proteção, como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e os protocolos de consulta.
No terceiro dia de formação, ocorreu o mapeamento coletivo de situações de vulnerabilidade utilizando mapas impressos e os indígenas apontaram as principais ameaças, destacando o tipo de ilícito, as regiões mais vulneráveis, a época do ano em que ocorrem e as possíveis estratégias para enfrentá-las. Para inspirar essas estratégias, o grupo conheceu relatos de vigilância indígena bem-sucedidas na bacia do Xingu apresentados por integrantes da Rede Xingu+, além das bases de vigilância da própria TI Kayapó, coordenada pela Associação Floresta Protegida (AFP), e também do Plano de Proteção Territorial da TI Arara.
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Povo Arara lança Plano de Proteção Territorial no ATL 2025
O fechamento da atividade foi coordenado pelos próprios indígenas, sob mediação do assessor da AFP, Igor Ferreira, com uma recapitulação dos conceitos abordados ao longo das atividades, a apresentação das suas percepções sobre a formação e a reflexão sobre os próximos passos para proteção territorial.
De acordo com o coordenador da CR Kayapó Sul do Pará, Camilo Soares, esta oficina se insere no conjunto de ações de pós-desintrusão e busca garantir a posse plena da TI pelos indígenas com o apoio das organizações indígenas, instituições governamentais e não governamentais.
“A oficina de vigilância indígena foi um momento de pensar conjuntamente em estratégias para proteger o território e fortalecer a gestão compartilhada por meio da participação de representantes de todas as regiões da TI”, disse Soares.
O representante da Associação Floresta Protegida e conselheiro da Rede Xingu+, Kajte Kayapó, também avaliou como positiva a realização da atividade.
“Esta formação é muito importante, pois os indígenas estão aprendendo cada vez mais sobre as expedições, o monitoramento do território e das bases de vigilância”, destacou o conselheiro da Rede Xingu +.
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Evento em São Paulo, dia 17 de setembro, marca o lançamento da obra “Poéticas e políticas indígenas” e conta com mediação de Tatiane Klein, antropóloga e jornalista do Instituto Socioambiental (ISA)
No dia 17 de setembro, quinta-feira, às 19h, o espaço Floresta no Centro, do Instituto Socioambiental (ISA), recebe a escritora, poeta e cordelista Auritha Tabajara e a antropóloga e musicista não indígena Paola Gibram para o evento Poéticas Indígenas.
Com mediação de Tatiane Klein, antropóloga e jornalista do ISA, o bate-papo explora as conexões entre poéticas, literatura e música, partindo das trajetórias das convidadas e de duas obras de suas autorias: a coletânea Poéticas e políticas indígenas (Insular, 2026) e o Um cordel para Aldear a Educação (ISA, 2026).
Auritha Tabajara é a primeira cordelista indígena e um dos nomes mais relevantes da literatura indígena contemporânea. Nascida no Ceará, a artista do povo Tabajara navega com sua arte entre a oralidade e a literatura contemporânea. Por suas obras, recebeu o selo da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) em 2019 pela obra Coração na aldeia, pés no mundo. Em 2024, recebeu o Prêmio Jabuti. Auritha ainda integra a Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB) e também foi protagonista do documentário A mulher sem chão, realizado em parceria com Débora MecDwell.
Paola Gibram, por sua vez, possui uma longa trajetória de pesquisa junto a povos indígenas, principalmente aos Kaingang. Junto à pesquisadora Nyg Kuitá, ela dirigiu o documentário audiovisual Nẽn Ga vĩ: uma retomada kanhgág em movimento, que acompanhou o movimento da juventude indígena kaingang. Pós-doutoranda no Museu de Etnologia e Arqueologia da Universidade de São Paulo (USP), Paola também atua como instrumentista, compositora e diretora musical.
No evento, a musicista e a escritora Auritha Tabajara compartilham ainda suas pesquisas antropológicas sobre cantos, danças, ornamentos rituais em sua conexão com as lutas indígenas contemporâneas e o processo de construção do livreto ilustrado e da faixa musical da obra Um cordel para Aldear a Educação, lançado em abril deste ano.
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O bate-papo deriva também um episódio do podcast Floresta no Centro, para levar as reflexões sobre o papel das artes na vida e na luta dos povos indígenas para outros públicos. Criado pelo Instituto Socioambiental (ISA), o programa é gravado durante eventos realizados na Floresta no Centro, espaço da organização na Galeria Metrópole, em São Paulo (SP), que apresenta saberes de comunidades do Xingu, Rio Negro e Vale do Ribeira por meio de itens tradicionais, exposições, encontros e publicações.
Ouça um episódio recente abaixo!
Serviço
Evento: Poéticas Indígenas
Data: Quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Horário: 19h
Local: Espaço Floresta no Centro – Galeria Metrópole, 2º andar, Loja 28 (Av. São Luís, 187, São Paulo/SP)
Convidadas: Auritha Tabajara e Paola Gibram
Mediação: Tatiane Klein
Confira abaixo o clipe da música Aldear a Educação, composto por Auritha Tabajara a pedido do Instituto Socioambiental (ISA).
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Marcada na memória, a manifestação de Ailton conseguiu atenção da imprensa nacional e internacional, abrindo espaço para debates importantes dos direitos indígenas
Na sessão da Assembleia Nacional Constituinte de quatro de setembro de 1987, durante os debates que antecederam a promulgação da Constituição de 1988, Ailton Krenak realizou um discurso que na época conquistou olhares da imprensa nacional e internacional:
“Que [o Brasil] saiba respeitar um povo que sempre viveu à revelia de todas as riquezas, um povo que habita casas cobertas de palha, que dorme em esteiras no chão, não deve ser identificado de jeito nenhum como um povo que é o inimigo dos interesses do Brasil, inimigo dos interesses da nação e que coloca em risco qualquer desenvolvimento. O povo indígena tem regado com sangue cada hectare dos oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil, os senhores são testemunhas disso.”
Foi o que ele disse ao discursar pintando seu rosto de tinta preta na tribuna da Constituinte, na Câmara dos Deputados, quando defendia a emenda popular da União das Nações Indígenas (UNI) sobre os direitos da população originária.
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A manifestação teve ampla repercussão na imprensa brasileira e internacional, expandindo a visibilidade das reivindicações dos povos indígenas em um momento decisivo da redemocratização do país.
A imprensa teve uma atuação bastante ativa nas disputas pela inclusão do Capítulo dos Índios no texto da Constituição. Pouco antes do discurso de Ailton, começava uma campanha contra os povos indígenas, que afirmava, entre outras coisas, que os povos originários eram contra os interesses do Estado brasileiro.
O discurso de Ailton veio para desmontar esse argumento. Ao ser questionado sobre a campanha contra os povos indígenas, liderada por parte da imprensa, Ailton afirmou: "Nós ignoramos qualquer iniciativa, nesse sentido, que venha contrariar os interesses do país. Inclusive porque, se há os primeiros filhos desta terra, são os povos indígenas. E não há nada mais estúpido do que afirmar que os povos indígenas vão contrariar os interesses do Brasil. Se o Brasil está ameaçado pelos povos indígenas, então provavelmente não é o Brasil dos brasileiros."*
A campanha contra os povos conseguiu que, do dia pra noite, o chamado “Capítulo dos Índios” fosse excluído. A ferramenta que os povos e aliados encontraram para remontar a discussão e garantir a inclusão do texto foi o abaixo-assinado, que subsidiou uma emenda-popular.
Ailton, como uma das lideranças da União das Nações Indígenas (UNI) e juntamente com representações de diversos povos, participou da articulação desse abaixo-assinado que reuniu mais de 100 mil assinaturas, de ponta a ponta do Brasil, em apoio à inclusão dos direitos dos povos indígenas na nova Constituição Federal.
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Demarcar saberes
O que muita gente não sabe é o que estava acontecendo por trás da fotografia emblemática do discurso. No livro “Subvertendo a gramática e outras crônicas socioambientais”, escrito por Márcio Santilli, presidente do Instituto Socioambiental (ISA), são revelados detalhes deste acontecimento histórico que muitos desconhecem.
No livro, Márcio conta que a intenção inicial de Ailton Krenak era apenas pintar o rosto de preto, em silêncio. No entanto, como os registros oficiais das sessões da Assembleia Nacional Constituinte eram feitos por gravações posteriormente transcritas para o Diário do Congresso, uma manifestação sem palavras ficaria registrada apenas pelas câmeras de televisão. Foi preciso, então, que ele discursasse enquanto realizava o gesto.
Outro desafio era o protocolo do plenário: sem trajes formais, Ailton recebeu emprestados um paletó branco e uma gravata de Márcio, criando o contraste que marcaria a cena. Na ausência do jenipapo ou do urucum, os dois percorreram gabinetes de parlamentares recolhendo pequenas quantidades de máscara de cílios e tinta para sobrancelhas, usadas para compor a pintura. Márcio ainda conta que depois foi impossível usar seu paletó, por conta das manchas de tinta.
No filme “Mapear Mundos”, obra que articula imagens de arquivos indigenistas com testemunhos atuais para rememorar os passos dados por organizações da sociedade civil na luta pelos direitos dos povos originários no Brasil, Beto Ricardo, fundador do ISA, conta sobre o momento do discurso:
“Não tinha ninguém no Congresso, era hora do almoço, estava vazio. A câmera fica no Ailton porque não tem ninguém. Ele tava sozinho, ele fala sozinho. Quer dizer, ele fala sozinho não. Ele criou um gesto de comunicação de mídia que explodiu o mundo inteiro, que não haveria sessão do Congresso que chegaria perto da difusão que essa ideia teve, com aquela imagem de 15 segundos, entendeu?”
Assista ao filme 'Mapear Mundos'
Depois de saber que não havia ninguém na plenária, é ainda mais curioso saber que a imagem de Ailton pintando o rosto na tribuna permanece, até hoje, como um dos símbolos visuais mais notáveis da luta indígena no Brasil. A imagem marcada na memória reforça o poder dos gestos comunicativos, e o modo com que alguns símbolos podem representar e lembrar lutas históricas.
Quase quatro décadas depois, a comunicação indígena segue ocupando um papel central na defesa dos direitos dos povos originários e evidenciando o que há de mais bonito na natureza e em suas culturas e histórias. Agora, comunicadores indígenas mobilizam diversas plataformas e variados formatos para garantir que sejam cada vez mais ouvidos.
Pessoas educadoras, venham conhecer o Kit Didático: "Demarcar saberes: a comunicação indígena nos seus diferentes formatos", que reúne fontes e documentos com propostas de reflexão para apoiar discussões e atividades sobre o assunto em sala de aula!
*MAPEAR MUNDOS. Direção: Mariana Lacerda. Produção: Instituto Socioambiental. Brasil: 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=27NGsnEELwM. Minutagem: 15’20” - 15’45”.
Referências bibliográficas
BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Capítulo VIII, Arts. 231-232. Disponível em: http://camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=469704. Acesso em: 5 maio 2026.
CENTRO ECUMÊNICO DE DOCUMENTAÇÃO E INFORMAÇÃO (CEDI). Povos Indígenas no Brasil 1987/88/89/90. São Paulo: CEDI, 1991.
MAPEAR MUNDOS. Direção: Mariana Lacerda. Produção: Instituto Socioambiental. Brasil: 2024. Disponível em: Filme | Mapear Mundos
RICARDO, Beto; ARNT, Ricardo. Uma enciclopédia nos trópicos: memórias de um socioambientalista. Rio de Janeiro: Zahar, 2024.
SANTILLI, Márcio Santilli. Subvertendo a gramática e outras crônicas socioambientais. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2019. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/publicacoes-isa/subvertendo-gramatica-e-outras-cronicas-socioambientais. Acesso em: 5 maio 2026.
**A série Hoje na História Socioambiental apresenta a riqueza de informações do Acervo do ISA que conta com mais de 250 mil itens catalogados voltados para a temática socioambiental como publicações, livros, teses e dissertações, mapas, notícias, materiais audiovisuais, entre outros. Hoje na História Socioambiental é um convite a reler o Brasil com mais amplitude, sensibilidade e justiça, valorizando a memória e documentação dos diversos povos.
Esta publicação conta com o apoio do Fundo Amazônia e é um produto do projeto "Defesa e Promoção dos Direitos Indígenas no Brasil: Construir Capacidades e Engajar Pessoas por um Futuro mais Justo", realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), com o financiamento da União Europeia.
Este material tem conteúdo de responsabilidade exclusiva da instituição realizadora e não reflete a posição da União Europeia.
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Com a delimitação de três áreas no Amazonas, o governo avança no processo demarcatório de 933 mil hectares no estado; duas delas estão na área de impacto da BR-319
Em 8 de julho, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) oficializou o reconhecimento e delimitação de três novas Terras Indígenas (TIs) no estado do Amazonas, consolidando a proteção de mais de 933 mil hectares, o equivalente a aproximadamente seis vezes a área da cidade de São Paulo.
São elas: Terra Indígena Apurinã do Alto Tupana, em Beruri (AM), do povo Apurinã; Terra Indígena Paiol, Cajual e Palhal, em Manaquiri (AM), dos povos Apurinã e Mura; e a Terra Indígena Kapyra Kanakury, em Pauini (AM), dos povos Apurinã e Jamamadi.
O reconhecimento das TIs aconteceu em um cenário de avanços no asfaltamento da BR-319, rodovia que liga Manaus a Porto Velho e que tem sido apontada como vetor de desmatamento, queimadas, grilagem de terras e abertura de ramais clandestinos.
Seguindo o rito demarcatório, agora as TIs aguardam declaração de suas áreas pelo Ministério da Justiça e, na sequência, a homologação pelo presidente da República.
Ao todo, existem 838 TIs em diferentes fases do processo. 167 estão em identificação, aguardando finalização dos estudos pela Funai; 45 TIs já delimitadas aguardam declaração pelo Ministério da Justiça; 71 TIs já declaradas aguardam a homologação pelo Presidente da República. Até hoje, 540 áreas já passaram por esse longo processo, estando homologadas ou reservadas. Há ainda 15 Reservas Indígenas em processo de regularização.
Até o momento, somam-se 21 TIs identificadas no governo Lula, 20 homologadas e 21 declaradas.
BR-319 e a pressão sobre Terras Indígenas
Duas das TI cujos estudos foram aprovados, a TI Apurinã do Alto Tupana e a TI Paiol, Cajual e Palhal, são adjacentes à via e têm sido impactadas pelo processo de ocupação desordenada impulsionado pelo asfaltamento, segundo os Relatórios Circunstanciados de Identificação e Delimitação (RCID).
A continuidade das obras na rodovia foram anunciadas em maio, em visita do Presidente Lula ao Amazonas. Na ocasião, além de prometer um pacote de medidas para destravar as obras da BR-319, como parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o presidente também reconheceu a sensibilidade da região e garantiu que os investimentos na região seriam feitos com o "maior cuidado ambiental do mundo".
A aprovação do projeto de lei conhecido como “PL da Devastação”, entretanto, vai na contramão da promessa. O enfraquecimento do licenciamento ambiental promovido pela normativa transforma obras como essas em ainda mais pressão sobre territórios indígenas, defendem especialistas.
Ainda, apesar do julgamento de sua inconstitucionalidade, que começou em 12/08, as obras já foram iniciadas seguindo o que determina a nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental (nº 15.190/2025). Isso é, sem consulta aos povos que serão afetados por ela, como determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) da qual o Brasil é signatário.
Ao todo, segundo a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, existem 69 Terras Indígenas na região de influência da BR-319. Essas áreas, mesmo anteriormente, já eram intensamente violadas, como mostraram monitoramentos recentes realizados pelo Observatório da BR-319. Segundo o estudo realizado pela rede de organizações, em 2025, existiam ao menos 2,2 mil quilômetros de estradas ilegais conectadas à BR-319, sendo 1,2 mil em territórios indígenas.
Isso ocorre porque a pavimentação de rodovias impulsiona a estrutura fundiária e o uso da terra em seu entorno e funciona como um vetor para incêndios criminosos, como o que aconteceu no que ficou conhecido como ‘Dia do Fogo’, evento que completou sete anos neste ano. É o que mostra a Nota Técnica Queimadas em Terras Indígenas do ISA, de 2024.
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“Esse dia, que ficou conhecido como Dia do Fogo, foi marcado pela combinação de grandes queimadas, que contribuíram significativamente para o aumento do desmatamento e da destruição de áreas florestais no entorno da BR-163, entre Peixoto Azevedo, no norte do Mato Grosso, e Trairão, no sul do Pará”, explica a Nota Técnica, que aponta também que naquele ano, foram registrados 3.946 focos de calor.
Apesar da comoção, nos anos seguintes, os focos de incêndio na região seguiram aumentando nos entornos das BRs 163, 230 e 319.
“A persistência dos incêndios criminosos é parte dos efeitos deletérios da construção de uma rodovia sem o amparo de um plano de sustentabilidade e sem fiscalização ambiental eficiente”, completa o documento.
A formalização das TIs é vista como uma estratégia para assegurar o modo de vida tradicional frente a essas pressões externas, defende o pesquisador do ISA Tiago Moreira.
“A delimitação dessas TIs traz proteção para que os povos indígenas continuem protegendo a floresta e seu território tradicional. Mas só o avanço do processo demarcatório pode frear o avanço do desmatamento e da grilagem que a BR-319 traz para a região”, finaliza.
Conheça as Terras Indígenas identificadas
A Terra Indígena Apurinã do Alto Tupana, situada no estado do Amazonas, é ocupação tradicional do povo Apurinã. Localizada em Beruri (AM), a TI possui uma área delimitada de 251.388,9111 hectares. Ao todo, foram 22 anos de espera pelo andamento do processo de demarcação, com o primeiro Grupo de Trabalho criado em 2004 e reconstituído em 2024. Segundo o RCID, o povo Apurinã que habita esse território foi intensamente afetado durante o período de exploração das chamadas “drogas do sertão”. Além disso, o relatório também aponta que a população indígena Apurinã sofreu com a atuação de missões religiosas, que promoveram um processo de aldeamento e trabalho compulsórios, conversão religiosa e integração forçadas. Além disso, o relatório aponta ainda uma trajetória marcada por deslocamentos compulsórios e violências contínuas.
A Terra Indígena Paiol, Cajual e Palhal, situada no estado do Amazonas, é de ocupação tradicional dos povos Apurinã e Mura. Localizada em Manaquiri (AM), a TI possui uma área de 114.601,0860 hectares. Ao todo, foram 22 anos de espera pelo andamento do processo de demarcação, com o primeiro Grupo de Trabalho criado em 2004 e reconstituído em 2024. Segundo o RCID, a presença dos Mura na região banhada pelos baixos Rios Madeira, Purus, Solimões e Negro é registrada desde o início do século XVIII, em documentos jesuítas relacionados à instalação dos primeiros aldeamentos da Companhia de Jesus na região do baixo Rio Madeira.
O relatório aponta que os Mura ocuparam tradicionalmente e de maneira contínua a localidade até 1970 e 1972, quando funcionários da então Fundação Nacional do Índio (Funai) levaram para a região um grupo Apurinã originário dos igarapés Peneri e Tacaquiri, que havia deixado a região em meados da década de 1950, em razão dos conflitos provocados pela ocupação e exploração violenta do trabalho nos seringais. Atualmente, o território também está inserido em uma região de intensa pressão sobre as florestas públicas, agravada pelo asfaltamento progressivo da BR-319 e pela ocupação desordenada de áreas públicas não destinadas, como indicam as declarações no Cadastro Ambiental Rural sobrepostas a essas áreas.
A Terra Indígena Kapyra Kanakury, situada no estado do Amazonas, é ocupação tradicional dos povos Apurinã (Aruak) e Jamamadi (Arawá). Localizada em Pauini (AM), a TI possui uma área de 567.606,00 hectares e uma população estimada em 300 pessoas. O Grupo de Trabalho para identificação e delimitação do território foi criado em 2024. Foram dois anos de espera pela conclusão dos estudos.
Segundo o RCID, a região do vale do Rio Purus e seus habitantes permaneceram relativamente isolados do mundo ocidental até meados do século XIX, quando a chegada de trabalhadores de diferentes partes do Brasil provocou profundas transformações no modo de vida das populações indígenas que habitavam a região, entre elas os povos Apurinã e Jamamadi. No caso específico da Terra Indígena Kapyra Kanakury, o relatório registra uma ocupação contínua da área pelas mesmas famílias Apurinã há pelo menos 120 anos. A história oral preservada pelo povo também reconhece na paisagem evidências de uma ocupação ainda mais antiga, que ultrapassa o período alcançado pela memória das famílias.
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A instituição atuou como uma prisão para pessoas indígenas consideradas como ‘risco’ à integridade do Estado brasileiro, à época, comandado por militares
Atenção: a nota e os documentos utilizados apresentam conteúdos sensíveis sobre graves violações de direitos humanos e violência contra povos indígenas.
Em novembro de 1969, a ditadura militar recrutou forçosamente, em Minas Gerais, indígenas para compor a primeira turma do curso de formação da Guarda Rural Indígena, a GRIN. A Guarda era uma milícia, criada pelo regime, e composta por indígenas de diversas etnias, treinados para vigiar e reprimir outros indígenas que tivessem comportamentos considerados inadequados.
Veja documentário abaixo
A GRIN era uma das faces da militarização da chamada “questão indígena”, que inclusive atuava como forma de incorporar os povos às forças armadas. O idealizador da GRIN, o capitão Manoel dos Santos Pinheiro, assumiu a frente da prisão indígena naquela região, chamada Reformatório Krenak, também criada em 1969, na área do posto indígena Guido Marlière, no Rio Doce, em Resplendor (MG).
Em jornais da época, o Capitão Pinheiro assumiu:
“Fui eu quem criou a Grin e idealizou [o reformatório] Krenak. [...] Tratei logo de prender os índios que lideravam o movimento e fui pouco a pouco restabelecendo a paz no local. Meu trabalho foi considerado excelente e assim fui convidado pela presidência da Funai para trabalhar com os índios de Minas Gerais.”*
Na época, o número exato da população indígena no Brasil era desconhecido pelo Estado. Estimava-se entre 70 a 110 mil, contando apenas indígenas “aldeados”, que eram aqueles que estavam em terras demarcadas oficialmente pelo Estado, desconsiderando assim outros milhares de indígenas fora desses territórios.
Nesse momento, a frase “Terras demais para poucos índios” virou justificativa para remover pessoas de seus territórios de origem, perseguir povos indígenas e acabar com os poucos direitos que tinham.
Como acreditava-se que a população indígena era tão pequena que um dia ela desapareceria, outra forma de “tratar” essas pessoas era fazendo uma espécie de “educação”, o que conhecemos hoje como etnocídio, em que o objetivo principal era fazer com que deixassem de parecer indígenas, e se assimilassem com a população não indígena. Dessa forma, as pessoas indígenas que não se parecessem com brancos eram considerados selvagens, rebeldes, arredios, entre muitas outras “categorias” utilizadas para justificar a prática dessas e outras violências.
O Reformatório Krenak foi criado, portanto, na tentativa de concretizar a remoção das populações indígenas dos territórios de interesse do agronegócio e/ou mineração, principalmente na região do Rio Doce, e com isso foi destinado para os indígenas que fossem considerados “rebeldes” na ótica do Estado, seja contrariando suas imposições, seja pelo não cumprimento de qualquer ordem policial. No fim das contas, eles eram perseguidos por estarem em suas próprias terras.
Ao mesmo tempo, o Reformatório representou uma violência coletiva contra o povo Krenak, uma vez que foi instalado em suas terras, comprometendo suas formas de vida, sua autonomia e suas relações com seu território tradicional. Além disso, o Reformatório tornou-se um laboratório para a aplicação e o aperfeiçoamento de técnicas de repressão e tortura posteriormente utilizadas de forma mais ampla pela ditadura, inclusive contra não indígenas.
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Para “reeducar”, os procedimentos se basearam em tortura, trabalho e aculturação forçada, proibindo que os indígenas falassem suas línguas, usassem suas indumentárias e praticassem seus costumes. Apesar do nome da prisão, outros povos, para além do povo Krenak, sofreram com a sua instalação.
Segundo o relatório da Comissão Nacional da Verdade, o reformatório tinha como aprisionados:
22 Karajá, 17 Terena, 13 Maxacali, 11 Pataxó, nove Krenak, oito Kadiweu, oito Xerente, seis Kaiowá, quatro Bororo, três Krahô, três Guarani, dois Pankararu, dois Guajajara, dois Canela, dois Fulniô e um Kaingang, Urubu, Campa, Xavante, Xakriabá, Tupinikim, Sateré-Mawé, Javaé, além de um não identificado, porém, o número de índios presos na ditadura militar pode ser maior.**
Assista à videorreportagem “Reformatório Krenak”
O Reformatório Krenak funcionou entre os anos 1969 e 1972. Com sua desativação, parte dos prisioneiros foi transferida para a Fazenda Guarani, também em Minas Gerais, onde as violações de direitos continuaram até o final da ditadura.
Em 19 de outubro de 2021, a 14ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária de Minas Gerais julgou a Ação Civil Pública nº 0064483-95.2015.4.01.3800*** e reconheceu as graves violações de direitos humanos cometidas contra o povo Krenak durante a ditadura militar.
A ação, proposta pelo Ministério Público Federal, solicitava, entre outros pontos, pedido público de desculpas, recuperação ambiental das terras esbulhadas, tradução de documentos fundamentais para a língua Krenak, entrega de registros oficiais da ditadura, inclusão do tema nas escolas, preservação da língua e da cultura, além da conclusão da demarcação da Terra Indígena Krenak de Sete Salões e o reconhecimento da responsabilidade de Manoel dos Santos Pinheiro, o “Capitão Pinheiro”, pelos crimes cometidos; embora ele tenha falecido antes de ser julgado.
Somente em 2024, mais de 40 anos depois do fim da ditadura, o povo Krenak, junto com o povo Guarani Kaiowá, recebeu o pedido de desculpas formal do Estado brasileiro, concedido no dia 02 de abril daquele ano pela Comissão de Anistia, órgão ligado ao Ministério dos Direitos Humanos. Tornaram-se assim os primeiros anistiados políticos coletivos da história do Brasil, devido às violências sofridas por eles durante o período ditatorial no país.
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Memória coletiva e resistência cultural
Resistir frente a graves violações de direitos humanos é um ato de coragem e complexidade. A ideia estrita de resistência como apenas resistência armada é colonial. Apesar de o povo Krenak ter travado um longo embate contra o Estado brasileiro por séculos, tendo como momento emblemático as chamadas Guerras Justas de 1808 – que podem ser entendidas como um extermínio promovido pelo Estado e a retomada legal da escravização indígena –, houve outros tipos de resistência na contemporaneidade.
A resistência cultural e política pós-ditadura foi um marco importante para a própria redemocratização do país e também para a memória coletiva da comunidade Krenak.
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A partir da relatoria de Maíra Pankararu, no livro Demarcar é Reparar: Povos Indígenas e Justiça de Transição, Shirley Krenak, cujo pai foi levado para o Reformatório Krenak, afirma que a memória da perseguição vivida por uma pessoa não é apenas individual, mas também coletiva. Para ela, a história de sua família pertence igualmente ao povo Krenak, aos demais povos indígenas e à sociedade brasileira como um todo.
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Nesse sentido, as memórias do povo Krenak evidenciam como a ditadura militar foi marcada por graves violações de direitos e por uma política sistemática de violência também contra os povos indígenas, reforçando a necessidade de reconhecer, preservar e difundir essas histórias como parte da construção da verdade, da justiça, da reparação e da não repetição.
Foi a partir da compreensão de que preservar e difundir a memória indígena é também enfrentar os silenciamentos produzidos pela violência de Estado que o Kit Didático: Que formato tem a memória dos povos indígenas? Documentos históricos, relatos orais, e outras fontes para construir memórias coletivas foi desenvolvido para usos em sala de aula e já está disponível no Acervo do ISA. Por meio de documentos históricos, relatos orais, produções audiovisuais e outros registros, o material convida estudantes e educadores a refletirem sobre as violações de direitos cometidas durante a ditadura militar, o papel da memória na construção da verdade histórica e a resistência dos povos indígenas diante das políticas de repressão.
Pessoas educadoras, venham conhecer o kit didático que reúne fontes e documentos com propostas de reflexão para apoiar discussões e atividades sobre o assunto em sala de aula!
*Jornal do Brasil (Rio de Janeiro, Primeiro Caderno, p. 30, 27 ago. 1972), citado em: CORRÊA, José Gabriel Silveira. A proteção que faltava: O Reformatório Agrícola Indígena Krenak e a administração estatal dos índios. Arquivos do Museu Nacional: Rio de Janeiro, v. 61, n. 2, abr./jun. 2003, p. 129-146.
**BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório: textos temáticos. Brasília, 2014, p. 244. Disponível em: http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/. Acesso em: 21 maio 2025.
***MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. Ação Civil Pública: Reformatório Krenak. Disponível em: https://justicadetransicao.mpf.mp.br/documentos-1/sentenca-caso-krenak.pdf. Acesso em: 25 set. 2025.
Referências bibliográficas
AZOLA, Fabiano André Atenas. A Guerra dita Justa que nunca acabou: uma contra-história Krenak. Dissertação de Mestrado. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021.
BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório: textos temáticos. Brasília, 2014a. Disponível em: http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/. Acesso em: 05 jun. 2024.
BRASIL. Ministério do Interior. Relatório Figueiredo, 1968. Disponível em: https://www.ufmg.br/brasildoc/temas/5-ditadura-militar-e-populacoes-indigenas/5-1-ministerio-do-interior-relatorio-figueiredo/. Acesso em: 18 maio 2024.
MINAS GERAIS, , Relatório da Comissão da Verdade do Estado de Minas Gerais, Comissão da Verdade de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/memoriasreveladas/pt-br/assuntos/comissoes-da-verdade/estaduais/comisso-da-verdade-em-minas-gerais_relatrio-final_2017-compressed.pdf. Acesso em: 8 jun. 2024.
ITAÚ CULTURAL. Reformatório Krenak. [Vídeo]. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Qpx8nKVXOAo&t=445s. Acesso em: 15 abr. 2024.
KRENAK, Ailton. Antes, o mundo não existia. In: NOVAES, Adauto (org.). Tempo e história. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
_______________. Ideias para adiar o Fim do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
MATTOS, Izabel Missagia. "Civilização" e "Revolta" : povos botocudos e indigenismo missionário na província de Minas. Campinas : Unicamp, 2002.
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. Ação Civil Pública: Reformatório Krenak. Disponível em: file:///C:/Users/brend_960vh7n/Downloads/ACP%20Reformatório%20Krenak.pdf. Acesso em: 12 abr. 2024.
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL (MPF), Informe Ação civil pública com pedido de antecipação de tutela, no 64483-95.2015.4.01.3800 de 10.12.15. Disponível em: http://www.mpf.mp.br/mg/sala-de-imprensa/docs/acp-reformatorio-krenak.pdf. Acesso em: 12 abr. 2024
MONTEIRO, John Manuel. Tupis, Tapuias e historiadores: estudos de História Indígena e do Indigenismo. Tese de livre docência, Unicamp, Campinas, 2001.
MOREIRA, Vânia Maria Losada. 1808: a guerra contra os botocudos e a recomposição do império português nos trópicos. In: CARDOSO, José Luis; MONTEIRO, Nuno Gonçalo; SERRÃO, José Vicente (Orgs.). Portugal, Brasil e a Europa Napoleônica. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2010
MOREL, MARCO. A saga dos Botocudos: Guerra, imagem e resistência indígena. São Paulo: Hucitec Editora, 2018.
OKUBO, Brenda. História e memória do passado Krenak: levantamento de fontes sobre violência e resistência indígena no pós-ditadura (1988-2024). São Paulo, 2024.
RIBEIRO, Darcy. Os índios e a civilização: a integração das populações indígenas no Brasil moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
TV Cultura. Krenak, Uma História de Resistência [Vídeo]. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=HTo8PHpcTAE. Acesso em: 21 jul. 2026.
VALENTE, Rubens. Os fuzis e as flechas: história de sangue e resistência indígena na ditadura. 1 ed. São Paulo: Cia das Letras, 2017.
ZEMA, Ana Catarina. (Org.). Demarcar é reparar: olhar indígena sobre a justiça de transição no Brasil. 1. ed. São Paulo, SP: Instituto de Políticas Relacionais, 2023.
***A série Hoje na História Socioambiental apresenta a riqueza de informações do Acervo do ISA que conta com mais de 250 mil itens catalogados voltados para a temática socioambiental como publicações, livros, teses e dissertações, mapas, notícias, materiais audiovisuais, entre outros. Hoje na História Socioambiental é um convite a reler o Brasil com mais amplitude, sensibilidade e justiça, valorizando a memória e documentação dos diversos povos.
Esta publicação conta com o apoio do Fundo Amazônia e é um produto do projeto "Defesa e Promoção dos Direitos Indígenas no Brasil: Construir Capacidades e Engajar Pessoas por um Futuro mais Justo", realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), com o financiamento da União Europeia.
Este material tem conteúdo de responsabilidade exclusiva da instituição realizadora e não reflete a posição da União Europeia.
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As lideranças Kerexu Laudiceia Benites e Karaí Tiago, seus dois filhos e outros três moradores da aldeia Kalipety, na Terra Indígena Tenondé Porã (SP), foram vitimados por uma carreta em rodovia de Mato Grosso do Sul
*Atualizada às 8:05 do dia 18/08 para acréscimo de informações.
O Instituto Socioambiental (ISA) expressa a mais profunda consternação pelo falecimento de sete indígenas Guarani, entre eles lideranças e crianças, em trágico acidente provocado por uma carreta carregada de grãos na noite de sexta-feira (14/08) em Mato Grosso do Sul.
A colisão da carreta de grãos com o veículo de passeio ocupado pelos indígenas ocorreu na rodovia MS-180, próximo à Terra Indígena Yvy Katu, entre os municípios de Iguatemi e Japorã, no extremo sul do estado. A caminho da Terra Indígena Cerrito, o grupo era composto por lideranças e moradores da aldeia Kalipety, na Terra Indígena Tenondé Porã, em São Paulo (SP), que faziam um intercâmbio de sementes e saberes tradicionais por diferentes comunidades.
Entre as vítimas estavam as lideranças Karaí Tiago Honório dos Santos (Tiago Karai), de 34 anos, que foi coordenador executivo da Comissão Guarani Yvyrupa (CGY) e do Comitê Interaldeias e Kerexu Laudiceia Benites, de 31 anos, liderança da aldeia Kalipety, estudiosa de remédios tradicionais e sua companheira. Seus filhos Jaxuka Luna Benites Santos, de 7 anos, e Tadeu Hiago Werá Mirim Benites dos Santos, de 14 anos, também faleceram.
A colisão vitimou ainda Kerexu Cleonice Honório dos Santos, de 42 anos, liderança e irmã de Tiago, e outros dois jovens de grande importância para as comunidades: Ileo Benites, de 30 anos, e Genilson Euzébio Karay Mirim, de 32 anos.
As lideranças integravam o Coletivo de Lideranças da TI Tenondé Porã e foram atores chave no processo de demarcação da área e no fortalecimento das práticas culturais e socioambientais do povo Guarani. No âmbito municipal, Karaí Tiago liderou as mobilizações pelo #CinturãoVerdeGuarani, baseado nas ações de e recuperação ambiental, gestão territorial e da agrobiodiversidade das Terras Indígenas na capital paulista. Ele e Laudicéia eram também cantadores e seu grupo familiar mantinha uma das casas de rezas da Aldeia Kalipety.
Neste contexto, há cerca de um ano, Kerexu Cleonice, Laudiceia e outras mulheres de sua família tiveram um importante papel na articulação para a recepção de Ehuana Yanomami, liderança, pesquisadora e artista plástica, para intercâmbio e troca de saberes na aldeia Kalipety.
Karaí Tiago esteve à frente ainda da constituição do Comitê Interaldeias, organização indígena criada em resposta aos impactos socioambientais da duplicação de ferrovia que corta as TIs Tenondé Porã, Rio Branco, Tekoa Mirim, Guarani do Aguapeú e Itaóca.
O ISA oferece suas mais sinceras condolências às famílias, amigos das vítimas e ao povo Guarani – em especial à Comissão Guarani Yvyrupa, ao Comitê Interaldeias e às comunidades da Terra Indígena Tenondé Porã. Sublinhamos também a importância de uma apuração célere e rigorosa pelas autoridades competentes sobre as circunstâncias do ocorrido.
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